PSICOLOGIA ANALÍTICA

Muito mais que um beijo

MUITO MAIS QUE UM BEIJO

O toque dos lábios desencadeia a liberação de substâncias químicas ligadas à estimulação sexual e às interações sociais; o mais curioso, porém, é que este gesto também transmite ao parceiro informações sobre o DNA.

 Nos momentos de intensa paixão o beijo na boca prende duas pessoas numa troca de cheiros, sabores, toques, segredos e emoções. Beijamos lascivamente, de modo gentil, tímido, faminto, intenso, furtivo. Em plena luz do dia e na calada da noite. Damos beijos cerimoniosos, afáveis, polidos, de rostos que não se tocam; a literatura e a história registram beijos da morte e, ao menos nos contos de fada, beijocas fazem princesas reviver.

Do ponto de vista da ciência, os lábios podem ter evoluído primeiro para favorecer a alimentação e, mais tarde, para a fala, mas no beijo eles satisfazem tipos diferentes de apetite. No corpo, o toque dos lábios ativa uma sucessão de mensagens neurais e químicas que transmitem sensações táteis e excitação sexual, e desperta sentimentos de intimidade, motivação e até euforia.

Nem todas as mensagens são internas. A fusão de dois corpos transmite sinais intensos passíveis de serem reconhecidos tanto pela própria pessoa quanto pelo parceiro ou parceira. Beijos podem, inclusive, enviar informações significativas sobre as condições presentes e futuras de uma relação amorosa. Muitos psicólogos especializados em terapia de casais garantem que, se o primeiro beijo não for considerado agradável e prazeroso para os dois envolvidos, dificilmente o relacionamento evoluirá.

Alguns cientistas acreditam que a união dos lábios evoluiu porque facilita a seleção de parceiros. “O beijo envolve uma troca bem complicada de informações – olfativa, tátil e ajustes de postura – que costuma acionar mecanismos neurológicos sofisticados e também inconscientes, permitindo às pessoas determinar subjetivamente até que grau elas são geneticamente incompatíveis”, afirma o psicólogo evolucionista Gordon G. Gallup, professor da Universidade de Albany e da Universidade do Estado de Nova York. Beijar pode ainda revelar até que ponto o outro está disposto a se comprometer na relação. Esse comprometimento significa, em alguns casos, a predisposição para estabelecer parcerias, aprofundar o grau de confiança e até mesmo a intenção de criar filhos – uma questão central em relacionamentos de longo prazo e crucial para a sobrevivência da espécie.

 MENSAGEIRO SILENCIOSO

Independentemente do que mais esteja acontecendo quando beijamos, nossa história evolucionária está incorporada nesse ato terno e tempestuoso. Nos anos 60, o zoólogo e escritor britânico Desmond Morris sugeriu, pela primeira vez, que o beijo pode ter evoluído da prática de algumas mães primatas de mastigar a comida para seus filhotes e alimentá-los boca a boca, com os lábios comprimidos. Os chimpanzés se alimentam dessa maneira, e nossos ancestrais hominídeos, provavelmente, também o faziam. A pressão de lábio contra lábio evoluiu posteriormente para uma forma de confortar crianças famintas em períodos de escassez de comida e, com o tempo, derivou para um modo de expressar amor e afeição. A espécie humana levou esses beijos protoparentais por outros caminhos, até criar as variedades mais apaixonadas que temos hoje.

Mensageiros químicos silenciosos chamados feromônios podem ter acelerado a evolução do beijo “íntimo”. Muitos animais e plantas usam os feromônios para se comunicar com outros membros da mesma espécie. Insetos, em particular, são conhecidos por emitir a substância como um alarme, para sinalizar, por exemplo, a presença de alimento ou a atração sexual. Se os seres humanos detectam feromônios ou não – e com que precisão isso aconteceria – é assunto controverso. Diferentemente de ratos ou porcos, não temos um detector de feromônios “especializado”, o órgão vomeronasal, entre o nariz e a boca.

No entanto, a bióloga Sarah Woodley, da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, sugere que podemos captar feromônios pelo sistema olfativo. Segundo ela, a comunicação química inconsciente explicaria descobertas curiosas, como a tendência de os ciclos menstruais de mulheres que convivem de forma muito próxima, como companheiras de dormitório, se sincronizarem, ou como a atração das mulheres pelo cheiro da camiseta usada por homens cujo sistema imunológico é geneticamente compatível com o delas. Feromônios humanos podem incluir androstenol (componente químico do suor masculino que, para algumas mulheres, amplia a excitação sexual) e hormônios vaginais femininos chamados copulinas (que aumentam os níveis de testosterona e o apetite sexual dos homens). Se os feromônios realmente representam um papel na procriação humana, então beijar seria uma maneira extremamente eficiente de transmiti-los.

Podemos também ter herdado o beijo íntimo de nossos ancestrais primatas. Bonobos, que são geneticamente muito semelhantes a nós (embora não sejamos seus descendentes diretos), são especialmente apaixonados. O primatólogo Frans B. M. de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia, lembra-se de um guarda de zoológico que aceitou de um bonobo o que ele achava que seria um beijo amigável, até sentir a língua do macaco em sua boca!

Os lábios humanos têm a camada mais fina de pele do corpo humano e estão entre as áreas corporais em que se encontram as maiores concentrações de receptores e transmissores sensoriais. Quando beijamos, as células da língua e de outras regiões da boca disparam mensagens para o cérebro e para o corpo, provocando emoções e reações físicas intensas.

Dos 12 ou 13 nervos cranianos que afetam a função cerebral, cinco estão em ação quando beijamos, carregando mensagens de nossos lábios, língua, bochechas e nariz para o cérebro – que capta informações sobre temperatura, sabor, cheiro e movimentos de toda a situação. Parte dessa informação chega ao córtex somatossensorial, faixa de tecido na superfície cerebral que representa a informação tátil no mapa do corpo. Nessa representação os lábios aparecem desproporcionalmente grandes em relação ao tamanho real porque cada região do corpo aparece de acordo com a densidade de suas terminações neurais.

Beijar desencadeia um coquetel de substâncias químicas que governam o estresse, a motivação, as relações sociais e a estimulação sexual. Em um novo estudo, a psicóloga Wendy L. Hill e sua aluna Carey A. Wilson, do Lafayette College, compararam os níveis de oxitocina e cortisol, dois hormônios-chave, em 15 casais heterossexuais antes e depois de eles se beijarem e antes e depois de conversarem de mãos dadas. A oxitocina está ligada às relações sociais e o cortisol é considerado o hormônio do estresse. Hill e Wilson supunham que beijar ampliaria os níveis do primeiro hormônio, que influencia também o reconhecimento social, o orgasmo e o parto. Elas esperavam que esse efeito fosse particularmente pronunciado nas mulheres participantes do estudo que relataram um grau maior de intimidade em seus relacionamentos. Também previam uma queda no cortisol, porque, presumivelmente, beijar aliviaria o estresse.

 BARÔMETRO EMOCIONAL

As pesquisadoras, porém, se surpreenderam ao descobrir que os níveis de oxitocina aumentaram apenas nos homens e diminuíram nas mulheres, tanto depois de beijar quanto ao conversar de mãos dadas. Concluíram, então, que elas precisam bem mais do que um beijo para se sentir ligadas emocionalmente ou excitadas sexualmente durante o contato físico. As autoras inferiram que as mulheres podem, por exemplo, precisar de uma atmosfera mais romântica. Mas, de fato, uma suspeita das pesquisadoras se confirmou: o estudo reportado por Hill e Wilson, em novembro de 2007 na reunião anual da Sociedade para a Neurociência, em Nova Orleans, revelou que os níveis de cortisol caíam para ambos os sexos, não importando a forma de intimidade, o que indica que o beijo realmente reduz o estresse.

Na medida em que o beijo está ligado à afetividade, pode aumentar a produção de substâncias químicas do cérebro associadas ao prazer, à euforia e à motivação para estabelecer ligações específicas. A antropóloga Helen Fisher e colaboradores da Universidade Rutgers registraram, por meio de tomografias do cérebro, a reação de 17 voluntários enquanto olhavam para fotos de pessoas pelas quais diziam estar profundamente apaixonados. Os pesquisadores descobriram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais que governam o prazer, a motivação e a recompensa: a área tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito. Drogas como a cocaína estimulam de maneira semelhante esses centros de recompensa, por meio da liberação do neurotransmissor dopamina. Uma primeira conclusão seria, então, a de que o amor funciona, para humanos, como um tipo de droga. E o beijo evoca reações primais. Pode aumentar a pulsação e a pressão sanguínea; as pupilas se dilatam; a respiração fica mais profunda e o pensamento racional recua. Assim como o desejo, o ato de beijar suprime (ou pelo menos torna mais tênue) a prudência e a inibição. Durante um beijo a maioria das pessoas fica, provavelmente, encantada demais para se importar com isso. Talvez o superego (instância psíquica proposta por Sigmund Freud, guardiã das normas e proibições que aprendemos e adotamos) seja solúvel em beijos.

Pode mesmo um beijo ser algo tão poderoso? Algumas pesquisas indicam que sim. Num levantamento recente, Gallup e seus colaboradores descobriram que 59% de 58 homens e 66% de 122 mulheres admitiram que houve ocasiões em que, embora estivessem atraídos por alguém, o interesse logo sumiu depois do primeiro beijo. Os beijos “ruins” não tinham nenhuma falha específica; simplesmente não passavam a “sensação certa”. Resultado: deflagravam o fim do romance.

Gallup também acredita que o beijo carrega tal peso porque transmite informações subconscientes sobre a compatibilidade genética de um possível companheiro. Sua hipótese é consistente com a ideia de que ele evoluiu como uma estratégia de acasalamento que ajuda a avaliar potenciais parceiros.

Da perspectiva darwiniana, a seleção sexual é a chave para a transmissão dos genes. Para nós, humanos, a escolha do parceiro frequentemente implica apaixonar-se. Fisher escreveu em seu artigo de 2005 que o “mecanismo de atração nos humanos evoluiu para permitir aos indivíduos concentrar sua energia de acasalamento em pessoas específicas, o que facilita a escolha do parceiro – e satisfaz um aspecto primário da reprodução”.

Com base em descobertas recentes, Gallup argumenta que o beijo desempenha um papel crucial na progressão de um relacionamento, mas de forma diversa para homens e mulheres. Num estudo – que teve os resultados publicados – ele e seus colaboradores entrevistaram 1.041 universitários de ambos os sexos a respeito do beijo. Para a maioria dos rapazes ouvidos, acariciar a boca da outra pessoa com a língua é uma maneira de avançar no relacionamento sexual. Para os pesquisadores, porém, o ato serve para conduzir o casal ao próximo nível emocional e para avaliar não apenas se a outra pessoa seria uma fonte excelente de DNA, mas um bom parceiro a longo prazo. O encontro dos lábios é, portanto, um tipo de barômetro emocional: quanto mais entusiasmado, mais saudável é o relacionamento.

Como as mulheres têm menores possibilidades biológicas de perpetuar seus genes, já que necessitam investir mais energia para ter filhos, é fundamental que sejam mais criteriosas na escolha de seus parceiros – e não podem se permitir muitos equívocos. Dentro dessa lógica evolucionista, quanto mais apaixonado o beijo, maior a chance de o parceiro ser um bom companheiro não só para a procriação – mas suficientemente comprometido também para ficar por perto e criá-los. Por outro lado, o beijo talvez não seja tão necessário do ponto de vista evolutivo. Afinal, a maioria dos animais não se beija e, mesmo assim, produz muitas crias. E nem todos os humanos beijam. Na virada do século 20, o cientista dinamarquês Kristoffer Nyrop descreveu tribos finlandesas cujos membros se banhavam juntos, mas consideravam o beijo indecente. Em 1897, o antropólogo francês Paul d’Enjoy relatou que os chineses consideravam o toque das bocas tão horrendo quanto é o canibalismo para a maioria das pessoas. Na Mongólia, por exemplo, é raro que os pais beijem seus filhos em vez disso, cheiram a cabeça dos pequenos. O pioneiro da etologia humana Irenäus Eibl-Eibesfeldt escreveu em seu livro de 1970 Love and hate: the Natural History of behavior patterns (Amor e ódio: história natural dos padrões elementares do comportamento), considerado um clássico, que pelo menos 10% da humanidade não beija.

 INCLINAÇÃO À DIREITA

O psicólogo Onur Güntürkün, da Universidade Ruhr, de Bochum, Alemanha, realizou recentemente uma pesquisa curiosa. Observou 124 casais enquanto se beijavam em lugares públicos dos Estados Unidos, Alemanha e Turquia e constatou que eles tombavam levemente a cabeça para a direita com o dobro de frequência do que para a esquerda antes de seus lábios se tocarem. Güntürkün suspeita que os beijos inclinados para a direita resultem de uma preferência geral desenvolvida no final da gestação e na primeira infância. Essa “assimetria” é relacionada à lateralização das funções cerebrais, tais como a fala e a percepção espacial.

A educação e a cultura também podem influenciar essa tendência de curvar-se para a direita. Estudos mostram que até 80% das mães, quer sejam destras, quer sejam canhotas, acalentam do lado esquerdo seus bebês. Bebês aninhados com o rosto para cima, à esquerda, viram-se para a direita para ser amamentados ou se aconchegar. Como resultado, a maioria de nós pode ter aprendido a associar calor e segurança com o inclinar para a direita.

Alguns cientistas propuseram que aqueles que viram a cabeça para a esquerda quando beijam podem estar mostrando menos afeto do os que o fazem para o lado oposto. Um estudo realizado pelo naturalista Julian Greenwood e seus colaboradores da Universidade Stranmillis College, em Belfast, na Irlanda, contrapõe essa ideia. Os pesquisadores constataram que 77% de 240 graduandos inclinavam a cabeça para a direita quando beijavam uma boneca na bochecha ou nos lábios. Curvar-se para a direita com uma boneca, ato que não denota emoção, foi quase tão predominante entre os participantes como entre os 125 casais observados enquanto se beijavam em Belfast que se inclinaram para a direita em 80% das vezes. A conclusão: beijar inclinado para a direita provavelmente resulta de uma facilidade motora, como Güntürkün sugeriu – e não de uma preferência emocional.

Muito mais que um beijo2 

HOMÚNCULO SENSORIAL: O MAPA DO CORPO

Informação tátil da pele chega ao córtex somatossensorial primário do cérebro, que contém um mapa distorcido do corpo chamado “homúnculo sensorial”.

Nesta representação, os lábios são desproporcionalmente grandes porque têm uma enorme concentração de receptores sensoriais e, portanto, são muito sensíveis ao toque.

 Muito mais que um beijo3

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 299

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

2 comentários em “PSICOLOGIA ANALÍTICA”

    1. Sou apaixonado por Psicologia…Acho que, quando conhecemos melhor a nós mesmos e aquilo que nos cerca, fica mais fácil entendermos e a Psicologia Analítica não só nos ensina a entender a ciência da alma como compreendermos situações que vivemos e que, por medo, tememos falar à respeito e não sermos compreendidos…Daí meu apego por certos assuntos que considero interessante para mim e para àqueles que têm afinidades idênticas….Graça e Paz

      Curtido por 1 pessoa

Os comentários estão encerrados.