ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 1-4

O Leproso Curado

O primeiro versículo refere-se ao final do sermão anterior: as pessoas que o ouviram “ficaram maravilhadas da sua doutrina”; e o efeito foi que quando Ele desceu do monte, “seguiu-o uma grande multidão”. Embora Ele fosse um Legislador tão rígido e um Admoestador tão preciso, eles diligentemente se aglomeravam em volta dele, e se recusavam a se dispersar e afastar-se dele. Note que aqueles a quem Cristo se manifestou não podem deixar de desejar estar mais familiarizados com Ele. Aqueles que sabem bastante sobre Cristo, deveriam desejar saber mais: “Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor”. É gratificante ver pessoas tão apegadas a Cristo, a ponto de pensar que elas nunca conseguem saber o suficiente a respeito dele; tão apegadas às melhores coisas, a ponto de se congregar depois de um bom sermão, e seguir o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Agora a profecia de Jacó relativa ao Messias foi cumprida: ”A ele se congregarão os povos”; até mesmo aqueles que se juntaram a Ele e não foram fiéis a Ele. Aqueles que o seguiam constantemente de perto eram poucos, comparados com as multidões que nada mais eram do que seguidores à distância.

Nesses versículos, nós temos um relato da purificação de um leproso por Cristo. Pode parecer, comparando com Marcos 1.40 e Lucas 5.12, que este parágrafo, embora colocado por Mateus depois do sermão da montanha (pois ele faz primeiro um relato da doutrina de Cristo, e depois de seus milagres), tenha acontecido algum tempo antes; mas isso não é, de modo algum, importante. Isto é apropriadamente relatado como o primeiro dos milagres de Cristo:

  1. Porque a lepra era considerada, entre os judeus, como um sinal do descontentamento de Deus; consequentemente, encontramos Miriam, Geazi e Uzias, castigados com lepra por algum pecado em particular; e, portanto, Cristo, para mostrar que veio para afastar a ira de Deus, ao remover o pecado, começou com a cura de um leproso.
  2. Porque essa doença, como se supunha vir diretamente da mão de Deus, supunha-se também ser removida diretamente por sua mão, e então não se tentava curá-la através dos médicos, mas ela era colocada sob a inspeção dos sacerdotes, ministros do Senhor, que aguardavam para ver o que Deus iria fazer. E o fato da sua existência estar ligada a uma roupa, ou às paredes de uma casa, era completamente sobrenatural – e deveria parecer ser uma enfermidade de uma natureza totalmente diferente do que agora chamamos lepra. O rei de Israel disse: “Sou eu Deus, para matar e para vivificar; para que este envie a mim, para eu restaurar a um homem da sua lepra?” (2 Reis 5.7). Cristo provou ser Deus, ao curar muitos leprosos, e ao autorizar seus discípulos, em seu nome, a também fazer o mesmo (cap. 10.8), e isso é colocado entre as provas de que Ele é o Messias (cap. 11.5). Ele mostrou ser, Ele mesmo, o Redentor dos pecados de seu povo; porquanto cada doença tanto é fruto do pecado, como também um símbolo deste, como uma doença da alma. Ainda assim, a lepra era considerada de uma forma especial; pois ela contaminava de tal forma, que obrigava a uma separação das coisas sagradas, como nenhuma outra fazia; e, portanto, nas leis relativas a ela (Levíticos 13 e 14), a lepra é tratada, não como uma doença, mas como uma impureza; o sacerdote declararia a pessoa pura ou impura, de acordo com os sintomas; mas a honra de purificar os leprosos foi reservada a Cristo, que o faria como o “Sumo Sacerdote da nossa confissão”. Ele veio para fazer aquilo “que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne” (Romanos 8.3). A lei revelava o pecado (pois através da lei se conhece o pecado) e declarava os pecadores impuros; isso os encerrava (Gálatas 3.23), como o sacerdote fazia com o leproso, mas não podia ir além disso; a lei não podia aperfeiçoar os que a eles se chegavam (Hebreus 10.1). Mas Cristo tira o pecado. Ele purifica e aperfeiçoa para sempre os que são santificados. Aqui nós temos:

I – Como o leproso se dirige a Cristo. Considerando que isso aconteceu, como entendemos que está estabelecido aqui, depois do sermão na montanha, nós podemos supor que o leproso, embora impedido de entrar nas cidades de Israel devido à sua doença, mesmo assim estava a uma distância em que podia ouvir o sermão, e por meio dele foi encorajado a fazer o seu apelo a Cristo; pois aquele que falava corno tendo autoridade, podia curá-lo de longe; e então ele veio e o adorou. Seu apelo foi: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”. A purificação deste leproso pode ser considerada:

  1. Como uma misericórdia temporal; uma misericórdia para o corpo, livrando-o de uma doença, que, embora não ameaçasse a vida, a amargurava. E assim isso nos leva não apenas a recorrer a Cristo, que tem poder sobre doenças corporais para curá-las, mas também nos ensina de que maneira devemos recorrer a Ele: com a garantia de seu poder, crendo que Ele é capaz de curar doenças agora, com o fazia quando estava na terra, mas mediante a nossa submissão à sua vontade: “Senhor, se quiseres, podes”. No que se refere às misericórdias terrenas ou temporais, nós não podemos estar sempre tão certos da vontade de Deus em concedê-las, como estamos de seu poder, pois seu poder nelas é ilimitado e está relacionado à sua glória e ao nosso bem – embora não possamos estar certos de sua vontade, nós podemos estar seguros de sua sabedoria e misericórdia, às quais podemos animadamente recorrer. “Seja feita a tua vontade”. Isso torna a espera tranquila, e os acontecimentos confortáveis. Devemos sempre confiar e pedir ao Senhor tudo o que precisarmos, pois Ele sempre nos abençoará.
  2. Como uma misericórdia típica. O pecado é a lepra da alma; ela nos exclui da comunhão com Deus, para a qual, a fim de que possamos ser reconduzidos, é necessário que sejamos purificados dessa lepra – e essa deveria ser nossa grande preocupação. Agora observe que é nosso consolo quando recorremos a Cristo, como o grande Médico, que se Ele quiser, Ele pode nos purificar; e nós deveríamos, com humilde e confiante ousadia, ir a Ele e dizer-lhe isso. Ou seja:

(1) Nós devemos nos apoiar em seu poder; devemos estar certos de que Cristo pode nos purificar. Nenhuma culpa é tão grande que a sua justiça não seja capaz de reparar; nenhuma perversão é tão forte que a sua graça não possa subjugar. Deus não designaria um médico para seu hospital que não fosse, de todas as formas, qualificado para a incumbência.

(2) Nós devemos nos recomendar à sua misericórdia; não podemos exigir isso como uma dívida, mas devemos humildemente pedir como um favor: “Senhor, se quiseres”. “Lanço-me a teus pés; e se eu perecer, perecerei aos teus pés”.

II – A resposta de Cristo a essa abordagem, que foi muito gentil (v. 3).

  1. “Jesus, estendendo a mão, tocou-o”. A lepra era uma doença nociva e repugnante, ainda assim Cristo o tocou. Ele não desdenhou a atitude de conversar com publicanos e pecadores, para lhes fazer o bem. Havia uma contaminação cerimonial contraída pelo toque de ou em um leproso; mas ao conversar com os pecadores Cristo mostra que Ele não corria nenhum risco de ser contaminado por eles, pois o príncipe deste mundo nada tinha nele. Se nós tocarmos em piche, nos sujaremos; mas Cristo era “separado dos pecadores”, mesmo vivendo entre eles.
  2. Ele disse: “Quero, sê limpo”. Ele não disse, como Eliseu para Naamã: “Vai, e lava-te no Jordão”; não o colocou sob uma cansativa, desagradável e incômoda ação de um medicamento, mas disse a palavra e o curou.

(1) Eis aqui uma palavra de bondade: “Quero”; eu desejo tanto te ajudar, quanto desejas ser ajudado. Note que aqueles que pela fé recorrem a Cristo por graça e misericórdia, podem estar certos de que Ele está desejando, desejando espontaneamente, dar-lhes a misericórdia e a graça pelas quais vieram a Ele. Cristo é um Médico que não precisa ser solicitado, Ele está sempre por perto; não precisa ser pressionado com insistência, pois enquanto ainda estamos falando, Ele ouve; não precisa ser pago, Ele cura de bom grado, não por preço nem por recompensa. Ele deu todas as demonstrações possíveis, de que Ele tanto deseja como pode salvar os pecadores.

(2) Uma palavra de poder: “Sê limpo”. São exercidos, nessa palavra, um poder ligado à autoridade, e um poder ligado à força. Cristo cura através de uma ordem que nos dá: “Sê limpo” – “Queira ser, e use os meios; limpa-te de toda imundície”; mas junto com isso vai uma palavra de ordem que nos diz respeito, uma palavra que faz o milagre acontecer: “Quero, sê limpo”. Uma palavra tal como essa é necessária para a cura, e é capaz de produzir o efeito desejado; e a graça Onipotente, que a pronuncia, não deve faltar àqueles que realmente a desejam.

III – A alegre mudança realizada através disso: “E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra” (ver são RA). A natureza trabalha gradativamente, mas o Deus da natureza age imediatamente. Ele fala, e está feito; e desse modo Ele trabalha eficazmente. Ele dá a ordem, e ela permanece firme. Um dos primeiros milagres que Moisés realizou foi curar a si próprio de uma lepra (Êxodo 4.7), porque de acordo com a lei os sacerdotes ofereciam sacrifícios primeiro por seus próprios pecados; mas um dos primeiros milagres de Cristo foi curar outra pessoa de lepra, pois Ele não tinha nenhum pecado para expiar.

IV – As orientações posteriores dadas por Cristo ao homem curado. É adequado que aqueles que são curados por Cristo, a partir de então sejam governados por Ele.

  1. “Não o digas a alguém”. “Não digas a ninguém até haveres te mostrado ao sacerdote, e ele te declarar limpo; e assim terás uma prova legal de que antes eras um leproso, e agora estás completamente purificado”. Cristo somente permitia que seus milagres fossem expostos após terem sido confirmados como verdadeiros. Note que aqueles que pregam as verdades de Cristo devem ser capazes de prová-las, para defender o que pregam e “convencer os contradizentes”. “Não o digas a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote”, para que se ele ficar sabendo quem te curou, não se negue – por despeito – a te dar um certificado da cura, e assim continue lhe mantendo sob confinamento. Assim eram os sacerdotes no tempo de Cristo, de modo que aqueles que tinham alguma coisa a tratar com eles tinham necessidade de serem prudentes como as serpentes.
  2. “Vai, mostra-te ao sacerdote”, de acordo com a lei (Levítico 14.2). Cristo tomou cuidado em observar a lei, para não transgredi-la, e para mostrar que Ele manterá a ordem, a boa disciplina, e o respeito àqueles que estão no poder. Isso pode ser útil àqueles que foram purificados de sua lepra espiritual, por haverem recorrido aos ministros de Cristo, submetendo o seu caso a eles, para que possam ajudá-los em suas investigações sobre a sua condição espiritual, aconselhando-os, confortando-os e orando por eles.
  3. ”A presenta a oferta que Moisés determinou” como prova de gratidão a Deus, e recompensa ao sacerdote por seus sofrimentos; e “para lhes servir de testemunho”; ou:

(1) ”Apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho”: as leis cerimoniais eram testemunhos da autoridade de Deus sobre eles, dos seus cuidados para com eles, e daquela graça que seria revelada posteriormente. Ou:

(2) “Faça a tua oferta como um testemunho e faça o sacerdote saber quem te purificou, e como; e isso será um testemunho de que há uma pessoa entre eles que faz aquilo que o sumo sacerdote não consegue fazer. Faça com que ela seja registrada como um testemunho do meu poder, e um testemunho a meu respeito para eles, se eles o registrarem; mas este testemunho será contra eles, se não o fizerem”, pois a Palavra e as obras de Cristo são testemunhos.

GESTÃO E CARREIRA

Bem diferente do Brasil

BEM DIFERENTE DO BRASIL

Recolocação rápida de demitidos impulsiona a economia sueca.

 sumiço de postos de trabalho, por assustador que pareça, tem um papel a desempenhar. Numa economia funcional, novas formas de trabalhar e novos negócios sucedem aos anteriores. Se forem mais produtivos, contribuem com a prosperidade geral. No Brasil, ciclos de aquecimento e esfriamento se alternam sem que o país passe a trabalhar melhor – um mal da economia fechada, travada e pouco inovadora que somos. Já a Suécia vem conseguindo tornar a rotatividade de profissionais um fator de aumento de produtividade, graças a um modelo agressivo de recolocação de desempregados.

Segundo um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que inclui a maioria dos países desenvolvidos), 85% dos demitidos na Suécia reencontram emprego em menos de um ano, graças à política pública dos conselhos de segurança do emprego (ou TRR, na sigla em sueco). Esses grupos reúnem representantes de empresas e entidades sociais e se sustentam com recursos privados. Mais ágeis que órgãos governamentais, os conselhos atuam logo após a demissão e se mobilizam para encontrar um novo emprego para o trabalhador. Aí entra a diferença essencial: em vez de tentar recolocá-lo na mesma função (muitas vezes ultrapassada por tecnologia ou mudanças de mercado), os conselhos abrem para ele novas opções profissionais. Fazem isso por meio de novos treinamentos, testes de personalidade, avaliação e reorganização de currículo, entre outras ações. Também prestam ajuda psicológica no período de transição e fornecem auxílio financeiro durante o desemprego, sobre- tudo àqueles com mais de 40 anos.

O modelo fortalece a economia como um todo, pois facilita o fechamento de vagas improdutivas sem provocar reações de sindicatos – fortes e combativos na Suécia. Afinal, o demitido rapidamente se recoloca em outra função (um efeito nefasto do desemprego prolongado é que o profissional, defasado, tem dificuldade crescente em se recolocar). O acesso aos conselhos se limita aos profissionais sindicalizados, que correspondem a 70% da força de trabalho no país.

A política sueca parece tomar a dianteira ante à de outros países da Europa. Nos modelos tradicionais, escritórios do governo tentam dar treinamento aos desempregados, enquanto sindicatos tentam defender postos de trabalho, em vez de ajudar o profissional a se adaptar. Na Suécia, como reza o principal lema dos conselhos, “a meta não é defender empregos, mas dar apoio aos trabalhadores”.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Muito mais que um beijo

MUITO MAIS QUE UM BEIJO

O toque dos lábios desencadeia a liberação de substâncias químicas ligadas à estimulação sexual e às interações sociais; o mais curioso, porém, é que este gesto também transmite ao parceiro informações sobre o DNA.

 Nos momentos de intensa paixão o beijo na boca prende duas pessoas numa troca de cheiros, sabores, toques, segredos e emoções. Beijamos lascivamente, de modo gentil, tímido, faminto, intenso, furtivo. Em plena luz do dia e na calada da noite. Damos beijos cerimoniosos, afáveis, polidos, de rostos que não se tocam; a literatura e a história registram beijos da morte e, ao menos nos contos de fada, beijocas fazem princesas reviver.

Do ponto de vista da ciência, os lábios podem ter evoluído primeiro para favorecer a alimentação e, mais tarde, para a fala, mas no beijo eles satisfazem tipos diferentes de apetite. No corpo, o toque dos lábios ativa uma sucessão de mensagens neurais e químicas que transmitem sensações táteis e excitação sexual, e desperta sentimentos de intimidade, motivação e até euforia.

Nem todas as mensagens são internas. A fusão de dois corpos transmite sinais intensos passíveis de serem reconhecidos tanto pela própria pessoa quanto pelo parceiro ou parceira. Beijos podem, inclusive, enviar informações significativas sobre as condições presentes e futuras de uma relação amorosa. Muitos psicólogos especializados em terapia de casais garantem que, se o primeiro beijo não for considerado agradável e prazeroso para os dois envolvidos, dificilmente o relacionamento evoluirá.

Alguns cientistas acreditam que a união dos lábios evoluiu porque facilita a seleção de parceiros. “O beijo envolve uma troca bem complicada de informações – olfativa, tátil e ajustes de postura – que costuma acionar mecanismos neurológicos sofisticados e também inconscientes, permitindo às pessoas determinar subjetivamente até que grau elas são geneticamente incompatíveis”, afirma o psicólogo evolucionista Gordon G. Gallup, professor da Universidade de Albany e da Universidade do Estado de Nova York. Beijar pode ainda revelar até que ponto o outro está disposto a se comprometer na relação. Esse comprometimento significa, em alguns casos, a predisposição para estabelecer parcerias, aprofundar o grau de confiança e até mesmo a intenção de criar filhos – uma questão central em relacionamentos de longo prazo e crucial para a sobrevivência da espécie.

 MENSAGEIRO SILENCIOSO

Independentemente do que mais esteja acontecendo quando beijamos, nossa história evolucionária está incorporada nesse ato terno e tempestuoso. Nos anos 60, o zoólogo e escritor britânico Desmond Morris sugeriu, pela primeira vez, que o beijo pode ter evoluído da prática de algumas mães primatas de mastigar a comida para seus filhotes e alimentá-los boca a boca, com os lábios comprimidos. Os chimpanzés se alimentam dessa maneira, e nossos ancestrais hominídeos, provavelmente, também o faziam. A pressão de lábio contra lábio evoluiu posteriormente para uma forma de confortar crianças famintas em períodos de escassez de comida e, com o tempo, derivou para um modo de expressar amor e afeição. A espécie humana levou esses beijos protoparentais por outros caminhos, até criar as variedades mais apaixonadas que temos hoje.

Mensageiros químicos silenciosos chamados feromônios podem ter acelerado a evolução do beijo “íntimo”. Muitos animais e plantas usam os feromônios para se comunicar com outros membros da mesma espécie. Insetos, em particular, são conhecidos por emitir a substância como um alarme, para sinalizar, por exemplo, a presença de alimento ou a atração sexual. Se os seres humanos detectam feromônios ou não – e com que precisão isso aconteceria – é assunto controverso. Diferentemente de ratos ou porcos, não temos um detector de feromônios “especializado”, o órgão vomeronasal, entre o nariz e a boca.

No entanto, a bióloga Sarah Woodley, da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, sugere que podemos captar feromônios pelo sistema olfativo. Segundo ela, a comunicação química inconsciente explicaria descobertas curiosas, como a tendência de os ciclos menstruais de mulheres que convivem de forma muito próxima, como companheiras de dormitório, se sincronizarem, ou como a atração das mulheres pelo cheiro da camiseta usada por homens cujo sistema imunológico é geneticamente compatível com o delas. Feromônios humanos podem incluir androstenol (componente químico do suor masculino que, para algumas mulheres, amplia a excitação sexual) e hormônios vaginais femininos chamados copulinas (que aumentam os níveis de testosterona e o apetite sexual dos homens). Se os feromônios realmente representam um papel na procriação humana, então beijar seria uma maneira extremamente eficiente de transmiti-los.

Podemos também ter herdado o beijo íntimo de nossos ancestrais primatas. Bonobos, que são geneticamente muito semelhantes a nós (embora não sejamos seus descendentes diretos), são especialmente apaixonados. O primatólogo Frans B. M. de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia, lembra-se de um guarda de zoológico que aceitou de um bonobo o que ele achava que seria um beijo amigável, até sentir a língua do macaco em sua boca!

Os lábios humanos têm a camada mais fina de pele do corpo humano e estão entre as áreas corporais em que se encontram as maiores concentrações de receptores e transmissores sensoriais. Quando beijamos, as células da língua e de outras regiões da boca disparam mensagens para o cérebro e para o corpo, provocando emoções e reações físicas intensas.

Dos 12 ou 13 nervos cranianos que afetam a função cerebral, cinco estão em ação quando beijamos, carregando mensagens de nossos lábios, língua, bochechas e nariz para o cérebro – que capta informações sobre temperatura, sabor, cheiro e movimentos de toda a situação. Parte dessa informação chega ao córtex somatossensorial, faixa de tecido na superfície cerebral que representa a informação tátil no mapa do corpo. Nessa representação os lábios aparecem desproporcionalmente grandes em relação ao tamanho real porque cada região do corpo aparece de acordo com a densidade de suas terminações neurais.

Beijar desencadeia um coquetel de substâncias químicas que governam o estresse, a motivação, as relações sociais e a estimulação sexual. Em um novo estudo, a psicóloga Wendy L. Hill e sua aluna Carey A. Wilson, do Lafayette College, compararam os níveis de oxitocina e cortisol, dois hormônios-chave, em 15 casais heterossexuais antes e depois de eles se beijarem e antes e depois de conversarem de mãos dadas. A oxitocina está ligada às relações sociais e o cortisol é considerado o hormônio do estresse. Hill e Wilson supunham que beijar ampliaria os níveis do primeiro hormônio, que influencia também o reconhecimento social, o orgasmo e o parto. Elas esperavam que esse efeito fosse particularmente pronunciado nas mulheres participantes do estudo que relataram um grau maior de intimidade em seus relacionamentos. Também previam uma queda no cortisol, porque, presumivelmente, beijar aliviaria o estresse.

 BARÔMETRO EMOCIONAL

As pesquisadoras, porém, se surpreenderam ao descobrir que os níveis de oxitocina aumentaram apenas nos homens e diminuíram nas mulheres, tanto depois de beijar quanto ao conversar de mãos dadas. Concluíram, então, que elas precisam bem mais do que um beijo para se sentir ligadas emocionalmente ou excitadas sexualmente durante o contato físico. As autoras inferiram que as mulheres podem, por exemplo, precisar de uma atmosfera mais romântica. Mas, de fato, uma suspeita das pesquisadoras se confirmou: o estudo reportado por Hill e Wilson, em novembro de 2007 na reunião anual da Sociedade para a Neurociência, em Nova Orleans, revelou que os níveis de cortisol caíam para ambos os sexos, não importando a forma de intimidade, o que indica que o beijo realmente reduz o estresse.

Na medida em que o beijo está ligado à afetividade, pode aumentar a produção de substâncias químicas do cérebro associadas ao prazer, à euforia e à motivação para estabelecer ligações específicas. A antropóloga Helen Fisher e colaboradores da Universidade Rutgers registraram, por meio de tomografias do cérebro, a reação de 17 voluntários enquanto olhavam para fotos de pessoas pelas quais diziam estar profundamente apaixonados. Os pesquisadores descobriram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais que governam o prazer, a motivação e a recompensa: a área tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito. Drogas como a cocaína estimulam de maneira semelhante esses centros de recompensa, por meio da liberação do neurotransmissor dopamina. Uma primeira conclusão seria, então, a de que o amor funciona, para humanos, como um tipo de droga. E o beijo evoca reações primais. Pode aumentar a pulsação e a pressão sanguínea; as pupilas se dilatam; a respiração fica mais profunda e o pensamento racional recua. Assim como o desejo, o ato de beijar suprime (ou pelo menos torna mais tênue) a prudência e a inibição. Durante um beijo a maioria das pessoas fica, provavelmente, encantada demais para se importar com isso. Talvez o superego (instância psíquica proposta por Sigmund Freud, guardiã das normas e proibições que aprendemos e adotamos) seja solúvel em beijos.

Pode mesmo um beijo ser algo tão poderoso? Algumas pesquisas indicam que sim. Num levantamento recente, Gallup e seus colaboradores descobriram que 59% de 58 homens e 66% de 122 mulheres admitiram que houve ocasiões em que, embora estivessem atraídos por alguém, o interesse logo sumiu depois do primeiro beijo. Os beijos “ruins” não tinham nenhuma falha específica; simplesmente não passavam a “sensação certa”. Resultado: deflagravam o fim do romance.

Gallup também acredita que o beijo carrega tal peso porque transmite informações subconscientes sobre a compatibilidade genética de um possível companheiro. Sua hipótese é consistente com a ideia de que ele evoluiu como uma estratégia de acasalamento que ajuda a avaliar potenciais parceiros.

Da perspectiva darwiniana, a seleção sexual é a chave para a transmissão dos genes. Para nós, humanos, a escolha do parceiro frequentemente implica apaixonar-se. Fisher escreveu em seu artigo de 2005 que o “mecanismo de atração nos humanos evoluiu para permitir aos indivíduos concentrar sua energia de acasalamento em pessoas específicas, o que facilita a escolha do parceiro – e satisfaz um aspecto primário da reprodução”.

Com base em descobertas recentes, Gallup argumenta que o beijo desempenha um papel crucial na progressão de um relacionamento, mas de forma diversa para homens e mulheres. Num estudo – que teve os resultados publicados – ele e seus colaboradores entrevistaram 1.041 universitários de ambos os sexos a respeito do beijo. Para a maioria dos rapazes ouvidos, acariciar a boca da outra pessoa com a língua é uma maneira de avançar no relacionamento sexual. Para os pesquisadores, porém, o ato serve para conduzir o casal ao próximo nível emocional e para avaliar não apenas se a outra pessoa seria uma fonte excelente de DNA, mas um bom parceiro a longo prazo. O encontro dos lábios é, portanto, um tipo de barômetro emocional: quanto mais entusiasmado, mais saudável é o relacionamento.

Como as mulheres têm menores possibilidades biológicas de perpetuar seus genes, já que necessitam investir mais energia para ter filhos, é fundamental que sejam mais criteriosas na escolha de seus parceiros – e não podem se permitir muitos equívocos. Dentro dessa lógica evolucionista, quanto mais apaixonado o beijo, maior a chance de o parceiro ser um bom companheiro não só para a procriação – mas suficientemente comprometido também para ficar por perto e criá-los. Por outro lado, o beijo talvez não seja tão necessário do ponto de vista evolutivo. Afinal, a maioria dos animais não se beija e, mesmo assim, produz muitas crias. E nem todos os humanos beijam. Na virada do século 20, o cientista dinamarquês Kristoffer Nyrop descreveu tribos finlandesas cujos membros se banhavam juntos, mas consideravam o beijo indecente. Em 1897, o antropólogo francês Paul d’Enjoy relatou que os chineses consideravam o toque das bocas tão horrendo quanto é o canibalismo para a maioria das pessoas. Na Mongólia, por exemplo, é raro que os pais beijem seus filhos em vez disso, cheiram a cabeça dos pequenos. O pioneiro da etologia humana Irenäus Eibl-Eibesfeldt escreveu em seu livro de 1970 Love and hate: the Natural History of behavior patterns (Amor e ódio: história natural dos padrões elementares do comportamento), considerado um clássico, que pelo menos 10% da humanidade não beija.

 INCLINAÇÃO À DIREITA

O psicólogo Onur Güntürkün, da Universidade Ruhr, de Bochum, Alemanha, realizou recentemente uma pesquisa curiosa. Observou 124 casais enquanto se beijavam em lugares públicos dos Estados Unidos, Alemanha e Turquia e constatou que eles tombavam levemente a cabeça para a direita com o dobro de frequência do que para a esquerda antes de seus lábios se tocarem. Güntürkün suspeita que os beijos inclinados para a direita resultem de uma preferência geral desenvolvida no final da gestação e na primeira infância. Essa “assimetria” é relacionada à lateralização das funções cerebrais, tais como a fala e a percepção espacial.

A educação e a cultura também podem influenciar essa tendência de curvar-se para a direita. Estudos mostram que até 80% das mães, quer sejam destras, quer sejam canhotas, acalentam do lado esquerdo seus bebês. Bebês aninhados com o rosto para cima, à esquerda, viram-se para a direita para ser amamentados ou se aconchegar. Como resultado, a maioria de nós pode ter aprendido a associar calor e segurança com o inclinar para a direita.

Alguns cientistas propuseram que aqueles que viram a cabeça para a esquerda quando beijam podem estar mostrando menos afeto do os que o fazem para o lado oposto. Um estudo realizado pelo naturalista Julian Greenwood e seus colaboradores da Universidade Stranmillis College, em Belfast, na Irlanda, contrapõe essa ideia. Os pesquisadores constataram que 77% de 240 graduandos inclinavam a cabeça para a direita quando beijavam uma boneca na bochecha ou nos lábios. Curvar-se para a direita com uma boneca, ato que não denota emoção, foi quase tão predominante entre os participantes como entre os 125 casais observados enquanto se beijavam em Belfast que se inclinaram para a direita em 80% das vezes. A conclusão: beijar inclinado para a direita provavelmente resulta de uma facilidade motora, como Güntürkün sugeriu – e não de uma preferência emocional.

Muito mais que um beijo2 

HOMÚNCULO SENSORIAL: O MAPA DO CORPO

Informação tátil da pele chega ao córtex somatossensorial primário do cérebro, que contém um mapa distorcido do corpo chamado “homúnculo sensorial”.

Nesta representação, os lábios são desproporcionalmente grandes porque têm uma enorme concentração de receptores sensoriais e, portanto, são muito sensíveis ao toque.

 Muito mais que um beijo3

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 299