ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 21-29

 O Sermão da Montanha

Temos aqui a conclusão desse longo e excelente sermão cujo escopo foi mostrar a indispensável necessidade da obediência aos mandamentos de Cristo. Ele tinha o propósito de cravar suas palavras, par a que elas pudessem se firmar num lugar seguro. Ele falava aos discípulos, que se sentavam aos seus pés todas as vezes que pregava, e o seguiam para qualquer lugar onde fosse. Se Ele buscava receber os louvores dos homens, somente isso teria sido suficiente. Mas a religião que Ele veio estabelecer vem com poder, e não apenas em palavras (1 Coríntios 4.20, versão RA); portanto, algo mais se fazia necessário.

I – Ele mostra, através de uma clara exposição de razões, que uma visível profissão de fé, embora seja digna de nota, não basta para nos levar ao céu, a não ser acompanhada por uma correspondente conduta (vv. 21-23). Todo julgamento pertence ao Senhor Jesus, as chaves foram colocadas em suas mãos. Ele tem o poder de prescrever novos termos de vida ou morte e de julgar os homens de acordo com eles. Essa é uma solene declaração que está em conformidade com esse poder. Portanto, observe que:

  1. A lei de Cristo foi estabelecida (v. 21). “Nem todos aqueles que dizem Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus”, no reino da graça e da glória. Esta é uma resposta ao Salmo 15.1. “Quem habitará no teu tabernáculo?” A igreja militante. E quem morará no teu santo monte? A igreja triunfante. Cristo está mostrando aqui:

(1) Que não basta dizer as palavras “Senhor, Senhor” para ter Cristo como nosso Mestre, ou para se dirigir a Ele professando nossa religião. Nas orações a Deus e nas conversas com os homens, devemos invocar o Senhor Jesus Cristo. Quando dizemos “Senhor, Senhor”, estamos dizendo bem, pois é isso que Ele é (João 13.13). Mas será que imaginamos que isso é suficiente para nos levar ao céu, que essa expressão de formalidade deveria ser recompensada ou que Ele sabe e exige que o coração esteja presente nas demonstrações essenciais? Os cumprimentos entre os homens são uma demonstração de civilidade, retribuída com outros cumprimentos, e nunca são expressos como se fossem serviços reais. E o que dizer destes em relação a Cristo? Pode haver uma aparente impertinência na oração “Senhor, Senhor”, mas se as impressões interiores não forem acompanhadas pelas correspondentes expressões exteriores, nossas palavras serão como o metal que soa ou como o sino que tine. Isso não nos deve impedir de dizer “Senhor, Senhor”, de orar, e de sermos sinceros nas nossas orações, de professar o nome de Cristo, com toda clareza; porém jamais devemos expressar alguma forma de piedade sem o poder de Deus.

(2) Que será necessário – par a nossa felicidade – fazer a vontade de Cristo, que, na verdade, é a vontade do Pai celestial. A vontade de Deus, como Pai de Cristo, é a verdade que está no Evangelho, onde Ele é conhecido como Pai do nosso Senhor Jesus Cristo e, através dele, o nosso Pai. Esta é a vontade de Deus: que creiamos em Cristo, nos arrependamos dos nossos pecados, vivamos uma vida santa e amemos uns aos outros. Essa é a sua vontade: a nossa santificação. Se não obedecermos à vontade de Deus, estaremos zombando de Cristo ao chamá-lo de Senhor, da mesma forma como fizeram aqueles que o vestiram com um manto suntuoso e disseram: “Salve, Rei dos Judeus”. Dizer e fazer são duas coisas que muitas vezes estão separadas nas palavras dos homens: existe aquele que diz: “Eu vou, senhor”, porém jamais dá sequer um passo na direção prometida (cap. 21.30). Mas Deus reuniu essas duas coisas no seu mandamento, e nenhum homem poderá separá-las se quiser entrar no Reino dos céus.

  1. O argumento dos hipócritas contra o rigor dessa lei oferece outras coisas no lugar da obediência (v. 22). Esse argumento deve se referir àquele dia, àquele grande dia, quando cada homem irá comparecer exibindo todas as suas cores, quando o segredo dos corações irá se manifestar e, entre outras, irão aparecer as secretas pretensões com as quais os pecadores dão suporte às suas vãs esperanças. Cristo conhece a força da causa deles, que, na realidade, não passa de uma fraqueza. O que eles agora abrigam no seu seio será revelado para impedir o julgamento e suspender o seu destino, mas isso será em vão, pois irão apresentar seu argumento com grande impropriedade. “Senhor, Senhor” e, a esse respeito, irão apelar a Cristo com grande confiança. Senhor, não sabes:

(1) “Não profetizamos nós em teu no­ me?” Pode ser que sim. Balaão e Caifás foram dominados pela profecia e, contra a sua vontade, Saul se encontrou entre os profetas. No entanto, isso não bastou para salvá-los. Eles profetizaram no nome do Senhor, mas Ele não os havia enviado. Fizeram uso do seu nome apenas para servir a uma circunstância. Veja bem, o homem pode ser um pregador, pode ter os dons do ministério e até um chamado externo para exercê-lo; pode até ser bem-sucedido nisso e, ao mesmo tempo, ser um homem vil; pode ajudar os outros a ir para o céu e, no entanto, estar desqualificado e ficar fora dele.

(2) “Em teu nome, não expulsamos demónios?” Isso também pode acontecer. Judas expulsou os demônios, no entanto, era filho da perdição. Orígenes diz que em seu tempo o nome de Cristo era tão prevalecente para expulsar os demônios que, às vezes, esse nome também ajudava, mesmo quando era pronunciado por cristãos indignos. Um homem pode expulsar o demônio de outros homens e ainda ter, ou ser, o próprio demônio.

(3) “Em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?” Pode haver alguma fé nos milagres, onde não existe nenhuma fé para a justificação; nenhuma fé que opera através do amor e da obediência. Os dons de línguas e de cura podem recomendar os homens ao mundo, mas somente a verdadeira piedade e santidade serão aceitas por Deus. A graça e o amor são a maneira mais eficiente de remover montanhas, ou de falar as línguas dos homens e dos anjos (1 Coríntios 13.1,2). A graça irá levar o homem para o céu mesmo sem milagres; porém os milagres nunca irão levar o homem para o céu sem a ajuda da graça. Observe que aqueles que confiam e colocam os seus corações na prática dessas obras, veem muitas maravilhas. Simão, o mágico, ficou atônito com os milagres (Atos 8.13), portanto daria qualquer quantia para ter o poder de fazer o mesmo. Veja que eles não tinham muitas boas obras para pleitear, nem podiam fingir que tinham feito muitas obras de piedade ou de caridade. Qualquer uma destas teria sido melhor para sua avaliação do que muitas e maravilhosas obras, que de nada serviriam enquanto persistissem na desobediência. Atualmente, os milagres continuam a acontecer. Mas será que o coração humano ainda encontra o encorajamento em esperanças infundadas, com seus vãos esteios? Aqueles que são descritos nesse versículo pensam que vão para o céu porque têm tido uma boa reputação entre os mestres da religião, observam o jejum, dão esmolas e têm sido promovidos na igreja, como se isso fosse suficiente para reparar seu permanente orgulho, mundanismo, sensualidade e a falta de amor a Deus e ao próximo. Betel é a sua confiança (Jeremias 48.13), eles se ensoberbecem no monte santo de Deus (Sofonias 3.11), e se vangloriam de ser o templo do Senhor (Jeremias 7.4). Devemos prestar atenção nos seus privilégios e performances externos para não nos enganarmos e não perecermos eternamente, como ocorre com as multidões, que seguram uma mentira em sua mão direita.

  1. A rejeição desse argumento por ser frívolo. Aquele que é o Legislador (v. 21) está aqui como Juiz e, de acordo com essa lei (v.23), irá publicamente anular esse argumento. Irá comunicar a eles, com toda solenidade possível, a sentença emitida pelo Juiz: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. Observe:

(1) A razão e os fundamentos que Ele usa para rejeitá-los, e aos seus argumentos, se resume no fato de praticarem a iniquidade. Observe que é possível a um homem adquirir um nome notável como pessoa piedosa, e ainda assim ser um praticante de iniquidades. Aqueles que agem assim irão receber uma condenação maior. Quaisquer esconderijos secretos do pecado, guardados sob o manto de uma evidente profissão de fé, são a ruina dos homens. Anulam as pretensões dos hipócritas. Viver deliberadamente em pecado anula as pretensões dos homens, por mais capciosas que sejam.

(2) A maneira como esse argumento é expresso: “Nunca vos conheci”. “Nunca me pertencestes como servos, nem mesmo quando profetizáveis em meu nome, quando estáveis no auge da vossa profissão de fé, e éreis elogiados”. Isso indica que, se alguma vez o Senhor os tivesse conhecido, como Ele conhece aqueles que são seus, se os tivesse possuído e amado como se fossem seus, Ele os teria conhecido e possuído e amado até o fim. Mas Ele nunca os reconheceu, pois sempre soube que eram hipócritas e tinham o coração corrompido, como aconteceu com Judas. Portanto, Ele diz: “Apartai-vos de mim”. Será que Cristo precisava de tais convidados? Quando Cristo veio em carne e osso, Ele chamou a si os pecadores ao arrependimento (cap. 9.13), e quando voltar novamente, coroado de glória, irá afastar de si os pecadores. Aqueles que não forem até Ele para serem salvos deverão partir para serem condenados. Afastar-se de Cristo será o verdadeiro inferno do inferno, será a razão fundamental da miséria de ser condenado, de ter sido desprovido de toda esperança dos benefícios da mediação de Cristo. Ele não irá aceitar nem trazer a si no grande dia aqueles que, a seu serviço, não vão além de uma simples profissão de fé. Veja a que ponto um homem pode cair das alturas da esperança ao abismo da desgraça. Como pode ir para o inferno através das portas do céu! Essas deveriam ser palavras de alerta a todos os cristãos. Se um pregador que expulsa os demônios e realiza milagres for rejeitado por Cristo porque praticou iniquidades, o que será dele, e o que seria de nós, caso isso acontecesse conosco? Se agirmos assim, isto certamente acontecerá conosco. No tribunal de Deus, uma profissão de fé nunca irá defender homem algum da prática e do vício do pecado, portanto todo aquele que pronuncia o nome de Cristo deve abandonar toda iniquidade.

II – Ele mostra, através de uma parábola, que apenas ouvir essas palavras de Cristo não nos fará felizes, se não tomarmos a decisão de praticá-las, e que, se ouvirmos e praticarmos, seremos abençoados pelas nossas obras (vv. 24-27).

  1. Aqueles que ouviram as palavras de Cristo foram divididos em dois grupos; o grupo daqueles que ouvem e praticam o que ouviram, e o grupo daqueles que ouviram, mas não praticam. Cristo pregava para uma multidão mista, por tanto separou um grupo do outro, da mesma forma como irá fazer no grande dia, quando todas as nações estarão reunidas perante Ele. Cristo ainda fala do céu através da sua Palavra e do seu precioso Espírito; Ele fala através dos ministros e das providências aos dois tipos de pessoas que o ouvem.

(1) Aqueles que escutam suas palavras e as praticam: Bendito seja Deus porque eles existem, embora, comparativamente falando, ainda sejam muito poucos. Ouvir Cristo não significa apenas prestar atenção às suas palavras, mas obedecê-lo. Repare bem que é muito importante que todos nós pratiquemos as palavras de Cristo. É um sinal de misericórdia poder ouvir suas palavras. Bem-aventurados aqueles que ouvem (cap. 13 .16,17). Porém, se não praticarmos o que ouvimos, receberemos essa graça em vão. Praticar as palavras de Cristo é se abster conscientemente, dos pecados que Ele proíbe, e executar os deveres que Ele exige. Nossos pensamentos e sentimentos, nossas palavras e atos, a disposição da nossa mente e o curso da nossa vida devem estar em sintonia com o Evangelho de Cristo, e essa é a obrigação que Ele exige de nós. Todas as palavras de Cristo, não só as leis que Ele promulgou, mas também as verdades que revelou, devem ser praticadas por nós. Elas representam um exemplo, não só para os nossos olhos, mas também para os nossos pés, e foram destinadas não só a esclarecer nossos julgamentos, mas também a transformar o nosso coração e a nossa vida. Não podemos realmente acreditar nas palavras de Cristo se não agirmos de uma forma que corresponda a elas. Observe que não basta ouvir as palavras de Cristo, compreendê-las e lembrar-se delas, ouvir, comentar, repetir ou discutir essas palavras; mas ouvi-las e praticá-las. “Faze isso e viverás”. Aqueles que ouvem e praticam são abençoados (Lucas 11.28; João 13.17) e se tornam parentes de Cristo (cap. 12.50).

(2) Existem outros que ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam. Sua religião está apoiada numa simples audição e não vai além disso. Assim como crianças raquíticas, sua cabeça está repleta de noções vazias e de opiniões indigestas, enquanto suas juntas são fracas, pesadas e lânguidas. Elas não podem se movimentar; nem se importam em praticar nenhum dever útil. Ouvem as palavras de Deus, como se quisessem conhecer os seus caminhos, como se fossem pessoas justas, mas não estão dispostas a colocarem-nas em prática (Ezequiel 33.30,31; Isaias 58.2). Dessa forma, elas estão se enganando, como Mica, que acreditava ser feliz, por ter um levita como seu sacerdote, embora não tivesse o Senhor como o seu Deus. A semente foi lançada, mas nunca brotou. Eles veem as suas manchas no espelho da palavra, mas preferem ignorá-las (Tiago 1.22,24). Dessa forma, colocam um engodo sobre suas próprias almas, pois é certo que se o que ouvimos não trouxer nossa obediência, isso irá agravar a nossa desobediência. Aqueles que apenas ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam, é como se estivessem sentados a meio caminho do céu sem nunca chegar ao fim da jornada. É como se fossem meio-irmãos de Cristo; e as nossas leis não lhes dão direito a herança.

  1. Esses dois tipos de ouvintes foram aqui representados, com seu verdadeiro caráter e com a situação do seu caso, através de uma comparação entre dois construtores. Aquele que era prudente construiu a sua casa sobre uma rocha, e ela resistiu a uma tempestade. O outro, que era insensato, construiu a sua casa na areia, e ela desmoronou.

Agora:

(1) O escopo geral dessa parábola é ensinar que a única maneira de assegurar a nossa alma em relação à eternidade é ouvir e praticar as palavras do Senhor Jesus, as palavras contidas no Sermão da Montanha, que é totalmente prático. Algumas delas podem parecer difíceis para o homem, mas mesmo assim devem ser praticadas. Dessa forma, estaremos entesourando um bom fundamento para o futuro (1 Timóteo 6.19). Elas representam uma boa ligação, conforme alguns entendem, que foi feita por Deus e que garante uma salvação baseada nos termos do Evangelho. O fruto da nossa própria invenção não será uma ligação que traz salvação, nem será capaz de satisfazer as nossas próprias fantasias. Aqueles que, como Maria, se sentam aos pés de Cristo para ouvir as suas palavras, em completa sujeição, asseguram para si mesmos a “boa parte”. “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”.

(2) Algumas partes peculiares dessas palavras nos ensinam diversas e boas lições.

[l] Cada um de nós tem uma casa para construir, e essa casa representa a nossa esperança em relação ao céu. Deve ser nosso principal e constante cuidado fazer com que nosso chamado e eleição fiquem garantidos, assim como nossa salvação. Devemos assegurar um título para a felicidade celestial, e depois obter uma confortável prova disso. Ter certeza de que, mesmo se falharmos, ainda assim seremos recebidos na habitação eterna. Muitos nunca se importam com isso; é o que está mais longe do seu pensamento. Eles estão construindo para esse mundo, como se fossem permanecer aqui para sempre, e não se importam em construir algo em um outro mundo. Todos aqueles que assumem uma profissão de fé também desejam descobrir o que deverão fazer para ser salvos; eles precisam saber como poderão chegar finalmente ao céu, e precisam ter uma esperança bem fundada sobre este assunto, à medida que crescem na fé.

  • Existe uma rocha providenciada para nós, sobre a qual podemos construir essa casa essa rocha é Cristo. Jesus Cristo foi colocado como a sua fundação, e nenhuma outra fundação pode ser colocada (Isaias 28.16; 1 Coríntios 3.11). Ele é a nossa Esperança (1 Timóteo 1.1). Esse é o Cristo que está em nós. Devemos fundamentar a esperança que temos em relação ao céu sobre a plenitude do mérito de Cristo, do perdão dos pecados, do poder do seu Espírito, da santificação da nossa natureza e da prevalência da sua intercessão e da transmissão de tudo que é bom que Ele adquiriu para nós. Ele nos deu a conhecer tudo que existe nele para nos transformar segundo o Evangelho, e que é suficiente para retirar todas as nossas angústias e suprir todas as nossas necessidades, pois Ele é o Supremo Salvador. A Igreja foi edificada sobre essa rocha, assim como todo aquele que é crente. Ele é forte e tão imutável como essa Rocha, e podemos nos aventurar junto a Ele, pois não ficaremos envergonhados da nossa esperança.
  • Existem alguns remanescentes que ouvem e praticam as palavras de Cristo, que edificam as suas esperanças sobre essa Rocha. E ela passou a representar toda a sua sabedoria. Cristo é o único Caminho para o Pai, e a obediência à fé é o nosso único caminho para Cristo. Pois, para aqueles que obedecem a Ele, e somente a Ele, Ele se torna o Autor da eterna salvação. Aqueles que edificam sobre Cristo, que têm sinceramente aceitado a Ele como seu Príncipe e Salvador, têm como preocupação constante sujeitar-se a todas as regras da sua santa religião. Portanto, estes dependem inteiramente dele para obter a ajuda necessária diante de Deus, para que sejam aceitos. É necessário levar em conta aqui tudo que não seja pernicioso, para poder conquistar Cristo e ser encontrado nele. Construir sobre uma rocha exige muito cuidado e trabalho. Aqueles que desejam assegurar sua eleição e seu chamado devem agir com toda diligência. Eles são os construtores prudentes que começam a construir de forma a serem capazes de terminar (Lucas 14.30); portanto, precisam se estabelecer sobre a fundação mais sólida que existe.
  • Existem muitos que professam sua esperança de ir para o céu, mas desprezam essa Rocha e constroem suas esperanças sobre a areia. Isso não exige muito es­ forço, mas é o espelho da sua insensatez. Tudo que não está em Cristo é areia. Alguns constroem sua esperança na prosperidade da vida terrena, como se esta fosse um sinal do favor de Deus (Os 12.8). Outros edificam sobre a sua profissão exterior de fé, sobre os privilégios que gozam, as performances que executam nessa profissão de fé, e a reputação que adquiriram. Eles têm o nome de cristãos, receberam o batismo, vão à igreja, ouvem as palavras de Cristo, oferecem as suas orações e não fazem mal a ninguém. Contudo, é curioso observar que a morte de alguns deles pode ser considerada um alívio para outros! Essa é a luz do seu próprio fervor, sobre o qual caminham. É nesta vereda que eles se aventuram, com uma grande dose de segurança. Mas tudo isto não passa de areia, algo demasiadamente fraco para suportar a estrutura das suas esperanças celestiais.
  • Uma tempestade se aproxima, e ela testará os alicerces das nossas esperanças, e também toda obra do homem (1 Coríntios 3.13). Ela descobrirá a fundação (Habacuque 3.13). A chuva, a inundação e o vento irão se abater sobre a casa. Muitas vezes a provação está nesse mundo e, quando surgirem a tribulação e a perseguição por causa da palavra, veremos quem apenas ouviu a palavra, e quem, além de ouvi-la, a praticou. Então teremos ocasião de usar nossas esperanças. Elas serão experimentadas, sejam elas justas e bem fundamentadas ou não. Entretanto, quando chegarem a morte e o juízo, e chegar também a tempestade, pois não há nenhuma dúvida de que ela virá, as coisas ficarão tão calmas para nós como estão agora. Quando tudo o mais falhar, podemos ter certeza de que essas esperanças jamais falharão. Elas se transformarão em um gozo que durar á para sempre; um gozo eterno.
  • Aquelas esperanças que forem construídas sobre a Rocha de Cristo irão se sustentar, e também ao construtor, quando a tempestade chegar. Elas irão preservá-lo, tanto do abandono como de uma inquietude permanente. Sua profissão não irá definhar e o ânimo não lhe faltará. Elas serão sua força e seu cântico, como uma âncora da alma, segura e firme. Quando ele chegar para o último encontro, essas esperanças irão afastar o terror da morte e do sepulcro, irão levá-lo alegremente através do vale sombrio, serão aprovadas pelo Juiz, irão enfrentar o teste do grande dia e serão coroadas com eterna glória (2 Coríntios 1.12; 2 Timóteo 4.7,8). Bem-aventurado aquele servo a quem o Senhor encontrar absolutamente esperançoso, quando voltar.
  • Aquelas esperanças que são edificadas sobre um outro fundamento, e não sobre Cristo, certamente lhes faltarão em um dia de tempestade. Estas esperanças não produzirão um verdadeiro conforto e satisfação em meio às provações, não formarão uma muralha contra as tentações da apostasia na hora da perseguição, e na hora da morte e no dia do juízo final não terão qualquer valor. Onde estará a esperança do hipócrita quando Deus lhe arrancar a alma? (Jó 27.8). Ela será como uma teia de aranha, ou como a falta de esperança do espírito. Eles se apoiarão sobre a casa, e ela não se manterá firme (Jó 8.14,15). Ela desmoronará em meio à tempestade, quando o construtor mais precisará dela, esperando que represente um abrigo seguro para ele. Ela cairá quando for demasiadamente tarde para construir uma outra. Quando um pecador morre, suas expectativas morrem também. Quando se pensa que elas se transformarão em um gozo eterno, elas desmoronam e grande é a sua queda. O construtor fica muito desapontado e a vergonha pela perda é muito grande. Quanto mais elevadas forem as esperanças dos homens, depositadas em suas próprias invenções, maior será a sua queda. A ruína de todos aqueles que praticam uma profissão formal de fé que não esteja alicerçada em Cristo consistirá em ser uma testemunha da condenação de Cafarnaum.

III – Nos dois últimos versículos, tomamos conhecimento da impressão criada pelo discurso de Cristo nos seus ouvintes. Foi um excelente sermão, e é provável que Ele tenha falado muito mais, porém estas palavras não foram registradas. Sem dúvida, as palavras que saíram da sua boca, de cujos lábios se derramava a graça, contribuíram poderosamente para isso. Portanto:

  1. Eles ficaram admirados com a sua doutrina. Acredita-se que poucos tenham sido levados a segui-lo, mas naquele momento todos ficaram maravilhados. Veja bem: Será que é possível acreditar que as pessoas admirem um bom sermão e ainda assim permaneçam na ignorância e na incredulidade? Ficam admiradas, mas não se tornam santificadas?
  2. Talvez a razão disso seja que, apesar de ensinar com autoridade, Ele não era como os escribas. Os escribas pretendiam ter a mesma autoridade de qualquer um dos mestres, e eram apoiados por todas as vantagens externas que conseguiam. Porém, a sua pregação era pobre, vazia e insípida. Falavam como se não fossem mestres daquilo que pregavam, suas palavras não vinham de alguém que tivesse força ou vida, e repetiam as palavras como os alunos repetem as lições. Mas Cristo pronunciava o seu discurso da mesma maneira que um juiz pronuncia uma sentença. Ele realmente fazia seus discursos com um tom de autoridade. Suas lições eram leis, e a sua palavra era uma palavra de comando. Cristo, sobre a montanha, mostrava mais autoridade que os escribas na cadeira de Moisés. Dessa forma, quando Cristo ensina às almas através do seu Espirito, Ele ensina com autoridade. Ele disse: “Haja luz. E houve luz”.

GESTÃO E CARREIRA

As feras da Savana do Silício

AS FERAS DA SAVANA DO SILÍCIO

Novos negócios em alguns países africanos chamam a atenção de investidores e gigantes de tecnologia. Todos vão à caça de ideias para enfrentar grandes problemas (e algumas servem para o Brasil).

 Pela Rodovia Mombasa, uma das principais do Leste Africano, os carros avançam devagar. O trânsito é lento o tempo todo. Perto da Land Rover blindada, transporte-padrão dos estrangeiros que vêm trabalhar no Quênia, segue um matatu, ônibus multicolorido que roda sobre velhos chassis de caminhão. A estrada corta a capital, Nairóbi. Vacas e cabras pastam no acostamento largo de terra batida e o esgoto segue a céu aberto por longos trechos. Muita gente caminha ao longo da estrada e o comércio de rua oferece quase tudo, de sofás, camas e fogões a lápides de cemitério. Alguns comerciantes, a pé, arriscam-se pelos vãos do trânsito para incentivar a compra. Gritam em swahili (o idioma oficial do país, junto com o inglês) ou em algum dos 43 dialetos locais. Conforme o carro se aproxima de um bairro elevado no centro da cidade, a paisagem começa a mudar.

A Land Rover avança por Upper Hill, onde se vê menos gente caminhando, mais árvores e muito mais obras em andamento. A área já foi mais residencial e abrigou principalmente brancos, executivos expatriados e diplomatas. Agora, o bairro se transforma. Operários e máquinas de construtoras chinesas duplicam vias e levantam novos edifícios comerciais. A demanda por espaço multiplicou por seis o preço do metro quadrado na área desde 2010. Upper Hill vem acomodando escritórios de companhias estrangeiras, investidores e pequenas empresas de base tecnológica. É o bairro da moda para quenianos e estrangeiros bem formados que querem criar novos negócios. Em comum, tentam resolver problemas locais – e enriquecer ao fazer isso. Tudo bem pedagógico para quem vive no Brasil. Os problemas e as oportunidades soam familiares: territórios extensos e pouco povoados, que exigem investimento em cobertura de telecomunicações e internet; lacunas sérias e potencial imenso para inovações em transporte, energia, saneamento, habitação, agronegócio; grande população jovem, pobre e mal instruída, porém culturalmente inventiva, receptiva a tecnologia e ansiosa por consumir. Para completar, o Quênia, especificamente, passa por um período que combina instabilidade política (emperrada por defeitos velhos) e efervescência empreendedora (acelerada por ideias novas). Quem chega do Brasil pode se sentir meio em casa.

No sexto andar de um desses novos edifícios envidraçados, o Senteu Plaza, fica o iHub, mistura de coworking e incubadora. É peça-chave para Nairóbi merecer o apelido de Savana do Silício. Tem fama de ambiente de inovação mais produtivo da África. Em sete anos de existência, abrigou 170 startups e gerou uma rede que conecta 17 mil profissionais. Começou em 2010, como projeto social de um grupo de jovens quenianos que queriam um espaço para trabalhar e discutir ideias. Operou graças a doações de fundações e empresários, como o francês Pierre Omidyar, fundador do eBay. Nessa fase, o iHub ajudava a treinar programadores e oferecia gratuitamente espaço a quem precisasse de internet rápida para montar seu negócio (sem fins lucrativos, o espaço também havia acumulado dívidas e gerado acusações de gestão ruim contra seus administradores). Em dezembro de 2017, o perfil mudou.

O iHub recebeu aporte de US$ 2 milhões da Invested Development, gestora de recursos dos Estados Unidos que investe exclusivamente em projetos de países em desenvolvimento, e tornou-se ele próprio um negócio com fins lucrativos.

Com o novo estatuto, seus gestores esperam acelerar a linha de produção de startups. “Estávamos recebendo mais de 200 pedidos por mês de gente querendo usar o espaço. Não dava para atender todo mundo apenas com doações”, diz Njoki Gichinga, diretora de parcerias do iHub, enquanto mostra as novas instalações. A infraestrutura para as empresas incubadas se espalha por 7 mil metros quadrados recém-inaugurados, decorados com tubulação hidráulica e elétrica expostas, paredes de tijolo aparente e luminárias em diferentes alturas. “Agora, temos estrutura muito melhor e condições de cumprir nossa missão – ser um polo de tecnologia para a África, reunindo gente com diferentes perfis, do mundo todo”, diz Njoki.

A comunidade de profissionais ligados à inovação ganha força em vários países africanos. Os setores em que trabalham seguem uma dinâmica particular, na contramão dos negócios tradicionais no continente. Nos últimos anos, caiu o fluxo de capital estrangeiro para a África. Isso ocorreu, entre outros motivos, por causa do fim do ciclo de valorização das mercadorias básicas, por volta de 2010 (o Quênia, por exemplo, exporta muito café e petróleo) e pela desaceleração da economia da China – um fenômeno que também afetou o Brasil. A comunidade tem outra história para contar, bem mais interessante.

Conforme secou o dinheiro para setores tradicionais, fluiu o investimento para nichos criativos. Só em 2016, startups africanas levantaram US$ 367 milhões, na estimativa da gestora Partech Ventures – valor quase dez vezes superior ao registrado quatro anos antes. O simples surgimento desse tipo de estimativa mostra uma mudança no jeito de avaliar a região. “Há tanta dificuldade [na África] de as pessoas terem acesso a serviços básicos, a produtividade é tão baixa, que as possibilidades de melhoria são inúmeras”, diz Miguel Granier, diretor-geral do Invested Development, o fundo que apostou no iHub e colocou US$ 20 milhões no continente. “Nos negócios, esses desafios se traduzem em ganhos exponenciais. Os riscos são altos, mas as perspectivas de lucro, gigantescas.”

Se os valores envolvidos parecem pequenos para os padrões do Vale do Silício, bastam para fazer florescer startups em países pobres. África do Sul e Nigéria, as maiores economias da África subsaariana, também têm cena empreendedora vibrante e costumam abocanhar, junto com o Quênia, as maiores fatias de capital vindo de fora do continente (numa rodada de investimento em 2015, a empresa de varejo online e de entregas Jumia, fundada na Nigéria por Tunde Kehinde e Raphael Afaedor, foi avaliada em mais de US$ 1 bilhão e tornou-se o primeiro unicórnio da África, bem antes de o Brasil ter o seu, o aplicativo de táxis 99). O exemplo do iHub fez surgir incubadoras em outras cidades quenianas, como a SwahiliBox, em Mombasa, e a Dlab Hub, em Eldoret. Unem-se a um ecossistema que inclui Wennovation e Co-Creation Hub, em Lagos, na Nigéria, blueMoon, em Adis-Abeba, na Etiópia, e Bandwidth Barn, na Cidade do Cabo, África do Sul. Não se trata de euforia local. Há consistência, percebida mundo afora.

Em dezembro, durante um encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou as inovações que vêm da África e ressaltou a importância de cultivar as iniciativas na região. “Além de ser uma oportunidade sem paralelo para a geração de empregos aos mais jovens, a inovação é uma forma eficiente de reduzir o hiato de infraestrutura do continente”, disse Christine. Ela destacou que a tecnologia “molda a África de agora” e que, com os investimentos corretos, “poderá ser a ferramenta mais poderosa para fortalecer a África do futuro”.

O FMI acompanha o Banco Mundial, que escolheu startups como um meio relativamente barato de fomentar o desenvolvimento na região. Em dezembro, por meio do infoDev, um programa que visa organizar e expandir negócios locais ligados à tecnologia, o banco selecionou 20 empresas (de 900 inscritas) para receber até US$ 1,5 milhão em investimentos de um grupo de sete fundos. “O total de inscrições e a qualidade dos casos apresentados são uma mostra de como as startups africanas podem ser competitivas e importantes para o crescimento da economia”, disse Klaus Tilmes, diretor de mercado e competitividade do Banco Mundial, durante a premiação. Destacaram-se fintechs, agritechs e empresas dedicadas a saúde e transportes. Uma nova rodada do infoDev deve acontecer em breve.

É preciso sempre dosar as expectativas, ao avaliar bons momentos em países subdesenvolvidos. Essas nações, com instituições e economias frágeis, costumam cambalear. No caso da África, estamos tratando do continente mais pobre do mundo, acossado por doença, violência, radicalismo e instabilidade política. Entre quenianos, há um debate público bem vivo – será que o ímpeto inovador pode perder o fôlego? É bem possível, dado o histórico de vaivéns comum em países emergentes. Basta lembrar a diferença entre o Brasil eufórico dos anos 2000 e a crise atual. Mas, por enquanto, os quenianos podem celebrar. O país avança há três anos seguidos no ranking Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios. Depois de perder posições, entre 2008 e 2013, o Quênia voltou a avançar e subiu da 129ª para a 80ª posição (ultrapassando o Brasil, que está em 125º). O bom momento, por enquanto, faz as histórias inspiradoras proliferarem mais rapidamente que as previsões pessimistas.

Casos de diferentes dimensões agitam a cena local. No ano passado, após receber investimento de US$ 4 milhões, a BRCK, do engenheiro e empreendedor Erik Hersman, lançou um roteador wi-fi à prova d’água e que se alimenta de energia solar. O equipamento ultrarresistente, projetado para uso em localidades isoladas na África, oferece até cem conexões de internet e consegue sustentar streaming de vídeo para 50 dispositivos no entorno. Sua em- presa já havia lançado um kit educativo que inclui tablets resistentes e com baixo consumo de energia. Os produtos receberam cobertura elogiosa da mídia, na Europa e nos Estados Unidos. Hersman é um dos integrantes da turma original de criadores do iHub e passou a infância entre Quênia e Sudão. Subindo os degraus da pirâmide de investimentos, encontram-se casos como o da plataforma B2B de comércio de alimentos Twiga Foods, criada por Peter Njonjo, que captou US$ 10,3 milhões em 2017, e o da M-Kopa Solar, que no ano passado foi apontada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, como uma das 50 startups mais inovadoras do mundo. A empresa criou um dispositivo de fornecimento pré-pago de energia solar, com manutenção baratíssima, após captar US$ 33 milhões em investimento, em 2015. A M-Kopa foi fundada por três executivos – os ingleses Chad Larson e Nick Hughes, com o canadense Jesse Moore – que haviam trabalhado por anos no Quênia, com telecomunicações e finanças, e decidiram empreender. Se o Quênia dispara startups em série, na Nigéria parece haver outra gigante em gestação, no rastro do unicórnio Jumia.

Trata-se da empresa de e-commerce Fashpa, fundada pela ex-executiva Honey Ogundeyi. Depois de viver anos na Europa, onde trabalhou em companhias como McKinsey, Ericsson e Google, Honey decidiu criar algo que ela mesma gostaria de ter encontrado quando voltou à Nigéria, em 2015 – um canal para compra de roupas online. Partiu de uma ideia simples e a incrementou, com análise de dados detalhada de suas potenciais consumidoras. Em vez de simples- mente revender peças, a Fashpa reuniu artesãs para fabricá-las, depois que Honey descobriu que valeria a pena trabalhar com design exclusivo e inspirado em peças tradicionais. “Logo, logo, teremos mais um unicórnio”, anuncia ela em seu blog, acompanhado por centenas de africanas.

As oportunidades vistas pelos empreendedores nativos não escapam do radar de companhias globais. Elas veem na África duas possibilidades atraentes – a primeira, a expansão de negócios num ritmo impensável em mercados maduros e mesmo na China (a África abriga seis das 12 economias que mais cresceram no mundo de 2014 a 2017, segundo o Banco Mundial); a segunda, um campo de testes de condições extremas para experimentar produtos e serviços.

Por isso o governo chinês apresentou no ano passado uma estratégia de investimento de US$ 60 bilhões no continente. Em 2017, a China superou os Estados Unidos como maior investidor na África, pelos cálculos do jornal britânico Financial Times. Apenas uma fração desse dinheiro vai para empreendimentos de base tecnológica. Mesmo assim, a dinâmica desses negócios parece ser mais benéfica aos africanos do que se pensava anteriormente. A consultoria McKinsey fez uma pesquisa de campo, no ano passado, em oito países africanos. Avaliou a atuação de companhias chinesas de diversos setores, como as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e de celulares Tecno. Concluiu que, na maioria dos casos, elas geram empregos de boa qualidade para africanos, inclusive em cargos de gestão, e que há transferência de tecnologia. Trata-se de uma versão distinta da apresentada pelos que viam o avanço da China apenas como uma nova onda colonialista.

Os mesmos fatores que atraem os chineses levam Microsoft, IBM, Google e Facebook, entre outras, a ter planos ambiciosos por lá. As quatro ajudaram o iHub no início e continuam a fazer parte do ecossistema – mas agora como parceiras de negócios em vez de doadoras. “Elas usam o iHub para prospectar novas oportunidades ou profissionais capacitados para alguns de seus empreendimentos pelo continente”, diz Njoki. Mark Zuckerberg visitou o espaço de co-working em 2016, ainda nas antigas instalações. Saiu de lá falando bem. “É inspirador ver como os engenheiros estão conseguindo criar soluções para ajudar a comunidade”, disse. Em outra parada, na Nigéria, país mais populoso da África, concluiu: “É aqui que o futuro será construído”.

O discurso tem tido resultados práticos. No ano passado, a Microsoft apresentou seu projeto de abrir, em 2018, seus dois primeiros data centers no continente, na Cidade do Cabo e em Johannesburgo, na África do Sul. Facebook e Google anunciaram planos independentes para instalar redes de fibra ótica – respectivamente, 800 quilômetros em Uganda, em parceria com as operadoras locais Airtel e BCS, e mil quilômetros em Gana (o Google já havia instalado outros mil quilômetros em Uganda). As duas empresas avaliam estratégias mais mirabolantes de oferecer cobertura de internet a grandes áreas com custo menor – já falaram em usar drones e balões. Enquanto avaliam essas possibilidades, porém, movimentam-se de forma pragmática, conectando cidades importantes com a boa e velha fibra ótica.

Ao mesmo tempo, a IBM cria um banco de dados sem igual a respeito de uso da água e recursos naturais por tribos no norte do Quênia. O trabalho é conduzido a partir de um centro de inovação em Nairóbi, com coordenação do cientista Jonathan Lenchner, que se instalou na cidade em 2016. Ele foi um dos responsáveis pelas demonstrações públicas da capacidade da inteligência artificial Watson e continua a usar IA em seu trabalho na África. Sua equipe em Nairóbi inclui a engenheira americana Aysha Walcott-Bryant. Parte da rotina dela é sair a campo em busca de dados sobre malária. “O maior desafio é convencer enfermeiras, agentes de saúde pública e a população em geral sobre a importância de preservar informações”, diz Aysha. “Ainda não há aplicação comercial para o que fazemos aqui”, diz Lenchner. “Mas a partir desse trabalho temos subsídios para muitas inovações.” Outra equipe, num centro de inovação similar, em Johannesburgo, África do Sul, estuda políticas de saúde e urbanismo. Os laboratórios da IBM na África produziram, em poucos anos, 22 patentes.

É nas micro finanças, porém, que a África subsaariana se mostra o maior front de experiências do mundo. A região abriga um décimo do total global de assinantes de telefonia móvel e segue com a maior taxa de crescimento no mundo, 6,5% ao ano, segundo a consultoria GSMA. Até 2020, haverá quase 1 bilhão de telefones, metade deles smartphones. O acesso a redes 4G, hoje ainda raro, deverá chegar a quase metade da população. A difusão de serviços móveis tem efeitos mensuráveis em bem-estar e crescimento econômico. Com 250 mil habitantes, Kawangware forma uma das maiores favelas de Nairóbi. As habitações são erguidas com placas de ferro, papelão ou barro. Não há rede de esgoto e o índice de violência é altíssimo. Os desafios para tocar um negócio ali são imensos. Mãe solteira, com duas filhas, Edi Mgaiga, de 33 anos, herdou do pai uma barraca, uma duka, em uma esquina. As dukas, geralmente informais, vendem frutas, vegetais, peixe seco, sabão em barra e arroz à comunidade local. Até pouco tempo, todo dia, antes de abrir a barraca, Edi tinha de fazer longas caminhadas até um kaskazi (espécie de atacadão) para comprar as mercadorias. Voltava com quilos de produtos nas costas, sob o risco de ser assaltada. “A violência é muito complicada por aqui”, conta Edi. “Tinha medo de pedir para minhas filhas fazerem isso. Mas o tempo que gastava para ir e vir do kaskazi era um tempo que eu deixava de vender. Ganhava menos.”

Recentemente, Edi descobriu o Kionect, um sistema que permite a pequenos comerciantes pedir e pagar por pedidos de produtos usando o celular. Agora, logo pela manhã, ela aciona o aplicativo, escolhe o que vai querer e em 20 minutos recebe um motoqueiro com suas mercadorias. “Estou achando uma maravilha”, diz Edi. Criado por iniciativa da Mastercard em parceria com uma startup especializada em micro finanças, a Musoni, o Kionect já atende a mais de mil dukas das regiões mais pobres de Nairóbi. “Foi um grande desafio desenvolver um produto viável economicamente e que pudesse ao mesmo tempo atender a população mais carente do país”, afirma Michael Elliott, vice-presidente da Mastercard para inclusão financeira. “Mas com essa experiência abrimos oportunidades para oferecer esse tipo de solução a vários outros mercados emergentes.” Iniciativas como o Kionect ajudam a fazer do Quênia uma referência mundial em meios de pagamento digitais. O caminho começou a ser traçado em 2007, quando a Safaricom, subsidiária da Vodafone e maior operadora do Quênia, lançou o M-Pesa. O serviço foi o primeiro do mundo a oferecer a comerciantes e clientes a possibilidade de pagar contas usando um aparelho de telefone, e contribuiu de forma decisiva para a inclusão financeira do país. Um estudo do MIT apontou que, simplesmente por ter acesso ao M-Pesa, 2% dos domicílios quenianos foram retirados da pobreza entre 2008 e 2014. Também graças ao M-Pesa o Quênia surgiu pela primeira vez no mapa das grandes empresas de tecnologia, e a África passou a se destacar como um bom destino para investimentos no setor. A alta conectividade (mesmo que por redes 2G e 3G) desempenha hoje um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico da África e é a principal plataforma para inovação em vários países. Não se pode dizer quanto vai durar bom momento, mas há algo em construção – multiplica-se rapidamente o número de ícones locais do empreendedorismo. “A inovação vem do conhecimento, geralmente é um processo que pode ser construído sobre experiências anteriores”, diz Kamal Bhattacharya CIO da operadora queniana Safaricom. Atual presidente do conselho de administração do iHub e mentor de várias startups africanas, Bhattacharya conta que ele próprio passou de incrédulo a entusiasta do movimento de inovação. “No começo, quando vi aqueles jovens em pufes coloridos, tomando café gratuito e discutindo aleatoriamente um monte de ideias, duvidei do que estava acontecendo”, diz. “Hoje, posso afirmar: não há time mais engajado para promover mudanças.”

Da varanda do iHub, Njoki aponta para a vista. “Não é bom estar aqui?”, pergunta. Ela mesma res- ponde: “Os ventos estão favoráveis. Havia espaço para evoluir e estamos abraçando essa possibilidade com todas as nossas forças”.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

Influência do ambiente sobre a percepção

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE SOBRE A PERCEPÇÃO

Psicólogos da Universidade Yale tentam descobrir como características dos lugares que frequentamos nos afetam; cientistas já constataram, por exemplo, que cômodos abafados e lotados costumam deixar as pessoas mais tensas.

 Muitos pesquisadores costumam torcer o nariz para assuntos como canais energéticos e cristais. Alguns chegam a admitir que embora não endossem essas práticas, preferem aguardar comprovações para se pronunciarem. Há, porém, prática não comprovada cientificamente – pelo menos por enquanto que desafiam os estudiosos. É o caso, por exemplo, do feng shui, a antiga arte chinesa da ambientação, baseada na crença de que o espaço, a distância e a disposição dos objetos podem afetar as emoções e a sensação de bem-estar. Pessoalmente, a ideia faz sentido para muita gente que se sente mais equilibrada psicologicamente em alguns espaços que em outros, embora não saiba por quê. Alguns pesquisadores já admitem a conexão entre o espaço físico, o pensamento e a emoção, considerando que nossos vínculos, muitas vezes, se misturam à percepção da geografia espacial.

Dois psicólogos da Universidade Yale, nos Estados Unidos, decidiram explorar o poder dessa habilidade em laboratório, para verificar se a influência emocional de um espaço ordenado e aberto é diferente do efeito causado por um ambiente fechado e apertado. Lawrence E. Williams e John A. Bargh investigaram o tema em uma série de experimentos. As pesquisas começaram com o chamado estímulo subliminar, usado para criar uma atitude ou sensação inconsciente. Foi empregada uma técnica simples e eficaz: as pessoas deviam dispor dois pontos em um gráfico, como em um pedaço de papel diagramado. Em alguns casos, as marcações estavam bem próximas, enquanto em outros os pontos apareciam em lugares distantes. Sabe-se que o exercício estimula a percepção inconsciente de espaço congestionado ou amplo.

Em seguida, os pesquisadores testaram os voluntários de outras formas. Em um dos procedimentos, por exemplo, os participantes deviam ler um trecho embaraçoso de um livro e, logo após, eram indagados se a passagem era agradável ou divertida e se gostariam de ler mais sobre o gênero. Williams e Bargh queriam determinar se o senso de distância ou liberdade psicológica podia anular o desconforto emocional. Foi exatamente isso que ocorreu. Os voluntários estimulados pelo ambiente espaçoso se mostraram menos perturbados pela experiência embaraçosa, considerando-a mais agradável do que aqueles que tiveram percepção mais opressiva do mundo.

Os psicólogos realizaram outra versão do mesmo experimento, na qual o trecho do livro era extremamente violento e não embaraçoso. Os resultados foram similares. Os participantes estimulados pelo espaço fechado consideraram os eventos violentos muito mais repugnantes, assim como achamos um acidente aéreo em nossa vizinhança mais perturbador que outro que ocorre a milhares de quilômetros de nós. Williams e Bargh acreditam que essa tendência está ligada às conexões do cérebro entre distância e segurança, um hábito mental que provavelmente evoluiu para ajudar nossos ancestrais a sobreviver em condições precárias.

COMIDA CALÓRICA

Os psicólogos também tentaram explorar mais diretamente a relação entre distância psicológica e perigo real. Os participantes deviam avaliar a quantidade de calorias contidas em alimentos saudáveis e em junk food. Os estudiosos conjeturaram que as calorias da batata frita e do chocolate seriam avaliadas como uma ameaça à saúde, diferentemente das calorias contidas no arroz integral e no iogurte; raciocinaram ainda que as pessoas estimuladas pelo espaço fechado seriam mais sensíveis à ameaça. A pesquisa confirmou essas expectativas: participantes levados a se sentir confinados e em espaços abarrotados avaliaram que havia mais calorias na junk food do que as estimuladas a se sentir livres e em espaços abertos. Quanto à comida saudável, a percepção dos dois grupos foi idêntica.

Publicada na Psychological Science, a pesquisa pareceu convincente. Mas Williams e Bargh decidiram realizar mais um experimento que abordasse diretamente a questão da segurança pessoal. Os pesquisadores perguntaram aos voluntários sobre a força de seus vínculos emocionais com os pais, irmãos e a cidade natal, verificando que os expostos a maior distância psicológica relataram elos frouxos com esses importantes esteios emocionais. Ou seja: a proximidade física revelou também maior ligação emocional. O notável é que tudo se dá de forma inconsciente: a distância espacial entre dois objetos arbitrários tem, aparentemente, força suficiente para ativar um símbolo abstrato de proximidade e segurança no cérebro, que, por sua vez, tem energia suficiente para moldar nossas respostas ao mundo.

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300