GESTÃO E CARREIRA

A revolução na educação executiva

A REVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO EXECUTIVA

Escolas de negócio tradicionais viram seus currículos do avesso para se manter relevantes em um mundo onde já é possível aprender (quase) tudo pela internet. Enquanto isso, as nascidas na era digital crescem e multiplicam seus lucros – e discípulos. Aonde vai dar a nova corrida pelo conhecimento.

Na era pré-smartphone – e lá se vai pouco mais de uma década –, tudo parecia mais fácil. A estrada rumo ao topo da pirâmide era sinalizada por meia dúzia de escolas de grife, cursos de línguas estrangeiras e temporadas no exterior. Para um trainee, a diferença entre o descarte do currículo e um telefonema do RH para a ambicionada entrevista poderia estar no inglês fluente e na chancela de “uma boa faculdade”. A fim de escapar do cruel funil das empresas, pais aconselhavam filhos a prestar concursos públicos (garantia de estabilidade) ou a se tornar profissionais liberais (garantia de prestígio). Sonhos de consumo, medicina, engenharia e direito garantiam status ad infinitum. Para quem se decidia por carreiras executivas, por vocação ou falta de alternativa, a saída era chegar “por baixo” à selva corporativa, coma certeza de que a promoção dependeria de outros fatores. Para a diretoria, um diploma de MBA sempre contou pontos decisivos. Melhor ainda se viesse com o brasão das top 10 do ranking do Financial Times. Harvard e Insead arrancavam suspiros de pares, recrutadores e chefias. Estudantes não tinham dúvida alguma sobre o retorno sobre o investimento, de tempo e dinheiro, a curto, médio e longo prazos. Conquistas escolares, portanto, exerciam efeito calmante na trajetória profissional, sustentavam cargos e mantinham a ordem e o progresso do lucrativo mercado de educação executiva.

Grosso modo, esse roteiro funcionou por décadas como o alarme do bedel (ok, vale um Google aqui). Agora, contudo, despontam inequívocos sinais de esgotamento. Em um momento de previsões nefastas sobre o futuro do trabalho e o progressivo desaparecimento dos empregos (800 milhões até 2030, segundo os cálculos da McKinsey) e de profissões tal qual as conhecemos hoje por conta do avanço da tecnologia, as garantias simplesmente aca-ba-ram. Para escolas, estudantes e empresas. A estrada deixou de ser linear e cedeu lugar ao sinuoso espectro das angústias. O escritor Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, capturou esse novo estado de ânimo: “Nem todos vão conseguir se reinventar. Até 2050 veremos o surgimento de uma nova classe, a dos inúteis”, escreveu, em artigo publicado no The Guardian e lido por milhões de usuários únicos na internet. Em um país como o Brasil, em que a taxa média de desemprego anual atingiu 12,7%, a maior da série histórica do IBGE, as apocalípticas palavras de Yuval atingem volume mais alto. O fantasma não é só o desemprego – e sim a completa inutilidade. E ronda cada escalão da vida corporativa. “O problema é que o modelo de educação tradicional foi construído segundo a lógica industrial. E isso não funciona mais”, pondera Pascal Finette, chefe do programa de empreendedorismo e inovação aberta da Singularity University (SU)

A SU foi fundada há dez anos, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, no auge da crise financeira internacional, e logo se tornou referência no ensino de inovação e tecnologia. Instalada no Vale do Silício, tem como investidores empresas como Google, Cisco e Nokia. O indiano Salim Ismail, ex-CEO da SU, ajudou a fazer a fama internacional da escola ao escrever o best-seller Organizações Exponenciais, em 2014. O lançamento foi sucedido por um boom de popularidade. No livro, ele fala sobre a competição entre empresas em um mundo que muda em altíssima velocidade – e em que concorrentes (leia se startups) podem devorar uma corporação antes mesmo desta se dar conta da existência deles. Sua mensagem central, de tom otimista, é que uma empresa pode multiplicar seu crescimento por dez com mudanças de gestão e tecnologia. Por isso, precisam de líderes que saibam fazê-las. No campus da SU, os alunos aprendem a pensar exponencialmente

em soluções para os grandes problemas da humanidade – e não necessariamente nos consumidores dos produtos da sua empresa. É com essa proposta, humanista, mas de forte viés tecnológico, focada em cursos curtos e corpo docente que muda a cada temporada, que a SU tem atraído a elite corporativa global para o seu campus, instalado numa base de pesquisa da Nasa. Dezenas de brasileiros, a exemplo de Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil, e Paula Bellizia, da Microsoft, já foram para lá ao custo de pequenas fortunas. Uma semana sai por US$ 14,5 mil. Os brasileiros, aliás, têm se tornado público cativo e, hoje, respondem por cerca de 20% da clientela. Não à toa, atraiu a atenção de grupos como HSM (o braço de educação executiva da Anima) e Mirach, de Porto Alegre, fundado por um dos embaixadores da SU, Francisco Milagres. Juntos, eles vão realizar o SU Global Summit, em São Paulo, em abril deste ano. O evento consumiu US$ 1 milhão em investimentos. “A Singularity é uma escola muito especial. Atrai os líderes porque tem um propósito claro: usar a tecnologia para gerar impacto na vida de milhões de pessoas”, diz o CEO da HSM, Guilherme Soárez, fazendo coro ao que é frequentemente dito por Diamandis.

No Brasil, a SU conta com seis embaixadores, em São Paulo, Recife, Brasília, Porto Alegre, Uberlândia e Belo Horizonte. “Durante uma semana, aprendi mais do que em um ano inteiro”, diz Conrado Schlochauer, ex-aluno da escola e, agora, o seu embaixador paulista. Por lá, as disciplinas que pautam o programa acadêmico são bem diferentes das encontradas nas tradicionais escolas de negócio: neurociências, genética, inteligência artificial, cyber segurança. Ex-CEO do LinkedIn no Brasil, Osvaldo Barbosa diz ter voltado da SU com a cabeça bem mais aberta. “Saí com conhecimentos sobre aspectos do setor de tecnologia que nunca tinha reparado antes, ainda que tenha dedicado toda a minha carreira à área”, afirma ele, que voltou ao Brasil para estruturar um fundo de investimento em startups. A Singularity também subverte a ideia clássica que temos a respeito de um professor, e recruta biomédicos, hackers, gerontologistas e astronautas, com uma quedinha por empreendedores. Todos são entusiastas do que vem por aí, desde que façamos a nossa parte. Em um trecho do documentário The University, que conta a história da escola, o ex-astronauta e professor de robótica da SU, Dan Barry, diz: “Você está preocupado, achando que os robôs vão dominar o mundo? Se você sair da sala e trancá-los, 99% deles não vão conseguir sair. Vão bater na porta até ficar sem bateria”. Mas alerta. “Não se esqueça de que eles têm potencial.” O lançamento dos cursos da SU no Brasil, no fim do ano passado, foi feito à boca pequena, mas lotou o auditório da IBM em uma noite quente de dezembro, em São Paulo. Na plateia, formada pela “galera exponencial” de potenciais interessados, como diziam os organizadores, estava o executivo Jean Saghaard, 44 anos, que há um ano procura recolocação. Com experiência no mercado financeiro e no de educação, além de um MBA da HEC, de Paris, na bagagem, Jean explica o que o atraiu. “A Singularity goza das mesmas vantagens de uma startup. Foi criada com um modelo voltado para o futuro. Nas escolas tradicionais, a inovação acaba sendo incremental. O currículo não muda na velocidade necessária. Por isso, fico muito mais tentado a estudar lá que reprisar um MBA”, afirma Jean. Ele acabou de fazer um curso de Digital Product Leadership, com a duração de dois meses, no Tera, uma edtech (como são chamadas as novas startups de educação) com um cardápio de cursos inteiramente voltado para novas habilidades digitais. Fundada pelo empreendedor Leandro Herrera, 32 anos, a Tera aposta em um novo modelo para ensinar “habilidades do século 21” para seus alunos. Um dos mais populares é o Boot Camp, em que o aluno desenvolve competências em pouco tempo e de forma bastante pragmática: o formato atende quem tem por objetivo encontrar emprego em novas carreiras. Dois exemplos: cientista de dados e designer de experiência do usuário (UX). “Você não vai achar um programador com MBA em negócios. Um MBA para designer UX faz zero diferença. O mercado de tecnologia não olha para títulos, e sim para capacidade de entrega”, diz Herrera, que fundou há pouco mais de um ano a escola, que está, segundo ele, em franca expansão. Na mesma praia está a Gama Academy, de Guilherme Junqueira, 29 anos. Sua startup só atua sob demanda de empresas que não estão conseguindo encontrar os profissionais certos no mercado. “O mundo andou mais rápido que as escolas normais, e as empresas não conseguem achar pessoas com o perfil que precisam. É aí que eu entro”, diz Junqueira. Depois de ser reconhecido como o melhor professor da pós-graduação do Insper, uma das escolas de negócio mais prestigiadas do Brasil, Liao Yu Chieh, 41 anos, também decidiu fundar a sua própria edtech, a Idea9, plataforma de treinamento corporativo. Funciona como um Netflix empresarial. A diferença é que tanto empresas quanto alunos pagam pelo acesso aos conteúdos. “Vi que existia um gap no mercado para habilidades específicas, e que as universidades não teriam condições de oferecer os cursos na velocidade que os executivos precisam”, diz Liao, que já colocou módulos inteiros no WhatsApp.

Uma outra modalidade de ensino que tem crescido substancialmente são os MOOCs, ou massive open online courses (veja quadro na pág. 64). Nesse caso, os cursos são oferecidos em plataformas online, de forma gratuita ou a baixo custo. É o caso da Coursera, da edX (fruto de uma parceria entre MIT e Harvard) e da Udacity. Navegar pelo menu de ofertas dessas plataformas é uma experiência interessante. Os temas que desfilam na tela são bitcoin, python, ciências de dados… Destaque para uma diferença fundamental: é o próprio aluno quem monta o roteiro de aprendizado, e não a escola. “O objetivo é oferecer flexibilidade e personalização”, diz o CEO da edX, Anant Agarwal. Ao final, o aluno não recebe um só diploma, válido para a vida inteira, e sim um “nanodegree”. A intenção é que os estudantes colecionem tantos micro certificados quanto forem necessários ao longo de sua carreira.

Responsabilizar os alunos, e não somente os professores, pelo aprendizado, é a pegada da Hyper Island, da Suécia (veja entrevista exclusiva com a CEO, Sofia Wingren, na pág. 70), que ganhou o honroso apelido de Harvard Digital. Aqui, contudo, o foco não são habilidades técnicas, e sim os chamados soft skills, como a capacidade de adaptação mencionada por Finette no início desta reportagem. A Hyper chegou ao Brasil há quatro anos. Não tem sede física (exceto na Suécia, Reino Unido e Cingapura), professores fixos ou grades curriculares. Oferece workshops, consultoria e as chamadas máster classes, que duram não mais de três dias e têm por público-alvo executivos de alto escalão de diferentes indústrias. Seus instrutores não são celebridades do mundo acadêmico. Podem muito bem ser mágicos, performers e até crianças. As aulas são sempre diferentes, uma “experiência”. “Nós entendemos que 50% do conhecimento está entre os próprios alunos. E os ensinamos a fazer as perguntas certas”, diz a guatemalteca Nathalie Trutmann, diretora-executiva da Hyper Island para a América Latina. Apesar da curta duração, os cursos de três dias chegam a custar mais de US$ 3mil. “A experiência que oferecemos é um produto de luxo”, diz Nathalie, que tem em sua lista de clientes empresas como Itaú, Bayer, Gerdau e Philips. Dona ela mesma de um MBA no Insead, Nathalie explica que os executivos chegam pautados pela urgência da “transformação digital”. “O C-Level vem até nós em busca da realidade prática, e não de teoria”, diz. A abordagem tem dado certo: só no ano passado, a escola viu o interesse dos brasileiros dobrar. Mais de 2 mil executivos passaram por seus treinamentos. Entre eles, Enzo Devoto, vice-presidente de marketing para a América Latina da Unilever, entusiasta do método. “A Hyper é o melhor parceiro para te ajudar a hackear o seu negócio e ter sucesso em um mundo volátil”, diz Enzo, usando um verbo moderninho. Faz alusão à sigla VUCA, usada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) dos tempos atuais.

Assim como a Hyper Island, a Berlin School of Creative Leadership começou fazendo sucesso entre a turma da economia criativa antes de conquistar alunos de outras indústrias. No Brasil desde o início de 2017, a escola alemã foi fundada em 2006 por um grupo de executivos que se diziam cansados da “tirania da mediocridade”. Entre eles, o publicitário Michael Conrad. Neste ano, a escola deve colocar em prática o conceito de Co-Teaching, em que empreendedores digitais trocam conhecimento com profissionais criativos. “Aprender é um processo de interação”, afirma a CEO, Susann Schronen. O MBA da Berlin School custa ¤ 55 mil.

Um ativo importante embutido no preço de todas essas escolas é a potencial rede de contatos formada pelo aluno durante as “experiências”. Não importa apenas o que você está aprendendo, mas com quem está aprendendo. Uma grande sacada é misturar profissionais de diferentes indústrias, até então acostumados a conviver somente em seus silos. Ao colocá-los em um mesmo barco para viver experiências “memoráveis”, são construídos laços profissionais mais fortes. Com todo mundo junto e misturado, forma-se uma comunidade que, em certa medida, aplaca a angústia trazida pelo VUCA.

A startup Knowledge Exchange Sessions (KES) foi idealizada justamente para tocar nesse nervo, explicam os sócios-fundadores Maria Juliana Giraldo e Ricardo Al Makul, ambos sem experiência prévia em educação, mas muita em marketing. “A essência da nossa proposta é a troca de conhecimento entre os próprios alunos”, afirma Maria, enquanto celebra o terceiro ano de vida da empresa. “Até ontem, isso era um ppt”, brinca, em meio a dezenas de executivos, de CEOs a conselheiros de empresas, que pagaram R$ 22 mil (combo válido para duas pessoas) pelo “trek” de seis palestras, incluindo a de Finette. No terraço, enquanto esperam que o guru comece a falar sobre startups, eles trocam cartões e aproveitam a farta mesa do café da manhã. Garçons servem espumante; à mesa, há frutas, doces, diversos tipos de pães e até um panetone gigante, intocado. Além das palestras com “figurões digitais”, o cardápio inclui viagens para o Vale do Silício e Tel-Aviv, ao custo de US$ 6 mil per capita. “Estamos dando certo porque não ficamos presos aos modelos engessados das escolas de negócios”, diz Makul. No começo deste mês, mais um grupo partiu rumo ao Vale – entre eles, Arthur Grynbaum, CEO de O Boticário. Um alto executivo que preferiu não se identificar baixou a voz e cochichou para a reportagem: “Se eu não aprender nada, pelo menos aumento as chances de emprego”.

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 Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.