ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 15-20

O Sermão da Montanha

Temos aqui uma advertência contra os falsos profetas. Devemos prestar atenção para não sermos enganados ou nos deixar impressionar por eles. Profetas são aqueles que preveem as coisas que vão acontecer. Existem alguns, mencionados no Antigo Testamento, que tinham a pretensão de fazer previsões, sem dar nenhuma garantia, e os acontecimentos desmentiram as suas pretensões; dentre eles, estão Zedequias (1 Reis 22.11) e um outro Zedequias (Jeremias 29.21). Os profetas também ensinavam ao povo o seu dever, de modo que os falsos profetas mencionados aqui também eram falsos mestres. Cristo, que além de Messias era um Profeta e um Mestre enviado por Deus com a missão de enviar outros mestres que com Ele aprendessem, está nos advertindo a prestar atenção nos impostores. Ao invés de terem a pretensão de curar as almas com uma doutrina saudável, eles não fazem mais do que envenená-las.

Os falsos mestres e os falsos profetas:

  1. São todos aqueles que afirmam ter certas incumbências, não as tendo. Aqueles que fingem que possuem garantia e orientação imediatas, supostamente enviadas por Deus e divinamente inspiradas; eles estão mentindo. Embora sua doutrina possa ser verdadeira, devemos ter cuidado, pois são falsos profetas. Falsos apóstolos são aqueles que dizem ser apóstolos, mas estão mentindo (Apocalipse 2.2); eles são falsos profetas. “Tome cuidado com aqueles que fingem ter revelações; não os aceite sem provas suficientes, para que um absurdo não seja aceito, seguido de outra centena deles”.
  2. São todos aqueles que pregam uma falsa doutrina sobre tudo aquilo que é essencial à religião. Que ensinam aquilo que é contrário à verdade que está em Jesus, a verdade que está de acordo com a santidade. A primeira dissertação parece ser a verdadeira noção do que é um pseudoprofeta, ou de alguém que finge ser um profeta, enquanto geralmente a última também está de acordo com ela. Pois aquele que exibe cores falsas, a pretexto delas, e com maior sucesso, ataca a verdade. “Tenha cuidado com eles, suspeite deles e, quando tiver descoberto sua falsidade, afaste-se e nada tenha a ver com eles. Fique em guarda contra essa tentação, que nos é geralmente dirigida nos dias da reforma, e do alvorecer de uma luz divina que possui imensa força e esplendor”. Quando a obra de Deus é reavivada, Satanás e seus agentes ficam mais ocupados. Aqui temos:

I – Uma boa razão para ter esse cuidado. Tenha cuidado com eles, pois são lobos vestidos como ovelhas (v. 15).

  1. Precisamos ter muito cuidado por que suas pretensões são muito justas e plausíveis e, assim sendo, irão nos enganar se não estivermos em guarda. Eles aparecem vestidos como ovelhas, usando a mesma vestimenta dos profetas, que era simples, grosseira e tosca. Usarão trajes rudes para enganar (Zacarias 13.4). A Septuaginta chama o manto de Elias de manto de pele de ovelha. Devemos prestar atenção para não sermos iludidos com as vestes e a aparência dos homens, como as dos escribas, que preferiam andar usando vestes longas (Lucas 20.46). Ou, falando figurativamente, eles pretendem ser cordeiros, e externamente parecem ser totalmente inocentes, inofensivos, humildes, úteis e tudo mais que é bom, e se colocam acima de todos os homens. Eles fingem ser homens justos e, por causa da sua aparência, são aceitos entre as ovelhas e isso lhes dá a oportunidade de fazer-lhes o mal sem que ninguém perceba. Eles e suas mentiras estão cercados de ilusórias pretensões de santidade e devoção. Satanás se transforma num anjo de luz (2 Coríntios 11.13,14). O inimigo tem chifre s como um cordeiro (Ap13.11), e as feições de um homem (Apocalipse 9.7,8). Sua linguagem é sedutora e suas maneiras são suaves como a lã (Romanos 16.18; Isaias 30.10).
  2. Também precisamos ter muito cuidado porque sob essas pretensões seus desígnios são mal-intencionados e enganadores e, no seu interior, eles não passam de lobos devoradores. Todo hipócrita a é um lobo com pele de ovelha. Ele não é uma ovelha, mas o seu pior inimigo, que aparece apenas para destruir, devorar e espantar as ovelhas (João 10.12), para levá-las para longe das suas companheiras e de Deus, conduzidas por atalhos tortuosos. Aqueles que pretendem nos enganar com qualquer verdade, e nos dominam com terror, sob qualquer que seja seu propósito, têm a intenção de fazer mal à nossa alma. Paulo dá a eles o nome de lobos cruéis (Atos 20.29). Eles são glutões e servem ao próprio ventre (Roma 16.18), eles lucram conosco e fazem de nós a sua presa. Como isso é muito fácil, e também muito perigoso, tenha cuidado com os falsos profetas.

II – Eis aqui uma boa regra para ser obedecida em nossos cuidados; devemos examinar todas as coisas (1 Tessalonicenses 5.21), e provar todos os espíritos (1 João 4.1). Aqui temos uma prova fundamental, iremos conhecê-los pelos seus frutos (vv. 16-20). Observe:

  1. O exemplo dessa comparação – o fruto serve para revelar a árvore. Nem sempre podemos distinguir a árvore pelo tronco ou pelas folhas, nem pela distribuição dos seus ramos. Somente através dos frutos ficaremos conhecendo a sua natureza, pois o fruto está de acordo com a árvore. Os homens podem, através da sua religião, influir na sua natureza e contradizer princípios interiores, porém a corrente e a inclinação das suas práticas estarão de acordo com ela. Cristo insistiu nesse ponto, sobre a concordância entre a, árvore e o seu fruto.

(1) Se você conhece a árvore, sabe também qual fruto deve esperar. Nunca procure colher uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos. Não faz parte da sua natureza produzir esses frutos. Podemos confundir uma maçã, e um cacho de uvas pode estar pendurado num espinheiro, da mesma maneira que uma boa verdade, ou uma boa palavra ou ação, podem ser encontradas num homem mau, mas esteja certo de que elas nunca nasceram lá. Veja bem:

[1] Corações corruptos, malvados e pecadores são como o espinheiro e o abrolho, que vieram com o pecado, esses corações são inúteis, inquietos e destinados ao fogo.

[2] As boas obras são como os bons frutos, como as uvas e os figos, elas são agradáveis a Deus e proveitosas ao homem.

[3] Nunca podemos esperar um bom fruto de um homem mau, e coisas limpas de coisas impuras, pois a eles falta a influência de um princípio reconhecido. Um mau tesouro irá produzir coisas más.

 (2) Por outro lado, se você conhecer como o fruto é, poderá conhecer como é a árvore que o produziu. Uma boa árvore não poderá produzir maus frutos, assim como uma árvore corrompida não poderá produzir bons frutos, mas apenas frutos maus. Devemos considerar o fruto que é produzido natural e genuinamente por uma árvore, e de forma constante e abundante. Os homens não são conhecidos através de atos particulares, mas pelo curso e teor da sua conduta e pelos atos praticados com mais frequência, especialmente aqueles que parecem ser livres, próprios e isentos da influência de qualquer persuasão ou motivos externos.

  1. A aplicação dessas verdades aos falsos profetas.
  • Através do terror e da ameaça (v. 1 9). Toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada. O próprio João Batista usou essa citação (cap. 3.10). Cristo poderia ter falado a mesma coisa com outras palavras, poderia ter feito alguma alteração ou lhe dado um a nova forma. Mas acreditou que não havia nenhum descrédito para Ele se repetisse o que João Batista havia afirmado antes. Os ministros não devem ser ambiciosos a ponto de produzir novas expressões, nem o ouvido das pessoas ansiar por novidades. Falar e escrever as mesmas coisas não deve ser penoso, pois é mais seguro. Eis aqui:

[1] A descrição de árvores estéreis, árvores que não produzem bons, frutos. Embora os frutos possam existir, se não forem bons a árvore será considerada estéril. Mesmo que as ações representadas por estes frutos sejam provenientes de boas intenções, elas não serão aceitáveis se não forem realizadas da maneira correta, e com os propósitos corretos.

[2] O destino das árvores estéreis. Elas certamente serão cortadas e lançadas ao fogo. Deus irá fazer com eles o mesmo que o homem faz com as árvores secas que ocupam inutilmente terreno. Ele irá marcá-los com algum sinal da sua insatisfação, despindo-os das suas partes e dos seus dons, irá abatê-los até a morte e lançá-los ao fogo do inferno, um fogo atiçado com a ira de Deus e alimentado com a madeira das árvores estéreis. Compare isso com Ezequiel 31.12,13; Daniel 4.14; João 15.6.

  • Através do julgamento. Pelos seus frutos iremos conhecê-los.
  • Pelos seus frutos como pessoas, isto é, suas palavras e atos, e pelo curso da sua conduta. Se você não sabe se estão certos ou errados, observe como vivem. Suas obras irão testificar a favor ou contra eles. Os escribas e fariseus sentavam-se na cadeira de Moisés e ensinavam a lei, mas eram orgulhosos, falsos, opressores e cobiçosos, portanto Cristo preveniu os apóstolos para tomar cuidado com eles e com sua influência (Marcos 12.38). Se os homens fingem ser profetas, mas são imorais, isso irá contradizer as suas pretensões. Qualquer que seja a religião que professam, se o deus a que servem estiver no seu ventre, se só pensarem nas coisas terrenas, não serão verdadeiros amigos da cruz de Cristo (Filipenses 18,19). Não foram ensinados, nem enviados pelo Deus Santo, e suas vidas provam que são guiados por um espírito imundo. Deus coloca tesouros em vasos de barro, mas não em vasos corrompidos como estes. Eles podem declarar os estatutos de Deus, mas de que mane ira devem fazê-lo?
  • Através dos frutos da sua doutrina, dos seus frutos como profetas. Porém, essa não é a única maneira de provar sua doutrina, sejam eles enviados por Deus ou não. O que eles tendem a fazer? A quais sentimentos ou práticas guiarão aqueles que os aceitam? Se a doutrina for de Deus, ela promoverá uma sincera piedade, humildade, caridade, santidade e amor, além de outras virtudes cristãs. Mas, se ao contrário, as doutrinas pregadas por esses profetas revelarem uma manifesta tendência para tornar as pessoas orgulhosas, mundanas e provocadoras, negligentes e descuidadas em suas condutas, injustas, exigentes, revoltadas ou perturbadoras da ordem pública, se elas toleram a liberdade sexual, e afastam as pessoas do autocontrole e das suas famílias, de acordo com as rigorosas leis do caminho estreito, podemos concluir que essa persuasão não vem daquele que nos chamou (Gálatas 5.8). Essa sabedoria não vem do alto (Tiago 15). A fé e uma boa consciência sempre caminham juntas (1 Timóteo 1.19; 3.9). Veja que as doutrinas de duvidosa controvérsia devem ser comprovadas através de graças e deveres devidamente confessados. Essas opiniões não vêm de Deus e levam ao pecado. Se não pudermos conhecê-los pelos seus frutos, devemos recorrer à grande pedra fundamental, à lei e ao testemunho. Será que eles falam de acordo com essa regra?

GESTÃO E CARREIRA

A revolução na educação executiva

A REVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO EXECUTIVA

Escolas de negócio tradicionais viram seus currículos do avesso para se manter relevantes em um mundo onde já é possível aprender (quase) tudo pela internet. Enquanto isso, as nascidas na era digital crescem e multiplicam seus lucros – e discípulos. Aonde vai dar a nova corrida pelo conhecimento.

Na era pré-smartphone – e lá se vai pouco mais de uma década –, tudo parecia mais fácil. A estrada rumo ao topo da pirâmide era sinalizada por meia dúzia de escolas de grife, cursos de línguas estrangeiras e temporadas no exterior. Para um trainee, a diferença entre o descarte do currículo e um telefonema do RH para a ambicionada entrevista poderia estar no inglês fluente e na chancela de “uma boa faculdade”. A fim de escapar do cruel funil das empresas, pais aconselhavam filhos a prestar concursos públicos (garantia de estabilidade) ou a se tornar profissionais liberais (garantia de prestígio). Sonhos de consumo, medicina, engenharia e direito garantiam status ad infinitum. Para quem se decidia por carreiras executivas, por vocação ou falta de alternativa, a saída era chegar “por baixo” à selva corporativa, coma certeza de que a promoção dependeria de outros fatores. Para a diretoria, um diploma de MBA sempre contou pontos decisivos. Melhor ainda se viesse com o brasão das top 10 do ranking do Financial Times. Harvard e Insead arrancavam suspiros de pares, recrutadores e chefias. Estudantes não tinham dúvida alguma sobre o retorno sobre o investimento, de tempo e dinheiro, a curto, médio e longo prazos. Conquistas escolares, portanto, exerciam efeito calmante na trajetória profissional, sustentavam cargos e mantinham a ordem e o progresso do lucrativo mercado de educação executiva.

Grosso modo, esse roteiro funcionou por décadas como o alarme do bedel (ok, vale um Google aqui). Agora, contudo, despontam inequívocos sinais de esgotamento. Em um momento de previsões nefastas sobre o futuro do trabalho e o progressivo desaparecimento dos empregos (800 milhões até 2030, segundo os cálculos da McKinsey) e de profissões tal qual as conhecemos hoje por conta do avanço da tecnologia, as garantias simplesmente aca-ba-ram. Para escolas, estudantes e empresas. A estrada deixou de ser linear e cedeu lugar ao sinuoso espectro das angústias. O escritor Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, capturou esse novo estado de ânimo: “Nem todos vão conseguir se reinventar. Até 2050 veremos o surgimento de uma nova classe, a dos inúteis”, escreveu, em artigo publicado no The Guardian e lido por milhões de usuários únicos na internet. Em um país como o Brasil, em que a taxa média de desemprego anual atingiu 12,7%, a maior da série histórica do IBGE, as apocalípticas palavras de Yuval atingem volume mais alto. O fantasma não é só o desemprego – e sim a completa inutilidade. E ronda cada escalão da vida corporativa. “O problema é que o modelo de educação tradicional foi construído segundo a lógica industrial. E isso não funciona mais”, pondera Pascal Finette, chefe do programa de empreendedorismo e inovação aberta da Singularity University (SU)

A SU foi fundada há dez anos, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, no auge da crise financeira internacional, e logo se tornou referência no ensino de inovação e tecnologia. Instalada no Vale do Silício, tem como investidores empresas como Google, Cisco e Nokia. O indiano Salim Ismail, ex-CEO da SU, ajudou a fazer a fama internacional da escola ao escrever o best-seller Organizações Exponenciais, em 2014. O lançamento foi sucedido por um boom de popularidade. No livro, ele fala sobre a competição entre empresas em um mundo que muda em altíssima velocidade – e em que concorrentes (leia se startups) podem devorar uma corporação antes mesmo desta se dar conta da existência deles. Sua mensagem central, de tom otimista, é que uma empresa pode multiplicar seu crescimento por dez com mudanças de gestão e tecnologia. Por isso, precisam de líderes que saibam fazê-las. No campus da SU, os alunos aprendem a pensar exponencialmente

em soluções para os grandes problemas da humanidade – e não necessariamente nos consumidores dos produtos da sua empresa. É com essa proposta, humanista, mas de forte viés tecnológico, focada em cursos curtos e corpo docente que muda a cada temporada, que a SU tem atraído a elite corporativa global para o seu campus, instalado numa base de pesquisa da Nasa. Dezenas de brasileiros, a exemplo de Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil, e Paula Bellizia, da Microsoft, já foram para lá ao custo de pequenas fortunas. Uma semana sai por US$ 14,5 mil. Os brasileiros, aliás, têm se tornado público cativo e, hoje, respondem por cerca de 20% da clientela. Não à toa, atraiu a atenção de grupos como HSM (o braço de educação executiva da Anima) e Mirach, de Porto Alegre, fundado por um dos embaixadores da SU, Francisco Milagres. Juntos, eles vão realizar o SU Global Summit, em São Paulo, em abril deste ano. O evento consumiu US$ 1 milhão em investimentos. “A Singularity é uma escola muito especial. Atrai os líderes porque tem um propósito claro: usar a tecnologia para gerar impacto na vida de milhões de pessoas”, diz o CEO da HSM, Guilherme Soárez, fazendo coro ao que é frequentemente dito por Diamandis.

No Brasil, a SU conta com seis embaixadores, em São Paulo, Recife, Brasília, Porto Alegre, Uberlândia e Belo Horizonte. “Durante uma semana, aprendi mais do que em um ano inteiro”, diz Conrado Schlochauer, ex-aluno da escola e, agora, o seu embaixador paulista. Por lá, as disciplinas que pautam o programa acadêmico são bem diferentes das encontradas nas tradicionais escolas de negócio: neurociências, genética, inteligência artificial, cyber segurança. Ex-CEO do LinkedIn no Brasil, Osvaldo Barbosa diz ter voltado da SU com a cabeça bem mais aberta. “Saí com conhecimentos sobre aspectos do setor de tecnologia que nunca tinha reparado antes, ainda que tenha dedicado toda a minha carreira à área”, afirma ele, que voltou ao Brasil para estruturar um fundo de investimento em startups. A Singularity também subverte a ideia clássica que temos a respeito de um professor, e recruta biomédicos, hackers, gerontologistas e astronautas, com uma quedinha por empreendedores. Todos são entusiastas do que vem por aí, desde que façamos a nossa parte. Em um trecho do documentário The University, que conta a história da escola, o ex-astronauta e professor de robótica da SU, Dan Barry, diz: “Você está preocupado, achando que os robôs vão dominar o mundo? Se você sair da sala e trancá-los, 99% deles não vão conseguir sair. Vão bater na porta até ficar sem bateria”. Mas alerta. “Não se esqueça de que eles têm potencial.” O lançamento dos cursos da SU no Brasil, no fim do ano passado, foi feito à boca pequena, mas lotou o auditório da IBM em uma noite quente de dezembro, em São Paulo. Na plateia, formada pela “galera exponencial” de potenciais interessados, como diziam os organizadores, estava o executivo Jean Saghaard, 44 anos, que há um ano procura recolocação. Com experiência no mercado financeiro e no de educação, além de um MBA da HEC, de Paris, na bagagem, Jean explica o que o atraiu. “A Singularity goza das mesmas vantagens de uma startup. Foi criada com um modelo voltado para o futuro. Nas escolas tradicionais, a inovação acaba sendo incremental. O currículo não muda na velocidade necessária. Por isso, fico muito mais tentado a estudar lá que reprisar um MBA”, afirma Jean. Ele acabou de fazer um curso de Digital Product Leadership, com a duração de dois meses, no Tera, uma edtech (como são chamadas as novas startups de educação) com um cardápio de cursos inteiramente voltado para novas habilidades digitais. Fundada pelo empreendedor Leandro Herrera, 32 anos, a Tera aposta em um novo modelo para ensinar “habilidades do século 21” para seus alunos. Um dos mais populares é o Boot Camp, em que o aluno desenvolve competências em pouco tempo e de forma bastante pragmática: o formato atende quem tem por objetivo encontrar emprego em novas carreiras. Dois exemplos: cientista de dados e designer de experiência do usuário (UX). “Você não vai achar um programador com MBA em negócios. Um MBA para designer UX faz zero diferença. O mercado de tecnologia não olha para títulos, e sim para capacidade de entrega”, diz Herrera, que fundou há pouco mais de um ano a escola, que está, segundo ele, em franca expansão. Na mesma praia está a Gama Academy, de Guilherme Junqueira, 29 anos. Sua startup só atua sob demanda de empresas que não estão conseguindo encontrar os profissionais certos no mercado. “O mundo andou mais rápido que as escolas normais, e as empresas não conseguem achar pessoas com o perfil que precisam. É aí que eu entro”, diz Junqueira. Depois de ser reconhecido como o melhor professor da pós-graduação do Insper, uma das escolas de negócio mais prestigiadas do Brasil, Liao Yu Chieh, 41 anos, também decidiu fundar a sua própria edtech, a Idea9, plataforma de treinamento corporativo. Funciona como um Netflix empresarial. A diferença é que tanto empresas quanto alunos pagam pelo acesso aos conteúdos. “Vi que existia um gap no mercado para habilidades específicas, e que as universidades não teriam condições de oferecer os cursos na velocidade que os executivos precisam”, diz Liao, que já colocou módulos inteiros no WhatsApp.

Uma outra modalidade de ensino que tem crescido substancialmente são os MOOCs, ou massive open online courses (veja quadro na pág. 64). Nesse caso, os cursos são oferecidos em plataformas online, de forma gratuita ou a baixo custo. É o caso da Coursera, da edX (fruto de uma parceria entre MIT e Harvard) e da Udacity. Navegar pelo menu de ofertas dessas plataformas é uma experiência interessante. Os temas que desfilam na tela são bitcoin, python, ciências de dados… Destaque para uma diferença fundamental: é o próprio aluno quem monta o roteiro de aprendizado, e não a escola. “O objetivo é oferecer flexibilidade e personalização”, diz o CEO da edX, Anant Agarwal. Ao final, o aluno não recebe um só diploma, válido para a vida inteira, e sim um “nanodegree”. A intenção é que os estudantes colecionem tantos micro certificados quanto forem necessários ao longo de sua carreira.

Responsabilizar os alunos, e não somente os professores, pelo aprendizado, é a pegada da Hyper Island, da Suécia (veja entrevista exclusiva com a CEO, Sofia Wingren, na pág. 70), que ganhou o honroso apelido de Harvard Digital. Aqui, contudo, o foco não são habilidades técnicas, e sim os chamados soft skills, como a capacidade de adaptação mencionada por Finette no início desta reportagem. A Hyper chegou ao Brasil há quatro anos. Não tem sede física (exceto na Suécia, Reino Unido e Cingapura), professores fixos ou grades curriculares. Oferece workshops, consultoria e as chamadas máster classes, que duram não mais de três dias e têm por público-alvo executivos de alto escalão de diferentes indústrias. Seus instrutores não são celebridades do mundo acadêmico. Podem muito bem ser mágicos, performers e até crianças. As aulas são sempre diferentes, uma “experiência”. “Nós entendemos que 50% do conhecimento está entre os próprios alunos. E os ensinamos a fazer as perguntas certas”, diz a guatemalteca Nathalie Trutmann, diretora-executiva da Hyper Island para a América Latina. Apesar da curta duração, os cursos de três dias chegam a custar mais de US$ 3mil. “A experiência que oferecemos é um produto de luxo”, diz Nathalie, que tem em sua lista de clientes empresas como Itaú, Bayer, Gerdau e Philips. Dona ela mesma de um MBA no Insead, Nathalie explica que os executivos chegam pautados pela urgência da “transformação digital”. “O C-Level vem até nós em busca da realidade prática, e não de teoria”, diz. A abordagem tem dado certo: só no ano passado, a escola viu o interesse dos brasileiros dobrar. Mais de 2 mil executivos passaram por seus treinamentos. Entre eles, Enzo Devoto, vice-presidente de marketing para a América Latina da Unilever, entusiasta do método. “A Hyper é o melhor parceiro para te ajudar a hackear o seu negócio e ter sucesso em um mundo volátil”, diz Enzo, usando um verbo moderninho. Faz alusão à sigla VUCA, usada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) dos tempos atuais.

Assim como a Hyper Island, a Berlin School of Creative Leadership começou fazendo sucesso entre a turma da economia criativa antes de conquistar alunos de outras indústrias. No Brasil desde o início de 2017, a escola alemã foi fundada em 2006 por um grupo de executivos que se diziam cansados da “tirania da mediocridade”. Entre eles, o publicitário Michael Conrad. Neste ano, a escola deve colocar em prática o conceito de Co-Teaching, em que empreendedores digitais trocam conhecimento com profissionais criativos. “Aprender é um processo de interação”, afirma a CEO, Susann Schronen. O MBA da Berlin School custa ¤ 55 mil.

Um ativo importante embutido no preço de todas essas escolas é a potencial rede de contatos formada pelo aluno durante as “experiências”. Não importa apenas o que você está aprendendo, mas com quem está aprendendo. Uma grande sacada é misturar profissionais de diferentes indústrias, até então acostumados a conviver somente em seus silos. Ao colocá-los em um mesmo barco para viver experiências “memoráveis”, são construídos laços profissionais mais fortes. Com todo mundo junto e misturado, forma-se uma comunidade que, em certa medida, aplaca a angústia trazida pelo VUCA.

A startup Knowledge Exchange Sessions (KES) foi idealizada justamente para tocar nesse nervo, explicam os sócios-fundadores Maria Juliana Giraldo e Ricardo Al Makul, ambos sem experiência prévia em educação, mas muita em marketing. “A essência da nossa proposta é a troca de conhecimento entre os próprios alunos”, afirma Maria, enquanto celebra o terceiro ano de vida da empresa. “Até ontem, isso era um ppt”, brinca, em meio a dezenas de executivos, de CEOs a conselheiros de empresas, que pagaram R$ 22 mil (combo válido para duas pessoas) pelo “trek” de seis palestras, incluindo a de Finette. No terraço, enquanto esperam que o guru comece a falar sobre startups, eles trocam cartões e aproveitam a farta mesa do café da manhã. Garçons servem espumante; à mesa, há frutas, doces, diversos tipos de pães e até um panetone gigante, intocado. Além das palestras com “figurões digitais”, o cardápio inclui viagens para o Vale do Silício e Tel-Aviv, ao custo de US$ 6 mil per capita. “Estamos dando certo porque não ficamos presos aos modelos engessados das escolas de negócios”, diz Makul. No começo deste mês, mais um grupo partiu rumo ao Vale – entre eles, Arthur Grynbaum, CEO de O Boticário. Um alto executivo que preferiu não se identificar baixou a voz e cochichou para a reportagem: “Se eu não aprender nada, pelo menos aumento as chances de emprego”.

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 Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Na cabeça de quem voltou da morte

EQM – NA CABEÇA DE QUEM VOLTOU DA MORTE  

O fenômeno fascina leigos com relatos da visão do próprio corpo observado do teto, imagens de túneis que levam à luz e o encontro com parentes e amigos já falecidos. Para psicólogos, médicos e neurocientistas, esse estado de consciência tão específico, relatado por pessoas em todo o planeta, pode revelar informações importantes sobre o funcionamento do cérebro e da mente.

Em 1943, Georgie Ritchie escreveu o livro Voltar do amanhã (Nórdica, 1980), no qual conta que, quando era um jovem soldado, foi convocado para se apresentar num batalhão cuja sede ficava no meio do deserto. Durante vários dias foi açoitado por uma tempestade de areia e contraiu pneumonia, numa época em que ainda não havia antibióticos. Após um período de febre intensa e violentas dores no peito, foi declarado morto e colocado num pequeno cubículo, envolvido por lençóis. Um enfermeiro, porém, convenceu o médico de plantão a aplicar uma injeção de adrenalina no coração do jovem soldado. Depois de ter estado “morto” durante nove minutos, Ritchie recobrou a consciência, para grande espanto de todos, e confessou que durante esse tempo viveu uma experiência intensa, da qual se lembrava perfeitamente bem.

No início ele evitava falar sobre o assunto, pois temia a opinião alheia. Mais tarde escreveu o livro sobre o que lhe aconteceu naqueles nove minutos. Posteriormente, formou-se em medicina e fez residência em psiquiatria. Tornou-se professor e passou a evocar sua experiência durante as aulas. Um desses futuros médicos, Raymond Moody, ficou de tal forma intrigado com o relato de Ritchie que começou a pesquisar o que poderia se passar com os pacientes durante situações críticas. Em 1975, Moody publicou A vida depois da vida (Butterfly Editora, 2004), na qual cunhou o termo near death experience – em português, experiência de quase morte (EQM).

Depois do relato de Moody, numerosos casos de EQM foram descritos na literatura médica. O cardiologista holandês Pin van Lommel, autor de Consciousness beyond life: the science of the near-death experience (Harper, 2010), publicou em 2001 na revista The Lancet uma série de 344 casos de EQM num estudo prospectivo em hospitais da Holanda. Van Lommel e sua equipe revisaram os prontuários e ouviram o relato desses pacientes. Foram analisados o tempo de parada cardiorrespiratória (PCR), as drogas utilizadas na reanimação e o resultado dos exames realizados no período de reanimação.

Ao publicar seu primeiro livro, em 1975, Moody descreveu os elementos característicos das EQMs, enfatizando que a maior parte das pessoas experimenta apenas alguns deles. Cada EQM é uma experiência única, vivida de forma coerente, e não como uma série de elementos distintos. A ordem em que as vivências são citadas pode variar. Há trabalhos comparativos entre os elementos descritos antes e depois de 1975. Esses estudos procuraram averiguar se a enorme publicidade dada ao livro de Moody teria influenciado o conteúdo dos relatos de EQM. Autores concluíram que os relatos são semelhantes, exceto talvez a referência ao túnel, menos frequentemente citado antes de 1975. Mas as EQMs e seus efeitos sobre as pessoas que a vivenciaram parecem ser os mesmos no mundo inteiro. Algumas poucas diferenças podem ser atribuídas à cultura. Um estudo transcultural mostra que alguns elementos, como o filme da vida do sujeito e a experiência do túnel, são menos comumente relatados pelas populações indígenas da América do Norte, da Austrália e das ilhas do Pacífico Sul.

POR QUE ISSO ACONTECE?

Várias hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno. Em 2001, o doutor em medicina Sam Parnia e seus colaboradores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, realizaram estudo prospectivo de EQMs ocorridas durante PCR. Durante um ano, eles entrevistaram sobreviventes das unidades coronariana e de emergência do Hospital Geral de Southampton. Dos 63 pacientes ouvidos, apenas sete (11%) do total relataram alguma memória do momento da reanimação, dos quais quatro preencheram os critérios para EQM (6,3%), e a citaram como agradável. Embora o estudo de Parnia não obtivesse um número de pacientes com EQM suficiente para comparações estatísticas, houve uma pequena diferença entre os grupos quanto aos níveis médios de sódio e potássio, pressão parcial de CO2 (pCO2) ou medicamentos administrados durante a parada cardíaca. Curiosamente, pessoas que passaram por EQMs tiveram pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (pO2) duas vezes mais elevada do que no grupo de controle.

No amplo trabalho prospectivo realizado por Van Lommel, também em 2001, foram analisados 344 pacientes em dez hospitais da Holanda. Todos estiveram clinicamente mortos e foram submetidos à ressuscitação cardiorrespiratória (RCR) bem-sucedida. Do total, 62 (18%) relataram alguma recordação durante o tempo de morte clínica, 21 (6%) tiveram uma EQM superficial e 41 (12%), EQM significativa. Entre estes últimos, 23 (7%) relataram EQM profunda ou muito profunda. Van Lommel não conseguiu associar nenhuma causa psicológica, neurofisiológica ou farmacológica para explicar a experiência.

Em pesquisa publicada em 2003, o pesquisador da Universidade de Michigan Bruce Greyson, autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs, entrevistou pacientes nos primeiros seis dias de internação na unidade de tratamento cardíaco e na unidade semi-intensiva de cardiologia do Hospital da Universidade da Virgínia. Dos 1.595 incluídos na amostra, 27 (2%) preencheram os critérios para a EQM. Daqueles que relataram EQM, 41% tiveram parada cardíaca, 26%, infarto do miocárdio, 22%, angina instável e 11%, outros diagnósticos cardíacos. Dos 105 com parada cardíaca, 10% tiveram EQM; outros 81 (5%) descreveram EQM que ocorreram durante um episódio anterior que envolveu risco de vida. Greyson não encontrou nenhuma correlação entre várias medidas médicas, incluindo proximidade objetiva da morte (por exemplo, perda de sinais vitais), índice de prognóstico coronariano e classificação da função cardíaca com a incidência de EQMs. No entanto, os pacientes internados com parada cardíaca relataram, de forma enfática, mais EQMs (10%) do que os pacientes internados com outros diagnósticos cardíacos (3%).

A alteração de oxigênio e gás carbônico ocorrida durante a parada cardíaca em pacientes que tiveram EQM foi pesquisada por Klemenc-Ketis e colaboradores da Universidade de Maribor, na Eslovênia, em 2010. Eles pesquisaram medidas de pressão parcial de CO2 exalado no final da expiração (petCO2), pCO2, pO2 e níveis de sódio e de potássio séricos. Pacientes com petCO2 e pCO2 mais elevados relataram significativamente mais EQM. As pontuações das EQMs também foram positivamente correlacionadas com os níveis de pCO2 e potássio sérico. Os pacientes com pO2 mais baixo tiveram mais EQM, porém a diferença não foi expressiva.

Citado por Van Lommel, um dos mais emblemáticos casos de EQM se refere a uma jovem mulher que, operada de um aneurisma cerebral, teve uma EQM profunda na cirurgia. Durante o procedimento, seu corpo foi resfriado e foi realizada circulação extracorpórea. Ela estava sob efeito de anestesia geral, os olhos estavam cobertos por bandagens para evitar ressecamento e foram colocados tampões nos ouvidos. Apesar de não ter nenhuma atividade elétrica cortical e no tronco encefálico, a paciente passou por uma profunda EQM. Ela se surpreendeu ao ver que um médico tentava realizar algum procedimento na região de sua virilha direita e o ouviu dizer ao neurocirurgião que “não estava conseguindo…”. Seu interlocutor sugeriu então que ele que fosse para o outro lado da mesa cirúrgica. Tratava-se da canalização da artéria femoral para realizar a circulação extracorpórea. A moça havia sido informada de que sua cabeça seria aberta com uma serra, mas o que viu na mão do médico foi um objeto parecido com sua escova de dentes elétrica. Ela descreveu inúmeras situações ocorridas na sala de cirurgia – as quais, estando ela anestesiada, com o corpo resfriado, o coração parado e o cérebro inativado, jamais poderiam ter sido percebidas. A equipe cirúrgica confirmou todos os relatos, embora nenhum profissional conseguisse explicar como a jovem pôde ter acesso a todas essas informações.

A mais abrangente pesquisa sobre EQM realizada até o momento foi o estudo multicêntrico dirigido por Sam Parnia, diretor do The Human Consciousness Project, da Universidade de Southampton, o AWARE (Awareness during Resuscitation), concluído em 2008 e publicado em 2014. Durante quatro anos foram entrevistados 2.060 sobreviventes de parada cardíaca em 15 hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Todos foram submetidos a testes específicos com o propósito de identificar a incidência e a validade de relatos de consciência durante parada cardíaca. Para avaliar a precisão das alegações de percepção visual durante a parada cardíaca, cada hospital instalou entre 50 e 100 prateleiras em áreas onde a ressuscitação de paradas cardíacas era considerada provável de ocorrer. Cada prateleira continha uma imagem apenas visível acima dela. Estas imagens foram instaladas para permitir a avaliação de relatos de consciência visual.

Entre as 2.060 pessoas, 140 sobreviventes fizeram as entrevistas da fase 1, enquanto 101 dos 140 pacientes completaram a etapa 2. Do total, 46% relataram memórias com sete temas cognitivos principais: medo; animais/ plantas; luz brilhante; violência/perseguição; déjà-vu; família; recordações de eventos pós-parada cardíaca. Apenas 9% tiveram EQM e 2% descreveram a recordação explícita de ver e ouvir eventos reais relacionados à sua ressuscitação. Entre os que apresentaram EQM não houve registro de pacientes que contaram ter visto os alvos colocados nas prateleiras. O argumento para a não visualização desses objetos é que 78% das paradas cardíacas ocorreram em locais onde não havia prateleiras com alvos previamente colocados.

Os autores do estudo concluíram que os sobreviventes de parada cardíaca vivenciaram ampla gama de memórias após PCR, incluindo experiências assustadoras e persecutórias, e que tiveram momentos em que acreditavam estar conscientes. Os pesquisadores reconhecem, porém, que outros estudos são necessários para delinear o papel explícito e implícito da parada cardíaca e seu impacto na ocorrência de eventuais transtornos de estresse pós-traumático (TEPT) entre os sobreviventes.

PESSOAS CEGAS

Os doutores em psicologia Sharon Cooper, professora da Universidade de Nova York, e o professor Kennety Ring, da Universidade de Connecticut, cofundador e ex-presidente da Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte, analisaram vários casos de pessoas cegas que relataram o fenômeno. Um dos casos é o de Vicki Umipeg, uma mulher de 43 anos, moradora do estado de Washington, que teve duas EQMs. A primeira, quando ela tinha 12 anos de idade, ocorreu em 12 de fevereiro de 1962, quando teve uma crise de apendicite e peritonite. A segunda foi quase exatamente uma década depois, na noite de 2 de fevereiro de 1973, quando foi gravemente ferida num acidente de automóvel.

Vicki nasceu prematura, com apenas 1,5 kg, na 22a semana de gestação. Como era comum ocorrer com crianças prematuras na metade do século 20, foi colocada numa incubadora para administração de oxigênio, mas houve falha na regulagem da quantidade de oxigênio e Vicki recebeu uma dose excessiva, que provocou lesão definitiva nos nervos ópticos dos dois olhos. Em razão disso, ela nunca teve experiência visual durante toda a sua vida.

Das duas EQMs, a mais vívida e detalhada foi a ocorrida aos 22 anos. No início de 1973, Vicki, trabalhava eventualmente como cantora em uma casa noturna em Seattle. Uma noite, após a apresentação, ela não conseguiu chamar um taxi para levá-la para casa. A única opção era aceitar carona do casal de patrões, embora ambos estivessem embriagados. Na viagem ocorreu um sério acidente e Vicki foi jogada para fora do veículo. Sofreu fratura de crânio e concussão cerebral, lesões no pescoço e nas costas e quebrou uma perna.

Vicki lembra-se claramente dos segundos que antecederam o acidente, mas tem lembranças nebulosas de ter estado “fora do corpo” – foi quando diz ter visto, de vislumbre, o veículo amassado. Foi nesse momento que ela afirma ter tido a sensação de que se encontrava num corpo não físico “como se fosse feito de luz”. Ela não se recorda da sua ida para o hospital na ambulância, mas, quando chegou à sala de emergência, recobrou a consciência e estava no teto do cômodo, assistindo a um médico e a uma mulher (ela não soube especificar se era médica ou enfermeira) trabalhando em seu corpo. Ela ouvia a conversa entre eles, que comentavam a ocorrência de um possível dano do tímpano e falavam do receio de que, além de cega, ela se tornasse surda. Vicki tentou desesperadamente se comunicar com eles dizendo que estava bem, mas obviamente não obteve resposta. Ela estava consciente de ver o próprio corpo abaixo dela.

Ela primeiro percebeu uma imagem muito fraca de si mesma deitada na maca de metal e estava segura de que fosse ela, embora tenha levado um momento para registrar esse fato com certeza. Em seu relato diz: “Sabia que era eu… Eu era muito magra, na época. Era muito alta e magra. E eu reconheci que era um corpo, mas nem sabia que era o meu, inicialmente. Quando eu percebi, estava no teto e pensei: ‘Isso é meio estranho. O que estou fazendo aqui em cima? ’. Em seguida pensei: “Bem, este deve ser eu, será que estou morta”? ’. Só vi esse corpo brevemente, sabia que era o meu porque eu estava fora dele. Eu estava longe dele”.

Ela relata que depois disso se viu subindo pelo teto do hospital até que alcançou do telhado do edifício. Desfrutou da vista panorâmica e sentiu-se inundada por uma intensa sensação de alegria, liberdade e movimento. Em seguida se deu conta de que ouvia uma música harmoniosa, bastante agradável, “semelhante ao som de sinos ao vento” e percebeu que estava sendo sugada pela cabeça para dentro de um túnel. “O lugar era escuro, mas estava ciente de que me movia em direção a uma luz”, diz.

Quando alcançou a abertura do túnel, a música que tinha ouvido antes se transformara em hino (semelhante ao que ela escutou anos mais tarde, na EQM posterior). Então ela “rolou para fora” e deu-se conta de que estava deitada na grama. Estava rodeada por árvores e flores e grande número de pessoas, em um lugar de intensa luz, que podia sentir tão bem quanto ver. Até as pessoas que ela viu eram brilhantes. “A luz transmitia paz, amor e era como se isso viesse do ambiente, dos pássaros e das árvores.”

Vicki então tomou consciência da presença de pessoas que ela havia conhecido em vida e a estavam acolhendo naquele lugar. Havia cinco pessoas já falecidas que ela conhecera. Diane e Debby eram colegas cegas da escola, com 6 e 11 anos, respectivamente, na época de sua morte. Além de cegas, ambas tinham um retardo mental profundo, mas agora pareciam brilhantes, belas, saudáveis – e muito vivas. E já não eram crianças. Vicki distinguiu ainda um casal de cuidadores seus na infância, o senhor e senhora Zilk. Finalmente, Vicki viu sua avó, que se aproximou para abraçá-la. Vicki disse que, nesses encontros, nenhuma palavra foi dita: mas tinha consciência dos sentimentos de amor e bem-estar. No meio desse arrebatamento, ela de repente foi dominada por uma sensação de conhecimento total. “Tive a impressão de que sabia tudo e de que tudo fazia sentido. Eu só sabia que este era o lugar onde eu iria encontrar as respostas para todas as perguntas sobre a vida, sobre os planetas, sobre Deus e sobre tudo… Era como se o lugar fosse o próprio conhecimento.”

Ela relata que, em dado momento, se viu na presença de um “ser de luz”, profundamente amoroso, que lhe mostrou uma espécie de filme de toda a sua vida e a advertiu de que ela deveria voltar. “Em seguida, fui conduzida de volta ao meu corpo, que estava terrivelmente doloroso, muito pesado, e me lembro que eu me senti muito mal.”.

O ponto mais discutível na EQM de Vicki e de todos os pacientes cegos de nascença é a questão de como alguém que nunca teve experiência da visão possa, de repente, ver – e compreender o que está vendo. O cego de nascença tem a experiência das formas (pois pode tocar), do olfato, da audição e das palavras, mas nunca viu absolutamente nada. E nem sequer tem a experiência do que significa ver. Em última análise, pode-se perguntar como uma pessoa em coma devido a graves lesões cerebrais, cega desde o nascimento, pode ter visões tão nítidas, algumas das quais puderam ser comprovadas. O que se sabe com certeza é que os relatos de pessoas cegas que passaram por EQM constituem um desafio para a ciência e nos obriga a repensar o que sabemos sobre consciência e cérebro.

CASOS DE EPILEPSIA

Pacientes com epilepsia do lobo temporal têm sido objeto de estudo por apresentarem manifestações críticas parecidas com as descritas em EQM. Os doutores em psicologia e neurociência Willoughby B. Britton e Richard R. Bootzim, da Universidade do Arizona, analisaram 43 pacientes com epilepsia temporal, dos quais 23 apresentaram EQM com pontuação mínima na escala de Greyson.

Um trabalho publicado na Nature por Olaf Blanke, diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Instituto Cérebro-Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, teve grande repercussão nos meios científicos e na mídia em geral. Ele descreveu o caso de uma paciente epiléptica que, após estimulação elétrica do córtex do giro angular, viveu a sensação de sair do corpo. Como ela se viu no teto do centro cirúrgico, mas teve uma visão deformada de suas pernas, o fenômeno é chamado pelos especialistas de “incompleto”.

Em outro artigo, Blanke propôs uma nova explicação neurológica para esse fenômeno. O pesquisador descreveu seis pacientes, três com relatos de saídas do corpo atípicas e incompletas, que não tiveram percepção “a partir do teto” de elementos verificáveis concernentes a eles mesmos ou ao ambiente. Quatro deles relataram ter tido a visão de seu próprio duplo a partir do seu corpo. Blanke considerou a de corporação como “uma ilusão causada pela disfunção temporária ou lesão no lobo temporal e ou parietal”.

O pesquisador Michael Persinger, que realizou grande número de experimentos de estimulação magnética transcraniana, afirma ter desencadeado fenômenos psíquicos causados pelo bloqueio ou pela estimulação de campos eletromagnéticos do cérebro. Os fenômenos são episódios próximos do sonho, semimísticos, com luz ou música e sensação da presença de outros seres. Essas informações guardam alguma semelhança com as descrições de uma EQM. Por outro lado, o trabalho de Persinger não foi corroborado por experimentos semelhantes realizados na Suécia, onde os pacientes nem sequer sabiam que seriam estimulados.

SOB EFEITO DE DROGAS

Apesar de intensos esforços de cientistas, nenhum estudo esclarece completamente ainda como um indivíduo é capaz de manter a consciência de forma aguda ou mais alerta em uma situação de quase morte. Mas algumas situações são capazes de provocar experiências parecidas, como o aumento de concentração sanguínea de CO2 (hipercapnia) e a hipóxia cerebral por baixa perfusão sanguínea resultante da aceleração rápida de pilotos de avião, bem como a hiperventilação seguida por manobra de Valsava (diminuição do fluxo sanguíneo venoso para o coração, o que faz com que os batimentos sejam acelerados e a pressão arterial se eleve de modo a não faltar sangue e oxigênio para o cérebro; para pessoas saudáveis e treinadas, essa manobra não traz nenhuma consequência prejudicial).

O efeito foi constatado também após a ingestão de algumas drogas, como ketamina. O papel das endorfinas, das encefalinas e da serotonina também tem sido mencionado, da mesma forma que experiências fora do corpo foram relatadas com o uso de LSD, psilocarpina e mescalina. Essas vivências induzidas podem consistir em períodos de inconsciência, sensação de estar fora si, flash ou luzes e recordações de cenas do passado. Tais lembranças, no entanto, consistem em fragmentos e memórias aleatórias, e não em uma revisão panorâmica da própria vida relatada durante a EQM. Por outro lado, a transformação pessoal do modo de vida e a perda do medo da morte raramente ocorrem nas situações induzidas. É sabido que drogas de fato podem produzir efeitos alucinógenos e sensações muito parecidas com as descrições de pessoas que tiveram EQM. É o caso do LSD e da dimetiltriptamina (DMT), porém, no caso desta última, os efeitos são muito breves porque é rapidamente decomposta pelo organismo.

Pim van Lommel enfatiza que é muito provável que o DMT naturalmente produzido pelo corpo pode ter papel importante na experiência de consciência ampliada durante EQM. Sua liberação, provocada ou estimulada por acontecimentos dos quais temos consciência, reduziria as inibições naturais de nosso organismo e proporcionaria a ampliação da consciência – como se ela fosse capaz de bloquear ou interromper a interface entre consciência e corpo (e cérebro). O autor salienta que o zinco é indispensável à síntese da serotonina e outras substâncias do mesmo tipo, como o DMT, por exemplo. Com o avançar da idade, a taxa desse metal no organismo diminui – o que talvez ajude a explicar o fato de que a taxa de EQM diminui com a idade. Tudo indica, no entanto, que algum outro mecanismo neurofisiológico desconhecido e neuro-humoral, no nível subcelular do cérebro, pode exercer papel importante em situações críticas, como a morte clínica.

Com a falta de evidências ou outra teoria sobre EQM, a ideia até agora assumida – mas nunca comprovada – de que a consciência e as memórias estão localizadas no cérebro deve ser discutida. Como poderia uma consciência claramente fora do corpo ser experimentada no momento em que o cérebro já não funciona durante um período de morte clínica, sem registro de atividade elétrica no cérebro? Por outro lado, durante parada cardíaca, o eletroencefalograma (EEG) torna-se isoelétrico, na maioria dos casos, após dez segundos do início da síncope. Além disso, pessoas cegas descreveram a percepção visual durante experiências fora do corpo no momento dessa vivência. As EQMs vão ao limite das ideias médicas a respeito da consciência e da relação mente-cérebro. Alguns autores, entretanto, admitem que as experiências de quase morte podem ocorrer em decorrência do estado de mudança da consciência, no qual a identidade, a cognição e a emoção funcionam independentemente do corpo inconsciente, mas retêm a possibilidade de percepção não sensorial. Qualquer que seja a explicação para os relatos de EQM, o fato é que os conhecimentos atuais excluem a possibilidade de formular uma teoria integrada para explicar esse fenômeno, o que deve servir de motivação e estímulo para novas pesquisas.

O QUE É EQM?

Uma experiência de quase morte (EQM) é a lembrança (recontada) de todas as impressões experimentadas durante um estado de consciência particular, marcada por elementos específicos como visão de túnel, luz, filme da própria vida, personagens mortos ou associados ao momento da reanimação. Segundo o médico Pim van Lommel, esse estado mental pode se produzir durante uma parada cardíaca, o chamado período de morte clínica, mas também durante uma doença grave ou mesmo sem causa médica aparente. A experiência provoca quase sempre mudanças essenciais e duráveis na atitude da pessoa em relação à vida, incluindo a perda do medo da morte.

Trata-se de uma vivência altamente subjetiva e pessoal, mas fatores individuais, culturais e religiosos determinam a maneira como esses fenômenos são descritos e interpretados. Uma criança provavelmente não empregaria as mesmas palavras que um adulto, e o testemunho de um cristão certamente é diferente do de um budista ou de um agnóstico.

“As experiências de quase morte são eventos psicológicos profundos, contendo elementos transcendentais e místicos, que se produzem geralmente nos indivíduos próximos da morte ou em situação de dano físico ou emocional grave”, diz o psiquiatra Bruce Greyson, pesquisador da Universidade de Michigan e autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs.

MEMÓRIAS DO OUTRO LADO

Na cabeça de quem voltou da morte3

Moody e outros autores destacam pontos em comum encontrados nos relatos de pessoas que passaram por essa situação.

  • Apesar de os pacientes estarem em situação de doença grave ou acidente, a sensação emocional prevalente é de bem-estar, paz e alegria.
  • A atividade mental se torna mais aguçada; a lembrança é clara e as pessoas têm a convicção de que ela é até mais real do que as vividas no estado de vigília.
  • Ainda assim, apresentam dificuldade para explicar a vivência e relatam que não conseguem expressar com palavras a amplitude do que viveram.
  • Pessoas se referem à sensação de viver experiências fora do corpo (EFCs) como se observassem “de fora de si” eventos que transcorreram próximos a elas ou em um local distante
  • Muitos falam de ter, em algum momento, passado por uma região de escuridão ou por um túnel sem luz.
  • É frequente citarem que, após essa travessia pela escuridão, veem um cenário de grande beleza.
  • Geralmente, em algum momento da experiência encontram parentes e amigos já falecidos.
  • Fazem referência a uma luz extraordinariamente brilhante que, no entanto, não ofusca a visão, às vezes percebida como um “ser de luz” que emana aceitação, amor incondicional e pode comunicar-se telepaticamente – Pacientes costumam se lembrar de ver e reviver acontecimentos importantes e incidentais de sua vida como se fosse um filme.
  • Em dado momento da vivência, percebem que chegaram a uma espécie de fronteira além da qual não podem ir.
  • Têm a sensação de ter “retornado” ao corpo físico de forma involuntária, algo muitas vezes vivido com desagrado, dada a paz que sentiam antes.

FELIPE LEAL é psiquiatra, mestrando em antropologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

MATEUS SILVESTRIN é psicólogo, mestrado em neurociência e cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

RAQUEL GIACÓIA LEAL é psiquiatra do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise (Nesme).

EDSON AMÂNCIO é neurocirurgião, pós-graduado pela Unifesp. Os autores agradecem ao físico teórico Carlos de Moura Ribeiro Mendes as inúmeras sugestões e o entusiasmo com esta publicação.