PSICOLOGIA ANALÍTICA

Bem mais que 5 sentidos

BEM MAIS QUE 5 SENTIDOS

Não importa quantas “portas sensoriais” temos. Atualmente, cientistas acreditam que o que realmente conta é a maneira como nos relacionamos com essas capacidades, como se fosse uma espécie de “valor agregado” que o cérebro confere aos dados sensoriais brutos – e envolve não só sensações, mas também memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

Quantos sentidos você tem? É muito provável que tenha respondido cinco, com base numa ideia que vem desde os tempos de Aristóteles e ainda é muito presente na cultura popular. Mas é preciso saber que sua resposta está equivocada. Tente pegar um cubo de gelo com uma das mãos e um garfo aquecido com a outra e poderá comprovar que tato é pouco para descrever as duas sensações. Ande num trem-fantasma, desses que existem nos parques temáticos, e diga se tudo o que vivenciou pode ser explicado apenas com a visão, a audição e o toque. Não há dúvida de que nossos sentidos não cabem apenas em cinco categorias. No entanto, determinar quantos são depende de como entendemos os sistemas sensoriais.

Uma possibilidade é classificá-los segundo a natureza do estímulo. Assim, haveria apenas três tipos, em vez de cinco: mecânico (tato e audição), luminoso (visão) e químico (gustação, olfação). Alguns animais também contam com a eletro recepção. Esses três grupos de sensações exigem sistemas sensoriais bem diferentes. Algo que se dissolve na língua, produz um aroma que penetra no nariz e se encaixa em um receptor não tem nada a ver com o movimento de uma célula pilosa no ouvido interno ou com um fóton que atinge a retina.

Em geral, estamos cientes de nossa capacidade de sentir as variações de temperatura e de pressão, a posição das articulações (propriocepção), o movimento corporal (cinestesia), o equilíbrio e outras sensações, como sede ou estômago vazio. Mas existem outros sistemas de monitoração dos quais nunca teremos a menor noção, como a detecção do PH do fluido cerebrospinal ou do nível de glicose na circulação.

Também poderíamos, com a mesma facilidade, definir “sentido” como um sistema formado por um tipo celular especializado que reage a um sinal específico e se reporta a certa parte do cérebro. Assim, o paladar não seria único sentido, teria quatro divisões, cada uma voltada para a distinção de um sabor: doce, salgado, azedo e amargo. Os neurologistas classificam a dor como cutânea, somática ou visceral, dependendo de onde é sentida, mas isso significa que estariam em diferentes sistemas sensoriais ou que seria simplesmente uma questão de geografia corporal?

Considere o exemplo da audição. Seria um único sentido ou várias centenas, um para cada célula pilosa coclear? Talvez isso seja levar as coisas um pouco longe demais, mas é interessante notar que podemos perder a audição de alta frequência sem perder a acuidade de baixa frequência e vice-versa. Portanto, talvez devêssemos pensar nelas separadamente. À medida que estudamos em detalhes as estruturas dos órgãos sensoriais, parece que temos cada vez mais sentidos.

Entretanto, por mais intrigante que tudo isso seja, a sensação sozinha não é realmente tão importante assim. Quando falamos de sentidos, o que realmente queremos dizer são sensações ou percepções. Do contrário, não estaríamos muito acima do nível de uma ameba ou de uma planta. A maioria dos seres vivos se vira muito bem com apenas dois canais sensoriais: tato e luz (não necessariamente visão). Uma planta cujo crescimento segue a luminosidade está meramente reagindo mecanicamente a um estímulo.

Já os humanos veem luzes e sombras. Além disso, percebemos objetos e pessoas e suas respectivas posições no espaço. Ouvimos sons e identificamos vozes, músicas ou diversos ruídos. Sentimos o gosto ou o cheiro de uma complexa mistura de sinais químicos, e sabemos reconhecer a diferença entre um sorvete, uma laranja ou uma berinjela. A percepção é o “valor agregado” que o cérebro organizado confere aos dados sensoriais brutos. Ela vai muito além da paleta de sensações e envolve memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

ESCUTA SELETIVA

O que ouvimos, por exemplo, é bem mais que o simples somatório de sons coletados por cada ouvido. Vários processos entram em cena, alguns dos quais permitem que o cérebro identifique de onde vem o barulho. Filtros complexos nos permitem barrar um tipo de som enquanto prestamos atenção a outro. No conhecido “fenômeno da festa”, por exemplo, ignoramos todos os ruídos irrelevantes enquanto participamos de uma conversa, e conseguimos mudar rapidamente de foco se mais alguém mencionar nosso nome. Isso significa que estamos sempre “ouvindo” o som ambiente, mas nem sempre o estamos “escutando”, a menos que ele se torne subitamente significativo. Nossa percepção vai muito além da sensação pura e simples.

A vida dos animais é bem mais fácil. Em geral o dilema de sobrevivência deles, quando deparam com outro ser vivo, se resume a três perguntas: devo comê-lo, fugir ou me acasalar? Nessa tomada de decisão, eles contam com tudo que puderem deduzir dessa nova experiência, bem como com a memória de outras semelhantes. Contudo, animais mais primitivos, com equipamento neural mais limitado, são facilmente engana- dos por flores de cores brilhantes ou por adversários que conseguem inchar e aumentar de tamanho, que têm marcas que parecem olhos ou exalam cheiros bizarros, para citar apenas alguns truques que a evolução elaborou. Quanto mais alto na escala filogenética − o que significa processos perceptivos mais complexos −, menos o organismo está à mercê de seus sentidos primitivos.

 NÃO É O QUE PARECE

O ponto básico é que cometemos um erro ao nos concentrar nos sentidos e, até, em discutir a quantidade deles. O que importa é a percepção – a sensação é o que a acompanha. Para os seres humanos, isso tem implicações dia a dia. Uma delas é nosso julgamento de tamanho.

A coerência de nossa visão de mundo nasce do fato de os objetos geralmente não mudarem de tamanho rapidamente. Assim, para objetos com os quais estamos familiarizados, como um carro, quanto maior ele parece, mais perto o percebemos. E mesmo quando o vemos na televisão ou numa foto, isto é, numa imagem pequena, “sabemos” que ele não encolheu. Coisas que não fazem parte de nosso cotidiano, no entanto, costumam nos enganar. As nuvens podem ter qualquer tamanho e forma, portanto, é difícil julgar sua distância. Trens são familiares, mas a maioria de nós não percebe exata- mente o quanto eles são grandes, julgamos erroneamente sua velocidade e a que distâncias se encontram, o que, aliás, é uma causa constante de acidentes. Não resolvemos esses problemas nos torturando internamente sobre quais ou quantos sentidos estão envolvidos, mas com a criação de um todo perceptual. Isto é função cerebral superior, ou seja, cortical.

Tomemos o estranho caso da sinestesia, fenômeno de contaminação dos sentidos que não chega a ser uma doença. As formas mais frequentemente relatadas são sentir sons, letras, números ou palavras associados a cores. Até bem recentemente as pessoas com sinestesia eram ignoradas, considera- das delirantes e, às vezes, confundidas com doentes mentais. Elas são capazes de falar, com a maior naturalidade, sobre a textura de um aroma, o sabor das diferentes letras ou a melodia do gosto de um pêssego. O que isso nos informa é que os sentidos não são entidades independentes e que a percepção é seu produto final.

É bem possível que o cérebro esteja organizado para fazer exatamente essa espécie de “mistura dos sentidos” como parte do processamento perceptivo. Acumulam-se as evidências de que a conversa cruzada entre diferentes áreas sensoriais mistura muito mais coisas do que podemos imaginar. Identificamos ou reconhecemos objetos mais facilmente se ouvirmos um som relevante ao mesmo tempo. Somos capazes até de acre- ditar que ouvimos algo diferente se formos enganados por uma falsa leitura labial, que não condiz com o que é falado. Pergunte a qualquer pessoa que sofra de enxaqueca sobre como um perfume pode desencadear a dor. Possivelmente, todos nós temos essa facilidade em maior ou menor grau e é por isso que o blues é azul.

Obviamente, a confusão da nomenclatura não ajuda. Algumas coisas comumente rotuladas como “sentido” não são nada disso (sentido de perda, sexto sentido etc.). Em compensação, nosso relógio biológico, que marca o tempo interno do organismo, deveria ser incluído nessa lista. Ou seria isso parte da percepção, e não de um sentido? Como de hábito, a ciência contesta crenças cotidianas e se empenha em desfazer mitos. Dependemos muito de nosso aparato sensorial, e dizer que ele não é tão importante a princípio pode parecer maluquice. Mais cedo ou mais tarde, porém, essa história de cinco sentidos vai parar na lata de lixo científica.

ESCRITORES, PINTORES E MÚSICOS.

O escritor russo Vladimir Nabokov (1889-1977) ainda era pequeno quando explicou a sua mãe que as cores das letras do alfabeto dos cubinhos de madeira que ganhara estavam “todas erradas”. A mãe entendeu perfeitamente o drama do filho porque, além de lhe ocorrer o mesmo, ela tinha outras sensações estranhas, como ver cores enquanto ouvia música.

O compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915) incluiu um teclado mudo e luminoso na sinfonia Prometeu, o poema do fogo. O instrumento deveria acender e apagar luzes coloridas organizadas em forma de raios e nuvens, que se difundiriam pelo ambiente até culminar numa luz branca tão forte que provocaria dor nos olhos da plateia. Contemporâneo de Scriabin, o pintor russo Vassily Kandinsky (1866-1944) desenvolveu mais profundamente o conceito de fusão sensorial, explorando a relação entre som e cor e valendo-se de termos musicais para descrever suas obras. O som amarelo, de 1912, é uma mistura de cores, luz, dança e ritmo. “Abandona teu ouvido à música, abre teus olhos à pintura e para de pensar! Pergunta- te somente se o pensamento te tornou incapaz de entrar em um mundo até agora desconhecido. Se a resposta for sim, o que queres mais?”, escreveu o pintor.

A mistura entre sons e cores esteve presente na vida do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886), que costumava se dirigir aos músicos com frases do tipo “Não tão violeta, por favor”. Sem compreender, muitos deles preferiam levar na brincadeira, embora Liszt afirmasse que realmente via cores enquanto regia ou tocava. Outro músico sinestésico foi o americano Duke Ellington (1899-1974).

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 301

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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