PSICOLOGIA ANALÍTICA

Bem mais que 5 sentidos

BEM MAIS QUE 5 SENTIDOS

Não importa quantas “portas sensoriais” temos. Atualmente, cientistas acreditam que o que realmente conta é a maneira como nos relacionamos com essas capacidades, como se fosse uma espécie de “valor agregado” que o cérebro confere aos dados sensoriais brutos – e envolve não só sensações, mas também memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

Quantos sentidos você tem? É muito provável que tenha respondido cinco, com base numa ideia que vem desde os tempos de Aristóteles e ainda é muito presente na cultura popular. Mas é preciso saber que sua resposta está equivocada. Tente pegar um cubo de gelo com uma das mãos e um garfo aquecido com a outra e poderá comprovar que tato é pouco para descrever as duas sensações. Ande num trem-fantasma, desses que existem nos parques temáticos, e diga se tudo o que vivenciou pode ser explicado apenas com a visão, a audição e o toque. Não há dúvida de que nossos sentidos não cabem apenas em cinco categorias. No entanto, determinar quantos são depende de como entendemos os sistemas sensoriais.

Uma possibilidade é classificá-los segundo a natureza do estímulo. Assim, haveria apenas três tipos, em vez de cinco: mecânico (tato e audição), luminoso (visão) e químico (gustação, olfação). Alguns animais também contam com a eletro recepção. Esses três grupos de sensações exigem sistemas sensoriais bem diferentes. Algo que se dissolve na língua, produz um aroma que penetra no nariz e se encaixa em um receptor não tem nada a ver com o movimento de uma célula pilosa no ouvido interno ou com um fóton que atinge a retina.

Em geral, estamos cientes de nossa capacidade de sentir as variações de temperatura e de pressão, a posição das articulações (propriocepção), o movimento corporal (cinestesia), o equilíbrio e outras sensações, como sede ou estômago vazio. Mas existem outros sistemas de monitoração dos quais nunca teremos a menor noção, como a detecção do PH do fluido cerebrospinal ou do nível de glicose na circulação.

Também poderíamos, com a mesma facilidade, definir “sentido” como um sistema formado por um tipo celular especializado que reage a um sinal específico e se reporta a certa parte do cérebro. Assim, o paladar não seria único sentido, teria quatro divisões, cada uma voltada para a distinção de um sabor: doce, salgado, azedo e amargo. Os neurologistas classificam a dor como cutânea, somática ou visceral, dependendo de onde é sentida, mas isso significa que estariam em diferentes sistemas sensoriais ou que seria simplesmente uma questão de geografia corporal?

Considere o exemplo da audição. Seria um único sentido ou várias centenas, um para cada célula pilosa coclear? Talvez isso seja levar as coisas um pouco longe demais, mas é interessante notar que podemos perder a audição de alta frequência sem perder a acuidade de baixa frequência e vice-versa. Portanto, talvez devêssemos pensar nelas separadamente. À medida que estudamos em detalhes as estruturas dos órgãos sensoriais, parece que temos cada vez mais sentidos.

Entretanto, por mais intrigante que tudo isso seja, a sensação sozinha não é realmente tão importante assim. Quando falamos de sentidos, o que realmente queremos dizer são sensações ou percepções. Do contrário, não estaríamos muito acima do nível de uma ameba ou de uma planta. A maioria dos seres vivos se vira muito bem com apenas dois canais sensoriais: tato e luz (não necessariamente visão). Uma planta cujo crescimento segue a luminosidade está meramente reagindo mecanicamente a um estímulo.

Já os humanos veem luzes e sombras. Além disso, percebemos objetos e pessoas e suas respectivas posições no espaço. Ouvimos sons e identificamos vozes, músicas ou diversos ruídos. Sentimos o gosto ou o cheiro de uma complexa mistura de sinais químicos, e sabemos reconhecer a diferença entre um sorvete, uma laranja ou uma berinjela. A percepção é o “valor agregado” que o cérebro organizado confere aos dados sensoriais brutos. Ela vai muito além da paleta de sensações e envolve memória, experiência e processamentos cognitivos sofisticados.

ESCUTA SELETIVA

O que ouvimos, por exemplo, é bem mais que o simples somatório de sons coletados por cada ouvido. Vários processos entram em cena, alguns dos quais permitem que o cérebro identifique de onde vem o barulho. Filtros complexos nos permitem barrar um tipo de som enquanto prestamos atenção a outro. No conhecido “fenômeno da festa”, por exemplo, ignoramos todos os ruídos irrelevantes enquanto participamos de uma conversa, e conseguimos mudar rapidamente de foco se mais alguém mencionar nosso nome. Isso significa que estamos sempre “ouvindo” o som ambiente, mas nem sempre o estamos “escutando”, a menos que ele se torne subitamente significativo. Nossa percepção vai muito além da sensação pura e simples.

A vida dos animais é bem mais fácil. Em geral o dilema de sobrevivência deles, quando deparam com outro ser vivo, se resume a três perguntas: devo comê-lo, fugir ou me acasalar? Nessa tomada de decisão, eles contam com tudo que puderem deduzir dessa nova experiência, bem como com a memória de outras semelhantes. Contudo, animais mais primitivos, com equipamento neural mais limitado, são facilmente engana- dos por flores de cores brilhantes ou por adversários que conseguem inchar e aumentar de tamanho, que têm marcas que parecem olhos ou exalam cheiros bizarros, para citar apenas alguns truques que a evolução elaborou. Quanto mais alto na escala filogenética − o que significa processos perceptivos mais complexos −, menos o organismo está à mercê de seus sentidos primitivos.

 NÃO É O QUE PARECE

O ponto básico é que cometemos um erro ao nos concentrar nos sentidos e, até, em discutir a quantidade deles. O que importa é a percepção – a sensação é o que a acompanha. Para os seres humanos, isso tem implicações dia a dia. Uma delas é nosso julgamento de tamanho.

A coerência de nossa visão de mundo nasce do fato de os objetos geralmente não mudarem de tamanho rapidamente. Assim, para objetos com os quais estamos familiarizados, como um carro, quanto maior ele parece, mais perto o percebemos. E mesmo quando o vemos na televisão ou numa foto, isto é, numa imagem pequena, “sabemos” que ele não encolheu. Coisas que não fazem parte de nosso cotidiano, no entanto, costumam nos enganar. As nuvens podem ter qualquer tamanho e forma, portanto, é difícil julgar sua distância. Trens são familiares, mas a maioria de nós não percebe exata- mente o quanto eles são grandes, julgamos erroneamente sua velocidade e a que distâncias se encontram, o que, aliás, é uma causa constante de acidentes. Não resolvemos esses problemas nos torturando internamente sobre quais ou quantos sentidos estão envolvidos, mas com a criação de um todo perceptual. Isto é função cerebral superior, ou seja, cortical.

Tomemos o estranho caso da sinestesia, fenômeno de contaminação dos sentidos que não chega a ser uma doença. As formas mais frequentemente relatadas são sentir sons, letras, números ou palavras associados a cores. Até bem recentemente as pessoas com sinestesia eram ignoradas, considera- das delirantes e, às vezes, confundidas com doentes mentais. Elas são capazes de falar, com a maior naturalidade, sobre a textura de um aroma, o sabor das diferentes letras ou a melodia do gosto de um pêssego. O que isso nos informa é que os sentidos não são entidades independentes e que a percepção é seu produto final.

É bem possível que o cérebro esteja organizado para fazer exatamente essa espécie de “mistura dos sentidos” como parte do processamento perceptivo. Acumulam-se as evidências de que a conversa cruzada entre diferentes áreas sensoriais mistura muito mais coisas do que podemos imaginar. Identificamos ou reconhecemos objetos mais facilmente se ouvirmos um som relevante ao mesmo tempo. Somos capazes até de acre- ditar que ouvimos algo diferente se formos enganados por uma falsa leitura labial, que não condiz com o que é falado. Pergunte a qualquer pessoa que sofra de enxaqueca sobre como um perfume pode desencadear a dor. Possivelmente, todos nós temos essa facilidade em maior ou menor grau e é por isso que o blues é azul.

Obviamente, a confusão da nomenclatura não ajuda. Algumas coisas comumente rotuladas como “sentido” não são nada disso (sentido de perda, sexto sentido etc.). Em compensação, nosso relógio biológico, que marca o tempo interno do organismo, deveria ser incluído nessa lista. Ou seria isso parte da percepção, e não de um sentido? Como de hábito, a ciência contesta crenças cotidianas e se empenha em desfazer mitos. Dependemos muito de nosso aparato sensorial, e dizer que ele não é tão importante a princípio pode parecer maluquice. Mais cedo ou mais tarde, porém, essa história de cinco sentidos vai parar na lata de lixo científica.

ESCRITORES, PINTORES E MÚSICOS.

O escritor russo Vladimir Nabokov (1889-1977) ainda era pequeno quando explicou a sua mãe que as cores das letras do alfabeto dos cubinhos de madeira que ganhara estavam “todas erradas”. A mãe entendeu perfeitamente o drama do filho porque, além de lhe ocorrer o mesmo, ela tinha outras sensações estranhas, como ver cores enquanto ouvia música.

O compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915) incluiu um teclado mudo e luminoso na sinfonia Prometeu, o poema do fogo. O instrumento deveria acender e apagar luzes coloridas organizadas em forma de raios e nuvens, que se difundiriam pelo ambiente até culminar numa luz branca tão forte que provocaria dor nos olhos da plateia. Contemporâneo de Scriabin, o pintor russo Vassily Kandinsky (1866-1944) desenvolveu mais profundamente o conceito de fusão sensorial, explorando a relação entre som e cor e valendo-se de termos musicais para descrever suas obras. O som amarelo, de 1912, é uma mistura de cores, luz, dança e ritmo. “Abandona teu ouvido à música, abre teus olhos à pintura e para de pensar! Pergunta- te somente se o pensamento te tornou incapaz de entrar em um mundo até agora desconhecido. Se a resposta for sim, o que queres mais?”, escreveu o pintor.

A mistura entre sons e cores esteve presente na vida do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886), que costumava se dirigir aos músicos com frases do tipo “Não tão violeta, por favor”. Sem compreender, muitos deles preferiam levar na brincadeira, embora Liszt afirmasse que realmente via cores enquanto regia ou tocava. Outro músico sinestésico foi o americano Duke Ellington (1899-1974).

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 301

GESTÃO E CARREIRA

As propostas douradas

AS PROPOSTAS DOURADAS

Com a economia em recuperação, empresas voltam a disputar talentos e maquiar vagas. O profissional em busca de oportunidade deve ficar atento a ofertas muito sedutoras

O mercado de trabalho brasileiro passou por severas mudanças nos últimos anos. Até a década de 90, o desemprego era uma dádiva para os recrutadores, que se esbaldavam com profissionais desesperados por uma vaga. Era fácil contratar numa época de hiperinflação e empresas obsoletas.

Nos anos 2000, a situação era outra. A economia amadureceu e as companhias passaram a disputar os talentos, que começaram a fazer escolhas. De lá para cá, os negócios se sofisticaram e a discussão sobre planejamento de carreira ganhou uma enorme atenção.

Hoje, não basta uma proposta. Indivíduos de alta empregabilidade querem não só selecionar seu futuro projeto como ser agente, interferindo em seu rumo. Eles buscam um propósito, uma causa na qual acreditem de verdade. São questionadores.

As organizações mais “antenadas” perceberam essa mudança de comportamento e passaram a formar equipes de talent acquisittion, especializadas em buscar os melhores empregados. São os antigos profissionais de recrutamento e seleção, mas com uma roupagem contemporânea e com a missão de contratar pessoas extremamente qualificadas num mercado competitivo e escasso de opções. Eles funcionam como os massais, guerreiros tribais nômades que habitam regiões do Quênia e da Tanzânia e caçam enfrentando o enorme grau de dificuldade das savanas africanas. Em centenas de anos, eles desenvolveram técnicas para lidar com a adversidade do ambiente e para cumprir a missão de alimentar sua aldeia.

Os massais do século 21 também criaram meios inteligentes para ter um banco de talentos qualificado. Mudaram a lógica dos processos para atrair suas presas. Mas, muitos deles, exageraram na dose e se especializaram em dourar as propostas de trabalho.

Isso gerou um efeito colateral perverso. Na caça por gente qualificada, os talent acquisttion alteram a realidade da oferta de emprego, minimizando as dificuldades da empresa ou ampliando o lado positivo dos projetos. Com a economia em recuperação (o que deve gerar novas posições), essas “vagas douradas” vão aumentar e são um alerta vermelho para quem tende a ficar seduzido por um belo pote de ouro, sem se preocupar com o impacto que ele poderá trazer à própria carreira. Então, fique atento. Se você está buscando oportunidades ou sendo assediado por recrutadores, cuidado com a decisão. Um dos guerreiros massais pode estar presente em sua próxima entrevista de emprego.

RAFAEL SOUTO – É fundador da e CEO da Consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria.

ALIMENTO DIÁRIO

20180104_191613

MATEUS 6: 25-34

O Sermão da Montanha

Dificilmente há um pecado contra o qual o nosso Senhor Jesus advirta mais ampla e intensamente os seus discípulos, ou contra o qual Ele os arme com maior variedade de argumentos, do que o pecado de cuidados que perturbam, distraem e trazem a desconfiança em relação às coisas da vida. Esta ansiedade é um mau sinal, que indica que o tesouro e o coração de uma pessoa estão na terra; portanto, o Senhor insiste fortemente nisto. Aqui vemos:

I – AII proibição estabelecida – O conselho e a ardem do Senhor Jesus é que não pensemos nas coisas deste mundo: Eu “vos digo”. Ele diz isto como o nosso Legislador, e o Soberano das nossos corações; Ele diz isto como o nosso Consolador, e o Ajudador que nos traz alegria. O que é isto que Ele diz? É o seguinte: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida… nem quanto ao vosso corpo” (v. 25). “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos?” (v. 31) e outra vez (v. 34): “Não andeis… inquietos”. Assim como contra a hipocrisia, a advertência contra os cuidados deste mundo é repetida três vezes; no entanto, nenhuma repetição é vã. Todos os preceitos são coerentes e podem ser sobrepostos, linha sobre linha, trazendo o mesmo significado. A Palavra de Deus nos liberta daquilo que nos cerca facilmente. Isto sugere o quão agradável é para Cristo, e o quanto isto diz respeito a nós mesmos, que vivamos sem um cuidado excessivo. O Senhor Jesus repete aos seus discípulos a ordem de que eles não deveriam dividir, nem mesmo despedaçar, as suas próprias mentes por causa do cuidado com as coisas deste mundo. Há um pensamento e um cuida do com relação às coisas desta vida, que não só é lícito, mas obrigatório, como é mostrado no caso da mulher virtuosa. Veja Provérbios 27.23. A palavra é usada com relação ao cuidado de Paulo para com as igrejas, e o cuidado de Timóteo com relação ao estado das almas (2 Coríntios 11.28; Filipenses 2.20).

Mas o cuidado (ou preocupação) aqui proibido é:

1.Um cuidado (ou preocupação) perturbador e atormentador, que agita a mente de um lado para outro, e a coloca em suspense; um cuidado que perturba a nossa alegria em Deus, e que pode chegar a ser um desânimo sobre a nossa esperança nele; um cuidado que interrompe o sono, e prejudica o nosso gozo, o gozo dos nossos amigos, e daquilo que Deus nos deu.

2.Um cuidado (ou preocupação) que demonstra desconfiança e incredulidade. Deus prometeu prover – para aqueles que são seus – todas as coisas necessárias para a vida, tanto as materiais como as espirituais. Ele prometeu alimento e abrigo; não as coisas supérfluas, mas as necessárias. Ele nunca disse: “Eles se banquetearão”, mas: “Verdadeiramente, serás alimentado”. O cuidado desordenado pelo futuro, e o medo de querer tais provisões, surgem de uma descrença em várias qualidades de Deus: em suas promessas, em sua sabedoria, e na bondade da providência divina – e aí está o mal de tais atitudes. Quanto ao nosso sustento atual, podemos e devemos usar meios legítimos para consegui-lo, do contrário tentaremos a Deus. Devemos ser diligentes em nosso trabalho, e prudentes ao ajustar as nossas despesas com o que temos, e devemos também orar pelo pão de cada dia; e se todos os outros meios falharem, podemos e devemos pedir o seu alívio e provimento. Não foi o melhor dos homens que disse: “De mendigar tenho vergonha” (Lucas 16.3). Também surgem dificuldades tamanhas, a ponto de alguém desejar ser alimentado com migalhas (v. 21). Mas com relação ao futuro, devemos lançar o nosso cuidado sobre o Senhor nosso Deus, não andando inquietos, porque parece que o Senhor chega a ter um tipo de ciúme. Ele sabe como nos dar o que queremos quando não sabemos como consegui-lo. Que as nossas almas habitem tranquilamente nele! Esta despreocupação misericordiosa é a mesma daquele sono que Deus proporciona aos seus amados, em oposição ao trabalho difícil da pessoa incrédula (SaImos 127.2). Observe as advertências expressas aqui:

3.”Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”. A vida é a nossa maior preocupação neste mundo. O homem dará, pela sua vida, tudo o que possui; no entanto, não devemos andar cuidadosos quanto a ela.

[1] Não devemos ficar ansiosos em relação à duração de nossa vida; cabe a Deus aumentar ou reduzir a sua duração; o tempo de nossa vida está nas mãos de Deus – e está em boas mãos, nas melhores mãos!

[2] Não devemos ficar ansiosos pelos confortos desta vida; cabe a Deus torná-la amarga ou doce. Não devemos andar solícitos quanto às necessidades de sustento, alimento e roupas desta vida. Deus prometeu estas coisas e, portanto, podemos esperar com mais confiança; não devemos dizer: “O que comeremos?” Esta é a linguagem de alguém que não sabe o que fazer, e que está quase desesperado; embora muitas pessoas boas tenham urna perspectiva bastante limitada, nem todas têm o sustento de que precisam.

1.Não andeis inquietos quanto ao amanhã, quanto ao dia por vir. Não se preocupe demais com o futuro, como você viverá o ano seguinte, ou quando você envelhecerá, ou com o que você deixará para trás. Assim como não devemos nos vangloriar do amanhã, não devemos nos preocupar com o amanhã, nem com os eventos que ele trará.

II – As razões e os argumentos para reforçar esta proibição. Alguém poderá pensar que o mandamento de Cristo foi suficiente para nos manter afastados deste pecado tolo de preocupação perturbadora e desconfiada, independentemente do conforto das nossas almas, e que está tão intimamente ligado a elas. Entretanto, mostrar o quanto o coração de Cristo está nisto, e que prazer Ele tem naqueles que esperam em sua misericórdia, é mostrar que o mandamento está baseado nos argumentos mais poderosos. Se pudéssemos ser dirigidos somente pela razão, certamente nos aliviaríamos destes espinhos. Para nos livrarmos dos pensamentos ansiosos, e expulsá-los, Cristo aqui nos sugere pensamentos confortantes. Que possamos estar cheios deles! Vale a pena nos esforçarmos em nossos próprios corações, confrontarmo-los em relação aos nossos cuida dos perturbadores, e nos envergonharmos deles. Eles podem ser enfraquecidos por razões convincentes, mas é somente através de uma fé ativa que podemos vencê-los. Considere então:

1. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que a vestimenta?” {v. 25). Sim, sem dúvida. Então Ele diz que há motivos para entendermos o verdadeiro valor das coisas presentes, porque Ele as fez, Ele as sustenta, e nos sustenta através delas; e esta situação fala por si só. Perceba que:

(1) A nossa vida é uma bênção maior do que a nossa subsistência. E verdade, a vida não pode subsistir sem o sustento; mas o mantimento e a vestimenta, que são aqui representados como inferiores à vida e ao corpo, são como o ornamento e o prazer, e temos a tendência de ser solicitas em relação a estas coisas. O mantimento e a vestimenta são úteis para a vida, e o seu fim é mais nobre e excelente do que os meios. A comida mais saborosa e a melhor roupa são da terra; mas a vida é o sopro de Deus. A vida é a luz dos homens; o mantimento é apenas o azeite que alimenta a luz; de forma que a diferença entre o rico e o pobre é muito insignificante, visto que, nas maiores coisas, eles ficam no mesmo nível, e diferem apenas em algo que tem dimensões menores.

(2) Isto é um encorajamento para que confiemos que Deus nos dará o mantimento e a vestimenta, e assim fiquemos tranquilos quanto a todos os cuidados e toda a perplexidade que estão ligados a eles. Deus nos deu a vida e o corpo – este foi um ato de poder, um ato de favor, algo que foi feito sem o nosso cuidado. Será que aquele que fez tudo isto por nós não poderia fazer outras coisas? Será que haveria algo que Ele não faria por nós? Devemos cuidar dos assuntos referente s à nossa alma e à eternidade, que são mais do que o corpo e a vida, deixando que Deus nos forneça o mantimento e a vestimenta, que são itens menores. Deus tem mantido a nossa vida até aqui. Se, às vezes, nem tudo acontece como desejamos, devemos entender e aceitar que tudo isto tem uma finalidade; Ele nos tem protegido e nos mantido vivos. Aquele que nos guarda dos males aos qual estamos expostos, nos proporcionará as coisas boas de que necessitamos. Se Ele se agradasse de nos matar, deixando-nos morrer de fome, Ele não daria aos seus anjos – com tanta frequência – a incumbência de nos guardar.

2.”Olhai para as aves do céu”, e “olhai para os lírios do campo”. Aqui está um argumento tomado da providência comum de Deus para com as criaturas inferiores, e sua dependência – de acordo com as suas capacidades desta providência. Um homem caído, porém, em boa situação psicológica, pode voltar a si, entendendo que deve ser enviado para a escola para ser ensinado pelas aves do céu! (Jó 12.7,8).

(1) Olhe para as aves do céu, e aprenda a confiar em Deus quanto ao mantimento (v. 26), e não se preocupe com o que você irá comer.

[1] Observe a providência de Deus em relação às aves. Olhe para elas e receba instrução. Há vários tipos de aves; elas são numerosas, algumas delas são de rapina, mas todas são alimentadas, e alimentadas com alimento conveniente para elas. É raro que qualquer uma delas pereça por necessidade de comida, mesmo durante o inverno, e não há falta de comida durante todo o ano. Como as aves, de maneira geral, são menos úteis aos homens, elas praticamente não recebem nenhum cuidado de sua parte. Os homens frequentemente se alimentam delas, mas raramente as alimentam; mesmo assim elas são alimentadas, não sabemos como, e algumas delas são melhor alimentadas durante o clima mais adverso; e é o seu Pai celestial que as alimenta. Ele conhece todas as aves selvagens dos montes, melhor do que você conhece as aves domésticas em seu quintal (SaImos 50.11). Nenhum pardal desce ao chão para apanhar um grão de milho, exceto pela providência de Deus, que se estende até às criaturas mais cruéis. Mas o que é especialmente observado aqui, é que elas são alimentadas sem qualquer cuidado ou projeto próprio; elas “não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros”. A formiga, na verdade, faz isso, assim como a abelha, e nos são apresentadas como exemplos de prudência e trabalho sistemático; mas as aves do céu não fazem isso; elas não fazem nenhuma provisão para o futuro. Contudo, todos os dias, tão pontualmente quanto vem o dia, a provisão é feita para elas, e seus olhos esperam em Deus, o grande e bom Administrador, que fornece o alimento para todos os seres.

[2] Utilize isto como um encorajamento para confiar em Deus. “Não tendes vós muito mais valor do que elas?” Sim, com certeza nós temos. Note que os herdeiros do céu são muito melhores do que as aves do céu; seres mais nobres e mais excelentes, e, pela fé, eles voam mais alto; eles são de uma natureza e criação melhores, são mais sábios do que as aves do céu (Jó 35.11). Embora os filhos deste mundo, que não conhecem o juízo do Senhor, não sejam tão sábios quanto a cegonha, o grou, e a andorinha (Jeremias 8.7), devemos saber que somos mais preciosos para Deus, e mais próximos a Ele, embora eles voem no firmamento aberto do céu. Ele é o Mestre e Senhor dos animais, o seu Dono e Senhor; mas, além disso tudo, Ele é o Pai, e em seu parecer, você vale mais do que muitos pardais. Você é filho dele, como se fosse um primogênito. Uma vez que Ele alimenta os seus pássaros, certamente não deixará os seus filhotes morrerem de fome. Os animais confiam na providência do seu Pai; e você não confiará nela? Nesta relação de dependência, eles não se preocupam com o amanhã; e, sendo assim, eles vivem a vida mais aprazível de todas as criaturas; eles cantam entre os galhos (Salmos 104.12), e louvam o nosso Criador com o melhor de si mesmos. Se fôssemos, pela fé, tão despreocupados sobre o dia de amanhã como eles, deveríamos cantar tão alegremente quanto eles; porque é o cuidado deste mundo que estraga o nosso contentamento, desalenta a nossa alegria, e silencia o nosso louvor, tanto quanto qualquer outra coisa.

(2) Olhe os lírios, e aprenda a confiar em Deus para ter as suas vestes. Esta é outra parte da nossa preocupação: o que vestiremos. Por decência, para nos cobrir; por defesa, par a nos manter aquecidos; e muitos se preocupam com as vestes por dignidade e ornamento, para que pareçam estar bem e serem finos. Outros estão tão preocupados com o esplendor e a variedade de sua vestimenta, que este cuidado é quase tão intenso quanto a ansiedade que sentem por seu pão de cada dia. Par a nos tranquilizar quanto a esta preocupação, devemos considerar os lírios do campo; não só observá-los (todo olho faz isto com prazer), mas considerá-los. Note que há muitas coisas boas para se aprender do que vemos todos os dias, se tão somente as considerarmos (Provérbios 6.6; 24-32).

[1] Considere como os lírios são frágeis; eles são a erva do campo. Os lírios, embora distintos por suas cores, não passam de erva; portanto, toda carne é erva. Embora alguns sejam bem-dotados de mente e corpo, chegando a ser como os lírios, muito admirados, ainda assim são erva. São como a erva do campo, em natureza e constituição; eles estão no mesmo nível que os outros. Os dias do homem, na melhor hipótese, são como a erva, como as flores da erva (1 Pedro 1.24). Esta erva hoje existe e amanhã é lançada no forno; em pouco tempo, o lugar que nos conhece, não nos conhecerá mais. A sepultura é o forno no qual deveremos ser lançados, e no qual seremos consumidos como erva no fogo (Salmos 49.14). Isto sugere uma razão para não andarmos preocupados com o dia de amanhã, com o que vestiremos, porque no dia de amanhã talvez possam os precisar de roupas de sepultamento.

[2] Considere como os lírios são livres de preocupação; eles trabalham não como os homens, para conseguir a roupa, mas como servos, para ganharem a sua aparência característica. Eles não fiam, como as mulheres, para tecerem uma roupa. Isto não significa, no entanto, que devamos negligenciar, ou fazer de forma descuidada, as atividades próprias desta vida; a mulher virtuosa é louvada por colocar a sua mão no tear, fazer linho fino e o vender (Provérbios 31.19,24). A ociosidade tenta a Deus, em vez de demonstrar confiança nele; mas aquele que provê para as criaturas inferiores, sem que trabalhem, proverá muito mais para nós, abençoando o nosso trabalho, que Ele nos deu como o nosso dever. E se, por motivo de doença, formos incapazes de trabalhar e fiar, Deus poderá nos fornecer o que nos for necessário.

[3] Considere como os lírios são belos e finos; como eles crescem; de onde eles crescem. A raiz do lírio ou da tulipa, com o as raízes de outros bulbos, é, no inverno, perdida e enterrada debaixo da terra. Contudo, quando a primavera chega, ela aparece e brota em pouco tempo; assim foi prometido ao Israel de Deus – que eles deveriam florescer como o lírio (Oséias 14.5). Considere para o que eles crescem. Em meio à obscuridade, em apenas algumas semanas, eles passam a ser muito belos: “Nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. As vestes de Salomão eram muito esplêndidas e magníficas; aquele que possuía o tesouro peculiar dos reis e províncias, e diligentemente gostava de pompa e elegância, sem dúvida tinha a roupa mais rica, e do melhor feitio que poderia ser obtido. Principalmente quando ele aparecia em sua glória, em dias especiais. No entanto, vestindo-se de forma tão elegante quanto podia, ele não chegava sequer perto da beleza dos lírios, e um canteiro de tulipas o ultrapassaria em brilho. Ambicionemos, portanto, a sabedoria de Salomão, na qual ele não era excedido por ninguém, em nada (sabedoria para fazer os nossos deveres em nossos lugares), em vez de ambicionarmos a glória de Salomão, na qual ele era excedido pelos lírios. A perfeição do homem é o conhecimento e a graça, não a beleza, muito menos as roupas finas. Aqui é dito que Deus veste a erva do campo. Note que todas as excelências da criatura fluem de Deus, que é a fonte delas. Foi Ele quem deu ao cavalo a sua força, e ao lírio a sua beleza. Toda criatura (incluindo cada um de nós) é, em si mesma, aquilo que Ele a criou para ser.

(4] Considere como tu do isso é instrutivo para nós (v. 30). Em primeiro lugar, como no caso da roupa fina, este versículo nos ensina a não nos preocuparmos, de modo algum, com o que vestiremos, a não cobiçarmos, não nos orgulharmos, nem fazermos das nossas vestes o nosso adorno, porque apesar do nosso cuidado por isto, os lírios em muito nos excederão. Não podemos nos vestir de forma tão elegante quanto eles. Por que então devemos tentar competir com eles? O adorno dos lírios logo perecerá, assim como o nosso; eles hoje existem, e amanhã serão lançados no forno, como outra coisa sem valor; e as roupas de que nos orgulhamos se desgastam, o brilho logo se vai, a cor desbota, o modelo fica fora de moda, ou em um momento a vestimenta em si se desgasta; assim é o homem em toda a sua pompa (Isaias 40.6,7), especialmente os homens ricos (Tiago 1.10); eles se desvanecem em seus caminhos.

Em segundo lugar, quanto à roupa necessária, isto nos ensina a lançar o nosso cuidado sobre Deus, Jeová-Jiré. Confie naquele que veste os lírios, para lhe prover o que você vestirá. Se Ele dá tais roupas finas para as ervas, muito mais dará roupas adequadas para os seus próprios filhos; roupas que os aqueçam, não só quando Ele refrigera a terra com o vento do Sul, mas quando Ele a agita com o vento do Norte (Jó 37.17). Quanto mais Ele lhe vestirá, pois você é uma criatura mais nobre, um ser mais excelente! Se Ele veste a erva que vive tão pouco tempo, muito mais vestirá você que é criado para a imortalidade. Se os filhos de Nínive eram preferidos em relação à aboboreira (Jonas 4.10,11), quanto mais o serão os filhos de Sião, que es tão em aliança com Deus. Observe o título que Ele lhes dá (v. 30), “Homens de pequena fé”. Isto pode ser entendido:

1.Como um encorajamento à fé verdadeira – mesmo que seja fraca, ela nos encomenda ao cuidado divino, e a uma promessa de suprimento adequado. Uma grande fé deve ser elogiada, e alcançará grandes coisas, mas a pequena fé não deve ser rejeitada, mesmo aquela que, na prática, está em busca de mantimento e vestimenta. Os crentes sadios devem ter as suas necessidades supridas, mesmo que não sejam crentes fortes. Os bebês na família são alimentados e vestidos, bem como aqueles que são adultos, e com um cuidado e ternura especiais; não diga: Sou apenas uma criança, nada mais que uma árvore seca (Isaias 56.3,5), porque embora sejas pobre e necessitado, o Senhor cuida de ti. Ou:

2.Como uma repreensão à fé fraca, embora ela seja verdadeira (cap. 14.31). Isto sugere o que está no fundo de toda a nossa preocupação e atenção desordenadas; a fraqueza da nossa fé, e os resquícios da incredulidade em nós. Se tivéssemos mais fé, teríamos menos preocupações.

3.”Qual de vós”, o mais sábio, o mais forte de vós, “poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?” (v. 27), ou à sua idade, segundo alguns. A medida de um côvado pode se referir à estatura. A idade mais avançada pode ser considerada como apenas um breve espaço de tempo, como a extensão de um “palmo” (Salmos 39.5). Consideremos:

(1) Nós não chegamos à estatura que temos hoje pelo nosso próprio cuidado e atenção, mas pela providência de Deus. Uma criança de colo bem pequena cresce chegando à altura de 1.80m. E como é que um côvado após o outro foi acrescentado à sua est atura? Não pela sua própria previsão e recursos; ela cresceu sem saber como, pelo poder e bondade de Deus. Aquele que fez os nossos corpos, e que os fez de tal tamanho, certamente cuidará de prover para cada um de nós. Note que Deus deve ser reconhecido no aumento da estatura e da força do nosso corpo, e receber a nossa confiança quanto a todos os suprimentos necessários, porque Ele declarou que se importa com o nosso corpo. A idade do crescimento é a idade irrefletida e despreocupada, mas mesmo assim crescemos. E aquele que nos criou para isso não nos sustentaria agora que estamos crescidos?

(2) Não poderíamos alterar a nossa estatura, se quiséssemos. Quão tolo e ridículo seria para um homem de baixa estatura ficar perplexo, perder noites de sono, ficar constantemente pensando, e estar continuamente preocupado sobre como poderia ficar um côvado mais alto, quando ele sabe que não pode fazer nada a respeito disso. Portanto, seria melhor ficar satisfeito e aceitar a sua estatura! Nós não somos todos do mesmo tamanho, no entanto a diferença em estatura entre um e outro não é uma característica decisiva, nem de grande valia. Um homem pequeno está pronto para desejar ser tão alto quanto outra pessoa, mas ele sabe que isto não lhe serviria para nada; portanto, ele deve se contentar com o seu próprio físico. Deveríamos considerar a nossa situação neste mundo da mesma forma com o consideramos a nossa estatura.

[l] Não devemos cobiçar ter a abundância das riquezas deste mundo, da mesma forma que não cobiçaríamos a adição de um côvado em nossa estatura; isto seria algo muito impactante na estatura de uma pessoa. É suficiente crescer alguns centímetros; tal adição apenas nos tornaria desajeitados, e um fardo pesado demais para nós mesmos.

[2] Devemos nos contentar com a nossa condição, assim como fazemos com a nossa estatura; devemos avaliar as conveniências e as inconveniências, e assim fazer um balanço das nossas verdadeiras necessidades. Aquilo que não pode ser remediado deve ser tratado da melhor maneira possível. Não podemos alterar os desígnios da Providência. Portanto, devemos concordar com estes, nos acomodar a eles, e nos consolar o quanto pudermos em relação às inconveniências, como fez Zaqueu contra a inconveniência de sua estatura, subindo em uma árvore.

4.”Porque todas essas coisas os gentios procuram” (v. 32). A preocupação com as coisas do mundo é um pecado pagão, e não condiz com os cristãos. Os gentios buscam estas coisas, porque eles não conhecem coisas melhores; eles desejam ardentemente este mundo, porque não conhecem algo melhor; eles buscam estas coisas com cuidado e ansiedade, porque não têm a Deus no mundo, e não entendem a sua providência. Eles temem e adoram aos seus ídolos, mas não podem confiar neles quando precisam de livramento e sustento. Portanto, estão cheios de cuidado. Mas isto é uma vergonha para nós cristãos, que edificamos sobre princípios mais nobres, e professamos uma religião que nos ensina não só que existe uma providência, mas que há promessas feitas para o bem da vida que temos agora, que nos ensina sobre a confiança em Deus e o desprezo ao mundo, e oferece as razões para isto. É uma vergonha andarmos como os gentios andam, enchendo as nossas mentes e corações com as crenças deles.

5.O Vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas”. As coisas necessárias, mantimento e vestimenta. Deus conhece aquilo que queremos melhor do que nós mesmos. Embora Ele esteja no céu, e os seus filhos na terra, Ele observa o que o menor e o mais pobre deles necessita (Apocalipse 2.9): “Eu sei [a tua] pobreza”. Isto nos leva a pensar que, se um amigo tão bom quanto este souber das coisas que queremos e conhecer as nossas dificuldades, podemos nos acalmar rapidamente. O nosso Deus as conhece; Ele é o nosso Pai que nos ama e que tem compaixão de nós, e está pronto a nos ajudar. O seu Pai celestial possui os recursos para suprir todas as suas necessidades. Longe, portanto, devem estar todos os pensamentos e preocupações perturbadores. Fale com o seu Pai; diga-lhe que Ele conhece as coisas de que você precisa. Ele pergunta: “Filhos, tendes alguma coisa de comer?” (João 21.5). Diga-lhe se você tem ou não tem. Embora Ele saiba as coisas que queremos, Ele quer ficar sabendo por nós; e quando as revelarmos a Ele, nos submeteremos alegremente à sua sabedoria, ao seu poder e bondade, e teremos o nosso sustento. Portanto, devemos nos livrar da carga da preocupação excessiva, lançando-a sobre Deus, porque é Ele que cuida de nós (1 Pedro 5.7). E quais são as necessidades que todos nós temos? Se Ele cuida de cada um de nós, por que devemos nos preocupar?

6.”Buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (v. 33). Aqui está um argumento duplo contra o pecado da preocupação excessiva: não ande preocupado com a sua vida, a vida do corpo; porque:

(1) Você tem coisas maiores e melhores para cuidai; a vida da sua alma, a sua felicidade eterna; esta é a sua maior necessidade (Lucas 10.42), a quilo em que você deve empregar os seus pensamentos, e que é comumente negligenciada naqueles corações em que predominam os cuidados deste mundo. Se fôssemos mais cuidadosos em agradar a Deus, e tratássemos da nossa própria salvação, deveríamos nos preocupar menos em agradar a nós mesmos, e em tratarmos daquilo que possuímos no mundo. A preocupação com a nossa alma é a cura mais eficaz para a preocupação com as coisas do mundo.

(2) Você tem uma maneira mais segura, mais fácil e mais sucinta de obter as coisas necessárias a esta vida, do que oprimindo-se, preocupando-se, e queixando-se delas; e isto é buscando primeiro o Reino de Deus, e fazendo da vida com Deus o seu assunto principal. Não diga que este é o modo mais fácil para morrer de fome. Não. Este é o modo de ser bem sus tentado, mesmo neste mundo. Observe aqui:

[1] O grande dever exigido é a soma e a essência de toda a nossa obrigação: “Buscai primeiro o Reino de Deus” – “tenha a fé cristã como a sua grande e principal preocupação”. O nosso dever é buscar – desejar, procurar, e considerar cuidadosamente estas coisas. Buscar é uma palavra que tem em si uma grande parte da constituição da nova aliança em nosso favor. Embora não tenhamos alcançado, mas falhado e sido insuficientes em muitas coisas, a busca sincera (uma preocupação cuidadosa e uma tentativa perseverante) é aceita. Agora observe, em primeiro lugar, o objeto desta busca: “o Reino de Deus, e a sua justiça”. Devemos considerar o céu como o nosso objetivo, e a santidade como o nosso caminho. “Busque os confortos do reino da graça e da glória como a sua felicidade. Tenha como alvo o Reino dos céus; esforce-se nesta direção; dedique-se a garanti-lo; resolva não restringi-lo; busque esta glória, honra e imortalidade; prefira o céu e as bênçãos celestiais muito mais do que a terra e os prazeres terrenos”. A religião não nos será proveitosa se não nos conduzir ao céu. E com a felicidade deste reino, busque a sua justiça; a justiça de Deus, a justiça que Ele exige que seja operada em nós, e desenvolvida por nós, que deve exceder ajustiça dos escribas e dos fariseus. Devem os seguir a paz e a santificação (Hebreus 12.14). Em segundo lugar, a ordem desta busca: “Buscai primeiro o Reino de Deus”. Que o cuidado pela sua alma e pelo mundo por vir tome o lugar de todos os outros cuidados; e que todas as preocupações desta vida fiquem subordinadas à preocupação pela vida futura. Devemos buscar as coisas de Cristo mais do que as nossas próprias coisas; e se elas entrarem em competição, devemos nos lembrar a qual devemos dar a preferência. “Busque estas coisas em primeiro lugar; que sejam as primeiras em teus dias; que a melhor parte da tua juventude seja dedicada a Deus. A sabedoria deve ser buscada em primeiro lugar e sem perda de tempo; é bom começar a ser religioso logo. Busque, todos os dias, aquilo que precisa estar em primeiro lugar; que ao despertar pela manhã, os seus pens amentos sejam dirigidos a Deus”. Que este seja o seu princípio: fazer primeiro o que for mais necessário, dando o primeiro lugar àquele que é o Primeiro.

[2J A promessa da graça e da misericórdia de Deus anexada. Todas estas coisas, os suportes necessários da vida, lhe serão acrescentados; serão dados abundantemente; portanto, estas coisas ficam na margem. Você terá o que busca, o Reino de Deus e a sua justiça, porque aquele que busca com sinceridade nunca busca em vão. E além disso, você terá mantimento e vestimentas com abundância. Quando buscamos o Reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar, as demais coisas nos são acrescentadas da mesma maneira como papel e barbante são ofertados àqueles que compram mercadorias após uma negociação. A piedade tem a promessa para a vida presente (1 Timóteo 4.8). Salomão pediu sabedoria, e a recebeu, além das outras coisas que lhe foram acrescentadas (2 Crônicas 1.11,12). Que mudança abençoada seria feita em nossos corações e vidas se crêssemos firmemente nesta verdade: que a melhor maneira de sermos sustentados confortavelmente neste mundo é nos preocuparmos com o mundo por vir! Começamos no ponto correto do nosso trabalho, quando começamos com Deus. Se nos preocuparmos em garantir para nós mesmos o Reino de Deus e a sua consequente justiça quanto a todas as coisas desta vida, Jeová-Jiré, o Senhor proverá, nos concederá estas coisas com a finalidade de ver o nosso bem, além de outras coisas que sequer imaginaríamos. Será que temos confiado nele para termos a porção da nossa herança no nosso final, e não confiaremos nele para termos a porção do nosso cálice enquanto estivermos a caminho desse final? O Israel de Deus não só foi levado finalmente até Canaã, mas as suas cargas foram levadas através do deserto. Quão bom seria se fôssemos mais interessados nas coisas que não são vistas, nas coisas que são eternas, e menos interessados (e, de fato, precisamos ser menos interessados nas coisas que são vistas, que são temporais! Não considere tanto as suas próprias coisas (Genesis 45.20,23).

7.”O dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (v. 34). Não devemos ficar excessivamente perplexos sobre os eventos futuros, porque cada dia traz consigo o seu próprio fardo de cuidados e dificuldades. Porém, se olharmos ao nosso redor, e não sofrermos os medos que nos levam a trair o socorro que a graça e a razão oferecem, cada dia também trará juntamente consigo a sua própria força e sustento. Desta forma, somos aqui informados:

1.Que o cuidado excessivo com o amanhã é desnecessário. Deixe que o amanhã cuide de si mesmo. Se os desejos e os problemas forem renovados a cada dia, os auxílios e as provisões serão renovados da mesma forma; as misericórdias do Senhor “novas são cada manhã” (Lamentações 3.22,23). Os santos têm um amigo que é o seu braço a cada manhã (Isaias 33.2), e que lhes distribui suprimentos frescos diariamente, de acordo com a atividade exigida por cada dia (Esdras 3.4). E assim Ele mantém o seu povo em constante dependência de si. Devemos, portanto, utilizar a força do amanhã para fazer a obra de amanhã, e carregar o fardo de amanhã. O amanhã, e as coisas concernentes a ele, serão supridos sem a nossa interferência. Sendo assim, por que precisamos nos preocupar ansiosamente com coisas que já são cuidadas sabiamente? Isto não proíbe uma previsão prudente e uma consequente preparação, mas é necessário evitar uma solicitude perplexa, e uma ideia preconcebida de dificuldades e calamidades, que podem talvez nunca vir. Se estas vierem, poderão ser facilmente tratadas, e seremos guardados de seu mal O significado de tudo isto é o seguinte: consideremos o dever presente, e então deixemos os eventos sob a responsabilidade de Deus; façamos o trabalho do dia em seu próprio dia, e então deixemos que o amanhã traga consigo o seu cuidado.

2.Que o cuidado excessivo com o amanhã é uma das concupiscências tolas e dolorosas, nas quais caem aqueles que se enriquecem. Esta é uma das muitas dores com que eles mesmos se afligem. Basta a cada dia o seu mal. O dia de hoje tem dificuldades suficientes para serem resolvidas, e não devem os acumular fardos antecipando o nosso problema, nem tomar emprestadas perplexidades dos males do amanhã, acrescentando-as aos males do dia de hoje. Não sabemos ao certo que males o dia de amanhã poderá trazer; mas seja o que for, haverá tempo suficiente para agirmos sobre eles quando vierem. Que tolice é tomarmos sobre nós neste dia – por cuidado e temor – os problemas que pertencem ao amanhã, e que não serão mais leves quando chegarem! Não nos sobrecarreguemos com todos os problemas de uma só vez, visto que a Providência sabiamente ordenou que eles ocorram aos poucos, par a que os vençamos em etapas. A conclusão de todo este assunto, então, é que a vontade e o mandamento do Senhor Jesus é que os seus discípulos não sejam os seus próprios atormentadores. Eles também não devem tornar a sua passagem por este mundo mais tenebrosa e desagradável do que Deus a fez originalmente, através da apreensão que sentem devido aos problemas. Por meio de nossas orações diárias, podemos conseguir a força de que precisamos para suportar os nossos problemas diários, e nos armar contra as tentações que nos afligem, não permitindo que nenhuma dessas coisas nos mova, ou nos abale.