PSICOLOGIA ANALÍTICA

A linguagem fluida do afeto

A LINGUAGEM FLUIDA DO AFETO

 Espécie de conto de fadas sombrio, com toques eróticos, filme dirigido por Guillermo del Toro lembra um sonho e fala de perto com o psiquismo.

Não por acaso o filme A forma da água tem atraído e emocionado tanto espectadores. Em si, a trama não traz grandes surpresas – é uma releitura da recorrente luta estereotipada entre o “bem” contra o “mal” (como se fosse possível separar o mundo nessas duas categorias). No entanto, quando vemos a dicotomia tão claramente apresentada, experimentamos certo alívio do qual nem sempre nos damos conta conscientemente: é relaxante que, ainda que por poucos minutos, saibamos com certeza onde está o “perigo”. Como um bom conto de fadas um tanto sombrio e com toques eróticos, o filme dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro apresenta ingredientes que falam de perto com nosso psiquismo. E é do feitio dos contos de fadas evocar fantasia e riqueza simbólica.

Um tom onírico permeia as cenas. Na primeira delas, aliás, a protagonista Elisa (Sally Hawkins) sonha com um mundo submerso. Ao despertar, tudo se torna seco ao seu redor, mais duro e contundente. Mas, assim que se levanta, começa sua interação com a água – a que escorre da torneira, a que preenche o recipiente onde ferve ovos para o café da manhã, a banheira onde se masturba durante o banho, as gotículas que acompanha no vidro do ônibus no começo do dia (na verdade, da noite, pois ela trabalha no período noturno num centro de pesquisas de uma instalação militar como auxiliar de limpeza).

Muda, Elisa tem cicatrizes e um passado de abandono, também marcado pela proximidade com o rio que corta a cidade. Afetuosa, prescinde das palavras para se comunicar e fazer amigos. O vizinho Giles (Richard Jenkins), um pintor homossexual de meia-idade em busca de um amor e de uma chance profissional, e a melhor amiga, a tagarela Zelda Dalila (Octavia Spencer), sua colega de trabalho, são seus fiéis protetores.

O antagonista – verdadeiro monstro da história – é o militar Richard Strickland (Michael Shannon), o arquétipo do homem mau, sádico, misógino, abusivo e racista. A história se passa na década de 60, em plena Guerra Fria, quando Strickland captura um ser anfíbio (Doug Jones) de forma humanoide na América do Sul. Cultuada pelos povos nativos (possivelmente da Amazônia) como uma espécie de deus, a criatura é torturada pelo militar que insiste em afirmar seu poder e se manter no controle. Aquilo que ele não conhece ou não entende o apavora – e desperta sua ira. Nada o alegra, nada lhe parece suficiente: prevalece sempre uma aura soturna de dureza e infelicidade, como convém aos vilões.

Aos poucos, a faxineira se aproxima do anfíbio. Para ela, não há motivo de temor, oferece ovos e apresenta a ele uma de suas paixões, a música. A história de amor se torna inevitável: os dois são “incompletos” como diz Elisa, em linguagem de sinais (como se algum de nós fosse completo). Ainda assim, essa percepção os aproxima de forma delicada, em contraste com a brutalidade do autoritarismo e do poder sem sabedoria. Os dois se encontram em seus silêncios, em suas “estranhezas”.

Para a psicanálise, a relação com o que estranhamos tem sido matéria de atenção e estudo. Há quase um século, em 1919, Freud escreveu o ensaio Das Unheimliche, na maioria das vezes traduzido para o português como O estranho e, mais recentemente, como O inquietante (Companhia das Letras). Para Freud, o estranhamento tem origem em traumas da infância, é recalcado no inconsciente e se torna, ao mesmo tempo, “familiar” e “suspeito”. O criador da psicanálise considera que o inquietante é algo já conhecido, mas enclausurado. Quando sai de águas profundas e vem à tona, pode provocar medo. Mas também atrai o olhar, é difícil ficar indiferente.

O homem anfíbio, visto por Strickland e outros militares como monstruoso, na verdade espelha a própria monstruosidade de quem o olha. Já Elisa apreende no estranho a beleza e a possibilidade do encontro. A violência é às vezes explícita, às vezes latente – mas há saída, existe bondade e esperança. É possível que, por isso, além do conflito da história em si o que prevaleça seja a emergência dos conflitos pessoais e a possibilidade de vê-los, por algum tempo, flutuar leves, na cadência da água.

A linguagem proposta, assim como a usada por Elisa, foge ao convencional. Apesar do poder de cura, que se evidencia ao longo do filme, a criatura não confere a ela a recuperação da fala fluente. De fato, seu silêncio é, em alguns momentos, a sua libertação. Além do mais, embaixo d’água não há espaço para sons, pelo menos não para aqueles com os quais estamos acostumados. Para Elisa e sua criatura amada a comunicação se dá pelo afeto. Entre eles, a história é outra.

GESTÃO E CARREIRA

Corrida contra o tempo

CORRIDA CONTRA O TEMPO

Vez ou outra surgem modismos que prometem aumentar a eficiência. Muitos deles, além de não trazer nenhum resultado, elevam o estresse e a ansiedade.

 De doses de LSD a água morna com limão, são muitas as técnicas para turbinar a produtividade. Seja pela sobrecarga, seja pelo fantasma da procrastinação, todo mundo está em busca de um novo jeito de ser mais eficiente. O mais recente deles, que anda circulando pelas redes sociais, consiste em deixar a bateria do notebook descarregar propositalmente para criar uma pressão e, assim, terminar o trabalho mais rapidamente. “Por causa da internet, é cada vez mais comum ver pessoas disseminando ferramentas sem embasamento. O resultado é que muitos acabam se prejudicando na tentativa de melhorar o desempenho”, diz Tathiane Deândhela, especialista em produtividade e gestão de tempo, de Goiânia.

E foi exatamente isso que aconteceu com o mineiro Jairo Barbosa, de 32 anos. O gerente da Localiza, empresa de aluguel de carros, em Belo Horizonte, conta que utilizou a estratégia do notebook quando precisava entregar um relatório importante, mas, em vez de aumentar o foco, o efeito foi contrário. “Como o computador envia alguns alertas, ficava preocupado com o tempo esgotando, e isso me desviava do trabalho. No final, resolvi conectar o cabo de energia e continuar sem ter de me atentar a isso”, diz. Ele também observa o fato de que, geralmente, a bateria dos notebooks, depois de certo período, fica viciada e sinaliza uma duração que na verdade não é a real. “Imagina, à vezes você está no auge de sua concentração e precisa parar porque computador vai reiniciar?”

O MITO DO MULTITAREFA

Já faz algum tempo que o termo “multitarefa” ganhou status de qualidade no mundo corporativo. Tanto que o comportamento de realizar várias coisas ao mesmo tempo é estimulado e bem-visto por muitas empresas. Porém, pesquisas apontam que grande parte da população não consegue se concentrar em mais de uma atividade ao mesmo tempo. E o pior é que, ao se forçar a agir assim, você pode fazer seu desempenho despencar. “Nosso cérebro fica intercalando entre uma atividade e outra sem se dedicar a nenhuma das duas, o que nos torna mais passíveis de erros”, diz Tamara Myles, autora do livro Produtividade Máxima (Sextante) e especialista no tema.

Essa crença de que é possível terminar um relatório ao mesmo tempo em que ouvimos música, checamos e-mails e espiamos o celular faz surgir várias receitas (e modismos) para recuperar a capacidade de concentração perdida. “O problema da produtividade não é a quantidade de horas gastas em determinada atividade, mas as distrações durante esse período. Realizar mais de uma coisa por vez faz com que levemos o dobro do tempo em comparação a nos concentrarmos apenas em uma”, diz Ênio Klein, presidente da consultoria Doxa Advisers, de São Paulo.

Por isso, diversos especialistas defendem que é preciso abandonar a ideia de fazer muito para adotar o famoso “menos é mais”. ”Produtividade é produzir o que importa primeiro, porque é isso que vai me trazer mais resultados, mesmo que signifique menos entregas. Quando a gente mora no quadrante do urgente e não no do mais importante, apenas resolvemos questões de curto prazo e perdemos grandes oportunidades ou inovações”, diz Tamara.

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DIVISÃO RACIONAL

Como sempre surgem demandas que parecem ser urgentes e importantes, é comum parar uma tarefa no meio do processo e se dedicar a outra, ficando com várias pela metade. “Se eu tenho dez obrigações para fazer, um conselho prático é cortar essas atividades. Sempre estamos com, pelo menos, o dobro do que efetivamente damos conta”, diz Áureo Viliagra, presidente da Goldratt Consulting Brasil, consultoria de gestão empresarial de São Paulo. Mesmo que não haja a possibilidade de conversar com colegas e superiores para pedir ajuda ou estender prazos, é passível adotar algumas estratégias. “Comece a trabalhar com blocos de tempo: metade do seu dia dedicado a coisas urgentes e metade a projetos Importantes, de longo prazo”, afirma Áureo.

Se mesmo assim nada der certo e você precisar cronometrar as horas, o ideal é que esse cálculo seja racional. Um dos métodos mais conhecidos desse tipo é o “Pomodoro”. Criado pelo italiano Francesco Cirillo nos anos 80, ele consiste na utilização de um cronômetro para dividir o trabalho em períodos de 25 minutos, separados por intervalos de 5 minutos que podem conter pequenas recompensas. A técnica ganhou esse nome em alusão aos timmers em formato de tomate, populares na Itália. “A estratégia é estruturada. O período em que você imerge em algo não é nem curto, o que o impediria de focar de verdade, nem extenso, o que seria exaustivo. Isso, associado à nossa mentalidade de ganhar um prêmio, ajuda na concentração”, diz Tamara.

Para a administradora Ariane Osshiro, de 34 anos, o fator recompensa motiva mesmo. A campo-grandense é empreendedora há sete anos na área infantil. A atividade, que envolve longos períodos de concentração e trabalho manual, obrigou Ariane a criar estratégias para não se distrair. De todas elas, adotar os intervalos de 5 minutos após os 25 de foco total foi o que mais funcionou. “No final, sempre procuro fazer algo que me dê prazer, como tomar um chá ou ouvir uma música”, diz. Mas, além dos pequenos prêmios, a adrenalina de cumprir o prazo ao qual se comprometeu é estimulante. “Preciso de desafios. Quando sal do escritório, isso era um grande problema, pois eu não tinha um motivo para competir e procrastinava sempre. Com essa técnica consigo ficar concentrada”, afirma.

PRESSÃO X ESTÍMULO

No dicionário, um dos significados da palavra “pressão” é “uma força exercida em determinada direção”. Por causa dela, estipulamos metas, prazos, nos organizamos para atingir objetivos específicos – o que pode até ter um viés motivador. “Existe a pressão desordenada, aquela que impõe aos liderados milhões de tarefas sem orientação e com prazo curto. Mas existe a que é orientada para o resultado, na qual há um propósito”, afirma Tathiane. No longo prazo, porém, colocar-se sob essa tensão permanente pode trazer prejuízos que vão além de um trabalho malfeito (o que já seria ruim). É possível cair num ciclo de procrastinação exatamente por não conseguir lidar com a urgência das entregas – mesmo que a pressão tenha um objetivo muito claro a ser alcançado. “Quase todas as pessoas tendem a procrastinar. Isso acontece porque elas, no fundo, querem evitar situações de desgaste. Então, adiam na esperança de retardar o momento de ter de enfrentar, seja um problema, seja um trabalho. No final, causam o sofrimento que não queriam”, diz Roberto Debski, coach e master trainer em neolinguística, de Santos (SP). Nesses casos, surge o estresse. “Muitas pessoas dizem que produzem mais em momentos de pressão, o que até pode ser verdade, porém, o que elas não percebem é que se submeter de forma continua a situações como essa pode evoluir para doenças como insônia, gastrite e distúrbios psicológicos”, afirma Roberto.

Por Isso, é preciso entender até onde você pode ir na busca pela produtividade – algo que é totalmente individual. “Pessoas competitivas, por exemplo, reagem melhor a estímulos estressantes. Já as de perfil cauteloso não conseguem produzir em condições assim”, diz Tathiane. E, mesmo com a dose de pressão correta, o ideal é criar um planejamento para que a tensão não seja sempre o único recurso. Produtividade é um hábito construído todos os dias, que precisa ser praticado para fazer parte da rotina sem que seja necessário sobrecarregar a si mesmo – ou descarregar a bateria do notebook.

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Fonte: Revista Você S.A – Edição 238

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 6: 9-15

Continuação do Sermão da Montanha

Quando Cristo condenou o que era errado, Ele os instruiu a fazer o melhor; as suas instruções foram de reprovação. Devido ao fato de não sabermos pelo que orar como deveríamos, Ele aqui nos ajuda em nossas deficiências, colocando palavras em nossos lábios: “Portanto, vós orareis assim” (v. 9). Tantas foram as adulterações que se infiltraram no dever da oração entre os judeus, que Cristo achou necessário dar novas instruções para a oração, com o objetivo de mostrar aos seus discípulos qual deve ser, pela ordem, o assunto e o método de sua oração, e assim Ele apresenta estas instruções em palavras que devem ser usadas como um padrão; como o resumo ou conteúdo de vária s particularidades das nossas orações. Isto não significa que estejamos presos somente ao uso desse formato, como se este fosse necessário para a consagração das nossas orações diárias. Aqui somos instruídos a orar dessa maneira, utilizando ou não essas mesmas palavras, porém devemos manter o sentido das palavras que nos foram ensinadas pelo Senhor. A oração encontrada no Evangelho de Lucas difere dessa; percebemos que ela não foi tão utilizada pelos apóstolos. Não somos ensinados aqui a orar em nome de Cristo, como acontece posteriormente. Somos ensinados a orar para que o Reino venha a nós corno veio quando o Espírito foi derramado. Contudo, sem dúvida, é muito bom usá-la como um padrão, e ela é uma garantia da comunhão dm, santos, tendo sido usada pela igreja em todas as épocas, pelo menos (diz o Dr. Whitby) a partir do século III. Esta é a oração do nosso Senhor, foi Ele quem a compôs, Ele mesmo escolheu o seu sentido e as suas palavras; ela é muito sucinta, embora seja, sem dúvida, muito abrangente, repleta de compaixão pelas deficiências que temos em nossas orações. O assunto é seleto e necessário, o método é instrutivo, e a expressão muito concisa. Ela possui muito em poucas palavras, e requer que estejamos familiarizados com o seu sentido e significado, pois é usa da de forma aceitável, como também com entendimento e sem vãs repetições.

A oração do Senhor (como toda oração), é uma carta enviada da terra ao céu. Nela consta a inscrição da carta; a pessoa a quem ela é dirigida, o nosso Pai; o endereço do destinatário, o céu; o seu conteúdo em várias mensagens que são petições; a conclusão, “pois teu é o Reino”; e o selo, o Amém. E se você também quiser a data, é hoje.

Assim vemos claramente que há três partes na oração.

I – O prefácio: “Pai nosso, que estás nos céus”. Antes de tratarmos do nosso assunto, deve haver uma apresentação solene a Deus, que é a pessoa a quem vamos nos dirigir. Ele é o nosso Pai, e isto sugere que devemos orar, não apenas sozinhos e por nós mesmos, mas com os outros e pelos outros; porque somos membros uns dos outros, e somos chamados para a comunhão uns com os outros. Somos aqui ensinados sobre a quem devemos orar: somente a Deus, e não aos santos ou aos anjos, pois eles não nos conhecem, não devem receber a honra elevada que damos na oração, e não podem conceder os favores que esperamos de Deus, e que título podemos lhe atribuir. Ele é bom e magnífico, porém devemos nos lembrar de que é a sua bondade que faz com que possamos nos aproximar do trono da sua graça com ousadia.

1.Devemos nos dirigir a Deus como o nosso Pai, e devemos chamá-lo assim. Ele é o Pai de toda a humanidade, pela criação (Malaquias 2.10; Atos 17.28). Ele é o Pai, de um modo especial pra a os santos, pela adoção e pela regeneração (Efésios 1.5; Gálatas 4.6); e este é um privilégio indescritível. Portanto, devemos olhar para Ele em oração, mantendo sempre bons pensamentos a respeito dele. Corno é encorajador, e não assustador, chamar a Deus de Pai; não há nada mais agradável a Deus, nem a nós mesmos, do que isto. Na maior parte de suas orações, Cristo chamou a Deus de Pai. Se Ele é o nosso Pai, Ele se compadecerá de nós devido às nossas fraquezas e enfermidades (SaImos 103.13), nos poupará (Malaquias 3.17), fará o melhor do nosso desempenho. E embora sejamos muito defeituosos, o Senhor precioso não nos negará bem algum (Lucas 11.11-13). Nós temos acesso a Ele com ousadia, com o a um pai, e temos um advogado junto ao Pai, além do Espírito de adoção. Quando nos chegamos a Deus, arrependidos dos nossos pecados, devemos ver a Deus como um Pai, como fez o filho pródigo (Lucas 15.18; Jeremias 3.19). Quando nos chegamos pedindo graça, paz, a herança e a bênção dos filhos, sentimo-nos incentivados a nos chegarmos a Deus não como se fôssemos a um Juiz irreconciliável e vingativo, mas como a um Pai amoroso, bondoso e reconciliado através do sacrifício do Bendito Salvador, Jesus Cristo (Jeremias 3.4).

2.Devemos nos dirigir a Deus como o nosso Pai que está nos céus: tanto no céu como em qualquer outro lugar, pois o céu não pode contê-lo; assim no céu como em outros locais para manifestar a sua glória, porque é o seu trono (SaImos 103.19), e este é para os crentes um trono de graça – para lá devemos dirigir as nossas orações, porque Cristo, o Mediador, está agora no céu (Hebreus 1). O céu está fora de vista; é um mundo de espíritos. Portanto, a nossa conversa com Deus em oração deve ser espiritual. O céu está no alto; portanto, na oração, devemos ser erguidos acima do mundo, elevando os nossos corações (SaImos 5.1). O céu é um lugar de pureza perfeita, e assim devemos levantar mãos puras, devemos estudar maneiras de santificar o seu Nome (que é o mais Santo de todos), do Senhor que habita naquele lugar santo (Levíticos 10.3). Do céu, Deus vê os filhos dos homens (SaImos 33.13,14). Em oração, devemos ver os seus olhos sobre nós, pois Ele tem uma visão completa e clara de tudo o que queremos e de todos os nossos fardos e desejos, e também de todas as nossas enfermidades. O céu é o firmamento do seu poder, o contexto em que o Senhor vive (Salmos 150.1). Ele, não só como um Pai, é capaz de nos ajudar, de fazer grandes coisas por nós, mais do que podemos pedir ou pensar; Ele possui recursos para suprir as nossas necessidades, porque toda boa dádiva vem do alto. Ele é o nosso Pai, e assim podemos nos aproximar dele com ousadia; mas Ele é o nosso Pai celestial, e, portanto, devemos nos aproximar dele com reverência (Eclesiastes 5.2). Assim sendo, todas as nossas orações devem corresponder ao nosso grande objetivo como cristãos: estar com Deus no céu. Este é o fim de tudo aquilo que ansiosamente aguardamos, e deve ser particularmente observado em cada oração. Esta é a direção à qual todos nós tendemos. Através das nossas orações, nos transportamos para a presença do Senhor, o local para onde professamos estar indo.

II – As petições – são seis. As três primeiras dizem respeito mais diretamente a Deus e à sua honra, e as três últimas às nossas preocupações, tanto temporais como espirituais. Como nos dez mandamentos, em que os quatro primeiros nos ensinam o nosso dever em relação a Deus, e os seis últimos os nossos deveres em relação ao nosso próximo. O método dessa oração nos ensina a buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e então esperar que todas as outras coisas nos sejam acrescentadas.

1.”Santificado seja o teu nome”. Esta palavra é, em outras passagens, traduzida com o mesmo termo. As pessoas se acostumaram com o termo “santificado” devido a esta oração. Nestas palavras:

(1) Glorificamos a Deus. Esta expressão pode ser tomada não como uma petição, mas como uma adoração; nela o Senhor é exalta ­ do, ou glorificado, pois a santidade de Deus é a grandeza e a glória de todas as suas perfeições. Devemos começar as nossas orações louvando a Deus, e é muito adequado que Ele deva ser servido primeiro, e que devamos dar glória a Deus, antes de esperarmos receber dele misericórdia e graça. Vamos oferecer a Ele o louvor que lhe é devido por causa de sua perfeição, e então receberemos os benefícios dela.

(2) Nós fixamos o nosso objetivo, e o objetivo certo que devemos almejar é que Deus possa ser glorificado; este deve ser o nosso objetivo em todas as nossas petições, assim como a finalidade principal e definitiva em cada uma delas. Todos os nossos demais pedidos devem estar sujeitos a isso, e voltados à busca disso. “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas…” Uma vez que tudo é dele e vem através dele, tudo deve ser para Ele e por Ele. Na oração, os nossos pensamentos e sentimentos devem ser executados principalmente para a glória de Deus. Os fariseus faziam de seu próprio nome o principal objetivo de suas orações (v. 5, “serem vistos pelos homens”), em oposição ao que somos dirigidos a fazer: fazer da glorificação ao nome de Deus o nosso objetivo principal. Todas as nossas petições devem ser centradas e reguladas por esse objetivo. “Faça assim por mim, para a glória do teu nome, e até que o teu nome seja glorificado”. (3) Desejamos e oramos pedindo que o nome de Deus, isto é, o próprio Deus, em tudo pelo que se fez conhecido, possa ser santificado e glorificado tanto por nós como pelos outros, e especialmente por si mesmo. “Pai, que o teu nome seja glorificado como um Pai, e um Pai no céu; sejam reconhecidas a tua bondade e a tua sublimidade, a tua majestade e misericórdia. Que o teu nome seja santificado, pois é um nome santo. Não importa o que aconteça com os nossos nomes impuros; mas, Senhor, o que farás pelo teu grande nome?” Quando oramos para que o nome de Deus possa ser glorificado:

[1] Fazemos da necessidade uma virtude; pois Deus santificará o seu próprio nome, quer os homens desejem isso ou não: “Serei exaltado entre as nações” (Salmos 46.10).

[2] Pedimos aquilo que temos certeza que será concedido. Quando o nosso Salvador orou: “Pai, glorifica o teu nome”, a resposta foi imediata: “Já o tenho glorificado e outra vez o glorificarei”.

1.”Venha o teu Reino”. Este pedido tem claramente uma referência à doutrina que Cristo pregou nesta época e que João Batista havia pregado anteriormente. Mais tarde, João enviou os seus discípulos para pregarem que o Reino dos céus estava às portas. O reino de seu Pai que está nos céus, o reina do Messias, está às portas; e devemos orar para que ele venha. Note que devemos transformar a palavra que ouvimos em oração, e os nossos corações devem ecoá-la. Cristo promete: “Certamente cedo venho.” Sim. Então os nossos corações devem responder: “Sim, Senhor, venha!” Os ministros devem orar sobre a palavra: quando eles pregam que o Reino de Deus está às portas, eles devem orar, dizendo: “Pai, venha o teu reino”. Devemos orar pelo que Deus prometeu, pois as promessas foram feitas não par a substituir, mas para agilizar e encorajar a oração; e quando o cumprimento de uma promessa estiver próximo e às portas, quando o Reino dos céus estiver prestes a vir, deveremos então orar por esta bênção mais veementemente: “Venha o teu reino”. Devemos agir como Daniel, que dirigiu o seu rosto ao Senhor para orar pela libertação de Israel quando entendeu que o tempo desse acontecimento estava às portas (Daniel 9.2. Veja Lucas 19.11). Assim era a oração diária dos judeus a Deus: “Que Deus implante o seu reino, que a sua redenção floresça, e que o Messias venha e livre o seu povo”. Diz o Dr. Whitby: “Que o teu reino venha, que o Evangelho seja prega do a todos e abraçado por todos; que todos sejam trazidos ao conhecimento do registro que Deus deu em sua palavra, a respeito de seu Filho, e o abra cem como o seu Salvador e Soberano. Que os limites da igreja evangélica sejam ampliados, que o reino do mundo passe a ser o reino de Cristo, e todos os homens se tornem sujeitos a Ele, e vivam como seus súditos”.

2.”Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu”. Oramos para que, tendo o reino de Deus chegado, nós e os outros possamos ser trazidos para a obediência a todas as suas leis e ordenanças. De sejamos que o reino de Cristo venha, que a vontade de Deus seja feita; e com isso, que Ele venha como o reino do céus, que Ele apresente um céu na terra. Fazemos de Cristo apenas um Príncipe, se o chamamos de Rei e não fazemos a sua vontade. Entretanto, quando oramos para que Ele nos governe, pedimos para ser governados por Ele em tudo. Observe:

(1) Pelo que oramos: “Seja feita a tua vontade”. “Senhor, faça comigo e com o que tenho o que bem quiseres (1 Samuel 3.18). Eu me sujeito a ti, e estou bem satisfeito pelo fato de todo o teu conselho a meu respeito ser executado”. Neste sentido, Cristo orou: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”. “Capacita-me a fazer o que agrada a ti; dá-me a graça que é necessária para o conhecimento correto da tua vontade, e uma obediência que seja aceitável. Que a tua vontade seja feita conscienciosamente por mim e pelos outros, não a nossa própria vontade, a vontade da carne, ou da mente, não a vontade dos homens (1 Pedro 4.2), muito menos a vontade de Satanás (João 8.44); que não desagrademos a Deus em nada que fizermos, nem sejamos desagradados em nada que tu faças”.

(2) O padrão: que o padrão de Deus possa ser seguido na terra, neste lugar da nossa tribulação e provação (onde o nosso trabalho deve ser feito, ou nunca será feito), como é feito no céu, aquele lugar de descanso e alegria. Oramos para que a terra possa retornar cada vez mais como o céu, através da observância da vontade de Deus (esta terra, que, através da prevalência da vontade de Satanás, se tornou tão semelhante ao inferno), e que os santos possam se tornar mais como os santos anjos em sua devoção e obediência. Estamos na terra, bendito seja Deus, mas não debaixo da terra; oramos somente pelos vivos, não pelos mortos que desceram para o silêncio.

3.”O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Devido ao fato de nosso ser natural ser necessário para o nosso bem-estar espiritual neste mundo, depois das coisas da glória, do reino e da vontade de Deus, oramos pelos suprimentos e confortos necessários nesta vida presente, que são as dádivas de Deus, e que devemos pedir a Ele. Pão para o dia que se aproxima, e também para toda a nossa vida. Pão para o tempo porvir, ou pão para a nossa existência e subsistência, o que está de acordo com a nossa condição no mundo (Provérbios 30.8). Um alimento conveniente para nós e nossas famílias, de acordo com a nossa classe ou posição social.

Cada palavra aqui possui uma lição: 

(1) Pedimos pão. Isto nos ensina a sobriedade e a temperança. Pedimos pão, e não guloseimas.  Não estamos pedindo algo supérfluo, mas aquilo que é saudável, mesmo que não seja agradável. (2) Pedimos o nosso pão. Isto nos ensina honestidade e esforço. Não pedimos o pão da boca das outras pessoas, não o pão da mentira (Provérbios 20.17), não o pão da preguiça (Provérbios 31.27), mas o pão conquistado honestamente.

(3) Pedimos o nosso pão de cada dia. Isto nos ensina a não nos preocuparmos excessivamente pelo dia seguinte (v. 34), mas dependermos constantemente da Providência divina, como aqueles que vivem com poucos recursos disponíveis.

(4) Rogamos a Deus que nos dê o pão, não que nos venda, nem que nos empreste, mas que nos dê. Até mesmo o maior dos homens precisa ser contemplado pela misericórdia de Deus no que diz respeito ao seu pão de cada dia. 

(5) Oramos: ” Nos dê o pão, não só a mim, mas aos outros que o compartilharão comigo.” Isto nos ensina a caridade, e uma preocupação compassiva pelos pobres e necessitados. Também sugere que devemos orar com as nossas famílias; nós e aqueles que fazem parte da nossa casa comemos juntos, e, portanto, devemos orar juntos.

(6) Oramos para que Deus nos dê o pão neste dia. Isto nos ensina a renovar o desejo das nossas almas em relação a Deus, assim como os desejos dos nossos corpos são renovados.  Tão certo como vem o dia, devemos orar ao nosso Pai celestial, entendendo que não poderíamos passar o dia sem oração, assim como não podemos passar o dia sem os alimentos.

4.”Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós per doamos aos nossos devedores”. Este versículo está ligado ao anterior. As palavras “perdoa-nos” sugerem que a menos que os nossos pecados sejam perdoados, não podemos ter conforto na vida ou o sustento dela. Se os nossos pecados não forem perdoados, o nosso pão de cada dia apenas nos alimentará como cordeiros que estão destinados ao matadouro. Isto sugere que devemos orar pelo perdão de cada dia do mesmo modo que oramos pelo pão de cada dia. Aquele que está lavado, necessita lavar os pés. Aqui temos:

 

(1). Um pedido: “Pai…que estás nos céus, (…) perdoa-nos as nossas dívidas”, as nossas dívidas para contigo. Note;

[l] Os nossos pecados são as nossas dívidas; há uma dívida, que, como criaturas, devemos ao nosso Criador. Não oramos para ser dispensados disso [das nossas dívidas], mas ao não pagarmos a dívida, surge então uma dívida que implica em punição. Na falta de obediência à vontade de Deus, nos tornamos ofensivos para a ira de Deus; e por não obedecermos ao preceito da lei, somos obrigados a sofrer a pena. Um devedor arca com as despesas do processo, e nós também. Um criminoso é um devedor da lei, e nós também.

[2] O nosso desejo e a oração do nosso coração ao Pai celestial todos os dias devem ser no sentido de que Ele perdoe as nossas dívidas; que a obrigação à punição possa ser cancelada e anulada, que não entremos em condenação; que possamos ser dispensados, e ter o consolo. Ao solicitarmos o perdão dos nossos pecados, o grande ponto em que devemos confiar é a satisfação da justiça de Deus, que foi feita a favor do pecado do homem através da morte do Senhor Jesus Cristo. Ele é a nossa certeza, ou, antes, o nosso Fiador, aquele que assegurou a nossa justificação.

(2). Um argumento para reforçar este pedido: “Como nós perdoamos aos nossos devedores”. Este não é um pedido de mérito, mas um pedido de graça. Note que aqueles que se chegam a Deus através do perdão de seus pecados contra Ele, devem perdoar aqueles que os ofenderam, caso contrário estarão retendo o próprio perdão que os beneficiaria quando oram o “pai-nosso”. Temos o dever de perdoar os nossos devedores. Quanto às dívidas financeiras, não devemos ser rigorosos e severos ao exigir o pagamento por parte daqueles que não podem nos pagar sem arruinar a si mesmos e suas famílias. Mas aqui o texto se refere a uma dívida de injúria; os nossos devedores são aqueles que cometem transgressões contra nós, que nos atacam (cap. 5.39,40), e na rigidez da lei, poderiam ser processados por isso. Devem os relevar, perdoar, e esquecer as afrontas que nos são feitas, e as coisas erradas que alguém fez contra nós; e esta é uma qualificação moral para o perdão e a paz. Isto nos encoraja a ter a esperança de que Deus irá nos perdoar; porque se houver em nós esta disposição misericordiosa, ela será a operação de Deus em nossa vida, e assim será uma perfeição eminente e transcendental em si – será para nós uma evidência de que Ele nos perdoou, tendo operado em nós a condição do perdão.

5.”E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal”. Este pedido é expressado:

(1) Negativamente: “Não nos induz as à tentação”. Tendo orado para que a culpa do pecado possa ser removida, oramos, como é adequado, para que jamais possamos voltar novamente à loucura, que não sejamos tentados a isso. Não é como se Deus tentasse alguém a pecar; mas: “Senhor, não permita que Satanás permaneça solto sobre nós; acorrente este leão rugidor, pois ele é sutil e malévolo. Senhor, não nos deixe sozinhos (SaImos 19.13), pois somos muito fracos. Senhor, não coloque pedras de tropeço e laços diante de nós, nem nos coloque em circunstâncias que possam ser uma ocasião de queda”. Devemos orar contra as tentações, tanto por causa do desconforto como do transtorno causados por elas. E também por causa do perigo que correm os de ser vencidos por elas, sofrendo a culpa e a dor que então se seguem.

(2) Positivamente: “Mas livra-nos do mal”; do maligno, do diabo, do tentador. “Nos guarde de ser atacados por ele, ou de que sejamos vencidos por estes ataques”. Livra-nos da coisa maligna, do pecado, o pior dos males; um mal, um único mal; aquela coisa maligna que Deus odeia, e para a qual Satanás tenta os homens, e por ela os destrói. “Senhor, livra-nos do mal do mundo, da corrupção que está no mundo através da concupiscência; da iniquidade de toda condição no mundo; do mal da morte; do aguilhão da morte, que é o pecado; livra-nos de nós mesmos, dos nossos próprios corações maus; livra-nos dos homens maus, para que eles não sejam um laço para nós, e nem nós uma presa par a eles”.

III – Conclusão: ” Por que teu é o Reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém!” Alguns relacionam este trecho com a doxologia de Davi (1 Crônicas 29.11). “Tua é, Senhor, a magnificência”.

1.Esta conclusão é uma forma de apelo para reforçar as petições anteriores. Ê nosso dever pleitear com Deus em oração, encher a nossa boca com argumentos (Jó 23.4), não para mover a Deus, mas para tocar a nós mesmos; para encorajar a fé, para estimular o nosso fervor; e para evidenciar ambos. Os melhores pedidos em oração são aqueles que são conquistados em luta com Deus, e daquilo que Ele revelou a respeito de si mesmo. Devemos lutar com Deus em oração através da força que Ele mesmo no concede, expressando tanto a natureza como a urgência dos nossos pedidos. Aqui o pedido tem uma referência especial às três primeiras petições: “Pai nosso, que estás nos céus, (…) venha o teu Reino, (…) por que teu é o Reino. Seja feita a tua vontade, (…) por que teu é o poder. Santificado seja o teu nome, (…) e a glória”. E quanto à nossa situação particular, estas palavras são animadoras: “Teu é o Reino; tu tens o governo do mundo, e proteges os santos; a tua vontade é feita neste mundo”. Deus dá bênçãos e salva como um rei. “Teu é o poder, para manter e sustentar este Reino, e tornar todas as tuas ações proveitosas para o teu povo”. “Tua é a glória, como o fim de tudo o que é dado e feito aos santos, em resposta às suas orações; porque o louvor deles te aguarda”. Esta é uma questão de conforto e santa confiança na oração.

2.E uma forma de louvor e ação de graças. A melhor coisa na súplica a Deus é louvá-lo; este é o modo de obter mais misericórdia, pois esta atitude nos qualifica para recebê-la. Todas as vezes que nos dirigimos a Deus, é adequado que o louvor seja uma parte considerável da nossa oração, porque louvar é uma tarefa dos santos; pertencemos a Deus pelo se u nome, e pelo louvor que lhe oferecemos. Isto é justo; louvamos a Deus, e lhe damos glória, não por que Ele necessite disso, mas porque Ele o merece. Ele é louvado por um mundo de anjos, e é o nosso dever dar-lhe glória, de acordo com o seu intento de se revelar a nós. O louvor é a obra e a felicidade do céu; e todos aqueles que irão par a o céu no futuro, devem começar a se conscientizar sobre o céu agora. Observe como esta doxologia é completa: O Reino, o poder, e a glória, tudo é “teu”. Note que nos convém ser abundantes ao louvar a Deus. Um ver dadeiro santo nunca pensa que pode honrar a Deus o suficiente através de suas palavras de louvor e adoração: aqui deve haver uma fluência misericordiosa, e esta situação deve durar para sempre. Atribuir glória a Deus para sempre sugere um reconhecimento, que é eternamente devido, e um desejo profundo de glorificar ao Senhor eternamente, com os anjos e santos que vivem na presença de nosso Pai celestial (Salmos 71.14).

Por fim, a tudo isso somos ensinados a juntar o nosso amém, “que assim seja”. O amém de Deus é urna dádiva; a sua confirmação significa “assim seja”. O nosso amém é apenas um desejo resumido; a nossa confirmação é que assim seja: é o penhor do nosso desejo e a garantia de sermos ouvidos – é por isso que dizemos “amém”. O amém se refere a toda petição feita antes de pronunciarmos esta palavra. Portanto, em compaixão para com as nossas debilidades, somos ensinados a resumir tudo em uma palavra, juntando, de forma geral, o que por acaso não tenhamos pedido, por termos nos enveredado em particularidades. É bom concluirmos as nossas atividades religiosas com calor e vigor, para que possamos sentir um doce paladar em nosso espírito. Sempre foi um hábito dos bons cristãos dizerem amém, de forma audível, no final de cada oração, e esta ainda é uma prática recomendável, contanto que seja feita com entendimento, como o apóstolo Paulo nos orienta (1 Coríntios 14.16), e com sinceridade, com vida e energia, e com expressões interiores que possam ser uma resposta a esta expressão exterior de desejo e confiança.

A maior parte das petições encont1·adas na oração do “pai-nosso” era comumente usada pelos judeus em suas devoções, como também palavras com um efeito semelhante; mas esta frase na quinta petição, “como nós perdoamos aos nossos devedores”, era perfeitamente nova, e, portanto, o nosso Salvador aqui mostra por qual motivo Ele a acrescentou, sem qualquer reflexão pessoal sobre a irritação, litígio e a má natureza dos homens daquela geração – embora houvesse uma causa suficiente para isso – mas que só se estendia à necessidade e importância da própria causa. Deus, ao nos perdoar, leva em consideração a nossa atitude de perdoarmos aqueles que nos feriram; portanto, quando oramos por perdão, devemos mencionar que temos consciência deste dever; esta atitude nos lembra do nosso dever, e nos liga a ele. Veja a parábola em Mateus 18.23-35. A natureza egoísta é pouco inclinada a concordar com isso. Por esta razão, ela é confrontada por este texto (vv. 14,15).

1.Em uma promessa. Se perdoardes, o vosso Pai celestial também vos perdoará. Não como se esta fosse a única condição exigida; deve haver arrependimento e fé, e uma nova obediência; mas onde outras graças são verdadeiras, haverá isto, de forma que esta será urna boa evidência da sinceridade das nossas outras graças. Aquele que se compadece do seu irmão, mostra que se arrepende diante de Deus. Aqueles que na oração são chamados de devedores, aqui são chamados de transgressores – dívidas de injúria, coisas erradas que são contra nós em nossos corpos, bens ou reputação: transgressões é um termo extenuante para ofensas, paraptomata tropeços, deslizes, quedas. Note que é uma boa evidência, e uma boa ajuda perdoarmos aos outros; chamarmos as injúrias que nos são feitas por um nome suavizador e perdoador. Não chame as ofensas que lhe são feitas de traições, mas de transgressões; não de injúrias intencionais, mas de inadvertências casuais. Pode ser que tal ofensa tenha sido um erro (Genesis 43.12), portanto faça o melhor. Devemos perdoar como esperamos ser perdoados. Portanto, devemos não só não ter malícia, nem mediar vingança, mas também não devemos censurar o nosso irmão pelas ofensas que ele nos fez, nem nos alegrarmos caso lhe suceda qualquer aflição, mas devemos estar prontos para ajudá-lo e fazer-lhe bem. E se ele se arrepender e desejar ser nosso amigo outra vez, devemos tratá-lo com amabilidade e sinceridade, como antes.

2.Em uma ameaça. “Mas se você não perdoar aqueles que lhe ofenderam, este será um mau sinal – ele mostrará que você não tem as outras condições necessárias, mas está totalmente desqualificado para o perdão; e, portanto, o seu Pai, a quem você chama de Pai, e que, como um pai lhe oferece a sua graça em termos razoáveis, não lhe perdoará. E se houver outra graça sincera, contudo você for grandemente deficiente em perdoar, não poderá esperar o conforto do seu perdão, mas terá o seu ânimo abatido por alguma outra aflição que lhe sobrevirá devido a esta obrigação”. Note que aqueles que quer em alcançar a misericórdia de Deus devem mostrar misericórdia aos seus irmãos. Não podemos esperar que Ele estenda as suas mãos para nos conceder o seu favor, a menos que levantemos a Ele mãos santas, sem ira nem contenda (1 Timóteo 2.8). Se oramos guardando ira em nosso coração, temos motivos para temer que Deus responda com ira. Diz-se que as orações feitas com ira são escritas com fel. Que motivo Deus terá para nos perdoar pelas grandes somas que lhe devemos, se não perdoamos o nosso irmão pela pequena soma que este nos deve? Cristo entrou no mundo como o grande Pacificador, e não só para nos reconciliar com Deus, mas uns com os outros, e nisto devemos concordar com Ele. É uma grande presunção – e de consequências perigosas – amenizar uma questão a que Cristo aqui dá tanta ênfase. As paixões dos homens não frustrarão a Palavra de Deus.