ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 28-34

 Os Demônios Expulsos de Dois Homens

Temos aqui a história de Cristo expulsando os demônios de dois homens que estavam endemoninhados. O propósito do capítulo é mostrar o divino poder de Cristo, pelos exemplos de sua autoridade sobre as doenças do corpo (o que para nós é atraente), sobre os ventos e as ondas (que é ainda mais irresistível). e, por último, sobre os demônios (o que é o mais formidável para nós). Cristo tem não apenas todo o poder nos céus e na terra e nos lugares profundos, mas tem também as chaves do inferno. Principados e potestades estavam sujeitos a Ele, mesmo enquanto estava em uma condição de humilhação, como um sinal de como seria a sua entrada em sua glória (Efésios 1.21). Ele os derrotou (Colossenses 2.15). Foi comentado de forma geral (v.16) que Cristo expulsa espíritos malignos com a sua palavra; aqui temos um exemplo particular que possui alguns detalhes mais singulares do que os demais. Este milagre foi realizado no território dos gadarenos; alguns acreditam que estes eram os remanescentes dos antigos girgaseus (Deuteronômio 7.1). Embora Cristo tivesse sido enviado principalmente “às ovelhas perdidas da casa de Israel”, Ele realizou algumas visitas aos habitantes das regiões fronteiriças, como aqui, para obter a sua vitória sobre Satanás. Esta era uma amostra da vitória sobre as legiões malignas no mundo gentílico.

Além do exemplo geral que isto nos dá do poder de Cristo sobre Satanás, e seu desígnio de desarmá-lo e expulsá-lo, temos aqui, especialmente revelado para nós, o estilo e o modo de agir dos demônios em sua hostilidade contra o homem. Observe, com respeito a esta legião de demônios: A obra que realizaram, onde estavam e para onde foram.

I – A obra que realizaram e onde estavam; o que mostra a condição deprimente desses dois que estavam possuídos por eles. Alguns pensam que esses dois eram marido e mulher, pois os outros evangelistas falam somente de um.

1.Eles viviam entre os sepulcros. Daquele lugar, eles vieram ao encontro de Cristo. O demônio, tendo o poder da morte, não como juiz, mas como carrasco, deleita-se em conservar, entre os troféus da sua vitória, os cadáveres dos homens; mas ali, onde ele se considerava em seu momento de maior triunfo e grandeza, como posteriormente no Gólgota, o lugar da caveira, Cristo o derrotou e subjugou. Viver entre os túmulos aumentava a melancolia e o frenesi dos pobres endemoninhados. Assim era fortalecida a posse que o diabo tinha deles através da perturbação espiritual e física, que também os tornava mais temíveis para as outras pessoas, que geralmente se assustam com qualquer coisa que se mova entre os sepulcros.

2.Eles eram muito ferozes; não apenas incontroláveis, mas prejudiciais aos outros, assustando a muitos, tendo ferido alguns; de modo “que ninguém podia passar por aquele caminho”. Note que o diabo espalha a maldade entre a humanidade e mostra isso tornando os homens maus e mal-intencionados uns contra os outros. Inimizades mútuas, onde deveria haver ajuda e apreço mútuos, são efeitos e evidências da inimizade de Satanás para com toda a raça. Ele transforma um homem em um lobo, um urso, um demônio, diante de seus semelhantes. Quando Satanás controla um homem espiritualmente, as concupiscências que estão em luta em seus membros – o orgulho, a inveja, a malícia e a vingança – tornam-no inadequado à sociedade humana, indigno dela e um inimigo do seu bem-estar, como eram essas pobres criaturas endemoninhadas.

3.Eles oferecem resistência a Jesus Cristo e negam qualquer ligação com Ele (v. 29). Podemos ver aqui um exemplo do poder de Deus sobre os demônios; não obstante o mal que eles planejavam realizar a essas pobres criaturas, e através delas, ainda assim não puderam impedi-las de se encontrar com Jesus Cristo, que preparou as coisas de forma a se encontrar com elas. Foi a irresistível mão do Senhor que arrastou esses espíritos imundos à presença daquele que eles temiam mais do que qualquer outra coisa. Suas afirmações puderam con­tê-los, enquanto as correntes que os homens fizeram para eles não puderam fazê-lo. Mas sendo levados à presença dele, os demônios protestaram contra a sua autoridade e romperam em um acesso de ira: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Aqui está:

(1) Uma palavra que o demônio disse como se fosse um santo. Ele se dirigiu a Cristo como “Jesus, Filho de Deus”; uma boa palavra que não foi revelada a Pedro pela carne e pelo sangue (cap. 16.17). “Os demônios creem e estremecem”, e confessam a Cristo como o Filho de Deus, e ainda assim permanecem demônios, o que toma a inimizade deles a Cristo muito mais grave e, sem dúvida, um perfeito tormento para eles próprios. Pois como pode ser diferente, uma vez que eles se opõem àquele que eles sabem ser o Filho de Deus? Note que aquilo que distingue os santos dos demônios não é o conhecimento, mas o amor. Satanás é o primogênito do inferno que conhece a Cristo, e ainda assim o odeia e não se submete a Ele e à sua lei. Devemos recordar que não fazia muito tempo que o demônio havia duvidado que Cristo fosse o Filho de Deus e tentou convencê-lo a duvidar disso (cap. 4.3). Mas agora Ele confessa isso imediatamente. Note que embora os filhos de Deus possam ficar muito mais desassossegados em uma hora de tentação pelo questionamento de Satanás a respeito do seu relacionamento com Deus como Pai, ainda assim o Espírito de adoção esclarecerá toda a questão para eles, satisfazendo-os por completo, colocando a verdade acima da contradição do diabo.

(2) Duas palavras que Satanás disse como um demônio, que ele realmente é.

1.Uma palavra de rebeldia: “Que temos nós contigo?” Agora, em primeiro lugar, é verdade que os demônios nada têm a ver com Cristo como Salvador, pois Ele não tomou para si a natureza dos anjos caldos, nem se apegou à descendência deles (Hebreus 2.16). Eles nada têm com Ele, não têm nem esperam qualquer benefício por parte dele. Oh! Como é profundo este mistério do amor divino em que homens caídos têm tanto a ver com Cristo, enquanto anjos caídos nada têm com Ele! Certamente aqui existia tormento suficiente antes do tempo, a ponto de o diabo ser forçado a confessar a excelência que existe em Cristo, e ainda que ele nada tinha com o Senhor Jesus. Note que é possível chamar a Jesus Cristo de Filho de Deus, e ainda assim não ter nada a ver com Ele. Em segundo lugar, também é verdade que os demônios desejam não ter nada a ver com Cristo como o Soberano; eles o odeiam, eles estão cheios de hostilidade contra Ele, eles permanecem em oposição a Ele, e estão em rebelião aberta contra o seu poder e dignidade. Veja a linguagem que eles utilizam, que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo, com suas leis e ordenanças, que não faz com que tomem o seu jugo sobre si mesmos, que não rompe as suas amarras em duas partes, e não faz com que o aceitem para reinar sobre si mesmos; que diz ao Onipotente Jesus: Afasta-te de nós ; eles são de seu pai, o demônio, eles realizam as suas concupiscências e falam a sua linguagem. Em terceiro lugar, não é verdade que eles nada tenham a ver com Cristo como Juiz, porque eles têm, e eles o sabem. Esses demônios não podiam dizer: Que tens conosco? Não podiam negar que o Filho de Deus é o Juiz dos demônios. Em seu julgamento, eles estão aprisionados com correntes das trevas, das quais eles alegremente se livrariam, e que querem tirar de seus pensamentos.

1.Uma palavra de desaprovação e protesto: “Vieste aqui atormentar-nos”, para nos expulsar destes homens e nos impedir de fazer o mal que faríamos?” Note que ser expulso e impedido de fazer a maldade é um tormento para o demônio, cujo consolo e satisfação são o sofrimento e a destruição do homem. ” Não devemos, então, considerar como bem-aventurança estarmos bem, e considerar como causa de nosso tormento, seja interno ou externo, o que nos impede de fazer o bem?” “Nessas circunstâncias, temos de ser atormentados, por ti, antes do tempo”. Perceba que, em primeiro lugar, há um tempo no qual os demônios serão mais atormentados do que são agora, e eles o sabem. O grande julgamento no último dia é a hora determinada para a sua tortura completa no fogo eterno que está preparado – há muito tempo – para o diabo e seus anjos (Isaias 30.33; cap. 25.41); eles estão reservados para o julgamento daquele dia (2 Pedro 2.4).

Aqueles espíritos malignos que são, pela permissão divina, prisioneiros à solta e andam de um lugar para o outro por toda a terra (Jó 1.7), mesmo agora estão sob controle; o poder deles alcançará até aqui, e não além. Eles se tornarão, então, prisioneiros trancafiados. Eles têm, agora, alguma liberdade; mas estarão, depois, em um tormento sem descanso. Isto eles aqui têm como certo e jamais pedem para ser torturados (a falta de esperança de alívio é a maior angústia da situação deles), mas pedem que não sejam atormentados antes do tempo. Pois embora não saibam quando será o dia do julgamento, eles sabiam que ainda não havia chegado. Em segundo lugar, os demônios têm uma certa antecipação pavorosa desse julgamento, e uma revolta furiosa contra toda atitude de Cristo a cada restrição ao poder e à ira deles. A simples visão de Cristo e a sua palavra de ordem para saírem do homem os deixava, neste caso, apreensivos pelo tormento que sofreriam. Desse modo, “os demônios creem e estremecem” (Tiago 2.19). É a própria hostilidade para com Deus e o homem que os coloca sob tortura e tormentos antes do tempo. Nem mesmo os pecadores mais desesperados, cuja condenação está selada, podem tornar os seus corações totalmente insensíveis à surpresa do terror, quando veem “que se vai aproximando aquele Dia”.

II – Vejamos, agora, que obra eles realizaram, para onde foram após terem sido expulsos do homem possuído. Foram para uma manada de porcos, que estava distante (v. 30). Esses gadarenos, embora vivendo do outro lado do Jordão, eram judeus. O que tinham eles a ver com os porcos, que de acordo com a lei eram imundos, e não deveriam ser comidos nem tocados? Provavelmente, nos arredores da terra, viviam entre eles muitos gentios a quem esta manada de porcos pertencia. Estes os criavam para serem vendidos ou trocados com os romanos, que eram apreciadores da carne de porco, e com quem eles tinham agora um grande comércio. Agora, observe:

1.Como os demônios dominaram os porcos. Embora os porcos estivessem distantes, e, talvez, fora de perigo, ainda assim os demônios os espreitavam para lhes causar danos: pois eles andam para um lado e para o outro, buscando devorar, procurando uma oportunidade, e não precisam procurar muito para encontrá-la. Aqui, nesse momento:

(1) Eles pediram permissão para entrar nos porcos (v. 31). Eles imploraram a Jesus, com toda a sinceridade: “Se nos expulsas, permite-nos que entremos naquela manada de porcos”. Através disto:

[1]. Eles mesmos estão conscientes de sua própria tendência a fazer o mal, e do prazer que isto lhes traz. Portanto, aqueles que se as­ semelham a eles são seus filhos: “Pois não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono, se não fizerem tropeçar alguém” (Provérbios 4.16). Em outras palavras: “Permite-nos que entremos naquela manada de porcos – qualquer lugar em vez do lugar de tormento, qualquer lugar onde fazer o mal”. Se não lhes é permitido agredir os homens em seus corpos, eles os agridem através de seus pertences, e nisso, também, eles pretendem prejudicar suas almas, ao tornarem Cristo um fardo para eles. Quão maliciosas artimanhas aquela velha serpente insidiosa possui!

[2] Os demônios reconhecem o poder de Cristo sobre si mesmos, a ponto de, sem o seu consentimento e permissão, não poderem sequer ferir um porco. É reconfortante para todo o povo do Senhor saber que, embora o poder do diabo seja muito grande, ainda assim é limitado, e não é tão livre quanto a sua malícia (o que seria de nós, se o fosse?). Devemos perceber, especialmente, que o poder do inimigo está sob o controle de nosso Senhor Jesus, nosso fiel e poderoso amigo e Salvador, e que Satanás e seus instrumentos não podem ir além daquilo que o Senhor lhes permite; aqui eles têm que parar de brandir com arrogância.

(2) Eles tiveram permissão. Jesus Cristo lhes disse: “Ide” (v. 32), como Deus fez com Satanás quando ele pediu autorização para afligir a Jó. Entenda que Deus realmente, muitas vezes, por finalidades sábias e santas, autoriza as tentativas da ira de Satanás, e permite que ele faça o mal que deseja, e através disso até mesmo atenda aos seus propósitos. Os demônios não são apenas prisioneiros de Cristo, mas seus vassalos; seu domínio sobre eles aparece no dano que eles fazem, bem como no impedimento de que façam mais. Desse modo, até a ira deles serve para louvar a Cristo, e o excesso dela Ele reprime e sempre reprimirá. Cristo permitiu isto:

[1]. Para o convencimento dos saduceus que viviam, então, entre os judeus, e que negavam a existência dos espíritos e não reconheciam que havia tais seres, porque eles não os podiam ver. Agora Cristo realizaria, através disto, na medida do possível, uma demonstração visual da existência, da multidão, do poder e da maldade dos espíritos malignos. E assim, se os saduceus não fossem convencidos por esse meio, poderiam se tornar indesculpáveis em sua infidelidade. Nós não vemos o vento, mas seria absurdo negá-lo ao vermos as árvores e as casas derrubadas por ele.

[2]. Para a punição dos gadarenos, que talvez, a pesar de serem judeus, tinham tomado a liberdade de comer carne de porco, contrariando a lei. De qualquer forma, sua atitude de criar porcos atinge as raias do mal. Cristo também mostraria de que bando infernal eles foram libertos e que, se Ele tivesse permitido, logo os teriam sufocado, como fizera m com os seus porcos. Os demônios, em obediência à ordem de Cristo, saíram dos homens, e tendo a autorização, quando foram expulsos, imediatamente entraram na manada de porcos. Veja que inimigo hábil é Satanás, e como é desembaraçado; ele não perde tempo para fazer o mal. Observe:

2.Para onde eles levaram os porcos, quando se apossaram deles. Eles não desejavam salvar suas vidas e, por isso, fizeram com que se precipitassem violentamente por um despenhadeiro no mal; onde todos morreram, chegando a um número de quase dois mil (Marcos 5.13). Entenda que o diabo busca a possessão para destruir. Por isso ele incita as pessoas ao pecado, as incita em direção àquilo contra o que elas se decidiram e que sabem que lhes causarão vergonha e sofrimento. Com que força o espírito maligno “opera nos filhos da desobediência”, enquanto por tantas concupiscências insensatas e perniciosas eles são levados a agir em contradição direta, não apenas à religião, mas à justa razão e a seus interesses neste mundo! Assim, da mesma maneira, ele os impele para a ruína, pois ele é Apoliom e Abadom, o grande destruidor. Através das suas concupiscências, praticadas pelos homens, eles submergem na “perdição e ruína”. Esta é a vontade de Satanás, engolir e devorar; deprimente, portanto, é a condição daqueles que são feitos cativos por ele, de acordo com a sua vontade. Eles são impelidos para um lago pior do que este, um “lago que arde com fogo e enxofre”. Observe:

3.O efeito que este fato teve sobre os donos dos porcos. Um relato do ocorrido foi logo levado a eles pelos porqueiras, que pareciam estar mais preocupados com a perda dos porcos do que com qualquer outra coisa, pois eles não foram contar “o que acontecera aos endemoninhados”, até que os porcos tivessem desaparecido (v. 33). Cristo não entrou na cidade, mas a notícia de sua presença ali, sim, e através dela, Ele desejava sentir qual era a disposição do povo dali, e que influência ela tivera sobre eles. Então o Senhor agiria de acordo com a situação.

Nesse momento:

(1) A curiosidade dos habitantes da cidade os levou para fora, a ver Jesus. “Toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus”, para que eles fossem capazes de dizer que tinham visto um homem que realizou obras tão maravilhosas. Assim, muitos que não tinham nenhuma afeição por Cristo, nem o desejo de conhecê-lo, saíram ao seu encontro.

(2) A avareza fez com que desejassem se livrar dele. Ao invés de convidá-lo a entrar em sua cidade, ou trazer seus doentes a Ele para serem curados, eles desejaram que Ele partisse de seus limites, corno se tivessem tomado emprestado as palavras dos demônios: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” E agora os demônios tinham o que eles visavam ao afogar os porcos; eles fizeram isso, e depois fizeram as pessoas acreditarem que Cristo o havia feito. E assim fizeram com que elas tivessem uma predisposição contra Ele. Satanás seduziu os nossos primeiros ancestrais ao imbuí-los de pensamentos injustos a respeito de Deus, e afastou os gadarenos de Cristo ao sugerir que Ele havia ido até o seu território para destruir os seus animais, e que Ele lhes faria mais mal do que bem. Pois embora Ele houvesse curado dois homens, Ele havia afogado dois mil porcos. Dessa forma, o diabo semeia o joio no campo de Deus, causa danos à igreja cristã, e depois coloca a culpa na cristandade e inflama os homens contra ela. Os gadarenos rogaram que Jesus se retirasse para que não sofressem alguma outra praga, como no caso de Moisés no Egito. Note que há um grande número de pessoas que prefere os seus porcos ao Salvador e assim ficam sem Cristo e sem a salvação que somente Ele pode proporcionar. Eles desejam que Cristo vá embora de seus corações e não permitem que a sua Palavra tenha um lugar neles, porque Ele e a sua Palavra serão a destruição de suas concupiscências animalescas – aqueles porcos que eles decidiram se es­ forçar para alimentar. E, de forma justa, Cristo abandonara á aqueles que desta forma estão cansados dele, e lhes dirá daí por diante: ”Apartai-vos de mim, malditos”, que dizem agora ao Todo-poderoso: “Retira-te de nós”.

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GESTÃO E CARREIRA

Boas ou más, dê-me a verdade

BOA OU MÁ, DÊ-ME A VERDADE

Equipes perdem motivação ao não saber o que ocorre na empresa.

Ocultar informações negativas numa empresa, mesmo na intenção de preservar o ânimo da equipe, é perigosíssimo. Pesquisadores da Warwick Business School, no Reino Unido, concluíram num estudo que honestidade e transparência são cruciais para obter o engajamento de cada profissional envolvido. O conhecimento dos desafios profissionais em jogo mostrou-se mais motivador do que a percepção de que coordenadores omitem informação ou agem com otimismo infundado. O estudo constatou que chefias mostram tendência a omitir informações negativas na ilusão de que pouparão a equipe de desgaste, mas isso gera insegurança. Um chefe que expõe problemas ganha confiança e respeito da equipe, o que tende a se refletir em melhores resultados no longo prazo, mesmo com obstáculos imediatos. Há regras fundamentais para que isso funcione: as informações devem ser compartilhadas regularmente e a equipe deve poder se expressar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A terapia da auto estima

A TERAPIA DA AUTO ESTIMA

Com base num princípio budista, psicólogos começam a aplicar uma técnica orientada pela ideia de que ser gentil consigo mesmo pode aumentar a resiliência, que se traduz na capacidade de enfrentar dificuldades de forma saudável, sem sucumbir a elas. Na prática, o desenvolvimento da compaixão por si mesmo diminui as consequências nocivas do estresse e melhora a qualidade dos relacionamentos.

Em 2015, Miriam, na época com 28 anos, formada e pós-graduada em administração de empresas, passou por uma série de situações difíceis. Ela perdeu o emprego quando a empresa em que trabalhava encerrou suas atividades e, ansiosa para voltar a trabalhar, aceitou uma vaga de gerente numa loja que exigia muito dela fisicamente. Semanas depois, Miriam machucou o quadril enquanto carregava algumas caixas com mercadorias.

Com dificuldade de caminhar, pediu demissão com a intenção de encontrar outro trabalho. Mas sem conseguir participar de entrevistas de emprego, sentindo-se triste e estressada, passou a se dedicar a um jogo lógico de cartas online. No entanto, até mesmo a diversão lhe causava angústia. Ingressar num torneio foi um dos últimos atos de um padrão que costumava ter na vida: estabelecer grandes metas e, posteriormente, julgar-se duramente por não cumpri-las.

Sentia-se deprimida, ansiosa, e a sensação de derrota reforçava a autocrítica. Apesar de ser boa jogadora, não conseguia perdoar as próprias falhas. Mais tarde ela se deu conta de que por esse motivo já havia abandona- do as aulas de balé e os treinos de vôlei: errar era insuportável para ela.

Hoje, frequentando sessões de psicoterapia duas vezes por semana, Miriam acredita que esse comportamento estava relacionado com o modo como foi criada pelos pais, que a pressionavam para se destacar no que quer que fizesse. Durante uma das sessões de terapia, uma associação a ajudou significativamente: recordou-se de um livro que tinha lido sobre comunicação não violenta, que enfatizava a importância de ter sensibilidade na hora de escolher as palavras – inclusive para si mesma. Essa lembrança funcionou como um insight para Miriam, que passou a incluir em seu vocabulário uma palavra revolucionária para sua autoestima: compaixão por si mesma.

No nível mais básico, significa tratar a si mesmo com bondade e compreensão que se dedicaria a um amigo. Quem tem dificuldade nesse aspecto não é necessariamente insensível – mas tende a manter padrões muito elevados para si mesmo, o que pode ser bastante prejudicial. Ser gentil consigo mesmo permite reconhecer e aceitar os próprios sentimentos, em vez de se desafiar constantemente a “fazer melhor”.

Miriam faz parte de um crescente número de pessoas que começam a descobrir que praticar a autocompaixão pode ser uma alternativa surpreendentemente eficaz ao hábito comum e paralisante da autocrítica associada ao sentimento de fracasso e à culpa. Desde que esse conceito surgiu como uma construção científica – com um artigo da psicóloga Kristin D. Neff, da Universidade do Texas em Austin, em 2003 –, o volume de publicações acadêmicas que investigam o assunto tem aumentado significativamente.

Em especial nos últimos anos, o tema da autocompaixão ganhou notoriedade. Psicólogos e pesquisadores, como Neff, desenvolveram estudos para entender melhor o conceito. Muitos psicólogos e psicanalistas enxergam a prática de tratar a si mesmo com amabilidade como um componente natural de tratamentos bem embasados, que focam a aceitação, a elaboração e o amadurecimento psíquico, que resulta na mudança gradual de padrões repetitivos.

No entanto, na cultura competitiva em que vivemos, atitudes cuidadosas consigo mesmo podem ser confundidas (até pela própria pessoa) com egoísmo, num extremo, ou autoindulgência, em outro. Por isso mesmo, alguns resistem à ideia da autocompaixão, associando-a erroneamente a egocentrismo, fragilidade e auto complacência. Mas será que o fato de sermos gentis conosco, após um contratempo, tende a nos deixar fracos e condescendentes? Essa é uma de muitas perguntas que as pesquisas sobre o assunto se propõem responder. Evidências revelam que a autocompaixão costuma ser uma fonte de força pessoal e interpessoal que favorece a estabilidade emocional e a motivação para o auto aperfeiçoamento.

 ANTIGAS RAÍZES

Pioneira no estudo científico da autocompaixão, Neff se interessou pelo assunto na década de 90. Como se não bastasse a preocupação com o doutorado, na época ela enfrentava a separação no primeiro casamento. Apesar do sentimento de fracasso e das duras críticas que dirigia a si mesma, a psicóloga encontrou forças para iniciar sessões de meditação e passou a interessar-se pela filosofia budista.

Ela sabia que a compaixão envolvia a preocupação com a dor do outro e o desejo de aliviar o sofrimento dessa pessoa, mas nunca pensou em dirigir essa energia para si mesma até ler o livro Bondade: a arte revolucionária da felicidade, sem tradução em português, da professora de meditação Sharon Salzberg. Neff se sentiu transformada pela mensagem de que ser gentil consigo mesma é essencial para ter amor genuíno pelos outros. E logo começou a estabelecer as bases para estudar o tema cientificamente.

Durante suas pesquisas, distinguiu três elementos indispensáveis da autocompaixão: a tolerância consigo mesmo em tempos difíceis; o hábito de prestar atenção ao sofrimento de maneira consciente, sem preocupação excessiva; e o reconhecimento de que a dor é parte da experiência humana, não algo exclusivo de um único ser. Esses três componentes se tornaram a base das perguntas que Neff usou para desenvolver uma escala de autocompaixão, um teste que publicou em 2003 na revista Self and Identity e que agora é amplamente utilizado por pesquisadores para avaliar essa característica. Com a ajuda da escala, Neff observou que quem tem altos níveis de autocompaixão é menos propenso a desenvolver ansiedade e depressão. E demonstrou que ser delicado consigo mesmo pode provocar grandes efeitos no mundo a nossa volta. A psicóloga Juliana Breines, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, teve o primeiro contato com o trabalho de Neff durante a graduação na Universidade de Michigan. Breines suspeitava que o hábito de olhar a si próprio com bons olhos pudesse ajudar a evitar a montanha-russa da “autoestima contingente” – isto é, relacionar o modo como nos enxergamos a fatores flutuantes, como realização acadêmica, condição financeira e aprovação alheia. Muitos estudos já haviam demonstrado que esse tipo de pensamento não favorece a autoestima nem a aprendizagem. Breines, porém, tinha receio de que a autocompaixão pudesse prejudicar a motivação. “Esse sentimento pode ser reconfortante, mas não nos tira de um problema muito rapidamente?”, perguntou-se.

Breines decidiu investigar essa questão. Em uma série de experimentos, ela e seus colegas aplicaram um difícil teste de vocabulário a 86 universitários. Para avaliarem os efeitos da autocompaixão no estudo, eles dividiram os voluntários em três equipes. Aos integrantes do primeiro grupo, disseram ser comum ter dificuldades na hora da avaliação e aconselharam os participantes a se esforçar sem serem excessivamente exigentes consigo mesmos. O segundo grupo ouviu uma argumentação lógica: “Se você entrou nesta universidade e foi selecionado para este grupo, então deve ser inteligente”. O terceiro não teve nenhuma informação.

Em seguida, os pesquisadores avaliaram quanto tempo os universitários estudariam para um segundo teste semelhante. De acordo com o que relataram no periódico científico Personality and Social Psychology Bulletin, o grupo que recebeu orientações sobre a autocompaixão utilizou 33% de tempo a mais estudando para o questionário seguinte do que aquele que foi estimulado a perceber racionalmente o quanto era capaz, e 51% a mais do que o grupo neutro (de controle) – uma evidência de que a autocompaixão pode reforçar a motivação. Ou seja: ser amável consigo mesmo pode ajudar a tolerar as falhas, o que aumenta a disposição para tentar novamente – e acertar.

Em duas pesquisas de 2012 lideradas pela psicóloga social Ashley Batts Allen, então na Universidade Duke, cientistas investigaram a autocompaixão em adultos mais velhos e encontraram benefícios psicológicos. No primeiro estudo, com 132 participantes entre 67 e 90 anos, foi observado que aqueles indivíduos que expressavam essa característica com frequência relatavam maior senso de bem-estar, mesmo quando a saúde não ia tão bem. No segundo experimento, com 71 idosos, a autocompaixão ajudou a prever a disposição para usar um andador em caso de necessidade. “Eles se sentiam menos incomodados pelo fato de precisar de ajuda”, afirma Allen, agora na Universidade da Carolina do Norte em Pembroke.

“Quem não costuma praticar um olhar generoso consigo mesmo tende a usar muita energia emocional pensando em coisas desagradáveis, mas não de forma produtiva, focando problemas reais”, observa o psicólogo Mark Leary, da Universidade Duke, que colaborou com a pesquisa. Por exemplo: negar uma dificuldade (como se recusar a usar um andador) pode trazer mais complicações, como uma fratura no quadril. A autocompaixão, por outro lado, tende a nos levar a perceber e aceitar a realidade – e nossos limites – sem julgamentos ou a sensação de que fracassamos porque temos fragilidades.

Em 2014, Leary e seus colegas acompanharam 187 pessoas, principalmente afro–americanos, que vivem com o HIV. Os pacientes com maior nível de autocompaixão apresentavam reações mais saudáveis à convivência com o vírus potencialmente mortal: demonstravam menos estresse, diziam sentir menos vergonha e eram mais propensos a expressar sua condição, além de aderir ao tratamento médico. Uma meta-análise de 2015 que envolvia 15 estudos com 3.252 participantes publicada na Health Psychology encontrou ligação entre comportamentos auto compassivos e hábitos saudáveis relacionados com alimentação, exercícios físicos, sono e formas de lidar com o estresse.

As pesquisas indicam que a autocompaixão pode favorecer a resiliência (resistência emocional) e permite recuperar o bem-estar emocional após as adversidades. Pessoas que usavam consigo mesmas uma linguagem mais generosa após o divórcio, por exemplo, costumavam se recuperar mais rapidamente do luto da separação do que aquelas que tinham uma visão mais autocrítica ou de auto piedade (“Por que eu?”, “A culpa é minha” ou “A culpa é do outro que me causou esse sofrimento”), segundo um estudo de 2012 com 109 adultos.

DE VOLTA AOS TRILHOS

Cuidar de pessoas que requerem cuidados especiais costuma exigir grande dedicação e equilíbrio emocional. Criar uma criança autista, por exemplo, pode demandar mais, do ponto de vista emocional, do que outras formas de parentalidade e, em alguns casos, causar altos níveis de estresse e abatimento. No entanto, um estudo de 2015 com 51 famílias que tinham crianças autistas demonstra que a capacidade dos pais de olhar a si mesmos com generosidade era um preditor mais importante do bem-estar deles do que a gravidade das deficiências ou mesmo o sofrimento da criança.

Uma pesquisa com 115 veteranos americanos das guerras do Iraque e do Afeganistão oferece outro exemplo interessante. Um estudo de 2015 publicado no Journal of Traumatic Stress constatou que os soldados com maior autocompaixão demonstravam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) muito menos graves do que aqueles que apresentavam o traço com menor intensidade, independentemente da exposição ao combate. “Essa é uma poderosa evidência da ideia de que não somos influenciados somente pelo que enfrentamos na vida, mas também pela maneira como nos relacionamos com nós mesmos quando passamos por momentos difíceis”, destaca Neff.

Estudos recentes com pessoas diagnosticadas com outros distúrbios psiquiátricos, como compulsão alimentar e transtorno de personalidade borderline, sugerem que tratar a si mesmo com gentileza é importante para manter o equilíbrio. A psicóloga Allison Kelly, da Universidade de Waterloo, em Ontário, que estudou o efeito de intervenções relacionadas com a autocompaixão no transtorno de com- pulsão alimentar, ressalta a importância não apenas de um aprendizado de tolerância em relação aos próprios impulsos, mas também da descoberta de formas de recuperar depois de ceder a eles. “A crítica severa, acompanhada de auto ameaças e desmerecimento de si mesmo, dificulta a reflexão e afasta a possibilidade de aprender com as dificuldades”, afirma. Segundo ela, a primeira coisa a fazer é acolher a si mesmo, reconhecer que foi feita uma escolha ruim e comprometer-se de forma consciente com a necessidade de agir de forma diferente.

“E não se trata de condescendência, mas sim de aproveitar a consciência do mal que somos capazes de fazer a nós mesmos para buscar outras opções.”

Ou seja: tratar a nós mesmos com delicadeza nos fortalece e ameniza a falta de confiança na própria capacidade. Em um estudo longitudinal de 2015 liderado pela psicóloga Sarah Marshall, da Universidade Católica Australiana, os pesquisadores acompanharam um grupo de 2.448 adolescentes que passavam da nona para a décima série. Marshall observou que o hábito de se valorizar era um precursor de saúde mental, independente- mente do nível de autocompaixão. E, quando crianças com baixa autoestima conseguiam ser generosas consigo mesmas, tendiam a se tornar menos tensas e mais equilibradas.

Muitas vezes, desenvolver habilidades sociais ou mesmo conseguir um emprego melhor parece momentaneamente fortalecer a autoestima. Mas não basta, pois, situações externas não sustentam o bem-estar emocional. Se a pessoa não compreender – por meio de associações com suas experiências e a história da própria família – o lugar que a auto depreciação ou a sensação de não ser boa o suficiente ocupa em sua dinâmica psíquica, a confiança em si mesma não dura. Se durante esse processo de autoconhecimento a pessoa for generosa consigo mesma, a evolução tende a ser muito mais rápida.

 RELACIONAMENTOS MAIS FORTES

Pesquisas mostram que tratar a si mesmo com delicadeza favorece também as trocas interpessoais. Em 2013, Kristin Neff liderou um estudo com 104 casais, em que analisou como indivíduos auto compassivos tratavam seu par romântico – segundo a avaliação do parceiro. Em geral, os homens e as mulheres que pontuavam alto numa escala que media o traço eram vistos como mais carinhosos e solidários, além de pouco controladores e me- nos verbalmente agressivos, em comparação àqueles com baixa autocompaixão.

Seria mais fácil mostrar compaixão aos outros do que a nós mesmos? Neff acredita que, embora pareça que sim, a longo prazo essa postura não se sustentará se não tivermos cuidado também conosco. Não raro, os efeitos dessa atitude surgem como depressão, crises de ansiedade e sintomas psicossomáticos. “Quando oferecemos tudo o que temos ao parceiro e somos muito duros com nós mesmos, dificilmente vamos conseguir manter uma relação saudável”, argumenta.

Essa interpretação não está de acordo com as descobertas que, publicadas em 2013 na Self and Identity, revelam como pessoas auto compassivas lidam melhor com conflitos interpessoais. Num estudo desenvolvi- do com 506 universitários, a estatística Lisa Yarnell, do Instituto Americano de Pesquisa (AIR, na sigla em inglês), observou que os voluntários com altos índices de autocompaixão equilibravam bem as próprias necessidades com a dos outros e se sentiam melhor em relação à resolução de conflitos, em comparação com aqueles com baixa pontuação nessa característica. Os indivíduos auto compassivos relatavam pouca turbulência emocional e bem-estar nas relações.

Essas descobertas têm implicações para os cuidadores em tempo integral, que, como sabemos há muito tempo, estão em risco de burnout e “fadiga de compaixão”, uma redução da capacidade de praticar a generosidade por causa do excesso de exigências emocionais a que estão submetidos. De fato, um levantamento transversal de 2016 com 280 enfermeiros de Portugal sugere que, embora os profissionais com níveis mais altos de empatia estivessem em maior risco de desenvolver fadiga de compaixão, a capacidade de se colocar no lugar do outro não era um fator de risco se estivesse acompanhada da auto compreensão.

 UM APRENDIZADO POSSÍVEL

Se praticar a generosidade consigo mesmo pode trazer tantos resultados positivos, será que podemos aprender essa habilidade? A autocompaixão consciente (MSC, na sigla em inglês) é uma intervenção promissora, desenvolvida por Neff, numa parceria com o psicólogo clínico Christopher Germer, professor da Escola de Medicina Harvard. A dinâmica projetada para o público em geral foi estruturada para ocorrer em oito semanas, abordando as pesquisas sobre o tema e apresentando exercícios, como usufruir de experiências agradáveis, praticar automassagem, usando uma voz calorosa e gentil, e escrever uma carta a si mesmo, como se fosse um amoroso amigo imaginário.

Em um pequeno estudo publicado em 2013, Neff e Germer mostram que 25 pessoas (a maioria mulheres de meia-idade) que completaram uma oficina de MSC relataram maiores ganhos na capacidade de ser generosas consigo mesmas e maior bem-estar do que um grupo similar alocado aleatoriamente para a lista de espera da oficina. O mais interessante: um ano depois os participantes mantinham os benefícios obtidos. Curiosamente, os do grupo de controle apresentaram também alguns ganhos em relação à autocompaixão – os escores deles subiram 6,5% entre as fases de pré e pós-teste, enquanto no grupo experimental esse número chegou a 42,6%. Inicialmente, o resultado confundiu os pesquisadores – até descobrirem que o grupo da lista de espera usou o tempo livre para aprender (de forma independente, com a ajuda de livros e da internet) como ser mais benevolente consigo mesmo.

“Ainda não está claro o quanto o sucesso dos participantes do “treinamento de auto- compaixão” está relacionado com a atividade em si, em oposição a participar de um grupo ou ter professores atenciosos”, observa a psiquiatra Julieta Galante, pesquisadora associada da Universidade de Cambridge.

Germer e Neff contam com a possibilidade de os participantes da oficina se darem conta da própria fragilidade durante as dinâmicas e sofrerem e os preparam para isso. Os pesquisadores usam a metáfora da “zona de risco” de combates a incêndio para explicar o fenômeno: assim como as chamas correm pelo cômodo à medida que o oxigênio retorna, uma antiga dor pode surgir em meio a um influxo de compaixão em pessoas famintas de afeto. É possível que, antes de entrarem nesse tipo de atividade, alguns indivíduos precisem praticar a autocompaixão aos poucos, em sessões individuais de psicoterapia.

O professor de psicologia clínica Paul Gilbert, da Universidade de Derby, na Inglaterra, concorda. Com experiência no atendimento a crianças vítimas de abuso ou negligência, ele observou que a gentileza pode produzir efeitos imediatos aparentemente contrários ao esperado. Há casos em que a estimulação de sistemas afetivos frágeis desencadeia memórias traumáticas, particularmente em casos de abuso infantil. “Há tantos medos e resistências ao ato de tratar bem a si mesmo que, no início, praticar exercícios com o público em geral pode despertar explosões emocionais”, afirma Gilbert.

A psicoterapia focada na compaixão (TFC), utilizada por ele para esses casos, foi testada com estudos de pequena escala. Gilbert trabalha com a ideia de que a autocrítica pode ser adotada pela pessoa como forma de se proteger de pais sentidos como ameaçadores. “À medida que o paciente se apropria do fato de que nem os genes nem o ambiente inicial são culpa deles, pode começar a lidar com a insegurança e assumir a responsabilidade pelo seu futuro”, afirma o psicólogo. Foi o que fez Miriam, quando passou a olhar para si mesma como se encarasse alguém querido com muitas qualidades – e, claro, algumas fragilidades.

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METÁFORA DA “ZONA DE RISCO”: quando bombeiros combatem um incêndio, as chamas parecem se espalhar antes de o fogo ser contido; da mesma forma, pessoas muito carentes podem se sentir ainda mais doloridas quando começam a olhar para o que as incomoda, mas esse efeito tende a diminuir com o avanço da psicoterapia.

NÃO É PARA TER PENA DE SI MESMO

Ser gentil não significa ser complacente ou cair na armadilha da vitimização, pelo contrário, o autocuidado está relacionado a autonomia.

Uma das preocupações dos profissionais da área da saúde mental em relação à terapia centrada no desenvolvimento da autocompaixão é que pacientes (e leigos em geral) façam uma leitura equivocada da proposta, confundindo o cuidado consigo mesmo com o incentivo à pena ou à autocondescendência. No entanto, o que os pesquisadores da área sugerem é justamente o oposto: um dos aspectos mais importantes na construção da autoestima é a possibilidade de assumir o fato de que somos responsáveis por nossas escolhas, boas ou más. Muitas vezes, o melhor que podemos fazer é optar pelo que de fato precisamos – e não simplesmente pelo que queremos.

Há situações em que as duas coisas se complementam, mas nem sempre. Ser gentil conosco pode ser, por exemplo, recorrer à própria inteligência na hora de escolher alimentos saudáveis em vez de fast-food, que pode até parecer a pedida mais prática e saborosa, mas comprovadamente traz consequências nocivas para a saúde. O mesmo se aplica não apenas a hábitos relativos à saúde, mas também ao que dizemos sabendo que, invariavelmente, vamos nos arrepender mais tarde. O doutor em psicologia Mark Muraven, professor da Universidade do Estado de Nova York, em Albany, salienta o risco de tomarmos decisões de forma compensatória: “Quando nos sentimos mal por qualquer motivo, tendemos a entrar num ciclo perigoso: tendemos a ser condescendentes conosco porque ‘já sofremos demais’ e fazemos o que sabemos que faz mal, isso nos deixa ainda mais insatisfeitos e nos leva ao auto ataque, o que fere a autoestima.” Muraven ressalta que é especificamente nos momentos de fragilidade emocional que precisamos pensar em nós mesmos como alguém que precisa de apoio. E se não damos conta é hora de pedir ajuda a um amigo ou um psicólogo. “Obviamente há inúmeras situações que não dependem de nossas escolhas imediatas (dificuldades concretas e emocionais, perdas etc.); ainda assim, sempre há a possibilidade de nos tratarmos bem, como talvez outras pessoas não tenham feito”, ressalta. Mas isso não é desculpa para não nos acolhermos, em especial nos momentos de dificuldade.

VOCÊ TEM AUTO COMPAIXÃO?

As afirmações abaixo fazem parte de uma avaliação criada pela psicóloga Kristin D. Neff. Na versão completa (http://bit.ly/SlfCompassion), você pode se classificar em uma escala de 1 a 5, em que 1 é “quase nunca” e 5, “quase sempre”.

Declarações associadas à alta autocompaixão

  • Tento ver minhas falhas como parte da condição humana
  • Quando estou passando por um momento muito difícil, busco manter minhas emoções equilibradas
  • Procuro ser compreensivo e paciente em relação aos aspectos da minha personalidade de que não gosto

 

Declarações ligadas à baixa autocompaixão

  • Quando falho em algo importante para mim, eu me sinto consumido por sentimentos de inadequação
  • Quando me sinto mal, minha tendência é acreditar que a maioria das pessoas provavelmente está mais feliz do que eu
  • Desaprovo e julgo minhas próprias falhas e inadequações

 A terapia da auto estima3

MARINA KRAKOVSKY – é jornalista e cientista social. É autora de The middleman economy: how brokers, agents, dealers and everyday matchmakers create value and profit (Palgrave Macmillan, 2015, sem tradução para o português).

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 8: 23-27

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Jesus Apazigua uma Tempestade

Cristo havia ordenado a seus discípulos “que passassem para a outra margem” (v. 18), para que fossem para o outro lado do mar de Tiberíades, no território de Gadara, na tribo de Gade, que se estende ao leste do Jordão. Para lá, Ele iria para resgatar duas pobres criaturas de uma legião de demônios, apesar de antever como Ele seria desafiado ali. Nesse momento:

1.Ele optou ir por água. Não seria muito diferente se tivesse ido por terra; mas Ele decidiu cruzar o lago, para que pudesse ter a oportunidade de se manifestar como o Deus do mar, bem como da terra seca, e para mostrar que todo o poder lhe pertence, no céu e na terra. E um alívio para todos aqueles que vão para o alto-mar em barcos, e muitas vezes correm perigos por lá, saber que têm um Salvador em quem confiar e a quem orar, que sabe como é estar no mar, e ali passar por tempestades. Mas observe que, ao ir por mar, Jesus não tinha nenhum iate ou barco de passeio para levá-lo, mas fez uso dos barcos de pesca de seus discípulos; isto mostra a pobreza a que Ele estava sujeito, em todos os aspectos.

2.”Seus discípulos o seguiram”. Os doze se mantiveram junto a Ele, enquanto outros ficaram para trás sobre a terra firme, onde o chão era ma.is está vel. Note que somente serão considerados verdadeiros discípulos de Cristo aqueles que de­ sejam ir com Ele para o mar, para segui-lo nos perigos e nas dificuldades. Muitos ficariam satisfeitos em pegar o caminho da terra, que se mantém tranquila, ou dar meia-volta para chegar ao paraíso, do que se aventurar em um mar perigoso; mas aqueles que descansarão com Cristo na vida futura devem, agora, segui-lo para onde quer que Ele os conduza, a um barco ou a uma prisão, bem como a um palácio. Observe:

I – A exposição ao perigo e a perplexidade dos discípulos nesta viagem nisto apareceu a verdade do que Cristo acabara de dizer: que aqueles que o seguem de­ vem esperar dificuldades (v. 20).

1.”No mar se levantou uma grande tempestade” (v. 24). Cristo poderia ter evitado essa tempestade, providenciando uma travessia agradável, mas isso não teria contribuído o suficiente para a sua glória e para a confirmação da fé dos discípulos, como ocorreu neste livramento. Esta tempestade aconteceu por causa deles, como em João 11.4. Era de se esperar que, tendo Cristo consigo, os discípulos teriam um vento forte muito favorável, mas ocorreu exatamente o oposto; pois Cristo mostraria que aqueles que estão fazendo, com Ele, a travessia para o outro lado do oceano deste mundo, devem esperar tempestades pelo caminho. A igreja é “arrojada com a tormenta” (Isaias 54.11). Somente a região superior aprecia uma calma perpétua; esta camada inferior é continuamente perturbada e perturbadora.

2.Jesus Cristo estava dormindo durante a tempestade. Nunca lemos sobre Cristo dormindo, exceto esta vez. Ele estava frequentemente em vigília, e a prolongava em oração a Deus durante a noite. Este era um sono, não de segurança, como o de Jonas na tempestade, mas de serenidade divina e confiança em seu Pai. Ele dormia para mostrar que era de fato e verdadeiramente um homem, e sujeito às fraquezas não pecaminosas da nossa natureza – seu trabalho o deixara cansado e sonolento, e Ele não tinha culpa, não tinha um medo interior para perturbar o seu repouso. Aqueles que podem descansar suas cabeças sobre o travesseiro com a consciência limpa, podem dormir serena e suavemente durante uma tempestade (Salmos 8), como Pedro (Atos 12.6). Desta vez, Ele dormia, testando a fé de seus discípulos, para verificar se eles confiavam nele quando parecia estar fazendo pouco a favor deles. Ele dormia, não tanto para descansar, mas com o propósito de ser acordado.

3.Os pobres discípulos, embora acostumados com o mar, foram acometidos de súbito terror, e em seu medo foram ter com o Mestre (v. 25). Para onde mais eles deveriam ir? Ainda bem que eles o tinham tão perto de si mesmos. Eles o acordaram com suas orações: “Senhor, salva-nos, que perecemos”. Note que aqueles que desejam aprender a orar devem ir para o mar. Os perigos iminentes e concretos conduzirão as pessoas a Jesus Cristo, o único que pode ajudar na hora da dificuldade. A oração dos discípulos tem vida: “Senhor, salva-nos, que perecemos”.

(1) A solicitação deles é: Senhor, salva-nos. Eles acreditavam que Ele podia salvá-los e pediram que Ele o fizesse. A missão de Cristo neste mundo é salvar, mas somente aqueles que invocarem o nome do Senhor serão salvos (Atos 2.21). Aqueles que, pela fé, estão interessados na salvação eterna preparada por Cristo, podem, com humilde confiança, recorrer a Ele para obterem libertações terrenas. Observe que os discípulos o chamam de Senhor e depois eles oram: Salva-nos. Note que Cristo não salvará ninguém, a não ser aqueles que desejarem aceitá-lo como seu Senhor; pois Ele é o Príncipe e o Salvador.

(2) A expressão dos discípulos é: “perecemos”; este termo:

[1] Representa a linguagem de seu medo. Eles viam a sua condição como desesperadora e davam tudo como perdi­ do; eles haviam recebido uma sentença de morte interiormente e por isso pediam: “Nós pereceremos, se tu não nos salvares; portanto, olha para nós com misericórdia”.

[2] Era a linguagem do seu fervor; eles oram como homens sinceros, que pedem por suas vidas; cabe a nós, portanto, nos esforçar e lutar em oração; por isso Cristo dormia, para que Ele pudesse prolongar esta situação.

II – O poder e a graça de Jesus Cristo vieram socorrê-los; então o Senhor acordou, como alguém renovado (SaImos 78-65). Cristo pode dormir enquanto sua igreja passa por uma tormenta, mas Ele não dormirá demais: a hora, o tempo determinado para ajudar sua angustia da igreja, chegará (Salmos 102.13).

1.Ele repreendeu os discípulos (v. 26): “Por que temeis, homens de pequena fé?” Ele não os censura por perturbá-lo com suas preces, mas por se inquietarem com seus medos. Cristo os reprovou primeiro, e depois os salvou. Este é o seu método: nos prepara para receber a sua misericórdia, e então no-la concede. Observe:

(1) Seu desagrado pelos temores deles: “Por que temeis… vós, meus discípulos? Que os pecadores em Sião temam, que os marinheiros pagãos est remeçam na tempestade, mas não deveis ser assim. Pesquisai as razões do vosso medo e pesai-as”.

(2) A descoberta de Jesus da causa e da fonte dos medos dos discípulos: “Homens de pequena fé”. Muitos que têm uma fé verdadeira são fracos nela, e por esta razão a fé lhes traz pouco proveito. Note:

[1] Os discípulos de Cristo têm a tendência de se inquietar com os medos em um dia tempestuoso, de se atormentar com a desconfiança de que as coisas vão mal para eles, e com as sombrias conclusões de que elas ficarão piores.

[2] A preponderância de nossos medos exagerados em um dia de tempestade se deve à fraqueza de nossa fé, que seria uma âncora para a alma e manejaria o remo da oração. Pela fé, podemos ver através da tempestade a margem tranquila e nos encorajar com a esperança de que chegaremos à região do vento favorável.

[3] O temor dos discípulos de Cristo em meio a uma tempestade, a sua incredulidade e a causa desta, são muito desagradáveis par a o Senhor Jesus, pois lançam uma espécie de desonra sobre Ele, e geram inquietação para eles próprios.

2.Jesus “repreendeu os ventos”. No ato anterior, Ele havia agido como o Deus da graça e o Soberano do coração, que pode fazer conosco aquilo que lhe aprouver. Neste, Ele age como o Deus da natureza, o Soberano do mundo, que pode fazer por nós aquilo que lhe agradar. Este é o mesmo poder “que aplaca o ruído dos mares, o ruído das suas ondas” e a confusão do medo (SaImos 65.7). Considere: 

(1)  Como isto foi realizado com facilidade, com a expressão da palavra. Moisés comandou as águas com uma vara; Josué, com a arca da aliança; Eliseu, com a capa do profeta; mas Cristo, com uma palavra. Veja seu domínio absoluto sobre todas as criaturas, o que evidencia tanto a sua glória como a alegria daqueles que o têm a seu lado.

(2) Quão eficazmente foi feito.  Houve “uma grande bonança” de repente. Normalmente, depois de uma tempestade, as águas se agitam de tal maneira, que leva tempo até que elas se acalmem; mas se Cristo pronuncia a sua palavra, não apenas a tempestade cessa, mas todos os efeitos dela, todos os resquícios dela também cessam. Grandes tempestades de dúvida e medo na alma, sob o poder do espírito da servidão, às vezes terminam em uma calma maravilhosa, gerada e declarada pelo Espírito de adoção.

3.O milagre instigou a perplexidade dos discípulos (v. 27): ”Aqueles homens se maravilharam”. Eles estavam, havia muito, acostumados com o mar, e durante toda a sua vida nunca tinham visto uma tempestade se acalmar tão imediatamente. Este fato tinha em si todos os sinais e marcas de um milagre. “Isso foi feito pelo Senhor e é coisa maravilhosa aos nossos olhos”. Observe:

(1) A admiração dos discípulos por Cristo: “Que homem é este!” Note que Cristo é sem igual; cada detalhe nele é admirável. Ninguém é tão sábio, tão poderoso, e tão amável quanto Ele.

(2) A razão da admiração: ”Até os ventos e o mar lhe obedecem?” Cristo deve ser admira do por ter poder de comandar até mesmo os ventos e os mares. Alguns fingiam curar doenças, mas Ele simplesmente se incumbiu de comandar os ventos. Não sabemos para onde vai o vento (João 3.8), muito menos podemos controlá-lo; mas Ele “tira os ventos dos seus tesouros” (SaImos 135.7), e “encerra os ventos nos seus punhos” (Provérbios 30.4). Aquele que pode fazer isto, pode fazer qual­ quer coisa, pode fazer o que for preciso para inspirar a nossa confiança e consolo em si mesmo no dia mais agitado pelas tormentas – sejam elas internas ou externas (Isaias 26.4). O Senhor se senta muito acima das mar és, e “é mais poderoso do que o ruído das grandes águas e do que as grandes ondas do mar”. Cristo, ao comandar o mal; mostrou que Ele é o mesmo que fez o mundo. Por sua repreensão, as águas fugiram (SaImos 104.7,8); agora, à sua repreensão, elas cederam.

 

GESTÃO E CARREIRA

GENIAL, MAS POBRE

Genial, mas pobre

Milhares de Einsteins em potencial são perdidos pela origem humilde.

O que invenção tem a ver com origem social? O estudo Who Becomes an Inventor in America? feito por acadêmicos do projeto Equality of Opportunity (“Igualdade de oportunidade”), avaliou as origens econômicas e sociais de inventores e inovadores, descobrindo que crianças do topo de 1% de famílias mais ricas têm dez vezes mais chances de criar e registrar patentes do que crianças igualmente inteligentes, mas vindas de famílias mais pobres. E mais: uma criança branca tem chance três vezes maior de entrar nesse grupo do que uma criança negra. Para os autores, que avaliaram 2 mil crianças, pode haver milhares de “Einsteins perdidos” — pessoas inventivas, mas tolhidas por sua origem.

O ambiente no qual o indivíduo foi criado é fundamental. O estudo constatou que crianças mais ricas convivem mais com pessoas criativas. Natural, portanto, que elas fiquem mais motivadas a inovar. Como solução, os governos deveriam aumentar as oportunidades para os inteligentes mais pobres, impulsionando a economia e beneficiando a sociedade.

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos todos um pouco colecionadores

SOMOS TODOS UM POUCO COLECIONADORES

A maioria das pessoas guarda objetos ou mesmo conteúdos digitais, como músicas e fotos, por prazer. Outras se sentem “forçadas” a acumular coisas sem valor, das quais não conseguem se separar. Pesquisadores buscam entender os processos cerebrais que tornam esse comportamento patológico.

 Talvez você não guarde bonequinhos, rolhas, selos, vidros de perfume, ursos de pelúcia ou relógios, nem carros ou obras de arte. Mas é possível que tenha um celular abarrotado de fotos ou músicas das quais não consegue se livrar, mesmo que raramente acesse esse material. Quem sabe mantenha mais sapatos do que pode usar nos próximos anos ou até livros em excesso. E na maioria dos casos esse comportamento não é especialmente prejudicial, desde que seja possível manter tais paixões sem grandes sacrifícios. Mas o que pensar de pessoas que enchem a casa de televisores usados, frigideiras velhas ou até sacos de lixo e simples- mente não conseguem resistir à vontade de juntar objetos sem nenhuma utilidade ou valor? A diferença entre colecionar e acumular pode ser sutil, mas em geral, no primeiro caso existe uma organização, uma lógica dentro do conjunto de objetos. Já o acumulador simplesmente estoca coisas de forma compulsiva e desordenada, sem dar sentido a elas.

No século 19, uma barra de ferro perfurou a parte anterior do cérebro de Phineas Gage. O incidente alterou seu caráter e o jovem operário americano, antes delicado e introspectivo, tornou-se violento e agressivo, incapaz de reagir racionalmente ou tomar decisões apropriadas às situações vividas.

Desde então, muitos estudos confirmam que os lobos frontais determinam em grande parte nossa capacidade de tomar decisões adaptadas ao contexto. Lesões nessa região do cérebro acarretam comportamentos estereotipados (com a repetição incessante do mesmo ato). Um deles nos interessa especialmente: o comportamento de preensão, no qual a pessoa pega maquinalmente todos os objetos que estiverem ao alcance da mão.

Há mais de três décadas o neurologista Pierre Lhermitte demonstrou que esse comportamento resulta de perda de atividade dos lobos frontais. Isso porque o córtex frontal introduz uma escolha em nossas ações e nos impede de agir como autômatos. Sem ele, agiríamos como autômatos: diante de comida, comeríamos; sentindo desejo sexual, copularíamos; caso apreciássemos um anel de brilhante exposto, simplesmente pegaríamos a joia. No âmbito psíquico, é a instância denominada superego, por Sigmund Freud, que é responsável por esse controle. Em linhas gerais, a voz introjetada de figuras de autoridade da infância, em especial nossos pais, nos diz que nem sempre é possível fazer o que desejamos e nossas atitudes têm consequências.

Do ponto de vista neurológico, o córtex frontal permite a deliberação, ao nos “lembrar” que o roubo é proibido, e nos dá meios para medirmos as consequências de nossos atos. Em pessoas que pegam objetos de modo incontrolável, essa região do cérebro deixa de inibir o reflexo de pegar, que existe desde quando somos bebês. O lobo frontal desses pacientes não reprime os lobos parietais, que podem comandar de maneira autônoma a preensão de objetos. Disso resulta uma maior dependência do sujeito a estímulos visuais e táteis. A simples visão de um objeto ou seu contato físico desencadeia um esquema comportamental automático de pegá-lo: a capacidade de selecionar um ou outro comportamento dependendo do contexto e de suas próprias capacidades se perde.

Para decidir por uma ação, o córtex pré-frontal recebe informações provenientes de regiões ditas associativas (áreas sensoriais táteis e visuais que fornecem dados sobre o exterior) e outras próprias do estado interno, as quais são tratadas pelo córtex para-límbico orbito frontal. Em conjunto, esses dados explicam por que os pacientes que sofreram lesões frontais se distraem tão facilmente, já que o córtex frontal é responsável pela capacidade de concentração. O colecionismo pode ser entendido, portanto, como uma forma de automatismo decorrente de uma disfunção do lobo frontal?

Com frequência, a obsessão por colecionar foi diagnosticada em pacientes com demência frontotemporal, síndrome consecutiva à degeneração dos neurônios do córtex frontal, caracterizada por distúrbios de comportamento e perda de memória. Um estudo feito com 133 pessoas com demência verificou que 22,6% delas sofriam de colecionismo. Esses pacientes muitas vezes tinham outros comportamentos repetitivos, como a bulimia ou a cleptomania. Em quase todos os casos, o funcionamento do córtex frontal estava alterado. Clinicamente, o colecionismo não diminui a ansiedade, mas impedir que a pessoa mantenha seus objetos desencadeia sentimentos de frustração e, eventualmente, manifestações de agressividade.

P., de 25 anos, apresenta um quadro autista desde a infância, e revela tendência colecionista. Ele acumula desordenadamente jornais velhos e guarda nos armários de seu quarto objetos que pega no lixo. Em seu caso, o colecionismo entra no plano dos atos repetitivos, automáticos e estereotipados, como o balançar incessante do corpo ou o consumo excessivo de líquidos, em geral água, a potomania. Em 73% dos psicóticos crônicos (por exemplo, pacientes com esquizofrenia), encontram-se condutas repetitivas, tais como as de acumulação. Segundo o psiquiatra Daniel Luchins e seus colegas da Universidade de Chicago, esses sintomas resultariam de anomalias no hipocampo; certas pesquisas, feitas com animais, demonstram que lesões hipocampais provocam a aparição de condutas repetitivas. Entretanto, na maior parte das vezes, é o lobo frontal que apresenta falhas.

Segundo o que se sabe hoje sobre os mecanismos fisiopatológicos dos comportamentos de preensão automática e de demências frontotemporais, os lobos frontais têm papel central no colecionismo. Contudo, é preciso ir além dessa simples descrição, pois a obsessão em acumular coisas é bem mais complexa que o fato de levar algo para casa. O neurologista Bruno Dubois, do Hospital de la Pitié-Salpêtrière, em Paris, examinou um paciente que sofria de colecionismo e apresentava lesões cerebrais particulares. Casado, pai de quatro crianças, o técnico em eletrônica de 40 anos foi operado duas vezes, num intervalo de cinco anos, de um meningioma olfativo, tumor benigno situado na base do crânio. Os primeiros distúrbios de comportamento apareceram dois anos após a segunda operação, quando ele passou a percorrer a cidade à procura de eletrodomésticos diversos.

COISA DE BICHO

Essas expedições seguiam um circuito específico e na véspera das coletas da prefeitura, dia em que tinha mais chances de encontrar os tais aparelhos. Depois de tê-los armazenado na sala, corredor e banheiro, passou a guardá-los no quarto da filha. Antes de ser hospitalizado, começou a empilhar televiso- res nos tubos de circulação de ar de sua casa. Ele tinha então 50 televisores usados, dez aparelhos de som quebrados, três geladeiras, sete máquinas de lavar roupa, seis aspirado- res de pó, três batedeiras, nove interfones e uma dezena de telefones.

O paciente acumulava também garrafas vazias, jornais velhos e sacos plásticos. Fora dos momentos de “coleta”, ele não fazia absolutamente nada. Houve vezes em que foi capaz de passar horas tomando banho e de ficar sentado quase metade do dia dentro do carro estacionado. Imagens de seu cérebro revelaram que o paciente apresentava volumosas lesões bilaterais nas regiões orbito- frontais, assim como lesões na cabeça dos dois núcleos caudados. Uma tomografia por emissão de pósitrons (PET) confirmou a hipoatividade dessas regiões.

Apesar das lesões, o relatório neuropsicológico destinado a avaliar a capacidade cognitiva desse paciente estava quase normal. Ele não era como os pacientes “autômatos” mencionados, podia definir seus atos em função do contexto e fazer raciocínios normais. Aparentemente, sua capacidade intelectual estava intacta: apesar das lesões frontais, ele não tinha síndrome de automatismo. Entre- tanto, era colecionista.

Os neurocientistas Paul Eslinger e António Damásio, então na Universidade de Iowa, já haviam constatado esse paradoxo em outro paciente. Também colecionista, o homem apresentava lesões no córtex orbito frontal (situado acima dos olhos), consequência da extração de um meningioma. Mais recentemente, ao descrever um caso de colecionismo consecutivo à ruptura de um aneurisma que havia causado lesão orbito frontal e do estriado, uma equipe coreana relatou o mesmo fenômeno: apesar das lesões, as faculdades cognitivas foram conservadas. Especialistas acreditam que, em certos casos, outras lesões além das do córtex frontal podem causar o mesmo comportamento. A questão é saber se existe um “circuito” do colecionismo. Chama atenção, por exemplo, a seletividade do objeto procura- do e do uso de estratégias de busca.

A estocagem teve função importante para a sobrevivência de nossa espécie. Ao longo dos séculos, muitos povos só conseguiram enfrentar períodos de escassez porque acumularam alimentos. Casos de colecionismo também estão presentes em animais. Não raro, são localizados objetos variados, como bolas de golfe, brinquedos e até mesmo de armas de fogo, em tocas de furões.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 298

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 18-22

A Resposta de Cristo a um Escriba e a outro Homem

Aqui vemos:

I – A passagem de Cristo para o outro lado do mar de Tiberíades e a ordem dada a seus discípulos, cujos barcos o acompanharam, para que estivessem prontos (v. 18). A influência do Sol da Justiça não se restringiria a um único lugar, mas se espalharia por todo o país. Ele deve cuidar de fazer o bem; as necessidades das almas o chamavam: “Passa… e ajuda-nos” (Atos 16.9). Ele se retirava quando se via rodeado por grandes multidões. Embora o pedido do escriba desse a impressão de que eles o quisessem ali. Ele sabia que havia outros tão desejosos de tê-lo consigo, e que estes deveriam ter a sua parte. Para Jesus, ser aceito e útil em um lugar não era uma objeção, mas a razão para partir para outro. Dessa maneira, Ele testava as multidões que o cercavam, se o entusiasmo delas faria com que o seguissem e o acompanhassem quando a sua pregação se deslocasse para mais longe. Muitos ficariam contentes por tal ajuda, se pudessem tê-lo por perto, e não poupariam esforços para o seguirem até o outro lado. Desse modo, Cristo separava aqueles que eram menos zelosos, e os perfeitos se manifestavam.

II – A conversa de Cristo com dois homens que, com a sua passagem para o outro lado, relutavam em ficar para trás, e tinham em mente segui-lo, não como outros, que eram seguidores à distância. Eles queriam se envolver profundamente com o discipulado, o que a maioria tinha vergonha de fazer, pois isso transmitia um aspecto de rigor do qual eles poderiam não gostar, nem aceitar. Este é um relato sobre dois homens que pareciam desejosos de entrar em comunhão, embora não agissem corretamente. Aqui são mencionados exemplos dos obstáculos que impedem muitos de se aproximarem de Cristo, e de se dedicarem a Ele. E também um alerta para nós, para começarmos a seguir a Cristo, não deixando de colocar esse alicerce, para que a nossa casa espiritual possa estar firme.

Aqui temos Cristo cuidando de dois temperamentos diferentes, um rápido e ansioso, outro lento e pesado; e suas instruções são adequadas a cada um deles e preparadas para o nosso uso.

1.Aqui temos alguém que é rápido demais em prometer; e este era um certo escriba (v.19), um estudioso, um homem culto, um daqueles que estudavam e explicavam a lei; descobrimos nos Evangelhos que, geralmente, não eram homens de bom caráter; eram habitualmente associados com os fariseus, como inimigos de Cristo e de sua doutrina. “Onde está o escriba? (1 Coríntios 1.20). Os escribas raramente seguiam a Cristo; porém aqui estava um que era bastante promissor para o discipulado, um “Saul entre os profetas”. Observe:

2.Como ele expressou sua precipitação: “Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei”. Não conheço ninguém que pudesse ter dito melhor. A sua declaração sobre a sua dedicação a Cristo foi: [1] Muito ansiosa, e parece ser de sua tendência equilibrada. Ele não foi chamado por Cristo, nem encorajado por qualquer dos discípulos; mas por iniciativa própria, ele confessa ser um seguidor próximo de Cristo; ele não é um homem pressionado, mas um voluntário.

[2] Muito decidida. Ele parece ter tomado uma decisão quanto a este assunto. Ele não diz: “Eu tenho intenção de te seguir”, mas: “Estou decidido, eu o farei”.

[3] Ilimitada e sem reservas: “Aonde quer que fores, eu te seguirei”; não apenas ao outro lado do país, mas até as regiões mais remotas do mundo. Devemos pensar em nós mesmos como pessoas tão seguras de si como este homem; e ainda assim parece, pela resposta de Cristo, que esta resolução foi precipitada, e suas finalidades, vulgares e materiais. Ou ele não refletiu, ou não considerou o que dever ia ser considerado. Ele viu os milagres que Cristo realizou e esperava que Ele estabelecesse um reino terreno, e desejava se candidatar imediatamente a Ele. Note que existem muitas resoluções relativas à religião, produzidas por alguma angústia repentina de condenação, e tomadas sem a devida consideração; no final, elas fracassam e não resultam em nada. O que cedo amadurece, cedo apodrece.

1.Como Cristo testou sua presteza – se era sincera ou não (v. 20). Ele o fez saber que o Filho do Homem, a quem ele estava tão ansioso para seguir “não tem onde reclinar a cabeça” (v. 20). Neste ponto, a partir desta descrição da profunda pobreza de Cristo, observamos:

[1] Que é inerentemente estranho que o Filho de Deus, quando veio a este mundo, se colocasse em uma condição tão ruim, a ponto de não ter a conveniência de um lugar fixo para descansar, coisa que as mais humildes criaturas possuem. Uma vez que Ele decidiu adotar para si a nossa natureza, era de se esperar que Ele a adotasse em suas melhores condições sociais e circunstanciais; mas não, Ele a adota no seu pior aspecto. Veja aqui, em primeiro lugar, quão bem providas estão as criaturas inferiores: ”As raposas têm covis”; embora elas não sejam úteis, mas prejudiciais ao homem, ainda assim Deus lhes proporciona covis nos quais se refugiam: o homem se esforça para destrui-las, mas por essa razão elas são protegidas; seus covis são seus castelos. As aves do céu, embora não se cuidem, são cuidadas, e ” têm ninhos” (Salmos 104.17); ninhos no campo; algumas delas, ninhos nas casas; nos altares de Deus (SaImos 8 4.3). Em segundo lugar, quão pobres eram as provisões do Senhor Jesus. O fato de os animais terem provisões tão boas pode nos encorajar, e caso não tenhamos o necessário, o fato de nosso Mestre ter passado por isso antes de nós pode nos confortar. Note que o nosso Senhor Jesus, quando esteve neste mundo, submeteu-se às degradações e agonias da extrema pobreza. Por nossa causa, Ele se tornou pobre, muito pobre. Ele não tinha uma cidade, não tinha um lugar de repouso, nem uma casa sua, para reclinar a cabeça, nem seu próprio travesseiro sobre o qual apoiar sua cabeça. Ele e seus discípulos viviam da caridade de pessoas bem-intencionadas, que contribuíam para a sua subsistência (Lucas 8.2,3). Cristo se submetia a isto, não apenas para que pudesse, de todas as formas, se humilhar e cumprir as Escrituras, que falavam dele como pobre e necessitado, mas também para que pudesse nos mostrar a futilidade das riquezas do mundo, olhando para elas com um desprezo santo, para que Ele possa comprar para nós coisas melhores, e assim nos tornar ricos (2 Coríntios 8.9).

[2] É estranho que tal afirmação tenha sido feita nesta ocasião. Quando um escriba se ofereceu para seguir a Cristo, seria de se pensar que Ele o teria encorajado e dito: “Venha, e eu cuidarei de você”. Um escriba poderia lhe dar mais crédito e lhe prestar mais serviços do que doze pescadores. Mas Cristo viu o seu coração e respondeu aos seus pensamentos, e nesse ponto nos ensina como devemos nos chegar a Deus. Em primeiro lugar, a decisão do escriba parece ter sido repentina; e Cristo deseja que, se assumirmos uma profissão religiosa, nos sentemos e consideremos os custos (Lucas 14.28), para que o façamos com inteligência e reflexão, e que escolhamos o caminho da piedade, não porque não conheçamos outro, mas por não conhecermos um caminho melhor. Não é bom para a fé pegar os homens de surpresa, antes que eles estejam conscientes. Aqueles que assumem uma profissão religiosa angustiados a descartarão devido ao primeiro aborrecimento; permita, então, que gastem algum tempo, e eles decidirão o quanto antes; deixemos que aqueles que seguirão a Cristo conheçam o lado mais difícil desta decisão, e que estejam dispostos a viver em condições desfavoráveis. Em segundo lugar, a sua resolução parece ter se baseado em um avarento princípio material. Ele viu a abundância de curas realizadas por Cristo, e concluiu que Ele  recebia altos honorários, e assim logo juntaria muitos bens. Portanto, ele o seguiria na esperança de enriquecer junto com Ele; mas Cristo corrige seu erro e lhe diz que estava tão distante de ficar rico que não possuía sequer um lugar para reclinar a cabeça; e se aquele homem o seguisse, não poderia esperar ter uma condição melhor que a do próprio Senhor. Note que Cristo não aceitará como um de seus seguidores alguém que aspire benefícios materiais ou planeje alcançar, por meio da sua fé, algo que não seja o céu. Temos razão para acreditar que este escriba, depois disso, tenha se retirado triste, ficando desapontado com uma negociação da qual ele pensava tirar proveito – Ele não seguiria a Cristo, a menos que pudesse alcançar alguma vantagem material através do Salvador.

2.Aqui está outro que demora muito para atender o chamado. A demora na execução é tão má, por um lado, quanto a precipitação nas decisões o é, por outro. Quando pensamos e depois decidimos, jamais devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Este candidato ao ministério já era um dos discípulos de Cristo (v. 21), um seguidor à distância. Clemente de Alexandria nos conta, a partir de uma antiga tradição, que este era Filipe. Ele parece ser mais qualificado e disposto do que o anterior, pois não era tão confiante e presunçoso. Um caráter arrojado, ansioso e excessivamente entusiasmado pode não ser, necessariamente, o mais promissor quando se trata de fé; às vezes, os últimos são os primeiros, e os primeiros, os últimos. Agora observe aqui:

(1).A desculpa dada por este discípulo para adiar a decisão de seguir a Cristo de imediato (v. 21): “Senhor, permite-me que, primeiramente, vá sepultar meu pai”. Em outras palavras: “Antes que me torne teu seguidor fiel e permanente, permita-me que realize esse último ato de respeito ao meu pai; e, por enquanto, permita que seja suficiente que eu seja um ouvinte ocasional teu, quando dispuser de algum tempo”. Alguns pensam que seu pai estava doente ou mor rendo, ou morto; outros pensam que era apenas idoso e que, em um curso natural, não viveria por muito mais tempo; e que, sendo as­ sim, este discípulo desejava partir para cuidar dele em sua enfermidade, sua morte e seu funeral, e depois serviria a Cristo. Isto parecia um pedido razoável, porém ainda assim não foi apropriado. Ele não teve o zelo que devia ter pelo reino e por isso fez esse pedido, pois parecia um pedido plausível. Note que a uma mente relutante, nunca faltam desculpas. A falta de tempo livre vem da falta de disposição. Nós temos a tendência de supor que isso vinha de um verdadeiro afeto filial e respeito por seu pai, porém ainda assim a preferência deveria ter sido dada a Cristo. Note que muitos são impedidos e obstruídos de ter uma devoção sincera, por se preocuparem em excesso com suas famílias e parentes; essas coisas legítimas arruínam a todos nós, e nosso dever para com Deus é negligenciado e postergado, sob o pretexto de pagarmos nossas dívidas para com o mundo; neste ponto, portanto, temos a necessidade de dobrar a nossa guarda.

(2).A reprovação dessa desculpa por Cristo (v. 22). Jesus lhe disse: “Segue-me”; e, sem dúvida, esta palavra estava envolta pelo poder do Senhor, como ocorreu no caso de outros, e ele realmente seguiu a Cristo e permaneceu fiel a Ele, como Rute a Noemi, enquanto o escriba, nos versículos anteriores, como Orfa, o abandonou. Este disse: “Eu te seguirei”; a este Cristo disse: “Segue-me”. Comparando-os um ao outro, fica sugerido que somos levados a Cristo pela força do chamado que Ele nos faz, e não pelas promessas que fazemos a Ele: “Pois isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”. Ele chama a quem quiser (Romanos 9.16). E, ainda mais, note que embora vasos escolhidos possam dar desculpas, e atrasar a sua adesão aos chamados divinos por muito tempo, mesmo assim Cristo responderá, detalhadamente, às suas desculpas, subjugará suas relutâncias, e os trará a seus pés. Quando Cristo chama, Ele domina e torna o chamado efetivo (1 Samuel 3.1O). A desculpa desse discípulo é posta de lado como inadequada: “Deixa aos mortos sepultar os seus mortos”. É uma expressão proverbial: “Deixe que um morto enterre a outro; mais exatamente, deixe-os insepultos, em vez de negligenciar a obra de Cristo. Deixe que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos; deixe que os trabalhos terrenos fiquem para as pessoas terrenas; não se sobrecarreguem com eles. Enterrar os mortos, especialmente um pai, é urna boa obra, mas não é o seu trabalho neste momento; ele pode, muito bem, ser feito por outros que não sejam qualificados e chamados como vocês para a obra de Cristo; vocês têm outra coisa a fazer, e não devem adiá-la”. Note que a devoção a Deus deve ter preferência em relação à devoção aos pais, embora essa seja uma parte importante e indispensável da religião. Os nazireus, de acordo com a lei, não deveriam lamentar por seus próprios pais, pois eles eram “separados para o Senhor” (Números 6.6-8); nem devia o sumo sacerdote se contaminar com os mortos, nem mesmo por causa de seus pais (Levíticos 21.11,12). E Cristo requer que aqueles que quiserem segui-lo aborreçam “a seu pai, e mãe” (Lucas 14.26); ame-os menos do que a Deus. Nós devemos, comparativamente, desconsiderar os nossos parentes mais próximos quando eles entram em competição com Cristo, com aquilo que fazemos por Ele, ou com os sofrimentos que enfrentamos por amor a Ele.