ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 28-34

 Os Demônios Expulsos de Dois Homens

Temos aqui a história de Cristo expulsando os demônios de dois homens que estavam endemoninhados. O propósito do capítulo é mostrar o divino poder de Cristo, pelos exemplos de sua autoridade sobre as doenças do corpo (o que para nós é atraente), sobre os ventos e as ondas (que é ainda mais irresistível). e, por último, sobre os demônios (o que é o mais formidável para nós). Cristo tem não apenas todo o poder nos céus e na terra e nos lugares profundos, mas tem também as chaves do inferno. Principados e potestades estavam sujeitos a Ele, mesmo enquanto estava em uma condição de humilhação, como um sinal de como seria a sua entrada em sua glória (Efésios 1.21). Ele os derrotou (Colossenses 2.15). Foi comentado de forma geral (v.16) que Cristo expulsa espíritos malignos com a sua palavra; aqui temos um exemplo particular que possui alguns detalhes mais singulares do que os demais. Este milagre foi realizado no território dos gadarenos; alguns acreditam que estes eram os remanescentes dos antigos girgaseus (Deuteronômio 7.1). Embora Cristo tivesse sido enviado principalmente “às ovelhas perdidas da casa de Israel”, Ele realizou algumas visitas aos habitantes das regiões fronteiriças, como aqui, para obter a sua vitória sobre Satanás. Esta era uma amostra da vitória sobre as legiões malignas no mundo gentílico.

Além do exemplo geral que isto nos dá do poder de Cristo sobre Satanás, e seu desígnio de desarmá-lo e expulsá-lo, temos aqui, especialmente revelado para nós, o estilo e o modo de agir dos demônios em sua hostilidade contra o homem. Observe, com respeito a esta legião de demônios: A obra que realizaram, onde estavam e para onde foram.

I – A obra que realizaram e onde estavam; o que mostra a condição deprimente desses dois que estavam possuídos por eles. Alguns pensam que esses dois eram marido e mulher, pois os outros evangelistas falam somente de um.

1.Eles viviam entre os sepulcros. Daquele lugar, eles vieram ao encontro de Cristo. O demônio, tendo o poder da morte, não como juiz, mas como carrasco, deleita-se em conservar, entre os troféus da sua vitória, os cadáveres dos homens; mas ali, onde ele se considerava em seu momento de maior triunfo e grandeza, como posteriormente no Gólgota, o lugar da caveira, Cristo o derrotou e subjugou. Viver entre os túmulos aumentava a melancolia e o frenesi dos pobres endemoninhados. Assim era fortalecida a posse que o diabo tinha deles através da perturbação espiritual e física, que também os tornava mais temíveis para as outras pessoas, que geralmente se assustam com qualquer coisa que se mova entre os sepulcros.

2.Eles eram muito ferozes; não apenas incontroláveis, mas prejudiciais aos outros, assustando a muitos, tendo ferido alguns; de modo “que ninguém podia passar por aquele caminho”. Note que o diabo espalha a maldade entre a humanidade e mostra isso tornando os homens maus e mal-intencionados uns contra os outros. Inimizades mútuas, onde deveria haver ajuda e apreço mútuos, são efeitos e evidências da inimizade de Satanás para com toda a raça. Ele transforma um homem em um lobo, um urso, um demônio, diante de seus semelhantes. Quando Satanás controla um homem espiritualmente, as concupiscências que estão em luta em seus membros – o orgulho, a inveja, a malícia e a vingança – tornam-no inadequado à sociedade humana, indigno dela e um inimigo do seu bem-estar, como eram essas pobres criaturas endemoninhadas.

3.Eles oferecem resistência a Jesus Cristo e negam qualquer ligação com Ele (v. 29). Podemos ver aqui um exemplo do poder de Deus sobre os demônios; não obstante o mal que eles planejavam realizar a essas pobres criaturas, e através delas, ainda assim não puderam impedi-las de se encontrar com Jesus Cristo, que preparou as coisas de forma a se encontrar com elas. Foi a irresistível mão do Senhor que arrastou esses espíritos imundos à presença daquele que eles temiam mais do que qualquer outra coisa. Suas afirmações puderam con­tê-los, enquanto as correntes que os homens fizeram para eles não puderam fazê-lo. Mas sendo levados à presença dele, os demônios protestaram contra a sua autoridade e romperam em um acesso de ira: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” Aqui está:

(1) Uma palavra que o demônio disse como se fosse um santo. Ele se dirigiu a Cristo como “Jesus, Filho de Deus”; uma boa palavra que não foi revelada a Pedro pela carne e pelo sangue (cap. 16.17). “Os demônios creem e estremecem”, e confessam a Cristo como o Filho de Deus, e ainda assim permanecem demônios, o que toma a inimizade deles a Cristo muito mais grave e, sem dúvida, um perfeito tormento para eles próprios. Pois como pode ser diferente, uma vez que eles se opõem àquele que eles sabem ser o Filho de Deus? Note que aquilo que distingue os santos dos demônios não é o conhecimento, mas o amor. Satanás é o primogênito do inferno que conhece a Cristo, e ainda assim o odeia e não se submete a Ele e à sua lei. Devemos recordar que não fazia muito tempo que o demônio havia duvidado que Cristo fosse o Filho de Deus e tentou convencê-lo a duvidar disso (cap. 4.3). Mas agora Ele confessa isso imediatamente. Note que embora os filhos de Deus possam ficar muito mais desassossegados em uma hora de tentação pelo questionamento de Satanás a respeito do seu relacionamento com Deus como Pai, ainda assim o Espírito de adoção esclarecerá toda a questão para eles, satisfazendo-os por completo, colocando a verdade acima da contradição do diabo.

(2) Duas palavras que Satanás disse como um demônio, que ele realmente é.

1.Uma palavra de rebeldia: “Que temos nós contigo?” Agora, em primeiro lugar, é verdade que os demônios nada têm a ver com Cristo como Salvador, pois Ele não tomou para si a natureza dos anjos caldos, nem se apegou à descendência deles (Hebreus 2.16). Eles nada têm com Ele, não têm nem esperam qualquer benefício por parte dele. Oh! Como é profundo este mistério do amor divino em que homens caídos têm tanto a ver com Cristo, enquanto anjos caídos nada têm com Ele! Certamente aqui existia tormento suficiente antes do tempo, a ponto de o diabo ser forçado a confessar a excelência que existe em Cristo, e ainda que ele nada tinha com o Senhor Jesus. Note que é possível chamar a Jesus Cristo de Filho de Deus, e ainda assim não ter nada a ver com Ele. Em segundo lugar, também é verdade que os demônios desejam não ter nada a ver com Cristo como o Soberano; eles o odeiam, eles estão cheios de hostilidade contra Ele, eles permanecem em oposição a Ele, e estão em rebelião aberta contra o seu poder e dignidade. Veja a linguagem que eles utilizam, que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo, com suas leis e ordenanças, que não faz com que tomem o seu jugo sobre si mesmos, que não rompe as suas amarras em duas partes, e não faz com que o aceitem para reinar sobre si mesmos; que diz ao Onipotente Jesus: Afasta-te de nós ; eles são de seu pai, o demônio, eles realizam as suas concupiscências e falam a sua linguagem. Em terceiro lugar, não é verdade que eles nada tenham a ver com Cristo como Juiz, porque eles têm, e eles o sabem. Esses demônios não podiam dizer: Que tens conosco? Não podiam negar que o Filho de Deus é o Juiz dos demônios. Em seu julgamento, eles estão aprisionados com correntes das trevas, das quais eles alegremente se livrariam, e que querem tirar de seus pensamentos.

1.Uma palavra de desaprovação e protesto: “Vieste aqui atormentar-nos”, para nos expulsar destes homens e nos impedir de fazer o mal que faríamos?” Note que ser expulso e impedido de fazer a maldade é um tormento para o demônio, cujo consolo e satisfação são o sofrimento e a destruição do homem. ” Não devemos, então, considerar como bem-aventurança estarmos bem, e considerar como causa de nosso tormento, seja interno ou externo, o que nos impede de fazer o bem?” “Nessas circunstâncias, temos de ser atormentados, por ti, antes do tempo”. Perceba que, em primeiro lugar, há um tempo no qual os demônios serão mais atormentados do que são agora, e eles o sabem. O grande julgamento no último dia é a hora determinada para a sua tortura completa no fogo eterno que está preparado – há muito tempo – para o diabo e seus anjos (Isaias 30.33; cap. 25.41); eles estão reservados para o julgamento daquele dia (2 Pedro 2.4).

Aqueles espíritos malignos que são, pela permissão divina, prisioneiros à solta e andam de um lugar para o outro por toda a terra (Jó 1.7), mesmo agora estão sob controle; o poder deles alcançará até aqui, e não além. Eles se tornarão, então, prisioneiros trancafiados. Eles têm, agora, alguma liberdade; mas estarão, depois, em um tormento sem descanso. Isto eles aqui têm como certo e jamais pedem para ser torturados (a falta de esperança de alívio é a maior angústia da situação deles), mas pedem que não sejam atormentados antes do tempo. Pois embora não saibam quando será o dia do julgamento, eles sabiam que ainda não havia chegado. Em segundo lugar, os demônios têm uma certa antecipação pavorosa desse julgamento, e uma revolta furiosa contra toda atitude de Cristo a cada restrição ao poder e à ira deles. A simples visão de Cristo e a sua palavra de ordem para saírem do homem os deixava, neste caso, apreensivos pelo tormento que sofreriam. Desse modo, “os demônios creem e estremecem” (Tiago 2.19). É a própria hostilidade para com Deus e o homem que os coloca sob tortura e tormentos antes do tempo. Nem mesmo os pecadores mais desesperados, cuja condenação está selada, podem tornar os seus corações totalmente insensíveis à surpresa do terror, quando veem “que se vai aproximando aquele Dia”.

II – Vejamos, agora, que obra eles realizaram, para onde foram após terem sido expulsos do homem possuído. Foram para uma manada de porcos, que estava distante (v. 30). Esses gadarenos, embora vivendo do outro lado do Jordão, eram judeus. O que tinham eles a ver com os porcos, que de acordo com a lei eram imundos, e não deveriam ser comidos nem tocados? Provavelmente, nos arredores da terra, viviam entre eles muitos gentios a quem esta manada de porcos pertencia. Estes os criavam para serem vendidos ou trocados com os romanos, que eram apreciadores da carne de porco, e com quem eles tinham agora um grande comércio. Agora, observe:

1.Como os demônios dominaram os porcos. Embora os porcos estivessem distantes, e, talvez, fora de perigo, ainda assim os demônios os espreitavam para lhes causar danos: pois eles andam para um lado e para o outro, buscando devorar, procurando uma oportunidade, e não precisam procurar muito para encontrá-la. Aqui, nesse momento:

(1) Eles pediram permissão para entrar nos porcos (v. 31). Eles imploraram a Jesus, com toda a sinceridade: “Se nos expulsas, permite-nos que entremos naquela manada de porcos”. Através disto:

[1]. Eles mesmos estão conscientes de sua própria tendência a fazer o mal, e do prazer que isto lhes traz. Portanto, aqueles que se as­ semelham a eles são seus filhos: “Pois não dormem, se não fizerem mal, e foge deles o sono, se não fizerem tropeçar alguém” (Provérbios 4.16). Em outras palavras: “Permite-nos que entremos naquela manada de porcos – qualquer lugar em vez do lugar de tormento, qualquer lugar onde fazer o mal”. Se não lhes é permitido agredir os homens em seus corpos, eles os agridem através de seus pertences, e nisso, também, eles pretendem prejudicar suas almas, ao tornarem Cristo um fardo para eles. Quão maliciosas artimanhas aquela velha serpente insidiosa possui!

[2] Os demônios reconhecem o poder de Cristo sobre si mesmos, a ponto de, sem o seu consentimento e permissão, não poderem sequer ferir um porco. É reconfortante para todo o povo do Senhor saber que, embora o poder do diabo seja muito grande, ainda assim é limitado, e não é tão livre quanto a sua malícia (o que seria de nós, se o fosse?). Devemos perceber, especialmente, que o poder do inimigo está sob o controle de nosso Senhor Jesus, nosso fiel e poderoso amigo e Salvador, e que Satanás e seus instrumentos não podem ir além daquilo que o Senhor lhes permite; aqui eles têm que parar de brandir com arrogância.

(2) Eles tiveram permissão. Jesus Cristo lhes disse: “Ide” (v. 32), como Deus fez com Satanás quando ele pediu autorização para afligir a Jó. Entenda que Deus realmente, muitas vezes, por finalidades sábias e santas, autoriza as tentativas da ira de Satanás, e permite que ele faça o mal que deseja, e através disso até mesmo atenda aos seus propósitos. Os demônios não são apenas prisioneiros de Cristo, mas seus vassalos; seu domínio sobre eles aparece no dano que eles fazem, bem como no impedimento de que façam mais. Desse modo, até a ira deles serve para louvar a Cristo, e o excesso dela Ele reprime e sempre reprimirá. Cristo permitiu isto:

[1]. Para o convencimento dos saduceus que viviam, então, entre os judeus, e que negavam a existência dos espíritos e não reconheciam que havia tais seres, porque eles não os podiam ver. Agora Cristo realizaria, através disto, na medida do possível, uma demonstração visual da existência, da multidão, do poder e da maldade dos espíritos malignos. E assim, se os saduceus não fossem convencidos por esse meio, poderiam se tornar indesculpáveis em sua infidelidade. Nós não vemos o vento, mas seria absurdo negá-lo ao vermos as árvores e as casas derrubadas por ele.

[2]. Para a punição dos gadarenos, que talvez, a pesar de serem judeus, tinham tomado a liberdade de comer carne de porco, contrariando a lei. De qualquer forma, sua atitude de criar porcos atinge as raias do mal. Cristo também mostraria de que bando infernal eles foram libertos e que, se Ele tivesse permitido, logo os teriam sufocado, como fizera m com os seus porcos. Os demônios, em obediência à ordem de Cristo, saíram dos homens, e tendo a autorização, quando foram expulsos, imediatamente entraram na manada de porcos. Veja que inimigo hábil é Satanás, e como é desembaraçado; ele não perde tempo para fazer o mal. Observe:

2.Para onde eles levaram os porcos, quando se apossaram deles. Eles não desejavam salvar suas vidas e, por isso, fizeram com que se precipitassem violentamente por um despenhadeiro no mal; onde todos morreram, chegando a um número de quase dois mil (Marcos 5.13). Entenda que o diabo busca a possessão para destruir. Por isso ele incita as pessoas ao pecado, as incita em direção àquilo contra o que elas se decidiram e que sabem que lhes causarão vergonha e sofrimento. Com que força o espírito maligno “opera nos filhos da desobediência”, enquanto por tantas concupiscências insensatas e perniciosas eles são levados a agir em contradição direta, não apenas à religião, mas à justa razão e a seus interesses neste mundo! Assim, da mesma maneira, ele os impele para a ruína, pois ele é Apoliom e Abadom, o grande destruidor. Através das suas concupiscências, praticadas pelos homens, eles submergem na “perdição e ruína”. Esta é a vontade de Satanás, engolir e devorar; deprimente, portanto, é a condição daqueles que são feitos cativos por ele, de acordo com a sua vontade. Eles são impelidos para um lago pior do que este, um “lago que arde com fogo e enxofre”. Observe:

3.O efeito que este fato teve sobre os donos dos porcos. Um relato do ocorrido foi logo levado a eles pelos porqueiras, que pareciam estar mais preocupados com a perda dos porcos do que com qualquer outra coisa, pois eles não foram contar “o que acontecera aos endemoninhados”, até que os porcos tivessem desaparecido (v. 33). Cristo não entrou na cidade, mas a notícia de sua presença ali, sim, e através dela, Ele desejava sentir qual era a disposição do povo dali, e que influência ela tivera sobre eles. Então o Senhor agiria de acordo com a situação.

Nesse momento:

(1) A curiosidade dos habitantes da cidade os levou para fora, a ver Jesus. “Toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus”, para que eles fossem capazes de dizer que tinham visto um homem que realizou obras tão maravilhosas. Assim, muitos que não tinham nenhuma afeição por Cristo, nem o desejo de conhecê-lo, saíram ao seu encontro.

(2) A avareza fez com que desejassem se livrar dele. Ao invés de convidá-lo a entrar em sua cidade, ou trazer seus doentes a Ele para serem curados, eles desejaram que Ele partisse de seus limites, corno se tivessem tomado emprestado as palavras dos demônios: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?” E agora os demônios tinham o que eles visavam ao afogar os porcos; eles fizeram isso, e depois fizeram as pessoas acreditarem que Cristo o havia feito. E assim fizeram com que elas tivessem uma predisposição contra Ele. Satanás seduziu os nossos primeiros ancestrais ao imbuí-los de pensamentos injustos a respeito de Deus, e afastou os gadarenos de Cristo ao sugerir que Ele havia ido até o seu território para destruir os seus animais, e que Ele lhes faria mais mal do que bem. Pois embora Ele houvesse curado dois homens, Ele havia afogado dois mil porcos. Dessa forma, o diabo semeia o joio no campo de Deus, causa danos à igreja cristã, e depois coloca a culpa na cristandade e inflama os homens contra ela. Os gadarenos rogaram que Jesus se retirasse para que não sofressem alguma outra praga, como no caso de Moisés no Egito. Note que há um grande número de pessoas que prefere os seus porcos ao Salvador e assim ficam sem Cristo e sem a salvação que somente Ele pode proporcionar. Eles desejam que Cristo vá embora de seus corações e não permitem que a sua Palavra tenha um lugar neles, porque Ele e a sua Palavra serão a destruição de suas concupiscências animalescas – aqueles porcos que eles decidiram se es­ forçar para alimentar. E, de forma justa, Cristo abandonara á aqueles que desta forma estão cansados dele, e lhes dirá daí por diante: ”Apartai-vos de mim, malditos”, que dizem agora ao Todo-poderoso: “Retira-te de nós”.

GESTÃO E CARREIRA

Boas ou más, dê-me a verdade

BOA OU MÁ, DÊ-ME A VERDADE

Equipes perdem motivação ao não saber o que ocorre na empresa.

Ocultar informações negativas numa empresa, mesmo na intenção de preservar o ânimo da equipe, é perigosíssimo. Pesquisadores da Warwick Business School, no Reino Unido, concluíram num estudo que honestidade e transparência são cruciais para obter o engajamento de cada profissional envolvido. O conhecimento dos desafios profissionais em jogo mostrou-se mais motivador do que a percepção de que coordenadores omitem informação ou agem com otimismo infundado. O estudo constatou que chefias mostram tendência a omitir informações negativas na ilusão de que pouparão a equipe de desgaste, mas isso gera insegurança. Um chefe que expõe problemas ganha confiança e respeito da equipe, o que tende a se refletir em melhores resultados no longo prazo, mesmo com obstáculos imediatos. Há regras fundamentais para que isso funcione: as informações devem ser compartilhadas regularmente e a equipe deve poder se expressar.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A terapia da auto estima

A TERAPIA DA AUTO ESTIMA

Com base num princípio budista, psicólogos começam a aplicar uma técnica orientada pela ideia de que ser gentil consigo mesmo pode aumentar a resiliência, que se traduz na capacidade de enfrentar dificuldades de forma saudável, sem sucumbir a elas. Na prática, o desenvolvimento da compaixão por si mesmo diminui as consequências nocivas do estresse e melhora a qualidade dos relacionamentos.

Em 2015, Miriam, na época com 28 anos, formada e pós-graduada em administração de empresas, passou por uma série de situações difíceis. Ela perdeu o emprego quando a empresa em que trabalhava encerrou suas atividades e, ansiosa para voltar a trabalhar, aceitou uma vaga de gerente numa loja que exigia muito dela fisicamente. Semanas depois, Miriam machucou o quadril enquanto carregava algumas caixas com mercadorias.

Com dificuldade de caminhar, pediu demissão com a intenção de encontrar outro trabalho. Mas sem conseguir participar de entrevistas de emprego, sentindo-se triste e estressada, passou a se dedicar a um jogo lógico de cartas online. No entanto, até mesmo a diversão lhe causava angústia. Ingressar num torneio foi um dos últimos atos de um padrão que costumava ter na vida: estabelecer grandes metas e, posteriormente, julgar-se duramente por não cumpri-las.

Sentia-se deprimida, ansiosa, e a sensação de derrota reforçava a autocrítica. Apesar de ser boa jogadora, não conseguia perdoar as próprias falhas. Mais tarde ela se deu conta de que por esse motivo já havia abandona- do as aulas de balé e os treinos de vôlei: errar era insuportável para ela.

Hoje, frequentando sessões de psicoterapia duas vezes por semana, Miriam acredita que esse comportamento estava relacionado com o modo como foi criada pelos pais, que a pressionavam para se destacar no que quer que fizesse. Durante uma das sessões de terapia, uma associação a ajudou significativamente: recordou-se de um livro que tinha lido sobre comunicação não violenta, que enfatizava a importância de ter sensibilidade na hora de escolher as palavras – inclusive para si mesma. Essa lembrança funcionou como um insight para Miriam, que passou a incluir em seu vocabulário uma palavra revolucionária para sua autoestima: compaixão por si mesma.

No nível mais básico, significa tratar a si mesmo com bondade e compreensão que se dedicaria a um amigo. Quem tem dificuldade nesse aspecto não é necessariamente insensível – mas tende a manter padrões muito elevados para si mesmo, o que pode ser bastante prejudicial. Ser gentil consigo mesmo permite reconhecer e aceitar os próprios sentimentos, em vez de se desafiar constantemente a “fazer melhor”.

Miriam faz parte de um crescente número de pessoas que começam a descobrir que praticar a autocompaixão pode ser uma alternativa surpreendentemente eficaz ao hábito comum e paralisante da autocrítica associada ao sentimento de fracasso e à culpa. Desde que esse conceito surgiu como uma construção científica – com um artigo da psicóloga Kristin D. Neff, da Universidade do Texas em Austin, em 2003 –, o volume de publicações acadêmicas que investigam o assunto tem aumentado significativamente.

Em especial nos últimos anos, o tema da autocompaixão ganhou notoriedade. Psicólogos e pesquisadores, como Neff, desenvolveram estudos para entender melhor o conceito. Muitos psicólogos e psicanalistas enxergam a prática de tratar a si mesmo com amabilidade como um componente natural de tratamentos bem embasados, que focam a aceitação, a elaboração e o amadurecimento psíquico, que resulta na mudança gradual de padrões repetitivos.

No entanto, na cultura competitiva em que vivemos, atitudes cuidadosas consigo mesmo podem ser confundidas (até pela própria pessoa) com egoísmo, num extremo, ou autoindulgência, em outro. Por isso mesmo, alguns resistem à ideia da autocompaixão, associando-a erroneamente a egocentrismo, fragilidade e auto complacência. Mas será que o fato de sermos gentis conosco, após um contratempo, tende a nos deixar fracos e condescendentes? Essa é uma de muitas perguntas que as pesquisas sobre o assunto se propõem responder. Evidências revelam que a autocompaixão costuma ser uma fonte de força pessoal e interpessoal que favorece a estabilidade emocional e a motivação para o auto aperfeiçoamento.

 ANTIGAS RAÍZES

Pioneira no estudo científico da autocompaixão, Neff se interessou pelo assunto na década de 90. Como se não bastasse a preocupação com o doutorado, na época ela enfrentava a separação no primeiro casamento. Apesar do sentimento de fracasso e das duras críticas que dirigia a si mesma, a psicóloga encontrou forças para iniciar sessões de meditação e passou a interessar-se pela filosofia budista.

Ela sabia que a compaixão envolvia a preocupação com a dor do outro e o desejo de aliviar o sofrimento dessa pessoa, mas nunca pensou em dirigir essa energia para si mesma até ler o livro Bondade: a arte revolucionária da felicidade, sem tradução em português, da professora de meditação Sharon Salzberg. Neff se sentiu transformada pela mensagem de que ser gentil consigo mesma é essencial para ter amor genuíno pelos outros. E logo começou a estabelecer as bases para estudar o tema cientificamente.

Durante suas pesquisas, distinguiu três elementos indispensáveis da autocompaixão: a tolerância consigo mesmo em tempos difíceis; o hábito de prestar atenção ao sofrimento de maneira consciente, sem preocupação excessiva; e o reconhecimento de que a dor é parte da experiência humana, não algo exclusivo de um único ser. Esses três componentes se tornaram a base das perguntas que Neff usou para desenvolver uma escala de autocompaixão, um teste que publicou em 2003 na revista Self and Identity e que agora é amplamente utilizado por pesquisadores para avaliar essa característica. Com a ajuda da escala, Neff observou que quem tem altos níveis de autocompaixão é menos propenso a desenvolver ansiedade e depressão. E demonstrou que ser delicado consigo mesmo pode provocar grandes efeitos no mundo a nossa volta. A psicóloga Juliana Breines, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, teve o primeiro contato com o trabalho de Neff durante a graduação na Universidade de Michigan. Breines suspeitava que o hábito de olhar a si próprio com bons olhos pudesse ajudar a evitar a montanha-russa da “autoestima contingente” – isto é, relacionar o modo como nos enxergamos a fatores flutuantes, como realização acadêmica, condição financeira e aprovação alheia. Muitos estudos já haviam demonstrado que esse tipo de pensamento não favorece a autoestima nem a aprendizagem. Breines, porém, tinha receio de que a autocompaixão pudesse prejudicar a motivação. “Esse sentimento pode ser reconfortante, mas não nos tira de um problema muito rapidamente?”, perguntou-se.

Breines decidiu investigar essa questão. Em uma série de experimentos, ela e seus colegas aplicaram um difícil teste de vocabulário a 86 universitários. Para avaliarem os efeitos da autocompaixão no estudo, eles dividiram os voluntários em três equipes. Aos integrantes do primeiro grupo, disseram ser comum ter dificuldades na hora da avaliação e aconselharam os participantes a se esforçar sem serem excessivamente exigentes consigo mesmos. O segundo grupo ouviu uma argumentação lógica: “Se você entrou nesta universidade e foi selecionado para este grupo, então deve ser inteligente”. O terceiro não teve nenhuma informação.

Em seguida, os pesquisadores avaliaram quanto tempo os universitários estudariam para um segundo teste semelhante. De acordo com o que relataram no periódico científico Personality and Social Psychology Bulletin, o grupo que recebeu orientações sobre a autocompaixão utilizou 33% de tempo a mais estudando para o questionário seguinte do que aquele que foi estimulado a perceber racionalmente o quanto era capaz, e 51% a mais do que o grupo neutro (de controle) – uma evidência de que a autocompaixão pode reforçar a motivação. Ou seja: ser amável consigo mesmo pode ajudar a tolerar as falhas, o que aumenta a disposição para tentar novamente – e acertar.

Em duas pesquisas de 2012 lideradas pela psicóloga social Ashley Batts Allen, então na Universidade Duke, cientistas investigaram a autocompaixão em adultos mais velhos e encontraram benefícios psicológicos. No primeiro estudo, com 132 participantes entre 67 e 90 anos, foi observado que aqueles indivíduos que expressavam essa característica com frequência relatavam maior senso de bem-estar, mesmo quando a saúde não ia tão bem. No segundo experimento, com 71 idosos, a autocompaixão ajudou a prever a disposição para usar um andador em caso de necessidade. “Eles se sentiam menos incomodados pelo fato de precisar de ajuda”, afirma Allen, agora na Universidade da Carolina do Norte em Pembroke.

“Quem não costuma praticar um olhar generoso consigo mesmo tende a usar muita energia emocional pensando em coisas desagradáveis, mas não de forma produtiva, focando problemas reais”, observa o psicólogo Mark Leary, da Universidade Duke, que colaborou com a pesquisa. Por exemplo: negar uma dificuldade (como se recusar a usar um andador) pode trazer mais complicações, como uma fratura no quadril. A autocompaixão, por outro lado, tende a nos levar a perceber e aceitar a realidade – e nossos limites – sem julgamentos ou a sensação de que fracassamos porque temos fragilidades.

Em 2014, Leary e seus colegas acompanharam 187 pessoas, principalmente afro–americanos, que vivem com o HIV. Os pacientes com maior nível de autocompaixão apresentavam reações mais saudáveis à convivência com o vírus potencialmente mortal: demonstravam menos estresse, diziam sentir menos vergonha e eram mais propensos a expressar sua condição, além de aderir ao tratamento médico. Uma meta-análise de 2015 que envolvia 15 estudos com 3.252 participantes publicada na Health Psychology encontrou ligação entre comportamentos auto compassivos e hábitos saudáveis relacionados com alimentação, exercícios físicos, sono e formas de lidar com o estresse.

As pesquisas indicam que a autocompaixão pode favorecer a resiliência (resistência emocional) e permite recuperar o bem-estar emocional após as adversidades. Pessoas que usavam consigo mesmas uma linguagem mais generosa após o divórcio, por exemplo, costumavam se recuperar mais rapidamente do luto da separação do que aquelas que tinham uma visão mais autocrítica ou de auto piedade (“Por que eu?”, “A culpa é minha” ou “A culpa é do outro que me causou esse sofrimento”), segundo um estudo de 2012 com 109 adultos.

DE VOLTA AOS TRILHOS

Cuidar de pessoas que requerem cuidados especiais costuma exigir grande dedicação e equilíbrio emocional. Criar uma criança autista, por exemplo, pode demandar mais, do ponto de vista emocional, do que outras formas de parentalidade e, em alguns casos, causar altos níveis de estresse e abatimento. No entanto, um estudo de 2015 com 51 famílias que tinham crianças autistas demonstra que a capacidade dos pais de olhar a si mesmos com generosidade era um preditor mais importante do bem-estar deles do que a gravidade das deficiências ou mesmo o sofrimento da criança.

Uma pesquisa com 115 veteranos americanos das guerras do Iraque e do Afeganistão oferece outro exemplo interessante. Um estudo de 2015 publicado no Journal of Traumatic Stress constatou que os soldados com maior autocompaixão demonstravam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) muito menos graves do que aqueles que apresentavam o traço com menor intensidade, independentemente da exposição ao combate. “Essa é uma poderosa evidência da ideia de que não somos influenciados somente pelo que enfrentamos na vida, mas também pela maneira como nos relacionamos com nós mesmos quando passamos por momentos difíceis”, destaca Neff.

Estudos recentes com pessoas diagnosticadas com outros distúrbios psiquiátricos, como compulsão alimentar e transtorno de personalidade borderline, sugerem que tratar a si mesmo com gentileza é importante para manter o equilíbrio. A psicóloga Allison Kelly, da Universidade de Waterloo, em Ontário, que estudou o efeito de intervenções relacionadas com a autocompaixão no transtorno de com- pulsão alimentar, ressalta a importância não apenas de um aprendizado de tolerância em relação aos próprios impulsos, mas também da descoberta de formas de recuperar depois de ceder a eles. “A crítica severa, acompanhada de auto ameaças e desmerecimento de si mesmo, dificulta a reflexão e afasta a possibilidade de aprender com as dificuldades”, afirma. Segundo ela, a primeira coisa a fazer é acolher a si mesmo, reconhecer que foi feita uma escolha ruim e comprometer-se de forma consciente com a necessidade de agir de forma diferente.

“E não se trata de condescendência, mas sim de aproveitar a consciência do mal que somos capazes de fazer a nós mesmos para buscar outras opções.”

Ou seja: tratar a nós mesmos com delicadeza nos fortalece e ameniza a falta de confiança na própria capacidade. Em um estudo longitudinal de 2015 liderado pela psicóloga Sarah Marshall, da Universidade Católica Australiana, os pesquisadores acompanharam um grupo de 2.448 adolescentes que passavam da nona para a décima série. Marshall observou que o hábito de se valorizar era um precursor de saúde mental, independente- mente do nível de autocompaixão. E, quando crianças com baixa autoestima conseguiam ser generosas consigo mesmas, tendiam a se tornar menos tensas e mais equilibradas.

Muitas vezes, desenvolver habilidades sociais ou mesmo conseguir um emprego melhor parece momentaneamente fortalecer a autoestima. Mas não basta, pois, situações externas não sustentam o bem-estar emocional. Se a pessoa não compreender – por meio de associações com suas experiências e a história da própria família – o lugar que a auto depreciação ou a sensação de não ser boa o suficiente ocupa em sua dinâmica psíquica, a confiança em si mesma não dura. Se durante esse processo de autoconhecimento a pessoa for generosa consigo mesma, a evolução tende a ser muito mais rápida.

 RELACIONAMENTOS MAIS FORTES

Pesquisas mostram que tratar a si mesmo com delicadeza favorece também as trocas interpessoais. Em 2013, Kristin Neff liderou um estudo com 104 casais, em que analisou como indivíduos auto compassivos tratavam seu par romântico – segundo a avaliação do parceiro. Em geral, os homens e as mulheres que pontuavam alto numa escala que media o traço eram vistos como mais carinhosos e solidários, além de pouco controladores e me- nos verbalmente agressivos, em comparação àqueles com baixa autocompaixão.

Seria mais fácil mostrar compaixão aos outros do que a nós mesmos? Neff acredita que, embora pareça que sim, a longo prazo essa postura não se sustentará se não tivermos cuidado também conosco. Não raro, os efeitos dessa atitude surgem como depressão, crises de ansiedade e sintomas psicossomáticos. “Quando oferecemos tudo o que temos ao parceiro e somos muito duros com nós mesmos, dificilmente vamos conseguir manter uma relação saudável”, argumenta.

Essa interpretação não está de acordo com as descobertas que, publicadas em 2013 na Self and Identity, revelam como pessoas auto compassivas lidam melhor com conflitos interpessoais. Num estudo desenvolvi- do com 506 universitários, a estatística Lisa Yarnell, do Instituto Americano de Pesquisa (AIR, na sigla em inglês), observou que os voluntários com altos índices de autocompaixão equilibravam bem as próprias necessidades com a dos outros e se sentiam melhor em relação à resolução de conflitos, em comparação com aqueles com baixa pontuação nessa característica. Os indivíduos auto compassivos relatavam pouca turbulência emocional e bem-estar nas relações.

Essas descobertas têm implicações para os cuidadores em tempo integral, que, como sabemos há muito tempo, estão em risco de burnout e “fadiga de compaixão”, uma redução da capacidade de praticar a generosidade por causa do excesso de exigências emocionais a que estão submetidos. De fato, um levantamento transversal de 2016 com 280 enfermeiros de Portugal sugere que, embora os profissionais com níveis mais altos de empatia estivessem em maior risco de desenvolver fadiga de compaixão, a capacidade de se colocar no lugar do outro não era um fator de risco se estivesse acompanhada da auto compreensão.

 UM APRENDIZADO POSSÍVEL

Se praticar a generosidade consigo mesmo pode trazer tantos resultados positivos, será que podemos aprender essa habilidade? A autocompaixão consciente (MSC, na sigla em inglês) é uma intervenção promissora, desenvolvida por Neff, numa parceria com o psicólogo clínico Christopher Germer, professor da Escola de Medicina Harvard. A dinâmica projetada para o público em geral foi estruturada para ocorrer em oito semanas, abordando as pesquisas sobre o tema e apresentando exercícios, como usufruir de experiências agradáveis, praticar automassagem, usando uma voz calorosa e gentil, e escrever uma carta a si mesmo, como se fosse um amoroso amigo imaginário.

Em um pequeno estudo publicado em 2013, Neff e Germer mostram que 25 pessoas (a maioria mulheres de meia-idade) que completaram uma oficina de MSC relataram maiores ganhos na capacidade de ser generosas consigo mesmas e maior bem-estar do que um grupo similar alocado aleatoriamente para a lista de espera da oficina. O mais interessante: um ano depois os participantes mantinham os benefícios obtidos. Curiosamente, os do grupo de controle apresentaram também alguns ganhos em relação à autocompaixão – os escores deles subiram 6,5% entre as fases de pré e pós-teste, enquanto no grupo experimental esse número chegou a 42,6%. Inicialmente, o resultado confundiu os pesquisadores – até descobrirem que o grupo da lista de espera usou o tempo livre para aprender (de forma independente, com a ajuda de livros e da internet) como ser mais benevolente consigo mesmo.

“Ainda não está claro o quanto o sucesso dos participantes do “treinamento de auto- compaixão” está relacionado com a atividade em si, em oposição a participar de um grupo ou ter professores atenciosos”, observa a psiquiatra Julieta Galante, pesquisadora associada da Universidade de Cambridge.

Germer e Neff contam com a possibilidade de os participantes da oficina se darem conta da própria fragilidade durante as dinâmicas e sofrerem e os preparam para isso. Os pesquisadores usam a metáfora da “zona de risco” de combates a incêndio para explicar o fenômeno: assim como as chamas correm pelo cômodo à medida que o oxigênio retorna, uma antiga dor pode surgir em meio a um influxo de compaixão em pessoas famintas de afeto. É possível que, antes de entrarem nesse tipo de atividade, alguns indivíduos precisem praticar a autocompaixão aos poucos, em sessões individuais de psicoterapia.

O professor de psicologia clínica Paul Gilbert, da Universidade de Derby, na Inglaterra, concorda. Com experiência no atendimento a crianças vítimas de abuso ou negligência, ele observou que a gentileza pode produzir efeitos imediatos aparentemente contrários ao esperado. Há casos em que a estimulação de sistemas afetivos frágeis desencadeia memórias traumáticas, particularmente em casos de abuso infantil. “Há tantos medos e resistências ao ato de tratar bem a si mesmo que, no início, praticar exercícios com o público em geral pode despertar explosões emocionais”, afirma Gilbert.

A psicoterapia focada na compaixão (TFC), utilizada por ele para esses casos, foi testada com estudos de pequena escala. Gilbert trabalha com a ideia de que a autocrítica pode ser adotada pela pessoa como forma de se proteger de pais sentidos como ameaçadores. “À medida que o paciente se apropria do fato de que nem os genes nem o ambiente inicial são culpa deles, pode começar a lidar com a insegurança e assumir a responsabilidade pelo seu futuro”, afirma o psicólogo. Foi o que fez Miriam, quando passou a olhar para si mesma como se encarasse alguém querido com muitas qualidades – e, claro, algumas fragilidades.

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METÁFORA DA “ZONA DE RISCO”: quando bombeiros combatem um incêndio, as chamas parecem se espalhar antes de o fogo ser contido; da mesma forma, pessoas muito carentes podem se sentir ainda mais doloridas quando começam a olhar para o que as incomoda, mas esse efeito tende a diminuir com o avanço da psicoterapia.

NÃO É PARA TER PENA DE SI MESMO

Ser gentil não significa ser complacente ou cair na armadilha da vitimização, pelo contrário, o autocuidado está relacionado a autonomia.

Uma das preocupações dos profissionais da área da saúde mental em relação à terapia centrada no desenvolvimento da autocompaixão é que pacientes (e leigos em geral) façam uma leitura equivocada da proposta, confundindo o cuidado consigo mesmo com o incentivo à pena ou à autocondescendência. No entanto, o que os pesquisadores da área sugerem é justamente o oposto: um dos aspectos mais importantes na construção da autoestima é a possibilidade de assumir o fato de que somos responsáveis por nossas escolhas, boas ou más. Muitas vezes, o melhor que podemos fazer é optar pelo que de fato precisamos – e não simplesmente pelo que queremos.

Há situações em que as duas coisas se complementam, mas nem sempre. Ser gentil conosco pode ser, por exemplo, recorrer à própria inteligência na hora de escolher alimentos saudáveis em vez de fast-food, que pode até parecer a pedida mais prática e saborosa, mas comprovadamente traz consequências nocivas para a saúde. O mesmo se aplica não apenas a hábitos relativos à saúde, mas também ao que dizemos sabendo que, invariavelmente, vamos nos arrepender mais tarde. O doutor em psicologia Mark Muraven, professor da Universidade do Estado de Nova York, em Albany, salienta o risco de tomarmos decisões de forma compensatória: “Quando nos sentimos mal por qualquer motivo, tendemos a entrar num ciclo perigoso: tendemos a ser condescendentes conosco porque ‘já sofremos demais’ e fazemos o que sabemos que faz mal, isso nos deixa ainda mais insatisfeitos e nos leva ao auto ataque, o que fere a autoestima.” Muraven ressalta que é especificamente nos momentos de fragilidade emocional que precisamos pensar em nós mesmos como alguém que precisa de apoio. E se não damos conta é hora de pedir ajuda a um amigo ou um psicólogo. “Obviamente há inúmeras situações que não dependem de nossas escolhas imediatas (dificuldades concretas e emocionais, perdas etc.); ainda assim, sempre há a possibilidade de nos tratarmos bem, como talvez outras pessoas não tenham feito”, ressalta. Mas isso não é desculpa para não nos acolhermos, em especial nos momentos de dificuldade.

VOCÊ TEM AUTO COMPAIXÃO?

As afirmações abaixo fazem parte de uma avaliação criada pela psicóloga Kristin D. Neff. Na versão completa (http://bit.ly/SlfCompassion), você pode se classificar em uma escala de 1 a 5, em que 1 é “quase nunca” e 5, “quase sempre”.

Declarações associadas à alta autocompaixão

  • Tento ver minhas falhas como parte da condição humana
  • Quando estou passando por um momento muito difícil, busco manter minhas emoções equilibradas
  • Procuro ser compreensivo e paciente em relação aos aspectos da minha personalidade de que não gosto

 

Declarações ligadas à baixa autocompaixão

  • Quando falho em algo importante para mim, eu me sinto consumido por sentimentos de inadequação
  • Quando me sinto mal, minha tendência é acreditar que a maioria das pessoas provavelmente está mais feliz do que eu
  • Desaprovo e julgo minhas próprias falhas e inadequações

 A terapia da auto estima3

MARINA KRAKOVSKY – é jornalista e cientista social. É autora de The middleman economy: how brokers, agents, dealers and everyday matchmakers create value and profit (Palgrave Macmillan, 2015, sem tradução para o português).

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 8: 23-27

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Jesus Apazigua uma Tempestade

Cristo havia ordenado a seus discípulos “que passassem para a outra margem” (v. 18), para que fossem para o outro lado do mar de Tiberíades, no território de Gadara, na tribo de Gade, que se estende ao leste do Jordão. Para lá, Ele iria para resgatar duas pobres criaturas de uma legião de demônios, apesar de antever como Ele seria desafiado ali. Nesse momento:

1.Ele optou ir por água. Não seria muito diferente se tivesse ido por terra; mas Ele decidiu cruzar o lago, para que pudesse ter a oportunidade de se manifestar como o Deus do mar, bem como da terra seca, e para mostrar que todo o poder lhe pertence, no céu e na terra. E um alívio para todos aqueles que vão para o alto-mar em barcos, e muitas vezes correm perigos por lá, saber que têm um Salvador em quem confiar e a quem orar, que sabe como é estar no mar, e ali passar por tempestades. Mas observe que, ao ir por mar, Jesus não tinha nenhum iate ou barco de passeio para levá-lo, mas fez uso dos barcos de pesca de seus discípulos; isto mostra a pobreza a que Ele estava sujeito, em todos os aspectos.

2.”Seus discípulos o seguiram”. Os doze se mantiveram junto a Ele, enquanto outros ficaram para trás sobre a terra firme, onde o chão era ma.is está vel. Note que somente serão considerados verdadeiros discípulos de Cristo aqueles que de­ sejam ir com Ele para o mar, para segui-lo nos perigos e nas dificuldades. Muitos ficariam satisfeitos em pegar o caminho da terra, que se mantém tranquila, ou dar meia-volta para chegar ao paraíso, do que se aventurar em um mar perigoso; mas aqueles que descansarão com Cristo na vida futura devem, agora, segui-lo para onde quer que Ele os conduza, a um barco ou a uma prisão, bem como a um palácio. Observe:

I – A exposição ao perigo e a perplexidade dos discípulos nesta viagem nisto apareceu a verdade do que Cristo acabara de dizer: que aqueles que o seguem de­ vem esperar dificuldades (v. 20).

1.”No mar se levantou uma grande tempestade” (v. 24). Cristo poderia ter evitado essa tempestade, providenciando uma travessia agradável, mas isso não teria contribuído o suficiente para a sua glória e para a confirmação da fé dos discípulos, como ocorreu neste livramento. Esta tempestade aconteceu por causa deles, como em João 11.4. Era de se esperar que, tendo Cristo consigo, os discípulos teriam um vento forte muito favorável, mas ocorreu exatamente o oposto; pois Cristo mostraria que aqueles que estão fazendo, com Ele, a travessia para o outro lado do oceano deste mundo, devem esperar tempestades pelo caminho. A igreja é “arrojada com a tormenta” (Isaias 54.11). Somente a região superior aprecia uma calma perpétua; esta camada inferior é continuamente perturbada e perturbadora.

2.Jesus Cristo estava dormindo durante a tempestade. Nunca lemos sobre Cristo dormindo, exceto esta vez. Ele estava frequentemente em vigília, e a prolongava em oração a Deus durante a noite. Este era um sono, não de segurança, como o de Jonas na tempestade, mas de serenidade divina e confiança em seu Pai. Ele dormia para mostrar que era de fato e verdadeiramente um homem, e sujeito às fraquezas não pecaminosas da nossa natureza – seu trabalho o deixara cansado e sonolento, e Ele não tinha culpa, não tinha um medo interior para perturbar o seu repouso. Aqueles que podem descansar suas cabeças sobre o travesseiro com a consciência limpa, podem dormir serena e suavemente durante uma tempestade (Salmos 8), como Pedro (Atos 12.6). Desta vez, Ele dormia, testando a fé de seus discípulos, para verificar se eles confiavam nele quando parecia estar fazendo pouco a favor deles. Ele dormia, não tanto para descansar, mas com o propósito de ser acordado.

3.Os pobres discípulos, embora acostumados com o mar, foram acometidos de súbito terror, e em seu medo foram ter com o Mestre (v. 25). Para onde mais eles deveriam ir? Ainda bem que eles o tinham tão perto de si mesmos. Eles o acordaram com suas orações: “Senhor, salva-nos, que perecemos”. Note que aqueles que desejam aprender a orar devem ir para o mar. Os perigos iminentes e concretos conduzirão as pessoas a Jesus Cristo, o único que pode ajudar na hora da dificuldade. A oração dos discípulos tem vida: “Senhor, salva-nos, que perecemos”.

(1) A solicitação deles é: Senhor, salva-nos. Eles acreditavam que Ele podia salvá-los e pediram que Ele o fizesse. A missão de Cristo neste mundo é salvar, mas somente aqueles que invocarem o nome do Senhor serão salvos (Atos 2.21). Aqueles que, pela fé, estão interessados na salvação eterna preparada por Cristo, podem, com humilde confiança, recorrer a Ele para obterem libertações terrenas. Observe que os discípulos o chamam de Senhor e depois eles oram: Salva-nos. Note que Cristo não salvará ninguém, a não ser aqueles que desejarem aceitá-lo como seu Senhor; pois Ele é o Príncipe e o Salvador.

(2) A expressão dos discípulos é: “perecemos”; este termo:

[1] Representa a linguagem de seu medo. Eles viam a sua condição como desesperadora e davam tudo como perdi­ do; eles haviam recebido uma sentença de morte interiormente e por isso pediam: “Nós pereceremos, se tu não nos salvares; portanto, olha para nós com misericórdia”.

[2] Era a linguagem do seu fervor; eles oram como homens sinceros, que pedem por suas vidas; cabe a nós, portanto, nos esforçar e lutar em oração; por isso Cristo dormia, para que Ele pudesse prolongar esta situação.

II – O poder e a graça de Jesus Cristo vieram socorrê-los; então o Senhor acordou, como alguém renovado (SaImos 78-65). Cristo pode dormir enquanto sua igreja passa por uma tormenta, mas Ele não dormirá demais: a hora, o tempo determinado para ajudar sua angustia da igreja, chegará (Salmos 102.13).

1.Ele repreendeu os discípulos (v. 26): “Por que temeis, homens de pequena fé?” Ele não os censura por perturbá-lo com suas preces, mas por se inquietarem com seus medos. Cristo os reprovou primeiro, e depois os salvou. Este é o seu método: nos prepara para receber a sua misericórdia, e então no-la concede. Observe:

(1) Seu desagrado pelos temores deles: “Por que temeis… vós, meus discípulos? Que os pecadores em Sião temam, que os marinheiros pagãos est remeçam na tempestade, mas não deveis ser assim. Pesquisai as razões do vosso medo e pesai-as”.

(2) A descoberta de Jesus da causa e da fonte dos medos dos discípulos: “Homens de pequena fé”. Muitos que têm uma fé verdadeira são fracos nela, e por esta razão a fé lhes traz pouco proveito. Note:

[1] Os discípulos de Cristo têm a tendência de se inquietar com os medos em um dia tempestuoso, de se atormentar com a desconfiança de que as coisas vão mal para eles, e com as sombrias conclusões de que elas ficarão piores.

[2] A preponderância de nossos medos exagerados em um dia de tempestade se deve à fraqueza de nossa fé, que seria uma âncora para a alma e manejaria o remo da oração. Pela fé, podemos ver através da tempestade a margem tranquila e nos encorajar com a esperança de que chegaremos à região do vento favorável.

[3] O temor dos discípulos de Cristo em meio a uma tempestade, a sua incredulidade e a causa desta, são muito desagradáveis par a o Senhor Jesus, pois lançam uma espécie de desonra sobre Ele, e geram inquietação para eles próprios.

2.Jesus “repreendeu os ventos”. No ato anterior, Ele havia agido como o Deus da graça e o Soberano do coração, que pode fazer conosco aquilo que lhe aprouver. Neste, Ele age como o Deus da natureza, o Soberano do mundo, que pode fazer por nós aquilo que lhe agradar. Este é o mesmo poder “que aplaca o ruído dos mares, o ruído das suas ondas” e a confusão do medo (SaImos 65.7). Considere: 

(1)  Como isto foi realizado com facilidade, com a expressão da palavra. Moisés comandou as águas com uma vara; Josué, com a arca da aliança; Eliseu, com a capa do profeta; mas Cristo, com uma palavra. Veja seu domínio absoluto sobre todas as criaturas, o que evidencia tanto a sua glória como a alegria daqueles que o têm a seu lado.

(2) Quão eficazmente foi feito.  Houve “uma grande bonança” de repente. Normalmente, depois de uma tempestade, as águas se agitam de tal maneira, que leva tempo até que elas se acalmem; mas se Cristo pronuncia a sua palavra, não apenas a tempestade cessa, mas todos os efeitos dela, todos os resquícios dela também cessam. Grandes tempestades de dúvida e medo na alma, sob o poder do espírito da servidão, às vezes terminam em uma calma maravilhosa, gerada e declarada pelo Espírito de adoção.

3.O milagre instigou a perplexidade dos discípulos (v. 27): ”Aqueles homens se maravilharam”. Eles estavam, havia muito, acostumados com o mar, e durante toda a sua vida nunca tinham visto uma tempestade se acalmar tão imediatamente. Este fato tinha em si todos os sinais e marcas de um milagre. “Isso foi feito pelo Senhor e é coisa maravilhosa aos nossos olhos”. Observe:

(1) A admiração dos discípulos por Cristo: “Que homem é este!” Note que Cristo é sem igual; cada detalhe nele é admirável. Ninguém é tão sábio, tão poderoso, e tão amável quanto Ele.

(2) A razão da admiração: ”Até os ventos e o mar lhe obedecem?” Cristo deve ser admira do por ter poder de comandar até mesmo os ventos e os mares. Alguns fingiam curar doenças, mas Ele simplesmente se incumbiu de comandar os ventos. Não sabemos para onde vai o vento (João 3.8), muito menos podemos controlá-lo; mas Ele “tira os ventos dos seus tesouros” (SaImos 135.7), e “encerra os ventos nos seus punhos” (Provérbios 30.4). Aquele que pode fazer isto, pode fazer qual­ quer coisa, pode fazer o que for preciso para inspirar a nossa confiança e consolo em si mesmo no dia mais agitado pelas tormentas – sejam elas internas ou externas (Isaias 26.4). O Senhor se senta muito acima das mar és, e “é mais poderoso do que o ruído das grandes águas e do que as grandes ondas do mar”. Cristo, ao comandar o mal; mostrou que Ele é o mesmo que fez o mundo. Por sua repreensão, as águas fugiram (SaImos 104.7,8); agora, à sua repreensão, elas cederam.

 

GESTÃO E CARREIRA

GENIAL, MAS POBRE

Genial, mas pobre

Milhares de Einsteins em potencial são perdidos pela origem humilde.

O que invenção tem a ver com origem social? O estudo Who Becomes an Inventor in America? feito por acadêmicos do projeto Equality of Opportunity (“Igualdade de oportunidade”), avaliou as origens econômicas e sociais de inventores e inovadores, descobrindo que crianças do topo de 1% de famílias mais ricas têm dez vezes mais chances de criar e registrar patentes do que crianças igualmente inteligentes, mas vindas de famílias mais pobres. E mais: uma criança branca tem chance três vezes maior de entrar nesse grupo do que uma criança negra. Para os autores, que avaliaram 2 mil crianças, pode haver milhares de “Einsteins perdidos” — pessoas inventivas, mas tolhidas por sua origem.

O ambiente no qual o indivíduo foi criado é fundamental. O estudo constatou que crianças mais ricas convivem mais com pessoas criativas. Natural, portanto, que elas fiquem mais motivadas a inovar. Como solução, os governos deveriam aumentar as oportunidades para os inteligentes mais pobres, impulsionando a economia e beneficiando a sociedade.

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos todos um pouco colecionadores

SOMOS TODOS UM POUCO COLECIONADORES

A maioria das pessoas guarda objetos ou mesmo conteúdos digitais, como músicas e fotos, por prazer. Outras se sentem “forçadas” a acumular coisas sem valor, das quais não conseguem se separar. Pesquisadores buscam entender os processos cerebrais que tornam esse comportamento patológico.

 Talvez você não guarde bonequinhos, rolhas, selos, vidros de perfume, ursos de pelúcia ou relógios, nem carros ou obras de arte. Mas é possível que tenha um celular abarrotado de fotos ou músicas das quais não consegue se livrar, mesmo que raramente acesse esse material. Quem sabe mantenha mais sapatos do que pode usar nos próximos anos ou até livros em excesso. E na maioria dos casos esse comportamento não é especialmente prejudicial, desde que seja possível manter tais paixões sem grandes sacrifícios. Mas o que pensar de pessoas que enchem a casa de televisores usados, frigideiras velhas ou até sacos de lixo e simples- mente não conseguem resistir à vontade de juntar objetos sem nenhuma utilidade ou valor? A diferença entre colecionar e acumular pode ser sutil, mas em geral, no primeiro caso existe uma organização, uma lógica dentro do conjunto de objetos. Já o acumulador simplesmente estoca coisas de forma compulsiva e desordenada, sem dar sentido a elas.

No século 19, uma barra de ferro perfurou a parte anterior do cérebro de Phineas Gage. O incidente alterou seu caráter e o jovem operário americano, antes delicado e introspectivo, tornou-se violento e agressivo, incapaz de reagir racionalmente ou tomar decisões apropriadas às situações vividas.

Desde então, muitos estudos confirmam que os lobos frontais determinam em grande parte nossa capacidade de tomar decisões adaptadas ao contexto. Lesões nessa região do cérebro acarretam comportamentos estereotipados (com a repetição incessante do mesmo ato). Um deles nos interessa especialmente: o comportamento de preensão, no qual a pessoa pega maquinalmente todos os objetos que estiverem ao alcance da mão.

Há mais de três décadas o neurologista Pierre Lhermitte demonstrou que esse comportamento resulta de perda de atividade dos lobos frontais. Isso porque o córtex frontal introduz uma escolha em nossas ações e nos impede de agir como autômatos. Sem ele, agiríamos como autômatos: diante de comida, comeríamos; sentindo desejo sexual, copularíamos; caso apreciássemos um anel de brilhante exposto, simplesmente pegaríamos a joia. No âmbito psíquico, é a instância denominada superego, por Sigmund Freud, que é responsável por esse controle. Em linhas gerais, a voz introjetada de figuras de autoridade da infância, em especial nossos pais, nos diz que nem sempre é possível fazer o que desejamos e nossas atitudes têm consequências.

Do ponto de vista neurológico, o córtex frontal permite a deliberação, ao nos “lembrar” que o roubo é proibido, e nos dá meios para medirmos as consequências de nossos atos. Em pessoas que pegam objetos de modo incontrolável, essa região do cérebro deixa de inibir o reflexo de pegar, que existe desde quando somos bebês. O lobo frontal desses pacientes não reprime os lobos parietais, que podem comandar de maneira autônoma a preensão de objetos. Disso resulta uma maior dependência do sujeito a estímulos visuais e táteis. A simples visão de um objeto ou seu contato físico desencadeia um esquema comportamental automático de pegá-lo: a capacidade de selecionar um ou outro comportamento dependendo do contexto e de suas próprias capacidades se perde.

Para decidir por uma ação, o córtex pré-frontal recebe informações provenientes de regiões ditas associativas (áreas sensoriais táteis e visuais que fornecem dados sobre o exterior) e outras próprias do estado interno, as quais são tratadas pelo córtex para-límbico orbito frontal. Em conjunto, esses dados explicam por que os pacientes que sofreram lesões frontais se distraem tão facilmente, já que o córtex frontal é responsável pela capacidade de concentração. O colecionismo pode ser entendido, portanto, como uma forma de automatismo decorrente de uma disfunção do lobo frontal?

Com frequência, a obsessão por colecionar foi diagnosticada em pacientes com demência frontotemporal, síndrome consecutiva à degeneração dos neurônios do córtex frontal, caracterizada por distúrbios de comportamento e perda de memória. Um estudo feito com 133 pessoas com demência verificou que 22,6% delas sofriam de colecionismo. Esses pacientes muitas vezes tinham outros comportamentos repetitivos, como a bulimia ou a cleptomania. Em quase todos os casos, o funcionamento do córtex frontal estava alterado. Clinicamente, o colecionismo não diminui a ansiedade, mas impedir que a pessoa mantenha seus objetos desencadeia sentimentos de frustração e, eventualmente, manifestações de agressividade.

P., de 25 anos, apresenta um quadro autista desde a infância, e revela tendência colecionista. Ele acumula desordenadamente jornais velhos e guarda nos armários de seu quarto objetos que pega no lixo. Em seu caso, o colecionismo entra no plano dos atos repetitivos, automáticos e estereotipados, como o balançar incessante do corpo ou o consumo excessivo de líquidos, em geral água, a potomania. Em 73% dos psicóticos crônicos (por exemplo, pacientes com esquizofrenia), encontram-se condutas repetitivas, tais como as de acumulação. Segundo o psiquiatra Daniel Luchins e seus colegas da Universidade de Chicago, esses sintomas resultariam de anomalias no hipocampo; certas pesquisas, feitas com animais, demonstram que lesões hipocampais provocam a aparição de condutas repetitivas. Entretanto, na maior parte das vezes, é o lobo frontal que apresenta falhas.

Segundo o que se sabe hoje sobre os mecanismos fisiopatológicos dos comportamentos de preensão automática e de demências frontotemporais, os lobos frontais têm papel central no colecionismo. Contudo, é preciso ir além dessa simples descrição, pois a obsessão em acumular coisas é bem mais complexa que o fato de levar algo para casa. O neurologista Bruno Dubois, do Hospital de la Pitié-Salpêtrière, em Paris, examinou um paciente que sofria de colecionismo e apresentava lesões cerebrais particulares. Casado, pai de quatro crianças, o técnico em eletrônica de 40 anos foi operado duas vezes, num intervalo de cinco anos, de um meningioma olfativo, tumor benigno situado na base do crânio. Os primeiros distúrbios de comportamento apareceram dois anos após a segunda operação, quando ele passou a percorrer a cidade à procura de eletrodomésticos diversos.

COISA DE BICHO

Essas expedições seguiam um circuito específico e na véspera das coletas da prefeitura, dia em que tinha mais chances de encontrar os tais aparelhos. Depois de tê-los armazenado na sala, corredor e banheiro, passou a guardá-los no quarto da filha. Antes de ser hospitalizado, começou a empilhar televiso- res nos tubos de circulação de ar de sua casa. Ele tinha então 50 televisores usados, dez aparelhos de som quebrados, três geladeiras, sete máquinas de lavar roupa, seis aspirado- res de pó, três batedeiras, nove interfones e uma dezena de telefones.

O paciente acumulava também garrafas vazias, jornais velhos e sacos plásticos. Fora dos momentos de “coleta”, ele não fazia absolutamente nada. Houve vezes em que foi capaz de passar horas tomando banho e de ficar sentado quase metade do dia dentro do carro estacionado. Imagens de seu cérebro revelaram que o paciente apresentava volumosas lesões bilaterais nas regiões orbito- frontais, assim como lesões na cabeça dos dois núcleos caudados. Uma tomografia por emissão de pósitrons (PET) confirmou a hipoatividade dessas regiões.

Apesar das lesões, o relatório neuropsicológico destinado a avaliar a capacidade cognitiva desse paciente estava quase normal. Ele não era como os pacientes “autômatos” mencionados, podia definir seus atos em função do contexto e fazer raciocínios normais. Aparentemente, sua capacidade intelectual estava intacta: apesar das lesões frontais, ele não tinha síndrome de automatismo. Entre- tanto, era colecionista.

Os neurocientistas Paul Eslinger e António Damásio, então na Universidade de Iowa, já haviam constatado esse paradoxo em outro paciente. Também colecionista, o homem apresentava lesões no córtex orbito frontal (situado acima dos olhos), consequência da extração de um meningioma. Mais recentemente, ao descrever um caso de colecionismo consecutivo à ruptura de um aneurisma que havia causado lesão orbito frontal e do estriado, uma equipe coreana relatou o mesmo fenômeno: apesar das lesões, as faculdades cognitivas foram conservadas. Especialistas acreditam que, em certos casos, outras lesões além das do córtex frontal podem causar o mesmo comportamento. A questão é saber se existe um “circuito” do colecionismo. Chama atenção, por exemplo, a seletividade do objeto procura- do e do uso de estratégias de busca.

A estocagem teve função importante para a sobrevivência de nossa espécie. Ao longo dos séculos, muitos povos só conseguiram enfrentar períodos de escassez porque acumularam alimentos. Casos de colecionismo também estão presentes em animais. Não raro, são localizados objetos variados, como bolas de golfe, brinquedos e até mesmo de armas de fogo, em tocas de furões.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 298

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 18-22

A Resposta de Cristo a um Escriba e a outro Homem

Aqui vemos:

I – A passagem de Cristo para o outro lado do mar de Tiberíades e a ordem dada a seus discípulos, cujos barcos o acompanharam, para que estivessem prontos (v. 18). A influência do Sol da Justiça não se restringiria a um único lugar, mas se espalharia por todo o país. Ele deve cuidar de fazer o bem; as necessidades das almas o chamavam: “Passa… e ajuda-nos” (Atos 16.9). Ele se retirava quando se via rodeado por grandes multidões. Embora o pedido do escriba desse a impressão de que eles o quisessem ali. Ele sabia que havia outros tão desejosos de tê-lo consigo, e que estes deveriam ter a sua parte. Para Jesus, ser aceito e útil em um lugar não era uma objeção, mas a razão para partir para outro. Dessa maneira, Ele testava as multidões que o cercavam, se o entusiasmo delas faria com que o seguissem e o acompanhassem quando a sua pregação se deslocasse para mais longe. Muitos ficariam contentes por tal ajuda, se pudessem tê-lo por perto, e não poupariam esforços para o seguirem até o outro lado. Desse modo, Cristo separava aqueles que eram menos zelosos, e os perfeitos se manifestavam.

II – A conversa de Cristo com dois homens que, com a sua passagem para o outro lado, relutavam em ficar para trás, e tinham em mente segui-lo, não como outros, que eram seguidores à distância. Eles queriam se envolver profundamente com o discipulado, o que a maioria tinha vergonha de fazer, pois isso transmitia um aspecto de rigor do qual eles poderiam não gostar, nem aceitar. Este é um relato sobre dois homens que pareciam desejosos de entrar em comunhão, embora não agissem corretamente. Aqui são mencionados exemplos dos obstáculos que impedem muitos de se aproximarem de Cristo, e de se dedicarem a Ele. E também um alerta para nós, para começarmos a seguir a Cristo, não deixando de colocar esse alicerce, para que a nossa casa espiritual possa estar firme.

Aqui temos Cristo cuidando de dois temperamentos diferentes, um rápido e ansioso, outro lento e pesado; e suas instruções são adequadas a cada um deles e preparadas para o nosso uso.

1.Aqui temos alguém que é rápido demais em prometer; e este era um certo escriba (v.19), um estudioso, um homem culto, um daqueles que estudavam e explicavam a lei; descobrimos nos Evangelhos que, geralmente, não eram homens de bom caráter; eram habitualmente associados com os fariseus, como inimigos de Cristo e de sua doutrina. “Onde está o escriba? (1 Coríntios 1.20). Os escribas raramente seguiam a Cristo; porém aqui estava um que era bastante promissor para o discipulado, um “Saul entre os profetas”. Observe:

2.Como ele expressou sua precipitação: “Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei”. Não conheço ninguém que pudesse ter dito melhor. A sua declaração sobre a sua dedicação a Cristo foi: [1] Muito ansiosa, e parece ser de sua tendência equilibrada. Ele não foi chamado por Cristo, nem encorajado por qualquer dos discípulos; mas por iniciativa própria, ele confessa ser um seguidor próximo de Cristo; ele não é um homem pressionado, mas um voluntário.

[2] Muito decidida. Ele parece ter tomado uma decisão quanto a este assunto. Ele não diz: “Eu tenho intenção de te seguir”, mas: “Estou decidido, eu o farei”.

[3] Ilimitada e sem reservas: “Aonde quer que fores, eu te seguirei”; não apenas ao outro lado do país, mas até as regiões mais remotas do mundo. Devemos pensar em nós mesmos como pessoas tão seguras de si como este homem; e ainda assim parece, pela resposta de Cristo, que esta resolução foi precipitada, e suas finalidades, vulgares e materiais. Ou ele não refletiu, ou não considerou o que dever ia ser considerado. Ele viu os milagres que Cristo realizou e esperava que Ele estabelecesse um reino terreno, e desejava se candidatar imediatamente a Ele. Note que existem muitas resoluções relativas à religião, produzidas por alguma angústia repentina de condenação, e tomadas sem a devida consideração; no final, elas fracassam e não resultam em nada. O que cedo amadurece, cedo apodrece.

1.Como Cristo testou sua presteza – se era sincera ou não (v. 20). Ele o fez saber que o Filho do Homem, a quem ele estava tão ansioso para seguir “não tem onde reclinar a cabeça” (v. 20). Neste ponto, a partir desta descrição da profunda pobreza de Cristo, observamos:

[1] Que é inerentemente estranho que o Filho de Deus, quando veio a este mundo, se colocasse em uma condição tão ruim, a ponto de não ter a conveniência de um lugar fixo para descansar, coisa que as mais humildes criaturas possuem. Uma vez que Ele decidiu adotar para si a nossa natureza, era de se esperar que Ele a adotasse em suas melhores condições sociais e circunstanciais; mas não, Ele a adota no seu pior aspecto. Veja aqui, em primeiro lugar, quão bem providas estão as criaturas inferiores: ”As raposas têm covis”; embora elas não sejam úteis, mas prejudiciais ao homem, ainda assim Deus lhes proporciona covis nos quais se refugiam: o homem se esforça para destrui-las, mas por essa razão elas são protegidas; seus covis são seus castelos. As aves do céu, embora não se cuidem, são cuidadas, e ” têm ninhos” (Salmos 104.17); ninhos no campo; algumas delas, ninhos nas casas; nos altares de Deus (SaImos 8 4.3). Em segundo lugar, quão pobres eram as provisões do Senhor Jesus. O fato de os animais terem provisões tão boas pode nos encorajar, e caso não tenhamos o necessário, o fato de nosso Mestre ter passado por isso antes de nós pode nos confortar. Note que o nosso Senhor Jesus, quando esteve neste mundo, submeteu-se às degradações e agonias da extrema pobreza. Por nossa causa, Ele se tornou pobre, muito pobre. Ele não tinha uma cidade, não tinha um lugar de repouso, nem uma casa sua, para reclinar a cabeça, nem seu próprio travesseiro sobre o qual apoiar sua cabeça. Ele e seus discípulos viviam da caridade de pessoas bem-intencionadas, que contribuíam para a sua subsistência (Lucas 8.2,3). Cristo se submetia a isto, não apenas para que pudesse, de todas as formas, se humilhar e cumprir as Escrituras, que falavam dele como pobre e necessitado, mas também para que pudesse nos mostrar a futilidade das riquezas do mundo, olhando para elas com um desprezo santo, para que Ele possa comprar para nós coisas melhores, e assim nos tornar ricos (2 Coríntios 8.9).

[2] É estranho que tal afirmação tenha sido feita nesta ocasião. Quando um escriba se ofereceu para seguir a Cristo, seria de se pensar que Ele o teria encorajado e dito: “Venha, e eu cuidarei de você”. Um escriba poderia lhe dar mais crédito e lhe prestar mais serviços do que doze pescadores. Mas Cristo viu o seu coração e respondeu aos seus pensamentos, e nesse ponto nos ensina como devemos nos chegar a Deus. Em primeiro lugar, a decisão do escriba parece ter sido repentina; e Cristo deseja que, se assumirmos uma profissão religiosa, nos sentemos e consideremos os custos (Lucas 14.28), para que o façamos com inteligência e reflexão, e que escolhamos o caminho da piedade, não porque não conheçamos outro, mas por não conhecermos um caminho melhor. Não é bom para a fé pegar os homens de surpresa, antes que eles estejam conscientes. Aqueles que assumem uma profissão religiosa angustiados a descartarão devido ao primeiro aborrecimento; permita, então, que gastem algum tempo, e eles decidirão o quanto antes; deixemos que aqueles que seguirão a Cristo conheçam o lado mais difícil desta decisão, e que estejam dispostos a viver em condições desfavoráveis. Em segundo lugar, a sua resolução parece ter se baseado em um avarento princípio material. Ele viu a abundância de curas realizadas por Cristo, e concluiu que Ele  recebia altos honorários, e assim logo juntaria muitos bens. Portanto, ele o seguiria na esperança de enriquecer junto com Ele; mas Cristo corrige seu erro e lhe diz que estava tão distante de ficar rico que não possuía sequer um lugar para reclinar a cabeça; e se aquele homem o seguisse, não poderia esperar ter uma condição melhor que a do próprio Senhor. Note que Cristo não aceitará como um de seus seguidores alguém que aspire benefícios materiais ou planeje alcançar, por meio da sua fé, algo que não seja o céu. Temos razão para acreditar que este escriba, depois disso, tenha se retirado triste, ficando desapontado com uma negociação da qual ele pensava tirar proveito – Ele não seguiria a Cristo, a menos que pudesse alcançar alguma vantagem material através do Salvador.

2.Aqui está outro que demora muito para atender o chamado. A demora na execução é tão má, por um lado, quanto a precipitação nas decisões o é, por outro. Quando pensamos e depois decidimos, jamais devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Este candidato ao ministério já era um dos discípulos de Cristo (v. 21), um seguidor à distância. Clemente de Alexandria nos conta, a partir de uma antiga tradição, que este era Filipe. Ele parece ser mais qualificado e disposto do que o anterior, pois não era tão confiante e presunçoso. Um caráter arrojado, ansioso e excessivamente entusiasmado pode não ser, necessariamente, o mais promissor quando se trata de fé; às vezes, os últimos são os primeiros, e os primeiros, os últimos. Agora observe aqui:

(1).A desculpa dada por este discípulo para adiar a decisão de seguir a Cristo de imediato (v. 21): “Senhor, permite-me que, primeiramente, vá sepultar meu pai”. Em outras palavras: “Antes que me torne teu seguidor fiel e permanente, permita-me que realize esse último ato de respeito ao meu pai; e, por enquanto, permita que seja suficiente que eu seja um ouvinte ocasional teu, quando dispuser de algum tempo”. Alguns pensam que seu pai estava doente ou mor rendo, ou morto; outros pensam que era apenas idoso e que, em um curso natural, não viveria por muito mais tempo; e que, sendo as­ sim, este discípulo desejava partir para cuidar dele em sua enfermidade, sua morte e seu funeral, e depois serviria a Cristo. Isto parecia um pedido razoável, porém ainda assim não foi apropriado. Ele não teve o zelo que devia ter pelo reino e por isso fez esse pedido, pois parecia um pedido plausível. Note que a uma mente relutante, nunca faltam desculpas. A falta de tempo livre vem da falta de disposição. Nós temos a tendência de supor que isso vinha de um verdadeiro afeto filial e respeito por seu pai, porém ainda assim a preferência deveria ter sido dada a Cristo. Note que muitos são impedidos e obstruídos de ter uma devoção sincera, por se preocuparem em excesso com suas famílias e parentes; essas coisas legítimas arruínam a todos nós, e nosso dever para com Deus é negligenciado e postergado, sob o pretexto de pagarmos nossas dívidas para com o mundo; neste ponto, portanto, temos a necessidade de dobrar a nossa guarda.

(2).A reprovação dessa desculpa por Cristo (v. 22). Jesus lhe disse: “Segue-me”; e, sem dúvida, esta palavra estava envolta pelo poder do Senhor, como ocorreu no caso de outros, e ele realmente seguiu a Cristo e permaneceu fiel a Ele, como Rute a Noemi, enquanto o escriba, nos versículos anteriores, como Orfa, o abandonou. Este disse: “Eu te seguirei”; a este Cristo disse: “Segue-me”. Comparando-os um ao outro, fica sugerido que somos levados a Cristo pela força do chamado que Ele nos faz, e não pelas promessas que fazemos a Ele: “Pois isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”. Ele chama a quem quiser (Romanos 9.16). E, ainda mais, note que embora vasos escolhidos possam dar desculpas, e atrasar a sua adesão aos chamados divinos por muito tempo, mesmo assim Cristo responderá, detalhadamente, às suas desculpas, subjugará suas relutâncias, e os trará a seus pés. Quando Cristo chama, Ele domina e torna o chamado efetivo (1 Samuel 3.1O). A desculpa desse discípulo é posta de lado como inadequada: “Deixa aos mortos sepultar os seus mortos”. É uma expressão proverbial: “Deixe que um morto enterre a outro; mais exatamente, deixe-os insepultos, em vez de negligenciar a obra de Cristo. Deixe que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos; deixe que os trabalhos terrenos fiquem para as pessoas terrenas; não se sobrecarreguem com eles. Enterrar os mortos, especialmente um pai, é urna boa obra, mas não é o seu trabalho neste momento; ele pode, muito bem, ser feito por outros que não sejam qualificados e chamados como vocês para a obra de Cristo; vocês têm outra coisa a fazer, e não devem adiá-la”. Note que a devoção a Deus deve ter preferência em relação à devoção aos pais, embora essa seja uma parte importante e indispensável da religião. Os nazireus, de acordo com a lei, não deveriam lamentar por seus próprios pais, pois eles eram “separados para o Senhor” (Números 6.6-8); nem devia o sumo sacerdote se contaminar com os mortos, nem mesmo por causa de seus pais (Levíticos 21.11,12). E Cristo requer que aqueles que quiserem segui-lo aborreçam “a seu pai, e mãe” (Lucas 14.26); ame-os menos do que a Deus. Nós devemos, comparativamente, desconsiderar os nossos parentes mais próximos quando eles entram em competição com Cristo, com aquilo que fazemos por Ele, ou com os sofrimentos que enfrentamos por amor a Ele.

GESTÃO E CARREIRA

Divâ digital2

DIVÃ DIGITAL

O Grupo de Pesquisa em Computação Afetiva, do MIT, trabalha para que relógios deem conta do estresse do cotidiano.

Imagine-se, além de mostrar as horas, seu relógio de pulso oferecer uma “previsão meteorológica” do seu humor para os próximos dias. Imagine se esse relógio informar que seu nível de tensão subirá 40% no dia seguinte. De posse dessa informação, você decidirá deitar mais cedo e ter uma boa noite de sono? Ou marcará um café da manhã com aquele amigo divertido, que sempre faz você dar risada e relaxar?

Esse relógio é o sonho de Rosalind Picard, engenheira de computação, fundadora e diretora do Affective Computing Research Group (Grupo de Pesquisa em Computação Afetiva), que funciona no Media Lab do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Rosalind e sua equipe estudam formas de prever tensão e ansiedade. Batizada de Empática, a startup criada por ela vende sensores vestíveis — os famosos wearables — que identificam e interpretam sinais psicológicos emitidos pelo estresse. O principal pro- duto da Empática é o Embrace, um relógio inteligente, de design moderno, dotado de um sensor médico avançado e algoritmos de aprendizado de máquinas. Criado originalmente para portadores de epilepsia, o aparelho usa a atividade elétrica da pele do usuário para rastrear crises. No início de fevereiro, o Embrace tornou-se o primeiro smartwatch a ganhar o selo de dispositivo médico da FDA (a Agência de Alimentos e Drogas, braço do governo americano que regula os dois setores e também equipamentos de saúde). Um ensaio clínico comparou a eficácia do relógio com a de três neurologistas. Num acompanhamento de 135 pacientes ao longo de 272 dias, o Embrace identificou as crises dos participantes em 100% das ocasiões. Embora o aparelho tenha cravado um importante marco, a empresa quer ampliar sua atuação para outras condições neurológicas, como autismo e depressão. A Empática pretende, um dia, ajudar também pessoas sem nenhum problema importante de saúde a enfrentar o estresse do cotidiano. CEO e um dos fundadores da companhia, Matteo Lai usa as ondas do mar como metáforas para explicar o desafio enfrentado pela Empática. Quem estuda ondas começa pelos tsunamis, e só depois compreende o funcionamento de movimentos menores e sutis. O tsunami escolhido pela empresa foi a epilepsia. Agora, a ideia é prever ondas menores, como depressão e autismo. Quando comparadas à intensidade de uma crise epilética, as mudanças fisiológicas ocorridas no corpo de alguém estressado parecem discretas marolas.

Embora seja mais difícil identificar ansiedade e tensão do que um surto, a previsão dessas situações obedece a uma lógica inversa. Há muito mais informação disponível sobre o estresse, e é possível usar também outras fontes de dados além do corpo — tais como a intensidade e a frequência do uso do celular. Em agosto do ano passado, Rosalind e um grupo de integrantes do laboratório publicaram um estudo sobre a aplicação do aprendizado de máquinas na previsão do humor de estudantes universitários. Os resultados alcançaram uma precisão que variou de 78% a 86%. As pesquisas sobre previsões, porém, não estão maduras o bastante para ser aplicadas ao Embrace. Para a diretora do laboratório, o trabalho só será útil aos usuários do relógio se vier acompanhado de sugestões para melhorar o humor — encontrar amigos, caminhar, dormir cedo. Por isso, embora a tecnologia de previsões esteja avançando, a ideia é postergar a aplicação da “previsão meteorológica” de humores aos aparelhos vestíveis até o momento em que seja possível oferecer, também, maneiras de ajudar o consumidor a se sentir melhor. Ainda que o Embrace tenha sido certificado pela FDA como um dispositivo capaz de identificar crises, antecipar esses surtos — ou qualquer episódio relacionado a estresse, como os ataques que às vezes acometem autistas — é bem mais complicado. Mesmo assim, o desafio está na mira da Empática.

“A personalização permite acumular dados específicos sobre cada pessoa, alimentados por um relógio ou celular”, explica Rosalind. “Com o tempo, esse conhecimento científico vai ajudar cada indivíduo a entender os próprios padrões, e não a média de um grupo de pessoas — porque algumas podem ser um ponto fora da curva. Não será possível dizer com 100% de certeza: ‘você vai ter uma crise de tal tipo, em tal horário’. Mas poderemos dizer que, amanhã, a probabilidade é mais alta. E isso talvez ajude a pessoa a ter um dia melhor.” A capacidade dos algoritmos de aprender sobre os hábitos e padrões de seres humanos específicos significa trazer informações verdadeiramente personalizadas. Isso só é possível graças ao aprendizado das máquinas (via algoritmos) e a volumes gigantescos de dados. Lai explica que prever crises é especialmente complicado, já que elas não são acontecimentos costumeiros do dia a dia. Por isso, é preciso mais tempo até que o algoritmo aprenda quais fatores causam surtos numa pessoa — pois esses fatores variam de um indivíduo para o outro. A despeito dessas dificuldades, existe um tremendo potencial na ideia de que as máquinas podem ajudar portadores de epilepsia a entender melhor os gatilhos que disparam seus ataques, e fazer com que eles saibam quando estão mais suscetíveis.

A epilepsia, continua Lai, é usada há anos como um caminho para descobrir os segredos do cérebro humano. Um exemplo: pacientes com epilepsia foram fundamentais para estudos sobre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais. Por extensão, os dados sobre epilepsia acumulados pelo Embrace podem ser aplicados a pessoas com autismo e depressão — e até mesmo a quem experimenta situações de estresse com grande frequência. Pouca gente compreende ou estuda a relação entre diferentes fatores do cotidiano, como sono e atividade física, e o impacto disso na sensação geral de bem-estar. “Não importa se estamos falando de dor, tensão ou depressão. De maneira geral, é difícil compreender ou explicar o que está acontecendo nessas situações”, afirma Rosalind. “Muita gente não entende muito bem o que acontece no próprio organismo. ‘Tudo bem, estou meio cansada ou irritadiça. É assim com todo mundo’, pensamos. ‘É o noticiário político, é esse tempo maluco.’ Em todas essas circunstâncias, o ambiente ao nosso redor oferece micro indícios do que pode acontecer. Mas eles são tão pequenos que a gente nem percebe. No entanto, se somarmos 100 mil micros indícios ocorridos nos últimos meses, a coisa pode chegar a um estado preocupante.” Um wearable pode dar às pessoas mais conhecimentos sobre os próprios padrões. Isso representa a possibilidade de ajustar aquilo que não vai bem. Quase nunca descrevemos nosso próprio humor de maneira precisa, explica Rosalind. Uma máquina capaz de acompanhar essas variações pode ser uma ferramenta para enfrentar o estresse, não importa a forma com que ele se apresenta. Aí o Embrace entra em cena. Ele é uma plataforma com a habilidade de registrar e extrair padrões de tudo o que acontece no cérebro. Um único e pequeno aparelhinho médico, que carregamos junto ao corpo, com a capacidade de entender e organizar todas essas in- formações. Isso se as pessoas toparem participar.

Rosalind é inflexível: a empresa nunca vai coletar ou usar dados pessoais para pesquisas sem a autorização expressa dos usuários do Embrace. “É fundamental sermos absolutamente respeitosos e tratar essas informações com o mais alto grau de sensibilidade e privacidade”, diz. Um aparelho que coleta dados pessoais pode organizá-los e ajudar quem sofre de um complicado distúrbio neurológico. Mas vivemos num mundo em que cidadãos estão   cada vez mais preocupados com a privacidade dos dados pessoais. Diante disso, teremos de decidir: estamos dispostos a oferecer ainda mais e mais informações particulares em troca de uma vida mais saudável?

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Aquém da mente para além do corpo

AQUÉM DA MENTE PARA ALÉM DO CORPO

Todos nós apresentamos marcas físicas e mentais resultantes de vínculos e experiências acumulados desde o início da vida. Vivências perturbadoras, conflitos, frustrações, perdas e traumas também deixam vestígios, causando carência ou empobrecimento de recursos emocionais, que se expressam por vias psíquicas e somáticas

 A organização pulsional marca a transcendência do humano da condição biológica para a condição de sujeito. Atravessada pelo desejo, ela é modulada, desde o nascimento, e talvez mesmo antes disso, pelas marcas das relações da criança com seu semelhante. São também essas relações que tecem em torno do corpo a trama entre as pulsões de vida e de morte, forjando a diversidade de formas e organizações que constituem a economia psicossomática, em suas infinidades de expressões normais e patológicas de dor e de prazer. Fluidez e rigidez, precariedade e consistência, organização e desorganização caracterizam a plasticidade da trama pulsional que pauta a clínica contemporânea, muitas vezes marcada por dinâmicas mais primitivas, aquém da linguagem e da representação.

Dinâmicas arcaicas, atuações e somatizações revelam pacientes refratários aos enquadres psicanalíticos e psicoterapêuticos clássicos. A clínica médica e a de outras especialidades da saúde também são desafiadas por essas dinâmicas na anamnese, no diagnóstico e nas mais diversas modalidades terapêuticas.

Tanto nas instituições de saúde como na clínica particular, profissionais são confrontados com dificuldades semelhantes, que se manifestam por meio de quadros que vão desde doenças orgânicas até distúrbios comportamentais, passando por manifestações borderlines, adicções, transtornos de caráter e alimentares e inúmeros outros. Muitos desses sintomas, doenças e pacientes revelam-se inacessíveis aos recursos em pregados para compreendê-los e tratá-los.

Em alguns casos, há dificuldades para se chegar a um diagnóstico, apesar de investigações exaustivas e consultas a vários especialistas, comprometendo a definição das estratégias terapêuticas. Em certos pacientes, a história da doença ou os prognósticos de um tratamento subitamente apresentam mudanças bruscas e surpreendentes. Dificuldades como essas, evoluções inesperadas e quadros clínicos inespecíficos são frequentemente caracterizados como “psicossomáticos”, “somatizações”, quadros “idiopáticos”, “funcionais”, “sem explicação médica”, entre outros.

Na clínica médica, a dificuldade em apreender e compreender a etiologia do adoecimento dos pacientes, apesar dos avançados recursos diagnósticos e terapêuticos, leva a atribuir o que lhes escapa a fatores ditos “emocionais”, “psicológicos” ou “psicogênicos”.

No campo da saúde mental, os profissionais, psicoterapeutas e psicanalistas em particular, são desafiados por formas bastante desorganizadas de expressão do sofrimento humano. Não apenas por manifestações corporais mais graves e distintas dos clássicos quadros histéricos, mas, também, por expressões onipotentes e indiferenciadas do narcisismo, manifestações exacerbadas do ego ideal e formações primitivas do superego, e muitas outras que evidenciam a carência ou a precariedade dos mecanismos do recalcamento, a impossibilidade do reconhecimento da castração e da alteridade, a ausência  de transicionalidade  que tornam o sujeito dependente e cativo do desejo do outro, impermeável à transferência e à interpretação.

Essas manifestações somáticas e psíquicas são frequentemente acompanhadas por expressões precárias de recursos psíquicos, fantasmáticos, oníricos e relacionais, denotando limitações dos recursos de ligação pulsional, dos afetos e representações, dinâmicas que favorecem descargas pelo comportamento e desorganizações somáticas, em casos extremos graves e mortíferas. Elas revelam uma complexidade que solicita uma compreensão mais profunda que a dos usos coloquiais e, algumas vezes, científicos do termo “psicossomática”, que reduzem essa concepção a sintomas e doenças orgânicas que seriam determinadas ou agravadas por fatores psíquicos.

 ORGANIZAÇÃO E DESORGANIZAÇÃO

Tanto doenças como manifestações típicas do desenvolvimento revelam a existência de uma continuidade funcional do que denominamos economia psicossomática. Algumas circunstâncias da vida humana são predominantemente marcadas por expressões e manifestações orgânicas (como fome, riso, choro, tremores, dores de cabeça, indigestão ou cardiopatias) e outras, por meio de funções mentais (como pensamentos, fantasias, sonhos e neuroses). Em ambas, articuladas em diferentes formas e proporções, estão implicados processos biológicos, fisiológicos, comportamentais e psíquicos constituindo uma mesma e única economia psicossomática do indivíduo.

Desde a concepção, durante a gestação, após nascimento e ao longo do desenvolvimento, observamos em cada pessoa movimentos e marcas de integração, organização e hierarquização de funções e vivências corporais, relacionais e psíquicas. Quando as pessoas enfrentam vivências perturbadoras de conflitos, frustrações, perdas (algumas vezes traumáticas), é possível constatar movimentos de sentido oposto, de desintegração, desorganização e precarização de funções e hierarquias estabelecidas. Esses movimentos se manifestam por meio da carência ou do empobrecimento de recursos representativos, relacionais e emocionais desenvolvidos ao longo da vida e revelam a continuidade evolutiva de diferentes dimensões da experiência de cada indivíduo, que se expressa, por vias somáticas, psíquicas e comportamentais, normais ou patológicas.

A natureza, a qualidade, a consistência e a fluidez dos recursos da economia psicossomática estruturam-se ao longo da história de cada um, a partir de fatores constitucionais, por meio das interações com o ambiente e com os outros. Na infância e no puerpério, principalmente, a mãe e todo aquele que cuida da criança tem uma função primordial na mediação e promoção desses processos.

O equilíbrio psicossomático é fruto da relação entre a qualidade, complexidade e consistência dos recursos desenvolvidos pelo indivíduo ao longo de sua vida e a natureza e intensidade de experiências pessoais, sociais e orgânicas que podem perturbá-lo.

Quando da existência de recursos mais organizados e complexos da economia psicossomática, de ordem representativa, afetiva e mental, a perturbação causada por uma vivência pode encontrar um equilíbrio por meio de manifestações psicopatológicas (neuroses, psicoses e outras). Quando os recursos mais organizados e evoluídos da economia psicossomática não foram suficientemente desenvolvidos ou quando se perdem em função da intensidade desorganizadora de uma experiência, um novo equilíbrio pode ser buscado, por meio de movimentos regressivos no sentido contra evolutivo do desenvolvimento, em patamares menos organizados e mais primitivos, por descargas pelo comportamento (transtornos alimentares, toxicomanias, descargas impulsivas e outros) ou no extremo, de desorganizações somáticas (dores, sintomas e doenças orgânicas, agudos ou crônicos). Apesar de capazes de colocar em risco a integridade funcional, anatômica e mesmo a vida da pessoa, é importante considerar que mesmo as formas mais desorganizadas e patológicas do fenômeno psicossomático são ainda tentativas de (re) equilibrar essa economia.

Assim, é possível compreender e tratar o adoecimento, em suas diferentes formas de expressão – psíquica, somática ou comportamental –, como um processo multifatorial que resulta de uma combinação de fatores internos, externos, pessoais, ambientais, familiares, de movimentos de desorganização interna da economia psicossomática, potencialidades somáticas constituídas por eventuais fragilidades ou predisposições somáticas a doenças específicas, rebaixa- mento do tônus vital, falhas transitórias ou crônicas nas relações com objetos privilegiados investidos pelo indivíduo. Esses processos podem ser potencializados por experiências de vida perturbadoras e traumáticas, e também por mudanças próprias a diferentes fases da vida como na infância (nascimento de irmãos, mudanças de escola), adolescência (mudanças corporais e questões de identidade), na passagem para a idade adulta (escolhas vocacionais, experiências profissionais, casamentos, separações e parentalidade), e o envelhecimento (mudanças corporais, aposentadoria, morte de pessoas próximas), perdas e outras situações que sobrecarregam os recursos da economia psicossomática.

 DESAFIOS TERAPÊUTICOS

A teoria e a clínica psicanalíticas há muito revelaram as articulações entre as funções corporais e mentais, bem como os desdobramentos patológicos das perturbações dessas articulações. Elas evidenciam diferentes aspectos das relações intrínsecas entre as bases anatômicas e fisiológicas do organismo e o funcionamento psíquico, destacando seu papel de mediador de experiências, processos e estímulos oriundos tanto do organismo como do mundo exterior.

No corpo originam-se e se articulam os instintos, as pulsões, a sexualidade, a libido, as funções psíquicas, assim como as marcas e consequências do encontro do sujeito com o outro humano e com o mundo, configurando, assim, as dimensões metapsicológicas do aparelho psíquico, do narcisismo, das relações de objeto e da economia psicossomática. É também a partir da cena corporal que são vividas as experiências de prazer e desprazer, fundando e delineando a possibilidade de subversão e transcendência do corpo anatômico para as vivências do corpo erógeno, passível, em certas circunstâncias, de desorganizar funções fisiológicas e orgânicas.

Apesar da riqueza dessas hipóteses referentes ao corpo, é curioso constatar que durante muito tempo prevaleceram na psicanálise as restrições inicialmente preconizadas por Freud para o tratamento de uma ampla gama de manifestações corporais.

Por um lado, pautada pela perspectiva do recalcamento e dos mecanismos psíquicos de defesa, a clínica freudiana desenvolveu recursos importantes para o trabalho de elaboração dos sentidos simbólicos e representativos dos sintomas e seus derivados de uma ampla gama de manifestações psicopatológicas, no campo das psiconeuroses (histeria, neurose obsessivas, fobias), psicoses e perversões. Porém, ao mesmo tempo, Freud evidenciou as dificuldades e, mesmo, a impossibilidade da utilização da técnica psicanalítica, tal como a preconizava, no tratamento das neuroses atuais (de angústia e traumática, neurastenia e hipocondria), bem como doenças orgânicas, nas quais a descarga pulsional se dá diretamente pelas vias corporais, com pouca ou nenhuma derivação ou elaboração mental da excitação, ou seja, dinâmicas “aquém do recalcamento”, distintas e mais primitivas que as dos mecanismos neuróticos.

Os quadros derivados da neurose atual, descritos por Freud e ainda mais frequentes na clínica contemporânea, são marcados pelo vazio, pelo desamparo, pela hiperadaptação à realidade, pela autodepreciarão, por comportamentos de risco e pela violência larvada ou explícita das anorexias, das adicções, das descargas impulsivas e da sintomatologia somática, entre outros. Eles são frequentemente refratários ao trabalho livre associativo e à atenção flutuante, dificilmente acessíveis ao trabalho de figuração, ao discurso e aos enquadres clássicos e regressivos de uma análise e de muitas psicoterapias. Nessas condições ficam também perturbadas, não apenas em processos analíticos, condições diagnósticas, condutas terapêuticas e a adesão aos tratamentos, clínicos, farmacológicos e de outras ordens. As contribuições do psicanalista Sándor Ferenczi foram fundamentais para a superação desses impasses terapêuticos. Reconhecendo o potencial teórico e clínico da psicanálise para compreender as relações entre o corpo e o psiquismo, mesmo em suas formas não representativas, ele preconizou mudanças na postura, na forma de observação e de escuta do analista, e também modificações no dispositivo clínico para lidar com traumatismos e dimensões mais primitivas, pré-verbais e corporais, do funcionamento dos pacientes com manifestações das neuroses atuais e doenças orgânicas e com dinâmicas a elas assemelhadas. Ao mesmo tempo, ele convidou os médicos a perceberem a importância das vivências psíquicas e da história de vida de seus pacientes, a serem somados aos recursos da medicina para melhor compreendê-los e tratá-los. Muitos dos pioneiros da psicossomática, como Groddeck, Franz Alexander, Ballint foram inspirados por essas concepções.

Graças a essa ampliação, e também ao interesse crescente da psicanálise pela compreensão do infantil, das primeiras vivências do bebê e suas relações com o ambiente, psicanalistas como D. Winnicott, P. Marty, L. Kreisler, Ch. Dejours, O. Kerneberg, J. McDougall, P. Fédida, A. Green, M. Aisenstein entre muitos outros, dedicaram-se à reflexão metapsicológica e ao desenvolvimento de recursos clínicos para o tratamento das manifestações primitivas e não representativas da linhagem das neuroses atuais, como transtornos alimentares, impulsivos, ansiosos, adicções e quadros borderlines.

A partir de novas hipóteses e manejos clínicos, progressivamente consolidou-se a compreensão da plasticidade pulsional que permite vislumbrar e entender a continuidade funcional e as oscilações entre formas mais desorganizadas de manifestações da economia psicossomática (somáticos e comporta- mentais) e os quadros clássicos da psicopatologia (nos quais predominam expressões mentais). Fruto de diferentes níveis e formas de integração entre vivências corporais e o tecido psíquico, esses movimentos podem ser acompanhados nos processos terapêuticos por meio de suas manifestações transferenciais e contratransferências.

Em processos psicanalíticos ou psicoterapêuticos, é possível observar, entre diferentes pacientes e, ao longo do tempo, em um mesmo paciente, alterações da consistência, da intensidade e dos afetos transferenciais, moduladas pelo ritmo, conteúdo e coloração afetiva da associação livre, dos sonhos e de fantasias, reflexos das oscilações da economia psicossomática. As mudanças de padrões associativos, discursivos, afetivos e transferenciais são sinalizadores preciosos para identificar movimentos de organização e de desorganização dessa economia, indicando tanto avanços no trabalho terapêutico como alertando para riscos de descargas pelo comportamento e sintomatologia somática.

As dinâmicas mais primitivas, aquém do recalcamento e da resistência neurótica manifestam-se pelo empobrecimento da trama transferencial e pelo retraimento libidinal, algumas vezes extremo, “aquém do narcisismo”, confrontando o terapeuta com descargas pulsionais diretas sem mediação representativa. Nessas condições o espaço terapêutico precisa se constituir como espaço de continência, depositário de experiências corporais, perceptivas, sensoriais e motoras mais primitivas, para permitir que, por meio da relação terapêutica, elas possam adquirir densidade representativa através de um trabalho ativo de figuração, passível de elaboração e de transformação.

Por sua vez, a contratransferência é um importante recurso para a apreensão de vivências primitivas não representadas do paciente que, muitas vezes, mobilizam sensações corporais do terapeuta. Uma vez elaboradas pelo terapeuta e compartilhadas na relação, elas podem passar a ser representa- das pelo paciente. Na trama transferencial, mediadas pela função materna do terapeuta e pelo holding, a elaboração dessas formas de comunicação mais primitivas podem propiciar a reorganização narcísica e objetal do paciente, promovendo os recursos de ligação entre as pulsões de vida e de morte, necessários para lidar com conflitos e vivências traumáticas, bem como para estancar e reorganizar os movimentos desorganizadores da economia psicossomática.

Apesar das diferenças de enquadre e de contexto, movimentos semelhantes podem ser observados em processos terapêuticos com outros profissionais de saúde. Nas for- mas mais graves e manifestas das desorganizações psicossomáticas, são naturalmente necessárias intervenções e terapêuticas específicas, médicas e de outras áreas. A ampliação da observação e da escuta do médico desses processos pode aumentar a eficácia de suas estratégias diagnósticas e terapêuticas. A complexidade de tais desorganizações convida a reconhecer, para além de técnicas específicas, a importância da relação terapêutica com o profissional como instrumento adicional para a reorganização e o fortalecimento dos recursos da economia psicossomática do paciente, com vistas a promover o equilíbrio dessa economia em patamares mais organizados, diminuindo o risco à integridade funcional do paciente.

De forma semelhante, o trabalho terapêutico adjuvante em uma perspectiva interdisciplinar, com outras especialidades (fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicopedagogia, e outras, adequadas ao quadro do paciente) e atividades mediadoras complementares (artísticas, esportivas, sociais) podem também contribuir para tais objetivos. No contexto institucional, a compreensão dos movimentos da economia psicossomática é favorecida pela integração entre os diferentes profissionais que acompanham o paciente e pela atenção às transferências paralelas estabelecidas com cada um deles. O reconhecimento da equipe terapêutica como caixa de ressonância das vivências do paciente permite a identificação, a elaboração e a possível transformação dos processos de desorganização psicossomática.

Todas essas experiências revelam que nos processos naturais da vida, do desenvolvimento, da saúde e da doença, a com- preensão da plasticidade pulsional manifesta nas oscilações e diferentes expressões da economia psicossomática permite a ampliação dos horizontes não apenas clínicos, mas também educacionais, sociais e ambientais do humano.

 

 RUBENS MARCELO VOLICH – é psicanalista, doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot, professor do curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. É autor, entre outros livros, de Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise (Casa do Psicólogo – Coleção Clínica Psicanalítica, 2000) e Co organizador e autor dos livros da série Psicossoma (Casa do Psicólogo).

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 5-13

Cristo Cura o Servo do Centurião

Temos aqui um relato da cura realizada por Cristo do criado de um centurião. Ele era paralítico. Isso aconteceu em Cafarnaum, onde Cristo morava agora (cap. 4.13). Cristo andava fazendo o bem, e veio para casa fazer o bem também; todo lugar aonde Ele ia era bom para Ele.

As pessoas com quem Cristo tinha agora que tratar eram:

1.Um centurião. Este era um suplicante, um gentio, um romano, um oficial do exército; provavelmente comandante-em-chefe daquela parte do exército romano que estava aquartelada em Cafarnaum, e mantinha soldados ali.

(1) Embora fosse um soldado (homens dessa profissão geralmente são pouco piedosos), ainda assim ele era um homem religioso; ele era eminentemente religioso. Note que Deus tem seus remanescentes em meio a todos os tipos de pessoas. Nem a profissão nem o lugar de um homem no mundo serão uma desculpa para a sua incredulidade e impiedade; ninguém dirá no grande dia: Eu teria sido consciencioso se não tivesse sido um soldado; pois existem soldados entre “os resgatados do Senhor”. E, às vezes, onde a graça conquista as pessoas mais improváveis, ela se mostra como uma graça mais do que conquistadora; esse soldado, que era bom, passou a ser muito melhor.

(2) Embora ele fosse um soldado romano, e o próprio fato de habitar entre os judeus fosse um símbolo da subserviência destes ao jugo romano, Cristo, que era o “Rei dos judeus”, o favoreceu; e desse modo nos ensinou a fazer o bem aos nossos inimigos, e a não procurarmos inimizades desnecessárias entre as nações.

(3) Embora ele fosse um gentio, mesmo assim Cristo o auxiliou. É verdade, Ele não entrou em nenhuma das cidades dos gentios (era a terra de Canaã, a terra do Emanuel, Isaías 8.8), mas ainda assim Ele aceitava que os gentios se dirigissem a Ele; agora a profecia do velho e bom Simeão começava a se cumprir: que ele deveria ser uma “luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel”. Mateus, ao mencionar esta cura juntamente com a do leproso que era judeu, sugeriu isso: Cristo tocou e curou os leprosos judeus, pois ele pregou pessoalmente para eles; mas Ele curou o gentio paralítico à distância, pois a eles Ele não foi em pessoa, mas enviou a sua palavra e o curou. Apesar disso, Ele foi mais exaltado entre os gentios.

2.O criado do centurião. Era o paciente. Nisto também parece não haver preferência de Deus pelas pessoas; pois como em Jesus Cristo “não há circuncisão nem incircuncisão”, assim também não há “servo ou livre”. Ele está pronto para curar tanto o mais pobre criado, como o senhor mais rico; pois Ele “tomou a forma de servo” para mostrar sua consideração para com os mais pobres.

Na história da cura desse criado, nós podemos observar uma relação ou alternância de graças, muito digna de nota entre Cristo e o centurião. Veja aqui:

I – A graça do centurião atuando em relação a Cristo. Pode qualquer coisa boa advir de um soldado romano? Qualquer coisa tolerável, e, mais ainda, qualquer coisa louvável? Venha ver, e você encontrará uma abundância de bondade surgindo desse centurião, que era eminente e exemplar. Observe:

1.Sua retórica cortês para com Jesus Cristo, que se expressa em:

(1) Uma humilde saudação ao nosso grande Mestre, corno alguém capaz e disposto a socorrer e a aliviar solicitantes pobres. Ele veio a Cristo suplicando, não como Naamã, o sírio (também um centurião) veio a Eliseu, exigindo a cura, fazendo imposições e apoiando-se em questões de honra; mas humildemente como um pobre solicitante. Por isso parece que ele viu em Cristo mais do que Ele aparentava à primeira vista; viu aquilo que os comandados respeitam, embora para aqueles que não olhassem mais atentamente, seu semblante não teria uma aparência melhor do que a de qualquer outro homem. Os oficiais do exército, estando no controle da cidade, sem dúvida eram muito importantes. Mesmo assim, este centurião coloca de lado a mentalidade típica do seu alto posto quando se dirige a Cristo, e chega a Ele implorando. Note que os maiores homens devem se tornar como pedintes, quando precisam tratar com Cristo. Este reconhece a soberania de Cristo, ao chamá-lo de Senhor, e ao entregar o caso a Ele, à sua vontade e sabedoria, através de uma modesta apresentação, sem qual­ quer apelo formal e expresso. Ele sabia que precisava tratar com um médico sábio e benevolente, a quem a exposição da doença era equivalente ao pedido mais fervoroso e sincero. Uma humilde confissão de nossas necessidades e enfermidades espirituais e físicas não deve ficar sem uma resposta tranquilizadora. Derrame a sua queixa, e a misericórdia será derramada.

(2) Uma atenção caridosa para como seu pobre criado. Nós lemos sobre muitos que vieram a Cristo pedindo por seus filhos, mas este é o único caso de alguém que veio a Ele por causa de um criado: “Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”. Note que é dever dos senhores preocuparem-se com os seus criados quando estes estão aflitos. A paralisia incapacitou o criado para o seu trabalho, e o tornou tão problemático e tedioso quanto qualquer doença grave é capaz de fazer. Ainda assim este centurião não o mandou embora quando estava doente (como aquele amalequita fez com seu criado, 1 Samuel 30.13), não o enviou para seus amigos, nem o negligenciou como a alguém inútil, mas procurou o melhor socorro que podia para ele; o criado não poderia ter feito mais pelo seu senhor do que o seu senhor fez aqui por ele. Os criados do centurião eram muito obedientes a ele (v. 9), e aqui vemos o porquê disso; o centurião era muito gentil com eles, e isso os tornou carinhosamente obedientes a ele. Assim como não devemos desprezar os motivos de nossos criados, quando estes contendem conosco (Jó 31.13,15), da mesma forma não podemos desprezar a sua situação, quando Deus contende com eles; porque somos feitos nos mesmos moldes, pela mesma mão, e estamos nos mesmos níveis que eles diante de Deus, e não devemos colocá-los junto com os cães do nosso rebanho. O centurião não apelou por seu criado a bruxas ou feiticeiros, mas a Cristo. A paralisia é uma doença na qual a habilidade do médico geralmente falha; esta era, portanto, uma grande evidência de sua fé no poder de Cristo, vir a Ele em busca de uma cura, cuja realização estava acima dos meios naturais. Observe quão piedosamente ele descreve o caso de seu criado como sendo muito triste; “o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”, uma enfermidade que geralmente torna o paciente insensível à dor, mas essa pessoa estava dolorosamente atormentada; sendo jovem, havia disposição para lutar contra o derrame, o que o tornava doloroso (não era uma paralisia simples, mas virótica). Nós deveríamos nos interessar dessa forma pelas almas de nossos filhos e criados que estejam espiritualmente doentes de paralisia – uma paralisia total, uma paralisia cerebral; insensíveis aos males espirituais, inertes para aquilo que é espiritualmente bom – fornecendo-lhes os recursos para que obtenham a cura e a saúde.

2.Observe a grande humildade e auto humilhação do centurião. Depois que Cristo havia anunciado sua disposição de ir e curar seu criado (v. 7), o centurião se expressou com o mais humilde dos pensamentos. Note que almas humildes se tornam mais humildes pela generosa condescendência de Cristo para com elas. Observe o modo de expressar a sua humildade: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado” (v. 8), o que expressa o quão inferior ele se achava e o quão superior considerava nosso Senhor Jesus. Ele não diz: “Meu criado não é digno que entres em seu quarto, por que este fica no sótão”, mas: “Não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”. O centurião era um grande homem, ainda assim ele reconheceu sua indignidade diante de Deus. Note que a humildade fica bem em pessoas de caráter. Cristo, tendo se esvaziado de sua glória, personificava não mais do que uma pobre figura no mundo; ainda assim o centurião, olhando-o como a um profeta, sim, “muito mais do que profeta”, conferiu a Ele esse respeito. Note que deveríamos ter consideração e veneração pelo que vemos da parte de Deus, mesmo naqueles que, na aparência externa, nos são de todas as formas inferiores. O centurião veio a Cristo com uma súplica e então se expressou humildemente. Observe que em todas as nossas abordagens a Cristo e a Deus, através de Cristo, cabe a nós nos humilharmos e sermos discretos ao percebermos a nossa própria insignificância – como criaturas más e pecadores vis – para fazer qualquer coisa por Deus, para receber qualquer bem dele, ou para ter qualquer relacionamento com Ele.

2.Observe a grande fé do centurião. Quanto mais humildade mais fé; quanto mais inseguros formos, mais forte será nossa confiança em Jesus Cristo. Ele teve uma convicção de fé, não apenas de que Cristo podia curar seu criado, mas:

  • Que Ele podia curá-lo à distância. Não seria preciso qualquer contato físico, como em cirurgias naturais, nem qualquer curativo para a parte afetada; mas a cura, ele acreditava, poderia ser realizada sem reunir médico e paciente. Nós lemos posteriormente sobre aqueles que levaram um paralítico a Cristo, com muita dificuldade, e o colocaram diante dele; e Cristo elogiou a sua fé, classificando-a como uma fé prática. Esse centurião não levou o seu paralítico e Cristo elogiou a sua fé como uma fé caracterizada pela confiança: a fé verdadeira é aceita por Cristo, embora varie na aparência. Cristo interpreta da melhor maneira os diferentes métodos de fé que as pessoas adotam, e nos ensinou a fazer assim também. Esse centurião cria, e é indubitavelmente verdadeiro que o poder de Cristo não conhece limites, e, consequentemente, proximidade ou distância são iguais para Ele. A distância de um lugar não pode obstruir nem o conhecimento nem o trabalho daquele que enche todos os lugares. “Sou eu apenas Deus de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe? (Jeremias 23.23).
  • Que Ele podia curá-lo com ”uma palavra”, não lhe enviando um remédio, muito menos um feitiço; “Dize somente uma palavra” e eu não tenho dúvida de que “o meu criado sarará”. Neste ponto, o centurião reconhece que Jesus tem um poder divino, uma autoridade para controlar todas as criaturas e forças da natureza, que lhe permite fazer tudo aquilo que lhe agrade no reino da natureza; da mesma forma como Ele inicialmente levantou esse reino através de uma palavra onipotente, quando disse: “Haja luz”. Entre os homens, dizer e fazer são duas coisas; mas não é assim com Cristo, que é “o braço do Senhor”, porque Ele é a “palavra eterna”. Sua palavra, “aquentai-vos e fartai-vos” (Tiago 2.16), e curai-vos, nos aquece, alimenta e cura.

O centurião ilustra aqui a sua fé no poder de Cristo pela autoridade que ele tinha sobre os seus soldados. Como centurião, como um mestre sobre seus criados, ele diz para um: ”Vai, e ele vai” etc. (v. 9). Eles estavam todos sob suas ordens e comando, de modo que através deles ele podia executar coisas à distância; sua palavra era lei para eles –; soldados bem disciplinados sabem que as ordens de seus superiores não devem ser discutidas, mas obedecidas. Portanto, Cristo podia falar, e estaria feito; tal o poder que Ele tinha sobre todas as doenças tisicas. O centurião tinha essa autoridade sobre seus soldados, embora ele próprio fosse um homem sob autoridade; não um comandante-em-chefe, mas um oficial subalterno. Quanto mais de tal poder tinha Cristo, que é o supremo e soberano Senhor de tudo. Os criados do centurião eram muito subservientes, iam e viam, ao menor indicio da vontade de seu senhor. Isto posto:

[1] Todos nós deveríamos ser como esses criados diante de Deus. Nós devemos ir e “ir ao seu comando, de acordo com as orientações da sua Palavra e as disposições da sua providência; correr para onde Ele nos mandar, retornar quando Ele nos ordenar, e fazer o que Ele determinar: “Que diz meu Senhor ao seu servo?” Quando a vontade do Senhor contradiz a nossa, a dele deve prevalecer, e a nossa ser colocada de lado.

[2] Tais enfermidades físicas dos criados devem ser curadas por Cristo. Elas nos acometem quando Ele as permite; elas nos deixam quando Ele as cura; elas produzem em nós aqueles efeitos que Ele ordena, em nossos corpos, em nossas almas. E uma questão de bem-estar para todos os que pertencem a Cristo, para cujo bem a sua força é manifestada e empregada. É necessário que cada doença tenha a autorização do Senhor, execute a sua ordem, esteja sob o seu controle, e seja criada para servir às intenções de sua graça. Não devemos temer as enfermidades, nem o que elas podem fazer; devemos entregá-las nas mãos daquele amigo tão bom, o nosso Salvador.

II – Aqui está a graça de Cristo apresentada a este centurião; pois ao generoso, Ele se mostrará generoso.

1.O centurião concordou com o discurso do Senhor desde a sua primeira palavra. Ele não havia feito mais do que lhe contar o caso de seu criado e ia implorar uma cura, quando Cristo o impediu, com a sua boa e confortadora palavra: “Eu irei e lhe darei saúde” (v. 7). Jesus não disse: “Eu irei vê-lo” – o que o teria evidenciado como um bondoso Salvador; mas: “Eu irei e lhe darei saúde” – o que o revela como um poderoso e onipotente Salvador. Era uma palavra poderosa, compatível com o bem que Ele podia fazer; pois Ele tem a cura “debaixo de suas asas”; a sua vinda é a cura. Aqueles que realizavam milagres através de um poder recebido, não falavam assim afirmativamente, como Cristo, que os realizava através do seu próprio poder, como alguém que tinha autoridade. Quando um ministro visita um amigo doente, ele não pode dizer mais do que: Eu irei e orarei por ele; mas Cristo diz: “Eu irei e lhe darei saúde”. É bom que Cristo possa fazer mais por nós do que os nossos ministros. O centurião desejou que Jesus curasse seu criado; o Senhor diz: “Eu irei e lhe darei saúde”; expressando, desse modo, uma ajuda maior do que o centurião pediu ou pensou. Note que Cristo frequentemente supera as expectativas dos pobres que suplicam. Veja um exemplo da humildade de Cristo, que fez uma visita a um soldado pobre. Ele não desceu para ver o filho doente de um nobre que insistia para que Ele descesse (João 4.47-49), mas Ele se oferece para descer para ver um criado doente; desse modo, Ele res peita a baixa condição social (ou a condição humilde) de seu povo, e “dá muito mais honra ao que tem falta dela”. A humildade de Cristo, por estar disposto a vir, serviu corno um exemplo ao centurião, e originou a sua humildade de se confessar indigno de sua vinda. Note que a generosa condescendência de Cristo para conosco deveria nos tornar mais humildes, e nos levar a nos humilharmos diante dele.

  1. Jesus elogia a fé do centurião e aproveita essa oportunidade para falar alguma coisa agradável sobre os pobres gentios (vv. 10-12). Veja que grandes coisas uma fé vigorosa, porém abnegada, pode obter de Jesus Cristo, mesmo quando se tratar de um interesse de caráter geral e popular.

(1) Quanto ao próprio centurião, ele não só o aprovou e aceitou (esse respeito todos os verdadeiros crentes têm), mas admirou e louvou ao Senhor: ele demonstrou aquele respeito que os grandes crentes têm, como Jó. Não há ninguém semelhante ao Senhor, nos céus ou na terra.

  • Cristo o elogiou, não por sua grandeza, mas por suas virtudes. Quando Jesus ouviu isso, maravilhou-se; não como se isso fosse novo e surpreendente para Ele – Ele conhecia a fé do centurião, porque Ele a criou –  mas ela era grande e extraordinária, rara e atípica, e Cristo falou  dela como algo maravilhoso, para nos ensinar o que devemos admirar; não pompa terrena e ornamentações, mas a beleza da santidade e os ornamentos que são “preciosos diante de Deus”. Note que as maravilhas da graça deveriam nos afetar mais que as maravilhas da natureza ou da providência, e as realizações espirituais, mais que qualquer empreendimento neste mundo. Deveríamos dizer que os “ricos na fé” são os que receberam toda a sua glória; aqueles que são ricos em ouro e prata nem sempre têm a maior riqueza, que é a presença do Senhor (Genesis 31.1). Mas o que quer que exista de admirável na fé de alguém deve contribuir para a glória de Cristo, que será em breve admirado na vida de todos aqueles que creem, por ter feito coisas maravilhosas neles e para eles.
  • Jesus “maravilhou-se ” do que ouviu e elogiou o centurião diante daqueles “que o seguiam”. Todos os crentes serão, no outro mundo (alguns crentes são neste mundo), confessados e reconhecidos por Cristo diante dos homens, em suas célebres aparições para eles e com eles. “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé”. Isto indica, em primeiro lugar, respeito ao centurião, que, embora não sendo um filho da descendência de Abraão, era um herdeiro da fé de Abraão, e Cristo o considerou assim. Note que o que Cristo procura é a fé, e onde quer que ela esteja, Ele a encontra, mesmo que ela seja como “um grão de mostarda”. Ele não havia encontrado uma fé tão grande, considerados todos os fatos, e guardadas as proporções; pois foi dito que a pobre viúva “lançou mais do que todos” (Lucas 21.3). Embora o centurião fosse um gentio, ainda assim ele foi elogiado. Note que devemos estar tão afastados da inveja, que devemos nos adiantar a prestar os devidos elogios até mesmo àqueles que não estão dentro de nosso grupo denominacional, ou em nossos limites sociais. Em segundo lugar, isso significa vergonha para Israel, a quem pertencia “a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” e todos os auxílios e encorajamentos da fé. Observe que quando o Filho do Homem vier, Ele encontrará pouca fé, e, então, encontrará poucos frutos. Note que as realizações de alguns, que têm tido somente pouca ajuda para suas almas, agravarão o pecado e a ruína de muitos que recebera m uma grande quantidade de recursos através da graça e não fizera m bom proveito delas. Cristo disse isto “aos que o seguiam”, para, de alguma maneira, poder incitá-los à sagrada emulação, como diz Paulo (Romanos 11.14). Eles eram sementes de Abraão, tão zelosos dessa glória, que não toleravam ser sobrepujados por um gentio, especialmente naquela graça pela qual Abraão era célebre.

(2) Quanto aos outros. Cristo aproveita a ocasião, portanto, para fazer uma comparação entre judeus e gentios, e dizer a eles duas coisas que só poderiam ser muito surpreendentes para aqueles a quem havia sido ensinado que “a salvação vem dos judeus”.

[1] Que um grande número de gentios seria salvo (v. 11). A fé do centurião nada era senão mais um exemplo da conversão dos gentios, e um prólogo para a sua aceitação na igreja. Este foi um ponto em que o nosso Senhor Jesus tocou com frequência; Ele fala disso com segurança. “Em verdade vos digo”: Eu conheço todos os homens. Ele não podia dizer qualquer coisa mais agradável a si mesmo, ou mais desagradável aos judeus – uma insinuação desse tipo enfureceu os nazarenos contra Ele (Lucas 4.27). Cristo nos dá aqui uma ideia, em primeiro lugar das pessoas que serão salvas: “muitos virão do Oriente e do Ocidente”. Ele tinha dito (cap. 7.14): “Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”. Poucos ao mesmo tempo, e em um único lugar; ainda assim, quando se juntarem, eles serão muito numerosos. Agora, nós vemos apenas um ou outro, traz idos à graça; mas nós veremos brevemente o Capitão da nossa salvação trazendo “muitos filhos à glória” (Hebreus 2.10). “Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos” (Judas 14), “e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar” (Apocalipse 7.9); e “as nações andarão à sua luz” (Apocalipse 21.24). Eles “virão do Oriente e do Ocidente”; lugares distantes uns dos outros; e ainda assim eles se encontrarão à destra de Cristo, o centro de sua unidade. Note que Deus tem seus remanescentes em todos os lugares: “Desde o nascente do sol até ao poente” (Malaquias 1.11). Os escolhidos serão ajuntados “desde os quatro ventos” (cap. 24.31). Eles estão se­ meados na terra, alguns espalhados em cada extremidade do campo. O mundo gentílico se estende do Oriente ao Ocidente, e eles são especialmente citados aqui. Embora agora eles fossem “estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança”, e o tenham sido por muito tempo, ainda assim quem sabe quantos Deus tinha ocultado entre eles até então? Como no tempo de Elias em Israel (1 Reis 19.14), logo depois do qual eles se arrebanharam na igreja em grandes multidões (Isaias 60.3,4). Observe que quando formos para o paraíso, assim como sentiremos ali a falta de muitos que pensávamos que tivessem ido para lá, também encontraremos um grande número que não esperávamos encontrar ali. Em segundo lugar, Cristo nos dá uma ideia da salvação em si. Os santos irão juntos, irão juntos a Cristo (2 Tessalonicenses 2.1). 1. Eles serão admitidos no reino da graça na terra, no pacto da graça feito com Abraão, Isaque e Jacó; eles serão “benditos com o crente Abraão”, cuja bênção chega aos gentios (Gálatas 3.14). Isso torna Zaqueu um filho de Abraão (Lucas 19.9).

2.Eles serão admitidos “no Reino dos céus”. Eles virão alegremente, “voando como pombas, às suas janelas”; eles se sentarão para descansar de suas labutas, como se tivessem terminado seu trabalho diário. Sentar-se indica algo que per dura, uma continuidade: enquanto estamos de pé, estamos indo; onde nos sentamos, pretendemos ficar; o céu é um descanso permanente, é uma cidade perpétua; eles se sentarão, como sobre um trono (Apocalipse 3.21); como a uma mesa; que aqui é uma metáfora. Eles deverão se sentar para se banquetear, o que denota tanto a plenitude de comunicação, como a liberdade e a intimidade da comunhão (Lucas 22.30). Eles se sentarão com Abraão. Todos aqueles que neste mundo estiveram sempre tão distantes uns dos outros, no tempo, na localização, ou na aparência externa, se encontrarão no céu; antigos e modernos, judeus e gentios, ricos e pobres. O homem rico no inferno vê Abraão, mas Lázaro está sentado com ele, reclinado em seu peito. Note que a sociedade sagrada é uma parte da felicidade do céu; e aqueles a quem já são chegados os fins dos séculos, e que têm menos destaque, compartilharão uma gloriosa comunhão com os renomados patriarcas.

[2] Que um grande número de judeus perecerá (v. 12). Observe:

Em primeiro lugar, um veredicto singular foi transmitido: “Os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores”. Os judeus que persistirem na incredulidade, ainda que por nascimento sejam “filhos do Reino”, ainda assim serão cortados e impedidos de ser membros da igreja visível; “o Reino de Deus”, do qual eles se vangloriaram de ser filhos, lhes será tirado, e eles não serão um povo, não obtendo perdão (Romanos 11.20; 9.31). No grande dia, terem sido filhos do Reino não beneficiará os homens, seja como judeus ou como cristãos; porque os homens serão então julgados, não pelo que eram chamados, mas pelo que eles eram. Se filhos de fato, então herdeiros; mas muitos são filhos que só oferecem um louvor de lábios, outros apenas fazem parte de uma família cristã, mas não servem de fato ao Senhor, e assim ficarão sem herança. Ser nascido de pais que professam a fé nos traz o título de “filhos do Reino”; mas se nos acomodarmos nisso, e não tivermos nada mais para mostrar ao céu além disso, seremos “lançados nas trevas exteriores”.

Em segundo lugar, é descrito um castigo incomum para os praticantes da iniquidade. Eles “serão lançados nas trevas exteriores”, nas trevas daqueles que estão excluídos, dos gentios que estão fora da igreja; naquelas em que os judeus foram lançados, e ainda pior; seus olhos foram cegados, e endurecidos, e aterrorizados, como mostra o apóstolo (Romanos 11.8-10). Um povo tão afastado de Deus, e que abre mão de julgamentos espirituais, já está em trevas absolutas. Mas considerando detalhadamente a condição dos pecadores amaldiçoados no inferno, podemos perceber que este é um prefácio lúgubre. Eles serão lançados fora da presença de Deus, e de todo consolo verdadeiro, e atirados nas trevas. No inferno existe fogo, mas nenhuma luz; é escuridão absoluta; escuridão extrema; o mais alto grau de escuridão, sem qualquer resquício, mescla ou esperança de luz; nem o menor vislumbre ou reflexo dela; é uma escuridão que resulta de sua exclusão do céu, o reino da luz; aqueles que estão no lado de fora, estão nas regiões das trevas; todavia isso ainda não é o pior, “ali haverá pranto e ranger de dentes”.

1.No inferno haverá grande aflição, dilúvios de lágrimas derramadas em vão; tormento do espírito consumindo eternamente os órgãos vitais, no sentido de que a ira de Deus seja o tormento dos amaldiçoados.

2.Grande indignação: pecadores amaldiçoados rangerão os seus dentes por ódio e tormento, “cheios do furor do Senhor”; vendo com inveja a felicidade dos outros, e pensando com horror e pesar na antiga possibilidade de serem felizes, que agora é passada.

1.Ele cura seu criado. Ele não apenas elogia seu pedido a ele, mas lhe assegura aquilo que ele pede, o que significa uma resposta concreta (v. 13). Observe:

  • O que Cristo disse ao centurião. Ele disse aquilo que tornou a cura um benefício tão importante para ele como era para o seu criado, e muito maior: “Como creste, te seja feito”. O criado recebeu a cura da sua doença, mas o centurião teve a confirmação e a aprovação da sua fé. Note que Cristo frequentemente dá respostas encorajadoras para aqueles que oram, à medida que estão intercedendo por outros. Isto é bondade para conosco, sermos ouvidos em favor de outros. “O Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos” (Jó 42.10). Cristo outorgou uma grande honra a esse centurião quando lhe deu um cheque em branco: “Como creste, te seja feito”. O que mais poderia ele querer? Não obstante, o que foi dito a ele é dito a todos nós: Creia e receberá; “crê somente”. Veja aqui o poder de Cristo e o poder da fé. Como Cristo pode fazer o que quiser, um crente diligente pode obter o que desejar de Cristo; o óleo da graça se multiplica, e não se esgota até que tenha enchido t odos os vasos que forem trazidos pela fé.
  • Qual foi o efeito dessa declaração: a oração da fé foi uma oração bem-sucedida – isso sempre foi assim – e sempre será. Parece, pela rapidez da cura, que foi milagrosa – isto também é reforçado pela declaração de Cristo, que o milagre era seu: Ele “falou, e tu do se fez”. E isso foi uma prova de sua onipotência, de que Ele tinha e tem um braço poderoso. Um médico experiente comentou que as doenças que Cristo curou eram, sobretudo, as mais difíceis de serem curadas por quaisquer meios naturais, particularmente a paralisia.

GESTÃO E CARREIRA

Diversidade racial derrapa

DIVERSIDADE RACIAL DERRAPA

Os líderes negros se aposentam e são substituídos por brancos.

 Embora a primeira década deste século tenha registrado avanços na diversidade racial no meio empresarial, um levantamento sobre lideranças da revista americana Fortune soa o alerta: atualmente há apenas quatro negros ocupando cargos de CEO no universo das 500 maiores empresas americanas, e o número em 2018 cairá para três, com a aposentadoria de Ken Chenault, atual CEO da American Express. Explica-se. Quando Chenault assumiu seu posto, em 2001, havia apenas três CEOs negros na lista da Fortune, número que atingiu o ápice em 2007, com sete. Os líderes negros se aposentaram e estão sendo substituídos por brancos. Ao mesmo tempo, não houve ascensão de novos altos executivos negros. Para o sociólogo Richard L. Zweigenhaft, que assessorou os autores do estudo, o retrocesso pode ser resumido na frase “últimos a entrar, primeiros a sair” – fórmula também aplicada às mulheres.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Psicossomática psicanalítica

 

OUTRAS FORMAS DE ESCUTAR O SOFRIMENTO.

Muitas vezes, pacientes com manifestações somáticas procuram a psicoterapia encaminhados por médicos ou por insistência de parentes e outras pessoas de seu convívio, em busca de ajuda para se livrar dos sintomas do adoecimento físico, mas se mostram distantes de suas próprias angústias. Cabe ao analista encontrar maneiras de lidar com dor psíquica, nem sempre óbvia.

 A psicanálise é instigada constantemente a se reinventar. Há mais de um século, quando criou esse método – para tratar inicialmente pacientes histéricas –, Sigmund Freud apresentou a escuta como principal instrumento de trabalho. Ele pedia para que seus pacientes se deitassem no divã, de forma confortável, e falassem “aquilo que lhes viesse à cabeça”. Essa técnica, conhecida como associação livre, facilitaria a emergência para a consciência de conteúdos recalcados.

Quando falamos em recalque, longe de seu significado popularizado, que se aproxima da inveja, nos referimos a uma defesa bastante elaborada, própria à neurose. Resumidamente, seu mecanismo se baseia em retirar da esfera consciente (e manter inconscientes) conteúdos de difícil elaboração, sentidos como intoleráveis ou incompatíveis com os próprios valores, mas que emergem, como afirmam os psicanalistas franceses Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, “sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos etc.”.

A psicossomática psicanalítica considera que apresentamos outras formas de organização psíquica que diferem da neurose e podem ser incluídas no campo das desorganizações psicossomáticas. Caracterizadas pela prevalência de sintomas que incidem diretamente sobre o corpo, costumam desencadear afecções somáticas crônicas e até mesmo progressivas, o que torna o manejo clínico com esses pacientes um desafio a mais para o método analítico.

Destacam-se aqui particularidades do campo transferencial, refletindo impasses na relação terapeuta-paciente, específicos ao tratamento de pessoas que apresentam processos de desorganização psicossomática. Inúmeras se apresentam ao terapeuta: Como contribuir para que este paciente possa construir e dar sentido às palavras? Como se tornar um “outro” diante de um paciente que preserva o investimento maciço em si próprio? Como evitar que o acompanha- mento psicoterápico caia no vazio refletido pela vida psíquica ausente de símbolos, com grandes inconsistências nas relações com o mundo externo?

Com frequência, esses pacientes chegam aos consultórios encaminhados por médicos e muitas vezes por insistência de familiares e outras pessoas de seu convívio. Apresentam alguma manifestação somática para a qual buscam auxílio para tratar seus sintomas. Porém, se revelam distantes de suas angústias, diferentes dos chamados “neuróticos clássicos” que alcançaram a capacidade de simbolização e conseguem, das mais variadas maneiras, metabolizar as angústias. Pacientes que manifestam diretamente no corpo suas questões psíquicas não parecem entrar em contato com conflitos, tampouco com processos de pensa- mento ou fantasias. O paciente parece estar movido por seus instintos mais primitivos e necessita de cuidados que acolham seus excessos.

Segundo o psicanalista inglês Donald W. Winnicott, é possível supor que esses adultos foram crianças que não experimentaram um ambiente suficientemente bom, nem tiveram um cuidador devotado, capaz de integrar os sentimentos infantis de amor e de raiva, algo fundamental para o desenvolvimento psicossomático saudável. Ao contrário: podemos supor a presença de um adulto preponderantemente intrusivo ou ausente (certamente um reflexo de carências resultantes da história de vida do próprio cuidador), incapaz de se adaptar ao tempo ou ao ritmo das necessidades da criança pequena.

Nesse sentido, podemos pensar sobre os conceitos de verdadeiro self e falso self propostos por Winnicott. Se o primeiro resulta da aceitação dos gestos espontâneos da criança por parte de quem cuida, o segundo revela uma submissão da criança aos gestos e vontades do adulto, incapaz de entender e satisfazer as necessidades do filho. Quando isso ocorre pela ausência de reconhecimento, podemos supor que se constrói um falso self como defesa contra o excesso de intrusão, impedindo o surgimento de manifestações espontâneas.

Assim, na relação terapêutica, o analista se vê diante da necessidade de um manejo que, diferentemente da técnica clássica baseada na interpretação do material inconsciente, se orienta por acolher o paciente e acompanhar cuidadosamente suas expressões e comunicações aparentemente mais singelas e triviais. Nestes casos, a técnica clínica mais clássica poderia contribuir para a manutenção de cisões do ego. O que impede a integração dos afetos e facilita a consequente desorganização psicossomática. Isso nos leva a pensar que a interpretação seja uma forma intrusiva de agir, que poderia ser comparada aos atos invasivos do cuidador.

Ciente das defesas primitivas respeitando a maneira peculiar de relação objetal, com toda a violência que as identificações carregam e das quais o analista é alvo, este poderá então exercer a escuta por meio das sensações que impregnam seu próprio corpo. Segundo o filósofo e psicanalista Fédida, o corpo do analista se concretiza como palco onde se encenam os “fantasmas” do paciente. Como já observou R. Volich, as sensações ocorridas no corpo do terapeuta se põem como caminho importante para a compreensão da dinâmica do paciente e contribuem para futuras possibilidades de interpretação. Ao suportar tais desconfortos (a exemplo da mãe que realiza sua função materna), o terapeuta metaboliza os conteúdos agressivos, transformando-os em elementos mais “palatáveis” ao paciente. Há grande importância na autopercepção do analista em relação a sensações corpóreas, com vistas a uma transformação em sua atividade interna como ferramenta construtiva do processo de estruturação subjetiva e da mentalização do paciente.

Parece fundamental, portanto, colocar o corpo a serviço da relação analítica, pois, se o corpo “fala” por meio dos sinais patológicos, será por meio do corpo tanto do paciente quanto do terapeuta que o diálogo será inicialmente instaurado. A psicanalista Joyce Mc Dougall traz essa ideia em sua obra: como se fosse um aparelho psíquico com- partilhado, dois corpos tornam-se apenas um no trabalho conjunto do ato de pensar e buscar significados.

Cabe ao terapeuta, portanto, tornar-se intérprete desses conteúdos, no momento em que os identifica, os toma como seus e, delicadamente, permite a construção de um ambiente acolhedor no qual o paciente poderá se sentir, gradativamente, capaz de suportar seus próprios conteúdos agressivos, na medida em que abre mão de defesas primitivas como a cisão e a projeção para defesas mais elaboradas. “É por meio da delicadeza da escuta, de uma leitura em filigrana das palavras, na sutileza da busca dos detalhes, dos gestos, do olhar, do silêncio, que o analista vai reencontrar as marcas das imagens internas do paciente. Tudo se passa como se a palavra do analista devesse incentivar o paciente a desenvolver seu poder imaginativo de tal forma que o acontecimento que toca o corpo não fique privado de possibilidades metafóricas”, escreve a psicanalista Maria Helena Fernandes, em seu livro Corpo (Casa do Psicólogo, 2008).

É na qualidade do vínculo psicoterapeuta-paciente que encontramos as condições de um recomeço. A ideia é que, aos poucos, o paciente adquira a possibilidade de expressar em palavras a parte que foi vivida como má, iniciando um processo de integração entre os próprios pensamentos e sentimentos – antes insuportáveis e assustadores –, e que aos poucos adquirem sentidos e significados. É por meio da relação com o terapeuta que aparecem novas capacidades, expressões menos regredidas, mais espontâneas e criativas.

Após algum tempo de análise, por vezes, surgem comentários dos pacientes sobre como se sentem acolhidos no espaço analítico. Isso nos lembra Winnicott, quando enfatiza que “na prática psicanalítica, as mudanças que ocorrem nesta área podem ser profundas. Elas não dependem do trabalho interpretativo, mas sim da sobrevivência do analista” a este tipo de relação fragilizada. Não é raro observar a necessidade de o paciente sentir-se fisicamente próximo ao terapeuta. Sobre isso, Fernandes escreve: “Não é por acaso que esse tipo de paciente tem necessidade de constatar a presença viva do analista; é essa presença que lhe assegura que o analista não está “morto”.

 

LÉDICE LINO DE OLIVEIRA – é psicóloga, mestre em ciências da saúde, professora do curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip).

RAFAEL PICCOLO FELICIANO – é psicólogo clínico, autor do livro digital Escritos psicanalíticos da vida. (ePub, 2017).

ROSA JUNQUEIRA – é psicanalista. Os três são membros-fundadores do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 1-4

O Leproso Curado

O primeiro versículo refere-se ao final do sermão anterior: as pessoas que o ouviram “ficaram maravilhadas da sua doutrina”; e o efeito foi que quando Ele desceu do monte, “seguiu-o uma grande multidão”. Embora Ele fosse um Legislador tão rígido e um Admoestador tão preciso, eles diligentemente se aglomeravam em volta dele, e se recusavam a se dispersar e afastar-se dele. Note que aqueles a quem Cristo se manifestou não podem deixar de desejar estar mais familiarizados com Ele. Aqueles que sabem bastante sobre Cristo, deveriam desejar saber mais: “Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor”. É gratificante ver pessoas tão apegadas a Cristo, a ponto de pensar que elas nunca conseguem saber o suficiente a respeito dele; tão apegadas às melhores coisas, a ponto de se congregar depois de um bom sermão, e seguir o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Agora a profecia de Jacó relativa ao Messias foi cumprida: ”A ele se congregarão os povos”; até mesmo aqueles que se juntaram a Ele e não foram fiéis a Ele. Aqueles que o seguiam constantemente de perto eram poucos, comparados com as multidões que nada mais eram do que seguidores à distância.

Nesses versículos, nós temos um relato da purificação de um leproso por Cristo. Pode parecer, comparando com Marcos 1.40 e Lucas 5.12, que este parágrafo, embora colocado por Mateus depois do sermão da montanha (pois ele faz primeiro um relato da doutrina de Cristo, e depois de seus milagres), tenha acontecido algum tempo antes; mas isso não é, de modo algum, importante. Isto é apropriadamente relatado como o primeiro dos milagres de Cristo:

  1. Porque a lepra era considerada, entre os judeus, como um sinal do descontentamento de Deus; consequentemente, encontramos Miriam, Geazi e Uzias, castigados com lepra por algum pecado em particular; e, portanto, Cristo, para mostrar que veio para afastar a ira de Deus, ao remover o pecado, começou com a cura de um leproso.
  2. Porque essa doença, como se supunha vir diretamente da mão de Deus, supunha-se também ser removida diretamente por sua mão, e então não se tentava curá-la através dos médicos, mas ela era colocada sob a inspeção dos sacerdotes, ministros do Senhor, que aguardavam para ver o que Deus iria fazer. E o fato da sua existência estar ligada a uma roupa, ou às paredes de uma casa, era completamente sobrenatural – e deveria parecer ser uma enfermidade de uma natureza totalmente diferente do que agora chamamos lepra. O rei de Israel disse: “Sou eu Deus, para matar e para vivificar; para que este envie a mim, para eu restaurar a um homem da sua lepra?” (2 Reis 5.7). Cristo provou ser Deus, ao curar muitos leprosos, e ao autorizar seus discípulos, em seu nome, a também fazer o mesmo (cap. 10.8), e isso é colocado entre as provas de que Ele é o Messias (cap. 11.5). Ele mostrou ser, Ele mesmo, o Redentor dos pecados de seu povo; porquanto cada doença tanto é fruto do pecado, como também um símbolo deste, como uma doença da alma. Ainda assim, a lepra era considerada de uma forma especial; pois ela contaminava de tal forma, que obrigava a uma separação das coisas sagradas, como nenhuma outra fazia; e, portanto, nas leis relativas a ela (Levíticos 13 e 14), a lepra é tratada, não como uma doença, mas como uma impureza; o sacerdote declararia a pessoa pura ou impura, de acordo com os sintomas; mas a honra de purificar os leprosos foi reservada a Cristo, que o faria como o “Sumo Sacerdote da nossa confissão”. Ele veio para fazer aquilo “que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne” (Romanos 8.3). A lei revelava o pecado (pois através da lei se conhece o pecado) e declarava os pecadores impuros; isso os encerrava (Gálatas 3.23), como o sacerdote fazia com o leproso, mas não podia ir além disso; a lei não podia aperfeiçoar os que a eles se chegavam (Hebreus 10.1). Mas Cristo tira o pecado. Ele purifica e aperfeiçoa para sempre os que são santificados. Aqui nós temos:

I – Como o leproso se dirige a Cristo. Considerando que isso aconteceu, como entendemos que está estabelecido aqui, depois do sermão na montanha, nós podemos supor que o leproso, embora impedido de entrar nas cidades de Israel devido à sua doença, mesmo assim estava a uma distância em que podia ouvir o sermão, e por meio dele foi encorajado a fazer o seu apelo a Cristo; pois aquele que falava corno tendo autoridade, podia curá-lo de longe; e então ele veio e o adorou. Seu apelo foi: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo”. A purificação deste leproso pode ser considerada:

  1. Como uma misericórdia temporal; uma misericórdia para o corpo, livrando-o de uma doença, que, embora não ameaçasse a vida, a amargurava. E assim isso nos leva não apenas a recorrer a Cristo, que tem poder sobre doenças corporais para curá-las, mas também nos ensina de que maneira devemos recorrer a Ele: com a garantia de seu poder, crendo que Ele é capaz de curar doenças agora, com o fazia quando estava na terra, mas mediante a nossa submissão à sua vontade: “Senhor, se quiseres, podes”. No que se refere às misericórdias terrenas ou temporais, nós não podemos estar sempre tão certos da vontade de Deus em concedê-las, como estamos de seu poder, pois seu poder nelas é ilimitado e está relacionado à sua glória e ao nosso bem – embora não possamos estar certos de sua vontade, nós podemos estar seguros de sua sabedoria e misericórdia, às quais podemos animadamente recorrer. “Seja feita a tua vontade”. Isso torna a espera tranquila, e os acontecimentos confortáveis. Devemos sempre confiar e pedir ao Senhor tudo o que precisarmos, pois Ele sempre nos abençoará.
  2. Como uma misericórdia típica. O pecado é a lepra da alma; ela nos exclui da comunhão com Deus, para a qual, a fim de que possamos ser reconduzidos, é necessário que sejamos purificados dessa lepra – e essa deveria ser nossa grande preocupação. Agora observe que é nosso consolo quando recorremos a Cristo, como o grande Médico, que se Ele quiser, Ele pode nos purificar; e nós deveríamos, com humilde e confiante ousadia, ir a Ele e dizer-lhe isso. Ou seja:

(1) Nós devemos nos apoiar em seu poder; devemos estar certos de que Cristo pode nos purificar. Nenhuma culpa é tão grande que a sua justiça não seja capaz de reparar; nenhuma perversão é tão forte que a sua graça não possa subjugar. Deus não designaria um médico para seu hospital que não fosse, de todas as formas, qualificado para a incumbência.

(2) Nós devemos nos recomendar à sua misericórdia; não podemos exigir isso como uma dívida, mas devemos humildemente pedir como um favor: “Senhor, se quiseres”. “Lanço-me a teus pés; e se eu perecer, perecerei aos teus pés”.

II – A resposta de Cristo a essa abordagem, que foi muito gentil (v. 3).

  1. “Jesus, estendendo a mão, tocou-o”. A lepra era uma doença nociva e repugnante, ainda assim Cristo o tocou. Ele não desdenhou a atitude de conversar com publicanos e pecadores, para lhes fazer o bem. Havia uma contaminação cerimonial contraída pelo toque de ou em um leproso; mas ao conversar com os pecadores Cristo mostra que Ele não corria nenhum risco de ser contaminado por eles, pois o príncipe deste mundo nada tinha nele. Se nós tocarmos em piche, nos sujaremos; mas Cristo era “separado dos pecadores”, mesmo vivendo entre eles.
  2. Ele disse: “Quero, sê limpo”. Ele não disse, como Eliseu para Naamã: “Vai, e lava-te no Jordão”; não o colocou sob uma cansativa, desagradável e incômoda ação de um medicamento, mas disse a palavra e o curou.

(1) Eis aqui uma palavra de bondade: “Quero”; eu desejo tanto te ajudar, quanto desejas ser ajudado. Note que aqueles que pela fé recorrem a Cristo por graça e misericórdia, podem estar certos de que Ele está desejando, desejando espontaneamente, dar-lhes a misericórdia e a graça pelas quais vieram a Ele. Cristo é um Médico que não precisa ser solicitado, Ele está sempre por perto; não precisa ser pressionado com insistência, pois enquanto ainda estamos falando, Ele ouve; não precisa ser pago, Ele cura de bom grado, não por preço nem por recompensa. Ele deu todas as demonstrações possíveis, de que Ele tanto deseja como pode salvar os pecadores.

(2) Uma palavra de poder: “Sê limpo”. São exercidos, nessa palavra, um poder ligado à autoridade, e um poder ligado à força. Cristo cura através de uma ordem que nos dá: “Sê limpo” – “Queira ser, e use os meios; limpa-te de toda imundície”; mas junto com isso vai uma palavra de ordem que nos diz respeito, uma palavra que faz o milagre acontecer: “Quero, sê limpo”. Uma palavra tal como essa é necessária para a cura, e é capaz de produzir o efeito desejado; e a graça Onipotente, que a pronuncia, não deve faltar àqueles que realmente a desejam.

III – A alegre mudança realizada através disso: “E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra” (ver são RA). A natureza trabalha gradativamente, mas o Deus da natureza age imediatamente. Ele fala, e está feito; e desse modo Ele trabalha eficazmente. Ele dá a ordem, e ela permanece firme. Um dos primeiros milagres que Moisés realizou foi curar a si próprio de uma lepra (Êxodo 4.7), porque de acordo com a lei os sacerdotes ofereciam sacrifícios primeiro por seus próprios pecados; mas um dos primeiros milagres de Cristo foi curar outra pessoa de lepra, pois Ele não tinha nenhum pecado para expiar.

IV – As orientações posteriores dadas por Cristo ao homem curado. É adequado que aqueles que são curados por Cristo, a partir de então sejam governados por Ele.

  1. “Não o digas a alguém”. “Não digas a ninguém até haveres te mostrado ao sacerdote, e ele te declarar limpo; e assim terás uma prova legal de que antes eras um leproso, e agora estás completamente purificado”. Cristo somente permitia que seus milagres fossem expostos após terem sido confirmados como verdadeiros. Note que aqueles que pregam as verdades de Cristo devem ser capazes de prová-las, para defender o que pregam e “convencer os contradizentes”. “Não o digas a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote”, para que se ele ficar sabendo quem te curou, não se negue – por despeito – a te dar um certificado da cura, e assim continue lhe mantendo sob confinamento. Assim eram os sacerdotes no tempo de Cristo, de modo que aqueles que tinham alguma coisa a tratar com eles tinham necessidade de serem prudentes como as serpentes.
  2. “Vai, mostra-te ao sacerdote”, de acordo com a lei (Levítico 14.2). Cristo tomou cuidado em observar a lei, para não transgredi-la, e para mostrar que Ele manterá a ordem, a boa disciplina, e o respeito àqueles que estão no poder. Isso pode ser útil àqueles que foram purificados de sua lepra espiritual, por haverem recorrido aos ministros de Cristo, submetendo o seu caso a eles, para que possam ajudá-los em suas investigações sobre a sua condição espiritual, aconselhando-os, confortando-os e orando por eles.
  3. ”A presenta a oferta que Moisés determinou” como prova de gratidão a Deus, e recompensa ao sacerdote por seus sofrimentos; e “para lhes servir de testemunho”; ou:

(1) ”Apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho”: as leis cerimoniais eram testemunhos da autoridade de Deus sobre eles, dos seus cuidados para com eles, e daquela graça que seria revelada posteriormente. Ou:

(2) “Faça a tua oferta como um testemunho e faça o sacerdote saber quem te purificou, e como; e isso será um testemunho de que há uma pessoa entre eles que faz aquilo que o sumo sacerdote não consegue fazer. Faça com que ela seja registrada como um testemunho do meu poder, e um testemunho a meu respeito para eles, se eles o registrarem; mas este testemunho será contra eles, se não o fizerem”, pois a Palavra e as obras de Cristo são testemunhos.

GESTÃO E CARREIRA

Bem diferente do Brasil

BEM DIFERENTE DO BRASIL

Recolocação rápida de demitidos impulsiona a economia sueca.

 sumiço de postos de trabalho, por assustador que pareça, tem um papel a desempenhar. Numa economia funcional, novas formas de trabalhar e novos negócios sucedem aos anteriores. Se forem mais produtivos, contribuem com a prosperidade geral. No Brasil, ciclos de aquecimento e esfriamento se alternam sem que o país passe a trabalhar melhor – um mal da economia fechada, travada e pouco inovadora que somos. Já a Suécia vem conseguindo tornar a rotatividade de profissionais um fator de aumento de produtividade, graças a um modelo agressivo de recolocação de desempregados.

Segundo um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, entidade que inclui a maioria dos países desenvolvidos), 85% dos demitidos na Suécia reencontram emprego em menos de um ano, graças à política pública dos conselhos de segurança do emprego (ou TRR, na sigla em sueco). Esses grupos reúnem representantes de empresas e entidades sociais e se sustentam com recursos privados. Mais ágeis que órgãos governamentais, os conselhos atuam logo após a demissão e se mobilizam para encontrar um novo emprego para o trabalhador. Aí entra a diferença essencial: em vez de tentar recolocá-lo na mesma função (muitas vezes ultrapassada por tecnologia ou mudanças de mercado), os conselhos abrem para ele novas opções profissionais. Fazem isso por meio de novos treinamentos, testes de personalidade, avaliação e reorganização de currículo, entre outras ações. Também prestam ajuda psicológica no período de transição e fornecem auxílio financeiro durante o desemprego, sobre- tudo àqueles com mais de 40 anos.

O modelo fortalece a economia como um todo, pois facilita o fechamento de vagas improdutivas sem provocar reações de sindicatos – fortes e combativos na Suécia. Afinal, o demitido rapidamente se recoloca em outra função (um efeito nefasto do desemprego prolongado é que o profissional, defasado, tem dificuldade crescente em se recolocar). O acesso aos conselhos se limita aos profissionais sindicalizados, que correspondem a 70% da força de trabalho no país.

A política sueca parece tomar a dianteira ante à de outros países da Europa. Nos modelos tradicionais, escritórios do governo tentam dar treinamento aos desempregados, enquanto sindicatos tentam defender postos de trabalho, em vez de ajudar o profissional a se adaptar. Na Suécia, como reza o principal lema dos conselhos, “a meta não é defender empregos, mas dar apoio aos trabalhadores”.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Muito mais que um beijo

MUITO MAIS QUE UM BEIJO

O toque dos lábios desencadeia a liberação de substâncias químicas ligadas à estimulação sexual e às interações sociais; o mais curioso, porém, é que este gesto também transmite ao parceiro informações sobre o DNA.

 Nos momentos de intensa paixão o beijo na boca prende duas pessoas numa troca de cheiros, sabores, toques, segredos e emoções. Beijamos lascivamente, de modo gentil, tímido, faminto, intenso, furtivo. Em plena luz do dia e na calada da noite. Damos beijos cerimoniosos, afáveis, polidos, de rostos que não se tocam; a literatura e a história registram beijos da morte e, ao menos nos contos de fada, beijocas fazem princesas reviver.

Do ponto de vista da ciência, os lábios podem ter evoluído primeiro para favorecer a alimentação e, mais tarde, para a fala, mas no beijo eles satisfazem tipos diferentes de apetite. No corpo, o toque dos lábios ativa uma sucessão de mensagens neurais e químicas que transmitem sensações táteis e excitação sexual, e desperta sentimentos de intimidade, motivação e até euforia.

Nem todas as mensagens são internas. A fusão de dois corpos transmite sinais intensos passíveis de serem reconhecidos tanto pela própria pessoa quanto pelo parceiro ou parceira. Beijos podem, inclusive, enviar informações significativas sobre as condições presentes e futuras de uma relação amorosa. Muitos psicólogos especializados em terapia de casais garantem que, se o primeiro beijo não for considerado agradável e prazeroso para os dois envolvidos, dificilmente o relacionamento evoluirá.

Alguns cientistas acreditam que a união dos lábios evoluiu porque facilita a seleção de parceiros. “O beijo envolve uma troca bem complicada de informações – olfativa, tátil e ajustes de postura – que costuma acionar mecanismos neurológicos sofisticados e também inconscientes, permitindo às pessoas determinar subjetivamente até que grau elas são geneticamente incompatíveis”, afirma o psicólogo evolucionista Gordon G. Gallup, professor da Universidade de Albany e da Universidade do Estado de Nova York. Beijar pode ainda revelar até que ponto o outro está disposto a se comprometer na relação. Esse comprometimento significa, em alguns casos, a predisposição para estabelecer parcerias, aprofundar o grau de confiança e até mesmo a intenção de criar filhos – uma questão central em relacionamentos de longo prazo e crucial para a sobrevivência da espécie.

 MENSAGEIRO SILENCIOSO

Independentemente do que mais esteja acontecendo quando beijamos, nossa história evolucionária está incorporada nesse ato terno e tempestuoso. Nos anos 60, o zoólogo e escritor britânico Desmond Morris sugeriu, pela primeira vez, que o beijo pode ter evoluído da prática de algumas mães primatas de mastigar a comida para seus filhotes e alimentá-los boca a boca, com os lábios comprimidos. Os chimpanzés se alimentam dessa maneira, e nossos ancestrais hominídeos, provavelmente, também o faziam. A pressão de lábio contra lábio evoluiu posteriormente para uma forma de confortar crianças famintas em períodos de escassez de comida e, com o tempo, derivou para um modo de expressar amor e afeição. A espécie humana levou esses beijos protoparentais por outros caminhos, até criar as variedades mais apaixonadas que temos hoje.

Mensageiros químicos silenciosos chamados feromônios podem ter acelerado a evolução do beijo “íntimo”. Muitos animais e plantas usam os feromônios para se comunicar com outros membros da mesma espécie. Insetos, em particular, são conhecidos por emitir a substância como um alarme, para sinalizar, por exemplo, a presença de alimento ou a atração sexual. Se os seres humanos detectam feromônios ou não – e com que precisão isso aconteceria – é assunto controverso. Diferentemente de ratos ou porcos, não temos um detector de feromônios “especializado”, o órgão vomeronasal, entre o nariz e a boca.

No entanto, a bióloga Sarah Woodley, da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, na Pensilvânia, sugere que podemos captar feromônios pelo sistema olfativo. Segundo ela, a comunicação química inconsciente explicaria descobertas curiosas, como a tendência de os ciclos menstruais de mulheres que convivem de forma muito próxima, como companheiras de dormitório, se sincronizarem, ou como a atração das mulheres pelo cheiro da camiseta usada por homens cujo sistema imunológico é geneticamente compatível com o delas. Feromônios humanos podem incluir androstenol (componente químico do suor masculino que, para algumas mulheres, amplia a excitação sexual) e hormônios vaginais femininos chamados copulinas (que aumentam os níveis de testosterona e o apetite sexual dos homens). Se os feromônios realmente representam um papel na procriação humana, então beijar seria uma maneira extremamente eficiente de transmiti-los.

Podemos também ter herdado o beijo íntimo de nossos ancestrais primatas. Bonobos, que são geneticamente muito semelhantes a nós (embora não sejamos seus descendentes diretos), são especialmente apaixonados. O primatólogo Frans B. M. de Waal, da Universidade Emory, na Geórgia, lembra-se de um guarda de zoológico que aceitou de um bonobo o que ele achava que seria um beijo amigável, até sentir a língua do macaco em sua boca!

Os lábios humanos têm a camada mais fina de pele do corpo humano e estão entre as áreas corporais em que se encontram as maiores concentrações de receptores e transmissores sensoriais. Quando beijamos, as células da língua e de outras regiões da boca disparam mensagens para o cérebro e para o corpo, provocando emoções e reações físicas intensas.

Dos 12 ou 13 nervos cranianos que afetam a função cerebral, cinco estão em ação quando beijamos, carregando mensagens de nossos lábios, língua, bochechas e nariz para o cérebro – que capta informações sobre temperatura, sabor, cheiro e movimentos de toda a situação. Parte dessa informação chega ao córtex somatossensorial, faixa de tecido na superfície cerebral que representa a informação tátil no mapa do corpo. Nessa representação os lábios aparecem desproporcionalmente grandes em relação ao tamanho real porque cada região do corpo aparece de acordo com a densidade de suas terminações neurais.

Beijar desencadeia um coquetel de substâncias químicas que governam o estresse, a motivação, as relações sociais e a estimulação sexual. Em um novo estudo, a psicóloga Wendy L. Hill e sua aluna Carey A. Wilson, do Lafayette College, compararam os níveis de oxitocina e cortisol, dois hormônios-chave, em 15 casais heterossexuais antes e depois de eles se beijarem e antes e depois de conversarem de mãos dadas. A oxitocina está ligada às relações sociais e o cortisol é considerado o hormônio do estresse. Hill e Wilson supunham que beijar ampliaria os níveis do primeiro hormônio, que influencia também o reconhecimento social, o orgasmo e o parto. Elas esperavam que esse efeito fosse particularmente pronunciado nas mulheres participantes do estudo que relataram um grau maior de intimidade em seus relacionamentos. Também previam uma queda no cortisol, porque, presumivelmente, beijar aliviaria o estresse.

 BARÔMETRO EMOCIONAL

As pesquisadoras, porém, se surpreenderam ao descobrir que os níveis de oxitocina aumentaram apenas nos homens e diminuíram nas mulheres, tanto depois de beijar quanto ao conversar de mãos dadas. Concluíram, então, que elas precisam bem mais do que um beijo para se sentir ligadas emocionalmente ou excitadas sexualmente durante o contato físico. As autoras inferiram que as mulheres podem, por exemplo, precisar de uma atmosfera mais romântica. Mas, de fato, uma suspeita das pesquisadoras se confirmou: o estudo reportado por Hill e Wilson, em novembro de 2007 na reunião anual da Sociedade para a Neurociência, em Nova Orleans, revelou que os níveis de cortisol caíam para ambos os sexos, não importando a forma de intimidade, o que indica que o beijo realmente reduz o estresse.

Na medida em que o beijo está ligado à afetividade, pode aumentar a produção de substâncias químicas do cérebro associadas ao prazer, à euforia e à motivação para estabelecer ligações específicas. A antropóloga Helen Fisher e colaboradores da Universidade Rutgers registraram, por meio de tomografias do cérebro, a reação de 17 voluntários enquanto olhavam para fotos de pessoas pelas quais diziam estar profundamente apaixonados. Os pesquisadores descobriram uma atividade incomum em duas regiões cerebrais que governam o prazer, a motivação e a recompensa: a área tegumentar ventral direita e o núcleo caudado direito. Drogas como a cocaína estimulam de maneira semelhante esses centros de recompensa, por meio da liberação do neurotransmissor dopamina. Uma primeira conclusão seria, então, a de que o amor funciona, para humanos, como um tipo de droga. E o beijo evoca reações primais. Pode aumentar a pulsação e a pressão sanguínea; as pupilas se dilatam; a respiração fica mais profunda e o pensamento racional recua. Assim como o desejo, o ato de beijar suprime (ou pelo menos torna mais tênue) a prudência e a inibição. Durante um beijo a maioria das pessoas fica, provavelmente, encantada demais para se importar com isso. Talvez o superego (instância psíquica proposta por Sigmund Freud, guardiã das normas e proibições que aprendemos e adotamos) seja solúvel em beijos.

Pode mesmo um beijo ser algo tão poderoso? Algumas pesquisas indicam que sim. Num levantamento recente, Gallup e seus colaboradores descobriram que 59% de 58 homens e 66% de 122 mulheres admitiram que houve ocasiões em que, embora estivessem atraídos por alguém, o interesse logo sumiu depois do primeiro beijo. Os beijos “ruins” não tinham nenhuma falha específica; simplesmente não passavam a “sensação certa”. Resultado: deflagravam o fim do romance.

Gallup também acredita que o beijo carrega tal peso porque transmite informações subconscientes sobre a compatibilidade genética de um possível companheiro. Sua hipótese é consistente com a ideia de que ele evoluiu como uma estratégia de acasalamento que ajuda a avaliar potenciais parceiros.

Da perspectiva darwiniana, a seleção sexual é a chave para a transmissão dos genes. Para nós, humanos, a escolha do parceiro frequentemente implica apaixonar-se. Fisher escreveu em seu artigo de 2005 que o “mecanismo de atração nos humanos evoluiu para permitir aos indivíduos concentrar sua energia de acasalamento em pessoas específicas, o que facilita a escolha do parceiro – e satisfaz um aspecto primário da reprodução”.

Com base em descobertas recentes, Gallup argumenta que o beijo desempenha um papel crucial na progressão de um relacionamento, mas de forma diversa para homens e mulheres. Num estudo – que teve os resultados publicados – ele e seus colaboradores entrevistaram 1.041 universitários de ambos os sexos a respeito do beijo. Para a maioria dos rapazes ouvidos, acariciar a boca da outra pessoa com a língua é uma maneira de avançar no relacionamento sexual. Para os pesquisadores, porém, o ato serve para conduzir o casal ao próximo nível emocional e para avaliar não apenas se a outra pessoa seria uma fonte excelente de DNA, mas um bom parceiro a longo prazo. O encontro dos lábios é, portanto, um tipo de barômetro emocional: quanto mais entusiasmado, mais saudável é o relacionamento.

Como as mulheres têm menores possibilidades biológicas de perpetuar seus genes, já que necessitam investir mais energia para ter filhos, é fundamental que sejam mais criteriosas na escolha de seus parceiros – e não podem se permitir muitos equívocos. Dentro dessa lógica evolucionista, quanto mais apaixonado o beijo, maior a chance de o parceiro ser um bom companheiro não só para a procriação – mas suficientemente comprometido também para ficar por perto e criá-los. Por outro lado, o beijo talvez não seja tão necessário do ponto de vista evolutivo. Afinal, a maioria dos animais não se beija e, mesmo assim, produz muitas crias. E nem todos os humanos beijam. Na virada do século 20, o cientista dinamarquês Kristoffer Nyrop descreveu tribos finlandesas cujos membros se banhavam juntos, mas consideravam o beijo indecente. Em 1897, o antropólogo francês Paul d’Enjoy relatou que os chineses consideravam o toque das bocas tão horrendo quanto é o canibalismo para a maioria das pessoas. Na Mongólia, por exemplo, é raro que os pais beijem seus filhos em vez disso, cheiram a cabeça dos pequenos. O pioneiro da etologia humana Irenäus Eibl-Eibesfeldt escreveu em seu livro de 1970 Love and hate: the Natural History of behavior patterns (Amor e ódio: história natural dos padrões elementares do comportamento), considerado um clássico, que pelo menos 10% da humanidade não beija.

 INCLINAÇÃO À DIREITA

O psicólogo Onur Güntürkün, da Universidade Ruhr, de Bochum, Alemanha, realizou recentemente uma pesquisa curiosa. Observou 124 casais enquanto se beijavam em lugares públicos dos Estados Unidos, Alemanha e Turquia e constatou que eles tombavam levemente a cabeça para a direita com o dobro de frequência do que para a esquerda antes de seus lábios se tocarem. Güntürkün suspeita que os beijos inclinados para a direita resultem de uma preferência geral desenvolvida no final da gestação e na primeira infância. Essa “assimetria” é relacionada à lateralização das funções cerebrais, tais como a fala e a percepção espacial.

A educação e a cultura também podem influenciar essa tendência de curvar-se para a direita. Estudos mostram que até 80% das mães, quer sejam destras, quer sejam canhotas, acalentam do lado esquerdo seus bebês. Bebês aninhados com o rosto para cima, à esquerda, viram-se para a direita para ser amamentados ou se aconchegar. Como resultado, a maioria de nós pode ter aprendido a associar calor e segurança com o inclinar para a direita.

Alguns cientistas propuseram que aqueles que viram a cabeça para a esquerda quando beijam podem estar mostrando menos afeto do os que o fazem para o lado oposto. Um estudo realizado pelo naturalista Julian Greenwood e seus colaboradores da Universidade Stranmillis College, em Belfast, na Irlanda, contrapõe essa ideia. Os pesquisadores constataram que 77% de 240 graduandos inclinavam a cabeça para a direita quando beijavam uma boneca na bochecha ou nos lábios. Curvar-se para a direita com uma boneca, ato que não denota emoção, foi quase tão predominante entre os participantes como entre os 125 casais observados enquanto se beijavam em Belfast que se inclinaram para a direita em 80% das vezes. A conclusão: beijar inclinado para a direita provavelmente resulta de uma facilidade motora, como Güntürkün sugeriu – e não de uma preferência emocional.

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HOMÚNCULO SENSORIAL: O MAPA DO CORPO

Informação tátil da pele chega ao córtex somatossensorial primário do cérebro, que contém um mapa distorcido do corpo chamado “homúnculo sensorial”.

Nesta representação, os lábios são desproporcionalmente grandes porque têm uma enorme concentração de receptores sensoriais e, portanto, são muito sensíveis ao toque.

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Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 299

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 21-29

 O Sermão da Montanha

Temos aqui a conclusão desse longo e excelente sermão cujo escopo foi mostrar a indispensável necessidade da obediência aos mandamentos de Cristo. Ele tinha o propósito de cravar suas palavras, par a que elas pudessem se firmar num lugar seguro. Ele falava aos discípulos, que se sentavam aos seus pés todas as vezes que pregava, e o seguiam para qualquer lugar onde fosse. Se Ele buscava receber os louvores dos homens, somente isso teria sido suficiente. Mas a religião que Ele veio estabelecer vem com poder, e não apenas em palavras (1 Coríntios 4.20, versão RA); portanto, algo mais se fazia necessário.

I – Ele mostra, através de uma clara exposição de razões, que uma visível profissão de fé, embora seja digna de nota, não basta para nos levar ao céu, a não ser acompanhada por uma correspondente conduta (vv. 21-23). Todo julgamento pertence ao Senhor Jesus, as chaves foram colocadas em suas mãos. Ele tem o poder de prescrever novos termos de vida ou morte e de julgar os homens de acordo com eles. Essa é uma solene declaração que está em conformidade com esse poder. Portanto, observe que:

  1. A lei de Cristo foi estabelecida (v. 21). “Nem todos aqueles que dizem Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus”, no reino da graça e da glória. Esta é uma resposta ao Salmo 15.1. “Quem habitará no teu tabernáculo?” A igreja militante. E quem morará no teu santo monte? A igreja triunfante. Cristo está mostrando aqui:

(1) Que não basta dizer as palavras “Senhor, Senhor” para ter Cristo como nosso Mestre, ou para se dirigir a Ele professando nossa religião. Nas orações a Deus e nas conversas com os homens, devemos invocar o Senhor Jesus Cristo. Quando dizemos “Senhor, Senhor”, estamos dizendo bem, pois é isso que Ele é (João 13.13). Mas será que imaginamos que isso é suficiente para nos levar ao céu, que essa expressão de formalidade deveria ser recompensada ou que Ele sabe e exige que o coração esteja presente nas demonstrações essenciais? Os cumprimentos entre os homens são uma demonstração de civilidade, retribuída com outros cumprimentos, e nunca são expressos como se fossem serviços reais. E o que dizer destes em relação a Cristo? Pode haver uma aparente impertinência na oração “Senhor, Senhor”, mas se as impressões interiores não forem acompanhadas pelas correspondentes expressões exteriores, nossas palavras serão como o metal que soa ou como o sino que tine. Isso não nos deve impedir de dizer “Senhor, Senhor”, de orar, e de sermos sinceros nas nossas orações, de professar o nome de Cristo, com toda clareza; porém jamais devemos expressar alguma forma de piedade sem o poder de Deus.

(2) Que será necessário – par a nossa felicidade – fazer a vontade de Cristo, que, na verdade, é a vontade do Pai celestial. A vontade de Deus, como Pai de Cristo, é a verdade que está no Evangelho, onde Ele é conhecido como Pai do nosso Senhor Jesus Cristo e, através dele, o nosso Pai. Esta é a vontade de Deus: que creiamos em Cristo, nos arrependamos dos nossos pecados, vivamos uma vida santa e amemos uns aos outros. Essa é a sua vontade: a nossa santificação. Se não obedecermos à vontade de Deus, estaremos zombando de Cristo ao chamá-lo de Senhor, da mesma forma como fizeram aqueles que o vestiram com um manto suntuoso e disseram: “Salve, Rei dos Judeus”. Dizer e fazer são duas coisas que muitas vezes estão separadas nas palavras dos homens: existe aquele que diz: “Eu vou, senhor”, porém jamais dá sequer um passo na direção prometida (cap. 21.30). Mas Deus reuniu essas duas coisas no seu mandamento, e nenhum homem poderá separá-las se quiser entrar no Reino dos céus.

  1. O argumento dos hipócritas contra o rigor dessa lei oferece outras coisas no lugar da obediência (v. 22). Esse argumento deve se referir àquele dia, àquele grande dia, quando cada homem irá comparecer exibindo todas as suas cores, quando o segredo dos corações irá se manifestar e, entre outras, irão aparecer as secretas pretensões com as quais os pecadores dão suporte às suas vãs esperanças. Cristo conhece a força da causa deles, que, na realidade, não passa de uma fraqueza. O que eles agora abrigam no seu seio será revelado para impedir o julgamento e suspender o seu destino, mas isso será em vão, pois irão apresentar seu argumento com grande impropriedade. “Senhor, Senhor” e, a esse respeito, irão apelar a Cristo com grande confiança. Senhor, não sabes:

(1) “Não profetizamos nós em teu no­ me?” Pode ser que sim. Balaão e Caifás foram dominados pela profecia e, contra a sua vontade, Saul se encontrou entre os profetas. No entanto, isso não bastou para salvá-los. Eles profetizaram no nome do Senhor, mas Ele não os havia enviado. Fizeram uso do seu nome apenas para servir a uma circunstância. Veja bem, o homem pode ser um pregador, pode ter os dons do ministério e até um chamado externo para exercê-lo; pode até ser bem-sucedido nisso e, ao mesmo tempo, ser um homem vil; pode ajudar os outros a ir para o céu e, no entanto, estar desqualificado e ficar fora dele.

(2) “Em teu nome, não expulsamos demónios?” Isso também pode acontecer. Judas expulsou os demônios, no entanto, era filho da perdição. Orígenes diz que em seu tempo o nome de Cristo era tão prevalecente para expulsar os demônios que, às vezes, esse nome também ajudava, mesmo quando era pronunciado por cristãos indignos. Um homem pode expulsar o demônio de outros homens e ainda ter, ou ser, o próprio demônio.

(3) “Em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?” Pode haver alguma fé nos milagres, onde não existe nenhuma fé para a justificação; nenhuma fé que opera através do amor e da obediência. Os dons de línguas e de cura podem recomendar os homens ao mundo, mas somente a verdadeira piedade e santidade serão aceitas por Deus. A graça e o amor são a maneira mais eficiente de remover montanhas, ou de falar as línguas dos homens e dos anjos (1 Coríntios 13.1,2). A graça irá levar o homem para o céu mesmo sem milagres; porém os milagres nunca irão levar o homem para o céu sem a ajuda da graça. Observe que aqueles que confiam e colocam os seus corações na prática dessas obras, veem muitas maravilhas. Simão, o mágico, ficou atônito com os milagres (Atos 8.13), portanto daria qualquer quantia para ter o poder de fazer o mesmo. Veja que eles não tinham muitas boas obras para pleitear, nem podiam fingir que tinham feito muitas obras de piedade ou de caridade. Qualquer uma destas teria sido melhor para sua avaliação do que muitas e maravilhosas obras, que de nada serviriam enquanto persistissem na desobediência. Atualmente, os milagres continuam a acontecer. Mas será que o coração humano ainda encontra o encorajamento em esperanças infundadas, com seus vãos esteios? Aqueles que são descritos nesse versículo pensam que vão para o céu porque têm tido uma boa reputação entre os mestres da religião, observam o jejum, dão esmolas e têm sido promovidos na igreja, como se isso fosse suficiente para reparar seu permanente orgulho, mundanismo, sensualidade e a falta de amor a Deus e ao próximo. Betel é a sua confiança (Jeremias 48.13), eles se ensoberbecem no monte santo de Deus (Sofonias 3.11), e se vangloriam de ser o templo do Senhor (Jeremias 7.4). Devemos prestar atenção nos seus privilégios e performances externos para não nos enganarmos e não perecermos eternamente, como ocorre com as multidões, que seguram uma mentira em sua mão direita.

  1. A rejeição desse argumento por ser frívolo. Aquele que é o Legislador (v. 21) está aqui como Juiz e, de acordo com essa lei (v.23), irá publicamente anular esse argumento. Irá comunicar a eles, com toda solenidade possível, a sentença emitida pelo Juiz: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. Observe:

(1) A razão e os fundamentos que Ele usa para rejeitá-los, e aos seus argumentos, se resume no fato de praticarem a iniquidade. Observe que é possível a um homem adquirir um nome notável como pessoa piedosa, e ainda assim ser um praticante de iniquidades. Aqueles que agem assim irão receber uma condenação maior. Quaisquer esconderijos secretos do pecado, guardados sob o manto de uma evidente profissão de fé, são a ruina dos homens. Anulam as pretensões dos hipócritas. Viver deliberadamente em pecado anula as pretensões dos homens, por mais capciosas que sejam.

(2) A maneira como esse argumento é expresso: “Nunca vos conheci”. “Nunca me pertencestes como servos, nem mesmo quando profetizáveis em meu nome, quando estáveis no auge da vossa profissão de fé, e éreis elogiados”. Isso indica que, se alguma vez o Senhor os tivesse conhecido, como Ele conhece aqueles que são seus, se os tivesse possuído e amado como se fossem seus, Ele os teria conhecido e possuído e amado até o fim. Mas Ele nunca os reconheceu, pois sempre soube que eram hipócritas e tinham o coração corrompido, como aconteceu com Judas. Portanto, Ele diz: “Apartai-vos de mim”. Será que Cristo precisava de tais convidados? Quando Cristo veio em carne e osso, Ele chamou a si os pecadores ao arrependimento (cap. 9.13), e quando voltar novamente, coroado de glória, irá afastar de si os pecadores. Aqueles que não forem até Ele para serem salvos deverão partir para serem condenados. Afastar-se de Cristo será o verdadeiro inferno do inferno, será a razão fundamental da miséria de ser condenado, de ter sido desprovido de toda esperança dos benefícios da mediação de Cristo. Ele não irá aceitar nem trazer a si no grande dia aqueles que, a seu serviço, não vão além de uma simples profissão de fé. Veja a que ponto um homem pode cair das alturas da esperança ao abismo da desgraça. Como pode ir para o inferno através das portas do céu! Essas deveriam ser palavras de alerta a todos os cristãos. Se um pregador que expulsa os demônios e realiza milagres for rejeitado por Cristo porque praticou iniquidades, o que será dele, e o que seria de nós, caso isso acontecesse conosco? Se agirmos assim, isto certamente acontecerá conosco. No tribunal de Deus, uma profissão de fé nunca irá defender homem algum da prática e do vício do pecado, portanto todo aquele que pronuncia o nome de Cristo deve abandonar toda iniquidade.

II – Ele mostra, através de uma parábola, que apenas ouvir essas palavras de Cristo não nos fará felizes, se não tomarmos a decisão de praticá-las, e que, se ouvirmos e praticarmos, seremos abençoados pelas nossas obras (vv. 24-27).

  1. Aqueles que ouviram as palavras de Cristo foram divididos em dois grupos; o grupo daqueles que ouvem e praticam o que ouviram, e o grupo daqueles que ouviram, mas não praticam. Cristo pregava para uma multidão mista, por tanto separou um grupo do outro, da mesma forma como irá fazer no grande dia, quando todas as nações estarão reunidas perante Ele. Cristo ainda fala do céu através da sua Palavra e do seu precioso Espírito; Ele fala através dos ministros e das providências aos dois tipos de pessoas que o ouvem.

(1) Aqueles que escutam suas palavras e as praticam: Bendito seja Deus porque eles existem, embora, comparativamente falando, ainda sejam muito poucos. Ouvir Cristo não significa apenas prestar atenção às suas palavras, mas obedecê-lo. Repare bem que é muito importante que todos nós pratiquemos as palavras de Cristo. É um sinal de misericórdia poder ouvir suas palavras. Bem-aventurados aqueles que ouvem (cap. 13 .16,17). Porém, se não praticarmos o que ouvimos, receberemos essa graça em vão. Praticar as palavras de Cristo é se abster conscientemente, dos pecados que Ele proíbe, e executar os deveres que Ele exige. Nossos pensamentos e sentimentos, nossas palavras e atos, a disposição da nossa mente e o curso da nossa vida devem estar em sintonia com o Evangelho de Cristo, e essa é a obrigação que Ele exige de nós. Todas as palavras de Cristo, não só as leis que Ele promulgou, mas também as verdades que revelou, devem ser praticadas por nós. Elas representam um exemplo, não só para os nossos olhos, mas também para os nossos pés, e foram destinadas não só a esclarecer nossos julgamentos, mas também a transformar o nosso coração e a nossa vida. Não podemos realmente acreditar nas palavras de Cristo se não agirmos de uma forma que corresponda a elas. Observe que não basta ouvir as palavras de Cristo, compreendê-las e lembrar-se delas, ouvir, comentar, repetir ou discutir essas palavras; mas ouvi-las e praticá-las. “Faze isso e viverás”. Aqueles que ouvem e praticam são abençoados (Lucas 11.28; João 13.17) e se tornam parentes de Cristo (cap. 12.50).

(2) Existem outros que ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam. Sua religião está apoiada numa simples audição e não vai além disso. Assim como crianças raquíticas, sua cabeça está repleta de noções vazias e de opiniões indigestas, enquanto suas juntas são fracas, pesadas e lânguidas. Elas não podem se movimentar; nem se importam em praticar nenhum dever útil. Ouvem as palavras de Deus, como se quisessem conhecer os seus caminhos, como se fossem pessoas justas, mas não estão dispostas a colocarem-nas em prática (Ezequiel 33.30,31; Isaias 58.2). Dessa forma, elas estão se enganando, como Mica, que acreditava ser feliz, por ter um levita como seu sacerdote, embora não tivesse o Senhor como o seu Deus. A semente foi lançada, mas nunca brotou. Eles veem as suas manchas no espelho da palavra, mas preferem ignorá-las (Tiago 1.22,24). Dessa forma, colocam um engodo sobre suas próprias almas, pois é certo que se o que ouvimos não trouxer nossa obediência, isso irá agravar a nossa desobediência. Aqueles que apenas ouvem as palavras de Cristo, mas não as praticam, é como se estivessem sentados a meio caminho do céu sem nunca chegar ao fim da jornada. É como se fossem meio-irmãos de Cristo; e as nossas leis não lhes dão direito a herança.

  1. Esses dois tipos de ouvintes foram aqui representados, com seu verdadeiro caráter e com a situação do seu caso, através de uma comparação entre dois construtores. Aquele que era prudente construiu a sua casa sobre uma rocha, e ela resistiu a uma tempestade. O outro, que era insensato, construiu a sua casa na areia, e ela desmoronou.

Agora:

(1) O escopo geral dessa parábola é ensinar que a única maneira de assegurar a nossa alma em relação à eternidade é ouvir e praticar as palavras do Senhor Jesus, as palavras contidas no Sermão da Montanha, que é totalmente prático. Algumas delas podem parecer difíceis para o homem, mas mesmo assim devem ser praticadas. Dessa forma, estaremos entesourando um bom fundamento para o futuro (1 Timóteo 6.19). Elas representam uma boa ligação, conforme alguns entendem, que foi feita por Deus e que garante uma salvação baseada nos termos do Evangelho. O fruto da nossa própria invenção não será uma ligação que traz salvação, nem será capaz de satisfazer as nossas próprias fantasias. Aqueles que, como Maria, se sentam aos pés de Cristo para ouvir as suas palavras, em completa sujeição, asseguram para si mesmos a “boa parte”. “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”.

(2) Algumas partes peculiares dessas palavras nos ensinam diversas e boas lições.

[l] Cada um de nós tem uma casa para construir, e essa casa representa a nossa esperança em relação ao céu. Deve ser nosso principal e constante cuidado fazer com que nosso chamado e eleição fiquem garantidos, assim como nossa salvação. Devemos assegurar um título para a felicidade celestial, e depois obter uma confortável prova disso. Ter certeza de que, mesmo se falharmos, ainda assim seremos recebidos na habitação eterna. Muitos nunca se importam com isso; é o que está mais longe do seu pensamento. Eles estão construindo para esse mundo, como se fossem permanecer aqui para sempre, e não se importam em construir algo em um outro mundo. Todos aqueles que assumem uma profissão de fé também desejam descobrir o que deverão fazer para ser salvos; eles precisam saber como poderão chegar finalmente ao céu, e precisam ter uma esperança bem fundada sobre este assunto, à medida que crescem na fé.

  • Existe uma rocha providenciada para nós, sobre a qual podemos construir essa casa essa rocha é Cristo. Jesus Cristo foi colocado como a sua fundação, e nenhuma outra fundação pode ser colocada (Isaias 28.16; 1 Coríntios 3.11). Ele é a nossa Esperança (1 Timóteo 1.1). Esse é o Cristo que está em nós. Devemos fundamentar a esperança que temos em relação ao céu sobre a plenitude do mérito de Cristo, do perdão dos pecados, do poder do seu Espírito, da santificação da nossa natureza e da prevalência da sua intercessão e da transmissão de tudo que é bom que Ele adquiriu para nós. Ele nos deu a conhecer tudo que existe nele para nos transformar segundo o Evangelho, e que é suficiente para retirar todas as nossas angústias e suprir todas as nossas necessidades, pois Ele é o Supremo Salvador. A Igreja foi edificada sobre essa rocha, assim como todo aquele que é crente. Ele é forte e tão imutável como essa Rocha, e podemos nos aventurar junto a Ele, pois não ficaremos envergonhados da nossa esperança.
  • Existem alguns remanescentes que ouvem e praticam as palavras de Cristo, que edificam as suas esperanças sobre essa Rocha. E ela passou a representar toda a sua sabedoria. Cristo é o único Caminho para o Pai, e a obediência à fé é o nosso único caminho para Cristo. Pois, para aqueles que obedecem a Ele, e somente a Ele, Ele se torna o Autor da eterna salvação. Aqueles que edificam sobre Cristo, que têm sinceramente aceitado a Ele como seu Príncipe e Salvador, têm como preocupação constante sujeitar-se a todas as regras da sua santa religião. Portanto, estes dependem inteiramente dele para obter a ajuda necessária diante de Deus, para que sejam aceitos. É necessário levar em conta aqui tudo que não seja pernicioso, para poder conquistar Cristo e ser encontrado nele. Construir sobre uma rocha exige muito cuidado e trabalho. Aqueles que desejam assegurar sua eleição e seu chamado devem agir com toda diligência. Eles são os construtores prudentes que começam a construir de forma a serem capazes de terminar (Lucas 14.30); portanto, precisam se estabelecer sobre a fundação mais sólida que existe.
  • Existem muitos que professam sua esperança de ir para o céu, mas desprezam essa Rocha e constroem suas esperanças sobre a areia. Isso não exige muito es­ forço, mas é o espelho da sua insensatez. Tudo que não está em Cristo é areia. Alguns constroem sua esperança na prosperidade da vida terrena, como se esta fosse um sinal do favor de Deus (Os 12.8). Outros edificam sobre a sua profissão exterior de fé, sobre os privilégios que gozam, as performances que executam nessa profissão de fé, e a reputação que adquiriram. Eles têm o nome de cristãos, receberam o batismo, vão à igreja, ouvem as palavras de Cristo, oferecem as suas orações e não fazem mal a ninguém. Contudo, é curioso observar que a morte de alguns deles pode ser considerada um alívio para outros! Essa é a luz do seu próprio fervor, sobre o qual caminham. É nesta vereda que eles se aventuram, com uma grande dose de segurança. Mas tudo isto não passa de areia, algo demasiadamente fraco para suportar a estrutura das suas esperanças celestiais.
  • Uma tempestade se aproxima, e ela testará os alicerces das nossas esperanças, e também toda obra do homem (1 Coríntios 3.13). Ela descobrirá a fundação (Habacuque 3.13). A chuva, a inundação e o vento irão se abater sobre a casa. Muitas vezes a provação está nesse mundo e, quando surgirem a tribulação e a perseguição por causa da palavra, veremos quem apenas ouviu a palavra, e quem, além de ouvi-la, a praticou. Então teremos ocasião de usar nossas esperanças. Elas serão experimentadas, sejam elas justas e bem fundamentadas ou não. Entretanto, quando chegarem a morte e o juízo, e chegar também a tempestade, pois não há nenhuma dúvida de que ela virá, as coisas ficarão tão calmas para nós como estão agora. Quando tudo o mais falhar, podemos ter certeza de que essas esperanças jamais falharão. Elas se transformarão em um gozo que durar á para sempre; um gozo eterno.
  • Aquelas esperanças que forem construídas sobre a Rocha de Cristo irão se sustentar, e também ao construtor, quando a tempestade chegar. Elas irão preservá-lo, tanto do abandono como de uma inquietude permanente. Sua profissão não irá definhar e o ânimo não lhe faltará. Elas serão sua força e seu cântico, como uma âncora da alma, segura e firme. Quando ele chegar para o último encontro, essas esperanças irão afastar o terror da morte e do sepulcro, irão levá-lo alegremente através do vale sombrio, serão aprovadas pelo Juiz, irão enfrentar o teste do grande dia e serão coroadas com eterna glória (2 Coríntios 1.12; 2 Timóteo 4.7,8). Bem-aventurado aquele servo a quem o Senhor encontrar absolutamente esperançoso, quando voltar.
  • Aquelas esperanças que são edificadas sobre um outro fundamento, e não sobre Cristo, certamente lhes faltarão em um dia de tempestade. Estas esperanças não produzirão um verdadeiro conforto e satisfação em meio às provações, não formarão uma muralha contra as tentações da apostasia na hora da perseguição, e na hora da morte e no dia do juízo final não terão qualquer valor. Onde estará a esperança do hipócrita quando Deus lhe arrancar a alma? (Jó 27.8). Ela será como uma teia de aranha, ou como a falta de esperança do espírito. Eles se apoiarão sobre a casa, e ela não se manterá firme (Jó 8.14,15). Ela desmoronará em meio à tempestade, quando o construtor mais precisará dela, esperando que represente um abrigo seguro para ele. Ela cairá quando for demasiadamente tarde para construir uma outra. Quando um pecador morre, suas expectativas morrem também. Quando se pensa que elas se transformarão em um gozo eterno, elas desmoronam e grande é a sua queda. O construtor fica muito desapontado e a vergonha pela perda é muito grande. Quanto mais elevadas forem as esperanças dos homens, depositadas em suas próprias invenções, maior será a sua queda. A ruína de todos aqueles que praticam uma profissão formal de fé que não esteja alicerçada em Cristo consistirá em ser uma testemunha da condenação de Cafarnaum.

III – Nos dois últimos versículos, tomamos conhecimento da impressão criada pelo discurso de Cristo nos seus ouvintes. Foi um excelente sermão, e é provável que Ele tenha falado muito mais, porém estas palavras não foram registradas. Sem dúvida, as palavras que saíram da sua boca, de cujos lábios se derramava a graça, contribuíram poderosamente para isso. Portanto:

  1. Eles ficaram admirados com a sua doutrina. Acredita-se que poucos tenham sido levados a segui-lo, mas naquele momento todos ficaram maravilhados. Veja bem: Será que é possível acreditar que as pessoas admirem um bom sermão e ainda assim permaneçam na ignorância e na incredulidade? Ficam admiradas, mas não se tornam santificadas?
  2. Talvez a razão disso seja que, apesar de ensinar com autoridade, Ele não era como os escribas. Os escribas pretendiam ter a mesma autoridade de qualquer um dos mestres, e eram apoiados por todas as vantagens externas que conseguiam. Porém, a sua pregação era pobre, vazia e insípida. Falavam como se não fossem mestres daquilo que pregavam, suas palavras não vinham de alguém que tivesse força ou vida, e repetiam as palavras como os alunos repetem as lições. Mas Cristo pronunciava o seu discurso da mesma maneira que um juiz pronuncia uma sentença. Ele realmente fazia seus discursos com um tom de autoridade. Suas lições eram leis, e a sua palavra era uma palavra de comando. Cristo, sobre a montanha, mostrava mais autoridade que os escribas na cadeira de Moisés. Dessa forma, quando Cristo ensina às almas através do seu Espirito, Ele ensina com autoridade. Ele disse: “Haja luz. E houve luz”.

GESTÃO E CARREIRA

As feras da Savana do Silício

AS FERAS DA SAVANA DO SILÍCIO

Novos negócios em alguns países africanos chamam a atenção de investidores e gigantes de tecnologia. Todos vão à caça de ideias para enfrentar grandes problemas (e algumas servem para o Brasil).

 Pela Rodovia Mombasa, uma das principais do Leste Africano, os carros avançam devagar. O trânsito é lento o tempo todo. Perto da Land Rover blindada, transporte-padrão dos estrangeiros que vêm trabalhar no Quênia, segue um matatu, ônibus multicolorido que roda sobre velhos chassis de caminhão. A estrada corta a capital, Nairóbi. Vacas e cabras pastam no acostamento largo de terra batida e o esgoto segue a céu aberto por longos trechos. Muita gente caminha ao longo da estrada e o comércio de rua oferece quase tudo, de sofás, camas e fogões a lápides de cemitério. Alguns comerciantes, a pé, arriscam-se pelos vãos do trânsito para incentivar a compra. Gritam em swahili (o idioma oficial do país, junto com o inglês) ou em algum dos 43 dialetos locais. Conforme o carro se aproxima de um bairro elevado no centro da cidade, a paisagem começa a mudar.

A Land Rover avança por Upper Hill, onde se vê menos gente caminhando, mais árvores e muito mais obras em andamento. A área já foi mais residencial e abrigou principalmente brancos, executivos expatriados e diplomatas. Agora, o bairro se transforma. Operários e máquinas de construtoras chinesas duplicam vias e levantam novos edifícios comerciais. A demanda por espaço multiplicou por seis o preço do metro quadrado na área desde 2010. Upper Hill vem acomodando escritórios de companhias estrangeiras, investidores e pequenas empresas de base tecnológica. É o bairro da moda para quenianos e estrangeiros bem formados que querem criar novos negócios. Em comum, tentam resolver problemas locais – e enriquecer ao fazer isso. Tudo bem pedagógico para quem vive no Brasil. Os problemas e as oportunidades soam familiares: territórios extensos e pouco povoados, que exigem investimento em cobertura de telecomunicações e internet; lacunas sérias e potencial imenso para inovações em transporte, energia, saneamento, habitação, agronegócio; grande população jovem, pobre e mal instruída, porém culturalmente inventiva, receptiva a tecnologia e ansiosa por consumir. Para completar, o Quênia, especificamente, passa por um período que combina instabilidade política (emperrada por defeitos velhos) e efervescência empreendedora (acelerada por ideias novas). Quem chega do Brasil pode se sentir meio em casa.

No sexto andar de um desses novos edifícios envidraçados, o Senteu Plaza, fica o iHub, mistura de coworking e incubadora. É peça-chave para Nairóbi merecer o apelido de Savana do Silício. Tem fama de ambiente de inovação mais produtivo da África. Em sete anos de existência, abrigou 170 startups e gerou uma rede que conecta 17 mil profissionais. Começou em 2010, como projeto social de um grupo de jovens quenianos que queriam um espaço para trabalhar e discutir ideias. Operou graças a doações de fundações e empresários, como o francês Pierre Omidyar, fundador do eBay. Nessa fase, o iHub ajudava a treinar programadores e oferecia gratuitamente espaço a quem precisasse de internet rápida para montar seu negócio (sem fins lucrativos, o espaço também havia acumulado dívidas e gerado acusações de gestão ruim contra seus administradores). Em dezembro de 2017, o perfil mudou.

O iHub recebeu aporte de US$ 2 milhões da Invested Development, gestora de recursos dos Estados Unidos que investe exclusivamente em projetos de países em desenvolvimento, e tornou-se ele próprio um negócio com fins lucrativos.

Com o novo estatuto, seus gestores esperam acelerar a linha de produção de startups. “Estávamos recebendo mais de 200 pedidos por mês de gente querendo usar o espaço. Não dava para atender todo mundo apenas com doações”, diz Njoki Gichinga, diretora de parcerias do iHub, enquanto mostra as novas instalações. A infraestrutura para as empresas incubadas se espalha por 7 mil metros quadrados recém-inaugurados, decorados com tubulação hidráulica e elétrica expostas, paredes de tijolo aparente e luminárias em diferentes alturas. “Agora, temos estrutura muito melhor e condições de cumprir nossa missão – ser um polo de tecnologia para a África, reunindo gente com diferentes perfis, do mundo todo”, diz Njoki.

A comunidade de profissionais ligados à inovação ganha força em vários países africanos. Os setores em que trabalham seguem uma dinâmica particular, na contramão dos negócios tradicionais no continente. Nos últimos anos, caiu o fluxo de capital estrangeiro para a África. Isso ocorreu, entre outros motivos, por causa do fim do ciclo de valorização das mercadorias básicas, por volta de 2010 (o Quênia, por exemplo, exporta muito café e petróleo) e pela desaceleração da economia da China – um fenômeno que também afetou o Brasil. A comunidade tem outra história para contar, bem mais interessante.

Conforme secou o dinheiro para setores tradicionais, fluiu o investimento para nichos criativos. Só em 2016, startups africanas levantaram US$ 367 milhões, na estimativa da gestora Partech Ventures – valor quase dez vezes superior ao registrado quatro anos antes. O simples surgimento desse tipo de estimativa mostra uma mudança no jeito de avaliar a região. “Há tanta dificuldade [na África] de as pessoas terem acesso a serviços básicos, a produtividade é tão baixa, que as possibilidades de melhoria são inúmeras”, diz Miguel Granier, diretor-geral do Invested Development, o fundo que apostou no iHub e colocou US$ 20 milhões no continente. “Nos negócios, esses desafios se traduzem em ganhos exponenciais. Os riscos são altos, mas as perspectivas de lucro, gigantescas.”

Se os valores envolvidos parecem pequenos para os padrões do Vale do Silício, bastam para fazer florescer startups em países pobres. África do Sul e Nigéria, as maiores economias da África subsaariana, também têm cena empreendedora vibrante e costumam abocanhar, junto com o Quênia, as maiores fatias de capital vindo de fora do continente (numa rodada de investimento em 2015, a empresa de varejo online e de entregas Jumia, fundada na Nigéria por Tunde Kehinde e Raphael Afaedor, foi avaliada em mais de US$ 1 bilhão e tornou-se o primeiro unicórnio da África, bem antes de o Brasil ter o seu, o aplicativo de táxis 99). O exemplo do iHub fez surgir incubadoras em outras cidades quenianas, como a SwahiliBox, em Mombasa, e a Dlab Hub, em Eldoret. Unem-se a um ecossistema que inclui Wennovation e Co-Creation Hub, em Lagos, na Nigéria, blueMoon, em Adis-Abeba, na Etiópia, e Bandwidth Barn, na Cidade do Cabo, África do Sul. Não se trata de euforia local. Há consistência, percebida mundo afora.

Em dezembro, durante um encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou as inovações que vêm da África e ressaltou a importância de cultivar as iniciativas na região. “Além de ser uma oportunidade sem paralelo para a geração de empregos aos mais jovens, a inovação é uma forma eficiente de reduzir o hiato de infraestrutura do continente”, disse Christine. Ela destacou que a tecnologia “molda a África de agora” e que, com os investimentos corretos, “poderá ser a ferramenta mais poderosa para fortalecer a África do futuro”.

O FMI acompanha o Banco Mundial, que escolheu startups como um meio relativamente barato de fomentar o desenvolvimento na região. Em dezembro, por meio do infoDev, um programa que visa organizar e expandir negócios locais ligados à tecnologia, o banco selecionou 20 empresas (de 900 inscritas) para receber até US$ 1,5 milhão em investimentos de um grupo de sete fundos. “O total de inscrições e a qualidade dos casos apresentados são uma mostra de como as startups africanas podem ser competitivas e importantes para o crescimento da economia”, disse Klaus Tilmes, diretor de mercado e competitividade do Banco Mundial, durante a premiação. Destacaram-se fintechs, agritechs e empresas dedicadas a saúde e transportes. Uma nova rodada do infoDev deve acontecer em breve.

É preciso sempre dosar as expectativas, ao avaliar bons momentos em países subdesenvolvidos. Essas nações, com instituições e economias frágeis, costumam cambalear. No caso da África, estamos tratando do continente mais pobre do mundo, acossado por doença, violência, radicalismo e instabilidade política. Entre quenianos, há um debate público bem vivo – será que o ímpeto inovador pode perder o fôlego? É bem possível, dado o histórico de vaivéns comum em países emergentes. Basta lembrar a diferença entre o Brasil eufórico dos anos 2000 e a crise atual. Mas, por enquanto, os quenianos podem celebrar. O país avança há três anos seguidos no ranking Doing Business, do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios. Depois de perder posições, entre 2008 e 2013, o Quênia voltou a avançar e subiu da 129ª para a 80ª posição (ultrapassando o Brasil, que está em 125º). O bom momento, por enquanto, faz as histórias inspiradoras proliferarem mais rapidamente que as previsões pessimistas.

Casos de diferentes dimensões agitam a cena local. No ano passado, após receber investimento de US$ 4 milhões, a BRCK, do engenheiro e empreendedor Erik Hersman, lançou um roteador wi-fi à prova d’água e que se alimenta de energia solar. O equipamento ultrarresistente, projetado para uso em localidades isoladas na África, oferece até cem conexões de internet e consegue sustentar streaming de vídeo para 50 dispositivos no entorno. Sua em- presa já havia lançado um kit educativo que inclui tablets resistentes e com baixo consumo de energia. Os produtos receberam cobertura elogiosa da mídia, na Europa e nos Estados Unidos. Hersman é um dos integrantes da turma original de criadores do iHub e passou a infância entre Quênia e Sudão. Subindo os degraus da pirâmide de investimentos, encontram-se casos como o da plataforma B2B de comércio de alimentos Twiga Foods, criada por Peter Njonjo, que captou US$ 10,3 milhões em 2017, e o da M-Kopa Solar, que no ano passado foi apontada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, como uma das 50 startups mais inovadoras do mundo. A empresa criou um dispositivo de fornecimento pré-pago de energia solar, com manutenção baratíssima, após captar US$ 33 milhões em investimento, em 2015. A M-Kopa foi fundada por três executivos – os ingleses Chad Larson e Nick Hughes, com o canadense Jesse Moore – que haviam trabalhado por anos no Quênia, com telecomunicações e finanças, e decidiram empreender. Se o Quênia dispara startups em série, na Nigéria parece haver outra gigante em gestação, no rastro do unicórnio Jumia.

Trata-se da empresa de e-commerce Fashpa, fundada pela ex-executiva Honey Ogundeyi. Depois de viver anos na Europa, onde trabalhou em companhias como McKinsey, Ericsson e Google, Honey decidiu criar algo que ela mesma gostaria de ter encontrado quando voltou à Nigéria, em 2015 – um canal para compra de roupas online. Partiu de uma ideia simples e a incrementou, com análise de dados detalhada de suas potenciais consumidoras. Em vez de simples- mente revender peças, a Fashpa reuniu artesãs para fabricá-las, depois que Honey descobriu que valeria a pena trabalhar com design exclusivo e inspirado em peças tradicionais. “Logo, logo, teremos mais um unicórnio”, anuncia ela em seu blog, acompanhado por centenas de africanas.

As oportunidades vistas pelos empreendedores nativos não escapam do radar de companhias globais. Elas veem na África duas possibilidades atraentes – a primeira, a expansão de negócios num ritmo impensável em mercados maduros e mesmo na China (a África abriga seis das 12 economias que mais cresceram no mundo de 2014 a 2017, segundo o Banco Mundial); a segunda, um campo de testes de condições extremas para experimentar produtos e serviços.

Por isso o governo chinês apresentou no ano passado uma estratégia de investimento de US$ 60 bilhões no continente. Em 2017, a China superou os Estados Unidos como maior investidor na África, pelos cálculos do jornal britânico Financial Times. Apenas uma fração desse dinheiro vai para empreendimentos de base tecnológica. Mesmo assim, a dinâmica desses negócios parece ser mais benéfica aos africanos do que se pensava anteriormente. A consultoria McKinsey fez uma pesquisa de campo, no ano passado, em oito países africanos. Avaliou a atuação de companhias chinesas de diversos setores, como as fabricantes de equipamentos de telecomunicações Huawei e de celulares Tecno. Concluiu que, na maioria dos casos, elas geram empregos de boa qualidade para africanos, inclusive em cargos de gestão, e que há transferência de tecnologia. Trata-se de uma versão distinta da apresentada pelos que viam o avanço da China apenas como uma nova onda colonialista.

Os mesmos fatores que atraem os chineses levam Microsoft, IBM, Google e Facebook, entre outras, a ter planos ambiciosos por lá. As quatro ajudaram o iHub no início e continuam a fazer parte do ecossistema – mas agora como parceiras de negócios em vez de doadoras. “Elas usam o iHub para prospectar novas oportunidades ou profissionais capacitados para alguns de seus empreendimentos pelo continente”, diz Njoki. Mark Zuckerberg visitou o espaço de co-working em 2016, ainda nas antigas instalações. Saiu de lá falando bem. “É inspirador ver como os engenheiros estão conseguindo criar soluções para ajudar a comunidade”, disse. Em outra parada, na Nigéria, país mais populoso da África, concluiu: “É aqui que o futuro será construído”.

O discurso tem tido resultados práticos. No ano passado, a Microsoft apresentou seu projeto de abrir, em 2018, seus dois primeiros data centers no continente, na Cidade do Cabo e em Johannesburgo, na África do Sul. Facebook e Google anunciaram planos independentes para instalar redes de fibra ótica – respectivamente, 800 quilômetros em Uganda, em parceria com as operadoras locais Airtel e BCS, e mil quilômetros em Gana (o Google já havia instalado outros mil quilômetros em Uganda). As duas empresas avaliam estratégias mais mirabolantes de oferecer cobertura de internet a grandes áreas com custo menor – já falaram em usar drones e balões. Enquanto avaliam essas possibilidades, porém, movimentam-se de forma pragmática, conectando cidades importantes com a boa e velha fibra ótica.

Ao mesmo tempo, a IBM cria um banco de dados sem igual a respeito de uso da água e recursos naturais por tribos no norte do Quênia. O trabalho é conduzido a partir de um centro de inovação em Nairóbi, com coordenação do cientista Jonathan Lenchner, que se instalou na cidade em 2016. Ele foi um dos responsáveis pelas demonstrações públicas da capacidade da inteligência artificial Watson e continua a usar IA em seu trabalho na África. Sua equipe em Nairóbi inclui a engenheira americana Aysha Walcott-Bryant. Parte da rotina dela é sair a campo em busca de dados sobre malária. “O maior desafio é convencer enfermeiras, agentes de saúde pública e a população em geral sobre a importância de preservar informações”, diz Aysha. “Ainda não há aplicação comercial para o que fazemos aqui”, diz Lenchner. “Mas a partir desse trabalho temos subsídios para muitas inovações.” Outra equipe, num centro de inovação similar, em Johannesburgo, África do Sul, estuda políticas de saúde e urbanismo. Os laboratórios da IBM na África produziram, em poucos anos, 22 patentes.

É nas micro finanças, porém, que a África subsaariana se mostra o maior front de experiências do mundo. A região abriga um décimo do total global de assinantes de telefonia móvel e segue com a maior taxa de crescimento no mundo, 6,5% ao ano, segundo a consultoria GSMA. Até 2020, haverá quase 1 bilhão de telefones, metade deles smartphones. O acesso a redes 4G, hoje ainda raro, deverá chegar a quase metade da população. A difusão de serviços móveis tem efeitos mensuráveis em bem-estar e crescimento econômico. Com 250 mil habitantes, Kawangware forma uma das maiores favelas de Nairóbi. As habitações são erguidas com placas de ferro, papelão ou barro. Não há rede de esgoto e o índice de violência é altíssimo. Os desafios para tocar um negócio ali são imensos. Mãe solteira, com duas filhas, Edi Mgaiga, de 33 anos, herdou do pai uma barraca, uma duka, em uma esquina. As dukas, geralmente informais, vendem frutas, vegetais, peixe seco, sabão em barra e arroz à comunidade local. Até pouco tempo, todo dia, antes de abrir a barraca, Edi tinha de fazer longas caminhadas até um kaskazi (espécie de atacadão) para comprar as mercadorias. Voltava com quilos de produtos nas costas, sob o risco de ser assaltada. “A violência é muito complicada por aqui”, conta Edi. “Tinha medo de pedir para minhas filhas fazerem isso. Mas o tempo que gastava para ir e vir do kaskazi era um tempo que eu deixava de vender. Ganhava menos.”

Recentemente, Edi descobriu o Kionect, um sistema que permite a pequenos comerciantes pedir e pagar por pedidos de produtos usando o celular. Agora, logo pela manhã, ela aciona o aplicativo, escolhe o que vai querer e em 20 minutos recebe um motoqueiro com suas mercadorias. “Estou achando uma maravilha”, diz Edi. Criado por iniciativa da Mastercard em parceria com uma startup especializada em micro finanças, a Musoni, o Kionect já atende a mais de mil dukas das regiões mais pobres de Nairóbi. “Foi um grande desafio desenvolver um produto viável economicamente e que pudesse ao mesmo tempo atender a população mais carente do país”, afirma Michael Elliott, vice-presidente da Mastercard para inclusão financeira. “Mas com essa experiência abrimos oportunidades para oferecer esse tipo de solução a vários outros mercados emergentes.” Iniciativas como o Kionect ajudam a fazer do Quênia uma referência mundial em meios de pagamento digitais. O caminho começou a ser traçado em 2007, quando a Safaricom, subsidiária da Vodafone e maior operadora do Quênia, lançou o M-Pesa. O serviço foi o primeiro do mundo a oferecer a comerciantes e clientes a possibilidade de pagar contas usando um aparelho de telefone, e contribuiu de forma decisiva para a inclusão financeira do país. Um estudo do MIT apontou que, simplesmente por ter acesso ao M-Pesa, 2% dos domicílios quenianos foram retirados da pobreza entre 2008 e 2014. Também graças ao M-Pesa o Quênia surgiu pela primeira vez no mapa das grandes empresas de tecnologia, e a África passou a se destacar como um bom destino para investimentos no setor. A alta conectividade (mesmo que por redes 2G e 3G) desempenha hoje um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico da África e é a principal plataforma para inovação em vários países. Não se pode dizer quanto vai durar bom momento, mas há algo em construção – multiplica-se rapidamente o número de ícones locais do empreendedorismo. “A inovação vem do conhecimento, geralmente é um processo que pode ser construído sobre experiências anteriores”, diz Kamal Bhattacharya CIO da operadora queniana Safaricom. Atual presidente do conselho de administração do iHub e mentor de várias startups africanas, Bhattacharya conta que ele próprio passou de incrédulo a entusiasta do movimento de inovação. “No começo, quando vi aqueles jovens em pufes coloridos, tomando café gratuito e discutindo aleatoriamente um monte de ideias, duvidei do que estava acontecendo”, diz. “Hoje, posso afirmar: não há time mais engajado para promover mudanças.”

Da varanda do iHub, Njoki aponta para a vista. “Não é bom estar aqui?”, pergunta. Ela mesma res- ponde: “Os ventos estão favoráveis. Havia espaço para evoluir e estamos abraçando essa possibilidade com todas as nossas forças”.

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PSICOLOGIA ANALÍTICA

Influência do ambiente sobre a percepção

INFLUÊNCIA DO AMBIENTE SOBRE A PERCEPÇÃO

Psicólogos da Universidade Yale tentam descobrir como características dos lugares que frequentamos nos afetam; cientistas já constataram, por exemplo, que cômodos abafados e lotados costumam deixar as pessoas mais tensas.

 Muitos pesquisadores costumam torcer o nariz para assuntos como canais energéticos e cristais. Alguns chegam a admitir que embora não endossem essas práticas, preferem aguardar comprovações para se pronunciarem. Há, porém, prática não comprovada cientificamente – pelo menos por enquanto que desafiam os estudiosos. É o caso, por exemplo, do feng shui, a antiga arte chinesa da ambientação, baseada na crença de que o espaço, a distância e a disposição dos objetos podem afetar as emoções e a sensação de bem-estar. Pessoalmente, a ideia faz sentido para muita gente que se sente mais equilibrada psicologicamente em alguns espaços que em outros, embora não saiba por quê. Alguns pesquisadores já admitem a conexão entre o espaço físico, o pensamento e a emoção, considerando que nossos vínculos, muitas vezes, se misturam à percepção da geografia espacial.

Dois psicólogos da Universidade Yale, nos Estados Unidos, decidiram explorar o poder dessa habilidade em laboratório, para verificar se a influência emocional de um espaço ordenado e aberto é diferente do efeito causado por um ambiente fechado e apertado. Lawrence E. Williams e John A. Bargh investigaram o tema em uma série de experimentos. As pesquisas começaram com o chamado estímulo subliminar, usado para criar uma atitude ou sensação inconsciente. Foi empregada uma técnica simples e eficaz: as pessoas deviam dispor dois pontos em um gráfico, como em um pedaço de papel diagramado. Em alguns casos, as marcações estavam bem próximas, enquanto em outros os pontos apareciam em lugares distantes. Sabe-se que o exercício estimula a percepção inconsciente de espaço congestionado ou amplo.

Em seguida, os pesquisadores testaram os voluntários de outras formas. Em um dos procedimentos, por exemplo, os participantes deviam ler um trecho embaraçoso de um livro e, logo após, eram indagados se a passagem era agradável ou divertida e se gostariam de ler mais sobre o gênero. Williams e Bargh queriam determinar se o senso de distância ou liberdade psicológica podia anular o desconforto emocional. Foi exatamente isso que ocorreu. Os voluntários estimulados pelo ambiente espaçoso se mostraram menos perturbados pela experiência embaraçosa, considerando-a mais agradável do que aqueles que tiveram percepção mais opressiva do mundo.

Os psicólogos realizaram outra versão do mesmo experimento, na qual o trecho do livro era extremamente violento e não embaraçoso. Os resultados foram similares. Os participantes estimulados pelo espaço fechado consideraram os eventos violentos muito mais repugnantes, assim como achamos um acidente aéreo em nossa vizinhança mais perturbador que outro que ocorre a milhares de quilômetros de nós. Williams e Bargh acreditam que essa tendência está ligada às conexões do cérebro entre distância e segurança, um hábito mental que provavelmente evoluiu para ajudar nossos ancestrais a sobreviver em condições precárias.

COMIDA CALÓRICA

Os psicólogos também tentaram explorar mais diretamente a relação entre distância psicológica e perigo real. Os participantes deviam avaliar a quantidade de calorias contidas em alimentos saudáveis e em junk food. Os estudiosos conjeturaram que as calorias da batata frita e do chocolate seriam avaliadas como uma ameaça à saúde, diferentemente das calorias contidas no arroz integral e no iogurte; raciocinaram ainda que as pessoas estimuladas pelo espaço fechado seriam mais sensíveis à ameaça. A pesquisa confirmou essas expectativas: participantes levados a se sentir confinados e em espaços abarrotados avaliaram que havia mais calorias na junk food do que as estimuladas a se sentir livres e em espaços abertos. Quanto à comida saudável, a percepção dos dois grupos foi idêntica.

Publicada na Psychological Science, a pesquisa pareceu convincente. Mas Williams e Bargh decidiram realizar mais um experimento que abordasse diretamente a questão da segurança pessoal. Os pesquisadores perguntaram aos voluntários sobre a força de seus vínculos emocionais com os pais, irmãos e a cidade natal, verificando que os expostos a maior distância psicológica relataram elos frouxos com esses importantes esteios emocionais. Ou seja: a proximidade física revelou também maior ligação emocional. O notável é que tudo se dá de forma inconsciente: a distância espacial entre dois objetos arbitrários tem, aparentemente, força suficiente para ativar um símbolo abstrato de proximidade e segurança no cérebro, que, por sua vez, tem energia suficiente para moldar nossas respostas ao mundo.

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 15-20

O Sermão da Montanha

Temos aqui uma advertência contra os falsos profetas. Devemos prestar atenção para não sermos enganados ou nos deixar impressionar por eles. Profetas são aqueles que preveem as coisas que vão acontecer. Existem alguns, mencionados no Antigo Testamento, que tinham a pretensão de fazer previsões, sem dar nenhuma garantia, e os acontecimentos desmentiram as suas pretensões; dentre eles, estão Zedequias (1 Reis 22.11) e um outro Zedequias (Jeremias 29.21). Os profetas também ensinavam ao povo o seu dever, de modo que os falsos profetas mencionados aqui também eram falsos mestres. Cristo, que além de Messias era um Profeta e um Mestre enviado por Deus com a missão de enviar outros mestres que com Ele aprendessem, está nos advertindo a prestar atenção nos impostores. Ao invés de terem a pretensão de curar as almas com uma doutrina saudável, eles não fazem mais do que envenená-las.

Os falsos mestres e os falsos profetas:

  1. São todos aqueles que afirmam ter certas incumbências, não as tendo. Aqueles que fingem que possuem garantia e orientação imediatas, supostamente enviadas por Deus e divinamente inspiradas; eles estão mentindo. Embora sua doutrina possa ser verdadeira, devemos ter cuidado, pois são falsos profetas. Falsos apóstolos são aqueles que dizem ser apóstolos, mas estão mentindo (Apocalipse 2.2); eles são falsos profetas. “Tome cuidado com aqueles que fingem ter revelações; não os aceite sem provas suficientes, para que um absurdo não seja aceito, seguido de outra centena deles”.
  2. São todos aqueles que pregam uma falsa doutrina sobre tudo aquilo que é essencial à religião. Que ensinam aquilo que é contrário à verdade que está em Jesus, a verdade que está de acordo com a santidade. A primeira dissertação parece ser a verdadeira noção do que é um pseudoprofeta, ou de alguém que finge ser um profeta, enquanto geralmente a última também está de acordo com ela. Pois aquele que exibe cores falsas, a pretexto delas, e com maior sucesso, ataca a verdade. “Tenha cuidado com eles, suspeite deles e, quando tiver descoberto sua falsidade, afaste-se e nada tenha a ver com eles. Fique em guarda contra essa tentação, que nos é geralmente dirigida nos dias da reforma, e do alvorecer de uma luz divina que possui imensa força e esplendor”. Quando a obra de Deus é reavivada, Satanás e seus agentes ficam mais ocupados. Aqui temos:

I – Uma boa razão para ter esse cuidado. Tenha cuidado com eles, pois são lobos vestidos como ovelhas (v. 15).

  1. Precisamos ter muito cuidado por que suas pretensões são muito justas e plausíveis e, assim sendo, irão nos enganar se não estivermos em guarda. Eles aparecem vestidos como ovelhas, usando a mesma vestimenta dos profetas, que era simples, grosseira e tosca. Usarão trajes rudes para enganar (Zacarias 13.4). A Septuaginta chama o manto de Elias de manto de pele de ovelha. Devemos prestar atenção para não sermos iludidos com as vestes e a aparência dos homens, como as dos escribas, que preferiam andar usando vestes longas (Lucas 20.46). Ou, falando figurativamente, eles pretendem ser cordeiros, e externamente parecem ser totalmente inocentes, inofensivos, humildes, úteis e tudo mais que é bom, e se colocam acima de todos os homens. Eles fingem ser homens justos e, por causa da sua aparência, são aceitos entre as ovelhas e isso lhes dá a oportunidade de fazer-lhes o mal sem que ninguém perceba. Eles e suas mentiras estão cercados de ilusórias pretensões de santidade e devoção. Satanás se transforma num anjo de luz (2 Coríntios 11.13,14). O inimigo tem chifre s como um cordeiro (Ap13.11), e as feições de um homem (Apocalipse 9.7,8). Sua linguagem é sedutora e suas maneiras são suaves como a lã (Romanos 16.18; Isaias 30.10).
  2. Também precisamos ter muito cuidado porque sob essas pretensões seus desígnios são mal-intencionados e enganadores e, no seu interior, eles não passam de lobos devoradores. Todo hipócrita a é um lobo com pele de ovelha. Ele não é uma ovelha, mas o seu pior inimigo, que aparece apenas para destruir, devorar e espantar as ovelhas (João 10.12), para levá-las para longe das suas companheiras e de Deus, conduzidas por atalhos tortuosos. Aqueles que pretendem nos enganar com qualquer verdade, e nos dominam com terror, sob qualquer que seja seu propósito, têm a intenção de fazer mal à nossa alma. Paulo dá a eles o nome de lobos cruéis (Atos 20.29). Eles são glutões e servem ao próprio ventre (Roma 16.18), eles lucram conosco e fazem de nós a sua presa. Como isso é muito fácil, e também muito perigoso, tenha cuidado com os falsos profetas.

II – Eis aqui uma boa regra para ser obedecida em nossos cuidados; devemos examinar todas as coisas (1 Tessalonicenses 5.21), e provar todos os espíritos (1 João 4.1). Aqui temos uma prova fundamental, iremos conhecê-los pelos seus frutos (vv. 16-20). Observe:

  1. O exemplo dessa comparação – o fruto serve para revelar a árvore. Nem sempre podemos distinguir a árvore pelo tronco ou pelas folhas, nem pela distribuição dos seus ramos. Somente através dos frutos ficaremos conhecendo a sua natureza, pois o fruto está de acordo com a árvore. Os homens podem, através da sua religião, influir na sua natureza e contradizer princípios interiores, porém a corrente e a inclinação das suas práticas estarão de acordo com ela. Cristo insistiu nesse ponto, sobre a concordância entre a, árvore e o seu fruto.

(1) Se você conhece a árvore, sabe também qual fruto deve esperar. Nunca procure colher uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos. Não faz parte da sua natureza produzir esses frutos. Podemos confundir uma maçã, e um cacho de uvas pode estar pendurado num espinheiro, da mesma maneira que uma boa verdade, ou uma boa palavra ou ação, podem ser encontradas num homem mau, mas esteja certo de que elas nunca nasceram lá. Veja bem:

[1] Corações corruptos, malvados e pecadores são como o espinheiro e o abrolho, que vieram com o pecado, esses corações são inúteis, inquietos e destinados ao fogo.

[2] As boas obras são como os bons frutos, como as uvas e os figos, elas são agradáveis a Deus e proveitosas ao homem.

[3] Nunca podemos esperar um bom fruto de um homem mau, e coisas limpas de coisas impuras, pois a eles falta a influência de um princípio reconhecido. Um mau tesouro irá produzir coisas más.

 (2) Por outro lado, se você conhecer como o fruto é, poderá conhecer como é a árvore que o produziu. Uma boa árvore não poderá produzir maus frutos, assim como uma árvore corrompida não poderá produzir bons frutos, mas apenas frutos maus. Devemos considerar o fruto que é produzido natural e genuinamente por uma árvore, e de forma constante e abundante. Os homens não são conhecidos através de atos particulares, mas pelo curso e teor da sua conduta e pelos atos praticados com mais frequência, especialmente aqueles que parecem ser livres, próprios e isentos da influência de qualquer persuasão ou motivos externos.

  1. A aplicação dessas verdades aos falsos profetas.
  • Através do terror e da ameaça (v. 1 9). Toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada. O próprio João Batista usou essa citação (cap. 3.10). Cristo poderia ter falado a mesma coisa com outras palavras, poderia ter feito alguma alteração ou lhe dado um a nova forma. Mas acreditou que não havia nenhum descrédito para Ele se repetisse o que João Batista havia afirmado antes. Os ministros não devem ser ambiciosos a ponto de produzir novas expressões, nem o ouvido das pessoas ansiar por novidades. Falar e escrever as mesmas coisas não deve ser penoso, pois é mais seguro. Eis aqui:

[1] A descrição de árvores estéreis, árvores que não produzem bons, frutos. Embora os frutos possam existir, se não forem bons a árvore será considerada estéril. Mesmo que as ações representadas por estes frutos sejam provenientes de boas intenções, elas não serão aceitáveis se não forem realizadas da maneira correta, e com os propósitos corretos.

[2] O destino das árvores estéreis. Elas certamente serão cortadas e lançadas ao fogo. Deus irá fazer com eles o mesmo que o homem faz com as árvores secas que ocupam inutilmente terreno. Ele irá marcá-los com algum sinal da sua insatisfação, despindo-os das suas partes e dos seus dons, irá abatê-los até a morte e lançá-los ao fogo do inferno, um fogo atiçado com a ira de Deus e alimentado com a madeira das árvores estéreis. Compare isso com Ezequiel 31.12,13; Daniel 4.14; João 15.6.

  • Através do julgamento. Pelos seus frutos iremos conhecê-los.
  • Pelos seus frutos como pessoas, isto é, suas palavras e atos, e pelo curso da sua conduta. Se você não sabe se estão certos ou errados, observe como vivem. Suas obras irão testificar a favor ou contra eles. Os escribas e fariseus sentavam-se na cadeira de Moisés e ensinavam a lei, mas eram orgulhosos, falsos, opressores e cobiçosos, portanto Cristo preveniu os apóstolos para tomar cuidado com eles e com sua influência (Marcos 12.38). Se os homens fingem ser profetas, mas são imorais, isso irá contradizer as suas pretensões. Qualquer que seja a religião que professam, se o deus a que servem estiver no seu ventre, se só pensarem nas coisas terrenas, não serão verdadeiros amigos da cruz de Cristo (Filipenses 18,19). Não foram ensinados, nem enviados pelo Deus Santo, e suas vidas provam que são guiados por um espírito imundo. Deus coloca tesouros em vasos de barro, mas não em vasos corrompidos como estes. Eles podem declarar os estatutos de Deus, mas de que mane ira devem fazê-lo?
  • Através dos frutos da sua doutrina, dos seus frutos como profetas. Porém, essa não é a única maneira de provar sua doutrina, sejam eles enviados por Deus ou não. O que eles tendem a fazer? A quais sentimentos ou práticas guiarão aqueles que os aceitam? Se a doutrina for de Deus, ela promoverá uma sincera piedade, humildade, caridade, santidade e amor, além de outras virtudes cristãs. Mas, se ao contrário, as doutrinas pregadas por esses profetas revelarem uma manifesta tendência para tornar as pessoas orgulhosas, mundanas e provocadoras, negligentes e descuidadas em suas condutas, injustas, exigentes, revoltadas ou perturbadoras da ordem pública, se elas toleram a liberdade sexual, e afastam as pessoas do autocontrole e das suas famílias, de acordo com as rigorosas leis do caminho estreito, podemos concluir que essa persuasão não vem daquele que nos chamou (Gálatas 5.8). Essa sabedoria não vem do alto (Tiago 15). A fé e uma boa consciência sempre caminham juntas (1 Timóteo 1.19; 3.9). Veja que as doutrinas de duvidosa controvérsia devem ser comprovadas através de graças e deveres devidamente confessados. Essas opiniões não vêm de Deus e levam ao pecado. Se não pudermos conhecê-los pelos seus frutos, devemos recorrer à grande pedra fundamental, à lei e ao testemunho. Será que eles falam de acordo com essa regra?

GESTÃO E CARREIRA

A revolução na educação executiva

A REVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO EXECUTIVA

Escolas de negócio tradicionais viram seus currículos do avesso para se manter relevantes em um mundo onde já é possível aprender (quase) tudo pela internet. Enquanto isso, as nascidas na era digital crescem e multiplicam seus lucros – e discípulos. Aonde vai dar a nova corrida pelo conhecimento.

Na era pré-smartphone – e lá se vai pouco mais de uma década –, tudo parecia mais fácil. A estrada rumo ao topo da pirâmide era sinalizada por meia dúzia de escolas de grife, cursos de línguas estrangeiras e temporadas no exterior. Para um trainee, a diferença entre o descarte do currículo e um telefonema do RH para a ambicionada entrevista poderia estar no inglês fluente e na chancela de “uma boa faculdade”. A fim de escapar do cruel funil das empresas, pais aconselhavam filhos a prestar concursos públicos (garantia de estabilidade) ou a se tornar profissionais liberais (garantia de prestígio). Sonhos de consumo, medicina, engenharia e direito garantiam status ad infinitum. Para quem se decidia por carreiras executivas, por vocação ou falta de alternativa, a saída era chegar “por baixo” à selva corporativa, coma certeza de que a promoção dependeria de outros fatores. Para a diretoria, um diploma de MBA sempre contou pontos decisivos. Melhor ainda se viesse com o brasão das top 10 do ranking do Financial Times. Harvard e Insead arrancavam suspiros de pares, recrutadores e chefias. Estudantes não tinham dúvida alguma sobre o retorno sobre o investimento, de tempo e dinheiro, a curto, médio e longo prazos. Conquistas escolares, portanto, exerciam efeito calmante na trajetória profissional, sustentavam cargos e mantinham a ordem e o progresso do lucrativo mercado de educação executiva.

Grosso modo, esse roteiro funcionou por décadas como o alarme do bedel (ok, vale um Google aqui). Agora, contudo, despontam inequívocos sinais de esgotamento. Em um momento de previsões nefastas sobre o futuro do trabalho e o progressivo desaparecimento dos empregos (800 milhões até 2030, segundo os cálculos da McKinsey) e de profissões tal qual as conhecemos hoje por conta do avanço da tecnologia, as garantias simplesmente aca-ba-ram. Para escolas, estudantes e empresas. A estrada deixou de ser linear e cedeu lugar ao sinuoso espectro das angústias. O escritor Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, capturou esse novo estado de ânimo: “Nem todos vão conseguir se reinventar. Até 2050 veremos o surgimento de uma nova classe, a dos inúteis”, escreveu, em artigo publicado no The Guardian e lido por milhões de usuários únicos na internet. Em um país como o Brasil, em que a taxa média de desemprego anual atingiu 12,7%, a maior da série histórica do IBGE, as apocalípticas palavras de Yuval atingem volume mais alto. O fantasma não é só o desemprego – e sim a completa inutilidade. E ronda cada escalão da vida corporativa. “O problema é que o modelo de educação tradicional foi construído segundo a lógica industrial. E isso não funciona mais”, pondera Pascal Finette, chefe do programa de empreendedorismo e inovação aberta da Singularity University (SU)

A SU foi fundada há dez anos, por Peter Diamandis e Ray Kurzweil, no auge da crise financeira internacional, e logo se tornou referência no ensino de inovação e tecnologia. Instalada no Vale do Silício, tem como investidores empresas como Google, Cisco e Nokia. O indiano Salim Ismail, ex-CEO da SU, ajudou a fazer a fama internacional da escola ao escrever o best-seller Organizações Exponenciais, em 2014. O lançamento foi sucedido por um boom de popularidade. No livro, ele fala sobre a competição entre empresas em um mundo que muda em altíssima velocidade – e em que concorrentes (leia se startups) podem devorar uma corporação antes mesmo desta se dar conta da existência deles. Sua mensagem central, de tom otimista, é que uma empresa pode multiplicar seu crescimento por dez com mudanças de gestão e tecnologia. Por isso, precisam de líderes que saibam fazê-las. No campus da SU, os alunos aprendem a pensar exponencialmente

em soluções para os grandes problemas da humanidade – e não necessariamente nos consumidores dos produtos da sua empresa. É com essa proposta, humanista, mas de forte viés tecnológico, focada em cursos curtos e corpo docente que muda a cada temporada, que a SU tem atraído a elite corporativa global para o seu campus, instalado numa base de pesquisa da Nasa. Dezenas de brasileiros, a exemplo de Rodrigo Galvão, presidente da Oracle no Brasil, e Paula Bellizia, da Microsoft, já foram para lá ao custo de pequenas fortunas. Uma semana sai por US$ 14,5 mil. Os brasileiros, aliás, têm se tornado público cativo e, hoje, respondem por cerca de 20% da clientela. Não à toa, atraiu a atenção de grupos como HSM (o braço de educação executiva da Anima) e Mirach, de Porto Alegre, fundado por um dos embaixadores da SU, Francisco Milagres. Juntos, eles vão realizar o SU Global Summit, em São Paulo, em abril deste ano. O evento consumiu US$ 1 milhão em investimentos. “A Singularity é uma escola muito especial. Atrai os líderes porque tem um propósito claro: usar a tecnologia para gerar impacto na vida de milhões de pessoas”, diz o CEO da HSM, Guilherme Soárez, fazendo coro ao que é frequentemente dito por Diamandis.

No Brasil, a SU conta com seis embaixadores, em São Paulo, Recife, Brasília, Porto Alegre, Uberlândia e Belo Horizonte. “Durante uma semana, aprendi mais do que em um ano inteiro”, diz Conrado Schlochauer, ex-aluno da escola e, agora, o seu embaixador paulista. Por lá, as disciplinas que pautam o programa acadêmico são bem diferentes das encontradas nas tradicionais escolas de negócio: neurociências, genética, inteligência artificial, cyber segurança. Ex-CEO do LinkedIn no Brasil, Osvaldo Barbosa diz ter voltado da SU com a cabeça bem mais aberta. “Saí com conhecimentos sobre aspectos do setor de tecnologia que nunca tinha reparado antes, ainda que tenha dedicado toda a minha carreira à área”, afirma ele, que voltou ao Brasil para estruturar um fundo de investimento em startups. A Singularity também subverte a ideia clássica que temos a respeito de um professor, e recruta biomédicos, hackers, gerontologistas e astronautas, com uma quedinha por empreendedores. Todos são entusiastas do que vem por aí, desde que façamos a nossa parte. Em um trecho do documentário The University, que conta a história da escola, o ex-astronauta e professor de robótica da SU, Dan Barry, diz: “Você está preocupado, achando que os robôs vão dominar o mundo? Se você sair da sala e trancá-los, 99% deles não vão conseguir sair. Vão bater na porta até ficar sem bateria”. Mas alerta. “Não se esqueça de que eles têm potencial.” O lançamento dos cursos da SU no Brasil, no fim do ano passado, foi feito à boca pequena, mas lotou o auditório da IBM em uma noite quente de dezembro, em São Paulo. Na plateia, formada pela “galera exponencial” de potenciais interessados, como diziam os organizadores, estava o executivo Jean Saghaard, 44 anos, que há um ano procura recolocação. Com experiência no mercado financeiro e no de educação, além de um MBA da HEC, de Paris, na bagagem, Jean explica o que o atraiu. “A Singularity goza das mesmas vantagens de uma startup. Foi criada com um modelo voltado para o futuro. Nas escolas tradicionais, a inovação acaba sendo incremental. O currículo não muda na velocidade necessária. Por isso, fico muito mais tentado a estudar lá que reprisar um MBA”, afirma Jean. Ele acabou de fazer um curso de Digital Product Leadership, com a duração de dois meses, no Tera, uma edtech (como são chamadas as novas startups de educação) com um cardápio de cursos inteiramente voltado para novas habilidades digitais. Fundada pelo empreendedor Leandro Herrera, 32 anos, a Tera aposta em um novo modelo para ensinar “habilidades do século 21” para seus alunos. Um dos mais populares é o Boot Camp, em que o aluno desenvolve competências em pouco tempo e de forma bastante pragmática: o formato atende quem tem por objetivo encontrar emprego em novas carreiras. Dois exemplos: cientista de dados e designer de experiência do usuário (UX). “Você não vai achar um programador com MBA em negócios. Um MBA para designer UX faz zero diferença. O mercado de tecnologia não olha para títulos, e sim para capacidade de entrega”, diz Herrera, que fundou há pouco mais de um ano a escola, que está, segundo ele, em franca expansão. Na mesma praia está a Gama Academy, de Guilherme Junqueira, 29 anos. Sua startup só atua sob demanda de empresas que não estão conseguindo encontrar os profissionais certos no mercado. “O mundo andou mais rápido que as escolas normais, e as empresas não conseguem achar pessoas com o perfil que precisam. É aí que eu entro”, diz Junqueira. Depois de ser reconhecido como o melhor professor da pós-graduação do Insper, uma das escolas de negócio mais prestigiadas do Brasil, Liao Yu Chieh, 41 anos, também decidiu fundar a sua própria edtech, a Idea9, plataforma de treinamento corporativo. Funciona como um Netflix empresarial. A diferença é que tanto empresas quanto alunos pagam pelo acesso aos conteúdos. “Vi que existia um gap no mercado para habilidades específicas, e que as universidades não teriam condições de oferecer os cursos na velocidade que os executivos precisam”, diz Liao, que já colocou módulos inteiros no WhatsApp.

Uma outra modalidade de ensino que tem crescido substancialmente são os MOOCs, ou massive open online courses (veja quadro na pág. 64). Nesse caso, os cursos são oferecidos em plataformas online, de forma gratuita ou a baixo custo. É o caso da Coursera, da edX (fruto de uma parceria entre MIT e Harvard) e da Udacity. Navegar pelo menu de ofertas dessas plataformas é uma experiência interessante. Os temas que desfilam na tela são bitcoin, python, ciências de dados… Destaque para uma diferença fundamental: é o próprio aluno quem monta o roteiro de aprendizado, e não a escola. “O objetivo é oferecer flexibilidade e personalização”, diz o CEO da edX, Anant Agarwal. Ao final, o aluno não recebe um só diploma, válido para a vida inteira, e sim um “nanodegree”. A intenção é que os estudantes colecionem tantos micro certificados quanto forem necessários ao longo de sua carreira.

Responsabilizar os alunos, e não somente os professores, pelo aprendizado, é a pegada da Hyper Island, da Suécia (veja entrevista exclusiva com a CEO, Sofia Wingren, na pág. 70), que ganhou o honroso apelido de Harvard Digital. Aqui, contudo, o foco não são habilidades técnicas, e sim os chamados soft skills, como a capacidade de adaptação mencionada por Finette no início desta reportagem. A Hyper chegou ao Brasil há quatro anos. Não tem sede física (exceto na Suécia, Reino Unido e Cingapura), professores fixos ou grades curriculares. Oferece workshops, consultoria e as chamadas máster classes, que duram não mais de três dias e têm por público-alvo executivos de alto escalão de diferentes indústrias. Seus instrutores não são celebridades do mundo acadêmico. Podem muito bem ser mágicos, performers e até crianças. As aulas são sempre diferentes, uma “experiência”. “Nós entendemos que 50% do conhecimento está entre os próprios alunos. E os ensinamos a fazer as perguntas certas”, diz a guatemalteca Nathalie Trutmann, diretora-executiva da Hyper Island para a América Latina. Apesar da curta duração, os cursos de três dias chegam a custar mais de US$ 3mil. “A experiência que oferecemos é um produto de luxo”, diz Nathalie, que tem em sua lista de clientes empresas como Itaú, Bayer, Gerdau e Philips. Dona ela mesma de um MBA no Insead, Nathalie explica que os executivos chegam pautados pela urgência da “transformação digital”. “O C-Level vem até nós em busca da realidade prática, e não de teoria”, diz. A abordagem tem dado certo: só no ano passado, a escola viu o interesse dos brasileiros dobrar. Mais de 2 mil executivos passaram por seus treinamentos. Entre eles, Enzo Devoto, vice-presidente de marketing para a América Latina da Unilever, entusiasta do método. “A Hyper é o melhor parceiro para te ajudar a hackear o seu negócio e ter sucesso em um mundo volátil”, diz Enzo, usando um verbo moderninho. Faz alusão à sigla VUCA, usada para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) dos tempos atuais.

Assim como a Hyper Island, a Berlin School of Creative Leadership começou fazendo sucesso entre a turma da economia criativa antes de conquistar alunos de outras indústrias. No Brasil desde o início de 2017, a escola alemã foi fundada em 2006 por um grupo de executivos que se diziam cansados da “tirania da mediocridade”. Entre eles, o publicitário Michael Conrad. Neste ano, a escola deve colocar em prática o conceito de Co-Teaching, em que empreendedores digitais trocam conhecimento com profissionais criativos. “Aprender é um processo de interação”, afirma a CEO, Susann Schronen. O MBA da Berlin School custa ¤ 55 mil.

Um ativo importante embutido no preço de todas essas escolas é a potencial rede de contatos formada pelo aluno durante as “experiências”. Não importa apenas o que você está aprendendo, mas com quem está aprendendo. Uma grande sacada é misturar profissionais de diferentes indústrias, até então acostumados a conviver somente em seus silos. Ao colocá-los em um mesmo barco para viver experiências “memoráveis”, são construídos laços profissionais mais fortes. Com todo mundo junto e misturado, forma-se uma comunidade que, em certa medida, aplaca a angústia trazida pelo VUCA.

A startup Knowledge Exchange Sessions (KES) foi idealizada justamente para tocar nesse nervo, explicam os sócios-fundadores Maria Juliana Giraldo e Ricardo Al Makul, ambos sem experiência prévia em educação, mas muita em marketing. “A essência da nossa proposta é a troca de conhecimento entre os próprios alunos”, afirma Maria, enquanto celebra o terceiro ano de vida da empresa. “Até ontem, isso era um ppt”, brinca, em meio a dezenas de executivos, de CEOs a conselheiros de empresas, que pagaram R$ 22 mil (combo válido para duas pessoas) pelo “trek” de seis palestras, incluindo a de Finette. No terraço, enquanto esperam que o guru comece a falar sobre startups, eles trocam cartões e aproveitam a farta mesa do café da manhã. Garçons servem espumante; à mesa, há frutas, doces, diversos tipos de pães e até um panetone gigante, intocado. Além das palestras com “figurões digitais”, o cardápio inclui viagens para o Vale do Silício e Tel-Aviv, ao custo de US$ 6 mil per capita. “Estamos dando certo porque não ficamos presos aos modelos engessados das escolas de negócios”, diz Makul. No começo deste mês, mais um grupo partiu rumo ao Vale – entre eles, Arthur Grynbaum, CEO de O Boticário. Um alto executivo que preferiu não se identificar baixou a voz e cochichou para a reportagem: “Se eu não aprender nada, pelo menos aumento as chances de emprego”.

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 Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Na cabeça de quem voltou da morte

EQM – NA CABEÇA DE QUEM VOLTOU DA MORTE  

O fenômeno fascina leigos com relatos da visão do próprio corpo observado do teto, imagens de túneis que levam à luz e o encontro com parentes e amigos já falecidos. Para psicólogos, médicos e neurocientistas, esse estado de consciência tão específico, relatado por pessoas em todo o planeta, pode revelar informações importantes sobre o funcionamento do cérebro e da mente.

Em 1943, Georgie Ritchie escreveu o livro Voltar do amanhã (Nórdica, 1980), no qual conta que, quando era um jovem soldado, foi convocado para se apresentar num batalhão cuja sede ficava no meio do deserto. Durante vários dias foi açoitado por uma tempestade de areia e contraiu pneumonia, numa época em que ainda não havia antibióticos. Após um período de febre intensa e violentas dores no peito, foi declarado morto e colocado num pequeno cubículo, envolvido por lençóis. Um enfermeiro, porém, convenceu o médico de plantão a aplicar uma injeção de adrenalina no coração do jovem soldado. Depois de ter estado “morto” durante nove minutos, Ritchie recobrou a consciência, para grande espanto de todos, e confessou que durante esse tempo viveu uma experiência intensa, da qual se lembrava perfeitamente bem.

No início ele evitava falar sobre o assunto, pois temia a opinião alheia. Mais tarde escreveu o livro sobre o que lhe aconteceu naqueles nove minutos. Posteriormente, formou-se em medicina e fez residência em psiquiatria. Tornou-se professor e passou a evocar sua experiência durante as aulas. Um desses futuros médicos, Raymond Moody, ficou de tal forma intrigado com o relato de Ritchie que começou a pesquisar o que poderia se passar com os pacientes durante situações críticas. Em 1975, Moody publicou A vida depois da vida (Butterfly Editora, 2004), na qual cunhou o termo near death experience – em português, experiência de quase morte (EQM).

Depois do relato de Moody, numerosos casos de EQM foram descritos na literatura médica. O cardiologista holandês Pin van Lommel, autor de Consciousness beyond life: the science of the near-death experience (Harper, 2010), publicou em 2001 na revista The Lancet uma série de 344 casos de EQM num estudo prospectivo em hospitais da Holanda. Van Lommel e sua equipe revisaram os prontuários e ouviram o relato desses pacientes. Foram analisados o tempo de parada cardiorrespiratória (PCR), as drogas utilizadas na reanimação e o resultado dos exames realizados no período de reanimação.

Ao publicar seu primeiro livro, em 1975, Moody descreveu os elementos característicos das EQMs, enfatizando que a maior parte das pessoas experimenta apenas alguns deles. Cada EQM é uma experiência única, vivida de forma coerente, e não como uma série de elementos distintos. A ordem em que as vivências são citadas pode variar. Há trabalhos comparativos entre os elementos descritos antes e depois de 1975. Esses estudos procuraram averiguar se a enorme publicidade dada ao livro de Moody teria influenciado o conteúdo dos relatos de EQM. Autores concluíram que os relatos são semelhantes, exceto talvez a referência ao túnel, menos frequentemente citado antes de 1975. Mas as EQMs e seus efeitos sobre as pessoas que a vivenciaram parecem ser os mesmos no mundo inteiro. Algumas poucas diferenças podem ser atribuídas à cultura. Um estudo transcultural mostra que alguns elementos, como o filme da vida do sujeito e a experiência do túnel, são menos comumente relatados pelas populações indígenas da América do Norte, da Austrália e das ilhas do Pacífico Sul.

POR QUE ISSO ACONTECE?

Várias hipóteses têm sido aventadas para explicar o fenômeno. Em 2001, o doutor em medicina Sam Parnia e seus colaboradores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, realizaram estudo prospectivo de EQMs ocorridas durante PCR. Durante um ano, eles entrevistaram sobreviventes das unidades coronariana e de emergência do Hospital Geral de Southampton. Dos 63 pacientes ouvidos, apenas sete (11%) do total relataram alguma memória do momento da reanimação, dos quais quatro preencheram os critérios para EQM (6,3%), e a citaram como agradável. Embora o estudo de Parnia não obtivesse um número de pacientes com EQM suficiente para comparações estatísticas, houve uma pequena diferença entre os grupos quanto aos níveis médios de sódio e potássio, pressão parcial de CO2 (pCO2) ou medicamentos administrados durante a parada cardíaca. Curiosamente, pessoas que passaram por EQMs tiveram pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (pO2) duas vezes mais elevada do que no grupo de controle.

No amplo trabalho prospectivo realizado por Van Lommel, também em 2001, foram analisados 344 pacientes em dez hospitais da Holanda. Todos estiveram clinicamente mortos e foram submetidos à ressuscitação cardiorrespiratória (RCR) bem-sucedida. Do total, 62 (18%) relataram alguma recordação durante o tempo de morte clínica, 21 (6%) tiveram uma EQM superficial e 41 (12%), EQM significativa. Entre estes últimos, 23 (7%) relataram EQM profunda ou muito profunda. Van Lommel não conseguiu associar nenhuma causa psicológica, neurofisiológica ou farmacológica para explicar a experiência.

Em pesquisa publicada em 2003, o pesquisador da Universidade de Michigan Bruce Greyson, autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs, entrevistou pacientes nos primeiros seis dias de internação na unidade de tratamento cardíaco e na unidade semi-intensiva de cardiologia do Hospital da Universidade da Virgínia. Dos 1.595 incluídos na amostra, 27 (2%) preencheram os critérios para a EQM. Daqueles que relataram EQM, 41% tiveram parada cardíaca, 26%, infarto do miocárdio, 22%, angina instável e 11%, outros diagnósticos cardíacos. Dos 105 com parada cardíaca, 10% tiveram EQM; outros 81 (5%) descreveram EQM que ocorreram durante um episódio anterior que envolveu risco de vida. Greyson não encontrou nenhuma correlação entre várias medidas médicas, incluindo proximidade objetiva da morte (por exemplo, perda de sinais vitais), índice de prognóstico coronariano e classificação da função cardíaca com a incidência de EQMs. No entanto, os pacientes internados com parada cardíaca relataram, de forma enfática, mais EQMs (10%) do que os pacientes internados com outros diagnósticos cardíacos (3%).

A alteração de oxigênio e gás carbônico ocorrida durante a parada cardíaca em pacientes que tiveram EQM foi pesquisada por Klemenc-Ketis e colaboradores da Universidade de Maribor, na Eslovênia, em 2010. Eles pesquisaram medidas de pressão parcial de CO2 exalado no final da expiração (petCO2), pCO2, pO2 e níveis de sódio e de potássio séricos. Pacientes com petCO2 e pCO2 mais elevados relataram significativamente mais EQM. As pontuações das EQMs também foram positivamente correlacionadas com os níveis de pCO2 e potássio sérico. Os pacientes com pO2 mais baixo tiveram mais EQM, porém a diferença não foi expressiva.

Citado por Van Lommel, um dos mais emblemáticos casos de EQM se refere a uma jovem mulher que, operada de um aneurisma cerebral, teve uma EQM profunda na cirurgia. Durante o procedimento, seu corpo foi resfriado e foi realizada circulação extracorpórea. Ela estava sob efeito de anestesia geral, os olhos estavam cobertos por bandagens para evitar ressecamento e foram colocados tampões nos ouvidos. Apesar de não ter nenhuma atividade elétrica cortical e no tronco encefálico, a paciente passou por uma profunda EQM. Ela se surpreendeu ao ver que um médico tentava realizar algum procedimento na região de sua virilha direita e o ouviu dizer ao neurocirurgião que “não estava conseguindo…”. Seu interlocutor sugeriu então que ele que fosse para o outro lado da mesa cirúrgica. Tratava-se da canalização da artéria femoral para realizar a circulação extracorpórea. A moça havia sido informada de que sua cabeça seria aberta com uma serra, mas o que viu na mão do médico foi um objeto parecido com sua escova de dentes elétrica. Ela descreveu inúmeras situações ocorridas na sala de cirurgia – as quais, estando ela anestesiada, com o corpo resfriado, o coração parado e o cérebro inativado, jamais poderiam ter sido percebidas. A equipe cirúrgica confirmou todos os relatos, embora nenhum profissional conseguisse explicar como a jovem pôde ter acesso a todas essas informações.

A mais abrangente pesquisa sobre EQM realizada até o momento foi o estudo multicêntrico dirigido por Sam Parnia, diretor do The Human Consciousness Project, da Universidade de Southampton, o AWARE (Awareness during Resuscitation), concluído em 2008 e publicado em 2014. Durante quatro anos foram entrevistados 2.060 sobreviventes de parada cardíaca em 15 hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Todos foram submetidos a testes específicos com o propósito de identificar a incidência e a validade de relatos de consciência durante parada cardíaca. Para avaliar a precisão das alegações de percepção visual durante a parada cardíaca, cada hospital instalou entre 50 e 100 prateleiras em áreas onde a ressuscitação de paradas cardíacas era considerada provável de ocorrer. Cada prateleira continha uma imagem apenas visível acima dela. Estas imagens foram instaladas para permitir a avaliação de relatos de consciência visual.

Entre as 2.060 pessoas, 140 sobreviventes fizeram as entrevistas da fase 1, enquanto 101 dos 140 pacientes completaram a etapa 2. Do total, 46% relataram memórias com sete temas cognitivos principais: medo; animais/ plantas; luz brilhante; violência/perseguição; déjà-vu; família; recordações de eventos pós-parada cardíaca. Apenas 9% tiveram EQM e 2% descreveram a recordação explícita de ver e ouvir eventos reais relacionados à sua ressuscitação. Entre os que apresentaram EQM não houve registro de pacientes que contaram ter visto os alvos colocados nas prateleiras. O argumento para a não visualização desses objetos é que 78% das paradas cardíacas ocorreram em locais onde não havia prateleiras com alvos previamente colocados.

Os autores do estudo concluíram que os sobreviventes de parada cardíaca vivenciaram ampla gama de memórias após PCR, incluindo experiências assustadoras e persecutórias, e que tiveram momentos em que acreditavam estar conscientes. Os pesquisadores reconhecem, porém, que outros estudos são necessários para delinear o papel explícito e implícito da parada cardíaca e seu impacto na ocorrência de eventuais transtornos de estresse pós-traumático (TEPT) entre os sobreviventes.

PESSOAS CEGAS

Os doutores em psicologia Sharon Cooper, professora da Universidade de Nova York, e o professor Kennety Ring, da Universidade de Connecticut, cofundador e ex-presidente da Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte, analisaram vários casos de pessoas cegas que relataram o fenômeno. Um dos casos é o de Vicki Umipeg, uma mulher de 43 anos, moradora do estado de Washington, que teve duas EQMs. A primeira, quando ela tinha 12 anos de idade, ocorreu em 12 de fevereiro de 1962, quando teve uma crise de apendicite e peritonite. A segunda foi quase exatamente uma década depois, na noite de 2 de fevereiro de 1973, quando foi gravemente ferida num acidente de automóvel.

Vicki nasceu prematura, com apenas 1,5 kg, na 22a semana de gestação. Como era comum ocorrer com crianças prematuras na metade do século 20, foi colocada numa incubadora para administração de oxigênio, mas houve falha na regulagem da quantidade de oxigênio e Vicki recebeu uma dose excessiva, que provocou lesão definitiva nos nervos ópticos dos dois olhos. Em razão disso, ela nunca teve experiência visual durante toda a sua vida.

Das duas EQMs, a mais vívida e detalhada foi a ocorrida aos 22 anos. No início de 1973, Vicki, trabalhava eventualmente como cantora em uma casa noturna em Seattle. Uma noite, após a apresentação, ela não conseguiu chamar um taxi para levá-la para casa. A única opção era aceitar carona do casal de patrões, embora ambos estivessem embriagados. Na viagem ocorreu um sério acidente e Vicki foi jogada para fora do veículo. Sofreu fratura de crânio e concussão cerebral, lesões no pescoço e nas costas e quebrou uma perna.

Vicki lembra-se claramente dos segundos que antecederam o acidente, mas tem lembranças nebulosas de ter estado “fora do corpo” – foi quando diz ter visto, de vislumbre, o veículo amassado. Foi nesse momento que ela afirma ter tido a sensação de que se encontrava num corpo não físico “como se fosse feito de luz”. Ela não se recorda da sua ida para o hospital na ambulância, mas, quando chegou à sala de emergência, recobrou a consciência e estava no teto do cômodo, assistindo a um médico e a uma mulher (ela não soube especificar se era médica ou enfermeira) trabalhando em seu corpo. Ela ouvia a conversa entre eles, que comentavam a ocorrência de um possível dano do tímpano e falavam do receio de que, além de cega, ela se tornasse surda. Vicki tentou desesperadamente se comunicar com eles dizendo que estava bem, mas obviamente não obteve resposta. Ela estava consciente de ver o próprio corpo abaixo dela.

Ela primeiro percebeu uma imagem muito fraca de si mesma deitada na maca de metal e estava segura de que fosse ela, embora tenha levado um momento para registrar esse fato com certeza. Em seu relato diz: “Sabia que era eu… Eu era muito magra, na época. Era muito alta e magra. E eu reconheci que era um corpo, mas nem sabia que era o meu, inicialmente. Quando eu percebi, estava no teto e pensei: ‘Isso é meio estranho. O que estou fazendo aqui em cima? ’. Em seguida pensei: “Bem, este deve ser eu, será que estou morta”? ’. Só vi esse corpo brevemente, sabia que era o meu porque eu estava fora dele. Eu estava longe dele”.

Ela relata que depois disso se viu subindo pelo teto do hospital até que alcançou do telhado do edifício. Desfrutou da vista panorâmica e sentiu-se inundada por uma intensa sensação de alegria, liberdade e movimento. Em seguida se deu conta de que ouvia uma música harmoniosa, bastante agradável, “semelhante ao som de sinos ao vento” e percebeu que estava sendo sugada pela cabeça para dentro de um túnel. “O lugar era escuro, mas estava ciente de que me movia em direção a uma luz”, diz.

Quando alcançou a abertura do túnel, a música que tinha ouvido antes se transformara em hino (semelhante ao que ela escutou anos mais tarde, na EQM posterior). Então ela “rolou para fora” e deu-se conta de que estava deitada na grama. Estava rodeada por árvores e flores e grande número de pessoas, em um lugar de intensa luz, que podia sentir tão bem quanto ver. Até as pessoas que ela viu eram brilhantes. “A luz transmitia paz, amor e era como se isso viesse do ambiente, dos pássaros e das árvores.”

Vicki então tomou consciência da presença de pessoas que ela havia conhecido em vida e a estavam acolhendo naquele lugar. Havia cinco pessoas já falecidas que ela conhecera. Diane e Debby eram colegas cegas da escola, com 6 e 11 anos, respectivamente, na época de sua morte. Além de cegas, ambas tinham um retardo mental profundo, mas agora pareciam brilhantes, belas, saudáveis – e muito vivas. E já não eram crianças. Vicki distinguiu ainda um casal de cuidadores seus na infância, o senhor e senhora Zilk. Finalmente, Vicki viu sua avó, que se aproximou para abraçá-la. Vicki disse que, nesses encontros, nenhuma palavra foi dita: mas tinha consciência dos sentimentos de amor e bem-estar. No meio desse arrebatamento, ela de repente foi dominada por uma sensação de conhecimento total. “Tive a impressão de que sabia tudo e de que tudo fazia sentido. Eu só sabia que este era o lugar onde eu iria encontrar as respostas para todas as perguntas sobre a vida, sobre os planetas, sobre Deus e sobre tudo… Era como se o lugar fosse o próprio conhecimento.”

Ela relata que, em dado momento, se viu na presença de um “ser de luz”, profundamente amoroso, que lhe mostrou uma espécie de filme de toda a sua vida e a advertiu de que ela deveria voltar. “Em seguida, fui conduzida de volta ao meu corpo, que estava terrivelmente doloroso, muito pesado, e me lembro que eu me senti muito mal.”.

O ponto mais discutível na EQM de Vicki e de todos os pacientes cegos de nascença é a questão de como alguém que nunca teve experiência da visão possa, de repente, ver – e compreender o que está vendo. O cego de nascença tem a experiência das formas (pois pode tocar), do olfato, da audição e das palavras, mas nunca viu absolutamente nada. E nem sequer tem a experiência do que significa ver. Em última análise, pode-se perguntar como uma pessoa em coma devido a graves lesões cerebrais, cega desde o nascimento, pode ter visões tão nítidas, algumas das quais puderam ser comprovadas. O que se sabe com certeza é que os relatos de pessoas cegas que passaram por EQM constituem um desafio para a ciência e nos obriga a repensar o que sabemos sobre consciência e cérebro.

CASOS DE EPILEPSIA

Pacientes com epilepsia do lobo temporal têm sido objeto de estudo por apresentarem manifestações críticas parecidas com as descritas em EQM. Os doutores em psicologia e neurociência Willoughby B. Britton e Richard R. Bootzim, da Universidade do Arizona, analisaram 43 pacientes com epilepsia temporal, dos quais 23 apresentaram EQM com pontuação mínima na escala de Greyson.

Um trabalho publicado na Nature por Olaf Blanke, diretor do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Instituto Cérebro-Mente, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, teve grande repercussão nos meios científicos e na mídia em geral. Ele descreveu o caso de uma paciente epiléptica que, após estimulação elétrica do córtex do giro angular, viveu a sensação de sair do corpo. Como ela se viu no teto do centro cirúrgico, mas teve uma visão deformada de suas pernas, o fenômeno é chamado pelos especialistas de “incompleto”.

Em outro artigo, Blanke propôs uma nova explicação neurológica para esse fenômeno. O pesquisador descreveu seis pacientes, três com relatos de saídas do corpo atípicas e incompletas, que não tiveram percepção “a partir do teto” de elementos verificáveis concernentes a eles mesmos ou ao ambiente. Quatro deles relataram ter tido a visão de seu próprio duplo a partir do seu corpo. Blanke considerou a de corporação como “uma ilusão causada pela disfunção temporária ou lesão no lobo temporal e ou parietal”.

O pesquisador Michael Persinger, que realizou grande número de experimentos de estimulação magnética transcraniana, afirma ter desencadeado fenômenos psíquicos causados pelo bloqueio ou pela estimulação de campos eletromagnéticos do cérebro. Os fenômenos são episódios próximos do sonho, semimísticos, com luz ou música e sensação da presença de outros seres. Essas informações guardam alguma semelhança com as descrições de uma EQM. Por outro lado, o trabalho de Persinger não foi corroborado por experimentos semelhantes realizados na Suécia, onde os pacientes nem sequer sabiam que seriam estimulados.

SOB EFEITO DE DROGAS

Apesar de intensos esforços de cientistas, nenhum estudo esclarece completamente ainda como um indivíduo é capaz de manter a consciência de forma aguda ou mais alerta em uma situação de quase morte. Mas algumas situações são capazes de provocar experiências parecidas, como o aumento de concentração sanguínea de CO2 (hipercapnia) e a hipóxia cerebral por baixa perfusão sanguínea resultante da aceleração rápida de pilotos de avião, bem como a hiperventilação seguida por manobra de Valsava (diminuição do fluxo sanguíneo venoso para o coração, o que faz com que os batimentos sejam acelerados e a pressão arterial se eleve de modo a não faltar sangue e oxigênio para o cérebro; para pessoas saudáveis e treinadas, essa manobra não traz nenhuma consequência prejudicial).

O efeito foi constatado também após a ingestão de algumas drogas, como ketamina. O papel das endorfinas, das encefalinas e da serotonina também tem sido mencionado, da mesma forma que experiências fora do corpo foram relatadas com o uso de LSD, psilocarpina e mescalina. Essas vivências induzidas podem consistir em períodos de inconsciência, sensação de estar fora si, flash ou luzes e recordações de cenas do passado. Tais lembranças, no entanto, consistem em fragmentos e memórias aleatórias, e não em uma revisão panorâmica da própria vida relatada durante a EQM. Por outro lado, a transformação pessoal do modo de vida e a perda do medo da morte raramente ocorrem nas situações induzidas. É sabido que drogas de fato podem produzir efeitos alucinógenos e sensações muito parecidas com as descrições de pessoas que tiveram EQM. É o caso do LSD e da dimetiltriptamina (DMT), porém, no caso desta última, os efeitos são muito breves porque é rapidamente decomposta pelo organismo.

Pim van Lommel enfatiza que é muito provável que o DMT naturalmente produzido pelo corpo pode ter papel importante na experiência de consciência ampliada durante EQM. Sua liberação, provocada ou estimulada por acontecimentos dos quais temos consciência, reduziria as inibições naturais de nosso organismo e proporcionaria a ampliação da consciência – como se ela fosse capaz de bloquear ou interromper a interface entre consciência e corpo (e cérebro). O autor salienta que o zinco é indispensável à síntese da serotonina e outras substâncias do mesmo tipo, como o DMT, por exemplo. Com o avançar da idade, a taxa desse metal no organismo diminui – o que talvez ajude a explicar o fato de que a taxa de EQM diminui com a idade. Tudo indica, no entanto, que algum outro mecanismo neurofisiológico desconhecido e neuro-humoral, no nível subcelular do cérebro, pode exercer papel importante em situações críticas, como a morte clínica.

Com a falta de evidências ou outra teoria sobre EQM, a ideia até agora assumida – mas nunca comprovada – de que a consciência e as memórias estão localizadas no cérebro deve ser discutida. Como poderia uma consciência claramente fora do corpo ser experimentada no momento em que o cérebro já não funciona durante um período de morte clínica, sem registro de atividade elétrica no cérebro? Por outro lado, durante parada cardíaca, o eletroencefalograma (EEG) torna-se isoelétrico, na maioria dos casos, após dez segundos do início da síncope. Além disso, pessoas cegas descreveram a percepção visual durante experiências fora do corpo no momento dessa vivência. As EQMs vão ao limite das ideias médicas a respeito da consciência e da relação mente-cérebro. Alguns autores, entretanto, admitem que as experiências de quase morte podem ocorrer em decorrência do estado de mudança da consciência, no qual a identidade, a cognição e a emoção funcionam independentemente do corpo inconsciente, mas retêm a possibilidade de percepção não sensorial. Qualquer que seja a explicação para os relatos de EQM, o fato é que os conhecimentos atuais excluem a possibilidade de formular uma teoria integrada para explicar esse fenômeno, o que deve servir de motivação e estímulo para novas pesquisas.

O QUE É EQM?

Uma experiência de quase morte (EQM) é a lembrança (recontada) de todas as impressões experimentadas durante um estado de consciência particular, marcada por elementos específicos como visão de túnel, luz, filme da própria vida, personagens mortos ou associados ao momento da reanimação. Segundo o médico Pim van Lommel, esse estado mental pode se produzir durante uma parada cardíaca, o chamado período de morte clínica, mas também durante uma doença grave ou mesmo sem causa médica aparente. A experiência provoca quase sempre mudanças essenciais e duráveis na atitude da pessoa em relação à vida, incluindo a perda do medo da morte.

Trata-se de uma vivência altamente subjetiva e pessoal, mas fatores individuais, culturais e religiosos determinam a maneira como esses fenômenos são descritos e interpretados. Uma criança provavelmente não empregaria as mesmas palavras que um adulto, e o testemunho de um cristão certamente é diferente do de um budista ou de um agnóstico.

“As experiências de quase morte são eventos psicológicos profundos, contendo elementos transcendentais e místicos, que se produzem geralmente nos indivíduos próximos da morte ou em situação de dano físico ou emocional grave”, diz o psiquiatra Bruce Greyson, pesquisador da Universidade de Michigan e autor da escala que caracteriza a profundidade das EQMs.

MEMÓRIAS DO OUTRO LADO

Na cabeça de quem voltou da morte3

Moody e outros autores destacam pontos em comum encontrados nos relatos de pessoas que passaram por essa situação.

  • Apesar de os pacientes estarem em situação de doença grave ou acidente, a sensação emocional prevalente é de bem-estar, paz e alegria.
  • A atividade mental se torna mais aguçada; a lembrança é clara e as pessoas têm a convicção de que ela é até mais real do que as vividas no estado de vigília.
  • Ainda assim, apresentam dificuldade para explicar a vivência e relatam que não conseguem expressar com palavras a amplitude do que viveram.
  • Pessoas se referem à sensação de viver experiências fora do corpo (EFCs) como se observassem “de fora de si” eventos que transcorreram próximos a elas ou em um local distante
  • Muitos falam de ter, em algum momento, passado por uma região de escuridão ou por um túnel sem luz.
  • É frequente citarem que, após essa travessia pela escuridão, veem um cenário de grande beleza.
  • Geralmente, em algum momento da experiência encontram parentes e amigos já falecidos.
  • Fazem referência a uma luz extraordinariamente brilhante que, no entanto, não ofusca a visão, às vezes percebida como um “ser de luz” que emana aceitação, amor incondicional e pode comunicar-se telepaticamente – Pacientes costumam se lembrar de ver e reviver acontecimentos importantes e incidentais de sua vida como se fosse um filme.
  • Em dado momento da vivência, percebem que chegaram a uma espécie de fronteira além da qual não podem ir.
  • Têm a sensação de ter “retornado” ao corpo físico de forma involuntária, algo muitas vezes vivido com desagrado, dada a paz que sentiam antes.

FELIPE LEAL é psiquiatra, mestrando em antropologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

MATEUS SILVESTRIN é psicólogo, mestrado em neurociência e cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

RAQUEL GIACÓIA LEAL é psiquiatra do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise (Nesme).

EDSON AMÂNCIO é neurocirurgião, pós-graduado pela Unifesp. Os autores agradecem ao físico teórico Carlos de Moura Ribeiro Mendes as inúmeras sugestões e o entusiasmo com esta publicação.

ALIME3NTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 12-14

O Sermão da Montanha

Aqui nosso Senhor está insistindo conosco sobre a justiça dos homens, que é um ramo essencial da verdadeira religião, e que a fé em Deus é um ramo essencial da justiça universal.

I – Devemos fazer da justiça a nossa lei, e ser governados por ela (v. 12). Portanto, estabeleça isso como seu princípio, agindo em relação aos outros da mesma forma como gostaria que eles agissem com você. Como regra geral, e a fim de obedecer a esse princípio especial, procure não julgar ou censurar o seu próximo (não censure, se não deseja ser censurado) para alcançar o benefício das promessas feitas. A lei da justiça se mostra adequada quando aliada à lei da oração, pois, a não ser que sejamos sinceros em nossas palavras, Deus não ouvirá as nossas orações (Isaias 1.15-17; 58.6,9; Zacarias 7.9 ,13). Não podemos esperar receber coisas boas de Deus, se nós mesmos não as praticarmos, bem como tudo aquilo que for honesto, gracioso e de boa reputação entre os homens. Devemos ser, além de piedosos, também sinceros, caso contrário nossa devoção será apenas hipocrisia. Temos, então, que:

1.As regras da justiça foram estabelecidas. Você deve fazer às outras pessoas tudo aquilo que gostaria que elas lhe fizessem. Cristo veio para nos ensinar aquilo que devemos saber e acreditar, mas também como devemos agir em relação não só aos amigos e discípulos que fazem parte da nossa religião, como também aos homens em geral, entre os gurus exercemos alguma atividade. O conceito moral da igualdade é agir com os outros como gostaríamos que agissem conosco. Alexandre Severo, um imperador pagão, era um grande admirador desse conceito e mandou que fosse escrito nas paredes dos seus aposentos. Ele o citava muitas vezes quando expressava as suas decisões e, por conta dele, honrava a Cristo e ajudava os cristãos. Não devemos retribuir aos outros o mal que eles nos fizeram ou que poderiam nos fazer, se isso estivesse em seu poder. Nem devemos fazer aquilo que pensamos que tenha sido feito contra nós. Podemos suportar com alegria tudo aquilo que nos seja feito. Isso está fundamentado naquele grande mandamento: amar ao próximo como a si mesmo. Da mesma forma como devemos sentir pelo nosso próximo o mesmo amor que sentimos por nós, devemos também praticar as mesmas boas obras. O significado dessa regra está baseado em três coisas.(1) Devemos praticar com nosso próximo aquilo que nós mesmos reconhecemos que é próprio e razoável. Quando se trata da nossa pessoa, essa súplica é feita à nossa consciência, e a manifestação do nosso juízo corresponde ao nosso próprio desejo e expectativa.

(2) Devemos colocar as pessoas em um nível igual ao nosso e reconhecer que somos devedores a elas pelo muito que fazem por nós. Estamos tão presos à justiça quanto elas, e elas têm igual direito aos seus benefícios.

(3). Em nossos relacionamentos com os nossos semelhantes, devemos nos colocar na mesma circunstância e situação especial daqueles com os quais tratamos, e também precisamos agir adequadamente em relação a eles. Se você estivesse negociando com alguém, ou enfrentando alguma enfermidade ou aflição, como desejaria ser tratado? Essa é uma justa suposição, pois não sabemos se muito em breve esse caso poderá realmente acontecer conosco. Pelo menos podemos temer que, em sua justiça, Deus faça conosco aquilo que fizermos aos outros, se não lhes tivermos feito aquilo que gostaríamos que fosse feito conosco.

2.Existe uma razão que reforça essa lei; “essa é a lei e os profetas”. Ela representa o resumo daquele segundo grande mandamento, de um daqueles dois mandamentos dos quais depende toda a lei e os profetas (cap. 22.40). Não o temos com tantas palavras, tanto na lei como nos profetas, embora exista uma linguagem concomitante entre ambos. Tudo que foi dito a respeito do nosso dever em relação ao próximo (e que não é pouco) pode ser resumido nessa lei. Ela foi introduzida por Cristo na sua lei, de modo que tanto o Antigo Testamento como o Novo estão de acordo em prescrevê-la para nós, para fazermos aquilo que gostaríamos que nos fosse feito. Através dela, a lei de Cristo fica comprovada, e a vida dos cristãos também, quando comparada a ela. Se não estiverem de acordo com o Evangelho, não serão cristãos.

II –  Devemos fazer da religião nossa vocação e nos dedicarmos a ela, e devemos ser rigorosos e circunspectos em nossas palavras. A religião está aqui representada como se estivéssemos entrando por uma porta estreita, ou caminhando ao longo de uma estrada apertada (vv. 13,14). Observe então:

1.O relato é sobre o caminho que conduz à perdição e sobre o bom caminho da santidade. Existem apenas dois caminhos, o certo e o errado, o bom e o mau, o caminho para o céu e o caminho para o inferno. Seja qual for o caminho em que cada um de nós esteja andando agora, não existe um meio-termo. Os filhos dos homens – sejam santos ou pecadores, religiosos ou ímpios – serão traga­ dos pela eternidade.

Eis aqui:

(1) Um relato que nos foi dado sobre o caminho do pecado e os pecadores, incluindo tanto o que existe em termos de esperança como o que há de pior nele.

[1] O caminho que atrai as multidões e não as deixa se afastar; a porta é larga e o caminho é amplo, e nele existem muitos viajantes. Em primeiro lugar: “Você terá abundante liberdade nesse caminho; a porta é larga e se mantém aberta para tentar aqueles que procuram esse caminho. Você pode atravessar essa porta com toda sua luxúria, ela não restringe os seus apetites ou suas paixões. Você terá bastante espaço par a seguir o caminho do seu coração e a visão dos seus olhos”. É um caminho amplo e nada existe que possa limitar aqueles que o percorrem. No entanto, eles vagueiam sem parar: Trata-se de um caminho cheio de atalhos, existe a possibilidade de escolher os diferentes atalhos do pecado. Em segundo lugar: “Você terá muitos companheiros nesse atalho, pois existem muitos que entram por essa porta e seguem esse caminho”. Se seguirmos a multidão, será para praticar o mal. Se acompanharmos essas pessoas, estaremos percorrendo o caminho errado. Faz parte da nossa natureza a inclinação de seguir a corrente e agir de acordo com os nossos semelhantes. Mas estaremos sendo excessivamente complacentes, se estivermos dispostos a receber a condenação e ir com eles para o inferno só pelo privilégio da sua companhia. Eles não irão para o céu conosco. Devemos ser muito cuidadosos, pois muitos irão perecer.

[2] O caminho que nos amedronta é o que nos leva à destruição. A morte, a morte eterna, é o que nos espera ao chegarmos ao seu término (e o caminho do pecado leva a ela), à eterna desolação e à separação da presença do Senhor. Seja ele a estrada para uma vida evidentemente profana, ou o retorno a uma hipocrisia reservada, será sempre o caminho do pecado e da nossa ruína, se não nos arrependemos.

(2) Temos aqui o relato que nos foi dado sobre o caminho da santidade.

[1] O que existe nele que leva muitos a ficar temerosos. Vamos conhecer o pior que pode nas acontecer para podermos sentar e avaliar as consequências. Cristo cuida fielmente de nós e nos ensina:

Em primeiro lugar, que a porta é estreita. A conversão e a regeneração representam a porta pela qual entramos nesse caminho, no qual começamos uma nova vida de fé e sincera piedade. Para sair de um estado de pecado para um estado de graça devemos passar pelo novo nascimento (João 3.3,5). A porta é estreita e difícil de ser encontrada e de atravessar, como uma passagem entre dois rochedos (1 Samuel 14.4). Deve haver um novo coração e um novo espírito e as coisas antigas devem ser deixadas para trás. A disposição da alma deve ser mudada e os hábitos e os costumes antigos devem ser abandonados. Tudo aquilo que temos estado fazendo deve ser refeito. Devemos nadar contra a correnteza, e toda a oposição deve ser combatida e destruída, aquela que está no nosso interior e a que está fora de nós. E mais fácil colocar um homem contra o mundo do que contra si mesmo; no entanto, isto deve ocorrer na sua conversão. E uma porta estreita e devemos nos humilhar para poder passar. Devemos nos tornar tão pequenos como as crianças. Os pensamentos orgulhosos devem ser suprimidos, devemos nos desnudar, nos anularmos, abandonar o mundo e tudo que éramos antes. Devemos estar dispostos a desistir de tudo pela nossa atração a Cristo. A porta é estreita para todos, mas para alguns ela é mais estreita ainda, como para os ricos, para alguns que durante muito tempo têm estado predispostos contra a religião. A porta é estreita. Bendizemos a Deus por ela não estar fechada, nem trancada contra nós, nem guardada com urna espada flamejante, como irá acontecer dentro de pouco tempo (cap. 25.10).

Em segundo lugar, que o caminho é estreito. Não estaremos no céu logo que atravessarmos a porta estreita, nem em Canaã, assim que tivermos cruzado o Mar Vermelho. Na verdade, precisamos atravessar o deserto, viajando por um caminho estreito cercado pela lei divina, que é excessivamente extensa e torna o caminho estreito. A personalidade deve ser negada, o corpo mantido sob controle e as corrupções dominadas. As tentações diárias devem ser resistidas e os deveres devem ser executados, mesmo aqueles que vão contra nossas inclinações. Devemos suportar as situações difíceis, lutar e nos afligir, vigiar em todas as coisas e caminhar com cuidado e circunspeção. Iremos atravessar muitas tribulações. Será um caminho cercado por espinhos, abençoado por Deus, mas cheio de dificuldades. Os corpos que carregamos, cheios de corrupção, dificultam a prática do nosso dever; mas à medida que o entendimento e a vontade crescem, esse dever se torna mais firme. Ele se ampliará e se tornará cada vez mais agradável.

Em terceiro lugar, sendo a porta tão estreita, e o caminho tão apertado, não é de admirar que poucos o encontrem. Muitos passarão por ele descuidadamente e não farão um grande esforço para achá-lo, pois acreditam estar muito bem e não veem necessidade de mudar sua maneira de viver. Outros chegam a considerar esse caminho, mas se desviam, pois não gostam de ser limitados ou restringidos. Muito poucos serão os que irão para o céu, comparados aos que irão para o inferno. Serão apenas os remanescentes de um grande rebanho, como as respigas de uvas de uma vindima ou como aqueles oito que foram salvos na arca (1 Pedro 3. 20). Por isso muitos ficam desanimados, anseiam por ser diferentes, solitários, e preferem dizer: Se tão poucos irão para o céu, sobrará mais lugar para mim.

[2] Vejamos o que existe nesse caminho, o qual, embora apresente tudo isso, nos convida a percorrê-lo. Ele leva à vida, nos conforta com o favor de Deus, que representa a vida da alma, a bem-aventurança eterna, a esperança de que ao final vencerem os todas as dificuldades e transtornos da estrada. A vida e a piedade foram reunidas (2 Pedro 1.3). A porta é estreita e o caminho é apertado e íngreme, mas apenas uma hora no céu ser virá para no s compensar por ele.

2.A grande preocupação e o dever de cada um de nós ao considerarmos tudo isso. “Entrai pela porta estreita”. Esse assunto foi claramente explicado – a vida e a morte, o bem e o mal foram expostos à nossa frente, tanto os seus caminhos como as suas consequências e os seus resultados finais. Vamos então examinar esse assunto cuidadosamente, considerá-lo com imparcialidade, e depois decidir andar de acordo com esses caminhos. Trata-se de assunto definitivo, que não admite discussão. Nenhum homem, dentro do seu juízo perfeito, iria escolher a prisão só pelo fato de o caminho que leva até ela ser suave e agradável, nem recusar a oferta de um palácio ou de um trono porque o caminho que leva a ele é áspero ou desagradável. No entanto, o homem é culpado de cometer tais absurdos no que se refere à sua alma. Portanto, não demore, não pense mais, entre já pela porta estreita. Use as suas orações constantes e sinceras para bater nela, e assim ela lhe será aberta; isto é, uma porta grande e valiosa se abrirá. É verdade que não podemos nem entrar, nem caminhar, sem a ajuda da graça divina, mas também é verdade que ela nos é oferecida gratuitamente e não faltará àqueles que a procuram e se submetem a ela. A conversão é uma tarefa árdua e necessária, mas é abençoada por Deus e totalmente possível, se nos esforçarmos (Lucas 13.24).

GESTÃO E CARREIRA

A farsa do expediente

A FARSA DO EXPEDIENTE

Mostre ao chefe: Trabalhar menos horas por dia pode ser mais produtivo.

Em vez do clássico expediente de trabalho de oito horas, que tal reduzi-lo para três? Parece sonho de preguiçosos, mas tem respaldo científico: estudo da consultoria britânica Vouchercloud, que avaliou o desempenho de quase 2 mil funcionários de vários setores, constatou que, em média, os pesquisados trabalham realmente apenas duas horas e 53 minutos por dia. O restante do expediente se escoa em outras atividades não relacionadas ao trabalho, como checar redes sociais, tomar lanchinhos ou socializar. A neurociência explica o fato: nosso cérebro não consegue manter o foco em alguma tarefa por muito tempo. A maioria de nós mal resiste durante minutos. O problema se agrava ao longo do dia. Conforme se aproxima o fim do expediente, declina o poder de concentração.

O estudo põe em dúvida o que diz a sabedoria convencional sobre jornadas longas e a tentativa de evitar qualquer distração (que, normalmente, fracassa). A intensidade da dedicação deve ser administrada com critério: pessoas mais produtivas não necessariamente se dedicam o tempo todo, sem interrupções, mas sim se concentram na tarefa por um tempo e depois se permitem uma pausa planejada, conforme constataram os autores. Eles sugerem redução de expediente como um caminho possível para melhores resultados. A Amazon avalia isso. A empresa começou uma experiência com algumas dezenas de funcionários: permite jornadas de cinco horas durante quatro dias por semana e folgas às sextas-feiras. Os resultados dessa experiência permanecem em sigilo.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 132

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Onde não moram as lembranças

ONDE NÃO MORAM AS LEMBRANÇAS

Não basta usar drogas para apagar lembranças dolorosas, como durante muito tempo cientistas acreditaram, pois elas persistem profundamente no interior de células cerebrais; a constatação abre novas perspectivas para a compreensão do Alzheimer.

Apesar de abstratas, intangíveis e muitas vezes pouco consistentes, nossas memórias têm uma sólida base biológica. Segundo a neurociência clássica, elas se formam quando células cerebrais enviam às suas vizinhas, sinais de comunicação química através das sinapses (espaços entre as células), ou para entroncamentos que as conectam. Toda vez que uma memória é ativada, a conexão é fortalecida. A noção de que sinapses armazenam memórias dominou a ciência por mais de um século, mas um novo estudo realizado por especialistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles pode derrubar essa interpretação ao sugerir que memórias talvez residam no interior de células do cérebro. Se for corroborado, esse trabalho pode ter implicações – para o bem e para o mal – no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático, condição marcada por memórias dolorosamente vívidas e intrusivas. Há mais de uma década cientistas começaram a examinar a droga propranolol para o tratamento do distúrbio. Acreditava-se que ela impedisse a formação de memórias ao bloquear a produção de proteínas necessárias ao armazenamento de longo prazo. Infelizmente a pesquisa logo deparou com um problema: a não ser que fosse ministrado imediatamente após o evento traumático, o procedimento era totalmente ineficaz.

Ultimamente, pesquisadores têm trabalhado em uma solução alternativa: evidências sugerem que, quando alguém ativa uma memória, a conexão não só é fortalecida como também se torna temporariamente suscetível a mudanças, um processo chamado reconsolidação da memória. Ministrar propranolol (acompanhado de terapia, e talvez estimulação elétrica e até outras drogas) durante essa “janela” pode permitir que cientistas bloqueiem a reconsolidação, apagando ou eliminando a sinapse no local.  A possibilidade de eliminar lembranças chamou a atenção de David Glanzman, neurobiólogo da Universidade da Califórnia que começou a estudar o processo em Aplysia, um molusco parecido com uma lesma-do-mar utilizado comumente em pesquisas neurocientíficas. Ele e sua equipe aplicaram leves choques elétricos nos animais, criando uma memória do evento expressada como novas sinapses no cérebro. Em seguida, transferiram neurônios do molusco para uma placa de Petri e ativaram quimicamente a lembrança dos choques, ministrando, em seguida, uma dose de propranolol.

De início, a droga pareceu confirmar pesquisas anteriores ao neutralizar a conexão sináptica, mas, quando as células foram expostas a um lembrete dos choques, a memória voltou com força total em 48 horas. “Ela foi completamente restabelecida; isso parece significar que a memória não estava armazenada na sinapse”, diz Glanzman. Os resultados foram divulgados recentemente na publicação científica eLife, de acesso aberto. Se a memória não está localizada na sinapse, então onde está? Quando os neurocientistas investigaram mais de perto as células cerebrais, descobriram que mesmo quando a sinapse era apagada mudanças moleculares e químicas persistiam após o disparo inicial dentro da própria célula. O traço mnêmico, ou engram, podia ser preservado por essas alterações permanentes. Alternativamente, ele podia ser codificado em modificações no DNA da célula responsáveis pelo modo como genes específicos são expressos. Glanzman e outros favorecem esse raciocínio.

O neurocientista alemão Eric R. Kandel, ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2000 por seu trabalho sobre memória e atualmente na Universidade Colúmbia, adverte que os resultados do estudo foram observados nas primeiras 48 horas após o tratamento, um período em que a consolidação ainda é sensível. Embora preliminares, os resultados sugerem que, para pessoas com estresse pós-traumático, simplesmente tomar certos medicamentos muito provavelmente não elimina memórias dolorosas – até por- que, ainda que o fato em si fique esmaecido na lembrança, as emoções (ou afetos, como dizem os psicanalistas) ligadas à situação que causou sofrimento – bem como seus efeitos – permanecerão até que haja elaboração.

“Se tivessem me perguntado há dois anos se seria possível tratar o estresse pós-traumático com um bloqueio medicamentoso, eu teria dito sim, mas agora não penso mais assim”, admite Glanzman. Segundo ele, a constatação de que as memórias persistem profundamente no interior de células oferece novos caminhos para estudar e compreender transtornos ligados à memória, como a doença de Alzheimer.

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 300

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 7-11

O Sermão da Montanha. A Bondade de Deus

No capítulo anterior, nosso Senhor falou sobre a oração como a obrigação de um mandamento pelo qual Deus é honrado, e que, se for feita corretamente, será recompensada. Aqui, Ele diz que ela é uma maneira de obtermos aquilo que precisamos, especial mente a graça para obedecermos aos preceitos que Ele nos deu, alguns dos quais bastante desagradáveis à carne e ao sangue.

I – Eis aqui um preceito feito com três palavras e com o mesmo significado: “Pedi, Buscai e Batei” (v. 7), ou em uma única palavra: “Ore, ore muitas vezes, ore com sinceridade e seriedade; ore e ore novamente; tome consciência da oração e seja constante nela. Dedique-se à oração, e ore com fervor. Peça como um mendigo pede esmolas. Aquele que deseja ser rico em graças deve se valer da humilde função de pedir, e descobrirá que ela é repleta de sucessos”. Peça; apresente seus desejos e obrigações a Deus e peça seu apoio e auxílio, pois isso está de acordo com a sua promessa. Peça como um viajante que pergunta sobre o caminho. Orar é pedir a Deus (Ezequiel 36.37). Busque, como se tivesse perdido uma coisa de grande valor, ou como um mercador procura pérolas preciosas. Busque através da oração (Daniel 9.3). Bata, como aquele que deseja entrar na casa bate na porta. Seremos admitidos para conversar com Deus, introduzidos no seu amor, no seu favor e no seu reino. O pecado fechou e travou a porta contra nós. Através da oração nós batemos e chamamos: Senhor, Senhor, abre para nós. Cristo bate à nossa porta (Apocalipse 3.20; Cantares 5 .2) e nos deixa bater na dele – um favor que não concedemos aos mendigos comuns. Buscar e bater implica alguma coisa além de pedir e orar.

1.Não devemos apenas pedir, mas buscar. Devemos acompanhar nossas orações com nossos esforços, e usando os meios indicados. Buscar pelo que pedimos para não desafiar a Deus. Quando o vinhateiro pediu mais um ano para a figueira estéril, ele acrescentou: Irei escavá-la e estercá-la (Lucas 13.7,8). Deus concede o conhecimento e a graça àqueles que o procuram nas Escrituras, e aguardam nas portas da Sabedoria. E também o poder contra o pecado àqueles que evitam as suas ocasiões.

2.Não devemos apenas pedir, mas bater. Devemos ir até a porta de Deus e pedir insistentemente. Não devemos apenas orar, mas suplicar e lutar com Deus. Devemos buscar diligentemente e continuar batendo. Devemos perseverar na oração e no uso dos seus meios, devemos perseverar até o fim nesse dever.

II – Aqui foi incluída uma promessa: nosso esforço ao orar, se realmente isso representar algum esforço, não será em vão. Onde existe um coração piedoso, ele encontrará um Deus atento. Ele nos dará uma resposta de paz. O preceito é tríplice: pedi, buscai e batei. Mas existe uma norma para esse preceito. A promessa tem seis partes, regra após regra, para nos encorajar; porque uma sólida crença nessa promessa nos tornará alegres e constantes na nossa obediência. Agora vejamos:

1.A promessa foi feita de modo a dar uma resposta exata ao preceito (v. 7). “Pedi, e dar-se-vos-á”. Aquilo que foi pedido não será emprestado e nem vendido, mas concedido, e o que pode valer mais que um presente? De acordo com essa promessa, qualquer coisa pela qual você estiver orando será concedida, se Deus julgar que ela lhe ser á conveniente, e o que mais você pode desejar? Basta pedir para receber. Se não recebermos, é porque não pedimos, ou não pedimos corretamente. O que não é digno de ser pedido, não vale a pena ter, pois de nada vale. Busque e encontrará, e seu esforço não será perdido. Quando buscamos a Deus, sempre o encontramos, e isso nos será suficiente. “Batei, e abrir-se-vos-á”. A porta da misericórdia e da graça se abrirá, e nunca mais se fechará diante de você como se fosse algum inimigo ou intruso, mas se abrirá como se fosse um amigo ou uma criança. Alguém perguntará: “Quem está à porta?” Se for capaz de responder que é um amigo, e tiver o bilhete da promessa nas mãos, pronto para ser mostrado com fé, não tenha dúvidas de que será admitido. Se a porta não se abrir à primeira batida, continue a perseverar em oração. E uma afronta a um amigo bater em sua porta, e logo se retirar. Mesmo que pareça que Ele está demorando a atender, espere.

2.Essa promessa é repetida no versículo 8 com a mesma intenção, embora com algumas inclusões.

(1) Ela foi feita para se estender a todos que oram correta mente. ”Não só vocês, meus discípulos, receberão o que pedem, mas também todos os outros que pedirem irão receber, sejam eles judeus ou gentios, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, senhores ou escravos, cultos ou ignorantes. Todos eles serão igualmente bem recebidos no trono da graça, se vierem com fé, pois Deus não respeita a aparência humana”.

(2) Ela foi feita de modo a significar uma concessão, sendo expressa no presente, e isso vale mais do que uma promessa par a o futuro. Todo aquele que pedir, não só irá receber, como já recebeu. Ao se apropriar da promessa, e aplicá-la, através da fé, estaremos realmente atraídos e envolvidos por ela. Tão certas e invioláveis são as promessas de Deus, que elas real e efetivamente concedem uma posse. Um crente ativo tomará posse imediatamente, e fará das bênçãos prometidas algo que já é seu. De acordo com a promessa, aquilo que esperamos é tão certo, e deve ser tão doce, como aquilo que já temos em mãos. Deus falou no seu santuário: “Meu é Gileade, meu é Manasses” (SaImos 108.7,8); tudo será meu, se eu acreditar. Dádivas condicionais se tornam definitivas de acordo com a nossa atitude em relação às condições; portanto, aquele que pede, recebe. Dessa forma, Cristo aprova as petições que lhe são feitas e, como Ele tem todo o poder, isto nos basta.

3.Ela foi ilustrada com um exemplo retirado dos pais terrenos e da sua inata disposição de conceder aos filhos tudo que pedem. Cristo apela a seus ouvintes: “E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?” (vv. 9,10). Em seguida, Ele conclui (v. 11): “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” Agora, algumas coisas práticas:

(l)Para dirigir as nossas orações e expectativas.

[1] Devemos nos aproximar de Deus como as crianças se aproximam do Pai celestial, com reverência e confiança.  É muito natural que uma criança procure o pai quando tem alguma necessidade ou aflição para lhe apresentar suas queixas. ”Ai, a minha cabeça! ai, a minha cabeça!” Dessa maneira, a nova natureza deveria nos direcionar a Deus para pedir a sua ajuda e as suas bênçãos. 

[2] Devemos ir até Ele em busca de coisas boas, daquelas que Ele concede àqueles que lhe pedem. Isto nos ensina que devemos confiar a nossa vida a Ele. Não sabemos o que é melhor para nós (Eclesiastes 6.12); portanto, devemos deixar estas escolhas a critério dele. Pai seja feita a tua vontade. Seu filho está aqui para pedir o pão que é necessário, e um peixe, que é saudável. Mas se, insensatamente, o filho pedir uma pedra, uma serpente, uma fruta verde para comer, ou uma faca afiada para brincar, seu pai, embora seja bondoso, deverá ser prudente e negar. Muitas vezes pedimos a Deus alguma coisa que nos faria mal, se a tivéssemos. Ele sabe disso, portanto irá negar. É melhor uma negativa feita com amor do que uma dádiva concedida com ira. A nossa vida não seria tão saudável se já tivéssemos recebido tudo que desejamos.

(2) Para encorajar nossas orações e expectativas. Podem os esperar que não existam recusas ou desapontamentos. Não teremos uma pedra em lugar do pão para quebrar nossos dentes (embora tenhamos uma crosta dura para aplicar a nossa mordida), nem uma serpente para nos morder, no lugar do peixe. Na verdade, temos razão para ter medo deles, porque merecemos a ambos. Mas Deus fará melhor por nós que o deserto pelos nossos pecados. O mundo sempre oferece pedras em lugar de pão, e serpentes em lugar de peixe, mas isso nunca acontece com Deus. Seremos ouvidos e atendidos, como fazem os pais com os filhos.

[1] Deus colocou no coração dos pais uma amorosa inclinação para socorrer e ajudar seus filhos de acordo com suas necessidades. Mesmo aqueles que têm pouca consciência do dever, ainda assim agem como por instinto. Nenhuma lei jamais foi necessária para obrigar os pais a cuidarem dos seus filhos legítimos, e nem dos seus filhos ilegítimos, mesmo no tempo de Salomão.

[2] Ele adotou a posição de um Pai em relação a nós, e nos considera seus filhos. Da mesma maneira como nos encontramos prontos para socorrer nossos filhos, podemos nos sentir estimulados a buscar o nosso socorro em Deus, para obtermos o nosso alívio. Todo amor e ternura que existem nos pais provêm dele. Eles não vêm da natureza, mas do Deus da natureza. Portanto, devem ser infinitamente maiores nele. Ele compara seus cuidados para com o seu povo aos cuidados de um pai para com os seus filhos (SaImos 103.13). E também com aqueles de uma mãe, que são geralmente mais carinhosos (Isaias 49.14,15). Podemos supor que nele, esse amor, ternura e bondade em muito excedam aos de qualquer pai terreno. Portanto, se eles se manifestam com mais intensidade é porque estão baseados nessa indubitável verdade, de que Deus é o melhor Pai. Infinitamente melhor do que qualquer pai terreno, pois seus pensamentos se colocam acima dos pensamentos terrenos. Nossos pais terrenos podem cuidar de nós, assim como cuidamos dos nossos filhos. Mas Deus irá cuidar ainda mais dos seus filhos, porque eles são originalmente pecadores, descendentes da degenerada semente de Adão. Eles perderam grande parte da boa natureza que pertencia à humanidade e, entre outros tipos de corrupção, têm dentro de si mesmos a má disposição e a maldade. No entanto, eles transmitem coisas boas aos seus filhos e sabem como dar de forma adequada e oportuna. Mas Deus é capaz de dar muito mais, pois Ele os irá recolher quando estiverem desamparados (SaImos 27.10). Em primeiro lugar, Deus conhece bem todas as coisas, ao passo que os pais são, muitas vezes, levados por seus sentimentos, mostrando -se insensatamente amorosos. Deus é infinitamente mais sábio. Ele sabe do que precisamos, aquilo que queremos e o que é melhor para nós. Em segundo lugar, Deus é mais bondoso. Se a somatória da compaixão de todos os pais do mundo pudesse ser reunida nas entranhas s de um único pai, quando comparada à terna misericórdia do nosso Deus ela não seria mais que a luz de uma vela perto do sol, ou uma gota no oceano. Deus é mais rico e está disposto a dar mais aos seus filhos que os pais humanos, pois Ele é o pai do nosso espírito, um pai eternamente amoroso e presente. As entranhas do nosso Pai anseiam até pelos filhos ingratos e pelos pródigos, como o anseio de Davi por Absalão. Será que tudo isso não basta para calar os incrédulos?

GESTÃO E CARREIRA

Tuas ideias n]ao correspondem aos fatos

SUAS IDEIAS NÃO CORRESPONDEM AOS FATOS?

A dificuldade em ler corretamente o cenário e ficar preso no autoengano pode prejudicar sua trajetória profissional. Aprenda como se proteger desse problema.

“Mentir para os outros é exceção. A principal mentira é aquela que contamos para nós mesmos!” A frase é do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e está nas pequenas distorções da realidade que aparecem em todos os momentos desde adiantar o relógio para acordar mais cedo até adiar por mais um dia o começo de uma dieta ou o término de um relacionamento. Mas viver “negando as aparências e disfarçando as evidências”, como diz a música sertaneja, pode ser muito danoso para a vida profissional. É o que mostra o resultado de uma pesquisa da consultoria Leadership IQ, feita durante quatro anos com 1085 conselheiros de 286 empresas, que descobriu que23% dos CEOs demitidos perderam o emprego por que negavam a realidade. Esses executivos sentiam dificuldade em perceber os fatores negativos das companhias que lideravam, o que prejudicava a tomada de decisões. Alguns deles, segundo os pesquisadores, também omitiam os acontecimentos ruins.

Esse comportamento está associado ao autoengano, quando nos forçamos a fechar os olhos para o que está acontecendo ao nosso redor ou quando mentimos para nós mesmos. ” O enganador embarca nas próprias mentiras, deixa se levar por elas de modo gradual e crescente e, enfim, passa a acreditar nelas com toda a inocência e boa-fé deste mundo”, escreveu o economista Eduardo Giannetti no livro Autoengano (Companhia das Letras, 256 páginas). Não se trata de um ato deliberado. Uma pessoa que está passando por isso fica cega. E ninguém está livre de enfrentar a situação.

EVITAR A DOR

O erro em ler o cenário acontece porque queremos fugir da dor que um problema ou um rompimento vai causar. É um mecanismo de defesa: ignoramos os sinais do que vai acontecer se as consequências forem negativas. Mas nem todo mundo faz isso da mesma forma. Segundo Roberto Ayimer, professor na Fundação Dom Cabral e consultor de desenvolvimento humano, do Rio de Janeiro, as pessoas reagem normalmente de três maneiras: com a negação dos fatos desagradáveis, que consiste em esconder de si mesmo a realidade; com a minimização, que diminui o problema achando que é algo passageiro; e com a projeção do mal, ou seja, a transferência de responsabilidades para outras pessoas, passando a culpa do problema ao chefe, aos colegas ou até ao mercado.

Flavia Gamonar, de 33anos, acreditou que o problema que estava vivendo não fosse tão ruim assim. Especializada em marketing, a paulista trabalhou como gerente da área numa empresa de tecnologia – e tinha uma trajetória em ascensão. Mas, quando a companhia foi comprada, a sobreposição de funções apareceu. “Vi pessoas novas chegando e fazendo meu trabalho. De repente, o CEO parou de responder aos meus e-mails e eu mudava de chefe toda semana. Apesar de todos os indícios, acreditava que nada ameaçaria meu emprego”, diz Flávia. Ela ignorou até os sinais do próprio corpo: acordou um dia sem a capacidade de interpretar textos por causa do estresse e ficou afastada durante dez dias. Duas semanas depois de retornar ao trabalho, recebeu uma carta, uma medalha e um crachá de cor diferente: tinha acabado de completar quatro anos de companhia A felicidade pelo reconhecimento mal durou 24 horas: no dia seguinte, foi demitida. “Sentia o clima pesado, sabia que tinha algo errado, mas preferi esconder de mim mesma. Fiquei chocada com o desligamento”, afirma Flavia. Desempregada, seu comportamento não mudou rapidamente. “Acreditava que apareceria uma vaga do céu. Mandava um ou outro currículo para alguém e achava que tinha feito a minha parte. Demorei seis meses para entender que dependia de mim”, diz. Ela acionou contatos, começou a escrever sobre o assunto nas redes sociais e conseguiu se recolocar. “Quando voltei a trabalhar, entendi que uma nova demissão poderia vir e que era necessário fazer a leitura do ambiente e ter um plano B”, afirma. Os textos que postava em suas redes começaram a fazer tanto sucesso que, de plano B, viraram plano A. Hoje, Flavia tem o segundo perfil mais seguido do Brasil no LinkedIn, com 700000 inscrições, e dedica-se ao doutorado em mídia e tecnologia e à carreira de docente na ESPM.

APRENDER COM OS ERROS

Essa falha em ler a realidade não surge de uma hora para a outra – é uma crença que nós sedimentamos ao longo de nossas trajetórias. “Quando o ser humano tem sucesso na repetição de determinada atividade, ele passa a realizar aquele comportamento de forma automática, esperando um resultado especifico”, afirma Guy Cliquet, coordenador de pós-graduação lato sensu do Insper, de São Paulo. E se, no passado, a pessoa teve sorte deque tudo desse certo, apesar das más noticias, pode ser que, agora, acredite que basta ignorar os problemas para conquistar seus objetivos. Só que Isso é péssimo para a carreira – e para os negócios das companhias.  “A falha é parar de questionar suas decisões e escolher uma opção baseada apenas nas experiências anteriores. Tal atitude aumenta a chance de autoengano”, diz Guy. O importante é perceber que se está trilhando um caminho irreal e corrigir a rota.

Foi o que fez Eduardo Fregonesi, de 39anos, CEO da Synapcom, empresa de serviços de gestão de e-commerce, de São Paulo, que usou sua experiência de autoengano para se tornar um líder melhor. Durante sete anos, ele investiu numa marca de roupas. Apesar dos resultados negativos, colocava mais dinheiro, abria novas frentes do negócio, fazia reestruturações, acreditava numa mudança milagrosa de mercado. Mas as coisas não iam para a frente. Até que não havia mais nada a fazer a não ser encerrar as operações. “Essa situação fez com que eu aprendesse a separar a resiliência da teimosia. Eu era tão apegado ao negócio que fiquei cego para os fatos. Ser otimista e acreditar na empresa é muito bom, mas só quando os números comprovam essa percepção, diz Eduardo. “Aprendi que é preciso sempre estudar o cenário e me cercar de pessoas que saibam mais do que eu sobre determinadas áreas. Ninguém precisa fazer tudo, mas precisa saber escolher os profissionais certos.”

DE OLHO NOS SINAIS

Esse comportamento está associado até mesmo ao nível de engajamento que um profissional tem dentro de uma companhia. Quando o nível é baixo, o problema pode ser o fato de a pessoa desconfiar de tudo e todos. Mas, às vezes, o nível de confiança é perigosamente alto demais. Foi o caso de Léo Alves, de 40 anos. Coordenador de remuneração da Odebrecht durante oito anos, ele viu a companhia inundar as manchetes dos jornais com informações sobre o envolvimento da empreiteira em grandes esquemas de corrupção. Mas Léo não acreditava que aquilo fosse verdade – nem mesmo depois da prisão do presidente Marcelo Odebrecht em junho de 2015. Do episódio em que os funcionários se reuniram na frente da empresa usando uma camiseta com a frase “Somos todos Odebrecht”, ele só não participou porque estava viajando. Foi sua terapeuta que o alertou para o autoengano. Mas levou um tempo até o profissional reconhecer que estava mentindo para si mesmo. Apenas em agosto de 2016 Léo pedi demissão e passou a se dedicar a uma formação de coach. “É um processo doloroso. Quando você percebe que está racionalizando os fatos, se sente traído por si mesmo”, afirma.

Para não cair nessa armadilha, é importante ficar aberto aos sinais internos e externos. Conversar com pessoas da área e de fora dela, com históricos diferentes, é fundamental. Afinal, como escreveu Eduardo Giannetti, “o autoengano não é a ignorância simples de não saber e reconhecer que não sabe. Ele é a pretensão ilusória e infundada do autoconhecimento”. Contra esse veneno, só o questionamento constante e o conhecimento de si próprio podem servir de antídotos.

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AJUSTE DE FOCOS

As atitudes para passar a enxergar a realidade como ela é

DIVERSIFIQUE SUA REDE DE CONTATOS – Quanto mais visões diferentes, menos iscos de você se fechar em uma bolha e parar de enxergar o ambiente e o que acontece ao seu redor.

FIQUE ATENTO AOS FATOS – Pessoas que estão se auto enganando tendem a distorcer ou a inventar razões para legitimar seus pensamentos. Observe a situação como ela realmente é. A tendência de quem está nessa situação é racionalizar os problemas e os comportamentos equivocados.

LIDE COM OS PROBLEMAS IMEDIATAMENTE – Procrastinar decisões ou conversas difíceis porque elas são desagradáveis só aumentarão o problema e seus impactos.

CERQUE-SE DE CRÍTICOS – É muito comum, principalmente na liderança, que os profissionais busquem se rodear dos que concordam com sua forma de pensar. Quando não há ninguém questionando suas decisões, fica mais fácil cair no autoengano.

PENSE À LONGO PRAZO – Quem está num ciclo de autoengano tem tendência a olhar para o curto prazo e esperar mudanças milagrosas. Analise os fatos e pense em quais podem ser as consequências para o futuro se o cenário se mantiver exatamente assim.

 

Fonte: Revista Você S.A – Edição 238

PSICOLOGIA ANALÍTICA

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LÍDERES NÃO NASCEM PRONTOS

Diferenças muito grande de remuneração abalam a equipe, minando qualquer disposição de pensar coletivamente e se esforçar para algo além do próprio interesse imediato; o grupo passa a enxergar aquele que ganha significativamente mais como adversário, não como um colega.

Não é possível determinar um conjunto de traços de personalidade que garantam a boa liderança: as características desejáveis dependem da natureza do grupo. Os mais hábeis são os que se adaptam e aprendem a despertar nos colegas o desejo de cooperação.

Características como carisma e inteligência sempre foram consideradas fundamentais para o exercício do comando eficaz. Durante muitos anos especialistas afirmaram que bons líderes teriam talentos inatos, usados para conquistar seguidores e despertar o entusiasmo da equipe ou conseguir obediência. Essa teoria sugeria que pessoas com perfil de líder poderiam ser bem-sucedidas em qualquer situação. Nos últimos anos, porém, vem surgindo uma nova imagem de liderança. Em vez de simplesmente desfrutar o “dom” da autoridade inata, os líderes contemporâneos precisam se esforçar para entender valores e opiniões das pessoas que pretendem comandar, se quiserem estabelecer relações produtivas.

Essa conduta permite compreender o funcionamento do grupo, o que resulta em intervenções mais eficazes, sobretudo a longo prazo. O conceito de liderança, portanto, está relacionado à capacidade de direcionar os interesses do grupo onde se está inserido, e não à obediência em troca de recompensas ou obtida com punições; os mais hábeis não são os que conseguem impor o que pensam, mas sim aqueles que despertam nos colegas o desejo de cooperação. Para ganhar credibilidade, os líderes de hoje devem se posicionar na equipe, não acima dela.

Segundo essa nova abordagem, não é possível determinar um conjunto de traços de personalidade que garantam a boa liderança: as características desejáveis de um líder dependem da natureza do grupo. Pesquisas recentes revelam, porém, que a maioria das empresas ainda leva em conta o conceito antigo, segundo o qual pessoas em postos de comando devem trabalhar para “moldar” a identidade do grupo subalterno de acordo com os próprios interesses.

Para entender melhor o tema, os doutores em psicologia Stephen D. Reicher, S. Alexander Haslam e Michael J. Platow (respectivamente professores das universidades de St. Andrews, na Escócia, de Exeter, na Inglaterra, e da Universidade Nacional Australiana) resolveram investigar o assunto realizando um experimento. Eles formaram três equipes e determinaram diferentes formas de remuneração em cada um. Num dos grupos todos recebiam os mesmos valores; no segundo o salário do líder correspondia ao dobro e, no terceiro, ao triplo do dos demais. Embora a diferenciação não tenha afetado os esforços dos coordenadores, o rendimento dos membros da equipe caía de maneira significativa e sob condições de desigualdade mais acentuada. O pesquisador americano Peter F. Drucker, doutor em administração, professor da Universidade Claremont Graduate, argumentou que “salários muito altos no topo abalam a equipe, que passa a considerar o próprio gerente como adversário, em vez de colega. Essa estratégia apaga qualquer disposição das pessoas em pensar coletivamente e se esforçar para algo além do próprio interesse imediato”. Obviamente, a diferença de remuneração é vista pelos integrantes da equipe como injusta. O conceito de comando ético, em geral, está relacionado à capacidade de se sacrificar pelos outros e não obter vantagens individuais. Mahatma Gandhi (1869-1948) costuma ser citado como exemplo: conquistou admiradores em todo o mundo usando vestimenta de aldeão indiano, como símbolo de sua recusa a bens materiais.

 Líderes não nascem prontos

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 301

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 7: 1-6

Continuação do Sermão da Montanha.

O Hábito de Julgar os Outros

Nesse sermão, nosso Salvador está ensinando como devemos nos conduzir em relação aos erros dos outros, e suas expressões parecem ser uma censura dirigida aos escribas e fariseus. Eles eram rígidos e severos, muito autoritários e arrogantes, e condenavam a todos que os cercavam, como fazem geralmente todos aqueles que se mostram orgulhosos e convencidos quando querem se justificar. Temos aqui:

I – Uma advertência contra julgar os outros (vv. 1,2). Existem aqueles cuja ocupação é ju1gar – juízes, magistrados e ministros. Cristo, embora não pretendesse ser um juiz, não veio para desfazer deles, pois acreditava que os príncipes devem decretar a justiça. Ele estava se dirigindo às pessoas em particular, aos discípulos que mais tarde iriam ocupar a cátedra de juízes, mas isso ainda não tinha acontecido. Veja, então:

1.A proibição: “Não julgueis”. Nosso julgamento deve ser dirigido a nós mesmos e aos nossos atos, e não ao nosso irmão. Também não devemos assumir tiranicamente tal autoridade sobre o próximo, e nem deixar que o façam, pois a nossa lei nos diz que devemos estar sujeitos uns aos outros. ”Não sejam mestres” (Tiago 3.1). Não devemos nos assentar na cátedra de um juiz, e fazer da nossa palavra uma lei universal. Não devemos julgar nosso irmão, isto é, não devemos falar mal do nosso irmão, pois isso já foi explicado (Tiago. 4.11). Não devemos desprezá-lo, nem fazer pouco dele (Romanos 14.10). Não de­ vemos julgar precipitadamente, nem transferir injustamente tal julgamento para o nosso irmão, se isso for apenas o produto do nosso ciúme e da nossa natureza ruim. Não devemos esperar o pior das pessoas, nem supor coisas tão odiosas – em palavras e atos – que elas não tenham praticado. Não devemos julgar maldosamente, impiedosamente ou com a disposição de prejudicai: Não devemos julgar a condição de um homem, nem aquilo que ele realmente é, através de um único ato, nem julgá-lo por aquilo que ele representa para nós, porque, devido aos nossos interesses, estamos sempre prontos a ser parciais. Não julguemos o coração dos outros, nem suas intenções, pois pertence a Deus a prerrogativa de testá-los e não devemos ocupar o seu lugar. Nem devemos ser o juiz do estado eterno deles, nem chamá-los de hipócritas, réprobos ou inúteis, pois isso seria avançar além dos nossos limites. O que devemos fazer, então, para avaliar o servo de outro senhor? Aconselhar e ajudar, mas nunca julgar.

2.A razão de cumprirmos essa proibição: “Para não sermos julgados”. Isso indica que:

(1) Se tivermos a presunção de julgar os outros, podemos esperar também sermos julgados. Aquele que usurpa o cargo de um juiz será chamado ao tribunal na condição de réu. Em geral, ninguém é mais censurado do que aqueles que se mostram como os mais rigorosos, e todos terão uma pedra para lhes atirar. Aquele que, como Ismael, tem a mão e a língua contra todos os homens terá igualmente a mão e a língua de todos contra ele (Genesis 16.12), e nenhuma misericórdia será mostrada quanto à reputação daqueles que nenhuma misericórdia mostraram quanto à reputação dos outros. Mas isso não é o pior, pois eles serão julgados por Deus e dele receberão uma grande condenação (Tiago 3.1). Os dois lados comparecerão perante o tribunal de Cristo (Romanos 14.10) o qual, enquanto socorre o humilde sofredor, irá também resistir ao arrogante zombador e dar-lhe suficiente julgamento.

(2) Se formos modestos e caridosos nas censuras que fazemos aos outros, declinando de julgá-los para julgar a nós próprios, não seremos julgados pelo Senhor. Assim como Deus perdoa aqueles que perdoam aos seus irmãos, Ele também não irá julgar a quem não julga seus irmãos. O misericordioso encontrará misericórdia, ele estará dando uma prova de humildade, caridade e deferência a Deus, e será devidamente reconhecido e recompensado por Ele. Veja Romanos 14.10.

O julgamento daqueles que julgam os outros está de acordo com a lei da retaliação. Com o mesmo critério que julgamos, nós também seremos julgados (v. 2). Nos seus julgamentos, muitas vezes a justiça de Deus observa uma regra de proporção como, por exemplo, no caso de Adoni-Bezeque (Juízes 1.7). Veja também Apocalipse 8.10; 13.6. Dessa maneira, Ele fica ao mesmo tempo justificado e exaltado nos seus julgamentos, e todos os homens irão silenciar perante Ele. A mesma medida que usarmos para medir o próximo será usada para nos medir, talvez ainda nesse mundo, para que os homens possam tomar conhecimento do seu pecado pelo castigo que receberem. Que esse pensamento nos dissuada de todo rigor ao lidar com nosso irmão. O que faremos quando Deus se levantar? (Jó 31.14). O que seria de nós, se Deus fosse tão rigoroso e severo ao nos julgar como somos ao julgar os nossos irmãos? Se Ele fosse nos pesar na mesma balança? Podemos justamente esperar que isso venha a acontecer, se formos exagerados a o registrar o que nossos irmãos fazem de errado. Nisso, como em outra s coisas, o violento comportamento dos homens irá recair sobre suas próprias cabeças.

II – Alguns cuidados sobre a censura. O fato de nos abstermos de julgar os outros, pois isso seria um grande pecado, não quer dizer que não devemos reprová-los, porque isso representa um grande dever. E também pode ser a forma de salvar uma alma da morte e de evitar que as nossas almas participem da sua culpa. Agora, observe:

1.Nem todos estão aptos a censurar. Aquele s que são culpados das mesmas faltas que acusam nos outros, ou pior, que trazem vergonha sobre si mesmos, não são aqueles que têm a melhor condição de fazer o bem àqueles que reprovam (vv. 3-5). Aqui temos:

(1) Uma justa reprovação aos censuradores que contendem com seus irmãos pelas pequenas faltas, permitindo-se, ao mesmo tempo, praticar as grandes faltas. Estes são pressurosos em achar um argueiro no olho do próximo, mas não percebem uma trave no seu próprio olho. Eles se mostram muito dispostos a retirar esse argueiro, mas totalmente cegos quando se trata deles mesmos. Observe que:

[1]. Existe uma graduação nos pecados. Alguns pecados podem ser comparados a um argueiro (ou cisco), outros, a traves (ou vigas); alguns, a um inseto, outros, a um camelo. Não é que algum pecado possa ser pequeno, por quanto não existe pecado pequeno; não há um “Deus pequeno” contra o qual alguém possa pecar. Se for um argueiro (ou um cisco, para melhor entendimento), ele fica nos olhos. Se for um inseto, ele fica na garganta. Mas ambos são dolorosos e perigosos, e não será fácil, nem nos sentiremos bem, até serem retirados.

[2] Nossos próprios pecados podem parecer que são maiores em nós do que nos outros. Aquilo que a caridade nos ensina chamar de argueiro no olho do nosso irmão, um verdadeiro arrependimento e um santo pesar nos ensina a chamar de trave quando se trata do nosso próprio olho. Pois os pecados dos outros devem ser atenuados, enquanto os nossos devem ser agravados.

[3] Existem muitos que têm traves nos seus próprios olhos, e ainda assim não as reconhecem. Eles estão sob a culpa e o domínio dos grandes pecados, mas não se deram conta deles. Ao contrário, procuram se justificar como se não precisassem se arrepender ou corrigir. É estranho que um homem possa se encontrar numa condição tão miserável e pecadora, que possa ter uma trave nos olhos e não se importar com ela. Mas o deus desse mundo é capaz de cegar com tanta arte a sua mente que, apesar disso, ele diz com grande segurança: Posso ver.

[4) É muito comum observar que aqueles que são os maiores pecadores, e menos sensíveis à sua presença, são também os primeiros e os mais arbitrários ao censurar os outros. Os fariseus, que eram os mais arrogantes ao se justificar, eram também os mais sarcásticos ao condenar os outros. Eram muito rigorosos com os discípulos porque comiam sem lavar as mãos, mas isso nada mais representava que um argueiro, enquanto encorajavam os homens a desprezar os seus pais, o que não deixava de ser uma trave. O orgulho e a falta de caridade representam, em geral, as traves nos olhos daqueles que pretendem criticar os outros. Muitos são culpados de cometer, em segredo. Mas:

[5] Ser muito severo em relação às faltas dos outros, e ser demasiadamente indulgente com as próprias, é um sinal de hipocrisia. Não seja como os hipócritas (v.5). A despeito de qualquer coisa que este possa desejar é certo que ele não se comportará como um inimigo do pecado (se fosse, seria inimigo do seu próprio pecado); portanto, ele não será digno de louvor. Parece que seria inimigo do seu irmão e, nesse caso, merecedor de toda culpa. Essa caridade espiritual deve começar em casa, “Pois como podes tu dizer, como podes tu, por vergonha, dizer ao teu irmão: Deixa-me corrigir-te, quando tu mesmo não tiveste nenhum cuidado para corrigir a ti mesmo? Teu próprio coração te reprovará por causa desse absurdo, tu o farás com má vontade e esperarás que todos te digam que o hábito corrige o pecado. ‘Médico, cura-te a ti mesmo”. Vá primeiro, que eu irei em seguida. Veja Romanos 2.21.

[6] A consideração do que existe de errado dentro de nós deve nos levar a oferecer uma amável reprovação e impedir uma censura autoritária, tornando-nos caridosos e sinceros no nosso julgamento dos outros. Portanto, “vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (GáIatas 6.1). Pense naquilo que foste, naquilo que és, e naquilo que serias, se Deus te deixasse por tua própria conta.

(2) Eis aqui uma boa regra para aqueles que censuram o próximo (v. 5). Procure o método correto, mas primeiro retire a trave dos teus próprios olhos. A nossa própria maldade está longe de nos escusar por não reprovarmos aquilo que é errado. Ela nos impede e nos desqualifica para fazermos esta reprovação; e isto, por sua vez, agrava ainda mais a nossa maldade. Não devo dizer: “Tenho uma trave nos olhos, portanto não ajudarei meu irmão a tirar o seu argueiro”. O pecado de um homem nunca servirá para sua defesa. Devo primeiro corrigir-me para depois estar qualificado e totalmente isento de qualquer culpa e ofensas. Aqueles que censuram de início, e que são reprovadores por ofício, magistrados e ministros, estão preocupados em caminhar com circunspeção e ser muito metódicos em suas conversas. Um bispo, ou obreiro, deve ser irrepreensível e ter bom testemunho (1 Timóteo 3.2,7). As lâmpadas do santuário eram feitas de ouro puro.

2.Não é qualquer um que está em condições de ser censurado. “Não deis aos cães as coisas santas” (v. 6). Isso pode ser entendido como:

(1) Uma regra para os discípulos ao pregar o Evangelho. Não é que eles não devam pregá-lo aos que são profanos e pecadores (o próprio Cristo pregou para publicanos e pecadores), mas a referência é que não devem perder muito tempo com aqueles que permanecem obstinados depois de ouvirem o Evangelho, ou que tenham blasfemado contra ele e perseguido os pregadores, pois isso redundaria na perda de todo o trabalho. Deixe que eles se voltem a outros (Atos 13.41). Assim disse o Dr. Whitby. Ou:

(2) Como uma regra para todos que estão censurando. O zelo contra o pecado deve ser guiado pela nossa prudência. Não devemos sair por aí distribuindo instruções, conselhos e censuras, e menos ainda consolação, a empedernidos zombadores a quem certamente essas dádivas de nada iriam adiantar.  Isso iria provocar irritação e raiva contra nós. Atire uma pérola a um porco e ele irá ficar tão ofendido como se você tivesse atirado uma pedra. Censuras, por assim dizer, serão consideradas afrontas (Lucas 11.45; Jeremias 6.10), portanto não dê coisas santas aos cães e aos porcos (criaturas imundas). Veja:

[1] Os bons conselhos e as censuras podem ser consideradas coisas santas, preciosas como pérolas. Eles são decretos divinos, são preciosos. “Como árvore da vida” (Provérbios 3.18) e “como pendentes de ouro e gargantilhas de ouro fino, assim é o sábio repreensor” (Provérbios 25.12), e a repreensão feita por um justo é como excelente óleo (Salmos 141.5).

[2] Entre a geração dos pecadores, existem alguns que chegam a tal ponto de iniquidade que são considerados como cães e porcos. São imprudentes e notoriamente depravados. Caminham por muito tempo no caminho dos pecadores e se colocam no lugar dos zombadores. Eles claramente odeiam e desprezam os conselhos e se opõem a eles, pois são irrecuperáveis e obstinadamente perversos. Estes são como os cães que voltam ao seu próprio vômito, e como a porca lavada que volta ao espojadouro de lama.

[3] Quaisquer instruções relativas à reprovação estarão sendo desperdiçadas, expondo o reprovador a todo o desprezo e maldade próprios dos cães e porcos. Tudo que se espera deles é que irão esmagar debaixo dos pés aqueles que os reprovam, zombar deles e enfurecer-se. Não toleram o controle e a contestação, e novamente se voltarão para destruir seus censores, destruir seu bom nome através de insultos, devolver-lhes palavras que ferem como uma retribuição pelo bem recebido; desejam destruí-los com perseguições. Herodes destruiu João Batista por causa da sua fidelidade. Veja aqui as provas de como os homens podem ser como cães e porcos. Aqueles que assim são considerados odeiam a censura e aqueles que as fazem, e se opõem aos que, movidos pela bondade da sua alma, se atrevem a lhes mostrar o perigo do pecado. Eles pecam contra a reparação. Quem iria curar e ajudar aqueles que não desejam ser curados e ajudados? Não há dúvida de que Deus deliberou que deviam ser destruídos (2 Crônicas 25.16). A regra aqui estabelecida se aplica aos reconhecidos e ratificados mandamentos do Evangelho, que não devem ser distorcidos ou desobedecidos por aqueles que são abertamente iníquos e profanos, para que as coisas santas não sejam desprezadas e pessoas pecadoras se tornem ainda mais endurecidas. Não é apropriado tirar o pão das crianças para lançá-lo a os cães. No entanto, devemos ser cuidadosos com quem condenamos como cão ou porco, e não fazê-lo antes de um cuidadoso julgamento e somente com evidências indiscutíveis. Muitos pacientes são perdidos, quando são assim considerados. Se os devidos meios tivessem sido usados, eles poderiam ter sido salvos. Da mesma forma que devemos tomar cuidado para não chamar o bom de mau, julgando todos os ensinadores como hipócritas, devemos também prestar atenção par a não chamarmos os desesperados de maus, julgando que todos os iníquos sejam cães e porcos.

[4] Nosso Senhor Jesus é muito cuidadoso com a segurança do seu povo, e não admite que ele se exponha desnecessariamente à fúria daqueles que irão novamente se voltar para destruí-lo. Eles não podem ser demasiadamente justos a ponto de se destruírem. Cristo fez da lei da autopreservação uma das suas próprias leis, e para Ele o sangue dos seus súditos é precioso.

GESTÃO E CARREIRA

Dilemas profissionais

DILEMAS PROFISSIONAIS

VOCÊ S.A acompanhou cinco pessoas durante cinco meses para resolver questões relacionadas ao trabalho. As soluções, propostas por dois mentores, podem ajudá-lo com os próprios anseios.

Optar por urna profissão para o resto da vida é quase sempre uma escolha de Sofia. Tanto que mais da metade dos brasileiros com ensino superior não atua na área de formação, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2013. O que faz um indivíduo deixar de lado a carreira que almejava quando ingressou na faculdade vai desde a mudança no mercado de trabalho até a desilusão com a realidade da ocupação. “As pessoas escolhem prematuramente e acabam não gostando do que fazem”, diz Tania Casado, professora e diretora no Escritório de Desenvolvimento de carreira da Universidade de São Paulo. O resultado é urna legião de desgostosos. Segundo uma pesquisa da Isma-Brasil, associação que visa combater o estresse, 7296 dos profissionais estão Infelizes no emprego. Tamanha infelicidade, já se sabe, leva a transtornos psicológicos, corno depressão, ansiedade e burnout (a maneira de o corpo dizer “basta”). “Além dos componentes Individuais, excesso de pressão e cobrança, dificuldade em ver perspectiva de crescimento, qualidade da liderança e das relações Inter­ pessoais, e a Incompatibilidade de valores, são alguns dos fatores que podem levar uma pessoa a esse esgotamento”, afirma Tania.

Foi isso o que aconteceu com Glaucia Santos, de 27 anos, de Barueri (SP). Formada em marketing, ao viver o dia a dia de uma agência de publicidade sentiu na pele a angústia da insatisfação com o trabalho, com o ambiente e até mesmo com alguns colegas. Como numa panela de pressão, a tensão acumulada a fez explodir. Acabou afastada um mês e meio por depressão – doença que será a mais incapacitante do mundo até 2020, segundo a Organização Mundial da Saúde. Doente e frustrada com a área que considerava seu sonho, Glaucia tinha dúvidas se deveria retornar a carreira. Nesse meio tempo, fez cursos de crochê e até de manicure; pensou em empreender. Mas o fato é que ela não sabia exatamente o que buscar.

Tendo em mente histórias corno a de Glaucia, VOCÊ S.A criou uma iniciativa para ajudar nos dilemas profissionais. A equipe da revista selecionou, entre 50 relatos, cinco pessoas para ser acompanhadas durante cinco meses por dois mentores: Fernando Mantovani, diretor-geral da empresa de recrutamento e seleção Robert Hall, e Rafael Souto, CEO da consultoria Produtive. O resultado desse projeto você confere a seguir.

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Fonte: Revista Você S.A. – Edição 238

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Violência contra mulheres

6 APLICATIVOS PARA COMBATER A VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

 

REDE DE PROTEÇÃO

Rede de proteção

Disponível para Android e iOS, o Agentto permite à usuária formar uma rede de confiança com 12 pessoas para emitir um alerta com sua localização e pedido de ajuda se houver uma situação em que se sentir em perigo. Na mesma linha, o app Circle of 6 propõe criar um círculo de seis amigas, que oferece rapidamente a localização em GPS em ocasiões de maior vulnerabilidade, como encontros marcados por meio de aplicativos de relacionamentos: www.circleof6app.com.

 

VÍTIMA DE AGRESSÃO

Vítima de agressão

O aplicativo Bem querer mulher é voltado para vítimas de agressão doméstica e assédio sexual. Traz lista de serviços de atendimento psicológico e de delegacias por região e de agentes cadastradas no site para oferecer apoio nessas situações, além de uma linha direta para o 180, serviço de proteção à mulher. Disponível para Android, na Google Play Store.

 

ASSÉDIO NAS RUAS

Assédio nas ruas

Chega de fiu fiu é um mapa para marcar locais onde ocorreram casos de assédio, de verbal a estupro. Muito intuitivo, permite à usuária preencher um rápido formulário para denunciar anonimamente o que sofreu ou viu e também contar a história em detalhes. Também traz orientações sobre como a vítima pode se comportar nessas situações: chegadefiufiu.com.br.

 

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

Violência obstétrica

O app Parto humanizado possibilita que usuárias façam um plano de parto que podem enviar para seu médico e se informem sobre procedimentos comuns em maternidades que na verdade são práticas de violência obstétrica, como pressão para optar por cesárea, anestesia sem conhecimento da gestante e excesso de exames de toque. Traz orientações sobre como fazer denúncias de agressão durante e após o parto e indicações de acompanhantes profissionais para parto humanizado. Pode ser baixado na Google Play Store, apenas para Android.

 

CAMINHO MAIS SEGURO

O caminho mais seguro

O Malalai ajuda a escolher o trajeto mais seguro, principalmente à noite. Com informações feitas por mapeamento colaborativo, de forma que uma usuária ajuda a outra, reúne informações sobre movimento na rua, presença de policiamento fixo nas proximidades, prédios com porteiros e estabelecimentos comerciais abertos, trechos mal iluminados e ocorrências anteriores de assédio. Também é possível enviar uma mensagem avisando que chegou a seu destino. O mapeamento colaborativo estará disponível em breve. Para Android e iOS: malalai.com.br.

 

“UBER” PARA MULHERES

Uber para mulheres

A ideia do aplicativo Lady Driver surgiu diante dos casos de assédio por motoristas de táxi e do Uber. Apenas mulheres sem antecedentes criminais dirigem. A plataforma já conta com duas mil motoristas cadastradas em São Paulo e em breve será expandido para outras cidades. Para Android e iOS: ladydriver.com.br.

 

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição 297