ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 21-26

 Continuação do Sermão da Montanha

Tendo apresentado estes princípios, de que Moisés e os profetas ainda seriam os legisladores do povo, mas que os escribas e os fariseus já não mais seriam os seus governantes, Jesus passa a explicar a lei em alguns exemplos em particular, e a defendê-la das observações corruptas que aqueles intérpretes tinham colocado sobre ela. Ele não acrescenta nada novo, somente limita e restringe algumas permissões que tinham sido excessivas; e, quanto aos preceitos, mostra a amplitude, a severidade e a natureza espiritual deles, acrescentando estatutos explicativos para torná-los mais claros e tendendo mais ao aperfeiçoamento da nossa obediência a eles. Nestes versículos, Ele explica a lei do sexto mandamento, de acordo com a verdadeira intenção e a sua abrangência completa.

I – Aqui está apresentado o mandamento (v. 21). Nós o ouvimos, e o recordamos. Ele fala àqueles que conhecem a lei, que tiveram as palavras de Moisés lidas nas suas sinagogas todos os sábados: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, ou como está na observação à margem de algumas versões, “aos seus antepassados”, os judeus; “Não matarás”. Observe que as leis de Deus não são leis novas e surgidas do nada, mas tinham sido entregues aos antigos; são leis antigas, mas de uma natureza que nunca fica antiquada nem obsoleta. A lei moral está de acordo com a lei da natureza, com as leis e razões eternas do bem e do mal, isto é, a retidão da Mente eterna, a Mente de Deus. Matar aqui é proibido, matar a nós mesmos, matar a qualquer pessoa, direta ou indiretamente, ou de qualquer maneira ajudar a fazê-lo. Alei de Deus, o Deus da vida, é uma cerca de proteção ao redor da nossa vida. Este foi um dos preceitos de Noé (Genesis 9.5,6).

II – A explicação deste mandamento sobre o qual os professores judeus discutiam. O seu comentário era: ”Aquele que matar, correrá o risco do julgamento”. Isto era tudo o que eles tinham a dizer a este respeito, que os assassinos deliberados estariam sujeitos à espada da justiça, e os ocasionais estariam sujeitos ao julgamento da cidade de refúgio. As cortes de julgamento ficavam nos portões das suas cidades principais. Os juízes, normalmente, eram vinte e três; eles julgavam, condenavam e executavam os assassinos; assim, qualquer pessoa que matasse estava sujeita ao seu julgamento. Mas este comentário sobre esse mandamento era falho, pois ele dava a entender que:

1.A lei do sexto mandamento era apenas externa, e não proibia nada além do ato de assassinato, e deveria restringir os desejos interiores, dos quais nascem as guerras e as pelejas. Este era realmente o proton pseudos – o erro fundamental dos professores judeus, dizer que a lei divina proibia somente o ato pecaminoso, e não o pensamento pecaminoso; eles estavam inclinados a haerere in conticeae descansar na letra da lei, e nunca investigaram o seu significado espiritual. Paulo, embora sendo um fariseu, não o fez, até que, pela chave do décimo mandamento, a graça divina o levou ao conhecimento da natureza divina de todas as demais coisas (Romanos 7.7,14).

2.Outro engano era o de que esta lei era meramente política e cívica, dada por causa deles, e com a intenção de ser uma orientação para os seus tribunais, e nada mais; como se somente eles fossem o povo de Deus, e a sabedoria da lei devesse morrer com eles.

 

III – A explicação que Cristo deu deste mandamento. Nós estamos certos de que, de acordo com a sua explicação, seremos julgados no futuro; portanto, devemos ser governados agora. O mandamento é extremamente amplo, e não deve ser limitado pela vontade da carne, ou pela vontade dos homens.

1.Cristo lhes diz que a ira irrefletida é assassinato no coração (v. 22). “Qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão” estará infringindo o sexto mandamento. Aqui, por “seu irmão” devemos entender qualquer pessoa, mesmo que se trate de alguém inferior a nós, como uma criança ou um servo, pois todos nós somos feitos de um único sangue. A ira é uma paixão natural; existem casos nos quais ela é lícita e salutar; mas é pecaminosa, quando nos iramos sem motivo. A palavra é eike, que significa sine causae, sine efjectu, et sine modo sem causa, sem nenhum bom efeito, e sem moderação.

Como consequência, a ira é pecaminosa:

(1) Quando ocorre sem nenhuma provocação justa; seja por nenhuma causa, ou nenhuma boa causa, ou nenhuma causa justa e adequada ; quando nos iramos com as crianças ou com os servos por aquilo que não pôde ser evitado, que foi somente uma questão de esquecimento ou de engano, de que nós mesmos poderíamos ser facilmente culpados, e pelo que não ficaríamos irados conosco; quando nos iramos devido a suspeitas infundadas ou por ofensas banais que nem merecem ser mencionadas.

(2) Quando a ira ocorre sem visar nenhuma boa finalidade, meramente para mostrar a nossa autoridade, para satisfazer uma paixão bruta, para fazer com que as pessoas conheçam os nossos ressentimentos e para nos motivar à vingança; nestes casos, a ira é vã, e só se destina a magoar. Se em alguma ocasião estivermos irados, isto deverá se destinar a despertar o ofensor ao arrependi­ mento, e a evitar que ele repita outra vez o que fez; para nos purificar (2 Coríntios 7.11) e para advertir aos outros.

(3) Quando ela ultrapassa os limites. Quando somos duros e teimosos na nossa ira, violentos e veementes, cruéis e perversos, e procuramos ferir aqueles que nos desagradaram. Isto representa uma infração ao sexto mandamento, pois aquele que se ira desta maneira chegaria a matar, se pudesse. Um homem deu o primeiro passo em direção a isto; quando Caim matou seu irmão, tudo começou com a ira; ele é um assassino aos olhos de Deus, que conhece o seu coração; pois é do coração que procede o assassinato (cap. 15.19).

2.Jesus lhes diz que o uso de uma linguagem ultrajante com o nosso irmão é o assassinato pela língua (chamá-lo de raca, e chamá-lo de louco). Quando isto é feito com moderação e com uma boa finalidade, para convencer os outros da sua vaidade e das suas tolices, não é pecaminoso. Assim, Tiago diz: “O homem vão” (Tiago 2.20), e Paulo diz: “Insensato” (1 Coríntios 15.36), e o próprio Cristo diz: “Ó néscios e tardas de coração” (Lucas 24.25). Mas quando isto nasce da ira e da maldade interior, é a fumaça daquele fogo que arde no inferno, e se enquadra na mesma característica.

(1) Raca é uma palavra de desdém, que se origina no orgulho. “Zombador é o teu nome”, é como Salomão chama aqueles que tratam com indignação e soberba (Provérbios 21.24), que desdenham do irmão para equipará-lo aos cães que possuem. ‘Esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (João 7.49).

(2) “Louco” é uma palavra de rancor, que nasce do ódio; considerando a pessoa não somente comum e indigna de ser honrada, mas como uma pessoa odiosa e indigna de ser amada; “Tu, homem iníquo, réprobo”. A primeira palavra fala de um homem desprovido de razão; ela (em termos das Escrituras) fala de um homem sem graça; quanto mais a censura tocar a sua condição espiritual, pior será; a primeira é uma zombaria arrogante do nosso irmão; esta é uma censura maldosa e uma condenação a ele, como se estivesse abandonado por Deus. Esta é uma infração do sexto mandamento; calúnias maldosas e críticas são veneno, sob a língua, que mata secreta e lentamente. As palavras amargas são como flechas que matam repentinamente (SaImos 64.3), ou como uma espada nos ossos. O bom nome do nosso próximo, que é melhor do que a vida, é, desta forma, esfaqueado e assassinado; e esta é uma evidência de uma má intenção para com o nosso próximo, a ponto de atingirmos a sua vida, se pudéssemos fazê-lo.

3.Jesus lhes diz que não importa o uso que eles façam desses pecados, certamente eles lhes serão computados. Aquele que se encolerizar com seu irmão está correndo o risco do juízo e da ira de Deus; aquele que o chama de raca estará nas mãos do conselho, passível de ser punido pelo Sinédrio por insultar um israelita; mas aquele que disser: “Louco, pessoa profana, filho do inferno”, estará em perigo do fogo do inferno, para o qual ele condena o seu irmão, segundo o erudito Dr. Whitby. Alguns pensam, em alusão às punições usadas nos diversos tribunais de julgamento entre os judeus, que Cristo mostra que o pecado da ira irrefletida expõe os homens a punições mais graves ou menos graves, de acordo com os graus da sua origem. Os judeus tinham três penas capitais, uma pior que a outra: a decapitação, que era imposta pelo julgamento; o apedrejamento, pelo conselho ou pelo Sinédrio; e o fogo no vale de Hinom, que só era usado em casos extraordinários. Isto significa, portanto, que a ira irrefletida e a linguagem ofensiva são pecados condenáveis; mas alguns são mais pecaminosos que outros, e, de maneira correspondente, existe uma condenação mais severa, e uma punição mais amarga reservada a estes. Assim, ao mostrar a punição mais temível, Cristo mostra que pecado é o mais grave.

IV – De tudo isto, pode se deduzir que nós devemos cuidadosamente preservar o amor e a paz cristãos com nossos irmãos, e, se alguma vez estes forem rompidos, devemos lutar por uma reconciliação, confessando a nossa culpa, humilhando-nos perante o nosso irmão, implorando o seu perdão, e fazendo uma indenização ou oferecendo uma compensação pelo mal feito através de atos ou palavras, de acordo com a natureza da situação; e devemos fazê-lo rapidamente, por dois motivos:

1. Porque, até que isto seja feito, nós estaremos completamente incapacitados para a comunhão com Deus, nos rituais sagrados (vv. 23,24). O caso suposto é: se “teu irmão tem alguma coisa contra ti”, ou seja, se você o injuriou e ofendeu, seja isto real ou na percepção dele. Se você é a parte ofendida, não há necessidade desta demora; se você tem alguma coisa contra o seu irmão, resolva isto rapidamente. Nada mais precisa ser feito, a não ser perdoá-lo (Marcos 11.25), e perdoar a ofensa. Mas se a disputa se iniciou no seu lado, e a culpa foi sua, no início ou ao final, de modo que “teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão”, antes de vir fazer a oferta no altar, antes de se aproximar solenemente de Deus, nos serviços de oração e louvor, ouvindo a Palavra ou os sacramentos. Observe:

(1) Quando nos dirigimos a qualquer prática religiosa, é bom que aproveitemos a ocasião para uma séria reflexão e exame próprio. Há muitas coisas a ser em lembradas quando levamos a nossa oferta ao altar, se o nosso irmão tiver alguma coisa contra nós; então, se este for o caso, precisaremos considerar a questão para que façamos um acerto de contas.

(2) As práticas religiosas não são aceitáveis perante Deus, se forem realizadas quando sentimos ira. A inveja, a maldade e a falta de caridade são pecados tão desagradáveis a Deus, que nada que venha de um coração onde estas coisas ainda predominem pode agradá-lo (1 Timóteo 2.8). As orações feitas com ira são escritas em amargura (Isaias 1.15; 58.4).

(3) O amor ou a caridade são tão melhores que todos os holocaustos e sacrifícios, que Deus deseja que a reconciliação com um irmão ofendido ocorra antes que a oferta seja feita. Ele se satisfaz por esperar pela oferta, em lugar de tê-la quando somos culpados e estamos envolvidos em alguma disputa.

(4) Embora estejamos incapacitados para a comunhão com Deus devido a uma disputa continuada com um irmão, ainda assim isto não pode ser uma desculpa para a omissão ou para a negligência em relação ao nosso dever: “Deixa ali diante do altar a tua oferta”, em outras palavras, “para que, de outra forma, quando tiver ido embora, você não se sinta tentado a não voltar”. Muitos expressam este pensamento como a razão pela qual não vêm à igreja ou participam da Santa Ceia, por estarem com algum problema com o próximo. E de quem é a culpa? Um pecado jamais irá justificar outro, mas irá dobrar a culpa. A falta de amor jamais poderá justificar a falta de piedade. O problema pode ser facilmente superado. Nós devemos perdoar àqueles que nos fizeram mal; e àqueles a quem nós fizemos mal, devemos compensar, ou pelo menos fazer uma proposta e desejar a restauração da amizade, para que se a reconciliação não acontecer, não seja por nossa culpa; e então vir e ser bem recebido, vir e oferecer a nossa oferta, e ela será aceita. Portanto, não devemos deixar que o sol se ponha sobre a nossa ira nenhum dia, porque devemos orar antes de dormir. Também não devemos deixar que o sol nasça sobre a nossa ira em um dia que consagramos ao Senhor, porque este é um dia de oração e adoração.

2.Porque, até que isto seja feito, estaremos expostos a muitos perigos (vv. 25,26). É arriscado não procurarmos um acordo, e rapidamente, sob dois aspectos:

(1) Um aspecto temporal. Se a ofensa que causamos ao nosso irmão, ao seu corpo, aos seus bens ou à sua reputação, for tal que exija alguma ação na qual ele possa recuperar danos consideráveis, é sábio de nossa parte, e é a nossa obrigação para com a nossa família, evitar isto por meio de uma submissão humilde e uma satisfação justa e pacífica, para que, de outra maneira, ele não recupere os danos pela lei e não nos coloque numa prisão. Em um caso como este, é melhor entrar em acordo, nas melhores condições que pudermos, do que suportarmos alguma punição; pois é inútil disputar com a lei, e existe o perigo de sermos esmagados por ela. Muitos arruínam as suas propriedades e os seus bens persistindo obstinadamente nas ofensas que fizeram, que poderiam ter sido resolvidas de modo pacífico, se cedessem em algo, rapidamente, no início do problema. O conselho de Salomão no caso de responsabilidade é: “Vai, humilha-te… e li­vra-te” (Provérbios 6.1-5). E bom chegar a um acordo, pois a pena da lei é cara. Embora devamos ser misericordiosos com aqueles sobre os quais estamos em vantagem, ainda assim devemos ser justos com aqueles que têm vantagens sobre nós, desde que sejamos capazes. “Concilia-te depressa com o teu adversário”, em outras palavras, para que ele não se exaspere com a sua teimosia, e não se sinta provocado a insistir com as máximas exigências, e não deixe de fazer o abatimento que a princípio teria feito. Uma prisão é um lugar incômodo para aqueles que são levados a ela pelo seu próprio orgulho e desperdício de oportunidade, pela sua própria teimosia e tolice.

(2) Um aspecto espiritual. “Vai reconciliar-te … com o teu irmão”, seja justo com ele, seja amistoso com ele, porque enquanto continuar a disputa, assim como você estará incapacitado para trazer a sua oferta ao altar, incapacitado para participar da mesa do Senhor, também estará incapacitado para morrer. Se você persistir neste pecado, existe o perigo de você ser repentinamente levado pela ira de Deus, de cujo julgamento você não poderá escapar nem se isentar. E se você for o responsável por esta iniquidade, você estará perdido para sempre. O inferno é urna prisão para todos aqueles que vivem e morrem na maldade e na falta de amor, pois todos são contenciosos (Romanos 2.8), e desta prisão não há resgate, não há redenção, não há fuga, por toda a eternidade.

Isto se aplica à grande questão da nossa reconciliação com Deus, por meio de Cristo: “Concilia-te depressa com [ele]… enquanto estás no caminho”. Observe que:

[1] O grande Deus é um adversário para todos os pecadores, antidikos um adversário legal; Ele tem uma controvérsia com eles, uma ação contra eles.

[2] É nosso interesse estar de acordo com Ele, nos familiarizar com Ele, para podermos estar em paz (Jó 22.21; 2 Coríntios 5.20).

[3] Ê prudente fazermos isto rapidamente, enquanto estamos no caminho. Enquanto estamos vivos, estamos no caminho; depois da morte, será tarde demais para fazê-lo; portanto, não dê descanso aos seus olhos antes que isto seja feito.

[4] Aqueles que continuam em uma situação de inimizade com Deus estão continuamente expostos à prisão da sua justiça, e aos exemplos mais temíveis da sua ira. Cristo é o Juiz, a quem os pecadores impenitentes serão entregues. Pois todo o julgamento foi confiado ao Filho. Aqueles que o rejeitarem como Salvador jamais poderão escapar dele como Juiz (Apocalipse 6.16,17). É atemorizante ser entregue, desta forma, ao Senhor Jesus, quando o Cordeiro se tornará o Leão. Os anjos são os encarregados a quem Cristo os entregará (cap. 13. 41,42); os demônios também são um tipo de encarregados, tendo o poder de serem os algozes da morte de todos os incrédulos (Hebreus 2.14). O inferno é a prisão em que serão lançados todos aqueles que continuarem em um esta do de inimizade contra Deus (2 Pedro 2.4).

[5] Os pecadores condenados continuarão ali por toda a eternidade; eles não poderão partir porque jamais poderão pagar a dívida por seus pecados. Mesmo passando a eternidade em tormentos, jamais conseguirão pagá-la totalmente. A justiça divina só pode ser satisfeita através do sacrifício feito pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O Peso do passado

ARREPENDIMENTO: O PESO DO PASSADO

Não nos arrependemos do mesmo jeito das coisas que fizemos e das que deixamos de fazer: os psicólogos mostram que as ações não realizadas deixam uma sensação mais amarga.

 Quem consegue não se arrepender de nada na vida? A existência nos impõe inúmeras oportunidades de experimenta-lo: chances perdidas, julgamentos errados, atos impulsivos, inibições inexplicáveis… Um estudo sobre a expressão cotidiana das emoções mostrou que os sentimentos de arrependimento (“Se eu soubesse…”, “Eu não deveria…”!) vêm em segundo lugar nas conversas, depois, é claro, de tudo o que se relaciona ao amor e à afeição. Será p arrependimento um companheiro para toda a vida? Arrepender-se de que? Por quê? E até que ponto? Os arrependimentos servem para alguma coisa? Se sim, para quê? E, enfim, podemos ou devemos tentar escapar deles? Essas perguntas começam a encontrar respostas na psicologia científica.

Os dicionários de francês definem regret como “um estado de consciência penoso, ligado ao passado, pelo desaparecimento de momentos agradáveis”: lamentamos o fim da infância, das férias, de um amor. Em seu Tratado das paixões da alma, Descartes o descreveu como um pesar, uma “espécie de tristeza” daquilo que se passou bem. Esse tipo de sentimento, que se assemelha à nostalgia, pode às vezes, e paradoxalmente, causar certo prazer, pois é associado à evocação de momentos agradáveis. Victor Hugo, por exemplo, definia nostalgia e melancolia como a felicidade de ser triste”.

Outro uso regret, mais difundido, e mais similar ao termo “arrependimento”, em português, é ligado ao descontentamento ou à mágoa por ter feito – ou não – alguma coisa. Trata-se de uma sensação desagradável, associada a numerosas emoções negativas: ressentimento, culpa, auto censura etc. Não nos contentamos mais em somente evocar o que se foi, mas avaliamos nossa responsabilidade num comportamento passado que lamentamos e em suas consequências atuais. Nesse sentido, o arrependimento não é somente a dor do passado, mas também um sofrimento do presente.

Para a psicologia, esse sentimento associa-se a aspectos emocionais (tristeza, às vezes raiva, vergonha ou preocupação) e cognitivos (avaliações de que não agimos como deveríamos). O arrependimento é ligado tanto à ação quanto à ausência dela e se distingue do remorso, que é o arrependimento por ações que prejudicam alguém.

 O QUE É ARREPENDIMENTO?

Imagine a seguinte situação, João ia viajar às 17h30, mas quis terminar um trabalho e decidiu pegar o voo das 19h30. O avião das 19h30 caiu. Sua triste sorte inspira ainda mais pesar em seus parentes e amigos por ele ter feito a mudança do que se tinha previsto desde o início viajar às 19h30(eles pensam, “Se não tivesse mudado de ideia ainda estaria, vivo”). Nesse caso, seria apenas uma fatalidade. Nossos arrependimentos são, assim, estreitamente ligados a nossos atos, quanto mais dependente da fatalidade ou de circunstâncias exteriores um acontecimento parece, menos nos arrependemos dele.

Outra situação avaliada ao longo de uma pesquisa de psicologia social, Paulo e Pedro têm ações nas empresas A e B. No ano passado, Paulo, que havia muito tempo investira em ações da A, teve vontade de mudar e investir tudo na B. Mas acabou não mudando e, por isso, perdeu R$ 2 mil, pois B rendeu muitos lucros, enquanto A aumentou prejuízos. Pedro tinha ações da B, e teve a péssima ideia de transferir tudo para A. Desse modo, ele também perdeu R$ 2 mil. Do ponto de vista estritamente financeiro, ambos tiveram a mesma desventura. Entretanto, quando questionadas sobre qual dos dois deveria sentir mais arrependimento, 92% das pessoas ouvidas estimaram que Pedro provavelmente tinha arrependimentos mais pungentes: sua má inspiração ditou lhe um comportamento nefasto. Teria sido melhor se nada tivesse leito.

Já o arrependimento de Paulo, vítima da própria inação, parece menos penoso às pessoas convidadas a se identificar com os personagens dessa história. A ação engendra mais arrependimento que a inação.

De maneira geral, diversos estudos indicam que nos arrependemos mais pelo que fizemos do que pelo que não fizemos, a curto prazo, nossos fracassos são mais dolorosos quando provêm de ações que não trouxeram os frutos esperados (como no caso de Pedro, que vendeu suas ações da empresa B no momento errado) que quando resultam de inações (como Paulo, que pensou em comprar ações B, mas não o fez). Além disso, os psicólogos evolucionistas supõem que a função do arrependimento é justamente nos permitir aprender com nossos fracassos e nos incitar a ser mais prudentes no futuro, sem que nos lancemos de novo em uma ação incerta.

AGIR OU NÃO AGIR?

Em sentido oposto, outros estudos avaliaram o motivo dos maiores arrependimentos das pessoas e constataram que os mais profundos provêm daquilo que elas não fizeram: “Eu deveria ter seguido meus estudos”, “Deveria ter falado mais com meu pai enquanto ele era vivo”.

Numa pesquisa realizada com 77 pessoas de diversos meios sociais, que foram questionadas sobre os principais pesares de sua vida, dos 213 listados, apenas dez referiam-se a acontecimentos alheios ao controle da pessoa (“ter sofrido paralisia infantil). Quanto aos que dependiam de uma decisão própria, 63 % tinham a ver com uma ação não realizada, contra 37% de atos realizados (por exemplo, más escolhas sentimentais, profissionais ou financeiras).

Como explicar essa aparente contradição? Pelo fato de o arrependimento evoluir com o passar do tempo, temos a tendência imediata de nos arrepender das coisas que fizemos (quando deram errado, claro). E, a longo prazo, tendemos a nos arrepender mais de inações, de intenções de ação não concretizadas.

Além disso, parece que o perfil emocional desses dois tipos de arrependimento é distinto: arrependimentos por ações, a curto prazo, são mais intensos que aqueles provocados por inação. No plano emociona, os primeiros são geralmente chamados de “quentes”, enquanto os últimos são os “melancólicos”. Um estudo com 79 voluntários, que avaliava a intensidade das emoções associadas ao maior arrependimento de cada um nessas duas categorias, mostrou claramente essa relação: arrependimentos por ação são mais associados a emoções imensas (cólera, vergonha, a culpa, frustração etc.), e arrependimentos por inação são mais ligados a emoções discretas (sentir-se melancólico, saudoso, desenganado etc.). No primeiro caso, lamentamos uma realidade e no segundo, uma virtualidade. Como e pôr que passamos da dor pelo que fizemos ao incômodo pelo que não fizemos. Muitas explicações são possíveis. Antes de tudo, diversos fenômenos atenuam o tormento dos arrependimentos ligados aos atos, estes, às vezes, são reparáveis (pôr exemplo, desculpar-se e reconciliar-se depois de uma briga). Além disso, um trabalho de compensação psicológica frequentemente ofusca as consequências negativas de nossos atos, notadamente impelindo-nos a nos concentrar nos aspectos positivos da situação e não nos lamentáveis (“Não me casei com uma pessoa legal, mas meus filhos são maravilhosos”). Para exprimir esse fato, os anglo-saxões têm um provérbio, Every cloud has a silver lining, ou seja, “Toda nuvem tem uma borda iluminada”.

Contrariamente, a inação é mais insidiosa, e alguns mecanismos tendem a amplificar a dor do arrependimento causada pôr ela. Assim, se as consequências de uma ação lamentável são identificáveis e limitadas, as de uma ação não realizada são infinitas. Podemos sem dificuldade imaginar múltiplas cenas decorrentes do que teria acontecido “se” tivéssemos sido mais obstinados, mais seguros, mais ambiciosos…E isso vai aumentando, pois com o tempo tendemos a superestimar nossa capacidade de agir favoravelmente, uma vez que as dificuldades ligadas a uma situação passada se distanciaram. Assim, como o contexto preciso foi esquecido, não conseguimos mais explicar a própria inação, que nos parece indesculpável: “Como não tomei a decisão que se impunha, não posso me perdoar”.

No caso dos arrependimentos por inação, o campo das possibilidades não realizadas cresce à medida que a vida passa. Desse modo, não espanta que o arrependimento pelo tempo que se esvai seja uma fonte importante de inspiração poética e literária. Grande parte da obra Em busca do tempo perdido é inspirada nesse tema, segundo seu autor, Marcel Proust, “só podemos nos arrepender daquilo de que nos lembramos”. Essa frase subentende a existência do recalque de muitas das lembranças desagradáveis.

PERFIL DE PERSONALIDADE

Enfim, o arrependimento por inação é mais memorável que o arrependimento por ação. Esse efeito é conhecido em psicologia social desde 1935 como efeito Zeigamik (do nome de seu descobridor) e recebeu numerosas confirmações experimentais. Numa pesquisa, voluntários foram questionados sobre quais eram seus três maiores arrependimentos por ação e os três maiores por inação Três semanas depois, os pesquisadores telefonaram para cada um deles para saber se eles se lembravam das respostas dadas. A maioria (64%) lembrava-se mais dos arrependimentos por inação.

O interesse das pesquisas sobre arrependimento não é somente teórico. Elas permitem compreender que esses sentimentos representam uma atividade mental importante e inevitável no ser humano, às vezes útil, mas cujos efeito podem ser prejudiciais para alguns.

Assim, as pessoas que sofrem de fobias graves, como as sociais (timidez patológica, que leva a evitar inúmeras situações) ou a agorafobia (medo excessivo de frequentar lugares públicos, o que limita a autonomia e o deslocamento), devem renunciar, devido a seu distúrbio, a muitas atividades. Elas sofrem de arrependimentos múltiplos que muitas vezes dão origem a um estado depressivo. Todavia, os sofrimentos ocasionados por arrependimentos não se relacionam apenas às pessoas com problemas psiquiátricos. Cada um está sujeito a tais sofrimentos em graus variáveis, mas certos traços de personalidade os favorecem. Diversos estudos expuseram os fatores que agravam ou aliviam os arrependimentos, assim como as atitudes que nos permitem enfrentá-los melhor.

Determinados perfis de personalidade parecem mais expostos aos riscos de um arrependimento excessivo que outros. Assim, as pessoas que têm o hábito de cultivar uma visão positiva da existência

Têm menos arrependimentos mesmo em relação a acontecimentos desfavoráveis. Numa experiência, contou-se aos voluntários a seguinte cena: “Enquanto você espera sua vez na fila do banco, aparece um assaltante que, durante a fuga, dá vários tiros e um deles atinge o seu braço. Você teve sorteou azar?”. Diferenças de opinião muito claras aparecem: alguns lamentam a má sorte (“Precisava acertar justo em mim?”’ “Se eu tivesse chegado dez minutos mais tarde não teria acontecido nada…”) e outros comemoram a sorte, sem pesar. (“Que sorte, eu poderia ter morrido!”) Pode-se tirar daí um conselho de muita lucidez: diante dos acontecimentos, é fundamental imaginar tudo que poderia ter acontecido, e não somente o que poderia ter sido melhor!

Outros trabalhos mostraram como pessoas perfeccionistas, que buscam sempre atingir o melhor resultado e fazer as melhores escolhas possíveis, são geralmente menos satisfeitas, pois estão mais expostas ao arrependimento, que aquelas que se contentam com uma “escolha aceitável”. Um segundo conselho, muito sábio: é importante aprender nos diversos domínios do cotidiano, a renunciar ao ideal e a apreciar resultados modestos. Essa atitude não é aceitação da mediocridade, mas a busca pelo equilíbrio e pela melhor relação entre custo e benefício no dia-a-dia.

Por fim, há outro campo de pesquisa, sabemos que para muitas pessoas que têm vontade de agir, mas frequentemente desistem com medo do fracasso, ou para aquelas que tendem a transferir tudo para o dia seguinte, o hábito de se sujeitar a situações desagradáveis, ou pior, de renunciar a agir, é fator de frustração e arrependimento. Esta atitude é problemática, já que, mais de uma vez, foi demonstrado que a falta de ação tende a prender a pessoa num círculo vicioso.

Assim, se você não reagir rápido o bastante ou se perdeu uma primeira oportunidade de agir e tirar proveito disso (por exemplo, a liquidação com 50% de desconto numa loja que você adora), quando se apresentar uma segunda ocasião, também favorável, embora menos que a primeira, há grande probabilidade de você renunciar novamente para não ter arrependimentos do tipo, “Deveria ter aproveitado a primeira chance”.

Uma vez que os arrependimentos ligados à inação parecem infinitos, e que a inação leva a mais inação, outra ponderação útil poderia ser, na dúvida, aja. Aliás esta terceira sugestão também não deve ser levada ao pé da letra. Ao contrário, deve ser adaptada e personalizada. Com efeito, para pessoas que agem com facilidade, os arrependimentos têm menor importância em um fracasso ligado à ação que em um insucesso ligado à inação. Com pessoas indecisas dá-se o contrário, o arrependimento por um fracasso ligado à ação é mais doloroso. Decididamente, parece difícil não se arrepender de nada. Além do mais, talvez isso nem seja desejável.

IMPOSSÍVEL NÃO SE ARREPENDER

Entre dezenas de pesquisas realizadas sobre “os maiores arrependimentos da vida”, a maioria constatou que é impossível não se arrepender de absolutamente nada pois cada escolha se faz em detrimento de outra. Escolher uma opção é, implicitamente, eliminar outra. Em vez de visar o domínio total das escolhas ideais (o que é impossível) ou evitá-las totalmente (o que é ineficaz), parece melhor aprender a lidar de maneira inteligente com os arrependimentos. Como todas as emoções, esses sentimentos têm papel importante na capacidade de adaptação ao meio e no equilíbrio psíquico. Eles nos ensinam a fazer um balanço de nossos atos e a tirar deles lições para o futuro. Para libertar­ se do medo do fracasso e do arrependimento antecipado, o mais eficiente não é renunciar à ação, mas aumentar a tolerância com as derrotas. E, sobretudo, aprender a enxergar os ensinamentos que elas trazem, para transformar as situações de arrependimento em oportunidades de aprendizado, como nos lembra o ditado, “Se perder, pelo menos não perca a lição”.

Tentemos contradizer La Bruyére, que, em seu Caracteres, constatou com certo pessimismo o mau uso que o ser humano faz de suas experiências, o arrependimento que sentem os homens por causa do mau emprego que deram ao tempo que viveram, nem sempre os leva a aproveitar melhor o tempo que lhes resta“.

 CHRISTOPHE ANDRÉ é psiquiatra do Hospital Sainte-Anne e professor da Universidade Paris X.

GESTÃO E CARREIRA

20 competências para ser um bom lider

20 COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS PARA VOCÊ SER UM BOM LÍDER

Gestores competentes e admirados possuem habilidades em comum. Foi o que descobriu o professor Marcelo Veras ao acompanhar por dez anos 170 executivos brasileiros. Veja a seguir as 20 competências essenciais para se tornar um bom líder – e como você pode desenvolver cada uma delas.

 Por que algumas pessoas se tornam bem-sucedidas e outras não? Essa era a pergunta que incomodava Marcelo Veras, professor de planejamento ele carreira e presidente da Inova Business School, de Campinas. Para ele, livros, workshops e cursos não eram o suficiente para responder à questão, que ouvia constantemente dos alunos cm sala de aula. “Queria saber o que as pessoas que de fato chegaram ao topo tinham a dizer sobre isso”, afirma. Foi assim que, em julho de 2006, começou uma pesquisa sobre o assunto. Procurou pessoas em posições importantes de liderança, como diretores nacionais, vice-presidentes e presidentes para fazer uma pergunta simples: “Quais competências o trouxeram até aqui e como você definiria cada uma delas?”.

Foram mais de 170 entrevistados desde então. A partir das respostas, Marcelo reuniu uma lista das principais habilidades apontadas pelos bem-sucedidos. Elas são divididas em três categorias:  comportamentais (como agimos em relação a nós mesmos e as pessoas); técnicas (domínio da área de atuação e de competências básicas de linguagem e leitura); e de gestão, que, claro, têm a ver com nossa atitude na condição de líderes de pessoa e de negócios. Marcelo compara essas competências a um macarrão à bolonhesa. As competências técnicas são o espaguete, as comportamentais, o molho e o resultado final, as competências de gestão, são o macarrão à bolonhesa. “No curto prazo, ter apenas algumas competências funciona, mas, no fim, só uma combinação sólida é que mantém os lideres em seus cargos, diz. Ou seja, as habilidades fazem mais sentido quando combinadas entre si e usadas de forma coerente. E, claro, dificilmente alguém terá todas elas superdesenvolvidas, mas criará um conjunto sólido delas – a sua própria receita. “Querer desenvolver todas as competências no mesmo grau é utopia”, diz Adriana Prates, presidente da Dascin Executivc Scarch, consultoria de recrutamento, de Belo Horizonte. “As pessoas são diferentes e vão se destacar por diferentes motivos. “O segredo é identificar quais são as mais importantes para voe”. Ter essa clareza nem sempre é fácil, até porque envolve aceitar as limitações que temos, além de um conhecimento aprofundado de si mesmo. Esse entendimento serve, inclusive, para ver quando vale mais melhorar os pontos fortes e deixar os fracos de lado.

Tudo isso demanda saber escutar os outros e receber bem os feedbacks, além de criar o hábito de pensar sobre si mesmo. Para fazer isso, Silvana Mello, diretora da Lee Hecht Harrison, consultoria de transição de carreira, de São Paulo, propõe um exercício de autoanálise baseado em três dimensões. A primeira é tentar definir o que se busca em termos de carreira e vida no longo prazo. A segunda é entender por que você busca esses objetivos e o que motiva suas atitudes. A terceira é pensar como você fará para alcançar esses objetivos e que valores usará para chegar lá.  “Gosto desse modelo de tripé porque ele serve para buscar uma coerência no dia a dia e se obrigar a questionar sempre para onde você está indo e como, diz Silvana.

De fato, um dos principais fatores que determinam o sucesso de uma empreitada é a clareza sobre por que se está fazendo aquilo. Mas, além disso, é preciso olhar para fora e notar como você está se comportando em relação ao meio em que atua. Isso significa prestar atenção ao que está acontecendo e identificar quais as demandas implícitas e explícitas das empresas e de seus colegas. Normalmente, o melhor sinal de que é preciso desenvolver uma competência é quando você pensa que não é (ou não foi) capaz de lidar tão bem quanto gostaria com uma situação. Expor-se a diferentes cenários – dentro ou fora do trabalho – facilita esse aprendizado. ‘”Saia da rotina de vez em quando para perceber coisas novas”, diz Paula Chimenti, professora do Coppcad, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É a melhor forma de perceber o que você ainda precisa melhorar e o que já tem de bom. E ter essa percepção é o que ajuda na motivação. “É difícil desenvolver algo se você não sentiu a necessidade”, diz. Por isso, é preciso ter um olhar constantemente voltado à melhoria e ao crescimento pessoal para dar conta de notar seus pontos fortes e fracos.

O desenvolvimento de competências não é um processo isolado, mas combinado a diversos fatores: seus objetivos e personalidade, a necessidade dos outros e o meio em que você quer crescer.  A relação entre competência e o contexto é inseparável, diz Roberto Aylmer, professor da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. O que vai diferenciar cada um são as atitudes, ou seja, as competências comportamentais. Já as competências técnicas são obtidas por meio de estudo e aprendizado contínuo. As de gestão são como você combina as anteriores de forma a ser um líder bem-sucedido. Ao longo da reportagem, você encontra os 20 ingredientes que mais levaram as pessoas ao sucesso e pode escolher os que mais combinam com a sua receita pessoal de felicidade na carreira.

COMPETÊNCIAS COMPORTAMENTAIS

Equilíbrio emocional

“Você não tem como controlar os problemas, mas pode melhorar a forma como reage a eles”, diz. Adriana Prates, da Dasein. Ter autonomia em relação aos sentimentos para escolher como vai se comportar faz parte do equilíbrio emocional. Para chegar a esse ponto é preciso ser capaz de entender suas próprias emoções –  que não devem ser suprimidas ou ignoradas, mas geridas. Assistir a si mesmo no dia a dia e perceber como você se sente e quais tipos de situação trazem determinadas reações é uma forma de melhorar essa habilidade. Saber, por exemplo, que você tende a ficar alterado com um tipo de cenário pode ajudá-lo a resolver o que causa aquilo e a monitorar ocasiões futuras. A resposta pode ser desde encontrar válvulas de escape, como um hobby, até fazer terapia ou mudar o ponto de vista. Se for difícil perceber onde estão seus pontos frágeis, peça a opinião de pessoas em quem confia. “É como exercício físico, não dá para fazer um tempo e depois parar, diz Adriana.

Flexibilidade

“Ser flexível é aceitar o desconhecido, diz Silvana Mello, da Lee Hecht Harrison.  Sair da zona de conforto é difícil, mas essencial para ter flexibilidade para encarar coisas novas e mudar de ideia. “Tenha em mente que sempre podemos crescer mais, e que para isso precisamos conhecer o novo, afirma. Fora do trabalho, vale desenvolver essa característica sempre que possível, se colocando em situações diferentes. A experiência diversificada, aliás, o ajudará a perceber quando você deve ser mais firme e quando deve mudar de ideia. Ser humilde em relação ao quanto você mesmo sabe sobre as coisas é importante.  “Hoje as pessoas estão muito mimadas e pouco flexíveis, diz Adriana. Essa é com certeza uma competência que fará toda diferença nas empresas.” Mostre essa habilidade tendo abertura a opiniões diferentes das suas e mantendo o debate focado em ideias, e não em pessoas. O objetivo deve ser conseguir o melhor para todos – e não ter razão sempre.

COMPETÊNCIAS DE GESTÃO

Empreendedorismo

Empreendedorismo está relacionado à forma como enxergamos as coisas. Uma mesma situação pode ser percebida como desafio, como problema ou oportunidade. Para ser empreendedor, é preciso buscar oportunidade em cada cenário. Isso exige um bom conhecimento de si mesmo e de suas capacidades e entendimento sobre o contexto do negócio e mercado em que você atua. Estar bem informado e saber buscar vários pontos de vista de forma crítica e analítica são fatores importantes para saber relacionar dados e identificar pontos promissores de atuação, além da abertura ao risco que tudo novo empreendimento – seja dentro de uma empresa ou em um novo negócio oferece. Saber reconhecer suas limitações também é essencial. “Nem sempre a pessoa tem recursos internos para assumir riscos como um empreendedor faz, diz Silvana. Nesses casos, a saída pode se conseguir tomar decisões articuladas com outras pessoas, que têm uma percepção diferente do risco.

 Tomada de decisão

Entender como você pensa é importante para melhorar suas decisões. Às vezes, são ideias e medos inconscientes que nos impedem de raciocinar mais claramente, outras vezes são conhecimentos técnicos que nos faltam, e é preciso saber avaliar tudo isso. Por outro lado, ter certeza de quais são seus valores e objetivos é uma ferramenta útil na hora da dúvida entre uma opção ou outra. “Vivemos em um contexto de ambiguidade”, diz Silvana. Aprender a lidar como risco de cada decisão e com informações incompletas é cada vez mais necessário, assim como saber usar os recursos que estão à mão. As pessoas à sua volta devem ser suas aliadas. Um líder pode ter em sua equipe pessoas capazes de trazer diferentes lados e informações para complementar uma decisão. Tem que conversar com os outros e recolher informações, ninguém vai saber absolutamente tudo sobre alguma coisa”, diz Miriam Rodrigues, professora de gestão da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo.

Pensamento estratégico

Mais do que ter conhecimento sobre vários temas, o pensamento estratégico exige relacionar diferentes informações para definir quais são os pontos mais importantes de determinado cenário. Em um mundo complexo, é fácil se perder em projeções falaciosas, medos coletivos e na quantidade enorme de dados disponíveis. ” Não adianta guardar conhecimento para si mesmo. Trocar informações e conversar com diferentes pessoas ajuda a melhorar o raciocínio”, diz Miriam. Para desenvolver essa capacidade, reveja a forma como você avaliou situações passadas. O que faltou para ter tido um posicionamento melhor”? A experiência é um instrumento poderoso.

Negociação

Saber negociar é saber usar em conjunto diversas habilidades, diz Márcia.  Afinal, é preciso saber reunir informações sobre aquele tema, saber ler a outra pessoa, se comunicar, ter certeza de seus objetivos, mas também quando mudar de ideia e, finalmente, tomar decisões coerentes e vantajosas para você. Esse é um conjunto complexo e que exige um cuidado especial ao longo da carreira. Quanto menos desenvolvida essa competência, mais você deve tomar cuidado para estudar antes de cada reunião, para ouvir com atenção o que está sendo dito e buscar em mentores a ajuda. “Precisa investir no aprendizado, inclusive de conhecimento acadêmico, para ter uma posição analítica e crítica”, diz Mirian.

Gestão de pessoas

Essa competência exige uma série de outras habilidades anteriormente desenvolvidas. “‘Para ser um bom gestor, você precisa saber formar boas equipes, motivar pessoas de diferentes valores e origens e definir um objetivo claro e que dê propósito às pessoas”, diz Adriana. Isso envolve a capacidade de entender os outros, de saber de que tipo de competência e conhecimento você precisa em suas equipes e como usar as informações que os outros trazem a seu favor. Uma pessoa que não consegue ela mesma gerir suas próprias emoções e atitudes dificilmente conseguirá fazer uma boa gestão de equipes. Não há uma única fórmula para isso – diferentes líderes têm diferentes estilos de gestão. Em comum, todos têm a capacidade de unir equipes, vontade de desenvolvê-las  e sabem usá-las em  proveito dos objetivos da empresa.

 Cardápio de habilidades

 Competencias famosas - 20 competencias