PSICOLOGIA ANALÍTICA

Síndrome do ninho vazio

SÍNDROME DO NINHO VAZIO

Por que muitos casais trocam a sensação de missão cumprida depois de tanta dedicação aos filhos pelo sentimento de falta e perda?

Lídia e João se conheceram numa festa. Foi paixão à primeira vista. Os dois estavam no início de carreira e tiveram que trabalhar duro para poder se casar. Curtiram pouco a vida no começo do casamento, pois logo chegaram os filhos. Lídia, então, adiou seus projetos profissionais. Diminuiu os horários que dedicava ao consultório para incumbir-se do papel de mãe. Sentiu como compensadora a escolha porque adorava ficar com as crianças e acompanhar de perto tudo o que faziam.

Passado algum tempo, ela começou a sentir dificuldade em equilibrar seus diversos papéis: esposa, mãe, profissional e dona-de-casa.

Principalmente, o de esposa, pois João vinha fazendo muitas queixas a esse respeito. Com este exemplo, poderíamos dizer que o casal se enquadraria na categoria “casal administrativo”. Eles cuidaram da bom funcionamento da casa e dos filhos. Porém, a relação ficou em segundo plano. Deixaram de cultivar o relacionamento.

O tempo passou. Os filhos cresceram. Saíram de casa. Até aí, sem problemas, a vida seguiu seu curso. E quando poderíamos pensar que cudo está certo, não, não está. Lídia entrou em depressão. E vem a pergunta: mas o que aconteceu? Aconteceu que ela se desdobrou a vida inteira para que tudo se desenvolvesse de maneira harmoniosa com seus filhos. Ela deu o seu melhor e conseguiu: seus filhos são pessoas bem-sucedidas, com boa inserção profissional e social e estão bem casados.

Novamente, tudo bem até aí. Mas Lídia incorreu num erro ao depositar uma grande expectativa em seus filhos. Ela, emocionalmente, não os criou para o mundo, embora na teoria concordasse ser esse o caminho natural da vida. Na prática, não é o que ela sente quando, por exemplo, liga para o flho e ele lhe responde com monossílabos. E, ainda, depois de vários convites para um almoço ele chega arrasado engole a comida e vai embora.

Quando a mulher faz muitas renúncias em relação aos filhos, sem se dar conta, quer ser recompensada. E, geralmente, transforma-se naquele tipo de mãe que faz cobranças quando os filhos já são adultos. Para uma mãe é extremamente difícil fazer este tipo de reconhecimento. Na prática, não é o que ocorre.

Esta mulher, no seu papel de mãe, sente que foi “roubada”. Pois deu tudo de si para seus filhos e, em troca, recebe muito pouco. E mais: sacrificou parte de sua profissão ao aceitar um emprego público, com salário medíocre em troca de liberdade e poucas horas de trabalho, para estar perto dos filhos e cuidar pessoalmente de seu desenvolvimento. Ela não soube ao longo do tempo cuidar da relação do casal. Quando João brigava com as crianças ela sempre o repreendia, considerava-o bravo demais ou muito violento. Saía sempre em defesa dos filhos. Este comportamento desgastou o relacionamento entre marido e mulher.

Conclusão: hoje Lídia se vê sem filhos, sem trabalho, porque se aposentou, casada com alguém com quem tem pouca troca e, muitas vezes, ao observar seu marido pensa estar diante de um desconhecido.

Lídia está sofrendo muito com a saída dos filhos de casa porque eles eram o centro de sua vida. Ela está apresentando o sintoma “do ninho vazio”. Este sintoma costuma aparecer quando os filhos saem de casa. Ou ainda naquelas situações em que as mulheres colocam os filhos no centro de suas vidas quando o casamento fracassa. É como se o fato de ter de quem cuidar suprisse todas as necessidades e carências desta mãe. Por isso, se a relação passa por dificuldades e conflitos é nesse momento que deve ser olhada com carinho. Pois uma relação não pode ser substituída por outra.

A mulher atualmente tem muitas funções a cumprir e todas podem lhe dar satisfação. O problema começa quando ela quer ser muito perfeccionista e o tempo é curto para cuidar de tantas tarefas. A atual mulher eu apelidei de “mulher maravilha” justamente por ser aquela pessoa que tem que dar conta de mil coisas ao mesmo tempo. Ela fica tão angustiada com tanta sobrecarga que o resultado é negativo. Ou seja, não para de se cobrar. Quando está com os filhos pensa que deveria estar com o marido, quando está com o marido pensa que deveria estar no trabalho… Não consegue ficar em paz consigo mesma. Por esta razão, muitas mulheres escolhem ficar em casa apenas cuidando dos filhos. Esta situação poderá ser atenuada quando a mulher tiver outro comportamento, ou seja, não abandonar outros setores da vida, e, com isso, apresentar melhores condições psicológicas.

É o caso de mulheres realizadas profissionalmente, que continuam trabalhando, que têm um marido com quem se entendem e vivem um relacionamento de verdadeiro companheirismo. Dessa forma, a vida continua fazendo sentido, mesmo com a saída dos filhos. Pois entendem que o ciclo não se fecha, a vida terá sua continuidade na nova dinâmica familiar. Neste contexto, com a saída dos filhos, o tempo livre será usado em benefício do casal para que, juntos, possam melhor usufruí-lo.

E em situações em que o casamento fracassou, a saída dos filhos para uma mulher mais realizada em outros setores da vida, poderá representar maior liberdade para seu próprio crescimento e desenvolvimento pessoal.

Outra situação que poderá trazer bem-estar para a mulher é quando ela reconhece a saída dos filhos como algo benéfico, incorporando a chegada de urna nora ou genro e relacionar-se bem com eles. Neste caso, ela se sentirá compensada do vazio com a chegada dos netos. Nos dias de hoje, os avós podem cobrir de forma eficaz a atenção que os pais não conseguem, muitas vezes, dar aos filhos em função da carga exaustiva de trabalho a que são submetidos.

 

MAGDALEMA RAMOS – é psicóloga e terapeuta de casais e família, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP e professora do curso de Psicanálise e coordenadora do curso de formação Casal e Família à Luz da Psicanálise, ambos do Instituto Sedae Sapien em São Paulo – SP.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.