ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 3-12

O Sermão da Montanha

Cristo inicia o seu sermão com bênçãos, pois Ele veio ao mundo para nos abençoar (Atos 3.26), como o Sumo Sacerdote da nossa profissão; como o bendito Melquisedeque; como aquele em quem serão benditas todas as famílias da terra (Genesis 12.3). Ele veio não apenas para nos trazer bênçãos, mas para derramar e declarar bênçãos sobre nós. E aqui Ele o fez como alguém que tem autoridade, como alguém que pode conceder bênçãos, e até mesmo a vida, para sempre. Aqui a bênção é repetidamente prometida aos bons; o fato de que Ele os chame de bem-aventurados, faz com que eles o sejam; pois aqueles abençoados por Ele, são verdadeiramente abençoados. O Antigo Testamento termina com uma maldição (Malaquias 4.6); porém o Evangelho se inicia com uma bênção, pois aqui fomos chamados para herdar a bênção. Cada uma das bênçãos que Cristo profere aqui tem uma dupla intenção:

1.Mostrar quem são aqueles que devem ser considerados verdadeiramente bem-aventurados, e qual é o seu caráter.

2.Em que consiste a verdadeira bem-aventurança, as promessas feitas a pessoas de determinadas características, cujo desempenho as tornará bem-aventuradas. Agora:

3.Isto tem o objetivo de corrigir os enganos devastadores de um mundo carnal e cego. A bem-aventurança é aquilo que os homens fingem procurar obter. “Quem nos mostrará o bem?” (Salmos 4.6). Mas muitos confundem o seu objetivo e formam uma noção equivocada de felicidade, e então não é de admirar que errem o caminho; eles escolhem as suas próprias ilusões e cortejam uma sombra. A opinião geral é: ‘Bem-aventurados os que são ricos, e grandiosos, e honoráveis no mundo; eles passam seus dias no riso e seus anos no prazer; eles comem o que engorda e bebem o que é doce, e têm a mão erguida a todos os que estão à sua frente, e todos os rostos se curvam diante dos seus rostos; feliz es as pessoas que estão nesta situação; e os seus desígnios, objetivos e propósitos, consequentemente; eles bendizem ao avarento (SaImos 10.3); eles serão ricos. Agora o nosso Senhor Jesus vem corrigir este erro fundamental, trazer uma nova hipótese, e nos dar uma noção diferente de bem-aventurança e de pessoas bem-aventuradas, que, por mais paradoxal que possa parecer aos preconceituosos, ainda é, em si mesma, e parece ser a todos os que são esclarecidos em termos de salvação, uma regra e uma doutrina de verdade e certeza eternas, segundo as quais em breve seremos julgados. Se este é, portanto, o início da doutrina de Cristo, o início de um procedimento cristão deve consistir em levar ao máximo estas medidas de felicidade, direcionando, de acordo com elas, aquilo que buscamos.

2.Isto tem o objetivo de eliminar o desânimo dos fracos e dos pobres que recebem o Evangelho, assegurando-lhes que o seu Evangelho não tornou bem-aventurados somente aqueles que são eminentes por terem dons, graças, conforto e utilidade; mas que até mesmo o menor no reino dos céus, cujo condição seja justo diante de Deus, é bem-aventurado nas honras e nos privilégios daquele reino.

3.Tem o objetivo de convidar as almas a Cristo, e de abrir caminho, nos seus corações, para a sua lei. O fato de Cristo proferir estas bênçãos, não no final do seu sermão, despedindo-se das pessoas, mas no início, preparando-as para o que Ele ainda tem a dizer a elas, pode nos recordar o monte Gerizím e o monte Ebal, onde foram lidas as bênçãos e as maldições da lei (Deuteronômio 27.12 etc.). Ali, as maldições eram expressas, e as bênçãos, somente sugeridas; aqui, as bênçãos são expressas, e as maldições, sugeridas: nos dois casos, a vida e a morte estão apresentadas diante de nós; mas a lei pare­ cia mais um ministério da morte, para nos dissuadir do pecado; o Evangelho parece uma revelação da vida, para nos atrair a Cristo, pois somente nele está todo o bem. E aqueles que viam as curas graciosas realizadas pela sua mão (cap. 4. 23,24), e agora ouviam as palavras graciosas que procediam dos seus lábios, diriam que Ele era feito de amor e doçura.

4.Este sermão tem o objetivo de estabelecer e resumir os artigos do acordo entre Deus e a homem. O objetivo da revelação divina é nos deixar saber o que Deus espera de nós, e o que podemos esperar dele; e em nenhum lugar ele está mais completamente definido em poucas palavras do que aqui, nem com uma referência mais exata a cada um; e este é o Evangelho em que nós devemos crer, pois o que é a fé, a não ser estar de acordo com estas características e confiar nestas promessas1 O caminho para a felicidade está aberto aqui, e já se tornou uma estrada (lsaias 35.8, versão NTLH); e o fato disto vir dos lábios de Jesus Cristo dá a entender que dele, e por Ele, nós iremos receber tanto a semente como o fruto, tanto a graça necessária como a glória prometida. Nada acontece entre Deus e o homem caído, a não ser por intermédio da mão de Jesus Cristo. Alguns dos pagãos mais sábios tiveram noções de bem-aventuranças diferentes do resto da humanidade, e ansiavam por estas, do nosso Salvador. Sêneca, incumbido de descrever um homem bem-aventurado, escreveu que somente um homem honesto e bom pode ser assim chamado: De Vita Beata, cap. 4. Cui nullum bonum malumque si nisi bonus malusque animus. Quem nec extollant forluita, nec fran9ant. Cui vera voluptas erit voliptatum comtemplio. Cui unum bonum honestas, unum malum turpitudo Em sua avaliação, noda é bom ou mau, exceto um coração bom ou mau, aquele que nada exalta ou desanima, cujo verdadeiro prazer consiste no desprezo ao prazer. Alguém a quem o único bem é a virtude, e o único mal: a depravação.

O nosso Salvador nos dá aqui oito características de pessoas bem-aventuradas, que representam, para nós, as principais graças de um cristão. Em cada uma delas, uma bênção é proferida: “Bem-aventurados os…”, e para cada uma, uma bênção futura é prometida, que é expressa de maneiras variadas, como para adequar-se à natureza da graça ou da obrigação recomendada.

Nós perguntamos: Quem é bem-aventurado? A resposta é:

 I – Os pobres de espírito são bem-aventurados (v. 3). Existe uma pobreza de espírito que está muito longe de tornar os homens bem-aventurados; ela é um pecado e uma covardia enganosa, um medo vil, e uma sujeição voluntária aos desejos humanos. Mas a pobreza de espírito a que Jesus se refere é uma disposição graciosa da alma, pela qual nós nos esvaziamos de nós mesmos para termos o nosso ser preenchido com Jesus Cristo. Ser pobre de espírito é:

1.Sermos pobres com satisfação, estando dispostos a nos esvaziar das riquezas do mundo, se Deus ordenar que isto aconteça conosco; trazer a nossa mente à nossa condição, quando esta for humilde. Muitos no mundo são pobres, mas de espírito elevado; pobres e orgulhosos, murmurando e reclamando, culpando o seu destino. Mas nós devemos nos conformar com a nossa pobreza, devemos saber estar abatidos e até necessitados (Filipenses 4.12). Reconhecendo a sabedoria de Deus ao nos indicar a pobreza, devemos estar à vontade nela, suportar pacientemente as suas inconveniências, ser gratos pelo que temos, e aproveitar tudo ao máximo. Isto significa abandonar toda a riqueza do mundo e não dirigir os nossos corações a ela, mas alegremente suportar perdas e desapontamentos que possam nos atingir no estado mais próspero. Isto não significa – com orgulho ou com desculpas – nos fazermos pobres, despojando-nos do que Deus nos deu, especialmente como aqueles da igreja de Roma, que fazem voto de pobreza e, ainda assim, atraem as riquezas das nações; mas se nós formos ricos no mundo, devemos ser pobres em espírito, isto é, devemos ser condescendentes com os pobres e solidários para com eles, como tocados pelo sentimento das suas fraquezas. Devemos esperar a pobreza e estar preparados para ela; não devemos temê-la nem evitá-la desordenadamente, mas devemos recebê-la bem, especialmente quando ela nos sobrevier por mantermos um a boa consciência (Hebreus 10.34). Jó foi pobre de espírito quando bendisse a Deus tanto por dar como por tirar.

2.E sermos humildes aos nossos próprios olhos. Ser pobre de espírito é pensar com modéstia a respeito de nós mesmos, do que somos, do que ternos e fazemos; os pobres frequentemente são compreendidos, no Antigo Testamento, como humildes e aqueles que se sacrificam, em oposição àqueles que estão confortáveis e os orgulhosos. E sermos como crianças, na opinião que temos a nosso respeito, considerando-nas, às vezes, como frágeis, e até insignificantes (cap. 18.4; 19.14). A igreja de Laodiceia era espiritualmente pobre, podendo ser considerada até mesma em desgraça. Financeiramente, havia abundância, a ponto de ela não ter falta de nada (Apocalipse 3.17). Por outro lado, Paulo era rico espiritualmente, abundante em dons e graças, e ainda assim pobre de espírito, menor que o menor dos santos, e não tinha nada que viesse de sua própria iniciativa. Ser pobre de espirita é olhar com santo desprezo para nós mesmos, valorizar os outros e nos desvalorizar, em comparação com eles. Ser pobre de espírito é estar disposto a se tornar inferior, pobre e pequeno para fazer o bem; é adequar todas as coisas a todos os homens. E reconhecer que Deus é grande, e que nós somos pequenos; que Ele é santo e nós somos pecadores; que Ele é tudo e nós não somos nada, menos do que nada, piores do que nada, e é nos humilharmos diante dele, e sob a sua mão poderosa.

3.Este sentimento não deve nascer de uma grande confiança na nossa própria justiça e força, para que possamos contar somente com os méritos de Cristo para a nossa justificação, e o Espírito e a graça de Cristo para a nossa santificação. Aquele espírito quebrantado e contrito, com o qual o publicano pediu misericórdia para um pobre pecador, é esta pobreza de espírito. Nós devemos nos chamar de pobres, porque sempre precisamos da graça de Deus, sempre imploramos à porta de Deus, sempre estamos em sua casa.

Agora;

(1) Esta pobreza de espírito é colocada em primeiro lugar, entre as graças cristãs. Os filósofos não reconhecem a humildade entre as suas virtudes morais, mas Cristo a coloca em primeiro lugar. A autonegação é a primeira lição a ser aprendida na sua escola, e a pobreza de espírito é considerada a primeira bem-aventurança. A base para todas as outras graças está na humildade. Aqueles que querem edificar algo elevado, devem começar por baixo, e isto é uma excelente preparação para a entrada do Evangelho da graça na alma; é conveniente que o solo receba a semente. Aqueles que estão cansados e sobrecarregados são os pobres de espírito, e eles encontrarão descanso em Cristo.

(2) Eles são bem-aventurados. São bem-aventurados neste mundo. Deus olha graciosamente por eles. Eles são os seus pequeninos. A eles, Deus dá mais graça; eles vivem a vida de modo mais confortável e se sentem bem com a sua vida. Nada lhes acontece de maneira aleatória; ao passo que os de espírito elevado se sentem sempre ansiosos e espiritualmente desconfortáveis.

(3) Deles é o Reino dos céus. Assim se compõe o reino da graça; somente eles estão qualificados para ser membros da igreja de Cristo, que é chamada de congregação dos aflitos (ou dos pobres, SaImos 74.19); o reino da glória está preparado para eles. Aqueles que se humilham desta maneira, e que estão de acordo com Deus quando Ele permite que sejam humilhados, serão exaltados. Os de espírito elevado se vão com as glórias dos reinos da terra; mas as almas humildes, mansas e frutíferas obtêm a glória do reino dos céus. Nós estamos prontos para pensar, a respeito dos que são ricos e fazem o bem com as suas riquezas, que, sem dúvida, deles é o reino dos céus; pois eles podem acumular uma boa segurança para o futuro. Mas o que farão os pobres, que não têm os recursos para fazer o bem? Ora, a mesma felicidade é prometida àqueles que são pobres e se satisfazem com isto, e àqueles que são ricos e que fazem um uso proveitoso de sua abundância. Se eu não for capaz de gastar os meus recursos com alegria para Ele, mas só for capaz de passar necessidades com alegria por Ele, ainda assim serei recompensado. E nós não servimos a um Senhor bom?

 

II – Os que choram são bem-aventurados (v. 4); “Bem-aventurados os que choram”. Esta é outra bênção aparentemente estranha, e adequadamente segue a anterior. Os pobres estão acostumados a chorar, os pobres graciosos choram graciosamente. Nós podemos pensar que aqueles que são felizes são bem-aventurados, mas Cristo, que chorou muito, Ele mesmo diz: “Bem-aventurados os que choram”. Existe um pesar pecaminoso na tristeza do mundo, que é um inimigo à bem-aventurança; a melancolia desesperada, em um registro espiritual, e um pesar desconsolado, em um registro temporal. Existe um pesar natural, que pode provar ser um amigo da bem-aventurança, pela graça de Deus que opera nele, e que santifica as aflições pelas quais choramos. Mas existe um pesar gracioso, que se qualifica como uma bem-aventurança, uma seriedade habitual em que o pensamento está mortificado para as alegrias passageiras deste mundo, e se volta a um verdadeiro estado de contrição.

(1) Um pesar penitente pelos nossos pecados; este é um pesar devoto, um pesar de acordo com Deus; um pesar pelo pecado, olhando para Cristo (Zacarias 12.10). Estes são os que choram por Deus, que vivem uma vida de arrependimento, que lamentam a corrupção na sua natureza, e as suas muitas transgressões, e o que deixaram de receber de Deus por não estarem em sua presença; aqueles que, em consideração à honra de Deus, choram pelos pecados dos outros, e também choram e suspiram pelas suas abominações (Ezequiel 9.4).

(2) Um pesar solidário pelos sofrimentos dos outros; o pesar daqueles que choram com aqueles que choram, que se entristeceram por causa da reunião solene, pela desolação de Sião (Sofonias 3.18; SaImos 137.1), especialmente os que olham com compaixão para as almas que perecem, e choram por elas, como Cristo chorou por Jerusalém. Estas pessoas que se lamentam graciosamente:

(1) São bem-aventuradas. Assim como o coração se entristece com a alegria vã e pecaminosa, no pesar gracioso o coração sente uma alegria verdadeira, uma satisfação secreta, em que um estranho não interfere. Elas são bem-aventuradas, pois são como o Senhor Jesus, que foi um homem sofrido, e sobre quem jamais lemos que riu, mas que frequentemente chorou. Elas estão armadas contra as muitas tentações que assolam a alegria vã, e estão preparadas para o consolo de um perdão assinado e de uma paz acordada.

(2) Elas serão consoladas. Embora, talvez, não sejam imediatamente consoladas, ainda assim uma provisão abundante está feita para o seu consolo; a luz se espalha para elas, e, no céu, certamente serão consoladas, como Lázaro (Lucas 16.25). Observe que a alegria do céu consiste em ser perfeita e eternamente consolado, e no enxugar de todas as lágrimas. E a alegria do nosso Senhor, uma plenitude de alegria e de satisfação eterna; o que será duplamente doce para aqueles que foram preparados para isto por este pesar devoto. O céu ser á realmente um paraíso para aqueles que forem para lá chorando; será uma colheita de alegria, a retribuição por um período em que as lágrimas foram semeadas (81 126.5,6); uma montanha de alegria, em direção à qual o nosso caminho passa por um vale de lágrimas. Veja Isaías 66.10.

 

III – Os mansos são bem-aventurados (v. 5); “Bem-aventurados os mansos”. Os mansos são aqueles que tranquilamente se submetem a Deus, à sua palavra e à sua vara, que seguem as suas orientações e que estão de acordo com os seus desígnios, e que são mansos com todos os homens (Tito 3.2); que podem suportar provocações sem se irritar, sem se deixar levar a qualquer indecência; que conseguem ficar tranquilos quando os outros estão acalorados; e, na sua paciência, mantêm o controle de suas próprias almas, quando mal podem ter controle sobre qualquer outra coisa. Estes são os mansos, que rara e dificilmente são provocados, mas são rápida e facilmente tranquilizados; e que preferem perdoar vinte ofensas a vingar uma, seguindo a regra dos seus próprios espíritos. Estes mansos são aqui descritos como bem-aventurados, até mesmo neste mundo.

1.Eles são bem-aventurados, pois são como o bendito Jesus, e aprenderão dele (cap. 11.29). Eles são como o próprio Deus bendito, que é Senhor da sua ira, e em quem não existe fúria. Eles são bem-aventurados, pois têm o mais confortável e despreocupado contentamento consigo mesmos, com seus amigos, com o seu Deus; eles estão qualificados para qualquer relacionamento, e condição, qualquer companhia, qualificados para viver e qualificados para morrer.

2.Eles herdarão a terra; esta é uma citação de Salmos 37.11, e é praticamente a única promessa temporal expressa em todo o Novo Testamento. Não que eles sempre obterão grandes coisas da terra, muito menos que eles devam esperar somente isto, mas esta linha de religiosidade tem, de uma maneira especial, a promessa da vida que existe agora. A mansidão, por mais ridicularizada e subestimada que seja, tem uma tendência real de melhorar a nossa saúde, riqueza, o nosso conforto e a nossa segurança, até mesmo neste mundo. Observa-se que os mansos e tranquilos têm uma vida mais fácil, em comparação com os rebeldes e turbulentos. A expressão “herdarão a terra” pode se referir à terra de Canaã, um tipo de céu. De modo que toda a bem-aventurança do céu, e todas as bênçãos da terra abaixo dele, são a porção dos mansos.

 

IV – Os que têm fome e sede de justiça são bem-aventurados (v. 6). Alguns interpretam isto como um novo incentivo à nossa pobreza exterior, e a uma condição humilde neste mundo, que não somente expõe os homens às ofensas e ao mal, mas torna inútil a sua busca pela justiça; eles sentem fome e sede de justiça, mas o poder por parte dos seus opressores é tal, que eles não a obterão; eles só desejam aquilo que é justo e igual, mas isto lhes é negado por aqueles que não temem a Deus , nem têm consideração pelos homens. E uma situação deprimente! Mas, ainda assim, eles são bem-aventurados se sofrem estas dificuldades com uma boa consciência; que eles tenham esperança em Deus, que cuidará para que a justiça seja feita, e que fará “justiça a todos os oprimidos” (Salmos 103.6). Aqueles que se contentam em suportar a opressão, e tranquilamente se dirigem a Deus para interceder por si mesmos, serão, no devido tempo, satisfeitos, abundantemente satisfeitos, pela sabedoria e pela bondade que se manifestarão nas aparições de Deus a eles. Mas certamente isto deve ser compreendido espiritualmente, como um desejo tal que, sendo destinado a um objetivo como este, é gracioso, e é obra da graça de Deus na alma, qualificando os cristãos para os dons da graça divina.

1.A justiça é mencionada aqui representando todas as bênçãos espirituais. Veja Salmos 24.5; cap. 6.33. Elas nos são compradas pela justiça de Cristo; transmitidas e asseguradas pela imputação daquela justiça a nós; e confirmadas pela fidelidade de Deus. Vários fatos definem o que é a justiça. O fato de Cristo ter sido feito a justiça de Deus por nós. O fato da justiça de Deus ter sido feita nele. O fato de todo homem ter sido renovado na justiça, tornando-se um novo homem, trazendo em si mesmo a imagem de Deus, passando a ter um interesse em Cristo e nas suas promessas.

2.Destas coisas, devemos ter fome e sede. Nós verdadeiramente devemos desejá-las, como alguém que tem sede e fome deseja beber e comer, e não consegue ficar satisfeito com nenhuma coisa, a não ser alimento e bebida, e será satisfeito com estas coisas, embora sinta necessidade de outras. Os nossos desejos de bênçãos espirituais devem ser fervorosos e importunos; em outras palavras: “Dê-me isto, caso contrário morrerei; todo o resto é lixo e não tem valor, não satisfaz; dê-me isto, e eu terei o suficiente, mesmo que não tenha nada mais”- A fome e a sede são desejos que retornam frequentemente, e requerem satisfação renovada; assim também estes desejos santos não se baseiam em nada conseguido, mas se realizam através de perdões renovados e suprimentos novos e diários de graça. A alma avivada exige refeições constantes de justiça, de graça para realizar o trabalho de cada dia, tão pontualmente quanto o corpo vivo exige alimento. Aqueles que têm fome e sede irão trabalhar pelos suprimentos, de modo que devemos não apenas desejar as bênçãos espirituais, mas nos esforçarmos para obtê-las com o uso dos meios indicados. O Dr. Hammond, no seu catecismo prático, distingue entre fome e sede. A fome é o desejo de alimento para o sustento, assim como a justiça santificadora. A sede é o desejo de uma bebida para revigorar, assim como a justiça santificadora e o sentimento do nosso perdão.

Os que sentem fome e sede de bênçãos espirituais são bem-aventurados nestes desejos, e serão fartos destas bênçãos.

(1) Eles são bem-aventurados nestes desejos. Embora nem todos os desejos de graça sejam graça (os desejos dissimulados e débeis não o são), ainda assim um desejo como este o é; é uma evidência de alguma coisa boa, e um desejo por alguma coisa melhor. É um desejo da própria criação de Deus, e Ele não irá abandonar o trabalho das suas próprias mãos. A alma terá fome ou sede de uma coisa ou de outra; portanto, bem-aventurados aqueles que se apegam à coisa certa, que é satisfatória, e não enganadora, e não suspiram pelo pó da terra (Amós 2.6; Isaias 55.2).

(2) Eles serão fartos destas bênçãos. Deus lhes dará o que eles desejam para completar a sua satisfação. Só Deus pode fartar uma alma, pois somente a sua graça e o seu favor são adequados aos justos desejos da alma. E Ele fartará estas pessoas com graça, pela graça que, em um sentido da sua própria condição de vazios, recorre a esta plenitude. Ele enche de bens os famintos (Lucas 1.53), e os sacia (Jeremias 31.25). A felicidade do céu certamente fartará a alma. A sua justiça será completa, trazendo a graça de Deus e a sua imagem; ambas em sua plena perfeição.

 

V – Os misericordiosos são bem-aventurados (v. 7). Isto, como o restante, é um paradoxo, pois os misericordiosos não são interpretados como sendo os mais sábios, nem provavelmente serão os mais ricos; ainda assim, Cristo diz que são bem-aventurados. Os misericordiosos são piedosa e bondosamente inclinados pela piedade, ajudam e auxiliam as pessoas que estão na miséria. Um homem que não tenha recursos para ser generoso ou abundante pode ser verdadeiramente misericordioso, e assim Deus aceita a mente disposta. Nós devemos não somente suportar pacientemente os nossos próprios sofrimentos, como também devemos, pela solidariedade cristã, compartilhar os sofrimentos dos nossos irmãos; o amigo deve mostrar compaixão (Jó 6.14), e revestir-se de entranhas de misericórdia (Colossenses 3.12). E, revestidos, eles devem se apresentar para ajudar em tudo o que puderem àqueles que estão passando por algum tipo de necessidade. Nós devemos ter compaixão das almas dos outros, e ajudá-los; ter compaixão dos ignorantes, e instruí-los; ter pena dos descuidados, e adverti-los; ter compaixão dos que estão em condição de pecado e recolhê-los , como galhos sendo retirados das chamas. Nós devemos ter compaixão daqueles que estão melancólicos e em tristeza, e consolá-los (Jó 16.5); daqueles em relação aos quais temos alguma vantagem, não sendo rigorosos e severos com eles; daqueles que estão passando por necessidades, ajudando-os. Se nos recusarmos a fazer isto, qualquer que seja a nossa desculpa, nós fechamos as entranhas da nossa compaixão (Tiago 2.15,16; 1 João 3.17). Abra a sua alma, repartindo o seu pão com os famintos (Isaias 58.7,10). Um bom homem é misericordioso até mesmo com os seus animais.

Quanto aos misericordiosos: Eles são bem-aventurados; isto foi dito no Antigo Testamento: “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre” (Salmos 41.1). Neste ponto, eles se assemelham a Deus, cuja bondade é a sua glória; ao sermos misericordiosos como Ele é, seremos, segundo a nossa medida, perfeitos, assim corno Ele é perfeito. Ê uma evidência do amor a Deus; será urna satisfação a nós mesmos, poder ser útil de alguma maneira para o benefício de outros. Uma da s alegrias mais limpas e purificadas deste mundo é a de fazer o bem. Nestas palavras: “Bem-aventurados os misericordiosos”, estão incluídas aquelas palavras de Cristo, que não se encontram nos Evangelhos: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20.35).

2.Eles alcançarão misericórdia; misericórdia dos homens, quando precisarem dela; aquele que dá água, também receberá água (nós não sabemos quando poderemos precisar de bondade dos outros, e, portanto, devemos ser bondosos); mas especialmente misericórdia de Deus, pois com o benigno Ele se mostrará benigno (Salmos 18.25). A pessoa mais misericordiosa e generosa não pode ter pretensões de méritos, mas deve correr para a misericórdia. O misericordioso irá encontrar, com Deus, misericórdia que perdoa (cap. 6.14), misericórdia fornecida (Provérbios 19.17), misericórdia que conserva (SaImos 41.2), misericórdia naquele Dia (2 Timóteo 1.18); eles herdarão o reino que lhes está preparado (cap. 25.34,35); ao passo que aqueles que não demonstram ter misericórdia terão um julgamento sem misericórdia (o que não deve ser muito diferente do fogo do inferno).

 

VI – Os limpos de coração são bem-aventurados (v. 8). “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. Esta é a mais abrangente de todas as bem-aventuranças; aqui, a santidade e a felicidade são completamente descritas e reunidas.

2.Esta é a caracte1is tica mais abrangente dos bem-aventurados: eles são limpos de coração. Observe que a verdadeira religião consiste na pureza de coração. Aqueles que são puros interiormente mostram que estão sob o poder da religião pura e imaculada. O verdadeiro cristianismo está no coração, na pureza do coração; no lavar o coração da malícia (Jeremias 4.14). Nós precisamos erguer para Deus não apenas mãos limpas, mas um coração puro (SaImos 24.4,5i 1 Timóteo 1.5). O coração deve ser puro, em oposição à contaminação de um coração honesto que tem boas intenções; e puro, em oposição à contaminação e à corrupção, como o vinho que não é adulterado, como a água sem sujeira. O coração deve ser mantido puro quanto às cobiças carnais, quanto a todos os pensamentos e desejos impuros; e quanto às cobiças do mundo. A cobiça é chamada de torpe ganância; ela abrange todas as impurezas da carne e do espírito, tudo aquilo que vem do coração e contamina o homem. O coração deve ser purificado pela fé, e precisa estar completamente voltado a Deus; ele deve ser apresentado e preservado para Cristo, como uma virgem. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro!”

3.Aqui está o consolo mais abrangente dos bem-aventurados; “eles verão a Deus”. Observe que:

(1) Ver a Deus é a perfeição da felicidade da nossa alma; vê-lo, como podemos fazer, pela fé, na nossa condição atual, é ter um céu sobre a terra; e vê-lo como faremos na nossa situação futura, no paraíso do céu. Vê-lo, como Ele é, face a face, e não mais por meio de um espelho, obscuramente; vê-lo como nosso, vê-lo e desfrutar esta visão; vê-lo e ser como Ele é, e satisfazermo-nos desta semelhança (SaImos 17.15); e vê-lo para sempre, e jamais deixar de vê-lo; esta é a felicidade do céu.

(2) A felicidade de ver a Deus é prometida àqueles que são limpos de coração, e somente àqueles. Ninguém – exceto os puros – é capaz de ver a Deus; e isto não seria uma fonte de alegria para os impuros. Que prazer teria uma alma não santificada com a “visão de um Deus santo? Da mesma maneira como ela não consegue suportar olhar para o seu próprio pecado, também não suportará olhar para a pureza de Deus; nem poderá entrar nada impuro na nova Jerusalém; mas todos aqueles que são limpos de coração, todos aqueles que são verdadeiramente santificados, têm desejos fundidos em si mesmos, que nada, exceto a visão de Deus, irá santificar; e a divina graça não deixará tais desejos insatisfeitos.

 

VII – Os pacificadores são bem-aventurados (v. 9). A sabedoria que vem do alto é, em primeiro lugar, pura, e em seguida, pacificadora; os bem-aventurados são puros com relação a Deus, e pacificadores com relação aos homens. Pois, com referência a ambos, a consciência precisa ser mantida limpa de pecados. Os pacificadores são aqueles que têm:

1.Uma disposição pacificadora: assim como, para criar uma mentira, é necessário ter a inclinação à mentira, e ser viciado nela, também para fazer a paz, é necessário ter uma afeição forte e sincera pela paz. “Pacifico sou” (Salmos 120.7). Significa amar, desejar, e deleitar-se com a paz; incorporá-la à essência do nosso ser, e estudar maneiras para estar em paz.

2.Uma conversa pacífica. Habilmente, até onde for possível, preservar a paz que não deve ser rompida, e recuperá-la, caso seja rompida; ouvir às propostas de paz conosco, e estar preparados para fazê-las aos outros; onde houver distância entre irmãos e vizinhos, fazer tudo o que for possível para diminuí-la, e ser o reparador das trincas. Fazer a paz, às vezes, é um serviço ingrato, e o que cabe àquele que tenta reconciliar dois lados é sofrer golpes de ambos; ainda assim, é um bom trabalho, e devemos nos apresentar para realizá-lo. Alguns julgam que esta é uma lição especialmente dirigida aos ministros, que devem fazer tudo o que puderem para reconciliar os que estão em divergência, e para promover o amor cristão entre aqueles que estão sob os seus cuidados.

Agora:

(1) Estas pessoas são bem-aventuradas; pois elas têm a satisfação de se divertir em mantendo a paz, e de serem verdadeiramente úteis aos outros, provendo-lhes a paz. Eles estão trabalhando juntamente com Cristo, que veio ao mundo para destruir todas as inimizades, e para proclamar a paz na terra.

(2) Eles “serão chamados filhos de Deus”; isto será uma evidência, para eles mesmos, de que o são; Deus os considerará corno tais, e, consequentemente, eles se parecerão com Ele. Ele é o Deus da paz; o Filho de Deus é o Príncipe da Paz; o Espírito de adoção é o Espírito de paz. Como Deus se declarou reconciliável com todos nós, Ele não considerará os seus filhos como aqueles que são implacáveis com as suas inimizades, uns contra os outros; pois se os pacificadores são bem-aventurados, ai dos que rompem a paz! Por consequência, parece que Cristo nunca teve a intenção de ter a sua religião propagada por fogo e espada, ou por leis penais, ou por reconhecer a inveja ou fanatismo extremo corno a marca de seus discípulos. Os filhos deste mundo adoram pescar em águas turbulentas, mas os filhos de Deus são pacificadores, os pacificas da terra.

Os que sofrem perseguições por causa da justiça são bem-aventura dos. Este é o maior paradoxo de todos, e é peculiar ao cristianismo. Consequentemente, é deixado para o final, e é mais reforçado do que qualquer um dos outros (vv. 10-12). Esta bem-a­venturança, como o sonho de Faraó, é dupla, porque é dificilmente reconhecida, e ainda assim, ela é garantida; e na última parte, há a mudança do sujeito: “Bem-aventurados sois vós”, meus discípulos e seguidores. Em outras palavras: “E com isto que vocês, que têm virtudes abundantes, devem estar mais imediatamente preocupados; pois vocês devem contar com as dificuldades e os problemas, mais do que outros homens”. Observe aqui:

1.A descrição do caso dos santos sofredores; este é um caso difícil, que desperta a compaixão.

2.Eles são perseguidos, caçados, e capturados, como os animais nocivos, que são procurados para serem destruídos; como se um cristão tivesse uma cabeça de lobo, como um malfeitor – qualquer pessoa que o encontre pode matá-lo. Eles são abandonados como os dejetos de todas as coisas; multados, aprisionados, expulsos, privados de suas propriedades, excluídos de todos os lugares de confiança e que podem trazer lucro, espancados, atormentados, torturados, sempre entregues à morte e considerados como ovelhas para o matadouro. Este tem sido o efeito da inimizade da semente da serpente contra a semente sagrada, desde os tempos do justo Abel. Era assim na época do Antigo Testamento, como vemos em Hebreus l l. 35ss. Cristo nos disse que seria assim também com a igreja cristã, e não devemos pensar que isto é estranho (1 João 3.13). Ele nos deixou um exemplo.

2.Eles são injuriados, e têm todos os tipos de maldades falsamente ditas contra si. Apelidos e palavras de acusação se ligam a eles, sobre pessoas, em particular, e sobre a geração dos justos, de maneira geral, para fazê-los odiados; algumas vezes, para fazê-los formidáveis, para que possam ser atacados poderosamente; diz-se contra eles coisas que não sabiam (SaImos 35.11; Jeremias 20.18; Atos 17.6,7). Aqueles que não tinham poder em suas mãos par a causar algum outro prejuízo, ainda podiam fazer isto. E aqueles que tinham poder para persegui-los, também achavam necessário fazê-lo para se justificarem da forma bárbara como os tratavam. Eles não podiam tê-los importunado, se não os tivessem vestido em peles de lobos; nem teriam lhes dado o pior dos tratamentos, se não os tivessem representado, primeiramente, como os piores dentre os homens. Eles serão injuriados e perseguidos. Observe que injuriar’ os santos é persegui-los, e isto será descoberto em breve, quando as palavras duras forem computadas (Judas 15), como também os cruéis escárnios (Hebreus 11.36). Eles dirão todo tipo de maldade contra vocês, com falsidade; algumas vezes, diante do trono do julgamento, como testemunhas; algumas vezes, no assento do escarnecedor, com zombarias hipócritas nas festas; eles são a canção dos bêbados. Algumas vezes diretos, como Simei amaldiçoou Davi; algumas vezes, pelas costas, como fizeram os inimigos de Jeremias. Observe que não há maldade tão negra e horrível que, em uma ocasião ou em outra, não tenha sido dita, em falsidade, sobre os discípulos e seguidores de Cristo.

1.”Por causa da justiça” (v 10); “por minha causa” (v. 11). Por causa da justiça, portanto por causa de Cristo, pois Ele está muito interessado na obra da justiça. Os inimigos da justiça são inimigos de Cristo, Isto exclui da bem-aventurança aqueles que sofrem justamente, e têm maldades ditas com verdade pelos seus crimes reais; que eles se envergonhem e se confundam, isto é parte da sua punição. Não é o sofrimento que faz o mártir, mas a causa. Os mártires são aqueles que saírem por causa da justiça, que sofrem por não pecar contra suas próprias consciências, e que sofrem por fazer a que é bom. Qualquer que seja a desculpa que os perseguidores tenham, é no poder da santidade que eles têm um inimigo; é realmente Cristo e a sua justiça que são difamados, odiados e per seguidos. “As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (SaImos 69.9; Romanos 8.36).

2.O consolo dos santos sofredores é a presentado.

1.Eles são “bem-aventurados”; pois agora, na sua vida, recebem males (Lucas 16.25), e os recebem em grande medida. Eles são bem-aventurados, pois é uma honra para eles (Atos 5.41); é uma oportunidade de glorificar a Cristo, de fazer o bem e de sentir consolo especial e visitas de graça e sinais da presença do Senhor (2 Coríntios 1.5; Daniel 3.25; Romanos 8.29).

2.Eles serão recompensados; “deles é o reino dos céus”. Na atualidade, eles têm direito a ele, e têm doces antecipações dele; e em breve tomarão posse dele. Embora não haja nada nestes sofrimentos que possa, a rigor, ser digno de Deus (pois os pecados da melhor merecem o pior), ainda. assim o reino dos céus é aqui prometido como recompensa (v. 12). “Grande é o vosso galardão nos céus”. Tão grande, a ponto de transcender o serviço. Está no céu, no futuro e fora do alcance da vista; mas está bem guardado, fora do alcance do acaso, da fraude, e da violência. Observe Deus irá cuidar daqueles que perdem por Ele, ainda que seja a própria vida, para que não o percam no final. O céu, no final, será uma recompensa abundante por todas as dificuldades que enfrentam os no nosso caminho. Isto é o que tem sustentado os santos sofredores de todas as épocas, esta alegria que está diante deles.

3.”Assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (v. 12). Eles foram antes de vocês, em excelência, acima do ponto aonde vocês chegaram, estiveram diante de vocês no tempo, para que pudessem ser exemplos de aflição e paciência (Tiago 5.10). Da mesma maneira, eles foram perseguidos e combatidos; e você espera ir ao céu de alguma maneira, por sua própria conta? Isaías não foi ridicularizada pelas linhas que escreveu? Eliseu, pela sua cabeça calva? Os profetas não foram todos maltrata dos desta maneira? Portanto, não se maravilhe como se fosse uma coisa estranha, não murmure coma se fosse uma coisa difícil; é um consolo ver o caminho de dificuldade, e uma honra seguir líderes como estes. Esta graça que foi suficiente para eles, para conduzi-los em meio às suas dificuldades, não faltará para você. Aqueles que são os seus inimigos são a semente e os sucessores daqueles que antigamente zombaram dos mensageiros do Senhor (2 Crônicas 36.16; cap. 23.31; Atos 7.52).

4.Portanto, “exultai e alegrai-vos” (v.12). Não é suficiente ser paciente e contentar-se sob estes sofrimentos, assim como sob as aflições comuns, e não retribuir injúria por injúria; mas devemos nos regozijar porque a honra e a dignidade, o prazer e a vantagem, do sofrimento por Cristo são muita mais consideráveis da que a dor e o opróbrio dele. Não que nós devemos nos orgulhar em nossos sofrimentos (que arruínam tudo), mas devemos nos aprazer neles, como Paulo (2 Coríntios 12.10); como sabendo que Cristo está neste lugar, de antemão, conosco, e que Ele não será tardio par a conosco (1 Pedro 4.12,13).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A tormenta da Ira

A TORMENTA DA IRA

Sentimentos nos tomam de assalto e nos arrastam com eles – e, no entanto, precisamos a todo momento conter nossos impulsos. Como combinar as duas coisas? Psicólogos estudam o controle de nossas emoções mais sombrias, como a raiva e o medo.

O calor do verão convida à vida ao ar livre. Mas, mal ouvimos, lá vem o vizinho com seu maldito aparelho de som, animando o churrasco de domingo. “Que abuso”, pensamos, já tomados de raiva. Alegria ou irritação, medo ou surpresa, pesar ou orgulho: os acontecimentos mais banais despertam múltiplas emoções. Elas acompanham cada instante do nosso cotidiano, onipresentes como o ar que respiramos.

No entanto, empenhamo-nos quase sempre em conter nossos sentimentos ou em mantê-los dentro de limites toleráveis. Assim, quase nenhuma emoção escapa ao crivo da consciência.

Todos gostam de receber um elogio do chefe, mas, se o colega invejoso está por perto, melhor não deixar transparecer demais o orgulho. Se alguém no trabalho se comporta de maneira desajeitada, contemos o riso, para não provocar antipatia. Nós, humanos, não somos apenas seres emocionais, somos seres que controlam suas emoções.

Para pesquisadores que se dedicam ao assunto, duas questões são de interesse particular, A primeira é: por que, afinal, buscamos controlar nossas emoções? Elas não são valiosas demais para ser reprimidas. Sem o afeto, por exemplo, dificilmente ajudaríamos outro ser humano ou criaríamos nossos filhos, e, sem nos roer de raiva, talvez jamais criássemos coragem para pôr o vizinho no seu devido lugar. Portanto, para que o esforço em reprimi-los?

E a segunda questão, como conseguimos conter nossas emoções? Profundamente enraizado em nossa herança biológica, o animal dentro de nós parece muito mais forte que qualquer mecanismo mental de mediação.

O porquê e o como do “controle das emoções “encontram-se no centro de uma área de pesquisa, em que psicólogos, sociólogos, antropólogos e, mais recentemente, neurocientistas têm adquirido valiosos conhecimentos. Tradicionalmente, aquela primeira questão –  se o homem pode de fato controlar emoções – sempre foi respondida afirmativamente. Os estoicos já o postulavam. Marco Aurélio (120-180 d.C.), por exemplo, escreveu em suas Meditações, “Livre da paixão, a mente humana” torna-se mais forte”. E, quase 2 mil anos depois, em O mal-estar da civilização, Sigmund Freud explicou por que emoções transbordantes seriam inconciliáveis com o convívio social. Com certeza, as emoções nem sempre trazem à tona apenas o que há de bom em nós, como o comportamento altruísta ou a solução criativa de problemas. Elas têm também seu lado sombrio: a raiva, que pode transformar-se e violência, os medos, em depressões, que por vezes, conduzem ao suicídio. Como hoje sabem os psicólogos clínicos, transtornos psíquicos são com frequência    resultado de reações emocionais desmedidas, já fora de controle.

A isso vem se somar o fato de que, em nosso mundo altamente tecnologizado, sentimentos sem freios são rápidos na produção de efeitos devastadores. Se um maluco armado ou um motorista endoidecido resolvem dar livre vazão a sua raiva, é fácil prever a catástrofe. A capacidade de regular as próprias emoções parecem, portanto, construir necessidade vital para a sobrevivência do Homo sapiens.

Como é possível, porém, regular as próprias emoções é uma questão que há muito tempo vem provocando dor de cabeça nos pesquisadores. Os exemplos mencionados por certo mostram que se trata de algo que fazemos todos os dias. Mas cuidado:  acreditar que temos nossos sentimentos sob controle está longe de significar que isso acontece de fato. Talvez eles continuem borbulhando sob a superfície da consciência. Como se sabe, essa era a opinião de Freud, que introduziu na psicologia o conceito de recalque, sentimentos muito dolorosos ou incompatíveis com o ideal que temos de nós mesmos são exilados sem maiores delongas no inconsciente. Mas a energia própria das nossas emoções precisa de escape – como numa panela de pressão -, e acaba se manifestando, por exemplo, sob a forma de perturbações neuróticas ou mesmo físicas.

Outros pesquisadores mais tarde sustentaram a hipótese de Freud. Na década de 30, Franz Alexander (1891-1964), psicanalista e um dos fundadores da medicina psicossomática, descobriu que a pressão sanguínea tende a subir de forma constante nas pessoas que reprimem sistematicamente suas emoções. Ou talvez pessoas com hipertensão que tendem a reprimir sentimentos. Não era apenas de parâmetros confiáveis para as emoções e o seu controle que Alexander carecia. Na verdade, suas descobertas baseavam-se em meros dados estatísticos, e não na experimentação. Por isso, ele não conseguiu elucidar a possível relação de causa e efeito existente entre o controle das emoções e a saúde de um indivíduo.

De lá para cá, no entanto, a psicologia estudou melhor as emoções e é capaz de manipulá-las em laboratório. Isso abre caminho para que o modo como os seres humanos regulam seus sentimentos seja estudado em experimentos controlados. É o que faz, por exemplo, James Gross, psicólogo da Universidade Stanford, na Califórnia. Ao lado de sua equipe, ele investiga as estratégias que permitem controlar os sentimentos e de que forma isso afeta o bem-estar psíquico e a saúde. De início, uma surpresa desagradável aguarda os voluntários no laboratório de Gross: eles teriam de assistir a filmes chocantes, gravações em vídeo que despertam repulsa, como a amputação de um braço ou rituais africanos exibindo a prática da circuncisão. Não vale virar o rosto. Afinal, só dessa maneira é possível assegurar a indução de estados emocionais intensos.

Num desses experimentos, Gross solicitou à metade de seus voluntários que, na medida do possível, não fizessem caretas ao assistir às cenas. Eles deveriam se concentrar em manter expressão neutra, de modo que ninguém pudesse ver o que estavam sentindo. Esse tipo de autocontrole é chamado de “supressão” pelos psicólogos.

A outra metade não recebeu instrução alguma. Gross filmou as expressões faciais do grupo e registrou reações fisiológicas como condutabilidade elétrica da pele e frequência e imensidade dos batimentos cardíacos. Todos os participantes responderam a um questionário sobre o que haviam sentido durante a exibição dos vídeos.

REPRESSÃO FATAL

A maioria dos participantes solicitados a manter a expressão neutra conseguiu esconder sinais de suas emoções. Nem por isso, no entanto, eles sentiram menos repugnância, nojo ou até medo – conforme se verificou pelas respostas ao questionário – do que aqueles que haviam assistido às mesmas cenas sem ter recebido instruções específicas. Mas um dado chamou a atenção: apesar da suposta impassibilidade, o sistema nervoso autônomo reagiu com particular imensidade nos que haviam reprimido a emoção, o que permite inferir uma reação veemente de stress. Esse dado fortalece a noção de que controlar emoções fortes pode ser nocivo à saúde.

Todavia, o efeito negativo do controle da expressão emocional não se restringe ao aumento do stress. Como já puderam demonstrar em vários estudos os psicólogos Roy Baumeister e Dianne Tice, ambos da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, pessoas que reprimem suas emoções são menos capazes de resolver desafios intelectuais. Jane Richards, da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que os repressores de sentimentos têm mais dificuldade em memorizar detalhes de experiências emocionalmente significativas. Tampouco no relacionamento interpessoal desse se saem tão bem, como demonstrou Emily Butler, da Universidade do Arizona em Tucson. Em questionários com respostas anônimas, pessoas que não deixam transparecer nenhum sentimento em conversa com seus interlocutores foram consideradas por estes menos simpáticas – e também menos interessantes.

Claro está que, além dos efeitos físicos de curta duração, o controle das emoções acarreta consequências duradoras. Num estudo publicado em 2003, James Gross e Oliver John, da Universidade Berkeley, perguntaram a estudantes em que medida descontrolavam seus sentimentos no dia-a-dia. Com base nas respostas, os voluntários foram divididos em dois grupos, o daqueles que davam expressão mais frequente as suas emoções e o dos “repressores”.

A comparação resultou numa série de diferenças significativas. Quem preferia engolir a raiva, o medo, e o pesar revelou-se em média, mais pessimista, com tendência à depressão e mais inseguro. Além disso, essas pessoas fazem menos amizades e suas relações tendem a ser superficiais. Temperamentos mais frios, portanto, parecem de início em desvantagem, em diversos aspectos.

Um estudo do pesquisador belga Johan Denollet, médico do Hospital Universitário de Antuérpia, deu ainda um último empurrãozinho nessa conclusão já preocupante. Ele perguntou a pessoas que haviam sofrido infarto quais eram seus “hábitos emocionais”. Denollet queria saber desses pacientes com que frequência eles tinham mau humor ou outras emoções negativas, tais como medo, raiva ou remorso, e se compartilhavam seus estados de espírito com os outros ou preferiam guarda-los para si. Quando, dez anos depois, Denollet tornou a contatar os mesmos pacientes, com o intuito de repetir as perguntas, cerca de 5% deles haviam morrido. Mas tanto entre os que haviam relatado ter emoções negativas com frequência acima da média como entre os que tinham demonstrado tendência a à repressão emocional, os mortos perfaziam um total de 25%. Ou seja, uma taxa de mortalidade cinco vezes maior. Dar vazão aos sentimentos parece, portanto, não apenas humano como também –  e literalmente – de importância vital.

INTERIORIDADE E EMOÇÃO

As descobertas de Denollet nos deixam num dilema. A psicologia nos diz que, sem controlar as emoções, não podemos ir adiante; mas, ao fazê-lo, nos tornamos indivíduos mais solitários e fisicamente doentes. Felizmente, pesquisas mais recentes apontam uma possível saída. Controlar as emoções não tem necessariamente consequências ruins, basta fazermos uso correto desse controle.

Nos estudos mencionados os voluntários controlavam apenas seu comportamento, e não os sentimentos em si. Mas outra modalidade de controle das emoções tem por alvo menos o comportamento visível que a experiência menor, subjetiva.

A vida cotidiana nos mostra que isso é possível. Somos capazes de ver a mesma situação sob diferentes ângulos e, mediante uma alteração no modo de pensar, de exercer influência sobre nossas emoções. Um garçom demorado, por exemplo, é capaz de nos fazer ferver o sangue. Em geral, porém, basta observar que o pobre homem está apenas atarantado com o grande fluxo de fregueses que nossa irritação se dissipa.

Diversos pesquisadores estudam de que forma esse controle cognitivo das emoções atua – e se ele é capaz de evitar as consequências negativas já descritas. Mas como ensinar voluntários a se sentir, com a força do pensamento, menos mal diante de imagens de cenas horripilantes solicitando a eles, por exemplo, que reflitam sobre as sequências em vídeo com a máxima objetividade, ou seja, que contemplem as cenas de uma amputação, por exemplo, com os olhos de um médico voluntarioso que se valem dessa estratégia de racionalização não apenas deixam transparecer mais raramente sentimentos negativos em seu comportamento, como também dizem experimentar menos mal-estar e repulsa. Além disso, nesses experimentos, verificou-se menor ativação do sistema nervoso autônomo.

É possível, portanto, que certas estratégias cognitivas sejam o caminho das pedras para o controle das emoções. Se podemos manipular nossos sentimentos de acordo com o modo como avaliamos uma situação, então isso deve ser passível de verificação no cérebro. Assim pensaram também Kevin Ochsner e Silvia Bunge, hoje pesquisadores da Universidade Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Davis, respectivamente.

A MENTE NO TOMÓGRAFO

Os neuropsicólogos examinaram voluntários com o auxílio da tomografia por ressonância magnética funcional (flvtRI).  Esse método torna visível a atividade em diferentes regiões cerebrais por meio do teor de oxigênio no sangue. Durante a tomografia, Ochsner e seus colegas exibiram imagens chocantes de cirurgias, de crianças com doenças fatais e de cães bravos mostrando os dentes. Eles ora pediam aos participantes que apenas as contemplassem, ora que se distanciassem delas o máximo possível, empregando para tanto uma estratégia específica, treinada de antemão. Essa estratégia consistia na reelaboração cognitiva da “história por trás da imagem.” Por exemplo, “Imagine que o bebê da imagem logo estará curado”. Ou, “O cachorro está bem longe de você, contido por uma cerca alta”. Deu certo. quando os voluntários seguiram o conselho de refletir sobre a imagem com distanciamento, o córtex pré-frontal revelou nítido aumento de atividade. Essa região cerebral é responsável pelo chamado controle executivo – isto é, por quase tudo que tenha a ver com planejamento, decisão e execução de ações. Quanto mais ativas se revelavam as células nervosas dessa região, maior era a calmaria em regiões do sistema límbico e sobretudo na amígdala, que, como se sabe, tem participação no modo como se lida com emoções negativas. Estratégias de pensamento podem, portanto, balizar reações emocionais com eficácia. Ou se, as coisas em si não são nem boas nem ruins, é o pensamento que as faz assim. As pessoas que se saíram bem com a estratégia de reelaboração cognitiva disseram ter tudo menos náusea e nojo e demonstraram atividade reduzida em seu sistema nervoso autônomo.

A grande questão, no entanto, é se esse método é de alguma valia também na vida cotidiana, ou seja, em situações reais. Foi com o intuito de examinar essa questão que Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madson, partiu ao encontro dos mestres do controle emocional: os monges tibetanos. Método importante dos budistas é se desligar de todos os sentimentos negativos e pensar sempre de forma positiva. Vistos de fora, os monges de fato aparentam impassibilidade admirável. Declaram sentir muito menos medo, pesar ou raiva. Mantêm ao contrário, uma inclinação para a calma e a passividade. Mesmo em situações nas quais outros morrem de medo, os monges tibetanos exibem solene autocontrole mental. Literalmente: ameaçados de tortura pela ocupação chinesa, alguns preferiram a auto- anulação pelo fogo – com sorriso nos lábios, conta-se.

Para o estudo do controle emocional humano, a meditação dos monges seria o objeto de pesquisa ideal, afirma Davidson. Para sorte do pesquisador; o Dalai Lama, supremo representante do budismo tibetano, é bastante aberto às neurociências e já estimulou em diversas ocasiões encontro entre budistas, psicólogos e neurocientistas.

Davidson, portanto, pôs mãos à obra. Por meio da eletroencefalografia(EEG), registrou as ondas cerebrais de oito monges enquanto estavam mergulhados em práticas meditativas. Os participantes desse estudo tinham de 10 mil a 50 mil horas de meditação – não eram, portanto, iniciantes. Os padrões de seus EEG foram comparados aos de novatos em meditação que tinham passado por treinamento de apenas uma semana.

RUMO AO TlBET?

Resultado desse duelo desigual: durante a meditação, os monges apresentaram maior porcentagem das chamadas ondas gama – padrões velozes, de frequência entre 25 e 42 hertz -, que acompanham estados elevados de atenção. As ocorrências revelaram-se especialmente pronunciadas em duas regiões do lobo frontal, ambas envolvidas no controle das emoções. De acordo com Davidson, a atividade gama dos monges está entre as mais intensas já descritas na literatura não-patológica. Na opinião do pesquisador, esses parâmetros neuronais expressam a capacidade dos monges de controlar pensamentos e sentimentos, exercitada durante anos.

Devemos, então, partir todos para o Tibete e seguir o modelo dos monges budistas? Não necessariamente. Exemplos de outras culturas mostram que o controle bem-sucedido das emoções pode ser aprendido de diversas maneiras.

No final da década de 60, por exemplo, a antropóloga americana Jean Briggs viveu vários meses entre os utkus, tribo lnuit do ártico canadense. A pesquisadora espantou-se sobretudo com a raridade de conflitos entre eles. Submeteu sua anfitriã a questionários pormenorizados e observou seu dia-a-dia. Ao fazê-lo, constatou que a manifestação de emoções cognitivas, como irritação e raiva era extremamente malvista. Até mesmo os bebês eram ignorados pelos Utkus quando começavam a berrar. Adultos que, furiosos, levantassem a voz eram tidos ou por idiotas ou um perigo para a comunidade – o que a própria antropóloga teve o desprazer de experimentar na pele quando certa vez perdeu o controle diante da família que a hospedava: precisou de imediato encontrar novas acomodações.

Ainda assim, Briggs ficou tão fascinada com o convívio pacífico da tribo que descreveu suas pesquisas de campo num livro que se tornou clássico. Nele, recomendava tomar os utkus como exemplo no controle eficaz de emoções negativas. Nos anos seguintes, outros pesquisadores classificaram as conclusões da antropóloga como parciais. Ela teria, por exemplo, se deixado levar apenas pela expressão emocional que os utkus demonstravam, e não por relatos da vida emocional interior. Seria, portanto, possível supor que eles pertencem à categoria dos repressores de sentimentos.

Contudo, pesquisas mais recentes corroboram a hipótese de que valores e concepções culturais contribuiriam de fato para moldar a experiência subjetiva das emoções. Psicólogos culturais, como 1-Hazel R. Markus, de Stanford, sabem em que medida e condições socioculturais marcam o trato com as emoções – que podem ser tudo, menos reações determinadas por fatores biológicos. Markus comparou por exemplo, as posturas de americanos e japoneses com as emoções. Os padrões asiáticos demandam do indivíduo em geral um controle emocional mais rígido que aquele observado no Ocidente. Por essa razão, e de acordo com os resultados obtidos por Markus, os ocidentais avaliam negativamente o controle do próprio sentimento: veem-no como dissimulação ou engodo. Muitos chegam a identificar nesse intuito a possível causa de doenças físicas, tais como o câncer ou as enfermidades cardiovasculares.

Os japoneses, por sua vez são de opinião diferente. Para eles, o estado de espírito equilibrado é sinal tanto de saúde física e mental como de contentamento. E, de fato, a população japonesa está entre as mais longevas do mundo.  Assim, enquanto os americanos são mais adeptos do “pôr tudo para fora, os Japoneses se contêm na manifestação de irritação ou mesmo de alegria.

PAPÉIS MENTAIS

Se influências sociais e culturais nos ensinam desde crianças qual o trato “correto’ com os sentimentos, isso significa também que a capacidade de controlar emoções não tem raízes profundas e imináveis na personalidade humana. Valendo-se de estratégias apropriadas, qualquer um poderia, em princípio, aprender a conviver de forma saudável com suas emoções. Voltemos ao garçom atrapalhado, um método de controle emocional interessante para não explodir com o pobre homem consistiria, digamos, em nos colocarmos por um momento na pele dele. Essa mudança de perspectiva tenderá a suscitar compreensão, um pequeno atraso já não parece coisa tão dramática; afinal, não estamos com pressa, e a comida vai acabar chegando, mais cedo ou mais tarde. Graças a tal estratégia, podemos modificar impulsos negativos. E, com algum treino, ela nos permite ver as coisas com outros olhos, sem que a consciência se veja obrigada volta e meia nos repreender para que o façamos.

Todavia, muitas questões permanecem abertas. Por que algumas pessoas têm mais dificuldade em controlar as próprias emoções? Que estratégias de controle são mais eficazes? Como ele pode aprendê-las? O que podemos assimilar de outras culturas? Seja como for, o balanço provisório dos pesquisadores é esperançoso. Não estamos simplesmente à mercê dos nossos sentimentos. O ser humano deve – e pode – se tomar senhor das próprias emoções.

APRENDIZADO EMOCIONAL

Psicólogos distinguem pelo menos três aspectos diferentes na reação aos sentimentos: 1) os reflexos físicos deles decorrentes, tais como taquicardia ou suor, 2) sua expressão comunicativa, mediante gestos e linguagem e 3) o plano da atividade mental. Desde a década de 60, estudiosos das emoções vem se dedicando com ênfase à questão de como as experimentamos e Interpretamos subjetivamente. E isso porque a avaliação cognitiva de uma situação parece contribuir para nossa reação emocional ao mundo que nos cerca. Foi isso que demonstraram, por exemplo os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer num estudo famoso: voluntários que, sem saber, receberam pequenas doses de adrenalina experimentaram altos picos ou grandes quedas de animo quando comparados respectivamente com tipos brincalhões ou sombrios.

Hoje, o aprendizado de estratégias cognitivas desempenha papel importante no tratamento dos transtornos do afeto, como a angústia e a pressão. Abordagens terapêuticas como a da “reelaboração cognitiva”, desenvolvida por Aaron Beck, auxiliam pacientes de forma sistemática a abandonar hábitos negativos de pensamento. Em vez de partir sempre da pior das hipóteses, procura-se reanalisar mentalmente momentos de crise. Para que uma tal reappraisal (reavaliação) tenha êxito, pode ser útil colocar-se no papel de outra pessoa (“há outros jeitos”), lmaginar cenárlos alternativos (“não estou em perigo”) ou voltar a atenção para aspectos positivos da questão. Mediante o exercício repetido, essas técnicas são, então, internalizadas e podem contribuir para manter impulsos negativos sob controle.

O poder do pensamento, no entanto, tem seus limites. Como descobriu o pesquisador americano Joseph LeDoux, com base em experimentos com animais no final da década de 90, por meio de conexões neuronais diretas, informações sensoriais recebidas estimulamos centros cerebrais da emoção no sistema límbico. Por essa via, desencadeiam-se reações rapidíssimas de pavor, sem que elas tenham de passar pelo refúgio do pensamento consciente, o córtex cerebral.

Mestres da emoção

 

Como se acalmar

IRIS MAUSS é formada em psicologia e doutoranda da Universidade Stanford, em Palo Alto, Califórnia, onde pesquisa de que forma controlamos a raiva e a irritação.

GESTÃO E CARREIRA

Divergências no trabalho

DIVERGENCIAS NO TRABALHO

Na internet, é comum os temas polêmicos tomarem conta das discussões. Mas como agir quando essa conversa acontece no escritório?

Você conhece o ditado: futebol, política e religião não se discutem. Apesar da máxima, esses temas tem sido objeto de brigas constantes nas redes sociais, como Facebook e Twitter. Em 2014 e 2015, foram assuntos relacionados à política, por exemplo, diferenças de forma respeitosa terá pouco lugar nas equipes. O caminho não é tão fácil: discutir com calma e respeito, como muitas coisas, é algo que só melhora com a prática. “O essencial é lembrar que nenhuma opinião surge do nada, diz Ana. Todo conjunto de ideia vem de determinado contexto histórico, moral e social. Ter essa consciência ajuda a avaliar com mais frieza tanto as próprias ideias quanto a dos outros e a ter argumentos mais sólidos e baseados nos conceitos apresentados –  e não nas pessoas em si. “Algo que fazemos muito é já pensar na resposta que daremos enquanto ouvimos o outro falar”, diz Ana. Isso quer dizer que, em vez de escutarmos com atenção o que estão dizendo para podermos reagir sobre o que foi apresentado, nos preocupamos mais em ter um discurso pronto e que vença, de vez, a discussão. Qualquer chance de ter aquela conversa com calma e com cuidado ao ouvir o outro diminui com essa atitude. Os mais citados no facebook entre os brasileiros: direitos humanos, impeachment, aborto e crises migratórias são outros temas que povoam as conversas na internet – e nas ruas. Afinal, se a discussão tem esquentado nas redes, não deixa de ter repercussão no nosso dia a dia. Brigas entre manifestantes de diferentes bandeiras políticas, casos de intolerância sexual e religiosa e denúncias de racismo são divulgados frequentemente. Mas o que fazer quando essas discussões invadem o ambiente de trabalho?

As estatísticas mostram episódios de violência e intolerância, mas, ao vivo e entre conhecidos, a história é um pouco diferente. “O brasileiro não sabe discutir e tem o hábito de evitar o debate”, diz Fernando Lanzer, autor de Cruzando Culturas.

Mas há certas situações em que não vale a pena insistir. Se um colega não está aberto ao debate, não adianta forçar. Também é pouco produtivo provocar alguém com quem você já discutiu outras vezes. E, quando o ambiente de trabalho estiver pedindo concentração em uma tarefa, o melhor é deixar as discussões para depois. Nesses casos, buscar alguma coisa em comum para manter o alinhamento da equipe como um objetivo da empresa ou um valor partilhado por todos, pode ajudar a manter um clima mais produtivo. No entanto, se você sentir que, por conta dessas diferenças, fica isolado do grupo e constantemente incomodado com as ideias defendidas pelos colegas, talvez seja hora de repensar se está realmente no lugar certo. Fica difícil fazer um bom trabalho em equipe e ficar feliz no dia a dia se não se identifica com a maioria das pessoas. Existem diversos ambientes corporativos, se você sentir que precisa mudara companhia inteira, é melhor você mesmo mudar, diz Lúcia Costa, diretora na consultoria Stato, de São Paulo.

Por outro lado, as empresas que estão interessadas em ter mais diversidade de ideias e de opiniões deveriam abrir um espaço para as discussões ocorrerem de maneira organizada. Precisa estabelecer alguns pressupostos, como jamais cair em desrespeito e manter a conversa estritamente no mundo das ideias, diz Fernando. Para quem quer disco dar de maneira mais saudável, antes de partir para assuntos muito polêmicos, o melhor é começar por temas neutros. Encarar toda conversa como uma forma de ganhar novas perspectivas é outra forma de iniciar o exercício. Perdemos muito quando não queremos ouvir o outro, quando não nos abrimos para o diferente”, diz Ana. Tantas ideias boas deixam de existir porque não temos coragem de falar algo menos popular.” Entender que as pessoas devem ser respeitadas e que as diferenças sempre existirão (e devem existir em uma democracia) é o primeiro passo.