ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:23-25

Cristo Prega na Galileia

 Observe aqui:

I – Que pregador habilidoso Cristo era. Ele passou por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do reino. Entenda:

1.O que Crista falava sobre o Evangelho do reino. O Reino dos céus, isto é, o rei no de graça e glória, é enfaticamente o reino, o reino que estava chegando; o reino que iria sobreviver, que superaria todos os reinos da terra. O Evangelho compreende os estatutos deste reino, contendo o juramento de coroação do Rei, pelo qual Ele se obriga graciosamente a perdoar, proteger e salvar os súditos daquele reino e a procurar a sua honra. Este é o Evangelho do reino; dele, o próprio Cristo foi o pregador, para que a nossa fé no reino possa ser confirmada.

2.Onde Ele pregava. Nas sinagogas. Não apenas ali, mas ali principalmente, porque estes eram os lugares onde a multidão se reunia, onde a sabedoria erguia a sua voz (Provérbios 1.21); porque eram os lugares onde o povo se reunia para a adoração religiosa e ali, esperava-se, a mente do povo estaria preparada para receber o Evangelho; e ali as Escrituras do Antigo Testamento eram lidas, e a sua exposição poderia facilmente introduzir o Evangelho do reino.

3.O empenho que Ele tinha em pregar. Ele passou por toda a Galileia, ensinando. Ele podia ter publicado uma proclamação, convocando todas as pessoas para que viessem até Ele; mas para mostrar a sua humildade, e a condescendência da sua graça, Ele vai até eles; pois Ele espera ser gracioso e vir para buscar e salvar. Josefo disse que havia aproximadamente duzentas cidades e vilas na Galileia, e Cristo visitou todas elas, ou a sua maioria. Ele viajava fazendo o bem. Nunca houve um pregador itinerante assim, tão infatigável, como era Cristo. Ele ia de cidade em cidade, para pedir aos pobres pecadores que se reconciliassem com Deus. Este é um exemplo para os ministros, para que se dediquem a fazer o bem, e para que sejam insistentes e constantes, a tempo e fora de tempo, em pregar a palavra.

II – Que médico poderoso era Cristo! Ele viajava, não se limitando a ensinar, mas também curava. Ele ensinava e curava através da sua palavra, e a exaltava até mesmo acima de seu nome. Ele lhes dava a sua palavra e os curava. Note:

1.Que Ele curou todas as doenças, sem exceção. Ele curou todos os tipos de enfermidades, e todos os tipos de doenças. Existem doenças que são a vergonha dos médicos, sendo obstinadas a todos os métodos que eles podem prescrever. Mas mesmo aquelas foram a glória deste médico, pois Ele curou todas, por mais crónicas que fossem. A sua palavra era um verdadeiro remédio para todos os males.

Três palavras são aqui usadas para dar a entender isto. Ele curava todas as doenças, noson, como cegueira, deficiências físicas, febre, acúmulos de líquidos; todas as enfermidades, ou debilitações, malakian, como fluxos e fraquezas; e todos os tipos de aflições, basanous, como gota, cálculos, convulsões e outras perturbações semelhantes; fosse a doença aguda ou crônica, fosse uma enfermidade aguda ou enfraquecedora, nenhuma delas era terrível demais, nenhuma delas era difícil demais para Ele. Cristo curava a todos proferindo a sua palavra.

Três moléstias, em particular, são especificadas: a paralisia (os paralíticos), que é o maior enfraquecimento do corpo; a loucura (os lunáticos), que é o maior mal da mente; e a possessão demoníaca (os endemoninhados), que é a maior infelicidade e calamidade para o corpo e para a mente; e Cristo as curava, a todas; pois Ele é o Médico soberano, tanto do corpo como da alma, e tem poder sobre todas as doenças.

2.Os pacientes que Ele tinha. Um médico com acesso tão fácil, com um êxito tão garantido, que curava imediatamente, sem sequer um suspense doloroso, ou uma expectativa, ou aqueles remédios dolorosos que são piores que a doença; que curava gratuitamente, e não aceitava pagamentos, não podia evitar ter uma abundância de pacientes. Veja aqui, como as pessoas o procuravam. De todas as partes; grandes multidões vinham, não somente da Galileia e das regiões vizinhas, mas até mesmo de Jerusalém e da Judéia, que ficavam distantes; pois a sua fama per correu toda a Síria, não somente entre os judeus, mas entre as nações vizinhas, que, pelas notícias que agora se espalhavam por todas as partes a seu respeito, estariam preparadas par a receber o seu Evangelho, quando, posteriormente, ele fosse levado a elas. Entende-se que esta era a razão pela qual estas multidões vinham até Ele, porque a sua fama se espalhava de maneira tão abrangente.

3.O mistério que havia nelas. Cristo, ao curar as doenças do corpo, pretendia mostrar que a sua grande missão no mundo era curar as enfermidades espirituais. Ele é o Sol da Justiça, que se levanta com esta cura sob suas asas. Sendo o Transformador dos pecadores, Ele é o Médico das almas, e nos ensinou a chamá-lo assim (cap. 9.12,13). O pecado é a doença, a enfermidade e o tormento da alma; Cristo veio para tirar o pecado, e para curar os pecadores. E as histórias, em particular, das curas que Cristo realizou podem não somente ser aplicadas espiritualmente, como alusões e exemplos, mas, creio eu, têm a intenção de revelar-nos coisas espirituais e de nos mostrar o caminho e o método que Cristo usa para lidar com as almas, na sua conversão e santificação. E estas curas foram registradas, pois se­ riam mais significativas e instrutivas desta maneira; e devem, portanto, ser explicadas e compreendidas para a honra e o louvor daquele glorioso Redentor, que perdoa todos os nossos pecados e que cura todas as nossas enfermidades.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Os sonhos

OS SONHOS: NOSSO ORÁCULO BIOLÓGICO

Eles funcionam como simuladores que nos avisam sobre potenciais perigos ou oportunidades – Um verdadeiro “oráculo biológico” capaz de orientar e aconselhar sobre as melhores decisões a serem tomadas no mundo real.

 Quando as diferentes espécies do gênero Homo ainda se misturavam, matavam e amavam entre si, há 30 mil anos, sonhar já era um imenso mistério diariamente renovado. O que seriam esses mundos cheios de universos, verdadeiros cinemas neolíticos, tão vívidos e interessantes à percepção e à emoção? De que modo eram interpretadas essas imagens de gente, bisões, mamutes e tudo o mais que povoava as paredes e a imaginação de nossos arqui-tataravós, ainda tão longe da escrita, da roda e da agricultura? Seria real o mundo daqui ou o de lá? As crianças de hoje têm dificuldade para entender que seus sonhos de satisfação do desejo mais intensos não geram consequências quando elas despertam. E entre aborígines australianos não há dúvida: o mundo real é ilusão, o mundo dos sonhos é que é real.

Não que os outros mamíferos não sonhem. Sonham sim, sonham demais. Basta olhar seu cachorro de estimação dormindo para inferir a rica experiência onírica que devem ter os animais. O sonho ocorre majoritariamente numa fase específica do sono chamada REM (iniciais de rapid-eye-movement), movimentos rápidos dos olhos que caracterizam essa etapa, acompanhada de um completo relaxamento dos outros músculos do corpo.

Quando estamos mais distantes da ação do mundo real, ficamos imersos no interior dos sonhos. Os mamíferos que experimentam mais sono REM são os que ocupam o topo da cadeia alimentar – e por isso não têm muito receio da predação. Os campeões do sono são os felinos, canídeos e símios, dominantes em suas esferas por força das presas, garras ou ação coletiva articulada. Provavelmente, os sonhos desses animais devem ser construídos em torno dos imperativos darwinistas de matar, não morrer e procriar, simulações de comportamentos adaptativos, ensaios de atos essenciais. Mas não, nenhum cão jamais sonhou com a riquíssima variedade de símbolos típica dos humanos. Quando José interpretou os sonhos do faraó no Egito imemorial, tratava-se de um fenômeno essencialmente humano. Como chegamos a isso? Sonhar deve ter sido profundamente perturbador para nossos ancestrais por milênios incontáveis de noites intensamente estreladas e mágicas. Longuíssima noite dos xamãs oníricos através de glaciações e degelos, até a ideia de que o sono e a morte são apenas passagens para outras vidas, gerando coisas completamente novas na cultura primata: as tumbas multicoloridas, as múmias, os sacerdotes sibilantes e os intérpretes de sonhos. De que modo esses elementos culturais se entrelaçaram na gênese da consciência humana é mistério a ser decifrado nos fragmentos de texto remanescentes da Antiguidade. Sabemos por meio desses escritos que cabia aos intérpretes oníricos decifrar as mensagens recebidas em sonhos pelos reis e chefes militares. Como eram tais sonhos?

Os textos mais antigos indicam que eram sonhos de aconselhamento ou comando das ações do sonhador, tipicamente advindos de ancestrais já falecidos. Uma inscrição egípcia de 4 mil anos atrás proclama “instruções que sua majestade o rei Amenemhet I deu ao seu filho quando lhe falou num sonho”. No Épico de Tukulti-Ninurta – rei assírio possivelmente identificado como Nimrod, bisneto do bíblico Noé -, um bem preservado texto cuneiforme escrito em acádio narra a aparição em sonhos de anjos enviados pelo poderoso deus Marduk para consolar e aconselhar o protagonista. Quase mil anos depois, ainda no Império Assírio, presságios oníricos eram coletados em volumes como o Ziqiqu, que estabelecia associações entre eventos ocorridos em sonhos e suas consequências.

Na Antiguidade, era comum ouvir em sonhos as vozes dos mortos. Conta a lenda que Anfiarau, heroico príncipe de Argos famoso por seus poderes divinatórios, suicidou-se do alto de uma ravina por influência de um Zeus colérico. Na vida real, essa ravina na Beócia tornou-se um foco de peregrinação, pois acreditava-se que de suas profundezas ecoava a voz do príncipe morto murmurando conselhos. Com o tempo ali se estabeleceram sacerdotisas que passaram a mediar as consultas, sobretudo através da interpretação dos sonhos dos peregrinos. Mas nem sempre os personagens oníricos traziam conselhos, às vezes eram apenas ecos fantasmagóricos dos que haviam morrido. Na Ilíada, provavelmente escrita no século 8° a.C., o semideus Aquiles é visitado em sonho pelo espírito de Pátrodo, morto em batalha contra os troianos. Quando Aquiles tenta abraçar seu melhor amigo, este simplesmente desaparece no chão fazendo ruídos estranhos…

A sequência causal entre memórias reverberantes, sonhos e impressões dos antepassados foi proposta em 1976 por Julian Jaynes, psicólogo da Universidade Princeton, no célebre livro The origin of consciousness in the breakdown of the bicameral mind (“A origem da consciência no colapso da mente bicameral”). Jaynes postulou que na aurora de nossa consciência atual encontram-se as memórias dos comandos verbais proferidos pelos chefes dos clãs. Tais comandos reverberavam no sistema auditivo de modo a permitir o trabalho continuado ao longo do dia, caçando, coletando, pastoreando, plantando, lutando e trabalhando arduamente mesmo na ausência do chefe por horas a fio. Esses líderes – em geral parentes de todo o grupo -, ao morrer, tinham o corpo untado, pintado e embalsamado com esmero e adoração… e deixavam reverberando em seus súditos as memórias de suas vozes plenas de autoridade. Uma reverberação que era mais forte nos sonhos do que na vigília, pela mera ausência de interferência sensorial propiciada pelo sono. Desses sonhos nasceram Marduk e os outros deuses da Babilônia, bem como todos os inúmeros deuses mais antigos. E com eles a casta de pessoas que ajudavam, de todas as formas possíveis, o transe místico dos que podiam evocar e interpretar as diretrizes divinas. Sacerdotes, pitonisas e outros oráculos divinatórios tiveram um grande poder real, fato bem ilustrado pelo escravo judeu José feito vizir no Egito por ter oferecido uma interpretação satisfatória dos sonhos do faraó.

Mas chegou o tempo em que ruíram as sociedades piramidais colossais, em que centenas de milhares de pessoas eram comandadas por um deus vivo que alucinava as vozes dos deuses mortos. Nessa ruína em que o número de bocas a alimentar e de fronteiras a proteger era maior do que toda a sabedoria dos velhos deuses, suas vozes se calaram. Do Eufrates ao Nilo os textos remanescentes denunciam esse silêncio, até que se rompeu a separação mental entre deuses e humanos. Passamos a entender que a voz incessante de nosso diálogo interno é apenas nossa, não de outra entidade. Desapareceram as pessoas bicamerais, que escutavam anjos e demônios. Surgiram as pessoas unicamerais, unificadas na representação de um “eu” autônomo que dispõe de um vasto repertório de memórias não para alucinar, mas para imaginar planos. Não mais o bicameral, brutal e ingênuo Aquiles que, sem passado ou futuro, apenas buscava a glória movido por comandos divinos. Agora sim, o unicameral Ulisses, “eu” cheio de estratagemas capaz de enganar os troianos num cavalo de madeira, antever os efeitos nefastos do canto das sereias, ludibriar Polifemo com seu conhecimento da mente alheia e principalmente viajar de maneira persistente por dez anos numa odisseia dolorosa, a fim de reencontrar esposa e filho na Ítaca distante. Hoje somos todos Ulisses em nossa capacidade de planejar o futuro usando as memórias do passado como antecipação da recompensa para levar adiante o trabalho. Aqueles hoje em dia que não vivenciam essa fusão, aqueles ainda cindidos numa mentalidade de múltiplos compartimentos seriam os esquizofrênicos. Platão comparou o delírio psicótico a um sonho perpétuo em que alguns homens acreditavam “que eram deuses e podiam voar”.

Impossível recontar nossa história sem mencionar os oráculos oníricos que hoje seriam chamados de loucos, mas que em sua época eram agentes sociais e políticos valorizados e sacralizados. Fundamentais durante muitos milênios, paulatinamente perderam importância e foram relegados, nos séculos mais recentes, ao limbo das superstições, no qual submergiram magos e profetas, até que o fenômeno onírico foi resgatado pela psicanálise.

Integrar toda essa evidência histórica com a ciência contemporânea é uma tarefa que apenas recentemente começou a ser possível. Um dos maiores avanços veio da pesquisa realizada nos anos 90 pelo psicanalista e neuropsicólogo Mark Solms, da Royal London School of Medicine. Estudando centenas de pacientes neurológicos, Solms descobriu que a capacidade de sonhar – mas não o sono REM – é especificamente abolida por lesões dos circuitos dopaminérgicos relacionados a recompensa e punição. Essa descoberta disso­ ciou pela primeira vez o sonho do sono REM, dando um sentido surpreendentemente exato à celebre noção freudiana de que o desejo é motor do sonho.

Apesar do desprezo com que o sonho foi tratado pela biologia e medicina do século 20, a interpretação onírica foi preservada no mundo ocidental por meio da cultura divinatória do povo iletrado, bem como no divã dos psicanalisados pelo método de Sigmund Freud e seus tantos seguidores. Carl Jung, seu colaborador, discípulo e desafeto, afirmou que “o sonho prepara o sonhador para o dia seguinte”. Em 2010, foi demonstrado pela primeira vez de forma sistemática e quantitativa um papel cognitivo para os sonhos. Os pesquisadores Robert Stickgold e Erin Wamsley, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, estudaram a relação do repertório onírico com o desempenho de voluntários experimentais na navegação de um labirinto virtual. Os pesquisadores descobriram que apenas os voluntários que relataram sonhar com o labirinto tiveram melhora substancial de desempenho quando jogaram novamente, horas depois. Sonhos com outros assuntos distintos do labirinto não foram acompanhados de benefícios cognitivos: apenas pensar no labirinto, em estado de vigília, tampouco resultou em efeitos benéficos. Os resultados demonstraram que sonhar é adaptativo – e não simplesmente um epifenômeno do sono. Em 2012, um grupo de pesquisa liderado por Yukiyasu Kamitani nos laboratórios ATR de Neurociência Computacional, em Kyoto, publicou a primeira tentativa bem-sucedida de decodificar o conteúdo de um sonho, isto é, de reconstruir o enredo onírico com base apenas no sinal extraído do cérebro.

Com essas mais recentes descobertas, começa a ser delineado um cenário emocionante da evolução dos sonhos em nossa linhagem. A capacidade de imaginar o futuro com base no passado, eixo central de nossa consciência reflexiva, talvez represente a invasão durante a vigília de algo muito mais antigo, que é justamente a capacidade de sonhar. A função primordial dos sonhos teria sido, então, a de simuladores capazes de avisar sobre potenciais perigos ou oportunidades – um “oráculo” biológico que aconselhas se ou orientasse as pessoas sobre as melhores decisões a tomar num provável mundo real.

Tal oráculo não seria determinístico, e sim probabilístico, produzindo “palpites bem informados” que, a julgar pelo registro histórico, tiveram um papel poderoso na passagem do homem pré-histórico até nossos dias. As vantagens desse oráculo são evidentes, pois nada do que é simulado no mundo dos sonhos acarreta risco real para o sonhador.

Segundo essa teoria, nossos antepassados produziram em sonhos, protegidos pelo manto do sono, as ideias mais criativas e transformadoras de nossa espécie. Com o tempo desenvolveram complexos rituais para acessar o conhecimento oculto nas brumas oníricas. Em pouco tempo já não ousavam fazer qualquer coisa sem tal aconselhamento, dependendo dele para planejar as caçadas, determinar as colheitas, iniciar guerras e escolher as datas dos casamentos e demais eventos de importância social.

Que sorrisos dariam Freud e Jung se tivessem vivido para conhecer essas ideias? Que expressão de assombro veríamos nas faces de um sacerdote assírio ou xamã siberiano se pudessem observar, com seus próprios olhos, um sonho revelado não por uma pitonisa, mas por um escâner de ressonância magnética funcional? Seus olhos certamente brilhariam e então talvez suas pálpebras se fechassem para sonhar um sonho louco.

Motivos para mudar os planos

Ainda hoje, muitas pessoas interpretam sonhos como aviso ou premonição digna de orientar ações de compra e venda, casamentos, ocorrências trágicas, viagens, contratos e apostas a dinheiro. Numa pesquisa realizada por pesquisadores das universidades Carnegie Mellon e Harvard com passageiros do metrô, a maioria dos entrevistados declarou que os sonhos têm impacto efetivo em seu comportamento cotidiano, influenciando suas relações sociais (67%) e tomada de decisões (52%). Essa influência foi justificada pela crença de que os sonhos podem prever o futuro (68 %). Foi pedido aos participantes que imaginassem possuir um bilhete marcado para viagem aérea e lhes foi perguntado como reagiriam caso experimentassem um dos quatro cenários alternativos a seguir: alerta de ameaça terrorista, pensamento consciente na vigília sobre um possível acidente aéreo, sonho sobre um acidente aéreo e notícia sobre um acidente aéreo real. Curiosamente, os participantes declararam ter mais possibilidade de alterar seus planos de viagem em resposta ao sonho do que em qualquer outro cenário – até mesmo no caso de acidente de verdade.

Emoção, memória e aprendizagem

Para entender para que serve o sonho, necessitamos compreender algo básico: o homem contemporâneo tende a esquivar-se de todo risco. Em vez de caçadas perigosas coletas incertas, fazemos visitas regulares ao supermercado. No lugar de turnos de guarda noturna alternados para evitar um ataque traiçoeiro na madrugada, temos a segurança de muros, portas trancadas e alarmes. Em lugar de pedras e peles, dormimos sobre colchões anatômicos. Não enfrentamos dificuldade de encontrar parceiros sexuais férteis que não sejam parentes próximos, apenas o risco de levar um não de uma pessoa desconhecida numa festa ou bar. Se os sonhos alguma vez foram essenciais para nossa sobrevivência, já não o são. Isso não quer dizer, entretanto, que os sonhos não mais desempenhem um papel cognitivo.

Para esclarecer que papel é esse, é preciso em primeiro lugar desconstruir a noção de que os sonhos refletem algum tipo de processamento neuronal aleatório. Embora regiões profundas do cérebro de fato promovam durante o sono REM um bombardeio elétrico aparentemente desorganizado do córtex cerebral, há bastante evidência de que os padrões de ativação cortical resultantes desse processo reverberam memórias adquiridas durante a vigília. Mesmo que não soubéssemos disso, bastaria um pouco de reflexão e introspecção para refutar a teoria aleatória dos sonhos. A ocorrência múltipla de um mesmo sonho é um fenômeno detectável, ainda que ocasional, na experiência da maior parte das pessoas. Pesadelos repetitivos são sintomas bem estabelecidos do transtorno de estresse pós-traumático, que acomete indivíduos submetidos a eventos excessivamente violentos. Dada a imensa quantidade de conexões neuronais existentes no cérebro, seria impossível ter sonhos repetitivos se eles fossem o produto de ativação ao acaso dessas conexões.

Além disso, sonho e sono REM não são o mesmo fenômeno e sequer têm bases neurais idênticas. Temos certeza disso porque existem pacientes neurológicos que perdem a capacidade de sonhar, mas não deixam de apresentar o sono REM. Nesse caso, as regiões lesionadas, descritas por Mark Solms, são circuitos relacionados com a motivação para receber recompensas e evitar punições. Essas estruturas utilizam o neurotransmissor dopamina para modular a atividade de regiões relacionadas à memória, emoção e percepção. Sonhar com algo na vigília é o mesmo que desejar – e é exatamente de desejo que são feitos os sonhos. Curiosamente, são os níveis de dopamina que, em experimentos com camundongos transgênicos, regulam a semelhança entre os padrões de atividade neural observados durante o sono REM e a vigília. Portanto, a ideia de que psicose é sonho, ridicularizada por décadas, também encontra apoio na neuroquímica moderna.

E ainda, ao contrário da teoria de que os sonhos são subproduto do sono sem função própria, prevalece cada vez mais a noção de que o sono e o sonho são cruciais para a consolidação e a reestruturação de memórias. Ambos os processos parecem ser dependentes da reverberação elétrica de padrões de atividade neural que ocorrem enquanto dormimos e representam memórias recém-adquiridas. Essa reverberação se beneficia da ausência de interferência sensorial durante o sono e resguarda o processamento mnemônico de perturbações ambientais. A reverberação é favorecida também pela ocorrência de oscilações neurais durante o sono sem sonhos, chamadas de ondas lentas. Os pesquisadores Lisa Marshall, Jan Born e colaboradores da Universidade de Lübeck, na Alemanha, demonstraram que é possível aumentar a taxa de aprendizado realizando estimulação elétrica de baixa frequência durante o sono de ondas lentas.

Em contrapartida, como venho demonstrando junto com outros grupos de pesquisa desde 1999, o sono REM parece ser fundamental para a fixação de longo prazo das memórias em circuitos neuronais específicos. Esse processo depende da ativação de genes capazes de promover modificações morfológicas e funcionais das células neurais. Tais genes são ativados durante a vigília quando algum aprendizado acontece e voltam a ser acionados durante os episódios de sono REM subsequentes. Como resultado, memórias evocadas por reverberação elétrica durante o sono de ondas lentas são consolidadas por reativação gênica durante o sono REM.

Essa reativação cíclica das memórias em diferentes fases do sono e da vigília vai paulatinamente fortalecendo os caminhos neurais mais importantes para a sobrevivência do indivíduo, enquanto as memórias inúteis são gradativamente esquecidas.

Experimentos eletrofisiológicos e moleculares mostram ainda que as memórias migram de um lugar para outro do cérebro, sofrendo importantes transformações com o passar do tempo. Meu laboratório tem mostrado que áreas do cérebro envolvidas na estocagem temporária de informações, como o hipocampo, apresentam reverberação elétrica e reativação gênica apenas durante os primeiros episódios de sono após o aprendizado. Em contraste, áreas do córtex envolvidas na armazenagem duradoura das memórias apresentam persistência desses fenômenos por muitos episódios de sono após a aquisição de uma nova memória.

PASSAGEM BIBLICA: o faraó sonhou com sete vacas magras que devoravam novilhas gordas, o que foi interpretado por José do Egito como um prenúncio de anos de fartura seguidos por um período de miséria

José interpreta o sonho de faraó

José interpreta o sonho de faraó.2

José interpreta o sonho de faraó.3

SIDARTA RIBEIRO é neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.

GESTÃO E CARREIRA

Linha de frente

NA LINHA DE FRENTE

Por causa da crise, os executivos precisaram descer alguns níveis e se envolver na operação para reforçar a busca pelos resultados. Conheça os perfis de liderança que estão em alta no Brasil e os que devem predominar em 2018.

A partir de 2016, a rotina do executivo alagoano Felipe Cansanção, de 33 anos, CEO da Aloo Telecom, empresa de telecomunicações com maior foco na região Nordeste, teve de mudar para reforçar o alcance das metas. Todos os meses, ele passa ao menos uma semana viajando com a equipe de vendas para prospectar novos projetos, conversar com os clientes e, assim, identificar oportunidades de negócio. Com a decisão de descer alguns níveis e acumular tarefas típicas do nível tático, a jornada de trabalho de Felipe pode chegar a 14 horas. Mas os resultados têm compensado o esforço extra. Contrariando a tendência de crise, a companhia, que já contabiliza 3 000 clientes corporativos públicos e privados em 14 estados, está em expansão e espera fechar o ano com um crescimento de 35% em relação a 2015. “Há urna melhora da motivação da equipe, que percebe nosso esforço pessoal, e um estreitamento da relação com o cliente, que se sente importante para a empresa”, diz Felipe.

A atitude de Felipe ilustra uma tendência detectada pelo Brazilian Managernent Institute (BMI) em sua pesquisa CSuite2017, com executivos de 106 médias e grandes empresas, a maioria (57%) presidentes e vice-presidentes. O levantamento revelou que as lideranças das companhias que atuam no Brasil têm priorizado a execução, em vez da pactuação. Isso quer dizer que 67,1% desses executivos têm dedicado a maior parte de seu tempo ao envolvimento direto na busca pelos resultados – ante urna minoria de 32,5% que destina a maior parte de sua atenção à pactuação, isto é, à estratégia, à criação de propósito e ao engajamento dos times. “Esses números refletem o quadro adverso da economia brasileira, que te m exigido um foco muito grande dos líderes nos resultados trimestrais. Isso vai na contramão da liderança em pactuação, que trabalha com uma agenda de longo prazo”, afirma Daniel Motta, CEO do BMI. Agora, num desdobramento dos dados feito com exclusividade para VOCÊ S/A, a consultoria identificou também quais, entre os dez estilos de gestão derivados desses pilares – execução e pactuação, – predominaram nas multinacionais e empresas locais (veja quadro). A ideia era descobrir, em maior detalhe, como os executivos de diferentes tipos de organização encarnaram o foco na execução.

Nas multinacionais, prevaleceram os estilos “tático” e “maquinista”. “A metáfora, neste caso, é que a liderança senta na locomotiva e pilota”, diz Daniel. “Essa postura revela a preocupação em trabalhar ao lado das equipes para assegurar que as entregas aconteçam num cenário desafiador.” Um dos líderes que adotam esse estilo é o alemão Philipp Schiemer, de 52 anos, CEO da alemã Mercedes-Benz no Brasil e América Latina. Para ter uma ideia do grau de proximidade do executivo da operação, uma vez por semana ele liga pessoalmente para clientes que entraram em contato com a central de atendimento ela montadora para saber se seu problema foi devidamente resolvido. “Se digo que todos têm que ouvir o cliente, eu também tenho que fazer isso.” A agenda de Philipp ainda inclui conversas regulares com o chão de fábrica para explicar decisões difíceis que precisem ser tomadas e escutar sugestões para a situação. O objetivo de descer esses níveis era garantir uma comunicação direta, sem intermediários. O resultado foi que, mesmo precisando fazer cortes de pessoal por causa da desaceleração do setor automotivo no Brasil, a empresa não enfrentou greves nem pioras no clima. “Isso nos mostra que as pessoas entenderam a diferença entre o que é efeito da crise e o que é o nosso ambiente interno”, diz.

Já nas empresas nacionais, em 2017, prevaleceu o estilo batizado de “feudal. “Segundo o presidente do BMI, esse perfil sugere uma atuação em silos, com cada executivo preocupado com o desempenho da sua área, e não necessariamente com os resultados da companhia como um todo. “Mostra também a preocupação com o risco de demissão num momento considerado ameaçador, com cada um tentando garantir as próprias entregas”, diz Daniel Motta. Para Joel Dutra, coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração (FIA), os dados refletem a pressão dos acionistas por resultados e o aumento da competição interna. “Prega-se que o executivo deve ter visão global, mas os modelos de avaliação de desempenho, de recompensa e de pagamento de bônus costumam ser baseados no desempenho individual”, diz Joel.

 MUDANÇA DOS VENTOS

Mas a melhora das expectativas para a economia em 2018 pode mudar um pouco esse quadro. Com a redução ela pressão por resultados imediatos, eleve haver um aumento na proporção de líderes com perfil de pactuação, em especial os mobilizadores, que têm por característica inspirar seus liderados a buscar resultados ambiciosos, sem tanto protagonismo do gestor, aposta o presidente do BMI. “Quando a agenda executiva está muito focada nas entregas, a pactuação fica para um segundo plano. Mas, com uma melhora ele cenário, esse perfil de liderança pode voltar a ser mais demandado.” Para Joel Dutra, o início de uma virada econômica pode alterar as prioridades da liderança. “As organizações, aos poucos, vão girar a chave dos resultados de curto prazo para a inovação”, diz. Um dos que se identificam com o perfil mobilizador é o cearense Lucas Araripe, de 30 anos, diretor de novos negócios da empresa de energia eólica Casa dos Ventos, onde comanda uma equipe de engenheiros. Lucas atribui sua opção por esse estilo de gestão à natureza do negócio e à posição que ocupa. “A área ele energias renováveis é extremamente técnica e exige uma variedade ele conhecimentos muito específicos, que dificilmente uma só pessoa vai conseguir concentrar”, afirma. “Por isso, procuro montar equipes multi­disciplinares, compostas dos melhores especialistas, e atuo como uma espécie de árbitro das discussões.”

Para Lucas, a principal vantagem dessa postura é favorecer o surgimento de soluções criativas. Entre 2015 e 2016, por exemplo, a Casa dos Ventos inaugurou 41 parques eólicos. Para isso, precisou montar um grande time de especialistas em operação e manutenção desses espaços. A abertura do executivo à expertise de quem veio de fora permitiu à empresa desenvolver, por exemplo, um dispositivo a laser que identifica os primeiros sinais ele mudança na direção cios ventos. As­ sim, a turbina pode se ajustar com antecedência ao melhor ângulo, de modo a extrair do vento o máximo de energia possível. “Meu papel é deixar as pessoas à vontade para criar e dar o reconhecimento quando boas ideias surgem”, diz Lucas. Para Daniel Motta, do BMI, a alternância de estilos de liderança é bem-vinda. Segundo ele, não existem tipos melhores ou piores, e sim os mais adequados a cada contexto. “Os diferentes papéis desse repertório são mais ou menos requisitados segundo o ambiente econômico, o perfil da organização e o desenvolvimento das equipes”, diz.

 LIDERANÇA EM EXECUÇÃO

Estes gestores se envolvem nas atividades do nível tático – não só na estratégia. Centralizam as decisões e avaliam a companhia e os colaboradores com base em métricas financeiras e de produtividade

TÁTICOS – Toma decisões centralizadas e dedicam menos tempo à articulação, comandando planos de ação com pulso firme.

MAQUINISTAS – Determinam o rum e a velocidade da execução dos projetos, com todos os recursos alinhados nos trilhos e protagonismo no processo.

FEUDAIS – Exercem seu poder por meio da ampliação de suas equipes e do seu orçamento, mesmo elevando o nível de tensão com as outras áreas.

TAREFEIROS – Envolvem-se na execução dos processos e das atividades, mantendo a curva de desempenho diretamente dependente do seu desenvolvimento pessoal.

CONQUISTADORES – Definem o ritmo de conquista de espaço com foco na superação das metas de desempenho e foco primordial no sucesso de curto prazo.

 LIDERANÇA EM PACTUAÇÃO

Para estes perfis, mais focados na estratégia, a organização deve servir a um propósito inspirador e as pessoas devem desenvolver vínculos emocionais com ela e com a liderança para maximizar seu potencial

MOBILIZADORES – Mobilizam mentes e corações a encontrar a melhor forma de trabalho, com vistas a resultados ambiciosos que mantenham a tensão criativa.

EMBAIXADORES – Propõem uma agenda de longo prazo, com metas compartilhadas, valorizando relações duradouras e de confiança.

FACILITADORES – Desafiam suas equipes a propor alternativas, facilitando a tomada de decisão e delegando responsabilidades, com monitoramento do desempenho.

COLABORATIVOS – Exercem influência pela colaboração em agendas transparentes. Demonstram sua relevância pelas conexões de sustentação para seus projetos.

ORQUESTRADORES – Buscam o potencial máximo de cada um, para que a equipe tenha um bom desempenho coletivo, recompensando o esforço individual.

 OS MAIS POPULARES

Os tipos de liderança mais frequentes variaram conforme o perfil da organização.

 MULTINACIONAIS

TÁTICOS ——————————- 24,6%

MAQUINISTAS———————– 15,8%

MOBILIZADORES——————– 14%

 

NACIONAIS

FEUDAIS ——————————————————————————————— 17,4%

CONQUISTADORES, TÁTICOS, TAREFEIROS, COLABORATIVOS——-   13%

MOBILIZADORES, MAQUINISTAS —————————————————–     8%

 

Fonte: Revista Você S/A