ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:12-17

O Início do Ministério de Cristo

Aqui nós temos um relato da pregação de Cristo nas sinagogas da Galileia, pois Ele veio ao mundo para ser um pregador. Ele mesmo começou a anunciar a grande salvação que Ele proporcionou (Hebreus 2.3), para mostrar o quanto o seu coração estava nisto, e o quanto o nosso também deveria estar.

Diversas passagens nos outros Evangelhos, especialmente no de João, supostamente, na ordem da história da vida de Cristo, acontecem entre a sua tentação e a sua pregação na Galileia. A sua primeira aparição, depois da tentação, foi quando João Batista apontou para Ele, dizendo: ”Eis o Cordeiro de Deus” (João 1.29). Depois disto, Ele subiu até Jerusalém, para a Páscoa (João 2), conversou com Nicodemos (João 3), com a mulher samaritana (João 4), e então retornou à Galileia, e ali pregou. Mas Mateus, por ter sua residência na Galileia, começa a sua história do ministério público de Cristo com a sua pregação ali, da qual aqui temos um relato. Observe:

 

I – O tempo. Quando Jesus ouviu que João foi lançado na prisão, ele foi para a Galileia (v. 12). Perceba que os gritos de sofrimento dos santos chegam aos ouvidos de Jesus. Se João está preso, Jesus ouve isto, toma conhecimento disto, e altera o seu curso de acordo com isto. Ele se lembra dos laços e das aflições que sobrevêm ao seu povo. Observe:

1.Cristo não entrou nesta região até ficar sabendo da prisão de João Batista, pois João precisava ter o tempo que lhe tinha sido dado para preparar o caminho do Senhor, antes que o próprio Senhor aparecesse. A Providência sabiamente ordenou que João fosse eclipsado antes que Cristo aparecesse; de outra maneira, a mente das pessoas ficaria dividida entre os dois; umas teriam dito: “eu sigo a João”, e outras: “eu sigo a Jesus”. João deveria ser o precursor de Cristo, e não o seu rival. A lua e as estrelas já não são vistas quando nasce o sol. João tinha realizado o seu trabalho, pelo batismo do arrependimento, e depois já não poderia mais estar em evidência. As testemunhas foram mortas quando terminaram o seu testemunho, e não antes (Apocalipse 11.7).

2.Ele foi até a região imediatamente depois de saber da prisão de João; não apenas para cuidar da sua própria segurança, sabendo que os fariseus da Judéia eram tão inimigos seus quanto Herodes era inimigo de João, mas para atender às necessidades de João Batista, e para edificar sobre a boa fundação que João tinha lançado. Observe que Deus não fica sem as suas testemunhas, e a sua igreja não fica sem os seus líderes. Quando Ele remove um instrumento útil, Ele pode levantar outro, pois tudo está sob o controle do seu Espírito. E se houver um trabalho a realizar, Ele o fará. Moisés, meu servo, está morto, João está na p1isão. Agora, por tanto, levante-se, Josué; levante-se, Jesus.

 

II – O lugar onde Ele pregou. Na Galileia, uma parte afastada do país, que era a mais distante de Jerusalém, considerada com desprezo como sendo rude. Os habitantes daquela região eram homens reconhecidamente robustos e vigorosos, bons para serem soldados, mas não eram homens educados, bons para serem alunos. Para lá Cristo se dirigiu, ali Ele estabeleceu o padrão do seu Evangelho; e nisto, como em outras coisas, Ele se humilhou. Observe:

1.A cidade em particular que Ele escolhe para a sua residência; não foi Nazaré, onde tinha sido criado; não, Ele deixou Nazaré. Há uma menção especial a isto (v. 13). E com bons motivos Ele deixou Nazaré, pois os homens daquela cidade o expulsaram do seu meio (Lucas 4.29). Ele lhes fez a sua primeira oferta dos seus serviços, uma oferta muito justa, mas eles o rejeitaram, e também à sua doutrina, e se encheram de indignação com Ele e com a doutrina; portanto, Ele deixou Nazaré e sacudiu a poeira dos seus pés, como um testemunho contra aqueles que não o quiseram ensinando-lhes. Nazaré foi o primeiro lugar que rejeitou a Cristo, e por isto foi rejeitada por Ele. Observe é justo que Deus remova o Evangelho e os meios da graça do meio daqueles que os desprezam, e que abandone estas pessoas. Cristo não irá permanecer muito tempo onde não for bem-vindo. Infeliz Nazaré! “Se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas, agora, isso está encoberto aos teus olhos”.

Mas Ele foi habitar em Cafarnaum, que era uma cidade da Galileia, mas muitos quilômetros distantes de Nazaré, que era uma cidade grande e de muitos meios. Diz-se aqui que ela é uma cidade marítima, na costa do mar, não do grande mar, mas do mar de Tiberíades, um corpo de água interior, também chamado de lago de Genesaré. Próxima à foz do Jordão no mar, ficava Cafarnaum, na tribo de Naftali, e vizinha a Zebulom. Para ali Cristo veio, e ali Ele residiu. Alguns pensam que o seu pai, José tinha uma casa ali, outros pensam que Ele conseguiu uma casa, ou pelo menos alojamento, e outros pensam que era mais provável que Ele residisse na casa de Simão Pedro; no entanto, aqui Ele não ficava constantemente, pois Ele viajava fazendo o bem. Mas aqui foi, por algum tempo, o seu quartel-general: o pouco descanso que Ele tinha, era aqui; aqui Ele tinha um lugar, embora não fosse um lugar seu, para reclinar a cabeça. E em Cafarnaum, ao que parece, Ele era bem-vindo, e encontrava melhor acolhida do que em Nazaré. Se alguns rejeitam a Cristo, outros o receberão, e lhe darão boas-vindas. Cafarnaum está contente com aquilo que sobrou de Nazaré. Mesmo que os próprios compatriotas de Cristo não se reunissem, ainda assim Ele seria glorioso. Em outras palavras: “E tu, Cafarnaum, aproveita. Agora estás sendo elevada aos céus; sê prudente e reconhece a ocasião da tua visitação”.

1.A profecia que se cumpriu com isto (vv. 14-16).

É uma citação de Isaías 9.1,2, mas com alguma variação. Naquela passagem o profeta está predizendo uma grande escuridão de aflição e sofrimento que cairia sobre aqueles que desprezaram o Emanuel, e que se abateu sobre as regiões ali mencionadas, quer no seu primeiro cativeiro, sob Ben-Hadad e, que foi tudo, exceto luz (1 Reis 15.20), ou no seu segundo cativeiro, sob os assírios, que foi muito pior (2 Reis 15.29). A punição da nação dos judeus por rejeitar o Evangelho seria mais amarga do que qualquer um dos dois cativeiros (veja Isaias 8.21,22), pois aquele s que foram aprisionados se revigoraram, de alguma maneira, na sua escravidão, e viram novamente urna grande luz (Isaias 9.2). Este é o sentido no livro de Isaías. Mas as Escrituras se cumprem de muitas maneiras, e o evangelista aqui somente assume a última frase, que fala do retorno da luz da liberdade e prosperidade àquelas regiões que tinham estado nas trevas do cativeiro, e a aplica à chegada do Evangelho entre eles.

Os lugares são mencionados no versículo 15. A terra de Zebulom, acertadamente, é tida como estando na costa marítima, pois Zebulom tinha um porto marítimo, e se alegrava com esta saída para o mar (Genesis 49.13; Deuteronômio 33.18). De Naftali, foi dito que ela proferiria palavras formosas (Genesis 49.21), e seria grandemente abençoada (Deuteronômio 33.23), pois dali começou o Evangelho. Palavras realmente formosas que trazem à alma a graça de Deus que satisfaz. A região além do Jordão é mencionada da mesma maneira, pois ali, às vezes, encontramos Cristo pregando, como também na Galileia dos gentios (das nações), a Galileia superior, à qual os gentios recorriam para o comércio e onde se mesclaram com os judeus; o que dá a entender uma bondade reservada aos pobres gentios. Quando Cristo veio a Cafarnaum, o Evangelho chegou a todos estes lugares próximos; estas influências difusoras fizeram o Sol da Justiça se projetar.

Agora, a respeito dos habitantes desses lugares, observe:

(1) A situação em que estavam antes que o Evangelho viesse até eles (v.16): eles estavam nas trevas. Aqueles que estão sem Cristo, estão nas trevas, melhor dizendo, eles são as trevas propriamente ditas; como as trevas que havia sobre a face do abismo. Não, eles estavam na região e sombra da morte, o que dá a entender não apenas uma grande escuridão, pois o túmulo é uma região de escuridão, mas também grande perigo. Um homem que está desesperadamente doente, e que é provável que não se recupere, está no vale da sombra da morte, embora ainda não esteja morto; assim, estas pobres pessoas estavam às margens da destruição, embora ainda não destruídas. E, o que é pior de tudo, estavam acomodadas nesta situação. Assentados, numa atitude constante. Quando nos sentamos, temos a intenção de permanecer; eles estavam nas trevas, e provavelmente continuariam assim, desesperando-se para encontrar a saída. E esta é uma atitude satisfeita; eles estavam nas trevas, e adoravam as trevas. Eles preferiram as trevas à luz; eles eram voluntariamente ignorantes. A sua situação era triste. E esta ainda é a condição de muitas nações grandes e poderosas, que devem ser consideradas dignas de compaixão, e que devem receber as nossas compassivas orações. Mas a condição delas é ainda mais triste, pois elas estão nas trevas em meio à luz do Evangelho. Aquele que está no escuro porque é noite, pode ter certeza de que o sol em breve nascerá; mas aquele que está no escuro porque é cego, não terá seus olhos abertos tão cedo. Nós temos a luz, mas de que isto nos ajudará, se nós não formos luz no Senhor?

(2) O privilégio que eles tiveram, quando Cristo e seu Evangelho vieram até eles, foi um reavivamento tão grande como uma luz eterna pode ser a um viajante surpreendido pela noite. Quando o Evangelho chega, chega a luz; quando ele chega a qualquer lugar, quando ele chega a qualquer alma, ali se faz dia (João 3.19; Lucas 1.78,79). A luz é descobrimento, é orientação; o Evangelho também é assim.

É uma luz grandiosa, significando a clareza e a evidência das revelações do Evangelho; não é como a luz de uma vela, mas como a luz do sol quando está pleno no seu vigor. Grandiosa, em comparação com a luz da lei, cujas sombras agora estão extintas. E uma luz grandiosa, pois revela grandes coisas e tem uma grande consequência; ela durará muito tempo e se espalhará por uma grande extensão. E é uma luz crescente, o que está implícito na expressão “a luz raiou”. Era apenas o nascer do dia, com eles; agora o dia amanheceu, e irá brilhar cada vez mais. O reino do Evangelho, como um grão de mostarda ou a luz da manhã, era pequeno no seu início, foi gradual no seu crescimento. mas é grandioso em sua perfeição.

Observe que a luz raiou para eles. Eles não foram procurá-la, mas foram surpreendidos pelas bênçãos desta graça, desta bondade. Ela veio a eles antes que eles estivessem conscientes, na ocasião determinada, pela vontade daquele que dá ordens à madrugada, e faz com que a alva conheça o seu lugar, até às extremidades da terra (Jó 38.12,13).

 

III – O texto sobre o qual Ele pregava (v. 17): “Desde então”, isto é, a partir da sua chegada à Galileia, à terra de Zebulom e Naftali; a partir de então, Jesus começou a pregar. Ele tinha pregado, antes disto, na Judeia, e tinha feito muitos discípulos, e os tinha batizado (João 4.1); mas a sua pregação não era tão pública e constante como agora tinha começado a ser. A obra do ministério é tão grandiosa e maravilhosa, que é conveniente que seja apresentada em etapas e avanços graduais. A questão com a qual Cristo lidava agora, na sua pregação (e foi realmente o resumo e o conteúdo de toda a sua pregação), era a mesma que João tinha pregado (cap. 3.2): ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Pois o Evangelho tem o mesmo conteúdo, mesmo sob as várias dispensações; os mandamentos são os mesmos, e as razões para observá-los são as mesmas. Um anjo vindo do céu não ousa pregar nenhum outro Evangelho (Gálatas 1.8), e irá pregar este, pois este é o Evangelho eterno. “Temei a Deus e dai-lhe glória”, pelo arrependimento (Apocalipse 14.6,7). Cristo demonstrou um grande respeito pelo ministério de João, quando pregou sobre o mesmo tema que João havia pregado antes dele. Através desta atitude, Ele mostrou que João era seu mensageiro e seu embaixador, pois quando Ele mesmo veio desempenhar a missão, ela era a mesma que Ele tinha dado a João. Assim, Deus confirmou a palavra do seu mensageiro (Isaias 44.26). O Filho veio com a mesma missão que os servos tinham vindo (cap. 21.37), procurar frutos, os frutos adequados para o arrependimento. Cristo tinha estado no seio do Pai e poderia ter pregado noções sublimes de coisas divinas e celestiais, que teriam alarmado e divertido o mundo instruído, mas Ele retoma este texto simples e antigo: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”.

[l] Isto foi o que Ele começou a pregar; esta foi a sua mensagem inicial. Os ministros não devem ter a ambição de apresentar novas opiniões, novos planos, ou cunhar novas expressões, mas devem se contentar com as coisas simples e práticas, com as mensagens que estão próximas de nós, até mesmo na nossa boca ou nosso coração. Assim como João preparou o caminho para Cristo, também Cristo preparou o seu próprio, e abriu caminho para as descobertas posteriores que Ele planejava, com a doutrina do arrependimento. “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo” (João 7.17).

[2] Isto Ele pregava constantemente. Aonde quer que Ele fosse, este era o seu assunto, e nem Ele nem seus seguidores jamais reconheceram que isto fosse ultrapassado, como teriam feito os que têm ouvidos inquietos e que gostam de novidades e variedade mais do que daquilo que é verdadeiramente edificante. Observe que aquilo que foi pregado e ouvido antes pode ainda, com grandes benefícios, ser pregado e ouvido outra vez; mas então, deve ser pregado e ainda melhor, e com carinho renovado. O que Paulo tinha dito antes, ele disse novamente, chorando (Filipenses 3.1,18).

[3] Isto Ele pregava como sendo a mensagem do Evangelho. Em outras palavras: “Arrependam-se, revejam os seus caminhos, e voltem-se para si mesmos”. Observe que a doutrina do arrependimento é uma doutrina fundamental do Evangelho. Não somente o

austero João Batista, que era considerado um homem melancólico e triste, mas também o doce e gracioso Jesus, cujos lábios eram como um favo de mel, pregavam o arrependimento; pois é um privilégio indescritível que haja espaço para o arrependimento.

[4] A razão ainda é a mesma. “É chegado o Reino dos céus”; pois ainda não se reconheceria que o reino já tivesse chegado, até o derramamento do Espírito Santo, depois da ascensão de Cristo. João “tinha pregando que o Reino dos céus era chegado há mais de um ano antes desta ocasião; mas agora a ênfase era muito mais forte, agora a salvação estava muito mais próxima (Romanos 13.11). Nós devemos ser mais diligentes no nosso dever, à medida que percebemos que aquele dia vai se aproximando (Hebreus 10.25).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

As respostas que veem do sonho

AS RESPOSTAS QUE VÊM DOS SONHOS

Formações oníricas são modos de pensar, a partir de um estado de consciência diferente daquele com o qual estamos acostumados, capaz de favorecer a inspiração – várias descobertas científicas, criações artísticas e soluções de problemas cotidianos já surgiram enquanto as pessoas dormiam.

 Na década de 50, o jovem Don Newman ensinava matemática no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) ao lado de um astro em ascensão e futuro vencedor do Nobel, John Nash. Newman lutava bravamente para resolver um problema de matemática: “Eu estava tentando, faltava pouco, mas não conseguia, não conseguia, e não conseguia”, lembra-se. Uma noite, Newman sonhou que estava pensando no problema quando Nash apareceu. No sonho, o rapaz relatou os detalhes do enigma para Nash e perguntou se ele sabia a solução. E o interlocutor explicou como resolvê-lo! Newman acordou com a sensação de que tinha a resposta! Ele passou as semanas seguintes transformando seu insight em um artigo formal que posteriormente foi publicado numa revista científica.

Newman não foi o único a fazer uma descoberta prática durante o sono. Enquanto dormiam, o químico alemão Friedrich August Kekulé teve a percepção da estrutura do benzeno e seu colega Dmitri Mendeleyev imaginou a estrutura final da tabela periódica dos elementos. Mais recentemente, o físico Paul Horowitz, pesquisador da Universidade Harvard e diretor do Projeto Beta, que monitora permanentemente o espaço, sonhou com seu projeto de telescópio óptico.

Inúmeros artistas e cineastas recriaram as imagens que visualizaram enquanto dormiam. A escritora Mary Shelley sonhou com as principais cenas que deram origem ao Frankenstein; o mesmo aconteceu com Robert Louis Stevenson em relação a O médico e o monstro. já os compositores Ludwig van Beethoven e Paul McCartney acordaram com novas melodias soando na cabeça. A convocação do Mahatma Gandhi para um protesto não violento na Índia também foi inspirada por sonho.

Geralmente as experiências oníricas nos parecem estranhas, incoerentes ou triviais. Procuramos desesperadamente um amigo num labirinto interminável porque precisamos entregar-lhe um pacote verde. Mas ao encontrá-lo, esquecemos o objeto – que já não está mais em nossas mãos -, e de qualquer forma ele agora é um vizinho, não mais nosso amigo. Outros sonhos são efêmeros – acordamos, talvez, pensando numa caixa verde, e isso é tudo de que nos lembramos. Durante décadas os cientistas tentaram entender essas características tão diversas dos sonhos. A pesquisa parece indicar que se trata simplesmente de pensamentos, em um estado bioquímico diferente do estado de vigília. Os requisitos psicológicos necessários para sonhar alteram o funcionamento neurológico, por isso a experiência onírica pode parecer estranha ou sem sentido porque a química do cérebro adormecido afeta a forma como percebemos nossos próprios pensamentos. Apesar disso, continuamos focados nas mesmas questões que nos afligem quando acordados. Esse estado incomum de consciência geralmente é muito benéfico para a solução de problemas – ajuda a encontrar alternativas fora do padrão de raciocínio. Seguindo alguns passos simples, podemos ter até algum domínio sobre essa capacidade, encorajando nosso cérebro adormecido a vencer algumas barre iras e produzir ideias criativas.

Há muito tempo os teóricos vêm tentando explicar a razão dos sonhos. Sigmund Freud mostrou que essas formações psíquicas expressam basicamente desejos reprimidos, ou seja, impulsos sexuais infantis e agressivos, e podem ser um caminho privilegiado para instâncias da mente às quais não costumamos ter acesso. Há também casos em que elas nos ajudam a elaborar vivências traumáticas ou situações relacionadas a disputas narcisistas, podendo surgir como compensação de sentimentos de inferioridade – o que também se enquadraria na satisfação de desejos.

MENOS CENSURA

Recentemente, médicos e psicólogos propuseram que os sonhos simulam ameaças ou ajudam a consolidar memórias – hipóteses que não põem em xeque a genialidade das constatações freudianas. Nenhuma teoria, porém, é suficientemente abrangente para dar conta de tantas nuances que caracterizam alguns sonhos. Exatamente como nosso pensamento oscila entre reminiscências, planejamento, reflexão etc., quando acordados, o sonho também engloba vários desdobramentos.

Antigos teóricos acreditavam que nos lembrávamos de tudo o que sonhávamos – algo que hoje sabemos não ser verdade. Várias hipóteses propunham que as pessoas sonhavam apenas quando alguma situação específica disparava um conjunto de sensações distintas – desejo sexual, por exemplo, ou ego ferido. Nos anos 50, no entanto, estudos inovadores realizados por Eugene Aserinsky e Nathaniel Klietman, ambos da Universidade de Chicago, mostraram que sonhamos muito mais do que provavelmente conseguimos recordar. Os dois pesquisadores descobriram que o sono é formado por ciclos de aproximadamente 90 minutos – cada um com um período de rápido movimento ocular (REM, na sigla em inglês) e intensa atividade cerebral. Quando as pessoas são despertadas perto do fim do período REM, elas se referem, em média, a cinco sonhos por noite. A discrepância entre os relatos daqueles que foram despertados logo depois da fase REM e de outros acordados mais tarde levou os cientistas a concluir que os sonhos quase sempre acompanham essa etapa do sono, mesmo que as pessoas não se lembrem deles pela manhã.

Nas duas últimas décadas, a tomografia de emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês) permitiu visualizar áreas do cérebro mobilizadas durante o sonho. Uma das coisas que os especialistas notaram num primeiro momento foi que durante o sono é mais fácil “ligar” e “desligar” certas áreas neurais que outras. Partes do córtex associadas a imagens visuais e percepção do movimento são ativadas até mais fortemente que quando estamos acordados, assim como acontece com certas regiões profundas do cérebro associadas à emoção. Em contraposição, o córtex pré-frontal dorsolateral é menos solicitado durante o sono e está mais associado à ação volitiva e à capacidade de avaliar o que é lógico e socialmente apropriado. Os resultados das tomografias se ajustam bem às características dos sonhos. Relatos de experiências oníricas quase sempre apresentam imagens associadas a movimento.

As descobertas a respeito das regiões pré-frontais estão em perfeito acordo com a ideia de que nos sonhos há “menos censura” – não só no sentido da repressão da sexualidade e dos impulsos agressivos, mas também na filtragem de cenários que parecem ilógicos ou anormais.

SINAL DE FUMAÇA

A parte boa desse momentâneo desprezo da racionalidade e do controle sobre nós mesmos é que a nova ordem que surge nos sonhos nos permite ver a realidade de outros ângulos. Ou seja, às vezes, resolver um quebra-cabeça da forma “errada” leva a insights surpreendentes. Psicólogos evolucionários endossaram a ideia de que o retrato PET do cérebro enquanto sonhamos é uma evidência de que essas atividades teriam garantido a sobrevivência da espécie humana. O antropólogo Donald Symons, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, discute em seu ensaio The stuff that dreams aren’t made of (“De que são feitos os sonhos”), de 1993, que durante o sono as pessoas precisam “monitorar” o ambiente com sentidos específicos – para sentir cheiro de fumaça, ouvir intrusos, perceber mudanças de temperatura e sentir dor. Uma ativação extrema dessas sensações, no entanto, pode nos levar a despertar em estado de pânico desnecessário ou, até pior, se o sobressalto se prolonga por período maior podemos desenvolver um limiar de tolerância para bloquear nossos alertas reais. E tudo isso de olhos fechados, pois não vistoriamos o ambiente visualmente durante o sono. Nosso corpo está imóvel, como costuma acontecer durante o sono REM, porque não precisamos nos mover- e em geral não o fazemos até despertar.

O processo evolutivo pode, então, ajudar a entender por que certas áreas do cérebro são mais – ou menos – ativadas quando dormimos. O padrão de atividade explica as características dos sonhos – visualmente ricos, mas desprovidos de lógica. No início, essas descobertas fisiológicas empolgantes levaram a teorias de que as formações oníricas eram simplesmente um epifenômeno, ou efeito colateral, de padrões cerebrais que apareciam quando adormecíamos. Pesquisadores do sonho geralmente se referem à atividade REM como “aleatória”, embora não haja outras evidências sugerindo que seja mais eventual que a atividade do cérebro em estado de vigília.

Uma coisa da qual nem todas as pessoas se dão conta é que nunca deveríamos descartar rápido demais nossos pensamentos de forma geral. Saber que o córtex pré-frontal está ativo quando deparamos com uma proibição social não resolve o debate subjetivo que vivenciamos nas situações em que temos de decidir como agir. Da mesma forma, descrever o conteúdo de um sonho ou as atividades cerebrais associadas a ele não explica sua finalidade. Estudiosos do cérebro finalmente compreenderam esse fato depois de duas décadas de marasmo – e nos últimos anos voltaram a estudar seriamente os sonhos.

Na década de 90, vários pesquisadores sugeriram que o sono é importante para a consolidação da aprendizagem: estudos anteriores já tinham mostrado que tirar uma soneca depois de aprender algo novo ajuda a reter melhor o conteúdo do que se nos mantivermos acordados. Outras descobertas sugerem que o sono REM desempenha papel relevante na consolidação da memória. Estudos com ratos que aprenderam a caminhar em labirintos mostram que, durante essa fase, a atividade cerebral imita a atividade do roedor quando está acordado treinando – o que leva a crer que os circuitos cerebrais podem ser reforçados na memória. Quanto mais longo o período de sono REM depois de adquirir conhecimentos, melhor as pessoas se lembrarão de fatos emocionalmente marcantes.

Em 2009, psicólogos da Universidade da Califórnia em San Diego investigaram se o sono REM tinha outros efeitos além de facilitar a memorização do aprendizado. Os voluntários do experimento foram submetidos a testes que exigiam a solução criativa de problemas e depois receberam dicas sobre as respostas. Os participantes passavam, então, certo tempo acordados, em sono não REM ou em sono REM antes de ser submetidos ao mesmo teste. Os integrantes do último grupo foram os únicos que mostraram melhora significativa nas soluções criativas dos problemas anterior­ mente apresentados.

No mesmo ano, no laboratório de Robert Stickgold, da Universidade Harvard, a equipe liderada pela pesquisadora lna Djonlagic ensinou aos estudantes que participavam do estudo complicados sistemas de previsão do tempo. Os jovens receberam uma combinação de imagens que representava probabilidades de sol e chuva. Eles não sabiam interpretá-las, mas, por tentativa e erro, traçaram um prognóstico geral. Os pesquisadores observaram que os participantes que cochilaram antes da tarefa, novamente, foram mais bem-sucedidos em descobrir a regra geral para interpretar o significado das imagens, em comparação aos que não dormiram. Além disso, a qualidade do desempenho dos participantes e sua capacidade de articular explicitamente que tinham descoberto a regra geral estavam diretamente relacionadas ao período de sono REM que tiveram.

Pesquisas posteriores confirmaram que o REM ajuda na solução de problemas. Numa série de estudos em andamento no mesmo laboratório de Harvard, a pesquisadora Erin Wamsley solicitou aos participantes que percorressem um labirinto virtual. Depois de praticarem um pouco, alguns permaneceram acordados, outros passaram por um período de sono REM e um terceiro grupo por um sono não REM. Erin relatou na Conferência Internacional da Associação de Estudos do Sonho, em junho de 2011, nos Estados Unidos, que somente o sono REM aperfeiçoou o desempenho dos participantes.

A cientista também descobriu que quando os voluntários eram acordados e lhes era perguntado o que estavam sonhando ou pensando, o foco geralmente era o labirinto – mas somente quando esse pensamento ocorria durante o sono REM os participantes realmente se safam melhor ao enfrentar novamente o labirinto, mais tarde.

Como os sonhos ocorrem na fase de rápido movimento ocular, tudo leva a crer que o ato de sonhar pode estar relacionado com a solução criativa de problemas. Inúmeras evidências experimentais e incontáveis relatos que surgiram dessas condições reforçam essa ideia.

DECISÕES NO TRAVESSEIRO

O primeiro estudo sobre sonhos e solução objetiva de problemas foi realizado há mais de um século. Em 1892, Charles M. Child, da Universidade Wesleyan, em Connecticut, perguntou a 186 alunos se eles já tinham resolvido algum problema enquanto dormiam. Um terço respondeu afirmativamente. Os estudantes relataram ter jogado xadrez, solucionado uma equação de álgebra e traduzido um trecho de Virgílio – ao acordarem simplesmente tinham a resposta.

A maior descoberta surgiu quando os pesquisadores tentaram induzir os participantes de um estudo a sonhar com um problema específico. Em 1972, o psiquiatra William Dement, da Universidade Stanford, solicitou a 500 alunos que passassem 15 minutos à noite tentando resolver quebra-cabeças desafiadores, de forma a adormecerem com o problema em mente. Os alunos relataram ter tido 87 sonhos, dos quais sete se relacionavam à solução de um quebra-cabeça.

Esses tipos de desafio mental são ferramentas úteis para testar a solução criativa de problemas, porque geralmente as pessoas se concentram muito antes de ter um insight do tipo “aha!”. No entanto, eles podem estar além da capacidade de algumas pessoas, e por falta de interesse elas não se comprometem de fato com sua resolução. No estudo de Dement, que durou três noites, todas as respostas corretas surgiram na primeira noite. Ele inferiu que os alunos se desinteressavam por problemas pessoalmente menos importantes. Por isso, na pesquisa realizada em 1996, utilizamos abordagem diferente. Solicitamos aos voluntários que selecionassem seus próprios impasses. Eles registraram os sonhos durante uma semana e anotaram aqueles que acreditavam ter resolvido o problema ou continham uma solução satisfatória. Dois pesquisadores assistentes ajudaram a avaliar se os sonhos estavam focados nas questões propostas antes e se realmente as haviam resolvido.

A maior parte dos participantes escolheu problemas aparentemente mais simples que os desafios mentais de Dement. Metade deles acreditava ter chegado a pistas sobre o que fazer durante o sonho, e um terço sonhou com a solução. Embora várias “respostas” estivessem ligadas a trabalhos da faculdade ou tarefas comuns, como mudar a posição dos móveis, algumas soluções interessantes estavam relacionadas com grandes decisões da vida pessoal. A seguir, uma questão considerada resolvida pelos pesquisadores:

Problema: Eu me inscrevi em dois tipos de curso, de psicologia clínica e de psicologia organizacional, porque não consigo decidir qual seguir.

Sonho: Há um mapa dos Estados Unidos e estou num avião sobrevoando o mapa. O piloto nos avisa que um dos motores está com defeito e precisamos pousar. Procuramos um lugar seguro no mapa e sugiro Massachusetts, que estamos sobrevoando naquele exato momento, mas ele diz que lá é muito perigoso.

Solução: Acordei e me dei conta de que o curso de psicologia clínica que escolhi está em Massachusetts, onde passei toda a minha vida e onde vivem meus pais. O curso de psicologia organizacional é distante, no Texas. Na verdade, eu tinha intenção de permanecer perto de casa, mas lá não havia bons cursos de psicologia organizacional. Mas depois percebi que não seria bom para mim neste momento estar próximo de casa. Por mais estranho que possa parecer, ir para longe é mais importante que o curso que quero seguir. O exemplo mais famoso de todos os tempos – Kekulé perceber que a estrutura da molécula de benzeno baseia-se num anel fechado depois de ter sonhado com uma série de átomos em forma de cobra que engolia o próprio rabo – ilustra dois aspectos diferentes da solução durante o sonho.

Vale lembrar que as áreas do cérebro que normalmente restringem nosso pensamento ao que é lógico e familiar são muito menos ativadas durante o sono REM. Vários estudos sugerem que essa liberação é crucial para a criatividade. Da mesma forma, a alta atividade de áreas visuais do cérebro adormecido permite que ele visualize soluções mais rapidamente do que quando estamos acordados. No caso de Kekulé, ele estava intrigado porque todas as moléculas conhecidas eram formadas por linhas retas com ramificações laterais, e ele imaginava, equivocadamente, que o benzeno deveria seguir o mesmo padrão.

Soluções sonhadas tendem a ter características visuais pouco comuns. No final da década de 90, vasculhei a literatura existente a respeito do universo onírico e até mesmo biografias e livros de história sobre a solução de problemas em sonhos e perguntei a profissionais de várias áreas se já tinham tido sonhos úteis. Alguns padrões se destacaram. Cerca de dois terços dos artistas visuais afirmaram ter usado sonhos em suas criações. Metade dos escritores de ficção também. Pessoas das áreas exatas, como engenheiros e outros profissionais acostumados a visualizar problemas em três dimensões, relataram ter sonhos úteis com frequência. Alguns mencionaram que, depois de ter acordado várias vezes com uma ótima ideia, desenvolveram uma rotina na hora de dormir para facilitar o que chamo de “processo de incubação”.

No estudo que estamos realizando atualmente, cujos resultados preliminares foram apresentados na conferência sobre o sonho, investigamos como as pessoas podem aproveitar melhor essa habilidade. Para isso, pedimos a profissionais entre 21e 69 anos que tentassem resolver problemas concretos relacionados ao seu campo de trabalho durante o sono. Aparentemente, eles sonhavam com esse tipo de questão com mesma frequência que os universitários observados em 1996; no entanto, resolveram menos da metade dos problemas. Talvez isso tenha ocorrido porque as situações relacionadas à profissão sejam mais complexas que os dilemas dos estudantes.

NOS BRAÇOSDE MORFEU

Além disso, como os integrantes desse segundo grupo são mais velhos, podem não se lembrar tanto dos sonhos – principalmente por falta do hábito de se esforçar em fazê-lo ao longo dos anos. A boa notícia é que um número significativo deles relatou ter tido pelo menos um sonho útil após uma semana de exercício de incubação. Isso nos leva a crer que essa ferramenta noturna está ao alcance de todos.

Logo depois de lançar meu livro Tudo começou com um sonho (Ediouro, 2002), ouvi Newman contar novamente sua história com Nash num programa de televisão e assisti ao filme Uma mente brilhante (2001). Um ano de pois, inesperadamente me sentei ao lado de Nash em um jantar. Perguntei-lhe sobre o incidente, do qual ele se lembrava muito bem. “Don incluiu no artigo uma nota me agradecendo, como se eu o tivesse ajudado quando, na verdade, o sonho era dele”, riu discretamente. Eu deparei várias vezes com aquela nota em minha pesquisa. As soluções frequentemente surgem de um personagem do sonho – um programador teve repetidas aulas noturnas com Albert Einstein, por exemplo-, e as pessoas relutam em acreditar no que a mente faz durante o sonho. Essa tendência reforça as descobertas sobre o sono REM nas quais o córtex pré-frontal dorso lateral, associado a percepções de volição, está menos ativo.

Mas não precisamos esperar passivamente que a inspiração surja quando nos entregamos aos braços do deus mitológico Morfeu (do grego, “moldador de sonhos”). Passamos mais de um terço da vida dormindo – e quase um terço desse tempo sonhando. Nossas pesquisas sugerem que em breve as pessoas aprenderão a dirigir essas produções psíquicas – e, por que não, também bioquímicas – para encontrar soluções. Pesquisas mostram que elas podem ser reveladas em sonhos – afinal, dois Prêmios Nobel se inspiraram assim. Mas se você decidir deixar seu cérebro ressonando em paz, preste atenção: depois de adormecer, é muito provável que o estado alterado de consciência já esteja trabalhando a todo vapor. Mesmo que você não perceba.

Movimentos coloridos

 UMA MÃOZINHA PARA OS SONHOS

Sonhar intencionalmente com determinado problema – processo chamado de incubação – aumenta as chances de vislumbrarmos pistas para resolvê-lo. O termo “incubação” foi tomado por empréstimo de antigas práticas gregas executadas no templo de Esculápio (ou Asclépio), onde, em sonho, os doentes buscavam curar suas enfermidades. A psicologia ocidental sugere que podemos procurar interferir nesse processo de forma consciente seguindo alguns passos:

  • – Na hora de dormir, escreva resumidamente a questão que o aflige, de preferência numa frase curta, e coloque a anotação perto da cama. Mantenha também papel e caneta – e até uma lanterna ou luminária – ao lado dela.
  • – Imagine-se sonhando com a situação que deseja resolver, acordando e anotando tudo num papel. Recapitule o problema por vários minutos antes de se deitar.
  • – Já deitado, pense no problema que quer resolver, se possível evocando uma imagem concreta, uma cena.
  • – Enquanto começa a adormecer, repita para si mesmo que quer sonhar com essa questão.
  • – Ao despertar, permaneça imóvel por alguns segundos antes de se levantar. Tente se lembrar de ter sonhado e recapitule ao máximo os detalhes do sonho.
  • – Escreva tudo de que se lembrar. Primeiro registre as palavras-chave que expressem o que for mais importante, depois inclua outras informações.

UMA DICA: Se quiser adotar um procedimento mais elaborado, disponha objetos relacionados ao problema na mesinha de cabeceira ou na parede em frente à cama (se estiver em dúvida sobre um relacionamento, por exemplo, use uma foto da pessoa com quem está envolvido). Mais que a presença desse tipo de objeto, o ritual e a concentração ajudam a estabelecer o foco de atenção.

DEIRDRE BARRETT – Psicóloga da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, autora de The committee of sleep (Oneiroi, 2010) e, Tudo começou com um sonho (Ediouro, 2002).

GESTÃO E CARREIRA

Profissional Poliglota

PROFISSIONAL POLIGLOTA

Não há atalhos para aprender um novo idioma. Mas ter clareza sobre seus objetivos e adotar regras de organização ajuda a desenvolver essa habilidade.

 Você ainda precisa aprender inglês ou espanhol? Pois você não está sozinho. Por mais importante que seja para a carreira e para o desenvolvimento pessoal, poucos brasileiros dominam mais de um idioma. Para você ter uma ideia, em 2015, o Brasil ficou na 41ª posição entre 70 países em um levantamento da Education First, empresa de educação, que mediu o nível de proficiência do inglês entre diversos países no mundo. Mas, em vez de desanimar com esse número, pense nas vantagens que esse aprendizado pode proporcionar. Só ao dominar uma segunda língua, você já estará na frente de milhares de candidatos.

Conseguir fluência em outro idioma tem seus desafios, mas não é algo só para alguns sortudos. “É mito achar que um adulto não tem mais como assimilar uma nova Iíngua”, diz Ângela Morastoni, coach de aprendizado e idiomas, de Blumenau (SC). “Todos têm capacidade em qualquer idade.” A chave está em saber se organizar e se motivar para manter uma rotina de estudos seja em casa ou em uma escola.

  1. Descubra sua motivação

Aprender inglês ou espanhol é a sua meta, contudo ela é um tanto ampla. Reflita sobre seu objetivo de vida e como a língua o ajudará a conquistá-lo. Seja para s tornar uma pessoa mais independente, sem precisar de intermediários para se virar no outro idioma, seja para s comunicar com gente de fora e aprender mais sobre outras culturas.

Descobrir o que é importante para você vale tanto para se motivar quanto para ter clareza de quais devem ser suas prioridades na hora de planejar sua rotina de estudos.

  1. Identifique em que nível está

Antes de se inscrever em um curso, procure descobrir qual é o seu nível real na Língua que quer aprender. “Soa óbvio, porque todo mundo acha que é básico e vai começar do zero”, diz Jaime Cará, coordenador de educação do CNA, rede de escolas de inglês e espanhol. “Mas muita gente ignora que já tem algum nível e perde tempo com coisas menos necessárias.” Portanto, não subestime ou superestime seu próprio nível. Faça um teste, disponível online ou em escolas de idiomas, para saber onde você está e começar do lugar certo.

  1. Saiba aonde você quer chegar

“Dizer que quer ser fluente é genérico, é preciso que a pessoa saiba qual nível almeja”, afirma Jaime. Pense no que você mais gostaria de ser capaz de fazer na nova língua: escrever e-mails curtos, fazer apresentações ou conversar ao telefone? Para isso, ajuda consultar o Quadro Europeu Comum de Referências, usado no mundo todo, e que descreve com detalhes o que cada nível é capaz de fazer e quantas horas de estudo são necessárias para atingi-los. Busque materiais que tenham a ver com aquilo que você quer conquistar.

  1. Planeje uma rotina – e não tenha pressa

Aprender uma língua leva tempo e exige priorização da agenda. Por isso, analise detalhadamente o seu dia a dia e veja onde pode abrir espaço para se comprometer com o estudo do novo idioma. Preveja os horários em que irá estudar e não abra mão deles. E, se puder estudar em intervalos menores, mas com maior frequência, é até melhor. “Tenho visto muito mais resultado quando os alunos estudam um pouco a cada dia em vez de um dia na semana com muitas horas”, afirma Andrea Trench, professora de inglês e espanhol, de São Paulo.

 5.Diversifique seus estudos

Divida o estudo entre gramática, conversação, escuta e escrita. “Planeje quando vai estudar e varie”: diz Andrea. “Num dia, foque em gramática. No outro, estude um vídeo No outro, escreva.” Dá para priorizar aquilo que for mais urgente, mas não deixe nada de fora: todos são importantes. Além de uma gramática com exercícios, você pode buscar vídeo aulas, aplicativos e textos apropriados para seu nível na língua. Reserve um tempo também na semana para revisar os conteúdos gramaticais que você estudou na semana anterior.

  1. Supere seus medos

Como adultos, estamos acostumados a afirmar nossos conhecimentos. Mas não tem jeito: aprender um idioma novo significa não saber dizer as coisas mais básicas. “Expor nossas imperfeições é desconfortável”, afirma Ângela. “Mas temos que lembrar que não se aprende uma língua fechado num quarto. É algo que se constrói na vivência.” Aceite que você irá errar, mas que só assim vai conseguir evoluir. Por isso, não espere alcançar um nível avançado para começar a praticar, faça isso desde o começo do aprendizado.

 7.Encontre pessoas para praticar

“Sugiro que se dedique um terço do tempo de estudo para a interação”, afirma Jaime. Encontrar uma pessoa que esteja aprendendo a mesma Língua, ainda que em um nível diferente do seu, pode ajudar bastante. Ao usar o idioma, fica mais fácil memorizá-la e ver onde você tem dificuldades. Isso é importante especialmente para que está estudando sozinho e não tem os colegas de sala para praticar. Se não encontrar ninguém, use a internet a seu favor: interaja em fóruns daquela Língua e em serviços de chats internacionais.

  1. Aumente seu contato com a língua

Além das horas de estudos, você pode usar seu tempo livre para ter mais contato com o idioma que está estudando. Assistir a vídeos do YouTube, pequenas reportagens e filmes em inglês com legendas em inglês são um exemplo. No caminho do trabalho, ouça podcasts especiais para quem está estudando. Mude o idioma do celular, de jogos e do computador para a língua que você quer dominar. “Só não pense que dá para ficar vendo filmes em inglês e achar que vai aprender por osmose… Precisa ter um exercício por trás”, diz Jaime.

 FERRAMENTAS GRATUITAS PARA QUEM QUER APRENDER SOZINHO

 Aplicativos

MEMRISE – Baseado em um estudo sobre como construímos memórias recentes e de longo prazo, ensina vocabulário e regras gramaticais por meio de lições curtas, revisões e desafios. Também funciona como um site. – memrise.com

HELL OTALK- Este aplicativo permite que você converse com falantes nativos que estejam aprendendo a língua. A ideia é que você os ajude também a aprender as línguas que você sabe. – hellotalk.com

DUOLINGO –  O aplicativo e site tem cursos que prometem levar o usuário até o nível intermediário, com exercícios interativos. – duolingo.com

Sites

CONVERSATIONEXCHANGE.COM- Plataforma para encontrar falantes nativos da língua praticada que possam praticar com você.

PODCASTSINENGLISH.COM-  Site com podcasts desde o nível mais básico até o avançado para quem está aprendendo inglês.

PODCASTFRONSPAIN – Como o anterior, mas para quem quer aprender espanhol.

Canais do YouTube

ENGLISH IN BRAZIL – A brasileira Carina Fragozo dá dicas e miniaulas em seu canal no YouTube: youtube.com/user/carinafragozo

EDUCAÇÃO ATIVA – O canal oferece um curso de espanhol para iniciantes e intermediários, além de aulas em inglês e italiano. youtube.com/user/superchefft1970

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:1-11

A Tentação de Jesus

Aqui temos a história do famoso embate, corpo a corpo, entre Miguel e o dragão, a Semente da mulher e a semente da serpente, ou melhor, a própria serpente. Embate no qual a semente da mulher sofre, ao ser tentada, e assim tem o seu calcanhar ferido; mas a serpente é rapidamente frustrada nas suas tentações, e tem a sua cabeça esmagada. Então, o nosso Senhor Jesus emerge como um Conquistador, e desta forma garante não apenas consolo, mas a conquista, por fim, de todos os seus fiéis seguidores. A respeito da tentação de Jesus, observe:

 I – A ocasião em que isto aconteceu: “Então”, existe uma ênfase nesta palavra. Imediatamente depois que os céus se abriram para Ele, e o Espírito desceu sobre Ele, e Ele foi declarado como sendo o Filho de Deus e Salvador do mundo. As notícias seguintes que ouvimos sobre ele são as de que Ele está sendo tentado; pois então Ele está mais capacitado para combater a tentação. Note que:

  1. Grandes privilégios e sinais especiais da graça divina não nos impedem de ser tentados. Na verdade:
  2. Depois que grandes honras nos são concedidas, de vemos esperar algo que seja humilhante. Veja como Paulo teve um mensageiro de Satanás enviado para esbofeteá-lo, depois de ter estado no terceiro céu.
  3. Normalmente, Deus prepara o seu povo para as tentações antes que elas cheguem. Ele dá forças, de acordo com a época, e, antes de uma tentação difícil, dá um consolo maior do que o usual.
  4. A garantia da nossa filiação é a melhor preparação contra a tentação. Se o precioso e bom Espírito dá testemunho da nossa adoção, isto nos dota de uma resposta a todas as sugestões do espírito maligno, cujo objetivo é nos corromper ou inquietar.

Então, recém-saído de um ritual solene, ao ser batizado, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Observe que depois de sermos admitidos à comunhão com Deus, devemos esperar ser assediados por Satanás. A alma enriquecida precisa dobrar a sua vigilância. Quando tiver comido e estiver satisfeito, esteja atento. Então, quando Ele começou a apresentar-se publicamente a Israel, foi quando Ele foi tentado, como nunca tinha sido quando vivia em privacidade. Lembre-se, o diabo tem um ódio particular das pessoas úteis, que não são somente boas, mas inclinadas a fazer o bem, especialmente quando iniciam estas boas atividades. É o conselho do Filho de Siraque (Eclesiástico 2.1): “Meu filho, se tu te apresentares para servir o Senhor, prepara-te para a tentação”. Os jovens ministros devem saber o que esperar, e agir de modo adequado.

 

II – O lugar onde isto aconteceu; no deserto, provavelmente no grande deserto do Sinai, onde Moisés e Elias jejuaram durante quarenta dias, pois nenhuma parte do deserto da Judéia estava tão abandonada aos animais selvagens como se diz que esta área estava (Marcos 1.13). Quando Cristo foi batizado, Ele não foi a Jerusalém, para tornar públicas as glórias que tinham sido depositadas sobre Ele, mas retirou-se para o deserto. Depois da comunhão com Deus, é bom ficar sozinho algum tempo, para não perdermos o que recebemos, em meio à agitação das coisas do mundo. Cristo se retirou para o deserto:

  1. Para seu próprio benefício. O afastamento dá uma oportunidade de meditação e comunhão com Deus; mesmo aqueles que são chamados a uma vida mais ativa precisam ter momentos de meditação, e precisam, primeiro, dedicar frequentemente um tempo a sós com Deus. As pessoas que não conversaram sobre estas coisas secretamente, consigo mesmas, antes de mais nada, não são adequadas para falar sobre as coisas de Deus aos outros, em público. Quando Cristo aparecesse como um Mestre, vindo de Deus, não seria dito sobre Ele: “Ele acaba de chegar de viagem, Ele esteve no exterior e conheceu o mundo”, mas: “Ele acaba de sair do deserto, Ele esteve sozinho conversando com Deus e com o seu próprio coração”. 2. Para dar uma ajuda ao tentador, para que ele pudesse ter um acesso mais fácil a Ele, do que teria em meio a muita gente. Embora a solidão seja urna amiga do bom coração, ainda assim Satanás sabe corno usá-la contra nós. Ai daquele que está sozinho. Aqueles que, com a desculpa de santidade e devoção, se isolam em cavernas e desertos, percebem que não estão fora do alcance dos seus inimigos espirituais, e que ali eles precisam do benefício da comunhão com os santos. Cristo se isolou:

(1) Para tornar a sua vitória ainda mais exemplar. Ele permitiu que o inimigo tivesse o sol e o vento do seu lado, e ainda o frustrou. Ele pode ter dado vantagem ao diabo, pois o príncipe deste mundo não tem nada nele; mas ele tem em nós, seres humanos pecadores, e por isto devemos orar para não sermos levados à tentação, e precisamos ficar longe do caminho do mal.

(2) Para ter uma oportunidade de fazer o melhor de si para poder ser exaltado em sua própria força; pois está escrito: “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo”. Cristo entrou na luta sem companhia.

 

III – Os preparativos para a tentação foram dois:

  1. Ele foi levado ao combate. Ele não se envolveu deliberadamente nele, mas foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo diabo. O Espírito, que desceu como uma pomba sobre Ele, traz mansidão, mas também traz coragem. Note que a nossa preocupação deve ser a de não cair em tentação; mas se Deus, pela sua providência, permitir que passemos por circunstâncias de tentação para o nosso aperfeiçoamento, não devemos julgar isto estranho, mas dobrar a nossa vigilância. Seja forte no Senhor, resista com firmeza na fé, e tudo estará bem. Se confiarmos na nossa própria força, e tentarmos o diabo a nos tentar, estaremos provocando a Deus para nos deixar sozinhos; mas, aonde quer que Deus nos leve, podemos ter esperança de que Ele irá conosco, e nos fará mais que vencedores.

Cristo foi levado a ser tentado pelo diabo, e somente por ele. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1.14). O diabo assume o controle e trabalha com sua vítima, mas o nosso Senhor Jesus não possui uma natureza corrompida, e, portanto, foi levado com segurança, sem nenhum temor ou vacilação, como um campeão no campo de batalha, para ser tentado puramente pelo diabo.

A tentação de Cristo é:

(1) Um exemplo da sua própria condescendência e humilhação. As tentações são dardos inflamados, espinhos na carne, bofetadas, provações, lutas, combates, tudo o que caracteriza dificuldades e sofrimentos; portanto, Cristo se submeteu a isto, porque Ele se humilhou em todos os sentidos para ser feito como seus irmãos; assim, Ele deu as costas aos que o feriam.

(2) Uma oportunidade para a confusão de Satanás. Não existe uma conquista ou uma vitória sem um combate. Cristo foi tentado para poder vencer o tentador. Satanás tentou o primeiro Adão, e triunfou sobre ele; mas ele não irá triunfar sempre, o segundo Adão irá derrotá-lo e levar cativo o cativeiro.

(3) Uma questão de consolo para todos os santos. Na tentação de Cristo, percebe-se que o nosso inimigo é sutil, malévolo e muito ousado em suas tentações. Mas apesar disso, percebe-se que ele não é invencível. Embora ele seja um homem fortemente armado, ainda assim, o Capitão da nossa salvação é mais forte do que ele. É um consolo para nós pensarmos que Cristo sofreu, sendo tentado; pois assim nos parece que as nossas tentações, se não cedermos a elas, não são pecados, são somente sofrimentos, e, como tais, podem ser vencidas. E nós temos um Sumo Sacerdote que sabe, por experiência, o que é ser tentado, e que, portanto, é Ele que se compadece carinhosamente dos nossos sentimentos de fraqueza nos momentos de tentação (Hebreus 2.18; 4.15). Mas é um consolo muito maior pensar que Cristo venceu, mesmo sendo tentado, e venceu por nós; o inimigo que enfrentamos não é somente um inimigo derrotado, frustrado e desarmado –  nós temos interesse na vitória de Cristo sobre ele, porque é por meio de Cristo que somos mais que vencedores.

  1. Cristo adotou uma dieta para o combate, como os que lutam, que de tudo se abstêm (1 Coríntios 9.25). Mas Ele superou a todos, pois jejuou por quarenta dias e quarenta noites, em conformidade com o modelo e o exemplo de Moisés, o grande legislador, e de Elias, o grande reformista, no Antigo Testamento. João Batista veio como Elias, no que diz respeito à moral, mas não nos milagres (João 10.41); esta honra estava reservada para Cristo. Cristo não precisava jejuar para mortificação (Ele não tinha desejos corruptos para serem controlados). Ainda assim, Ele jejuou:

(1) Para que assim Ele pudesse se humilhar, e pudesse parecer alguém abandonado, alguém a quem ninguém procura.

(2) Para poder dar a Satanás tanto a oportunidade quanto a vantagem sobre Ele, e desta forma tornar a sua vitória ainda mais exemplar.

(3) Para poder santificar e recomendar o jejum a nós, quando Deus, na sua providência, o exigir, ou quando nós estivermos em situações difíceis, privados do alimento diário, ou quando o jejum for um requisito para a conservação do corpo, ou para o avivamento da oração. Estes são excelentes preparativos para enfrentarmos a tentação. Se as pessoas boas são humilhadas, se precisam dos amigos e de ajuda, isto pode consolá-los: o fato de que o próprio Messias sofreu da mesma maneira. Um homem pode precisar de pão, e ainda assim ser um favorito do céu e estar sob a liderança do Espírito. Quando jejuou os quarenta dias, Ele nunca teve fome; a conversa com o céu substituía a comida e a bebida para Ele, mas, depois, Ele sentiu fome, para mostrar que Ele era verdadeiramente homem; e Ele assumiu as nossas fraquezas naturais, para poder fazer a expiação por nós. O primeiro homem caiu por causa da comida, e desta maneira frequentemente pecamos; por esta razão, Cristo teve fome.

 

IV – As tentações. O que Satanás desejava, com todas as suas tentações, era levar Cristo a pecar contra Deus, e dessa maneira torná-lo eternamente incapaz de ser um Sacrifício pelos nossos pecados. Mas, qualquer que fosse a distorção, o que ele realmente desejava era levar Cristo:

(1) A perder a esperança na bondade do seu Pai.

(2) A suspeitar do poder do seu Pai.

(3) A alienar a honra do seu Pai, entregando-a a Satanás. As duas primeiras tentações pareceram inocentes e nelas se percebe a sutileza do tentador; a última tentação pode parecer até mesmo aceitável. As duas primeiras são tentações ardilosas, e para discerni-las era necessária uma grande sabedoria. A última foi uma tentação forte, e para resistir a ela era necessária uma grande determinação; ainda assim, o diabo foi frustra­ do em todas elas.

1.Ele tentou Cristo com a intenção de levá-lo a perder a esperança na bondade do seu Pai, e a não confiar no cuidado que o seu Pai tinha por Ele.

(1) Veja como aconteceu a tentação (v. 3). O tentador chegou-se a Ele. Observe que o diabo é o tentador, e, portanto, ele é Satanás, um adversário; pois os nossos piores inimigos são os que nos levam a pecar, e são agentes de Satanás, realizando o seu trabalho e executando os seus desejos. Ele é chamado enfaticamente de tentador, porque isto é o que ele foi aos nossos primeiros pais, e ainda o é, e todos os outros tentadores estão trabalhando para ele. O tentador chegou-se a Cristo numa aparência visível, nem terrível nem amedrontadora, como mais tarde, na sua agonia no jardim. Se alguma vez o diabo se transformou num anjo de luz, ele o fez nesta oportunidade, e fingiu ser um anjo bom, um anjo guardião.

Observe a sutileza do tentador, ao unir a sua primeira tentação com o que houve antes, para torná-la mais forte.

[1] Cristo começou a sentir fome, e, portanto, pareceu muito apropriada a proposta de transformar pedras em pão, para o seu necessário sustento. Observe que um dos truques de Satanás é aproveitar- se da nossa condição externa, para instalar o ataque das suas tentações. Ele é um adversário tão vigilante quanto malévolo; e quanto mais inventivo ele é para se aproveitar de nós, mas engenhosos devemos ser para não permitir que ele vença. Quando Jesus começou a sentir fome, no deserto, quando não havia nada para comer, foi quando o diabo o atacou. Note que a necessidade e a pobreza são uma grande tentação para o descontentamento e para a descrença, e para o uso de meios ilegais para o nosso alívio, com a desculpa de que a necessidade não obedece à lei, e com isto se desculpa que a fome rompa paredes de pedra, o que não é desculpa, pois a lei de Deus deve ser mais forte em nós do que as paredes de pedra. Agora contra a pobreza, não por que ela seja um sofrimento e um problema, mas por que ela é uma tentação: “ou que, empobrecendo, venha a furtar”. Por tanto, aqueles que estão em dificuldades precisam dobrar a vigilância. E melhor morrer de fome do que viver e prosperar pelo pecado.

(2] Cristo tinha sido recentemente declarado e reconhecido como o Filho de Deus, e aqui o diabo o tenta a duvidar desta realidade: “Se tu és o Filho de Deus”. Se o diabo não soubesse que o Filho de Deus viria a este mundo, ele não teria dito isto; e se ele não suspeitasse de que esta era Ele, não teria dito isto a Ele, nem se atreveria a dizer isto, se Cristo não tivesse ocultado a sua glória com um véu, e se o diabo não tivesse adotado uma atitude insolente.

Em primeiro lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de questionar se é ou não o Filho de Deus; pois se rá possível que o Filho de Deus, que é herdeiro de todas as coisas, esteja passando por tais sofrimentos? Se Deus fosse o seu Pai, Ele não lhe deixa ria passar fome, pois todos os animais do campo pertencem a Ele (Salmos 50.10,12). É verdade que houve uma voz vinda do céu: ‘Este é o Meu Filho amado’, mas certamente isto foi um engano que foi imposto a você, pois ou Deus não é o seu Pai, ou Ele é um Pai muito pouco amável”. Note que:

  1. O maior resultado que Satanás deseja, ao tentar as pessoas boas, é acabar com o relacionamento que elas têm com Deus como Pai, e desta forma eliminar a dependência que elas têm dele, a obrigação que têm para com Ele e a sua comunhão com Ele. O Espírito bom, como o Consolador dos irmãos, dá testemunho de que eles são filhos de Deus. O espírito mau, como o acusador dos irmãos, faz tudo o que pode para abalar este testemunho.
  2. Aflições, necessidades e problemas externos são os maiores argumentos que Satanás usa para levar o povo de Deus a questionar sua filiação. Como se os sofrimentos não pudessem estar de acordo com o amor paterno de Deus, quando realmente provêm do seu amor paterno. Aqueles que podem dizer, como o justo Jó, sabem como responder a esta tentação: “Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo, os meus caminhos defenderei diante dele. Também isto será a minha salvação, porque o ímpio não virá perante ele” (cap. 13.15).
  3. O objetivo do diabo é abalar a fé que temos na Palavra de Deus, e nos levar a questionar a verdade que há nela. Foi assim que ele começou com os nossos primeiros pais: “É verdade, Deus disse isto e aquilo? Claro que não. Deus lhe disse que você é o seu Filho amado? Certamente Ele não disse isto, ou, se disse, não é verdade”. Então nós abrimos passagem para o diabo, quando questionamos a verdade de qualquer palavra que Deus tenha dito; pois o seu objetivo, como o pai da mentira, é opor-se às palavras verdadeiras de Deus.
  4. O diabo realiza os seus desígnios, em grande parte, infiltrando nas pessoas pensamentos maus sobre Deus, como se Ele fosse cruel ou infiel, e tivesse abandonado ou esquecido aqueles que se entregaram completamente a Ele. Ele se esforçou para produzir nos nossos primeiros pais a noção de que Deus lhes tinha proibido a árvore da ciência porque Ele não queria lhe dar os seus benefícios; e, da mesma maneira, ele aqui insinua ao nosso Salvador que o seu Pai o tinha abandonado e deixado vagar por si mesmo. Mas veja como esta ideia era irracional, e com que facilidade ela é respondida. Se Cristo parecia ser agora um mero homem, porque sentia fome, por que Ele não confessou ser mais do que um homem, e até mesmo ser o Filho de Deus, se durante quarenta dias Ele tinha jejuado, sem sentir fome?

Em segundo lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de mostrar que é o Filho de Deus. ‘Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras’ (provavelmente havia uma pilha delas diante dele) ‘se tornem em pães ‘ (v. 3). João Batista tinha dito recentemente que mesmo das pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão; um poder divino pode, portanto, sem dúvida, das pedras produzir alimento para estes filhos. “Se você tem este poder, exerça-o agora, nesta hora de necessidade, para si mesmo”. Ele não disse: “Ore ao teu Pai para que Ele as transforme em pão”, mas ordena que isto se faça. “O teu Pai te abandonou, organiza-te tu mesmo e não dependas dele”. O diabo não é a favor de nada que seja humilhante, mas de tudo o que é arrogante; e ele consegue o que quer, se conseguir apenas retirar os homens da dependência que têm de Deus, e dotá-los de uma opinião de sua autossuficiência.

(2) Veja a maneira como esta tentação foi resistida e vencida.

(l) Cristo se recusou a acatá-la. Ele não ordenou que as pedras se transformassem em pão. Não porque não pudesse fazê-lo. O seu poder, pouco tempo depois disto, realizaria algo que era equivalente a transformar pedras em pão, mas Ele não o fez agora. E por que não o fez

  1. A primeira vista, a coisa parece ser suficientemente justificável, e a verdade é que, quanto mais plausível uma tentação seja, e quanto mais aparência do bem exista nela, mais perigosa ela será. Esta questão trazia uma disputa, mas Cristo estava ciente da “serpente que havia na relva”, e não fez nada, em primeiro lugar, que parecesse questionar a verdade da voz que Ele tinha ouvido do céu, ou que o colocasse numa nova tentação que já estava definida. Em segundo lugar, Ele não fez nada que parecesse falta de confiança nos cuidados do seu Pai para com Ele, ou que o limitasse a uma maneira particular de cuidar dele. Em terceiro lugar, Ele não fez nada que parecesse que estava cuidando de si mesmo e sendo o seu próprio provedor. Nem, em quarto lugar, que parecesse agradar a Satanás, fazendo algo de acordo com a sua sugestão. Alguns teriam dito que dar ao diabo o que lhe compete é um bom conselho; mas para aqueles que confiam em Deus, considerar o que o diabo diz é mais do que lhe compete; é como consultar o deus de Ecrom, quando existe um Deus em Israel.

[2] Ele estava preparado para responder à tentação (v. 4). Ele respondeu, dizendo: “está escrito”. Deve-se observar que Cristo respondeu e frustrou todas as tentações de Satanás com este “Está escrito”. Ele mesmo é a Palavra eterna, e poderia ter realizado a vontade de Deus sem ter de recorrer aos escritos de Moisés; mas Ele honrou as Escrituras, e, para nos dar um exemplo, apelou ao que estava escrito na lei, e diz isto a Satanás, supondo que ele sabe suficientemente bem o que está ali escrito. É possível que aqueles que são filhos do diabo possam saber muito bem o que está escrito no livro de Deus. Os demônios creem e estremecem. Devemos adotar este método quando, em qualquer ocasião, formos tentados a pecar; devem os resistir e rejeitar a tentação com “está escrito”. A Palavra de Deus é a espada do Espírito, a única arma ofensiva de todo o arsenal cristão (Efésios 6.17); e em nossos conflitos espirituais, podemos dizer sobre ela como Davi falou sobre a espada de Golias: “Não existe espada melhor do que essa” (1 Samuel 21.9, ver são NTLH).

Esta resposta, como as outras, é extraída do livro de Deuteronômio, que significa a segunda lei, e na qual há muito pouco cerimonial. Os sacrifícios e as purificações dos levitas não puderam afastar Satanás, embora fossem de instituição divina, e muito menos a água benta e o sinal da cruz, que são de invenção humana: mas os preceitos morais e as promessas evangélicas, mesclados com a fé, estes são poderosos, em Deus, para a derrota de Satanás. Aqui há uma citação de Deuteronômio 8.3, onde a razão pela qual Deus alimentava os israelitas com maná é o fato de que Ele os ensinava que o homem não pode viver somente de pão. Isto Cristo aplica ao seu próprio caso. Israel era o filho de Deus, que Ele libertou do Egito (Oseias 11.1), e também Cristo era Filho de Deus (cap. 2.15). Israel estava, na ocasião, em um deserto. Cristo também estava em um deserto agora, talvez fosse o mesmo deserto. Agora, em primeiro lugar, o diabo teria feito Cristo questionar a sua filiação, porque estava em dificuldades. Não, diz Ele, Israel era filho de Deus, e um filho a quem Ele muito amava e cujos hábitos Ele tolerava (Atos 13.18); e apesar disto, Ele os conduziu às dificuldades, e então (Deuteronômio 8.5), “como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor, teu Deus”. Cristo, sendo o Filho, aprendeu a obediência. Em segundo lugar, o diabo o teria feito deixar de confira no amor e nos cuida dos do seu Pai. “Não”, diz Ele, “isto seria fazer o que Israel fez, quando estava em necessidade, ou seja, questionar: ‘Está o Senhor no meio de nós’, e: ‘Poderá Deus… preparar-nos uma mesa no deserto? Ele poderá dar-nos pão?”‘ Em terceiro lugar, o diabo teria levado Cristo, quando começou a sentir fome, a imediatamente procurar alimento; ao passo que Deus, com seus objetivos sábios e santos, fez Israel sofrer a fome antes de lhes dar alimento. Ele os humilhou e os colocou à prova. Deus quer que os seus filhos, quando em necessidade, não apenas confiem nele, mas que esperem nele. E m quarto lugar, o diabo teria feito Cristo se alimentar com pão. “Não”, diz Cristo, “que necessidade há disso? Já ficou determinado há muito tempo, e foi provado incontestavelmente, que o homem pode viver sem pão, pois Israel, no deserto, viveu quarenta anos somente com o maná”. E verdade, Deus, em sua providência, pode normalmente sustentar os homens com o pão produzido na terra (Jó 28.5); mas Ele pode, se assim o desejar, fazer uso de outros meios para conservar vivos os homens. Qualquer palavra saída da boca de Deus, qualquer coisa que Deus ordene e indique para este fim, será um sustento para o homem, tão bom quanto o pão, e irá sustentá-lo também. Pois podemos ter pão e não ser alimentados, se Deus nos negar a sua bênção (Ageu 1.6,9; Miquéias 6.14) ; pois embora o pão seja a base da vida, a bênção de Deus é a base do pão, de modo que podemos precisar de pão e, ainda assim sermos alimentados de alguma outra maneira. Deus sustentou Moisés e Elias sem pão, e ao próprio Cristo, durante quarenta dias. Ele sustentou Israel com o pão do céu, o alimento dos anjos. Elias, com o pão milagrosamente enviado por corvos, e em outra ocasião, com a refeição da viúva, milagrosamente multiplicada. Portanto, Cristo não precisava transformar pedras em pães, mas sim confiar que Deus o manteria vivo de alguma outra maneira, agora que Ele sentia fome, da mesma maneira como Ele o tinha feito durante quarenta dias, antes que Ele sentisse fome. Assim como na nossa grande abundância não devemos pensar que vivemos sem Deus, da mesma maneira, nas nossas grandes dificuldades, nós devemos aprender a confiar em Deus. E quando a figueira não der frutos, e os campos não produzirem alimento, quando todos os meios normais de auxilio e ajuda deixarem de existir, ainda assim devemos nos alegrar no Senhor. Então, não devemos pensar em fazer o que quisermos, contrariamente às suas ordens, mas humildemente orar pelo que Ele considera adequado nos dar, e sermos gratos pelo pão do nosso sustento, ainda que seja pouco. Devemos aprender, com Cristo aqui, a confiar em Deus, e não em nós mesmos, e a não enveredarmos por nenhum caminho irregular para o nosso sustento, quando as nossas necessidades forem extremamente urgentes (SaImos 37.3). De uma maneira ou de outra, o Senhor proverá. Ê melhor viver modestamente, com os frutos da bondade de Deus, do que viver com abundância dos produtos do nosso próprio pecado.

  1. O diabo tentou Jesus a presumir sobre o poder e a proteção do seu Pai. Veja que adversário incansável é o diabo! Se ele fracassa em um ataque, ele tenta outro.

Neste segundo ataque, podemos observar:

(1) Qual foi a tentação, e como foi conduzida. Em geral, encontrando Cristo tão confiante no cuidado que o seu Pai tem com Ele, em termos de nutrição, o diabo tenta levá-lo a confiar nestes cuidados em termos de segurança. Observe que nós corremos o risco de perder o nosso rumo, tanto à direita como à esquerda, e, portanto, precisamos prestar atenção para que, quando evitarmos um extremo, não sejamos levados, pelos truques de Satanás, a correr para o outro; para que, superando a nossa abundância, não caiamos na cobiça. Nenhum extremo é mais perigoso do que os do desespero e da arrogância, especialmente nas questões das nossas almas. Alguns que obtiveram uma convicção de que Cristo é capaz de salvá-los de seus pecados, e está disposto a fazer isto, são tentados a confiar que Ele os salvará dos seus pecados. Assim, quando as pessoas começam a se tornar zelosas pela religião, Satanás as leva ao fanatismo e a atitudes desenfreadas.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] Como ele abriu caminho para ela. Ele levou a Cristo, não pela força, contra a sua vontade, mas o levou a Jerusalém, indo com Ele. Se Cristo foi pelo chão, e depois subiu as escadas até o topo do Templo, ou se foi pelo ar, não se sabe; mas Ele foi colocado sobre um pináculo, ou torre espiral. Sobre o santuário (dizem alguns), sobre as ameias ou seteiras (dizem outros), sobre as asas do Templo. Agora, observe, em primeiro lugar, o quão submisso Cristo estava ao plano de Deus Pai, sujeitando-se a ser levado assim, para permitir que Satanás realizasse o seu trabalho procurando derrotá-lo. A paciência de Cristo aqui, como também posteriormente, nos seus sofrimentos e na sua morte, é mais maravilhosa que o poder de Satanás ou os seus truques; pois nem ele nem seus truques poderiam ter qualquer poder sobre Cristo, exceto o que lhe tinha sido concedido do céu. Como é consolador que Cristo, ao permitir que este poder de Satanás lutasse contra si mesmo, não o permita, de igual maneira, sobre nós, mas o restrinja, pois Ele conhece a nossa estrutura! Em segundo lugar o quão sutil estava o diabo, na escolha da ocasião para as suas tentações. Pretendendo solicitar a Cristo uma ostentação do seu próprio poder, e uma atitude inútil de vanglória sobre a providência divina, ele o coloca no alto de um lugar público em Jerusalém, uma cidade muito habitada, e a alegria da terra inteira; no Templo, uma das maravilhas do mundo, continuamente olhada com admiração por muitos. Ali, Jesus poderia se fazer admirável, e ser notado por todos, e provar ser o Filho de Deus; não como Ele tinha sido convidado na tentação anterior, na obscuridade de um deserto, mas diante de multidões, no alto do lugar mais eminente.

Observe:

  1. Que Jerusalém aqui é chamada de Cidade Santa; pois ela o era, em nome e em profissão de fé, e havia nela uma semente sagrada, que era o seu conteúdo. Observe que não há no mundo uma cidade tão santa para nos isentar e nos proteger do diabo e de suas tentações. O primeiro Adão foi tentado no jardim sagrado, o segundo, na Cidade Santa. Portanto, não devemos, em nenhum lugar, aliviar a nossa vigilância. Não, a Cidade Santa é o lugar onde o diabo, com grande vantagem e êxito, tenta os homens ao orgulho e à arrogância; mas, bendito seja Deus, na Jerusalém celestial, naquela cidade santa, nenhuma impureza entrar á. Ali estaremos, para sempre, Livres da tentação.
  2. Que ele o colocou sobre o pináculo do Tempo, que (conforme Josefo descreve Antiq., liv. 15, cap. 14) era tão alto que poderia produzir vertigens à cabeça de um homem que do seu cume olhasse para baixo.

Note que os pináculos dos templos são lugares de tentação. Quer dizer:

(1) Os lugares altos o são; eles são lugares instáveis; o progresso no mundo torna o homem um alvo fácil para onde Satanás dirige os seus dardos. Deus traz os homens ao chão, para que eles possam se erguer; o diabo os leva para o alto, para poder lançá-los ao chão. Portanto, aqueles que prestam atenção à queda, devem prestar atenção à subida.

(2) Os lugares altos na igreja são, de uma maneira especial, perigosos. Aqueles que se sobressaem em dons, que estão em posições eminentes, que conquistaram grande reputação, precisam se conservar humildes, pois Satanás com certeza os fará seus alvos, os encherá de orgulho para que possam cair na condenação do diabo. Aqueles que estão no alto devem se preocupar em perseverar, e permanecer firmes.

[2] A maneira como ele fez a motivação: ‘”Se tu és o Filho de Deus’, prove isto perante o mundo, e prove a si mesmo, ‘lança-te daqui abaixo”‘. “Então”, em primeiro lugar você será admirado, como se estivesse sob a proteção especial do céu. Quando eles virem que você não se feriu numa queda de uma altura como esta, eles dirão” (corno os bárbaros disseram sobre Paulo) ” que você é um Deus”. Diz a tradição que Simão Magno quis provar desta mesma maneira que era um deus, mas as suas pretensões não foram provadas, pois ele caiu e se feriu terrivelmente. “Não”, em segundo lugar, “você será recebido como tendo vindo com urna missão especial do céu. Toda Jerusalém irá ver e reconhecer não somente que você é mais do que um homem, mas que você é aquele Mensageiro, aquele Anjo da Aliança, que de repente viria ao Templo (Malaquias 3.1) e dele desceria às ruas da cidade santa; e assim o trabalho de convencer os judeus seria reduzido e realizado em pouco tempo”.

Note que o diabo disse: “Lança-te daqui abaixo”. O diabo não podia lançá-lo, embora não fosse necessário muito para fazê-lo, do topo de uma torre espiral. Observe que o poder de Satanás é um poder limitado; consequentemente, ele fará as suas investidas, mas não poderá fazer tudo o que quiser. Ainda assim, se o diabo o tivesse lançado do topo da torre, não teria conseguido

o seu intento; poderia haver até mesmo sofrimento, apenas, e não pecado. Lembre-se, qualquer prejuízo ou dano real que seja feito a nós, será nossa própria obra; o diabo somente pode nos persuadir, ele não pode nos obrigar. Ele somente pode dizer: “Lança-te daqui abaixo”. Ele não pode nos lançar. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, e não forçado, mas atraído. Portanto, não firamos a nós mesmos, e, bendito seja Deus, ninguém mais conseguirá nos ferir (Provérbios 9.12).

[3] A maneira como ele fundamentou o seu convite com uma passagem das Escrituras. “Por que está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito”. Mas Saul também está incluído entre os profetas? E Satanás tão conhecedor das Escrituras, a ponto de ser capaz de citá-las tão prontamente. Aparentemente, sim. Observe que é possível que um homem tenha a sua cabeça cheia de noções das Escrituras, e a sua boca cheia de expressões das Escrituras, ao passo que o seu coração está cheio de inimizade reinante contra Deus e toda a divindade. O conhecimento que os demônios têm das Escrituras aumenta tanto a sua disposição para a maldade como para o tormento. O diabo jamais falou com mais vexame e irritação sobre si mesmo do que quando disse a Cristo: “Bem sei quem és”. O diabo iria persuadir Cristo a lançar-se para baixo, esperando que Ele pudesse ser o seu próprio assassino, e este seria o final dele e da sua missão – que Satanás via com olhos invejosos. Par a incentivá-lo a fazer isto, ele lhe diz que não haveria perigo, que os bons anjos o protegeriam, pois esta era a promessa (Salmos 91. 11): “aos seus anjos dará ordem a teu respeito”. Nesta citação:

Em primeiro lugar, havia uma coisa correta. É verdade, existe esta promessa de ministério dos anjos, para a proteção dos santos. O diabo sabe disto por experiência, pois ele descobre que os seus esforços contra os santos são infrutíferos, e ele se irrita com isto, como fez no caso de Jó, de quem ele fala com tanta sensatez (Jó 1.10). Ele também estava certo ao aplicar isto a Cristo, pois a Ele pertencem, básica e eminentemente, todas as promessas de proteção dos santos, e a estes, por meio dele. Aquela promessa, de que nenhum dos seus ossos se quebraria (SaImos 34.20), se cumpriu em Cristo (João 19.36). Os anjos guardam os santos por amor a Cristo (Apocalipse 7.5,11).

Em segundo lugar, havia muita coisa errada. E talvez o diabo tivesse um ódio particular contra esta promessa, e a tivesse distorcido, porque ela frequentemente o atrapalhava, e frustrava os seus ardilosos desígnios contra os santos. Veja aqui:

  1. A maneira como ele a citou mal, e isto foi ruim. A promessa é: “Eles te guardarão”; mas como? “Em todos os teus caminhos”; de nenhuma outra maneira; se sairmos do nosso caminho, do caminho do nosso dever, perdemos a promessa e nos colocamos fora da proteção de Deus. Estas palavras eram contrárias ao tentador, e por isto ele, ardilosamente, a excluiu da sua citação. Se Cristo se lançasse para baixo, Ele teria saído do seu caminho, pois Ele não tinha ordens de se expor desta maneira. É bom que nós, em todas as ocasiões, consultemos as próprias Escrituras, e não confiemos nas sugestões, para que elas não nos sejam impostas por aqueles que mutilam e deformam a Palavra de Deus. Nós devemos fazer como os nobres de Bereia, que liam diariamente as Escrituras.
  2. A maneira como ele aplicou mal a citação, e isto foi pior. As Escrituras são mal-usadas quando a questão é ser condescendente com o pecado, e quando os homens, consequentemente, a corrompem no caso da sua própria tentação, eles o fazem para a sua própria destruição (2 Pedro 3.16). Esta promessa é firme, e é boa; mas o diabo fez um mau uso dela, quando a usou como um incentivo para confiar nos cuidados divinos. Observe que não é novidade que alguns tentem transformar a graça de Deus em brincadeira, nem que os homens se incentivem a pecar depois que descobrem a boa vontade de Deus com relação aos pecadores. Mas nós “permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante”? Vamos nos lançar par a baixo, para que os anjos possam nos segurar? De maneira nenhuma.

(2) A maneira como Cristo venceu esta tentação. Ele resistiu a ela, e a venceu, assim como tinha feito com a primeira, com a expressão “está escrito”. O mau uso que o diabo faz das Escrituras não impediu que Cristo as usas­ se bem, mas Ele aqui insiste (Deuteronômio 6.16): “Não tentareis o Senhor, vosso Deus”. O significado disto não é: “Portanto, vocês não devem me tentar”, mas sim: “Portanto, Eu não devo tentar o meu Pai’. Na passagem citada, a referência está no plural: “Não tentarás”. Aqui, está no singular: “Não tentareis”. Observe que somos suscetíveis a conseguir o bem pela Palavra de Deus, quando ouvimos e recebemos promessas gerais como dirigidas a nós em particular. Satanás disse: “Está escrito”; Cristo diz: “Está escrito”. Isto não significa que uma passagem das Escrituras contradiga a outra. Deus é um, e a sua palavra é única, e Ele é uma única mente, mas aquela é uma promessa, isto é, um preceito, e, portanto, há que se explicar e aplicar estas coisas; pois as Escrituras são os melhores intérprete s das próprias Escrituras; e aqueles que profetizam, que expõem as Escrituras, devem fazê-lo de acordo com a proporção da sua fé (Romanos 12.6), e de modo coerente com a santidade prática.

Se Cristo se lançasse para baixo, isto seria tentar a Deus:

[1] Pois estaria exigindo uma confirmação daquilo que já tinha sido bem confirmado. Cristo estava bastante satisfeito com o fato de Deus ser o seu Pai, e cuidar dele, e dar aos seus anjos uma missão a respeito dele. Por tanto, fazer uma nova experiência seria tentá-lo, como os fariseus tentaram a Cristo, quando, tendo tantos sinais na terra, exigiram um sinal do céu. Isto seria limitar o Santo de Israel.

[2] Pois estaria exigindo uma proteção especial para Ele, ao fazer algo que Ele não tinha sido chamado para fazer: Se nós esperarmos que, por Deus ter prometido não nos abandonar, Ele deve nos acompanhar mesmo se sairmos da nossa obrigação; se esperarmos que, por ter prometido satisfazer as nossas necessidades, por isto Ele deve nos mimar e nos conceder os nossos caprichos; se esperarmos que, por ter Ele prometido nos proteger, nós podemos voluntariamente nos expor aos perigos e esperar o fim desejado, sem o uso dos fins indicados, isto é arrogância, isto é tentar a Deus. E o fato de Ele ser o Senhor nosso Deus agrava o pecado; é um abuso do privilégio que desfrutamos, de tê-lo como nosso Deus. Ele já nos incentivou a confiar nele, mas seremos extremamente ingratos, se o tentamos; isto é contrário ao nosso dever para com Ele, corno nosso Deus. Isto é afrontar aquele a quem nós devemos honrar. Observe que não devemos prometer a nós mesmos nada além daquilo que Deus nos prometeu.

3.O diabo tentou Jesus à mais obscura e horrenda idolatria, com a oferta dos reinos do mundo e a sua glória. E aqui podemos observar:

(1) A maneira como o diabo dá este incentivo ao nosso Salvador (vv. 8,9). A pior tentação ficou reservada para o final. Observe que algumas vezes o último encontro dos santos é com os filhos de Anaque, e o último ataque é o mais amargo. Portanto, qualquer que seja a tentação que nos sobrevenha, ainda assim devemos nos preparar para o pior, devemos estar armados para todos os ataques com a armadura da justiça na mão direita e na esquerda.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] O que ele mostrou a Cristo – “todos os reinos do mundo”. Para fazer isto, ele o levou a um monte muito alto. Esperando ser o vencedor, como Balaque com Balaão, ele mudou o seu território. O pináculo do Templo não é suficientemente alto; o príncipe das potestades do ar deve levá-lo ainda mais alto nos seus territórios. Alguns pensam que este alto monte estava do outro lado do Jordão, porque é ali que encontram os Cristo pouco depois da tentação (João 1.28,29). Talvez fosse o monte Pisga, onde Moisés, em comunhão com Deus, contemplou todos os reinos de Canaã. Até aqui, o bendito Jesus teve ao seu lado uma grande esperança, como se o diabo pudesse lhe mostrar mais sobre o mundo do que Ele já conhecia, Ele que o tinha criado e o governava. Daquele lugar, Ele poderia contemplar a localização de alguns dos reinos próximos à Judéia, embora não a glória destes reinos; mas sem dúvida havia uma trapaça e uma ilusão de Satanás nisto. É provável que aquilo que ele mostrou a Cristo não passasse de uma paisagem, de uma representação em uma nuvem, do modo como o grande enganador podia facilmente juntar, apresentar, em cores adequadas e vivas, as glórias e as magníficas aparências dos príncipes, suas roupas e coroas, seus séquitos, sua bagagem e seus guarda-costas; a pompa dos tronos, e das cortes, e dos palácios luxuosos, os suntuosos edifícios nas cidades, os jardins e os campos próximos, com vários exemplos de riqueza, prazer e satisfação, que pudessem despertar a imaginação e excitar a admiração e o afeto. Assim foi esta exibição, e o fato de levá-lo até um monte alto tinha o único objetivo de ajudar e disfarçar o engano, ao qual o bendito Jesus não se deixou submeter, mas enxergou a realidade que estava por trás da trapaça, só permitindo que Satanás o fizesse à sua maneira para que a sua vitória sobre o maligno pudesse ser ainda mais exemplar. Consequentemente, observe, a respeito das tentações de Satanás, que, em primeiro lugar, elas vêm aos olhos, que estão cegos à s coisas que deviam ver, e maravilhados pelas tolices de que deveriam se afastar. O primeiro pecado começou através dos olhos (Genesis 3.6). Portanto, precisamos fazer um concerto com os nossos olhos, e orar para que Deus os afaste da contemplação às tolices. E m segundo lugar, as tentações normalmente nascem no mundo, e nas coisas que nele há. A concupiscência d a carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida são os pontos de onde o demônio produz a maioria dos seus argumentos. Em terceiro lugar, isto é um grande engano que o diabo coloca sobre as nossas pobres almas, nas suas tentações. Ele engana, e assim, destrói. Ele impõe sobre os homens as sombras e as esconde rápidas; mostra o mundo e a sua glória, e esconde dos olhos dos homens o pecado, a tristeza e a morte que mancham o orgulho de toda esta glória, as preocupações as calamidades que aparecem com as grandes posses, e os espinhos com que as próprias coroas são adornadas. Em quarto lugar, a glória do mundo é a tentação mais sedutora para os inconscientes e imprudentes, e aquela infligida com mais frequência a os homens. Os filhos de Labão se ressentem da glória de Jacó; o orgulho pela vida é a cilada mais perigosa.

[2] O que ele disse a Cristo (v. 9): “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. Veja:

Em primeiro lugar, como foi vã esta promessa. “Tudo isto te darei”. O diabo parece ter certeza de que nas tentações anteriores ele tinha, parcialmente, atingido o seu objetivo, e provado que Cristo não era o Filho de Deus, porque Ele não tinha lhe dado as evidências que ele exigia; assim, aqui ele considera Cristo como um mero homem. Em outras palavras, “Venha”, diz ele, “parece que Deus, cujo Filho você pensava ser, está lhe abandonando, e priva você de alimento como um sinal de que Ele não é o seu Pai. Mas se você for governado por mim, eu vou cuidar melhor de você; considerem e como o seu pai, e peça a minha bênção, e tudo isto eu lhe darei”. Satanás faz dos homens presas fáceis, quando consegue persuadi-los a pensar que foram abandonados por Deus. A falácia desta promessa está em: “Tudo isto te darei”. E o que é” tudo isto”? Não era nada além de um mapa, um quadro, uma m era fantasia, que não tinha nada de real ou sólido, e isto ele daria a Cristo: um prêmio considerável! Mas assim são as ofertas de Satanás. Multidões deixam de ver o que é real, vendo o que não é. As iscas do diabo são todas simulações, elas são espetáculos e sombras com os quais ele engana as pessoas, ou melhor, elas se enganam. As nações da terra tinham sido, há muito tempo, prometidas ao Messias; se Ele era o Filho de Deus, elas pertenciam a Ele. Satanás a gora finge ser um bom anjo, provavelmente um daqueles que tinham sido colocados sobre os reinos, e finge ter recebido a missão de entregar posses a Jesus, de acordo com uma promessa. Lembre-se, nós devemos tomar cuidado para não receber até mesmo o que Deus prometeu, pelas mãos do diabo; nós fazemos isto quando precipitamos o cumprimento das promessas, agarrando-nos a elas de uma maneira pecaminosa.

Em segundo lugar, como era vil esta condição: “Se, prostrado, me adorares”. Toda a adoração que os pagãos faziam aos seus deuses se dirigia ao diabo (Deuteronômio 32.17), que, portanto, é chamado de deus deste século (2 C o 4.4; P 1 C o 10.20). E, satisfeito, ele atrairia Cristo aos seus interesses, e o persuadiria, estabelecendo um Professor, para pregar a idolatria dos gentios e para introduzi-las outra vez no meio dos judeus, e então as nações da terra correriam para ele. Que tentação seria mais abominável, P mais obscura? Observe que o melhor dos santos pode o s e r tentado ao pior dos pecados, especialmente quando g está sob o poder da melancolia; como, por exemplo, ser E atraído ao ateísmo, à blasfêmia, ao assassinato, à auto­destruição e a outras coisas. Esta é a sua aflição. Mas então quanto não houver consentimento, nem aprovação, não há pecado por parte dele; Cristo foi tentado a adorar Satanás, mas resistiu.

(2) Veja como Cristo evitou o golpe, frustrou o ataque e emergiu como um vencedor. Ele rejeitou a proposta:

[1] Com repulsa e ódio: “Vai-te, Satanás”. As duas tentações anteriores tinham algum a coisa atraente, algo que admitiria uma consideração, mas esta era tão grosseira a ponto de não admitir negociação. Ela pareceu abominável à primeira vista, e, portanto, é imediatamente rejeitada. Se o melhor amigo que tivermos no mundo nos sugerir algum a coisa como esta: “Vamos e sirvam os a outros deuses”, ele não deve ser ouvido com piedade (Deuteronômio 13.6,8). Algumas tentações têm a sua maldade escrita na testa, são conhecidas de antemão; não devemos sequer discutir sobre elas, mas rejeitá-las imediatamente. “Vai-te, Satanás”. E m outras palavras: “Leve isto embora daqui eu não suporto pensar nisso!”. Enquanto Satanás tentou a Cristo para que causasse mal a si mesmo, lançando-se para baixo, embora Ele não cedesse, Ele ouviu a proposta; mas agora, que na tentação se impõe claramente a Deus, Ele não consegue suportá-la. “Vai-te, Satanás”. Observe que esta é uma indignação justa, que se ergue contra a proposta d de qualquer coisa que se sobreponha à honra de Deus, e c atinja a sua majestade. Não, não importa qual seja a coisa abominável que saibamos com certeza que o Senhor é odeia, nós devemos abominá-la. Que Deus não permita que tenhamos algum a coisa a ver com ela. Observe que é bom ser categórico ao resistir à tentação, e fechar os ouvidos aos encantos e enganos de Satanás. e

[2] com um argumento extraído das Escrituras. Observe que, para fortalecer as nossas resoluções contra o pecado, é bom vermos quantas razões existem para estas resoluções. O argumento é muito adequado e exato p ao propósito, extraído de Deuteronômio 6.13 e 10.20. “Ao n Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás”. Cristo não discute se ele, o diabo, era um anjo de luz, como ele fingia ser, ou não; mas mesmo que fosse, ainda assim não t devia ser adorado, pois esta é uma honra devida somente a Deus. Observe que é bom darmos à tentação respostas tão completas e tão breves quanto possível, para não deixar lugar para objeções. O nosso Salvador, neste caso, tem o auxílio da lei fundamental, o que é indispensável e universalmente obrigatório. A adoração religiosa é devida somente a Deus, e não deve ser oferecida a nenhuma outra criatura. E um a flor na coroa que não pode ser separada, um ramo da glória de Deus que Ele não dará a outrem. Se o seu próprio Filho não fosse Deus, igual a Ele e um só com Ele, Ele não exigiria que todos os homens honrassem ao Filho, como honram ao Pai. Cristo cita esta lei a respeito da adoração religiosa, e o faz aplicando-a a si mesmo. E m primeiro lugar, para mostrar que no seu estado de humilhação Ele mesmo estava sujeito a esta lei: embora, como Deus, fosse adorado, ainda assim, como Homem, Ele adorava a Deus Pai, tanto publicamente como em particular. Ele nos obriga a nada além do que Ele primeiramente se obrigou a fazer. Assim, lhe convinha cumprir toda a justiça. E m segundo lugar, para mostrar que a lei da adoração religiosa é de obrigação eterna: em bora Ele anulasse e alterasse muitas instituições da adoração, ainda assim Ele veio ratificar e confirmar e fazer vigorar sobre nós a lei fundamental da natureza, de que som ente Deus deve ser adorado.

V – Temos aqui o desfecho e o resultado deste combate (v. 11). Embora os filhos de Deus possam passar por muitas e grandes tentações, ainda assim Deus não irá submetê-los a se r tentados acima das forças que cada um deles tem, ou que Ele lhe dará (1 Coríntios 10.13). Eles só estarão em dificuldades durante uma época, em meio aos tipos mais variados de tentação.

Agora, o resultado foi glorioso, e para a honra de Cristo; pois:

3.O diabo ficou frustrado e abandonou o campo de batalha; “então, o diabo o deixou”, forçado a fazer isto pelo poder que acompanhava aquelas palavras de ordem: “Vai-te, Satanás”. Ele fez uma retirada vergonhosa e desonrosa, e retirou-se em desgraça; e quanto mais ousadas tinham sido as suas tentativas, mas mortificante foi a frustração que recebeu. No entanto, a tentativa na qual ele fracassou foi ousada. Quando ele tinha feito a pior tentativa, tinha tentado a Cristo com todos os reinos do mundo e a sua glória, e descobriu que Ele não se deixava influenciar por aquela isca, que ele não venceria com aquela tentação, com a qual tinha derrubado tantos milhares de filhos dos homens, então ele deixa o Senhor; é quando ele o considera como mais do que um homem. Como isto não influenciou Jesus, ele desiste de influenciá-lo e começa a concluir que Ele é o Filho de Deus, e que é inútil continuar a tentá-lo. Se resistirmos ao diabo, ele se afastará de nós; ele desistirá, se nós conservarmos os nossos fundamentos. Quando o diabo deixou o nosso Salvador, ele tinha sido justamente derrotado; a sua cabeça estava rompida pelo esforço que tinha feito para ferir o calcanhar de Cristo. Ele o deixou porque ele não tinha nada nele, nada a que agarrar-se; ele viu que não tinha sentido e desistiu. O diabo, embora seja um inimigo de todos os santos, é um inimigo derrotado. O Capitão da nossa salvação já o derrotou e desarmou; nós não temos nada a fazer, exceto possuir e manter a vitória.

4.Os santos anjos vieram e serviram ao nosso Senhor.

Visto que chegaram os anjos e o serviram”. Eles vieram sob uma aparência visível, como o diabo tinha feito nas tentações. Enquanto o diabo estava desferindo seus ataques sobre o nosso Salvador, os anjos mantiveram-se à distância, e foram suspensos o seu auxílio e o seu serviço imediatos, para que ficasse a parente que Jesus tinha derrotado a Satanás com suas próprias forças, e para que a sua vitória fosse ainda mais exemplar. Também para que posteriormente, quando Miguel fizer uso dos seus anjos para luto e seus anjos, fique aparente que não é porque Jesus precise deles, ou porque não conseguiria realizar o seu trabalho sem eles, mas porque Ele se alegra em honrá-los, tanto quanto em usá-los. Um dos anjos poderia ter lhe trazido comida, mas havia muitos que o serviam, para dar testemunho do respeito que tinham por Ele, e da disposição e prontidão deles para receber as suas ordens. Note isto! É importante observar que:

(1) Assim como existe um mundo de espíritos malignos e mal-intencionados que lutam contra Cristo e a sua igreja – contra todos os crentes fiéis também existe um mundo de anjos santos e benditos, engajados e usados a favor dos cristãos. A respeito da nossa luta contra os demônios, podemos ter uma abundância de consolo devido aos anjos que pelejam contra estes.

(2) As vitórias de Cristo são os triunfos dos anjos. Os anjos vieram comemorar com Cristo o seu sucesso, alegrar-se com Ele e dar a Ele a glória que deve ser dada ao seu nome; pois isto foi cantado com v oz alta no céu, quando o grande dragão foi expulso (Apocalipse 12.9,10): “Agora chegada está a salvação, e a força”.

(3) Os anjos ministraram ao Senhor Jesus não apenas alimento, mas qualquer coisa de que Ele necessitou depois deste esforço tão grande. Veja com o os exemplos da condescendência e da humilhação de Cristo estão equilibrados com os sinais da sua glória. Como quando Ele foi crucificado em fraqueza, e ainda assim viveu pelo poder de Deus; como quando em fraqueza Ele foi tentado, passou fome e cansaço, e ainda assim pelo seu poder divino Ele ordenou o serviço dos anjos. Assim, o Filho do Homem comeu o alimento trazido pelos anjos e, como Elias, foi alimentado por um anjo no deserto (1 Reis 19.4,7). Observe que embora Deus possa permitir que o seu povo passe necessidades e dificuldades, ainda assim Ele tomará cuidados efetivos para o seu sustento, preferirá enviar anjos para alimentá-los a vê-los perecer. “Confia no Senhor e… verdadeiramente, será alimentado” (SaImos 37.3).

Cristo foi auxiliado depois da tentação:

[1] para que tivesse a coragem de prosseguir em sua missão, para que pudesse ver os poderes do céu ao seu lado quando visse os poderes do inferno contra Ele.

[2] para nosso incentivo, a fim de confiarmos nele; pois Ele soube, por experiência, o que é sofrer sendo tentado, e como esta situação é difícil. Assim, Ele soube o que é ser ajudado, depois de ser tentado, e como isto é reconfortante. Portanto, podem os esperar não apenas que Ele se solidarize com o seu povo, quando tentado, mas que Ele ofereça um alívio razoável a cada um, como o nosso grande Melquisedeque, que saiu ao encontro de Abraão quando este retornava da batalha, e como os anjos ministraram a ele ali.

Finalmente, Cristo, tendo sido, desta maneira, distinguido e feito grande no mundo invisível, por meio da voz do Pai, da descida do Espírito, da sua vitória sobre os demônios, e do seu domínio sobre os anjos, foi inquestionavelmente qualificado para aparecer no mundo visível como o Mediador entre Deus e o homem. “Considerai, pois, quão grande era este”!