PSICOLOGIA ANALÍTICA

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TURBINANDO SEU CÉREBRO

Medicamentos podem ajudá-lo a obter o melhor de você mesmo? Especialistas discutem riscos e vantagens do uso de remédios por pessoas saudáveis para diminuir a necessidade de sono, favorecer a memória, o rendimento intelectual e o estado de ânimo.

 É o dia do casamento da melhor a miga de Maria. Ela ajudou a preparar cuidadosamente todos os detalhes da festa e será a madrinha da noiva. Mas justamente nessa manhã, Maria e seu namorado têm uma grande discussão. A briga é tão intensa que lhe parece impossível ir mais tarde à festa pela qual esperou ansiosamente. Mas também pode estragar uma data tão importante para sua amiga querida. O que fazer?

Muitas pessoas, em uma situação semelhante, provavelmente afogariam a angústia em alguns copos de champanhe. Mas nesse caso isso é impensável, pois Maria precisa estar lúcida para ajudar na organização do evento. Vamos supor então que seu primo, que acompanhara todo o drama matutino, sugira um remédio: uma pílula que ele próprio toma para controlar a depressão. O comprimido tem efeito “milagroso” e, além disso, ele leu há pouco tempo que também melhora o estado de espírito de pessoas saudáveis.

Para evitar desilusões avisamos logo: a pílula milagrosa aqui descrita não existe. E é questionável se os antidepressivos comuns realmente favoreça o estado psíquico de pessoas saudáveis. E se têm esse efeito, certamente não é instantâneo. Substâncias como o ecstasy, por sua vez, que elevam o ânimo de forma imediata, podem causar dependência e graves efeitos colaterais. Mas suponha que cientistas realmente desenvolvessem um preparado que estimulasse no mínimo tanto quanto o champanhe sem serem acompanhados dos efeitos negativos causados pela embriaguez e pela ressaca. Uma substância assim seria uma bênção ou uma maldição? Especialistas alertam para possíveis riscos e alguns questionam até mesmo se esse comportamento é “correto”. Mas haveria algo de errado em recorrer a fármacos para favorecer o rendimento no trabalho e no s estudos, diminuir a necessidade de sono, melhorar a memória e a capacidade intelectual e, ainda, o humor?

Cada vez mais a mídia apresenta casos de estudantes que tomam estimulantes para estudar para provas ou profissionais que enfrentam a pressão no trabalho com medicamentos normalmente usados para o tratamento de Alzheimer ou da pressão alta (beta bloqueadores). Com isso, buscam melhorar a capacidade de concentração, reduzir a tensão e a ansiedade. Mesmo que quase não haja números confiáveis a esse respeito, podemos ter a impressão de que vivemos um momento eticamente preocupante. “Doping cerebral” é um termo chave, e a associação com o embuste que ocorre nos esportes antecipa o julgamento negativo.

Propomos, porém, considerar que os objetivos desses “dopings cerebrais” parecem bastante louváveis: iniciativas para melhorar o próprio desempenho intelectual ou favorecer a forma de relacionar-se consigo mesmo e com os outros são vistas, com razão, de forma positiva. Quem procura ampliar seu potencial por meio de treinamento mental (cultivando o hábito da leitura e aprendendo línguas, por exemplo), prática de exercícios ou meditação normalmente é valorizado por isso.

Mesmo aqueles que tentam influenciar positivamente as pequenas variações de humor e o desempenho diário com café, chocolate, vitaminas, comprimidos de ginkgo biloba ou pelo consumo moderado de álcool certamente não estão agindo de forma imoral.

Para evitar equívocos ou olhares preconceituosos, optamos por utilizar a denominação neuro aprimoramento (NA), do inglês neuroenhancement. Alguns autores indicam com essa expressão medidas puramente preventivas contra doenças neurológicas ou psiquiátricas, além de estratégias tradicionais para favorecer o desempenho como ingerir café para espantar o sono ou treinar a memória fazendo palavras cruzadas. Aqui, porém, nos referimos ao NA para falar da melhora do desempenho cognitivo ou do estado psíquico por meio de dispositivos neurotécnicos (como chips de memória ou marca-passos cerebrais) e, principalmente, de fármacos – sempre sem nenhum objetivo terapêutico ou preventivo.

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RISCO DE DEPENDÊNCIA

Mais uma observação referente ao exemplo do início: se Maria passasse a tomar as “pílulas da felicidade” oferecidas pelo primo a cada briga com o namorado para fugir da clareza profunda, mas com certeza dolorosa, de seus problemas de relacionamento, seu comportamento pareceria muito mais problemático. Se fizesse isso em uma ocasião específica, porém, a situação pareceria mais aceitável. Para um julgamento ético do NA farmacêutico, portanto, é importante considerar a intensidade e regularidade com que esse recurso é utilizado.

Além disso, vale questionar os motivos impulsionadores e as intenções concretas de quem adere ao neuroaprimoramento. Por fim cabe levar em conta se uma pessoa optou por utilizá-lo para si, de forma autônoma, ou se a decisão foi tomada por outros, como no caso de crianças, ou mesmo se houve influência do médico. O ponto de partida de nossas reflexões é o direito de cada um ser capaz de fazer escolhas e dispor de seu corpo e sua psique. Sendo assim, não é a liberdade de usar PNAs que precisa ser justificada, mas sim o tolhimento dessa liberdade. Há, porém, uma questão que se impõe: o NA é benéfico ou prejudicial a uma vida bem-sucedida?

Quando se apresentam objeções ao uso de drogas para turbinar o cérebro costuma ser mencionada a “antinaturalidade” desse recurso ou os riscos de intervir na “natureza humana”. Este, porém, é um argumento fraco. A mera artificialidade não pode ser vista como problema se aceitamos o uso de meios correspondentes na medicina sem nenhum questionamento. E no que diz respeito às intenções, elas consistem principalmente em obter melhoras que nos parecem insuspeitas quando realizadas de outras formas, não químicas.

Mesmo em cenários futuristas, nos quais realmente falássemos da superação da natureza humana, teríamos primeiramente de explicar por que essa seria intocável – afinal, somos bem menos cautelosos quando se trata de alterar a natureza em nosso interesse. No entanto, é fato que intervenções na complicada e ainda pouco compreendida dinâmica dos seres vivos, especialmente do próprio homem, só podem ocorrer com extremo cuidado. A metáfora da “sabedoria evolucionária” é uma admonição pragmática e legítima, principalmente no que diz respeito ao cérebro humano.

Outra objeção comum contra o neuroaprimoramento se refere ao seu grau de intervenção neurobiológica que, em comparação com o impacto de treinamentos cognitivos ou da meditação, por exemplo, é considerado inferior: pílulas para processos metabólicos neuronais; conversas e argumentos para o espírito. Mas a premissa funcional-dualista dessa visão não é sustentável atualmente. Muitos fatos científicos e filosóficos indicam que medicamentos e outros fatores externos deixam marcas no “espaço da racionalidade”, assim como a simples reflexão também se manifesta constantemente de forma neurológica.

Sabe-se, por exemplo, que a psicoterapia faz com que sejam desenvolvidas ou fortalecidas as redes neurais. Não é possível, portanto, estabelecer hierarquias unívocas.

Também é comum afirmar que psicofármacos para neuroaprimoramento (PNAs) estão associados principalmente ao seu uso regular e por longo prazo. Isso pode estar inicialmente relacionado ao risco de uma dependência física que se manifestaria, por exemplo, na medida em que fosse necessário tomar doses cada vez maiores e que, após a suspensão da substância, ocorressem síndromes de abstinência. Se os PNAs tivessem esse potencial aditivo, este seria um bom motivo contra o seu uso, já que o aumento da dose quase sempre é proporcional ao risco de efeitos desagradáveis. Mais difícil de avaliar é o temor de que turbinar quimicamente o cérebro leve à dependência emocional e psíquica, já que não está totalmente claro em que consiste e quando exatamente se dá. Ela se fundamenta na ideia de que a pessoa deseja um objeto de certo modo irracional e sente extremo desconforto quando não tem acesso a ele. Esse risco é normalmente explicado, no caso do NA, com o exemplo de um estudante que, após algumas notas excelentes obtidas sob influência de pílulas, desenvolve enorme medo do fracasso apenas ao cogitar que terá de enfrentar a próxima prova sem a ajuda de fármacos.

Muitos seriam contra essa dependência de um preparado para neuroaprimoramento. No entanto, a objeção ao uso de PNAs tem menor peso que o temor da dependência física, pois é quase impossível levarmos uma vida totalmente livre de dependências psíquicas. Sabidamente, o desejo pelo objeto de um amor romântico também assume, às vezes, traços extremamente irracionais. Os “dependentes”, não raro, perdem até mesmo a coragem de enfrentar a vida quando a pessoa amada morre ou termina o relacionamento. Algo similar ocorre com várias novidades tecnológicas, como celulares ou internet, que fazem com que as pessoas fiquem verdadeiramente “capturadas”, muitas vezes após uma resistência inicial, e não possam mais imaginar a vida sem elas. Porém, ninguém sequer cogita a proibição dessas inovações.

Antes de mais nada, é indispensável que as pessoas avaliem se as vantagens associadas ao uso de psicofármacos valem possíveis desvantagens. Provavelmente, seu efeito social será, em algum momento, semelhante à atual “dependência da internet”, que segundo alguns especialistas se caracteriza como um distúrbio psíquico. Ou seja, assim como no caso da informática, a maioria faria uso moderado e prático das possibilidades do neuro­aprimoramento, já uma minoria desenvolveria um padrão de consumo patológico. Assim como no caso da internet, seria então mais sensato oferecer terapia aos necessitados do que proibir o acesso aos PNAs.

Vários críticos também cogitam, com razão, que o neuroaprimoramento farmacêutico possa levar a uma pressão ainda maior por resultados e prejudicar aqueles que rejeitarem o uso desse meio por qualquer motivo. Essa preocupação será ainda mais plausível quando o uso de PNAs se disseminar. Mas mesmo hoje, provavelmente, não é pelo puro prazer de experimentar coisas novas que gente saudável recorre a psicofármacos sem que os seus efeitos e segurança tenham sido comprovados. Essas pessoas possivelmente já devem estar sob pressão tão grande por resultados que experimentam estimulantes ou as chamadas “drogas da felicidade” sem refletir muito sobre os perigos. Isso é alarmante e ninguém pode querer que a pressão social devida à concorrência já tão alta se acirre ainda mais pela disseminação do neuroaprimoramento. Uma vida constantemente voltada para o desempenho e eficiência seria ainda mais desumana e segregadora.

Pílulas com a intenção de possibilitar que as pessoas trabalhem ininterruptamente, superando seus concorrentes, podem ser uma armadilha. Se o ganho de eficiência é sempre seguido de carga de trabalho crescente, então o indivíduo não ganha nada no final das contas – pelo contrário. Mas a imagem de uma possível futura sociedade do neuroaprimoramento seria incompleta, quase enganosa, se considerássemos apenas os questionáveis motivos para o seu uso e deixássemos de lado o potencial desse recurso de estimular a alegria de viver e a empatia. Se esses meios ajudassem a lidar melhor com as demandas de desempenho e, assim, a ter mais liberdade, tornando-nos mais sensíveis à música e outras formas de arte, oferecendo facilidade e prazer em aprender, então seria difícil nos queixarmos das mudanças pessoais e sociais associadas a essas transformações. Mesmo no âmbito competitivo, seja na ciência ou na economia ou qualquer outra área, a elevação das competências cognitivas e emocionais poderia melhorar a vida de muitas pessoas – e quem sabe significar avanços no combate a doenças degenerativas e câncer.

A obrigatoriedade de aprender e se esforçar para aqueles que querem ser bem-sucedidos dentro da competição social já faz parte do estilo de vida ocidental. Por isso mesmo não é tão simples rechaçar os temores de que o indivíduo, exposto à pressão coerciva cada vez maior, se veja obrigado a recorrer ao neuraprimoramento farmacêutico até contra sua própria vontade. Para muitos, o principal motivo para o uso de PNAs poderia ser a competição por vantagens na escola, nas provas finais ou no trabalho – mesmo que esses benefícios fossem nivelados, caso em algum momento todos tomassem as pílulas. O fato de termos de nos adaptar frequentemente a novidades diárias já foi bastante aceito. Certamente existe diferença em nos vermos obrigados a adquirir uma carta de motorista ou conhecimentos em computação e concordar com uma intervenção farmacológica no próprio cérebro e, assim, provavelmente, na própria personalidade.

Na maioria das vezes sequer nos damos conta do longo caminho “biográfico” que percorremos até chegar às nossas metas, talvez porque esse processo ocorra em etapas: fazemos terapia, aprendemos uma infinidade de coisas, alteramos comportamentos, descobrimos “jeitos” de estudar, trabalhar, expor ideias durante reuniões ou aulas. Trata-se de uma adequação da personalidade (e do cérebro) que se dá lentamente e com poucos efeitos colaterais. A recorrência a psicofármacos, no entanto, parece pular várias etapas. A mudança causada pelo NA é experimentada como uma variação de personalidade relativamente abrupta. Por esse motivo, as pessoas afetadas podem achar essa alteração muito mais negativa do que as obtidas por aqueles que a atingem pelos caminhos tradicionais.

Um aspecto decisivo para a tomada de qualquer decisão, neste caso, é sabermos se o grau de risco ainda pode ser avaliado como “socialmente tolerável”. O tráfego de carros, por exemplo, com suas inúmeras vítimas, também gera um ” risco permitido”, apesar de, mesmo para pessoas que se comportam com cautela, as consequências prejudiciais não poderem ser excluídas – aliás, segundo as estatísticas, são até mesmo muito prováveis. Não é possível formular com certeza quais prejuízos devem ser considerados como socialmente adequados e, portanto, admissíveis.

Muitas vezes, teme-se que a disseminação do neuroaprimoramento possa causar ou acirrar injustiças sociais: drogas para melhorar capacidades cognitivas ofereceriam vantagens competitivas na vida social de seus usuários, mas certamente seriam muito caras. Portanto, apenas pessoas relativamente abastadas – que de qualquer forma já são privilegiadas – teriam condições de adquirir os custosos PNAs. A desigualdade entre as chances de sucesso para diferentes grupos sociais se ampliaria ainda mais. Será que isso fere os princípios básicos de uma distribuição social justa?

Possivelmente não. A desigualdade de condições, porém, já é uma realidade. Pesquisas mostram que crianças com pais afetuosos lidam melhor com frustrações – o que é uma vantagem inegável para construir uma vida feliz. Além disso, ter a oportunidade de alimentar-se bem desde a infância, frequentar boas escolas, diversificar interesses, exercitar a criatividade, praticar es portes, viajar e aprender línguas e música também é um privilégio – e não fruto de merecimento, mas continuação da situação privilegiada dos pais. Essas vantagens iniciais também modificam (de forma muito similar aos psicofármacos) o cérebro daqueles que têm acesso a elas, embora obviamente não sejam determinantes.

Pressupondo que o neuroaprimoramento farmacêutico se tornasse uma prática socialmente aceita ou até mesmo desejada, quem deveria então controlar o acesso aos PNAs e esclarecer os potenciais usuários sobre benefícios e riscos do uso? Hoje, quem recorre a esse recurso providencia os preparados de efeito preponderantemente questionável, ao que tudo indica, no mercado negro, ilegalmente nas farmácias e, muitas vezes, com a ajuda de médicos.

A tarefa desses profissionais consiste primariamente em curar, evitar ou diminuir efeitos de distúrbios físicos e psicológicos. Até há poucos anos, só muito raramente eram procurados para que ajudassem pessoas saudáveis a melhorar ainda mais seu estado de saúde – esta demanda ainda é muito recente. Por isso, parece compreensível incluir a busca por neuroaprimoramento na categoria de diagnóstico e terapia. Um executivo que quer ampliar sua capacidade de se manter atento pode logo ser interpretado como alguém com “dificuldade de concentração”, e seu desejo por um estimulante, classificado como sinal de leve depressão, para assim justificar o “auxílio” medicamentoso.

Essa expansão excessiva dos diagnósticos e indicações não é desejável já que, com isso, pratica-se tacitamente o neuroaprimoramento “sob prescrição”. Além disso, o NA assim disfarçado não pode ser considerado na coleta de dados epidemiológicos que possam ser acessados para uma avaliação científica, beneficiando outras pessoas. Mas, acima de tudo, bloqueia-se a visão pessoal, assim como a pública, de que essas práticas consistem em aprimoramentos que devem ser avaliados em vista de seus objetivos e consequências – diferentemente da terapia e da prevenção de doenças.

Mas o que se poderia objetar contra a permissão para que médicos acompanhassem abertamente o uso de PNAs, supondo que eles fossem socialmente aceitos? Será que o aprimoramento vai contra a ética da medicina porque não tem nenhuma relação com “cura”? Pode-se argumentar contra essa afirmação que os médicos já assumiram, por bons motivos e com aprovação social, há muito tempo, atividades fora de suas responsabilidades básicas, como, por exemplo, a prescrição de métodos anticoncepcionais e realização de cirurgias plásticas exclusivamente estéticas. Nesta altura, seria hipocrisia dizer que essas intervenções não estão associadas, de forma global, à saúde física e psíquica do paciente.

O modelo ideal para chegar à medicação adequada – obviamente nem sempre possível – é aquele que permitiria que médicos e psicólogos avaliassem em conjunto a pessoa interessada em melhorar seu desempenho. Assim, o paciente tiraria benefícios dos conhecimentos médicos relativos a possíveis riscos, interações medicamentosas e o acompanhamento psicológico favoreceria a compreensão de motivações nem sempre óbvias para a busca desse recurso, ajudando o interessado a lidar melhor com as transformações em sua vida, de forma crítica e cuidadosa. Se realmente o uso de PNAs for abertamente adotado nos próximos anos – como acreditamos que venha a ser-, é importante que profissionais da saúde se especializem no tema para utilizar seus conhecimentos, já que a prática obscura do neuroaprimoramento não é interesse de ninguém.

Todos os preparados cujos potenciais de aprimoramento estão sendo atualmente testados por cientistas tinham originalmente um fim terapêutico. Do ponto de vista farmacológico, no entanto, é de suma importância determinar se a intervenção deve corrigir um sistema danificado ou favorecer algum aspecto que já funciona normalmente. Enquanto a opinião pública sobre o “doping cerebral” ainda for marcada pela rejeição – latente ou aberta -, porém, nenhuma empresa farmacêutica poderá admitir uma estratégia de pesquisa como essa.

Por outro lado, apesar da preocupação com sua imagem, certamente o setor farmacêutico não vai perder de vista os potenciais de vendas de substâncias de reforço cognitivo e emocional para pessoas saudáveis. Em vez disso, faz sentido temer que empresas e médicos sirvam cada vez mais a esse mercado de forma indireta ao estabelecer padrões sempre mais altos de saúde mental e psíquica de forma que já considerem, em vista dos menores desvios, a necessidade de tratamento. Ou seja: o que há alguns anos era considerado normal transforma-se atualmente em patológico.

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PRESCRIÇÃO OBRIGATÓRIA

Se o ponto de vista defendido por nós, de que o NA farmacêutico não deve ser rejeitado em princípio, se impusesse, as empresas farmacêuticas não teriam mais de realizar o desenvolvimento desses preparados sob o disfarce terapêutico e seria possível haver regulamentos apropriados, de acordo com a legislação vigente em cada país. Seria principalmente sensato definir padrões mais altos de segurança e efetividade para os PNAs do que os das pesquisas farmacológicas terapêuticas, pois se trata “apenas” de aprimoramentos do desempenho e do estado mental e não da salvação, cura ou amenização de sintomas (casos em que as pessoas admitem maiores efeitos colaterais e buscam detectar até mesmo as menores esperanças).

Mesmo com altos padrões para o teste de inocuidade de preparados de neuroaprimoramento, nem todos os efeitos indesejáveis já poderiam ser determinados ou excluídos com absoluta certeza antes da sua liberação. De forma análoga ao regulamento existente para medicamentos, deveria haver também para os PNAs um procedimento de protocolo obrigatório complementar que coletasse indícios de efeitos indesejáveis após a introdução no mercado. Para que esse procedimento funcionasse de forma confiável, médicos e psicólogos teria m de registrar todas as queixas associadas ao consumo de um psicofármaco e repassá-las de forma padronizada para um centro de vigilância farmacológica. Por esse motivo, após a sua liberação, os PNAs devem ser submetidos à prescrição médica obrigatória pelo menos durante alguns anos.

Somos da opinião de que não há nenhuma objeção convincente contra um aprimoramento farmacêutico do cérebro ou do psiquismo. Pelo contrário: consideramos o neuroaprimoramento farmacêutico a continuidade de uma busca intelectual de “automelhoramento” inerente ao ser humano. No entanto, atualmente devemos nos preocupar com o fato de ainda não existir em discussão nenhum resultado de pesquisas suficientemente confiável sobre a efetividade e a segurança dos psicofármacos a longo prazo. A comprovação de que um preparado causa rendimento adicional digno de ser mencionado é responsabilidade da empresa farmacêutica que vende o produto. As consequências físicas, psíquicas e socioculturais de longo prazo, por sua vez, são de interesse da sociedade. Por isso, estudos a esse respeito deveriam ser amplamente divulgados. Além disso, devem ser apoiados projetos de pesquisa que forneçam dados sobre a frequência com que determinadas substâncias já são usadas para fins de neuroaprimoramento e quais são os seus padrões de consumo. Só assim será possível avaliar corretamente o significado social do NA. Um estudo sistemático pressupõe que, antes de mais nada, o NA seja tirado do “lado escuro” da sociedade – e discutido por profissionais e estudantes da área de saúde mental.

Enquanto o NA farmacêutico não puder ser identificado como uma opção de procedimento física e psíquicamente inofensivo, aqueles que são contra o aprimoramento devem ser protegidos para que não caiam em desvantagem social devido à sua recusa. E principalmente psicanalistas, psicólogos e médicos já não podem se furtar a essa reflexão.

Existem, no entanto, perguntas que só podem ser feitas a si mesmo: Quais são meus motivos para usar (ou não) esses produtos? Os benefícios valem o risco de sofrer efeitos colaterais indesejáveis? Estou disposto a, além das possíveis bem-vindas alterações da personalidade (maior sensibilidade e agilidade cognitiva), aceitar também consequências indesejadas que dificilmente podem ser previstas, pois são determinadas não apenas por fatores farmacológicos e individuais? Principalmente: quero atrelar o meu bem-estar e bom desempenho (ainda que parcialmente) à disponibilidade de um dispendioso preparado? O que o meu meio social pensa desse recurso? Terei de desrespeitar regras para conseguir as substâncias? Nenhum desses pontos de vista pode ser decisivo sozinho, mas todos juntos certamente ajudam a avaliar se as vantagens superam os inconvenientes – ou não.

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Perguntas mais frequentes sobre substâncias para neuroaprimoramento

Atualmente há vários medicamentos já usados para favorecer habilidades cognitivas e humor, embora sua efetividade e segurança sejam pouco esclarecidas. Veja algumas perguntas – e respostas – sobre o tema:

Existem drogas especificas para melhorar o desempenho mental?

Ainda não há PNAs realmente efetivos. Apenas o modaftnil parece ser uma exceção que consegue compensar, a curto prazo, a falta de sono aguda. Os preparados em estudo não têm nenhum efeito colateral grave quando pessoas saudáveis os tomam uma única vez ou durante poucos dias seguidos. O que sabemos com certeza é que existe uma falta alar mante de pesquisas objetivas sobre os efeitos do neuroaprimoramento.

O modafinil é “adequado para a manutenção do estado de vigília?

Após um único episódio de privação de sono, o modafinil compensa a perda de atenção, memória e concentração provocada pelo cansaço. Depois de várias situações desse tipo, porém, a atenção só é mantida com uso em maior quantidade, mas o desempenho cognitivo fica reduzido Estudos nos quais o modafinil foi utilizado sem privação prévia de sono apresentam resultados contraditórios e, no máximo, efeitos reduzidos sobre o desempenho. Em alguns casos ocorreu uma supervalorização das próprias capacidades cognitivas, segundo avaliação dos voluntários.

Antidepressivos levam a melhora do estado de humor de pessoas saudáveis?

Não há alterações imediatas, e estudos sobre efeitos a longo prazo são inexistentes. Apenas em algumas pessoas os antidepressivos levam a uma melhora das competências sociais e emocionais.

É possível incrementar o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis com o metílfemdato (ritalina, por exemplo)?

Contrariando afirmações divulgadas pela mídia e muitas expectativas, não há nenhuma prova definitiva desse efeito, nem com o uso prolongado. Mesmo após a privação de sono, a ritalina não melhora objetivamente as condições de aprendizagem. Indícios esparsos, porém, apontam para uma melhora da memória de trabalho (capacidade de guardar informações imediatas, como números de telefones usados com frequência). Subjetivamente, porém, os usuários tendem a avaliar seu desempenho intelectual como muito melhor.

Anfetaminas ajudam a aumentar a atenção?

Há casos em que existe essa possibilidade, mas devido ao seu potencial aditivo e aos graves efeitos colaterais, estimulantes não são adequados como preparados de neuroaprimoramento.

Os medicamentos antidemência favorecem o desempenho da memória em pessoas saudáveis?

Dados existentes sobre os efeitos dos medicamentos utilizados para tratar Alzheimer são insuficientes. Somente o donepezil foi estudado. Provavelmente a memória de pessoas saudáveis melhora com o uso regular durante um longo período de tempo, mas não há comprovação.

THORSTEN GALERT é bacharel em filosofia e química, pesquisador da Academia Europeia para o Estudo das Consequências de Desenvolvimentos Técnico-científicos em Bad Neuenahr-Ahrweiler, onde coordena o grupo do projeto Potenciais e riscos do aprimoramento farmacêutico de características psíquicas, do qual participam todos os autores deste artigo.

CHRISTOPH BUBLITZ é jurista, professor da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade de Hamburgo.

ISABELLA HEUSER é doutora em psiquiatria, professora e diretora da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

REINHARD MERKEL é jurista e filósofo, professor de direito penal e filosofia do direito da Universidade de Hamburgo.

DIMITRIS REPANTIS é doutor em medicina geral, professor da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

BETTINA SCHÕNE-SEIFERT é médica e bacharel em filosofia, professora de ética médica da Universidade de Münster e membro do Conselho de Ética da Alemanha.

DAVINIA TALBOT, médica anestesiologista e bacharel em filosofia, trabalha na Universidade de Münster e na Clínica St. Barbara em Hamm-Heessen.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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