ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 13-17

 O Batismo de Jesus

O nosso Senhor Jesus, desde a sua infância até agora, quando estava com quase trinta anos de idade, tinha estado escondido na Galileia, como se estivesse enterrado vivo. Mas agora, depois de uma longa e escura noite, eis que o Sol da justiça se levanta em glória. A plenitude dos tempos era chegada para que Cristo pudesse assumir o seu trabalho profético, e Ele decide fazê-lo, não em Jerusalém (embora seja provável que Ele tivesse estado ali nas três festas anuais, como todas as outras pessoas), mas ali, onde João estava batizando; pois Ele procurou aqueles que esperavam o consolo de Israel, os únicos para os quais Ele seria bem-vindo. João Batista era seis meses mais velho que o nosso Salvador, e supõe-se que tenha começado a pregar e batizar cerca de seis meses antes da manifestação de Cristo; até então ele se dedicava a preparar o caminho do Senhor, na região próxima ao rio Jordão. E muito mais se fez para isto nesses seis meses do que tinha sido feito em muitos séculos antes. A vinda de Cristo, da Galileia ao Jordão, para ser batizado, nos ensina a não nos escondermos da dor e do trabalho árduo, para podermos ter a oportunidade de nos aproximarmos de Deus, ao seu serviço. Devemos estar dispostos a nos excedermos na comunhão com Deus, e não a sentirmos falta dela. Para encontrar, é preciso procurar.

Na história do batismo de Cristo, podemos observar:

 I – Com que dificuldade João foi persuadido a fazê-lo (vv. 14,15). Foi um exemplo da grande humildade de Cristo o fato de Ele se oferecer para ser batizado por João; que aquele que não conheceu pecado se submetes­se ao batismo do arrependimento. Observe que assim que Cristo começou a pregar, Ele pregou humildade, pregou-a segundo o seu exemplo, pregou-a a todos, especialmente aos jovens ministros. Cristo estava destinado às maiores honras, mas no seu primeiro passo Ele se humilha desta maneira. Observe que aqueles que se destinam a subir mais alto, devem começar mais baixo. “Diante da honra vai a humildade”. Esta era uma grande demonstração de respeito por João, pois Cristo veio até ele; e foi uma retribuição pelo ser viço que ele tinha prestado ao Senhor, avisando da sua chegada. Observe que Deus honrará aqueles que o honram. Aqui, temos:

1.A objeção que João fez contra batizar Jesus (v. 14). João objetou, da mesma maneira como Pedro o fez, quando Cristo foi lavar seus pés (João 13.6,8). Note que a condescendência graciosa de Cristo é tão surpreendente, que parece inacreditável, à primeira vista, para os crentes mais vigorosos; tão profunda e misteriosa, que mesmo aqueles que conhecem bem o seu modo de pensar não conseguem descobrir o significado dela, mas, por razões de falta de esclarecimento, colocam objeções contra a vontade de Cristo. A modéstia de João o leva a pensar que esta é uma honra excessivamente elevada para ele receber, e ele assim se expressa ao Senhor, da mesma maneira como a sua mãe tinha feito com a mãe de Cristo (Lucas 1.43): “Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?” João tinha conquistado um nome, e era nacionalmente respeitado; ainda assim, veja como ele ainda é humilde! Observe que Deus tem grandes honras reservadas para aqueles cujo espírito continua humilde quando a sua reputação cresce.

(1) João acha que é necessário que ele seja batizado por Cristo. “Eu careço de ser batizado por ti”, com o Espírito Santo e com fogo, pois este era o batismo de Cristo (v.11).

[l] Embora João estivesse cheio do Espírito Santo desde o útero (Lucas 1.15), ainda assim ele reconhece que tem a necessidade de ser batizado com aquele batismo. Note que aqueles que têm uma grande comunhão com o Espírito de Deus, ainda assim, neste estado imperfeito, percebem que precisam de mais; e par a que tenham mais precisam pedir a Cristo.

[2] João tem a necessidade de ser batizado, embora ele fosse o maior homem já nascido de uma mulher; mas, tendo nascido de uma mulher, ele está contaminado, como os outros da semente de Adão estão, e sabe que precisa de purificação. Observe que as almas mais puras são mais sensíveis à sua própria impureza residual, e procuram ansiosamente a purificação espiritual.

[3] Ele sente necessidade de ser batizado por Cristo, aquele que pode fazer por nós o que ninguém mais pode; aquilo que deve ser feito para nós, caso contrário seremos arruinados. Observe que os melhores e mais santos homens têm necessidade de Cristo, e quanto melhores eles são, mais percebem esta necessidade.

[4] Isto foi dito diante da multidão, que tinha uma grande veneração por João, e que estava pronta a aceitá-lo como o Messias; mas ele publicamente reconhece que tinha necessidade de ser batizado par Cristo. Note que não é nenhum menosprezo, aos maiores homens, reconhecer que estão perdidos, sem Cristo e a sua graça.

[5] João era o precursor de Cristo, e ainda assim reconhece que tinha a necessidade de ser batizado por Ele. Observe que mesmo aqueles que nasceram antes de Cristo neste mundo dependem dele, recebem dele e têm os olhos nele.

[6] Embora João estivesse tratando das almas dos outros, observe com quanto sentimento ele fala do caso da sua própria alma: “E u careço de ser batizado por ti”. Note que os ministros, que pregam aos outros e que batizam os outros, se preocupam em pregar para si mesmos, e serem, eles mesmos, batizados com o Espírito Santo. “Tem cuidado de ti mesmo e… te salvarás” (1 Timóteo 4.16).

(2), Portanto, ele acha que é completam ente absurdo e ilógico que Cristo seja batizado por ele. “Vens tu a mim?” O santo Jesus, que está separado dos pecadores, vem par a ser batizado por um pecador, como um pecador, e entre os pecadores? Como isto é possível? Como podemos descrever isto? Lembre-se que a vinda de Cristo até nós, pode ser também espantosa.

2.A rejeição dessa objeção (v. 1 5). Jesus disse: “Deixa por agora”. Cristo aceitou a sua humildade, mas não a sua recusa; Ele queria fazer isso; e é adequado que Cristo siga o seu método, embora não possamos compreendê-lo, nem apresentar uma razão para ele. Observe:

 (1) Como Cristo insistiu nisto. “Isto deve ser assim, por ora”. Ele não nega que João tivesse necessidade de ser batizado por Ele, mas ainda assim Ele será agora batizado por João. Que seja assim, por agora. Observe que tudo está bem, na sua ocasião. Mas por que agora’? Por que hoje?

[1] Cristo estava naquele momento em um estado de humilhação; Ele estava vazio, e não tinha uma reputação. Ele não apenas era encontrado como homem, mas à semelhança da carne pecadora, e, portanto, “agora”, Ele deveria ser batizado por João. Como se Ele precisasse ser lavado, embora fosse perfeitamente puro; e assim Ele se fez pecado por nós, embora não conhecesse o pecado.

[2] O batismo de João agora adquire reputação, é aquele pelo qual Deus está agora realizando o seu trabalho; esta é a presente relação, e, portanto, Jesus será agora batizado com água, mas o seu batismo com o Espírito Santo está reservado para mais tarde, não muito depois destes dias (Atos 1.5). O batismo de João tem o seu dia, e, portanto, deve ser honrado, e aqueles que o procuram devem ser incentivados. Aqueles que são os maiores destinatários de dons e graças devem, ainda, por sua vez, dar o seu testemunho aos rituais instituídos, comparecendo humilde e diligentemente a eles, para poderem dar um bom exemplo aos demais. Nós precisamos receber o que vemos que pertence a Deus, e enquanto vemos que Ele o está concedendo. João agora estava crescendo, e, portanto, isto deveria ser assim naquele momento; dentro de pouco tempo, ele irá decair, e então as coisas serão diferentes.

[3] Isto deve ser assim agora, porque agora é o momento da manifestação de Cristo em público, e esta é uma boa oportunidade para isto (veja João 1.31,34). Assim Ele foi manifestado a Israel, e houve maravilhas do céu como sinais, naquele seu ato, que era de completa condescendência e humilhação pessoal.

(2) A razão que Ele dá para isso: “Assim nos convém cumprir toda a justiça”. Observe:

[1] Havia uma adequação em tudo o que Cristo fez por nós. Havia graça (Hebreus 2.10; 7.26); e nós devemos estudar para fazer não somente aquilo que nos é conveniente, mas também aquilo que é digno de nós; não somente aquilo que é indispensavelmente necessário, mas aquilo que é agradável e bom.

[2] O nosso Senhor Jesus viu isto como algo perfeita mente digno dele, para cumprir toda a justiça, isto é (como o Dr. Whitby o explica), para possuir toda a instituição divina, e para mostrar a sua disposição em estar de acordo com todos os preceitos da justiça de Deus. Assim, Ele justifica a Deus Pai, aprovando a sua sabedoria, ao enviar João para preparar o seu caminho, por meio do batismo do arrependimento. Desse modo, é digno estimularmos e incentivarmos tudo o que for bom, tanto por padrão como por preceito. Cristo frequentemente mencionou João e o seu batismo com honra; e o que é melhor, Ele mesmo foi batizado. Assim, Jesus começou primeiro a agir, e depois a ensinar; e os seus ministros devem seguir o mesmo método. Portanto, Cristo cumpriu a justiça da lei cerimonial, que consistia de várias lavagens. Dessa forma, Ele recomendou, no Evangelho, a ordenança do batismo para a sua igreja, honrou este batismo, e mostrou que virtude Ele lhe destinava. Foi conveniente a Cristo submeter-se à lavagem com água de João, porque isto era um mandamento divino; mas foi conveniente a Ele opor-se à lavagem com água dos fariseus, porque isto era uma invenção e imposição humanas; e Ele justificou os seus discípulos que se recusavam a realizá-la. Com a vontade de Cristo, e a sua razão para isto, João ficou completamente satisfeito, e então ele fez o que devia. A mesma modéstia que o fez, a princípio, declinar da honra que Cristo lhe oferecia, agora o levou a, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre Ele (Isaias 11.2; 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do realizar o serviço que Cristo lhe impunha. Observe que – Espírito Santo.

[2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e nenhuma desculpa de humildade deve fazer-nos recusar qualquer dever.

 

II – Com que solenidade o Céu se alegrou em honrar o batismo de Cristo com uma exibição especial de glória (vv. 16,17). “Sendo Jesus batizado, saiu logo da água”. Os outros que eram batizados permaneciam para confessar os pecados (v. 6) , mas Cristo, não tendo nenhum pecado a confessar, saiu imediatamente da água; é isto o que lemos, mas não exatamente; pois é apo toit hydalos da água, da margem do rio, ao qual ele desceu para lavar-se na água, isto é, para lavar a sua cabeça ou o seu rosto (João 13 .9); pois não há menção de Cristo tirando ou recolocando as suas roupas, o que não teria sido omitido, se Ele tivesse sido batizado nu. Ele se levantou imediatamente, como alguém que inicia o seu trabalho com a determinação e a alegria mais completas. Ele não podia perder tempo. Ele se endireitou e se levantou assim que o batismo foi realizado!

Quando Ele estava saindo da água, e todo o grupo colocou os olhos sobre Ele:

1.Os céus se abriram sobre Ele, como para descobrir alguma coisa acima e além do firmamento estrelado, pelo menos para Ele. Isto aconteceu:

(1) Para incentivá-lo a prosseguir em sua empreitada, com a perspectiva da glória e da alegria que se apresentava diante dele. O céu estará aberto para recebê-lo, quando Ele tiver concluído a obra que agora está começando.

(2) Para nos incentivar a recebê-lo, e a nos sujeitar a Ele. Observe que em Jesus Cristo, e por meio dele, os céus estão abertos para os filhos dos homens. O pecado trancou o céu, interrompeu todas as relações amistosas entre Deus e o homem; mas agora Cristo abriu o Reino dos céus a todos os crentes. A luz e o amor divinos são derramados sobre os filhos dos homens, e nós temos a ousadia de entrar no Santo dos Santos. Nós temos recibos da misericórdia de Deus, nós retribuímos com nosso dever a Deus e tudo por meio de Jesus Cristo, que é a escada que tem o pé na terra e o topo no céu. Somente através dele é que podemos ter um relacionamento confortável com Deus, ou qualquer esperança de chegar, por fim, ao céu. Os céus se abriram quando Cristo foi batizado, para nos ensinar que quando comparecemos, como devemos fazer, aos rituais de Deus, nós podemos esperar a comunhão com Ele e a comunicação por parte dele.

2.Ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre Ele, ou pousando sobre Ele. Cristo viu (Marcos1.10) e João viu (João 1.33,34), e é provável que todos os presentes também tenham visto, pois esta devia ser a sua primeira manifestação pública. Observe:

(1) Ele viu o Espírito de Deus, que desceu e pousou sobre Ele. No início do mundo, o Espírito Santo se movia sobre a face das águas (Genesis 1.2), flutuando como uma ave sobre o ninho. Aqui, no começo deste novo mundo, Cristo, como Deus, não precisava receber o Espírito Santo, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre ele (Isaias11.2, 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do “Espírito Santo.

{2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e o Espírito desceu sobre Ele, para ser, por seu intermédio, transmitido a todos os crentes, com os seus dons, as suas graças, e o seu consolo. A unção sobre a cabeça desceu até às bordas das vestes; Cristo recebeu dons para os homens, para que Ele os pudesse dar aos homens.

 (2) O Espírito desceu sobre Ele como uma pomba; se esta era uma pomba real, e viva, ou, como era normal em visões, a representação ou a semelhança de uma pomba, não se sabe. Se é necessária uma forma corpórea (Lucas 3.22), não poderia ser a de um homem, pois o ser visto como homem era peculiar à Segunda Pessoa: nenhuma forma, portanto, era mais adequada do que a forma de uma das aves do céu (que agora estava aberto), e entre todas as aves, nenhuma era tão significativa quanto a pomba.

{1} O Espírito de Cristo é um Espírito que pode ser tipificado por uma pomba; não corno uma pomba enganada, sem entendimento (Oséias 7.11), mas como uma pomba inocente, sem amargura e sem ódio. O Espírito desceu, não sob a forma de uma águia, que, embora seja uma ave real, é uma ave predatória, mas sob a forma de uma pomba, que é a mais inofensiva das criaturas. Assim é o Espírito de Cristo: Ele não luta nem grita; assim os cristãos devem ser, inofensivos como pombas. A pomba é notável por seus olhos; nós descobrimos que tanto os olhos de Cristo (Cantares 5.12) como os olhos da igreja (Cantares 1.15; 4.1) são comparados aos olhos das pombas, pois têm o mesmo espírito. A pomba geme muito (Isaias 38.14). Cristo chorava; e as almas penitentes são comparadas às pombas dos vales.

[2] A pomba era a única ave que era oferecida em sacrifício (Levítico 1.14), e Cristo, pelo Espírito, o Espírito eterno, se ofereceu, imaculado, a Deus.

[3] As notícias do fim do dilúvio de Noé foram trazidas por uma pomba, que tinha um ramo de oliveira no bico; na ocasião adequada, portanto, as alegres notícias da paz feita com Deus são trazidas pelo Espírito, como uma pomba. Isto fala da boa vontade de Deus em relação aos homens; que os seus pensamentos sobre nós são pensamentos de bem, e não de mal. Através da expressão: “a voz da rola ouve-se em nossa terra” (Cantares 2.12), a paráfrase em aramaico dá a entender que esta é a voz do Espírito Santo. O fato de que Deus está em Cristo, reconciliando consigo o mundo, é uma mensagem de alegria, que chega até nós sobre as asas de uma pomba.

3.Para explicar e completar esta solenidade, veio uma voz do céu, que, temos razões para pensar, foi ouvida por todos os que estavam presentes. O Espírito Santo se manifestou à semelhança de uma pomba, mas Deus, o Pai, por uma voz; pois quando a lei foi entregue, não se viu semelhança, somente se ouviu uma voz (Deuteronômio 4.12). E este Evangelho veio assim, e realmente é um Evangelho, a melhor boa-nova que já veio do céu à terra; pois ela fala clara e plenamente sobre a graça de Deus para com Cristo, e também para conosco nele.

(1) Veja como o nosso Senhor Jesus pertence a Deus: “Este é o meu Filho amado”. Observe:

[1] A relação que Eles tinham; Ele é o meu Filho. Jesus Cristo é o Filho de Deus, por geração eterna, como foi gerado do Pai antes de toda a criação, ou seja, “dos mundos” (Colossenses 1.15; Hebreus 1.3), e por concepção sobrenatural; portanto, Ele foi chamado de Filho de Deus, porque foi concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1.35). Mas isto não é tudo. Ele é o Filho de Deus por designação especial para o trabalho de Redentor do mundo. Ele foi santificado, selado, e embalado para esta missão, e sempre esteve de pleno acordo com o Pai para o desempenho dela (Provérbios 8.30), indicado para ela. “Lhe darei o lugar de primogênito” (Salmos 89.27).

[2] O afeto que o Pai sentia por Ele: “Este é o meu Filho amado”; o seu Filho amado, o Filho do seu amor (Colossenses 1.13). Ele tinha estado no seu seio por toda a eternidade (João 1.18), sempre tinha sido a sua alegria (Provérbios 8.30), mas, particularmente como mediador, e ao assumir a obra da salvação do homem, Ele era o seu Filho amado. “Ele é o meu Eleito. em quem se compraz a minha alma” (veja Isaias 42.1). Por ter consentido no concerto da redenção, e se alegrado por realizar esta vontade de Deus, o Pai o amou (João 10.17; 3.35). Observem, então e maravilhem-se: que tipo de amor o Pai nos concedeu, para nos entregar aquele que era o Filho do seu amor para sofrer e morrer por aqueles que eram a geração da sua ira; portanto, Deus Pai o amou, porque Ele deu a sua vida pelas ovelhas! Agora nós sabemos que Deus Pai nos amou, porque Ele não poupou o seu próprio Filho, o seu único Filho, o Isaque que Ele amava, mas, ao invés disso, o entregou para ser um sacrifício pelos nossos pecados.

(2) Veja aqui corno Ele está disposto a nos tornar pertencentes a Ele, em Cristo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Ele se compraz com todos os que estão nele, e estão unidos a Ele pela fé. Até agora, Deus tinha estado descontente com os filhos dos homens, mas agora a sua ira foi afastada e Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Que todo o mundo saiba que este é o Pacificador, o Ancião de dias, que colocou a sua mão sobre nós, e que não há como ir a Deus Pai senão por Ele, como Mediador (João 14.6). Nele, nossos sacrifícios espirituais são aceitáveis, pois é dele altar que santifica todas as ofertas (1 Pedro 2.5). Sem Cristo, Deus é um fogo consumidor; mas, em Cristo, Ele um Pai reconciliado. Este é o resumo de todo o Evangelho; é uma mensagem fiel e merecedora de toda a aceitação, a de que Deus declarou, por meio de uma voz do céu, que Jesus Cristo é o seu Filho amado, em quem Ele se compraz, com o que nós devemos, pela fé, alegremente estar de acordo e dizer que Ele é o nosso amado Salvador, em quem nos comprazemos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Turbinandp seu cérebro midia

TURBINANDO SEU CÉREBRO

Medicamentos podem ajudá-lo a obter o melhor de você mesmo? Especialistas discutem riscos e vantagens do uso de remédios por pessoas saudáveis para diminuir a necessidade de sono, favorecer a memória, o rendimento intelectual e o estado de ânimo.

 É o dia do casamento da melhor a miga de Maria. Ela ajudou a preparar cuidadosamente todos os detalhes da festa e será a madrinha da noiva. Mas justamente nessa manhã, Maria e seu namorado têm uma grande discussão. A briga é tão intensa que lhe parece impossível ir mais tarde à festa pela qual esperou ansiosamente. Mas também pode estragar uma data tão importante para sua amiga querida. O que fazer?

Muitas pessoas, em uma situação semelhante, provavelmente afogariam a angústia em alguns copos de champanhe. Mas nesse caso isso é impensável, pois Maria precisa estar lúcida para ajudar na organização do evento. Vamos supor então que seu primo, que acompanhara todo o drama matutino, sugira um remédio: uma pílula que ele próprio toma para controlar a depressão. O comprimido tem efeito “milagroso” e, além disso, ele leu há pouco tempo que também melhora o estado de espírito de pessoas saudáveis.

Para evitar desilusões avisamos logo: a pílula milagrosa aqui descrita não existe. E é questionável se os antidepressivos comuns realmente favoreça o estado psíquico de pessoas saudáveis. E se têm esse efeito, certamente não é instantâneo. Substâncias como o ecstasy, por sua vez, que elevam o ânimo de forma imediata, podem causar dependência e graves efeitos colaterais. Mas suponha que cientistas realmente desenvolvessem um preparado que estimulasse no mínimo tanto quanto o champanhe sem serem acompanhados dos efeitos negativos causados pela embriaguez e pela ressaca. Uma substância assim seria uma bênção ou uma maldição? Especialistas alertam para possíveis riscos e alguns questionam até mesmo se esse comportamento é “correto”. Mas haveria algo de errado em recorrer a fármacos para favorecer o rendimento no trabalho e no s estudos, diminuir a necessidade de sono, melhorar a memória e a capacidade intelectual e, ainda, o humor?

Cada vez mais a mídia apresenta casos de estudantes que tomam estimulantes para estudar para provas ou profissionais que enfrentam a pressão no trabalho com medicamentos normalmente usados para o tratamento de Alzheimer ou da pressão alta (beta bloqueadores). Com isso, buscam melhorar a capacidade de concentração, reduzir a tensão e a ansiedade. Mesmo que quase não haja números confiáveis a esse respeito, podemos ter a impressão de que vivemos um momento eticamente preocupante. “Doping cerebral” é um termo chave, e a associação com o embuste que ocorre nos esportes antecipa o julgamento negativo.

Propomos, porém, considerar que os objetivos desses “dopings cerebrais” parecem bastante louváveis: iniciativas para melhorar o próprio desempenho intelectual ou favorecer a forma de relacionar-se consigo mesmo e com os outros são vistas, com razão, de forma positiva. Quem procura ampliar seu potencial por meio de treinamento mental (cultivando o hábito da leitura e aprendendo línguas, por exemplo), prática de exercícios ou meditação normalmente é valorizado por isso.

Mesmo aqueles que tentam influenciar positivamente as pequenas variações de humor e o desempenho diário com café, chocolate, vitaminas, comprimidos de ginkgo biloba ou pelo consumo moderado de álcool certamente não estão agindo de forma imoral.

Para evitar equívocos ou olhares preconceituosos, optamos por utilizar a denominação neuro aprimoramento (NA), do inglês neuroenhancement. Alguns autores indicam com essa expressão medidas puramente preventivas contra doenças neurológicas ou psiquiátricas, além de estratégias tradicionais para favorecer o desempenho como ingerir café para espantar o sono ou treinar a memória fazendo palavras cruzadas. Aqui, porém, nos referimos ao NA para falar da melhora do desempenho cognitivo ou do estado psíquico por meio de dispositivos neurotécnicos (como chips de memória ou marca-passos cerebrais) e, principalmente, de fármacos – sempre sem nenhum objetivo terapêutico ou preventivo.

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RISCO DE DEPENDÊNCIA

Mais uma observação referente ao exemplo do início: se Maria passasse a tomar as “pílulas da felicidade” oferecidas pelo primo a cada briga com o namorado para fugir da clareza profunda, mas com certeza dolorosa, de seus problemas de relacionamento, seu comportamento pareceria muito mais problemático. Se fizesse isso em uma ocasião específica, porém, a situação pareceria mais aceitável. Para um julgamento ético do NA farmacêutico, portanto, é importante considerar a intensidade e regularidade com que esse recurso é utilizado.

Além disso, vale questionar os motivos impulsionadores e as intenções concretas de quem adere ao neuroaprimoramento. Por fim cabe levar em conta se uma pessoa optou por utilizá-lo para si, de forma autônoma, ou se a decisão foi tomada por outros, como no caso de crianças, ou mesmo se houve influência do médico. O ponto de partida de nossas reflexões é o direito de cada um ser capaz de fazer escolhas e dispor de seu corpo e sua psique. Sendo assim, não é a liberdade de usar PNAs que precisa ser justificada, mas sim o tolhimento dessa liberdade. Há, porém, uma questão que se impõe: o NA é benéfico ou prejudicial a uma vida bem-sucedida?

Quando se apresentam objeções ao uso de drogas para turbinar o cérebro costuma ser mencionada a “antinaturalidade” desse recurso ou os riscos de intervir na “natureza humana”. Este, porém, é um argumento fraco. A mera artificialidade não pode ser vista como problema se aceitamos o uso de meios correspondentes na medicina sem nenhum questionamento. E no que diz respeito às intenções, elas consistem principalmente em obter melhoras que nos parecem insuspeitas quando realizadas de outras formas, não químicas.

Mesmo em cenários futuristas, nos quais realmente falássemos da superação da natureza humana, teríamos primeiramente de explicar por que essa seria intocável – afinal, somos bem menos cautelosos quando se trata de alterar a natureza em nosso interesse. No entanto, é fato que intervenções na complicada e ainda pouco compreendida dinâmica dos seres vivos, especialmente do próprio homem, só podem ocorrer com extremo cuidado. A metáfora da “sabedoria evolucionária” é uma admonição pragmática e legítima, principalmente no que diz respeito ao cérebro humano.

Outra objeção comum contra o neuroaprimoramento se refere ao seu grau de intervenção neurobiológica que, em comparação com o impacto de treinamentos cognitivos ou da meditação, por exemplo, é considerado inferior: pílulas para processos metabólicos neuronais; conversas e argumentos para o espírito. Mas a premissa funcional-dualista dessa visão não é sustentável atualmente. Muitos fatos científicos e filosóficos indicam que medicamentos e outros fatores externos deixam marcas no “espaço da racionalidade”, assim como a simples reflexão também se manifesta constantemente de forma neurológica.

Sabe-se, por exemplo, que a psicoterapia faz com que sejam desenvolvidas ou fortalecidas as redes neurais. Não é possível, portanto, estabelecer hierarquias unívocas.

Também é comum afirmar que psicofármacos para neuroaprimoramento (PNAs) estão associados principalmente ao seu uso regular e por longo prazo. Isso pode estar inicialmente relacionado ao risco de uma dependência física que se manifestaria, por exemplo, na medida em que fosse necessário tomar doses cada vez maiores e que, após a suspensão da substância, ocorressem síndromes de abstinência. Se os PNAs tivessem esse potencial aditivo, este seria um bom motivo contra o seu uso, já que o aumento da dose quase sempre é proporcional ao risco de efeitos desagradáveis. Mais difícil de avaliar é o temor de que turbinar quimicamente o cérebro leve à dependência emocional e psíquica, já que não está totalmente claro em que consiste e quando exatamente se dá. Ela se fundamenta na ideia de que a pessoa deseja um objeto de certo modo irracional e sente extremo desconforto quando não tem acesso a ele. Esse risco é normalmente explicado, no caso do NA, com o exemplo de um estudante que, após algumas notas excelentes obtidas sob influência de pílulas, desenvolve enorme medo do fracasso apenas ao cogitar que terá de enfrentar a próxima prova sem a ajuda de fármacos.

Muitos seriam contra essa dependência de um preparado para neuroaprimoramento. No entanto, a objeção ao uso de PNAs tem menor peso que o temor da dependência física, pois é quase impossível levarmos uma vida totalmente livre de dependências psíquicas. Sabidamente, o desejo pelo objeto de um amor romântico também assume, às vezes, traços extremamente irracionais. Os “dependentes”, não raro, perdem até mesmo a coragem de enfrentar a vida quando a pessoa amada morre ou termina o relacionamento. Algo similar ocorre com várias novidades tecnológicas, como celulares ou internet, que fazem com que as pessoas fiquem verdadeiramente “capturadas”, muitas vezes após uma resistência inicial, e não possam mais imaginar a vida sem elas. Porém, ninguém sequer cogita a proibição dessas inovações.

Antes de mais nada, é indispensável que as pessoas avaliem se as vantagens associadas ao uso de psicofármacos valem possíveis desvantagens. Provavelmente, seu efeito social será, em algum momento, semelhante à atual “dependência da internet”, que segundo alguns especialistas se caracteriza como um distúrbio psíquico. Ou seja, assim como no caso da informática, a maioria faria uso moderado e prático das possibilidades do neuro­aprimoramento, já uma minoria desenvolveria um padrão de consumo patológico. Assim como no caso da internet, seria então mais sensato oferecer terapia aos necessitados do que proibir o acesso aos PNAs.

Vários críticos também cogitam, com razão, que o neuroaprimoramento farmacêutico possa levar a uma pressão ainda maior por resultados e prejudicar aqueles que rejeitarem o uso desse meio por qualquer motivo. Essa preocupação será ainda mais plausível quando o uso de PNAs se disseminar. Mas mesmo hoje, provavelmente, não é pelo puro prazer de experimentar coisas novas que gente saudável recorre a psicofármacos sem que os seus efeitos e segurança tenham sido comprovados. Essas pessoas possivelmente já devem estar sob pressão tão grande por resultados que experimentam estimulantes ou as chamadas “drogas da felicidade” sem refletir muito sobre os perigos. Isso é alarmante e ninguém pode querer que a pressão social devida à concorrência já tão alta se acirre ainda mais pela disseminação do neuroaprimoramento. Uma vida constantemente voltada para o desempenho e eficiência seria ainda mais desumana e segregadora.

Pílulas com a intenção de possibilitar que as pessoas trabalhem ininterruptamente, superando seus concorrentes, podem ser uma armadilha. Se o ganho de eficiência é sempre seguido de carga de trabalho crescente, então o indivíduo não ganha nada no final das contas – pelo contrário. Mas a imagem de uma possível futura sociedade do neuroaprimoramento seria incompleta, quase enganosa, se considerássemos apenas os questionáveis motivos para o seu uso e deixássemos de lado o potencial desse recurso de estimular a alegria de viver e a empatia. Se esses meios ajudassem a lidar melhor com as demandas de desempenho e, assim, a ter mais liberdade, tornando-nos mais sensíveis à música e outras formas de arte, oferecendo facilidade e prazer em aprender, então seria difícil nos queixarmos das mudanças pessoais e sociais associadas a essas transformações. Mesmo no âmbito competitivo, seja na ciência ou na economia ou qualquer outra área, a elevação das competências cognitivas e emocionais poderia melhorar a vida de muitas pessoas – e quem sabe significar avanços no combate a doenças degenerativas e câncer.

A obrigatoriedade de aprender e se esforçar para aqueles que querem ser bem-sucedidos dentro da competição social já faz parte do estilo de vida ocidental. Por isso mesmo não é tão simples rechaçar os temores de que o indivíduo, exposto à pressão coerciva cada vez maior, se veja obrigado a recorrer ao neuraprimoramento farmacêutico até contra sua própria vontade. Para muitos, o principal motivo para o uso de PNAs poderia ser a competição por vantagens na escola, nas provas finais ou no trabalho – mesmo que esses benefícios fossem nivelados, caso em algum momento todos tomassem as pílulas. O fato de termos de nos adaptar frequentemente a novidades diárias já foi bastante aceito. Certamente existe diferença em nos vermos obrigados a adquirir uma carta de motorista ou conhecimentos em computação e concordar com uma intervenção farmacológica no próprio cérebro e, assim, provavelmente, na própria personalidade.

Na maioria das vezes sequer nos damos conta do longo caminho “biográfico” que percorremos até chegar às nossas metas, talvez porque esse processo ocorra em etapas: fazemos terapia, aprendemos uma infinidade de coisas, alteramos comportamentos, descobrimos “jeitos” de estudar, trabalhar, expor ideias durante reuniões ou aulas. Trata-se de uma adequação da personalidade (e do cérebro) que se dá lentamente e com poucos efeitos colaterais. A recorrência a psicofármacos, no entanto, parece pular várias etapas. A mudança causada pelo NA é experimentada como uma variação de personalidade relativamente abrupta. Por esse motivo, as pessoas afetadas podem achar essa alteração muito mais negativa do que as obtidas por aqueles que a atingem pelos caminhos tradicionais.

Um aspecto decisivo para a tomada de qualquer decisão, neste caso, é sabermos se o grau de risco ainda pode ser avaliado como “socialmente tolerável”. O tráfego de carros, por exemplo, com suas inúmeras vítimas, também gera um ” risco permitido”, apesar de, mesmo para pessoas que se comportam com cautela, as consequências prejudiciais não poderem ser excluídas – aliás, segundo as estatísticas, são até mesmo muito prováveis. Não é possível formular com certeza quais prejuízos devem ser considerados como socialmente adequados e, portanto, admissíveis.

Muitas vezes, teme-se que a disseminação do neuroaprimoramento possa causar ou acirrar injustiças sociais: drogas para melhorar capacidades cognitivas ofereceriam vantagens competitivas na vida social de seus usuários, mas certamente seriam muito caras. Portanto, apenas pessoas relativamente abastadas – que de qualquer forma já são privilegiadas – teriam condições de adquirir os custosos PNAs. A desigualdade entre as chances de sucesso para diferentes grupos sociais se ampliaria ainda mais. Será que isso fere os princípios básicos de uma distribuição social justa?

Possivelmente não. A desigualdade de condições, porém, já é uma realidade. Pesquisas mostram que crianças com pais afetuosos lidam melhor com frustrações – o que é uma vantagem inegável para construir uma vida feliz. Além disso, ter a oportunidade de alimentar-se bem desde a infância, frequentar boas escolas, diversificar interesses, exercitar a criatividade, praticar es portes, viajar e aprender línguas e música também é um privilégio – e não fruto de merecimento, mas continuação da situação privilegiada dos pais. Essas vantagens iniciais também modificam (de forma muito similar aos psicofármacos) o cérebro daqueles que têm acesso a elas, embora obviamente não sejam determinantes.

Pressupondo que o neuroaprimoramento farmacêutico se tornasse uma prática socialmente aceita ou até mesmo desejada, quem deveria então controlar o acesso aos PNAs e esclarecer os potenciais usuários sobre benefícios e riscos do uso? Hoje, quem recorre a esse recurso providencia os preparados de efeito preponderantemente questionável, ao que tudo indica, no mercado negro, ilegalmente nas farmácias e, muitas vezes, com a ajuda de médicos.

A tarefa desses profissionais consiste primariamente em curar, evitar ou diminuir efeitos de distúrbios físicos e psicológicos. Até há poucos anos, só muito raramente eram procurados para que ajudassem pessoas saudáveis a melhorar ainda mais seu estado de saúde – esta demanda ainda é muito recente. Por isso, parece compreensível incluir a busca por neuroaprimoramento na categoria de diagnóstico e terapia. Um executivo que quer ampliar sua capacidade de se manter atento pode logo ser interpretado como alguém com “dificuldade de concentração”, e seu desejo por um estimulante, classificado como sinal de leve depressão, para assim justificar o “auxílio” medicamentoso.

Essa expansão excessiva dos diagnósticos e indicações não é desejável já que, com isso, pratica-se tacitamente o neuroaprimoramento “sob prescrição”. Além disso, o NA assim disfarçado não pode ser considerado na coleta de dados epidemiológicos que possam ser acessados para uma avaliação científica, beneficiando outras pessoas. Mas, acima de tudo, bloqueia-se a visão pessoal, assim como a pública, de que essas práticas consistem em aprimoramentos que devem ser avaliados em vista de seus objetivos e consequências – diferentemente da terapia e da prevenção de doenças.

Mas o que se poderia objetar contra a permissão para que médicos acompanhassem abertamente o uso de PNAs, supondo que eles fossem socialmente aceitos? Será que o aprimoramento vai contra a ética da medicina porque não tem nenhuma relação com “cura”? Pode-se argumentar contra essa afirmação que os médicos já assumiram, por bons motivos e com aprovação social, há muito tempo, atividades fora de suas responsabilidades básicas, como, por exemplo, a prescrição de métodos anticoncepcionais e realização de cirurgias plásticas exclusivamente estéticas. Nesta altura, seria hipocrisia dizer que essas intervenções não estão associadas, de forma global, à saúde física e psíquica do paciente.

O modelo ideal para chegar à medicação adequada – obviamente nem sempre possível – é aquele que permitiria que médicos e psicólogos avaliassem em conjunto a pessoa interessada em melhorar seu desempenho. Assim, o paciente tiraria benefícios dos conhecimentos médicos relativos a possíveis riscos, interações medicamentosas e o acompanhamento psicológico favoreceria a compreensão de motivações nem sempre óbvias para a busca desse recurso, ajudando o interessado a lidar melhor com as transformações em sua vida, de forma crítica e cuidadosa. Se realmente o uso de PNAs for abertamente adotado nos próximos anos – como acreditamos que venha a ser-, é importante que profissionais da saúde se especializem no tema para utilizar seus conhecimentos, já que a prática obscura do neuroaprimoramento não é interesse de ninguém.

Todos os preparados cujos potenciais de aprimoramento estão sendo atualmente testados por cientistas tinham originalmente um fim terapêutico. Do ponto de vista farmacológico, no entanto, é de suma importância determinar se a intervenção deve corrigir um sistema danificado ou favorecer algum aspecto que já funciona normalmente. Enquanto a opinião pública sobre o “doping cerebral” ainda for marcada pela rejeição – latente ou aberta -, porém, nenhuma empresa farmacêutica poderá admitir uma estratégia de pesquisa como essa.

Por outro lado, apesar da preocupação com sua imagem, certamente o setor farmacêutico não vai perder de vista os potenciais de vendas de substâncias de reforço cognitivo e emocional para pessoas saudáveis. Em vez disso, faz sentido temer que empresas e médicos sirvam cada vez mais a esse mercado de forma indireta ao estabelecer padrões sempre mais altos de saúde mental e psíquica de forma que já considerem, em vista dos menores desvios, a necessidade de tratamento. Ou seja: o que há alguns anos era considerado normal transforma-se atualmente em patológico.

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PRESCRIÇÃO OBRIGATÓRIA

Se o ponto de vista defendido por nós, de que o NA farmacêutico não deve ser rejeitado em princípio, se impusesse, as empresas farmacêuticas não teriam mais de realizar o desenvolvimento desses preparados sob o disfarce terapêutico e seria possível haver regulamentos apropriados, de acordo com a legislação vigente em cada país. Seria principalmente sensato definir padrões mais altos de segurança e efetividade para os PNAs do que os das pesquisas farmacológicas terapêuticas, pois se trata “apenas” de aprimoramentos do desempenho e do estado mental e não da salvação, cura ou amenização de sintomas (casos em que as pessoas admitem maiores efeitos colaterais e buscam detectar até mesmo as menores esperanças).

Mesmo com altos padrões para o teste de inocuidade de preparados de neuroaprimoramento, nem todos os efeitos indesejáveis já poderiam ser determinados ou excluídos com absoluta certeza antes da sua liberação. De forma análoga ao regulamento existente para medicamentos, deveria haver também para os PNAs um procedimento de protocolo obrigatório complementar que coletasse indícios de efeitos indesejáveis após a introdução no mercado. Para que esse procedimento funcionasse de forma confiável, médicos e psicólogos teria m de registrar todas as queixas associadas ao consumo de um psicofármaco e repassá-las de forma padronizada para um centro de vigilância farmacológica. Por esse motivo, após a sua liberação, os PNAs devem ser submetidos à prescrição médica obrigatória pelo menos durante alguns anos.

Somos da opinião de que não há nenhuma objeção convincente contra um aprimoramento farmacêutico do cérebro ou do psiquismo. Pelo contrário: consideramos o neuroaprimoramento farmacêutico a continuidade de uma busca intelectual de “automelhoramento” inerente ao ser humano. No entanto, atualmente devemos nos preocupar com o fato de ainda não existir em discussão nenhum resultado de pesquisas suficientemente confiável sobre a efetividade e a segurança dos psicofármacos a longo prazo. A comprovação de que um preparado causa rendimento adicional digno de ser mencionado é responsabilidade da empresa farmacêutica que vende o produto. As consequências físicas, psíquicas e socioculturais de longo prazo, por sua vez, são de interesse da sociedade. Por isso, estudos a esse respeito deveriam ser amplamente divulgados. Além disso, devem ser apoiados projetos de pesquisa que forneçam dados sobre a frequência com que determinadas substâncias já são usadas para fins de neuroaprimoramento e quais são os seus padrões de consumo. Só assim será possível avaliar corretamente o significado social do NA. Um estudo sistemático pressupõe que, antes de mais nada, o NA seja tirado do “lado escuro” da sociedade – e discutido por profissionais e estudantes da área de saúde mental.

Enquanto o NA farmacêutico não puder ser identificado como uma opção de procedimento física e psíquicamente inofensivo, aqueles que são contra o aprimoramento devem ser protegidos para que não caiam em desvantagem social devido à sua recusa. E principalmente psicanalistas, psicólogos e médicos já não podem se furtar a essa reflexão.

Existem, no entanto, perguntas que só podem ser feitas a si mesmo: Quais são meus motivos para usar (ou não) esses produtos? Os benefícios valem o risco de sofrer efeitos colaterais indesejáveis? Estou disposto a, além das possíveis bem-vindas alterações da personalidade (maior sensibilidade e agilidade cognitiva), aceitar também consequências indesejadas que dificilmente podem ser previstas, pois são determinadas não apenas por fatores farmacológicos e individuais? Principalmente: quero atrelar o meu bem-estar e bom desempenho (ainda que parcialmente) à disponibilidade de um dispendioso preparado? O que o meu meio social pensa desse recurso? Terei de desrespeitar regras para conseguir as substâncias? Nenhum desses pontos de vista pode ser decisivo sozinho, mas todos juntos certamente ajudam a avaliar se as vantagens superam os inconvenientes – ou não.

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Perguntas mais frequentes sobre substâncias para neuroaprimoramento

Atualmente há vários medicamentos já usados para favorecer habilidades cognitivas e humor, embora sua efetividade e segurança sejam pouco esclarecidas. Veja algumas perguntas – e respostas – sobre o tema:

Existem drogas especificas para melhorar o desempenho mental?

Ainda não há PNAs realmente efetivos. Apenas o modaftnil parece ser uma exceção que consegue compensar, a curto prazo, a falta de sono aguda. Os preparados em estudo não têm nenhum efeito colateral grave quando pessoas saudáveis os tomam uma única vez ou durante poucos dias seguidos. O que sabemos com certeza é que existe uma falta alar mante de pesquisas objetivas sobre os efeitos do neuroaprimoramento.

O modafinil é “adequado para a manutenção do estado de vigília?

Após um único episódio de privação de sono, o modafinil compensa a perda de atenção, memória e concentração provocada pelo cansaço. Depois de várias situações desse tipo, porém, a atenção só é mantida com uso em maior quantidade, mas o desempenho cognitivo fica reduzido Estudos nos quais o modafinil foi utilizado sem privação prévia de sono apresentam resultados contraditórios e, no máximo, efeitos reduzidos sobre o desempenho. Em alguns casos ocorreu uma supervalorização das próprias capacidades cognitivas, segundo avaliação dos voluntários.

Antidepressivos levam a melhora do estado de humor de pessoas saudáveis?

Não há alterações imediatas, e estudos sobre efeitos a longo prazo são inexistentes. Apenas em algumas pessoas os antidepressivos levam a uma melhora das competências sociais e emocionais.

É possível incrementar o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis com o metílfemdato (ritalina, por exemplo)?

Contrariando afirmações divulgadas pela mídia e muitas expectativas, não há nenhuma prova definitiva desse efeito, nem com o uso prolongado. Mesmo após a privação de sono, a ritalina não melhora objetivamente as condições de aprendizagem. Indícios esparsos, porém, apontam para uma melhora da memória de trabalho (capacidade de guardar informações imediatas, como números de telefones usados com frequência). Subjetivamente, porém, os usuários tendem a avaliar seu desempenho intelectual como muito melhor.

Anfetaminas ajudam a aumentar a atenção?

Há casos em que existe essa possibilidade, mas devido ao seu potencial aditivo e aos graves efeitos colaterais, estimulantes não são adequados como preparados de neuroaprimoramento.

Os medicamentos antidemência favorecem o desempenho da memória em pessoas saudáveis?

Dados existentes sobre os efeitos dos medicamentos utilizados para tratar Alzheimer são insuficientes. Somente o donepezil foi estudado. Provavelmente a memória de pessoas saudáveis melhora com o uso regular durante um longo período de tempo, mas não há comprovação.

THORSTEN GALERT é bacharel em filosofia e química, pesquisador da Academia Europeia para o Estudo das Consequências de Desenvolvimentos Técnico-científicos em Bad Neuenahr-Ahrweiler, onde coordena o grupo do projeto Potenciais e riscos do aprimoramento farmacêutico de características psíquicas, do qual participam todos os autores deste artigo.

CHRISTOPH BUBLITZ é jurista, professor da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade de Hamburgo.

ISABELLA HEUSER é doutora em psiquiatria, professora e diretora da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

REINHARD MERKEL é jurista e filósofo, professor de direito penal e filosofia do direito da Universidade de Hamburgo.

DIMITRIS REPANTIS é doutor em medicina geral, professor da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

BETTINA SCHÕNE-SEIFERT é médica e bacharel em filosofia, professora de ética médica da Universidade de Münster e membro do Conselho de Ética da Alemanha.

DAVINIA TALBOT, médica anestesiologista e bacharel em filosofia, trabalha na Universidade de Münster e na Clínica St. Barbara em Hamm-Heessen.

GESTÃO E CARREIRA

Estudar para melhorar

ESTUDAR PARA MUDAR

Como identificar qual tipo de formação é a mais adequada para cada plano de transição de carreira.

Nascido em Divinópolis (MG), André Gustavo Gontijo Penha, de 36 anos, formou-se em engenharia da computação pela Unicamp e tinha o emprego dos sonhos de muitos jovens: criava jogos de videogame. A profissão lúdica o ajudo u a montar sua primeira empresa, a OverPlay, que mais tarde seria comprada pela TecToy Digital. “Mesmo com um bom desempenho profissional, eu sentia que faltava alguma coisa e que precisava exercer um papel mais importante na sociedade”, diz André. Com dificuldades para entender que rumos queria seguir, ele decidiu apostar na educação como ponte e depois de pesquisar vários cursos se preparou para fazer um MBA fora do país. “Queria aprender e estar em contato com pessoas inspiradoras”, afirma.

Por cerca de um ano ele prestou provas, arrumou a papelada e guardou dinheiro para ir para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. O local é berço de empresas como Nike, Instagram, HP e Google e o fez pensar de forma mais inovadora. “Lá eu aprendi que é normal não saber que rumos seguir e que mais pessoas tinham meu sentimento. O ambiente me estimulou a buscar novas ideias”, diz. Durante os dois anos que ficou em Stanford, André conheceu Gabriel Braga, que viria a se torna r seu sócio. “Ele tinha uma energia parecida com a minha e começamos a pensar em um negócio que pudesse ajudar pessoas de alguma forma. Queríamos resolver algum problema”, diz. Os dois estudantes de Stanford encontravam-se constante­ mente e em um desses cafés listaram quais eram os maiores problemas que já tinham vivenciado no dia a dia. “Foi então que notamos que nunca era fácil alugar um imóvel. A partir daí, com apoio de todo o conteúdo absorvido em Stanford, criamos a Quinto Andar, em 2012”, diz André. A em­ presa, que dispensa a figura do fiador e tem a proposta de desburocratizar o processo de locação, cresceu em média 25% ao mês nos últimos 12 meses. “Em 2016 seremos dez vezes maiores que em 2015. O MBA foi fundamental para auxiliar nessa mudança de carreira”, diz André.

Assim como André foi do mundo dos videogames para o segmento de locação de imóveis, a necessidade de mudar de rumos está presente na vida de muitos profissionais. Pode ser por insatisfação pessoal, em busca de uma remuneração melhor e até mesmo por necessidade de atualização. Mas, na hora da guinada, é fato que a educação torna a transição mais tranquila e segura. O importante é decidir que tipo de curso e conteúdo combina mais com o seu momento. Segundo Alexandre Benedetti, diretor da Talenses, consultoria de recrutamento de São Paulo, é preciso colocar as opções na mesa antes de escolher o caminho. “Nada deve ser feito por impulso. Fazer uma pós-graduação ou um MBA só porque está há muito tempo sem estudar pode não fazer sentido para a carreira”, afirma.

GUINADA DRÁSTICA

Há algumas opções que devem ser levadas em conta antes de decidir que tipo de formação buscar. Por exemplo, quando a mudança ele carreira prevê urna reviravolta radical, fazer uma outra graduação pode ser a única solução. “Imagine um administrador ele empresas que resolve que tudo o que mais quer é ser veterinário. Não há outra forma, a não ser voltar para a faculdade e cursar uma nova graduação”, diz Alexandre. Além disso, uma nova graduação pode ser indispensável quando o profissional precisa ele um registro da profissão (corno CRM, Crea e OAB) para ganhar mais espaço. “Por exemplo, um profissional de marketing que atua na área jurídica e precisa de registro na OAB para alavancar a carreira só tem a graduação como opção”, a firma. Porém, dedicar -se quatro ou mais anos a um novo curso só é indicado nesses casos extremos.

CONHECIMENTO TÉCNICO

Aqueles que buscam uma transição que demande competência técnica devem apostar em uma pós-graduação. “O papel desse formato de ensino é aprofunda r o nível de conhecimento em uma determinada vertente, como um generalista de engenharia que quer se especializar em privatizações”, diz Alexandre. O conselho aqui é primeiro fazer uma reflexão de aonde se deseja chegar para depois traçar a rota a ser percorrida. Antes de investir tempo e dinheiro em um curso de pós-graduação, é necessário pensar no campo de atuação que almeja, entender se há demanda e se a rotina se enquadra em suas expectativas.

Uma das vantagens desse formato é a diversidade do público, afinal não é preciso ter experiência para fazer pós e ao mesmo tempo não há limitações de idade – o que amplia o leque de opções. Mas um ponto importante é fazer um filtro de instituições. Segundo o Ministério da Educação, há cerca de 4 000 cursos de pós-graduação no país, volume que cresceu 23% nos últimos três anos. Conversar com ex-alunos e pesquisar sobre a instituição são conselhos mandatórios antes de escolher a pós-graduação.

Em casos em que a guinada da carreira é proposta pela empresa ou a oportunidade de mudança é imediata, os cursos de extensão podem ser uma boa saída. Isso porque a duração dessa modalidade é menor – e consequentemente gera respostas mais rápidas com um investimento mais acessível. Muita s vezes, os cursos oferecidos em plataformas on-line podem servir corno porta de entrada para essa modalidade de educação.

A bancária Alice Ramos Motta, de 29 anos, de São José dos Campos (SP), é urna adepta dos cursos livres. Para ela, eles são fundamentais para introduzir assuntos diferentes. “Penso nos cursos como ensino de emergência. Sempre que me deparo com uma situação diferente no trabalho ou com uma oportunidade de aprendizado recorro aos cursos livres”, diz. “Mas acredito que eles não são suficientes para sustentar urna guinada de carreira. Acho que são um meio de testar se aquela empreitada dará certo e se vale a pena se aprofundar no assunto”, diz. Quando o conhecimento a ser adquirido requer mais tempo de dedicação, a pós-graduação se faz necessária em um segundo momento para complementar as competências exigidas.

APOSTANDO ALTO

Há ainda a opção dos MBAs. A sigla em inglês remete a um mestrado em administração de negócios e a modalidade é indicada para profissionais que buscam uma visão mais generalista. Segundo Tiago Mitraud, diretor executivo da Fundação Estudar, instituição fundada pelos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira e que fornece bolsas de estudos, essa é a opção que deve ser analisada com mais cautela. “Houve uma banalização dos MBAs oferecidos no Brasil e muitas instituições acabaram distorcendo a essência desse formato”, afirma. “É difícil encontrar cursos no Brasil que sigam a proposta inicial dessa modalidade, e os interessados acabam buscando instituições fora do país”, diz Thiago. Há um perfil mais definido de quem se enquadra nesse tipo de ensino. “Essa opção é voltada para profissionais jovens, de até 30 anos, que buscam ampliar a visão de negócios e ter uma carreira mais generalista. Os processos seletivos são rígidos e demandam fluência em inglês e realizações importantes na carreira”, diz Thiago. Há uma tendência de profissionais optando por fazer cursos que não demandam dedicação integral para não dispender tempo longe do em prego. “Alguns avaliam que dois anos fora do mercado de trabalho podem colocar a carreira em risco”, diz Thiago. Uma opção para fugir desse perigo é apostar na educação executiva, que exige menos tempo de atenção e também segue a linha generalista.

De fato, a demanda por profissionais com MBA no exterior caiu. Com a restrição econômica, as multinacionais, que eram as principais contratantes desse perfil de profissional, passaram a incentivar mais o desenvolvimento interno de talentos. “Não tenho dúvida de que fazer um MBA fora do Brasil é um grande atrativo, mas é preciso saber se faz sentido para a carreira e estar disposto a arriscar”, afirma o executivo. Flavia Deutsch, de 32 anos, resolveu ousar e optou pelo formato para mudar o rumo de sua carreira. Nascida em São Paulo, ela se formou em administração pela Fundação Getúlio Vargas, em 2005, e sempre trabalhou no mercado financeiro. Seu primeiro estágio foi no J.P Morgan e ela também tem passagens por Merrill Lynch e Citibank. “O mercado financeiro foi uma escola. Absorvi tudo o que podia e superei a rotina desgastante, mas não era ali que eu queria ficar”, diz.

Em 2010, Flavia decidiu se candidatar para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Conheci pessoas inspiradoras e refleti muito sobre o sentido do trabalho”, diz. Ela voltou ao Brasil em 2012 sem emprego, sem renda e com uma dívida de 20 anos na bagagem. “Minha família me chamou de maluca, mas não me arrependo”, diz. O objetivo dela era atuar em uma empresa inovadora, por isso passou cerca de três meses gaimpando startups até se deparar com a Acesso, empresa de cartões pré-pagos que incentiva e facilita a entrada da população desbancarizada na economia. “Hoje atuo na área ele marketing e produtos e, por mais que pareça clichê, sinto que faço a diferença”, afirma.