ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 1-6

João Batista

Aqui temos um relato da pregação e do batismo de João, que foram o amanhecer do dia do Evangelho. Observe:

I – A ocasião em que ele apareceu. “Naqueles dias” (v. 1), ou depois daqueles dias, muito tempo depois do que foi registrado no capítulo anterior, que deixou o menino Jesus na sua infância. “Naqueles dias”, na ocasião indicada pelo Pai para o início do Evangelho, quando a plenitude dos tempos era chegada, um período que era frequentemente mencionado dessa maneira no Antigo Testamento. Naqueles dias. Agora, tinha se iniciado a última das semanas de Daniel, ou melhor, a última metade da semana, quando o Messias iria confirmar o concerto com muitos (Daniel 9.27). As manifestações de Cristo ocorrem todas no seu devido tempo. Coisas gloriosas tinham sido ditas, tanto sobre João Batista como sobre Jesus, por ocasião dos seus nascimentos, e antes deles, o que teria dado oportunidade para se esperar algumas extraordinárias manifestações da presença e do poder divino com eles, quando eram ainda muito jovens; mas as coisas aconteceram de maneira muito diferente. Com exceção do debate entre Cristo e os doutores, quando tinha doze anos de idade, nada parece notável a respeito de nenhum deles, até completarem aproximadamente trinta anos. Nada é registrado sobre a infância e a juventude deles, mas a maior parte das suas vidas é envolta em trevas e obscuridade: estas crianças pouco diferem, na sua aparência, de outras crianças, da mesma maneira como o herdeiro, enquanto ainda é pequeno, não é nada diferente de um servo, embora ele seja senhor de tudo. E isto queria dizer que:

1.Mesmo quando Deus está agindo como o Deus de Israel, o Salvador, Ele é verdadeiramente um Deus que se oculta (Isaias 45.15). “O Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Genesis 28.16). “O meu amado… está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas” (Cantares 2.9).

2.A nossa fé deve principalmente ter Cristo em vista, o seu ministério e as suas obras, pois existe uma demonstração do seu poder; mas na sua pessoa está o esconderijo do seu poder. Todo o tempo, Cristo foi Deus-homem; mas nós não sabemos o que Ele fez ou disse, até Ele aparecer como um profeta, e então o ouvimos.

3.Os jovens, embora bastante qualificados, não devem se sentir entusiasmados a se apresentar no ministério público, mas devem ser humildes e modestos, rápidos para ouvir e lentos para falar. Mateus não nos fala nada sobre a concepção e o nascimento de João Batista, que é relatada com detalhes por Lucas. Mateus encontra João Batista já adulto, como se tivesse caído das nuvens para pregar no deserto. Pois durante mais de trezentos anos Israel ficou sem profetas; aquelas luzes havia muito tempo se apagaram, para que ele pudesse ser o mais desejado, aquele que seria o maior profeta. Depois de Malaquias não houve profeta, nem algum pretendente ao cargo, até João Batista, a quem, portanto, o profeta Malaquias aponta mais diretamente do que qualquer dos profetas do Antigo Testamento tinha feito (Malaquias 3.1): “Eis que eu envio o meu anjo”.

 

II – O lugar onde Ele se manifestou pela primeira vez: “No deserto da Judéia”. Não se tratava de um deserto inabitado, mas de uma parte do país não tão povoada, nem tão próxima a campos e a vinhedos, como eram outras partes; era um deserto que continha seis cidades e suas aldeias, com seus nomes (Josué 15.61,62). Nessas cidades e aldeias, João pregou, pois naquelas redondezas ele tinha vivido até então, tendo nascido em Hebrom; as cenas da sua atividade têm início ali, onde ele tinha passado muito tempo em contemplação, e mesmo quando se apresentou a Israel, ele mostrou o quanto gostava do isolamento, até o ponto em que isto estivesse de acordo com o seu ministério. A palavra do Senhor encontrou João ali, em um deserto. Observe que nenhum lugar é tão remoto a ponto de nos impossibilitar as visitas da graça divina; não, normalmente a relação mais doce que os santos têm com o Céu acontece quando eles se afastam dos ruídos deste mundo. Foi nesse deserto de Judá que Davi escreveu o Salmo 63, que tanto fala da doce comunhão que ele tinha com Deus (0seias 2.14). Foi num deserto que a lei foi entregue ao povo; e assim como o do Antigo Testamento, também o Israel do Novo Testamento foi fundado primeiramente no deserto, e ali Deus o orientou e instruiu (Deuteronômio 32.10). João Batista era um sacerdote da ordem de Arão, mas nós o encontramos pregando em um deserto, e nunca servindo no Templo; porém Cristo, que não era um filho de Arão, é frequentemente encontrado no templo, e sentado ali como uma pessoa de autoridade; assim foi predito (Malaquias 3.1): “Virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais”, e não o mensageiro que devia preparar o seu caminho. Isto sugere que o sacerdócio de Cristo devia substituir o de Arão, e conduzi-lo ao deserto.

O início do Evangelho em um deserto traz consolo aos desertos do mundo gentio. Agora as profecias devem ser cumpridas: “Plantarei no deserto o cedro” (Isaias 41.18,19). “O deserto se tornará em campo fértil” (Isaias 32.15). “O deserto e os lugares secos se alegrarão com isso” (Isaias 35.1,2). A Septuaginta fala dos “desertos do Jordão”, o mesmo deserto onde João pregava. Na igreja romana, existem aqueles que se denominam eremitas, e fingem seguir a Jesus, mas “se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais” (cap. 24.26). Havia “aquele… que fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil” (Atos 21.3 8).

III – A sua pregação. Este foi o seu trabalho. Ele não veio lutando, nem disputando, mas pregando (v. 1). Pois por meio da aparente insensatez é que o reino de Cristo deve ser estabelecido.

1.A doutrina que ele pregava era a do arrependimento (v. 2): ”Arrependei-vos”. Ele pregava isto na Judeia, entre aqueles que eram chamados de judeus, e fez uma declaração de fé, pois até mesmo eles precisavam de arrependimento. Ele pregava o arrependimento, não em Jerusalém, mas no deserto da Judéia, entre as pessoas simples; pois mesmo aqueles que se julgam livres da tentação, e, portanto, das vaidades e dos vícios da cidade, não podem lavar as suas mãos na inocência, mas devem fazê-lo em arrependimento. O trabalho de João Batista era chamar os homens para que se arrependessem dos seus pecados: “Admitam uma segunda ideia, para corrigir os erros da primeira, como uma reflexão posterior. Ponderem sobre os seus métodos, mudem o modo de pensar; vocês pensaram de maneira errada; pensem novamente, e pensem certo”. Observe que os verdadeiros penitentes têm outros pensamentos sobre Deus e Cristo, sobre o pecado e a santidade, e sobre este mundo e o outro, pensamentos que são diferentes dos que tinham antes, e são influenciados por eles. A mudança de modo de pensar produz uma mudança de caminho. Aqueles que realmente lamentam o que fizeram mal, terão o cuidado de não fazê-lo novamente. Este arrependimento é uma obrigação necessária, em obediência ao mandamento de Deus (Atos 17.30); e uma preparação e qualificação necessárias para os consolos do Evangelho de Cristo. Se o coração do homem tivesse continuado justo e incólume, as consolações divinas poderiam ter sido recebidas sem esta dolorosa operação anterior; mas, como o coração era pecaminoso, ele primeiramente precisava sofrer aflições antes de poder ter tranquilidade, precisava trabalhar antes de poder descansar. A dor deve ser procurada, caso contrário, não poderá ser curada. “Eu firo e eu saro”.

2.O argumento que ele usava para reforçar o seu chamado era: “porque é chegado o Reino dos céus”. Os profetas do Antigo Testamento chamavam as pessoas ao arrependimento, para obter e garantir as misericórdias temporais sobre a nação, e para evitar e remover o julgamento temporal sobre a nação. Mas agora, embora o dever recomendado seja o mesmo, o motivo é novo, e puramente evangélico. Agora os homens são considerados na sua capacidade pessoal, e não tanto como naquela época, de uma maneira social e política. Arrependam-se agora, “pois é chegado o Reino dos céus”: a revelação que o Evangelho faz do concerto da graça, da abertura do Reino dos céus a todos os crentes, pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ê um reino no qual Cristo é o Soberano, e nós devemos ser os súditos leais e dispostos deste reino. Ê um reino dos céus, e não deste mundo, um reino espiritual; a sua origem é o céu, o seu destino é o céu. João pregava que este reino era chegado; naquele tempo, estava à porta; para nós, já chegou, pelo derramamento do Espírito e pela plena exposição das riquezas do Evangelho da graça. Assim sendo:

(1) Este é um grande incentivo para que nós nos arrependamos. Não há nada como a consideração da divina graça para partir o coração, tanto por meio do pecado como por causa dele. Isto é o arrependimento evangélico, que flui a partir de uma visão de Cristo, de uma sensação do seu amor, e das esperanças de perdão por meio dele. A bondade é conquistar; a bondade ofendida ou maltratada traz a humilhação e a comoção. Que infeliz eu era, por pecar contra tal graça, contra a lei e o amor de um reino como este!

(2) É um grande incentivo para nos arrependermos. “Arrependam-se, pois os seus pecados serão perdoados depois do seu arrependimento. Voltem-se a Deus em obediência, e Ele, por meio de Cristo, trará cada um de vocês ao caminho da misericórdia”. A proclamação do perdão descobre e atrai o malfeitor que antes fugia e se esquivava. Dessa maneira, somos atraídos com as cordas do homem e com os laços de amor.

 

IV – A profecia que se cumpriu nele (v. 3). Era dele que se falava no início daquela passagem da profecia de Isaías, que é principalmente evangélica, e que aponta para a época e a graça do Evangelho (veja Isaias,4). Aqui, se fala de João Batista como:

1.A voz daquele que clama no deserto. João era esta voz (João 1.23): “Eu sou a voz do que clama no deserto”, e isto é tudo, Deus é quem fala, quem dá a conhecer o que está em sua mente por meio de João, assim como um homem o faz com a sua própria voz. A palavra de Deus deve ser recebida como tal (1 Tessalonicenses 2.13); o que é Paulo, e o que é Apolo, a não ser a voz! João é chamado de “a voz” daquele que está gritando, que está assustando e despertando. Cristo é chamado de “a Palavra”, que, sendo distinta e eloquente, é mais instrutiva. João, sendo a voz, despertava os homens, e então Cristo, sendo a Palavra, os ensinava. Como vemos em Apocalipse 14 .2,3: ”A voz de muitas águas e como a voz de um grande trovão; e uma voz de harpistas, que tocavam com a sua harpa. E cantavam um como cântico novo”. Alguns observam que, embora a mãe de Sansão não devesse beber nada forte, ainda assim ele foi designado para ser um homem forte; da mesma maneira, o pai de João Batista ficou mudo, e João Batista foi designado para ser a voz do que clama. Quando a voz do que clama é gerada por um pai mudo, isto mostra a excelência do poder de Deus, e não dos homens.

2.Como alguém cujo trabalho era preparar o caminho do Senhor, e endireitar as veredas para Ele; isto foi dito dele antes de seu nascimento, que ele deixaria um povo preparado para o Senhor (Lucas 1.17), trabalhando como o arauto e o precursor de Cristo. Ele era alguém íntimo com a natureza do reino de Cristo, pois ele não veio com as roupas ostentosas de um arauto em armadura, mas com a roupa simples de um eremita. Soldados eram enviados à frente dos grandes homens, para limpar a passagem; assim, João Batista preparou o caminho do Senhor.

(1) Ele fez isto pessoalmente entre os homens daquela geração. Na nação judaica, naquela época, tudo estava seguindo um rumo errado; havia uma enorme falta de religiosidade, os órgãos vitais da religião estavam corrompidos e eram devorados pelas tradições e imposições dos anciãos. Os escribas e os fariseus, isto é, os maiores hipócritas do mundo, tinham as chaves do conhecimento e a chave do governo no seu cinturão. Em geral, as pessoas eram extremamente orgulhosas dos seus privilégios, confiantes da sua justificação pela sua própria justiça, insensíveis ao pecado; e, embora agora sob as mais humildes circunstâncias, tendo sido transformados em uma província do Império Romano, ainda assim não eram humildes; eles tinham o mesmo temperamento que tinham na época de Malaquias, eram insolentes e arrogantes e estavam sempre prontos para contradizer a Palavra de Deus; assim, João foi enviado para nivelar estas montanhas, para derrubar a alta opinião que eles tinham de si mesmos, e para mostrar a eles os seus pecados, para que a doutrina de Cristo pudesse ser mais aceitável e eficaz.

(2) A sua doutrina de arrependimento e humilhação é ainda tão necessária quanto era naquela ocasião, para preparar o caminho do Senhor. Observe, há muita coisa a ser feita para abrir caminho para Cristo em uma alma, para curvar o coração para a recepção do Filho de Davi (2 Samuel 19.14); e nada é mais necessário, para isto, que a descoberta do pecado, e uma convicção da insuficiência da sua própria justiça. O que não convém permanecerá, até que seja tirado do caminho. Os preconceitos precisam ser removidos; a atitude de pensar em si mesmo com excessiva importância precisa ser rompida, e assim os pensamentos serão levados cativos à obediência de Cristo. Portões de bronze precisam ser rompidos, e barras de ferro precisam ser separadas, antes que as portas eternas se abram para que o Rei da glória possa entrar. O caminho do pecado e de Satanás é um caminho deformado; para preparar um caminho para Cristo, as veredas precisam ser endireitadas (Hebreus 12 .13).

 

V – A roupa com a qual ele aparecia, a sua imagem, e o seu modo de vida (v. 4). Os judeus, que esperavam o Messias como um príncipe temporal, pensavam que o seu precursor viria com grande pompa e esplendor, que os seus acompanhantes seriam impressionantes e joviais; mas foi exatamente o contrário. Ele será grande aos olhos do Senhor, mas insignificante aos olhos do mundo; e, como o próprio Cristo, sem aparência ou formosura; para declarar em breve que a glória do reino de Cristo deveria ser espiritual. Os súditos deste reino seriam comumente pobres e desprezados (em sua condição natural, ou teriam se tornado assim por causa do reino). Eles obtêm as suas honras, os seus prazeres, e as suas riquezas de um outro mundo.

1.As suas roupas eram simples. Este mesmo João tinha a sua roupa feita de pelos de camelo, e um cinto de couro ao redor de seus lombos; ele não se vestia com roupas compridas, como os escribas, nem macias, corno os fariseus, mas com as roupas de um homem do campo; pois ele vivia no campo, e adaptava os seus hábitos ao lugar onde morava. Observe que é bom que nos acomodemos ao lugar e às condições nos quais Deus, na sua providência, nos colocou. João apareceu com estas roupas:

(1) Para mostrar que, como Jacó, ele era um homem simples, mortificado para este mundo, para os prazeres e as satisfações que este propiciava. Vejam um verdadeiro israelita! Aqueles que são humildes de coração o mostram com uma negligência e uma indiferença santas na sua aparência; e não vestem roupas que os enfeitem, nem avaliam os demais pelas suas vestes.

(2) Para mostrar que ele era um profeta, pois os profetas usavam roupas ásperas, como homens mortificados (Zacarias 13.4) ; e, especialmente, para mostrar que ele era o Elias prometido; pois observações especiais são feitas sobre Elias, de que ele era um homem vestido de pelos (alguns julgam que isto se refere às roupas de pelos que ele usava) e com os lombos cingidos de um cinto de couro (2 Reis 1.8). João Batista em nada parece inferior a ele, em sua mortificação; portanto, este era aquele Elias que havia de vir.

(3) Para mostrar que ele era um homem determinado; seu cinto não era elegante, como os que se usavam na época, mas era resistente, era um cinto de couro; e bem-aventurado é este servo, pois o seu Senhor, quando vier, encontrará cingidos os seus lombos (Lucas 12.35; 1 Pedro 1.13).

2.A sua dieta era simples; a sua refeição consistia de gafanhotos e mel silvestre; não como se ele nunca comesse qualquer outra coisa; mas isto era o que ele comia frequentemente, e assim fazia muitas refeições, quando se retirava para lugares solitários, e continuava ali por muito tempo, para meditar. Os gafanhotos eram um tipo de inseto voador, muito bom como alimento, e permitido, por ser puro (Levíticos 11.22); eles não precisavam de muito tempero, e eram de digestão leve e fácil. Por isto, quando se fala das enfermidades e da velhice (com a sua consequente falta de forças), costuma-se utilizar a expressão “quando o gafanhoto for um peso” (Eclesiastes 12.5). O mel silvestre era aquele mel abundante em Canaã (1 Samuel 14.26). Ele era colhido imediatamente, quando caía sobre o orvalho, ou era encontrado em cavidades de árvores e rochas, onde as abelhas os fabricavam em colmeias sob o cuidado e a inspeção dos homens. Isto indica que João comia com moderação, e, na realidade, podemos concluir que ele comia pouco: um homem teria que passar muito tempo comendo para saciar a fome com gafanhotos e mel silvestre. João Batista veio sem comer e sem beber (cap. 11.18), e estava desprovido da curiosidade, da formalidade, e da familiaridade com que as outras pessoas o faziam. Ele estava tão completamente absorvido pelas coisas espirituais, que mal podia encontrar tempo para fazer uma refeição. Agora:

(1) Isto estava de acordo com a doutrina do arrependimento que ele pregava, e com os frutos do arrependimento que ele mencionava. Observe que aqueles que conclamam outros a se lamentarem pelo pecado, e a mortificá-lo, devem viver uma vida sóbria, uma vida de contrição, de mortificação e lamento pela situação do mundo. Assim, João Batista demonstrava quão profundamente sentia a maldade do tempo e do local onde vivia, o que tornava a pregação do arrependimento extremamente necessária; cada dia era, para ele, um dia de jejum.

(2) Este comportamento estava de acordo com o seu oficio como precursor de Cristo. Através dessa prática, João demonstrava que conhecia o Reino dos céus, e que experimentava o seu poder. Observe que aqueles que conhecem os prazeres espirituais divinos não podem ter outra atitude a não ser olhar para os deleites e ornamentos dos sentidos com urna santa indiferença – pois eles conhecem algo muito melhor. Exemplificando esta atitude para as outras pessoas, ele estava preparando o caminho para Cristo. Observe que a convicção da vaidade do mundo e de todas as coisas que nele há é o melhor preparativo para a recepção do Reino de Deus no coração. Bem-aventurados são os pobres de espírito.

 

VI – As pessoas que o procuravam e o seguiam em grandes grupos (v. 5): “Ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia”. Grandes multidões vinham ter com ele, provenientes da cidade, e de todas as partes do país; de todos os tipos, homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, fariseus e publicanos ; eles o procuravam, assim que ficavam sabendo da sua pregação do Reino dos céus, para poderem ouvir aquilo de que tanto falavam. Agora:

1.Era uma grande honra para João o fato de que tantas pessoas o procurassem, e com tanto respeito. Observe que frequentemente aqueles que mais são honrados são os que menos se importam com a honra. Aqueles que vivem uma vida de mortificação, que são humildes e que se auto negam, e que morrem para o mundo, motivam respeito; e os homens têm uma consideração e uma reverência secreta por eles, mais do que eles poderiam vir a imaginar.

2.Isto dava a João uma excelente oportunidade de fazer o bem, e era uma evidência de que Deus estava com ele. Agora as pessoas começavam a se agrupar e a “empregar força para entrar” no Reino dos céus (Lucas 16.16); e que visão maravilhosa era esta (“como vindo do próprio seio da alva, será o orvalho da tua mocidade”; SaImos 110.3), ver a rede lançada onde havia tantos peixes.

3.Isto era uma prova de que esta era uma época de grandes expectativas; geralmente se pensava que ”logo se havia de manifestar o Reino de Deus” (Lucas 19.11) e, portanto, quando João se apresentasse a Israel, vivesse e pregasse à sua maneira, tão completamente diferente dos escribas e dos fariseus, eles estariam prontos para dizer que ele seria o Cristo (Lucas 3.15); e isto provocava esta confluência de pessoas para junto dele.

4.Aqueles que se beneficiassem do ministério de João precisariam ir com ele ao deserto, e compartilhar a sua reprovação. Observe aqueles que realmente desejam o leite verdadeiro da Palavra: se este não lhes for trazido, irão à sua procura. E aqueles que aprendessem a doutrina do arrependimento precisariam sair da confusão deste mundo e se aquietar.

5.Aparentemente, dos muitos que vinham ao batismo de João, apenas uns poucos aderiam a ele; observe a fria recepção que Cristo teve na Judéia e nas redondezas de Jerusalém. Observe que pode haver uma multidão de ouvintes entusiasmados, mesmo onde haja apenas alguns poucos crentes verdadeiros. A curiosidade e a aparente novidade e variedade podem levar muitos a comparecerem à boa pregação e serem influenciados por ela durante algum tempo, sem, no entanto, se sujeitarem ao poder dela (Ezequiel 33.31,32).

 

VII – O rito, ou a cerimônia, com que ele aceitava discípulos (v. 6). Aqueles que recebiam a sua doutrina, e se sujeitavam à sua disciplina, eram batizados por ele no Jordão, desta forma professando o seu arrependimento e a sua fé de que era chegado o reino do Messias.

1.Eles davam testemunho do seu arrependimento, ao confessar os seus pecados; uma confissão geral, é provável, que faziam a João de que eram pecadores, de que estavam contaminados pelos seus pecados, e de que precisavam de purificação. Mas a Deus, eles faziam uma confissão de seus pecados particulares, pois Ele é a parte ofendida. Os judeus eram ensinados a se justificarem; mas João os ensina a se acusarem, e a não se limitarem, como costumavam fazer, na confissão feita por todo o Israel, uma vez por ano, no dia da expiação, mas a fazer em, cada um, um reconhecimento particular do mal em seu próprio coração. Observe que urna confissão penitente do pecado é necessária para obter a paz e o perdão; e somente quem a faz estará preparado para receber a Jesus Cristo como sua Justiça – estes são trazidos à sua própria culpa com tristeza e vergonha ( 1 João 1.9).

2.Os benefícios do Reino dos céus, que agora es tão disponíveis, eram concedidos a eles pelo batismo. João Batista os lavava com água, como um símbolo de que Deus os estava limpando de todas as suas iniquidades. Era usual, entre os judeus, batizar aqueles que eles aceitavam como prosélitos à sua religião, especialmente aqueles que eram somente prosélitos de porta, que não eram circuncidados, como eram os prosélitos da justiça. Alguns acreditam que é provável que pessoas eminentes do judaísmo, que eram os líderes, admitissem alunos e discípulos por meio do batismo. A pergunta de Cristo, a respeito do batismo de João Batista: “O batismo de João era do céu ou dos homens?”, dava a entender que existiam os batismos dos homens, que não eram uma missão divina, e com este uso João Batista estava de acordo, mas o seu batismo era do céu, e pelas suas características era diferente de todos os outros. Este era o batismo do arrependimento (Atos 19.4). Todo Israel foi batizado em Moisés (1 Coríntios 10.2). A lei cerimonial consistia de submergir na água, ou batizar-se (Hebreus 9.10), mas o batismo de João se refere à lei corretiva, a lei do arrependimento e da fé. Ele batizava as pessoas no Jordão, aquele rio que ficou famoso pela passagem de Israel por ele, e pela cura de Naamã; mas é provável que João não batizasse neste rio no início, mas que depois, quando as pessoas que vinham ao seu batismo eram em maior número, ele tenha passado a usar este rio. Por meio do batismo, ele os exortava a levar uma vida santa, de acordo com a profissão de fé que estavam assumindo. Observe que a confissão dos pecados sempre deve estar acompanhada de determinações santas, com a força da divina graça, par a nunca mais retornar ao pecado.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Preconceito contra si mesmo

PRECONCEITOS CONTRA SI MESMO

Quando nos sentimos discriminados, somos dominados pela angústia, a mente divaga e sofremos de um esgotamento momentâneo da memória que prejudica a capacidade intelectual. O mais curioso é que as ideias preconcebidas que nos fazem tanto mal, são mantidas por nossas próprias crenças.

O astrônomo americano Neil Degrasse Tyson obteve seu doutorado em astrofísica na Universidade Colúmbia em 1991. Algo em torno de 4 mil astrofísicos viviam no país naquela época.

Tyson elevou o total de afro-americanos entre eles a parcos sete membros. Em discurso de formatura, ele falou abertamente sobre os desafios que enfrentava: ” Na percepção da sociedade, meus fracassos acadêmicos são esperados e minhas conquistas atribuídas a outros”, disse Tyson. “Passar a maior parte da minha vida combatendo essas atitudes representa um imposto emocional que equivale a uma forma de castração intelectual. É um encargo que não desejo para meus inimigos.”

As palavras de Tyson abordam uma verdade desconfortável: estereótipos negativos impõem uma sobrecarga intelectual para muitas pessoas que acreditam ser vistas pelos outros como inferiores. Em muitas situações – escola, trabalho, esportes -, essas pessoas receiam fracassar e, assim, reforçar estereótipos depreciativos. Jovens atletas brancos temem não ter desempenho tão bom quanto seus colegas negros, por exemplo, e mulheres em aulas de matemática avançada têm medo de receber notas inferiores às dos homens. Essa ansiedade – o tal “imposto emocional” ao qual Tyson se refere é conhecida como ameaça dos estereótipos. Centenas de estudos confirmaram que o fenômeno contribui para o fracasso: as pessoas ficam confinadas a um círculo vicioso em que os baixos resultados aumentam a preocupação, o que prejudica ainda mais o desempenho.

Nos últimos anos, psicólogos ampliaram muito o conhecimento sobre como preconceitos não só sobre os outros, mas também em relação a si mesmo, afetam as pessoas, por que isso acontece e, mais importante, como evitar essa situação. Embora atualmente alguns pesquisadores questionem se alguns estudos laboratoriais refletem com fidelidade a ansiedade no mundo real, destacando que esse seria apenas um dos muitos fatores que contribuem para a desigualdade social e acadêmica, outros cientistas argumentam que esse é um dos fatores que podem ser facilmente mudados – o que tornaria melhor a vida das pessoas. Em estudos realizados em escolas, intervenções relativamente simples – como exercícios de redação para aumentar a autoestima, concluídos em menos de uma hora – produziram efeitos espetaculares e de longa duração, diminuindo a disparidade de resultados e eliminando a ameaça dos estereótipos.

IDENTIFICANDO O RISCO

Foi em 1995 que os psicólogos Claude Steele, da Universidade Stanford, e Joshua Aronson, na época trabalhando na mesma instituição, cunharam o termo ameaça dos estereótipos. Assim como acontece atualmente, há quase duas décadas estudantes negros americanos obtinham, na média, notas piores que seus colegas e mostravam maior probabilidade de abandonar os estudos antes dos brancos em todos os níveis de ensino. As várias explicações para essa desigualdade incluíam a ideia perniciosa (e preconceituosa) de que os estudantes negros eram, de forma inata, menos inteligentes. Steele e Aronson não estavam convencidos disso. Eles argumentavam que a própria existência desse estereótipo negativo poderia prejudicar o desempenho dos estudantes negros.

Numa experiência agora clássica eles apresentaram a mais de 100 universitários um teste frustrante. Os voluntários foram divididos em dois grupos. No primeiro, no qual os pesquisadores disseram que o exame não mediria habilidades intelectuais, participantes negros e brancos – com pontuação comparável num dos mais utilizados exames de admissão à faculdade, o SAT (originalmente chamado Scholastic Aptitude Test) – se saíram igualmente bem. Na outra equipe, onde Steele e Aronson informaram aos jovens que o teste iria avaliar sua capacidade intelectual, a pontuação dos alunos negros caiu, mas a dos brancos não. O simples pedido para que os estudantes registrassem sua etnia antecipadamente teve o mesmo efeito.

O estudo foi inovador. Steele e Aronson mostraram que testes padronizados estão longe de serem de fato padronizados: quando apresentados de forma que evoquem a ameaça dos estereótipos, mesmo que sutilmente, colocam muitas pessoas automaticamente em desvantagem. “Houve muito ceticismo no início, mas isso está diminuindo com o tempo. No começo, mesmo eu não acreditava no quanto esses efeitos eram fortes; eu pensava que mais alguém precisava replicar o experimento”, conta Aronson.

Muitos pesquisadores o fizeram. Até agora, centenas de estudos descobriram evidências da ameaça dos estereótipos nos mais variados tipos de grupos. Ela aflige estudantes de origem mais pobre em testes acadêmicos e homens em tarefas de sensibilidade social. Estudantes brancos sofrem diante de colegas asiáticos em testes de matemática e frente a colegas negros em esportes. Em muitos desses estudos, os mais hábeis enfrentam os maiores reveses. Os que cultivam maior expectativa de sucesso têm mais probabilidade de se aborrecer com um estereótipo negativo e grande probabilidade de apresentar desempenho inferior como resultado.

O grau exato de existência da ameaça dos estereótipos no mundo real continua incerto, provavelmente porque os estudos relevantes enfrentam os mesmos problemas que rondam boa parte dos experimentos de psicologia social. A maioria foi realizada com poucos estudantes universitários – o que aumenta as probabilidades de acasos estatísticos – e nem todos os estudos demonstraram um efeito intenso. Alguns críticos também ressaltam que experimentos são, com frequência, um fraco substituto do mundo real. Paul Sackett, da Universidade de Minnesota, argumenta que, fora do laboratório, a ameaça dos estereótipos pode ser menos comum e mais facilmente superada. Recentemente, Gijsbert Stoet, então na Universidade de Leeds, Inglaterra, e David C. Geary, da Universidade de Missouri-Columbia, examinaram cada estudo sobre ameaça dos estereótipos entre mulheres que realizavam testes de matemática.

A pesquisadora Ann Marie Ryan, da Universidade do Estado de Michigan, identificou algumas razões plausíveis para essas conclusões inconsistentes. Em 2008, ela e a psicóloga Hanna-Hanh Nguyen, então na Universidade do Estado da Califórnia em Long Beach, compararam os resultados de 76 diferentes estudos sobre a ameaça dos estereótipos em estudantes de ensino médio e universitários. Descobriram que no laboratório os cientistas são capazes de detectar a ameaça apenas sob determinadas condições, como quando pedem que voluntários resolvam um teste especialmente difícil, ou em ocasiões em que trabalham com pessoas que se identificam fortemente com seu grupo social.

O QUE É IMPORTANTE?

Na última década, psicólogos deixaram de apenas mostrar que a ameaça dos estereótipos existe e detiveram em entender como ela funciona. Pesquisadores demonstraram que a ameaça opera da mesma forma em diferentes grupos de pessoas. A ansiedade chega, a motivação cai e as expectativas ficam mais baixas. Avançando nessas descobertas, a psicóloga Toni Schmader, da Universidade da Colúmbia Britânica, sugeriu que a ameaça ataca algo fundamental. O alvo mais óbvio seria a memória operacional – habilidades cognitivas que nos permitem reter e manipular temporariamente a informação. Esse conjunto de habilidades é finito e a ameaça dos estereótipos pode esgotá-lo. É possível que as pessoas se tornem psicologicamente exauridas ao se preocupar com os preconceitos alheios e tentando provar que os outros estão errados. Para testar esta ideia, a cientista deu a 75 voluntários um teste difícil: eles tinham de memorizar uma lista de palavras enquanto resolviam equações matemáticas. Ela disse a alguns participantes que avaliaria sua capacidade de memória e que homens e mulheres podem ter diferenças inatas de habilidades. As mulheres, informadas sobre a suposta discrepância, guardaram menos palavras, enquanto os homens não tiveram esses problemas.

O esgotamento da memória operacional cria vários bloqueios ao sucesso. As pessoas tendem a repensar ações que, de outra forma, seriam automáticas e se tornam mais sensíveis a sugestões que possam indicar discriminação. Uma expressão ambígua pode ser equivocadamente entendida como escárnio, e mesmo a ansiedade pode se tornar um sinal de fracasso iminente. A mente divaga e o autocontrole enfraquece. Quando Toni Schmader interrompeu mulheres no meio de um teste de matemática e perguntou o que elas estavam pensando, as que estavam sob a ameaça do estereótipo mostraram probabilidade maior de estarem devaneando.

Mais recentemente, pesquisadores passaram do estudo da ameaça dos estereótipos nos laboratórios para escolas e salas de palestras reais, onde tentaram dissipar ou evitar a ameaça totalmente. “Vejo três linhas de pesquisa: a primeira foi para identificar o fenômeno e até onde ele vai; a segunda olhou para quem experimenta o efeito e seus mecanismos; a terceira traduz esses resultados em intervenções”, diz a cientista. O doutor em psicologia Geoffrey Cohen, também de Stanford, conseguiu resultados particularmente impressionantes. Seu método é de uma simplicidade desconcertante: ele pede que as pessoas considerem o que é importante para elas (popularidade ou habilidade musical, por exemplo) e escrevam por que isso é importante. O exercício de 15 minutos age como uma vacina mental que aumenta a autoconfiança dos estudantes, ajudando-os a combater qualquer futura ameaça dos estereótipos.

Em 2003 Cohen visitou escolas de ensino médio na Califórnia e aplicou seu exercício num experimento controlado de forma aleatória – o teste consagrado em medicina que checa se uma intervenção funciona comparando-a com um placebo. Cohen administrou seu exercício a estudantes do sétimo ano: metade escreveu sobre seus próprios valores e os demais sobre coisas não importantes para eles. O teste foi o duplo-cego, o que significa que nem Cohen nem os estudantes sabiam a que grupo estavam integrados.

No fim do trimestre, estudantes negros que concluíram o exercício reduziram em 40% a defasagem acadêmica entre eles e seus colegas brancos. Melhor ainda, os alunos mais fracos da classe foram os que mais se beneficiaram. Nos dois anos seguintes os mesmos estudantes realizaram duas ou três versões de reforço do exercício original. Apenas 5% dos que tinham notas mais baixas que escreveram sobre seus valores precisaram de aulas de reforço ou repetiram de ano, em comparação com 18% do grupo de controle. Finalmente, as médias de notas dos estudantes negros subiram 0,25 ponto e as dos que exibiam pior desempenho aumentaram 0,40 ponto.

Umas poucas frações de pontos aqui e ali podem não parecer um grande avanço, mas mesmo pequenas mudanças no grau de confiança – positivas ou negativas – têm efeito cumulativo. Crianças que vão mal desde cedo podem rapidamente perder autoconfiança ou a atenção de um professor; em contrapartida, sinais de um progresso modesto podem motivar um avanço muito maior. Ao intervir no início, assegura Cohen, os educadores podem tornar ciclos viciosos em virtuosos.

A tarefa proposta por Cohen é tão simples que Ann Marie Ryan e outros pesquisadores não ficaram inteiramente convencidos dos seus resultados. Desde então o teste tem sido replicado inúmeras vezes. Nos últimos cinco anos o exercício foi usado para “mudar a sorte” de estudantes negros em três escolas de nível médio e para praticamente eliminar a desigualdade entre os gêneros numa classe de física de nível universitário.

Cohen, porém, tem buscado novos meios de ajudar estudantes. Ele colaborou com Greg Walton, também de Stanford, para abordar um isolamento induzido com frequência pela ameaça dos estereótipos. Muitos componentes de grupos minoritários temem que seus colegas acadêmicos não os aceitem. Walton combateu essas preocupações com estudos e citações de estudantes mais velhos, mostrando que esses sentimentos são comuns a todos, independentemente de etnia, e que eles desaparecem com o tempo. “Isso faz com que os jovens reformulem suas próprias experiências por meio das lentes dessa mensagem e não pela da etnia”, considera Walton. Walton e Cohen testaram seu exercício de uma hora de duração com estudantes universitários no primeiro trimestre. Três anos depois, quando os estudantes se graduaram, a disparidade de resultados entre negros e brancos havia caído pela metade. Os jovens negros estavam mais felizes e saudáveis que seus colegas que não participaram do exercício de Walton e nos últimos três anos eles haviam adoecido menos que os colegas do grupo de controle. Walton reconhece que um exercício tão simples pode parecer trivial, mas, para quem está preocupado se será aceito, saber que suas angústias são partilhadas e temporárias é muito significativo Cohen e Walton trabalham atualmente na ampliação de intervenções simples e baratas. Os dois – assim como Carol Dweck e Dave Paunesku -, também de Stanford, criaram o Project for Education Research That Scales (PERTS), que permite administração rápida de intervenções on-line, combinando programas e avaliando resultados. Esse esforço está na aposta de que desfazer o efeito estereótipo não é panaceia contra a desigualdade ou uma solução definitiva e muito menos única para uma questão psíquica e pessoal tão complexa. Cohen, por exemplo, testou seu exercício de redação apenas em escolas com etnias mistas e admite que não está seguro se funcionaria em outros contextos. Mas o que é animador é a perspectiva de avançar no enfrentamento de situações que trazem sofrimento a tanta gente.

Trabalhos recentes sobre o fenômeno do estereótipo oferecem esperança realista de aliviar o problema e subverter crenças arraigadas. Ao diminuir a ameaça, os pesquisadores mostram que nossos próprios preconceitos não têm fundamento. As desigualdades de desempenho entre estudantes negros e brancos ou entre cientistas homens e mulheres não indicam diferenças de capacidade, mas refletem preconceitos que se pode mudar.

OUTROS JEITOS DE VER A BELEZA

Pense em uma propaganda de um produto, um carro, por exemplo, e tente descrever a primeira imagem que vem à cabeça – há por acaso mulheres magras e altas, dentro dos padrões de beleza atualmente tão valorizados (e inacessíveis), junto à máquina? Agora busque evocar alguma peça publicitária de veículos adaptados para deficientes. “Se se lembrar de alguma, vai perceber que há somente o carro na imagem. Um anúncio totalmente focado no produto, não no público para o qual é voltado. Apesar de haver cerca de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, eles ainda não são vistos pelo mercado como consumidores, como parte da economia e da sociedade”, diz a fotógrafa Kica de Castro, criadora de uma agência de modelos exclusiva para deficientes físicos. Atualmente são 81 homens e mulheres agenciados, a maioria com passagem por cursos de moda e teatro, com algum tipo de deficiência, como paralisia cerebral, paraplegia, membros amputados e nanismo.

A seleção para fazer parte do casting é por meio de entrevistas e avaliação do preparo profissional do

candidato a modelo – o que não significa que pessoas sem formação voltada para esse mercado, mas com aptidão natural, apesar de mais raras, não possam ser escolhidas. Se o candidato é aprovado na entrevista, a própria agência arca com os custos do material fotográfico, o book, que servirá como amostra. Mais tarde, se chamado para algum trabalho, o modelo paga uma porcentagem à agência, que fica em São Paulo. “No início as pessoas disseram que o projeto não daria certo, mas houve aceitação. Ainda não há tantas oportunidades no Brasil, mas no exterior sim”, diz Kica, que começou a fotografar pessoas com deficiência há quase uma década, quando trabalhava em um centro de reabilitação fazendo fotos nas quatro posições globais (frente, costa e laterais) para prontuários e fichas médicas. As fotografias de moda foram uma maneira de se aproximar dos fotografados e ajudá-los a relaxar. Segundo Kica, as pessoas chegavam cabisbaixas, ficavam seminuas, e era evidente a baixa autoestima delas nesse momento.

“Depois de uma conversa com uma amiga psicóloga, comprei várias quinquilharias na rua 25 de Março (centro de comércio popular em São Paulo) e passei a dizer, antes das fotos, que estava fazendo um trabalho para um editorial de moda e os convidava para se enfeitar e participar. Eram uns poucos minutos que os ajudavam a fazer as fotos médicas com mais satisfação”, diz Kica, que pouco depois começou a fazer books particulares a pedido dos fotografados, tipo de trabalho que ainda continua a fazer. Nenhuma das fotos é tratada com programas de edição de imagem, como o Photoshop, que geralmente é usado para retocar “imperfeições” das modelos como, aliás, também acontece em outros trabalhos fotográficos.

NO FIM, TODOS SAEM PREJUDICADOS

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de culturas estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência praticada contra estrangeiros, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg. Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio por parte dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E de fato houve: estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma só: preconceito.

Os estereótipos, entretanto, não dificultam a vida apenas de pessoas e grupos estigmatiza­ dos. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir extremamente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja, essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

 

ED YONG é jornalista especializado em ciência.

GESTÃO E CARREIRA

Como gerenciar a sobrecarga no trabalho

COMO GERENCIAR A SOBRECARGA DE TRABALHO

Aprenda a se organizar para dar conta de todas as atividades e evitar que o excesso de tarefas prejudique sua saúde física e emocional.

Criada em 2008, a agência de marketing online Mint vinha em uma trajetória de crescimento até o fim do ano passado. Entretanto, em 2017, após receber o aporte de uma holding e chegar a contar com um time de 60 pessoas, a empresa começou a sentir os efeitos negativos da crise econômica. “Tivemos alguns desentendimentos com o grupo de investidores e desfizemos a parceria, muitos clientes renegociaram ou diminuíram contratos e chegamos à conclusão de que seria preciso rever a estrutura”, diz Victor Macedo, de 34 anos, fundador da agência. A empresa deixou o escritório de dois andares que ocupava em São Paulo, mudou-se para um coworking e demitiu mais da metade da equipe. No auge do processo de reestruturação, Victor teve crises de gastrite e chegou a passar 12 horas no trabalho. “Também tive que ir para dentro da operação, acumular funções de planejamento, social media e até atendimento”, afirma. Para enfrentar o momento difícil, o profissional formado em marketing passou a cuidar melhor da saúde e reviu alguns processos na empresa para melhorar a produtividade. “Pratico atividades físicas e controlo meus horários para não ficar muito tempo no escritório”, diz.

Assim como Victor, muitos profissionais estão sofrendo com times enxutos e com a sobrecarga de trabalho. De acordo com uma pesquisa do site Vagas.com, divulgada em agosto e feita com 2690 pessoas, 56% dos trabalhadores brasileiros estão acumulando funções antes realizadas por outras pessoas. Reflexo das tentativas de sobreviver em meio ao período ruim da economia, a diminuição de equipes aliada com o medo crescente de desemprego cria um cenário de estresse dentro das empresas. “Existe uma expectativa de que, se esses trabalhadores ficaram, são mais eficientes. Isso dobra a cobrança sobre profissional”, afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, diretora da International Stress Managernent Association, de Porto Alegre.

E se engana quem pensa que isso, assim como o período ruim da economia, vai ser uma fase passageira. A tendência, segundo especialistas, é de que as equipes menores permaneçam também após a retomada do crescimento. “Vemos a implementação de tecnologias novas para fazer mais com menos, e isso não vai ser deixado de lado depois da crise. Possivelmente serão contratados novos postos, mas as companhias estão percebendo que, com revisão de processos e diminuição da burocracia, é possível aumentar a produtividade dos funcionários”, afirma Caroline Cadorin, gerente-geral da Hays, empresa de recrutamento de São Paulo.

Antes que você entre em desespero, é preciso dizer que, embora as empresas não voltem a ter equipes tão grandes, o período mais crítico vai dar uma trégua. “Quando não havia crise, existia a possibilidade ele ter equipes maiores. Isso era bom porque não sobrecarregava as pessoas. Não vamos voltar a esse cenário, porém o volume alto de demissões deve cair e diminuir o esgotamento dos profissionais”, diz Rudney Júnior, sócio-diretor da BR Talent, empresa ele seleção de São Paulo.

Produtividade na veia

Enquanto isso não acontece, para quem fica a palavra produtividade nunca foi tão demandada. Nem tão difícil de alcançar. “O Brasil já tinha um problema de produtividade anterior ao período de recessão devido a fatores como atraso no acesso às tecnologias, burocracia e falta ele desenvolvimento dessas competências”, diz Flora Victoria, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) de São Paulo. De acordo com dados da consultoria internacional Conference Board, a produtividade do trabalhador brasileiro equivale a 25% ela produtividade do americano, por exemplo.

Para lidar com isso, é preciso se organizar, definir bem quais são os objetivos e melhorar os processos que estão consumindo a energia. E a boa e velha agenda com lista de coisas a fazer ajuda a dar o pontapé inicial. “Logo cedo ou no final do dia anterior faça uma lista elas coisas que você tem que resolver e inclua intervalos para possíveis emergências”, afirma Caroline da Hays.

É o que faz o publicitário Felipe Schepers, de 30 anos, diretor de operações da Opinion Box, empresa de pesquisa online de Belo Horizonte. “Coloco no meu Google Agenda todos os eventos e atividades, desde consultas ao médico até reuniões, e checo diariamente. No fim do dia, eu tento liberar pendências e criar folgas”, afirma. Além disso, ele programa tarefas que sabe que são recorrentes, como e-mails para clientes. “Deixo em rascunho e, quando chego ao trabalho, apenas disparo”, afirma. Foi essa organização que fez com que Felipe conseguisse tocar praticamente sozinho a Opinion Box. “Fui convidado para ser o diretor de operações desse projeto. No começo, trabalhava 14 horas”, diz. Por conseguir suportar longas jornadas com poucas horas de sono, hoje em dia Felipe ainda passa 12 horas trabalhando, mas por causa da organização consegue conciliar a rotina com o filho recém-nascido. “Saio do trabalho às 19h e até às 20h30 me dedico ao meu filho”, afirma.

Prioridades definidas

É preciso tomar cuidado para não ficar preso em meio aos chamados incêndios e perder a visão de projetos de longo prazo. Por isso, definir prioridades é essencial. “Muitas atividades consomem tempo e não são compatíveis com as nossas metas mais importantes. Quando chegar uma demanda, analise e entenda se ela é urgente, importante ou irrelevante. Se for urgente e importante, priorize; se for apenas importante, planeje a execução para mais tarde; e, se não for nenhuma das duas, é irrelevante”, afirma Mônica Barroso, coach e professora da The School of Life ele São Paulo.

Foi desse jeito que a publicitária Camila Nakagawa, de 28 anos, conseguiu dar conta de dois times nos últimos meses. Desde o começo do ano, ela é diretora de marketing e novos negócios na agência de publicidade digital ID, porém há alguns meses passou a tocar um projeto no qual alguns executivos da agência ficam alocados dentro dos clientes. Com isso, passou a se dividir entre os escritórios da ID e da Onofre Agora, e-commerce da rede de farmácias. “No começo eu tentei abraçar o mundo e dar conta de tudo, e até foi bom para imergir e entender essa nova realidade. Chegava a ficar mais horas no escritório e, principalmente, a intensidade de trabalho era muito grande. Por isso, comecei a ver que precisava definir onde eu poderia estar”, afirma. Um dos exemplos que gosta de citar são os e-mails. “Conversei com meus times e chegamos a um acordo. Existem coisas que eles podem tocar sozinhos e eu não preciso estar presente, como ser copiada em todos os e-mails ou saber de cada etapa. Se eles se sentem inseguros ou é algo importante, daí, sim, eu passo a ser envolvida”, diz. Para manter o ritmo, Camila também organizou o tempo que passa no escritório. “Evito fazer aqueles almoços-reuniões que duram horas, por exemplo. Além disso, estipulei atividades fora do trabalho que me obrigam a me organizar melhor e a não ficar até mais tarde, como as minhas aulas de tênis e francês”, afirma.

Negociação constante

Mesmo os profissionais mais disciplinados podem perceber que não vão conseguir cumprir prazos e metas devido ao excesso de tarefas de que precisam dar conta. Para evitar situações ruins no trabalho é preciso ter uma boa comunicação com gestores e equipes e capacidade ele negociação. “Isso é algo que exige coragem porque os profissionais têm que assumir essa dificuldade. Num momento de crise, em que as pessoas estão com medo de perder o emprego, a grande maioria fica receoso de mostrar essa vulnerabilidade”, afirma Mônica.

Entretanto, se você for coerente e apresentar fatos, como a existência de outras tarefas mais urgentes, essa conversa fica mais fácil. “Na maioria das vezes os chefes acham que as pessoas são desorganizadas ou estão fazendo corpo mole. Você precisa mostrar argumentos de que aquela meta é impossível de ser cumprida naquele prazo e que escolhas terão que ser feitas”, afirma Nicodemos Borges, coach e psicólogo clinico, de São Paulo.

Mesmo que seja chato dizer para o chefe que não vai dar conta das atividades, tomar essa atitude é melhor do que deixar de entregar o que foi combinado. “Se for avisado com antecedência, o gestor consegue agir, esticando prazos ou envolvendo mais pessoas no projeto. Se o profissional deixar para avisar de última hora, isso prejudica a imagem dele”, afirma Nicodemos. Caso você seja um líder, é nessa hora que é preciso exercitar a competência de saber delegar funções. “As pessoas precisam quebrar o mito de que sabem de tudo e de que são super-heróis que não precisam de ajuda. A grande sabedoria é aprender a identificar suas potencialidades e delegar aquelas tarefas em que você não é tão bom. Se não fizerem isso, sobretudo os líderes vão ficar sobrecarregadas”, afirma Mônica.

Quando vira doença

 Mesmo com essas estratégias, nem todo mundo consegue dar conta de todas as funções que caem no colo, e a sobrecarga de atividades pode desencadear sérios problemas de saúde, que, no limite, levam à morte. No Japão, por exemplo, há um termo para quem falece por conta do trabalho: “karoshi”, que significa, literalmente, morrer de trabalhar. Lá, 10 000 pessoas morrem ao ano devido ao excesso de trabalho. Claro que isso é um extremo. Mas é preciso ficar atento aos sintomas do excesso de trabalho. “O primeiro deles é a ansiedade, que vira uma bola de neve. A concentração diminui, os resultados caem e a pressão para não errar aumenta, o que retroalimenta a ansiedade”, afirma Ana Maria Rossi.

Segundo urna pesquisa da International Stress Management Association feita com 1 000 profissionais brasileiros, o número de trabalhadores com doenças como ansiedade e síndrome do pânico aumentou de 8% para 13% entre 2013 e 2015. E pulou de 47% para 53% a quantidade de pessoas que usam bebidas alcoólicas para se anestesiar do estresse do trabalho. Outras 57% se automedicam. Trabalhar demais, aliado à pressão crescente sobre as equipes, pode ser a pontado como uma das causas desses comportamentos destrutivos. “Após longas jornadas, você precisa de tempo para se recompor, senão o corpo fica no saldo negativo e começam a ser cobrados juros, como doenças físicas e emocionais”, diz Mario Louzã, psicólogo, de São Paulo. Esse foi o caso da advogada Patrícia Menes, de 31 anos, que até 2015 trabalhava na área de ações trabalhistas e previdenciárias de uma multinacional de auditoria. Mesmo tendo conversado com os gestores pedindo aumento na equipe, Patrícia era a única pessoa da divisão e chegava a trabalhar 18 horas diárias, incluindo os finais de semana, quando viajava para visitar clientes. “Em uma das viagens, machuquei o pé e mesmo assim tive que trabalhar. Não era raro virar noites. Eu só ficava pelo salário”, afirma. No meio do ano passado, ela percebeu que a rotina, que já tinha dez anos, estava cobrando um preço alto. “Comecei a ter quadros de depressão extremos, sentia muita raiva. Também tive problemas no meu casamento e passei dias sem levantar da cama, sem ter vontade ele ir trabalhar”, afirma. Ao perceber que havia chegado ao limite, Patrícia procurou ajuda. Após um mês ele internação e do diagnóstico de síndrome de borderline, originada pelo estresse, ela decidiu que não voltaria ao antigo emprego. A síndrome é um transtorno de personalidade que causa oscilações   de humor e comportamentos impulsivos, muitas vezes confundida com o transtorno bipolar ou    com a esquizofrenia. “Tinha medo de que as crises voltassem. Prestei o concurso da OAB (Organização dos Advogados do Brasil), que até então não tinha conseguido por falta de tempo para estudar, e resolvi abrir meu próprio escritório de advocacia”, diz. Mesmo em tratamento, Patrícia se sente muito mais feliz. “Eu consigo fazer meus horários respeitar meus limites. Não me sinto tão sugada com antigamente”, conclui.

Copo meio cheio

De tempos em tempos surgem alguns mantras corporativos e, assim com produtividade, resiliência é uma das palavras mais repetidas em momento limítrofes. “Pessoas que são resilientes conseguem achar novos significados para situações difíceis Por exemplo, enxergam excesso de trabalho com a oportunidade de aprender coisas novas ou de atuar em áreas diferente e, assim, se munem emocionalmente para enfrentar essa situação”, afirma Flora, da Sociedade Brasileira de Coaching.

Um dos casos mais célebres quando abordamos resiliência é o do psiquiatra judeu Viktor Frank! sobrevivente de um campo de concentração nazista e que relatou suas experiências no livro Em Busca de Sentido, lançado em 1946. A partir desse episódio o autor desenvolveu a tese da Logoterapia em que defende que quando o ser humano está convicto do porquê dos acontecimentos, consegue resistir até aos momentos de maior sofrimento. O problema é que, sem te um sentido ou propósito a sensação de esgotamento aumenta. “Muitas pessoas trabalham bastante, mas não conseguem lidar bem com essa rotina desgastante. Às vezes vem um incômodo e um estresse, mas não sabemos identificar a origem dele. Quando isso acontece, preciso rever se estamos alinhados com o propósito da empresa e da nossa função”, diz Mônica, da The School of Life.

A psicóloga Ana Maria Rossi diz que até mesmo a síndrome de burnout, comumente associada ao excesso de trabalho, também tem mais raízes na insatisfação do que propriamente com o volume de atividades. “Geralmente quem desenvolve o burnout se sente desvalorizado, acha que está sendo tratado injustamente ou tem a sensação de que precisa desenvolver uma função que vai contra os seus valores. Como, por exemplo, um vendedor que precisa mentir para atingir as suas metas”, afirma.

De acordo com uma pesquisa exclusiva feita pela Fundação Estudar para a VOCÊS/A e que ouviu 256 pessoas, embora 40,6% elos respondentes não trocassem de emprego somente devido ao acúmulo de funções, 62% deles fariam uma movimentação caso a opção lhes desse a chance de realizar o seu propósito. “Quem enxerga mais significado no trabalho consegue passar por situações difíceis com mais facilidade porque existe um objetivo para continuar ali. E isso pode ter a ver com funções de impacto social ou metas totalmente individuais, como crescimento ou salário”, diz Ana Maria Spaggiari, coordenadora da área de carreiras da Fundação Estudar.

Claro que nem todo mundo que para de se identificar com um trabalho pode deixar o emprego, mas é possível fazer mudanças pequenas. “Você pode trocar de área, de chefe ou de função dentro de uma mesma empresa. Muitas pessoas fazem rupturas drásticas sem se planejar e acabam se arrependendo. O essencial é fazer esse questionamento”, afirma. Com organização, negociação e autoconhecimento é possível encontrar alternativas para sobreviver a esse período de cansaço e sobrecarga generalizados. Vale lembrar que, em alguns momentos, é preciso pagar esse pedágio e atravessar uma fase mais turbulenta para descobrir seus limites e fortalezas e avançar rumo a uma vida (pessoal e profissional) mais equilibrada e feliz.

SEM PERDER TEMPO

Estratégias para diminuir a procrastinação de tarefas

Do latim procrastinatus (“pro”, que quer dizer à frente e “crastinatus”, amanhã), a procrastinação é o ato de deixar para depois. “Às vezes achamos que um projeto é muito grande e não vamos dar conta, por isso vamos adiando, adiando, até que percebemos que perdemos quase todo o prazo”, diz Mônica Barroso, da The School of Life. Veja como enfrentar o problema.

Divida um grande objetivo em pequenas metas – Assim a resolução fica mais próxima e viável.

Organize as suas distrações – Ter tempo livre é fundamental, inclusive no dia a dia de trabalho, mas reserve apenas um horário específico do dia para olhar jornais e atualizar as redes sociais.

Diminua a autoconfiança – Muita gente faz uma estimativa errada da quantidade de horas que vai precisar para dar conta de uma determinada tarefa. Por isso, mesmo que algumas demandas aparentam ser facilmente resolvidas, melhor se organizar para contar com um prazo maior, incluindo imprevistos.

Identifique o que está travando você –  Há uma associação da procrastinação com a preguiça, mas não é bem assim. Entenda se você está adiando por medo, insatisfação ou até mesmo pela forma como a tarefa lhe foi pedida.

EXCESSO DE CARGA

Quatro sinais de que o grande volume de trabalho está prejudicando o seu desempenho.

DESMOTIVAÇÃO

Não há mais motivação para ir ao trabalho ou para exercer suas atividades. É a chamada “síndrome da segunda-feira”, em que só de penar em ir trabalhar surgem tontura ou dores de cabeça.

PROCRASTINAÇÃO

Conscientemente, o profissional vai deixando de entregar tarefas que sabe que são importantes e, em determinado momento, acaba se desesperando.

CONFLITOS

A pessoa se torna mais intolerante com pequenos problemas no trabalho, se incomoda com assuntos sem sentido e vai criando uma cisma hostil entre os colegas.

ADOECIMENTO

Surgem doenças psicossomáticas, que não possuem causas clínicas. Podem começar com simples dores de cabeça e evoluir para quadros mais sérios.