O mal nãoé o posto do bem

O MAL NÃO É O OPOSTO DO BEM

Há uma assimetria entre o primeiro, considerado tão grande e onipresente, e o segundo, aparentemente frágil e raro. Vale lembrar que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

 Apalavras “ética” e “moral” têm a mesma origem etimológica. Ethos, em grego, e amor, em latim querem dizer a mesma coisa: hábito, prática recorrente. Esta significação consta das primeiras linhas de dez

Em relação à fruta maçã, a palavra ética guarda uma diferença. Enquanto a maçã que comemos é materialidade de fruta e também é signo, a palavra ética, como qualquer outra palavra, é apenas signo. Seu uso é exclusivamente semiótico. Isto é, tão somente indicativo de outras coisas, externas às suas letras, de seus significados.em cada dez manuais de ética. E para o senso comum, ética e moral sempre foram usadas indistintamente. E, mesmo entre os iniciados, muitos não têm interesse em estabelecer diferença entre as noções. Mas, apesar de tanta proximidade, para a maioria dos autores essas duas palavras querem dizer coisas muito diferentes. Antes de apresentar esta diferença, cumpre um alerta. É preciso lembrar que palavras como “ética” e “moral” são signos. E como qualquer signo, são materialidades que remetem a significados que lhes são exteriores. Mesmo as coisas do mundo, que não são palavras, também podem ser entendidas na sua estrita materialidade ou enquanto signo, indicativo de outras coisas. Uma maçã, por exemplo, é uma fruta. Não há dúvida. Mas indica também alimento, saúde, pecado, erotismo, dieta e muito mais.

Pelo fato de ambas remeterem a uma exterioridade – a fruta maçã a pecado e a palavra ética ao valor da conduta -, dizemos que todo signo é ideológico. Seu uso, portanto, não é neutro. Isto é, atende aos interesses daqueles que deles se servem. Porque significar as coisas do mundo é forma privilegiada de manifestar o que se pretende. Seja enquanto agente social singular, seja enquanto membro de um grupo, classe etc.

Quando relacionamos qualquer coisa a algum significado, pretendemos que essa coisa queira dizer para os demais o mesmo que quer dizer para nós. Que todos compartilhem do sentido que a ela estamos atribuindo. A má notícia é que, na vida em sociedade, nossos interesses podem ser excludentes dos de outros. Outros, aliás, que também se servem dos signos. Que também lhes atribuem os sentidos que lhes são convenientes, alinhados com pretensões específicas.

Por isso, ante interesses contraditórios, haverá luta pela definição do sentido legítimo, do bom sentido. Considerado óbvio. Porque nomear não é só dar nome a coisas e a ideias abstratas. É impor certa visão e divisão do mundo que convém a quem nomeia. No caso da ética, o troféu é precioso. Afinal, a todos interessa, em algum momento da vida, participar da disputa sobre o que se deve e o que não se deve fazer.

Na particularidade de sua trajetória, todo homem vive situações que se convertem em problemas morais. Para resolvê-los, analisa as possibilidades, pondera os efeitos das possíveis condutas, formula juízos e acaba decidindo. Afinal, é preciso viver. Assim, para deliberar sobre delação de um colega e amigo que lesa o patrimônio da empresa, por exemplo, você pensaria muito. Avaliaria as consequências, tanto do silêncio quanto da delação. Conversaria com outros colegas. E, finalmente, optaria por entregá-lo ao superior hierárquico. Caso encerrado. Questão moral resolvida.

Mas quando pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda a sua particularidade, possam valer para qualquer situação semelhante, para qualquer caso, passamos da prática para uma teoria da prática, do pessoal para o impessoal, do particular para o genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. Desta forma, propõe-se que a ética seja uma teoria – ou uma ciência – da moral. Ou, esta última, objeto da primeira. Por isso, os códigos de exercício profissional bem como os desta ou daquela organização não são denominados código s de moral, mas de ética. Porque pretendem valer para qualquer um que atue nestes espaços.

Uma vez entendida e aceita esta diferença, consagrada nos manuais autorizados, sempre é possível destacar aproximações. De um lado porque uma ética que ignorasse os dilemas morais de viventes de carne e osso seria um simples arranjo lógico de máximas e princípios. Inversamente, por mais específicas e particulares que possam ser as situações que vivemos no mundo, sempre haverá que se considerar – socializados que somos – princípios éticos objetivados em cultura, em saberes práticos, em disposições. Mas aqui cabem algumas precisões conceituais.

Ética é ao mesmo tempo reflexão sobre a vida e vida pensada. Ao mesmo tempo princípio e ação. Norma e deliberação. Decisão e vida decidida. Para Aristóteles, o objeto da ética é a práxis. Para Kant, a vontade. Segundo ambos, é a ação submetida à razão. Sócrates já nos advertia que uma vida impensada, não examinada por quem a vive, não pode valer a pena ser vivida. Em contrapartida, toda ação que não estiver imbricada num processo deliberativo está excluída do campo da moral.

Muitos questionam nossa liberdade. Afinal, se tudo no universo vive regido por causalidades materiais, e a pera cai da pereira sem nunca poder se opor, por que seríamos diferentes? O que permitiria que fôssemos autores de nós mesmos, semideuses, criadores da nossa própria trajetória? Não deveríamos ser o mero resultado de vetores causais que nos determinariam absolutamente? O que nos facultaria transcender à inexorabilidade da matéria, de suas relações e fluxos?

O assunto vai longe. Aqui basta deixar claro que não há ética entre animais ou peras. Trata­ se de uma prerrogativa exclusivamente humana – justamente porque supomos que no nosso caso a vida é diferente. Que temos uma grande participação na sua definição. E que, para isso, refletimos e deliberamos. Que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

Se a liberdade, como condição da moral, enfrenta argumentos relativos ao próprio corpo, sua energia vital, seus desejos, suas paixões e também as relações com o mundo, parecem às vezes nos constranger. Afinal, estamos cercados de limites. A impressão exagerada de estar sendo vigiado a cada passo pode ser sintoma de patologia psíquica. Em certa medida, porém, indica lucidez e senso de realidade face a um mundo cada vez menos moral.

O objeto da ética não é tanto a ação, mas tudo o que possa guiá-la. Norteá-la, se for para o Norte. Orientá-la, para o Oriente, com suas regras, normas e máximas. Em suma, a ética se dispõe ao estudo de certo tipo de ação humana, normatizável pela razão, uma ética que doravante denominaremos ato moral. E que não se entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento, como em algumas psicologias e sociologias – mas como princípios seguidos livremente pelo agente.

Por causa desta interdependência entre a razão prática e a conduta, a estrutura do ato moral é complexa. Constituída por elementos subjetivos e objetivos, diria um jurista. Tais como motivação para agir, consciência dos fins visados, valores morais, consciência dos meios mais adequados para alcançá-los e materialização dos resultados.

Todo ato moral tem uma motivação. E muitas podem ser as motivações para qualquer ato. Assim, não aceitar um cargo público em um governo local sabidamente corrupto pode ter muitas motivações, como paixão por certos princípios, pela própria notoriedade ou imagem impoluta, pelo altíssimo salário que já se recebe na iniciativa privada ou pelo primo que vai assumir no lugar. Nestes casos, o sujeito tem plena consciência dos motivos de suas ações. E esta motivação consciente integra o ato moral – é sua condição.

Mas nem sempre temos essa consciência das nossas motivações. A competência para perceber os próprios afetos é muito rudimentar. A ponta de um iceberg. Uma garrafa vazia no oceano. Assim, muitas vezes, agimos em plena melancolia, por ciúme, por excitação ou ira sem nos darmos conta disso. E estas ações encontram-se, por isso, excluídas do campo da moral. Não podem ser objeto de aprovação, desaprovação ou responsabilidade. Serão levadas em conta em outras esferas, jurídica e psicanalítica, por exemplo. Afinal, alguém precisa proteger a sociedade e tentar lidar com nossos demônios.

APENAS UMA VIDA

Devido a essas nossas motivações, percebidas ou não, várias possibilidades de vida futura passam pela nossa cabeça. São os fins do ato moral. Não sei se me caso ou se compro uma bicicleta, sugere o gracejo do indeciso. Pois é. Todo ato moral implica a consciência de um fim. Um ponto de chegada. Ainda que provisório. Este fim é sempre uma antecipação mental da vida a ser vivida depois. Uma antecipação ideal. Uma ideia, portanto.

Só não se pode confundir motivação com finalidade. Uma tem certamente a ver com a outra, mas não são a mesma coisa. Motivação é energia vital, oscilação de potência, afeto, o que sentimos. O fim é planejamento, projeto, o que pensamos. Se não ficou claro, tentemos com outras palavras. Motivação é tesão. Excitação. Ganho setorizado de potência, nem sempre consciente. Fim é fantasia, imaginação, sempre consciente. De mulher com topografia generosa, em trajes mínimos, clamando pela sua aproximação física. Ou ainda, para que não me acusem de machista, de homem malhado em academia, exposto ao sol em sunga sumária.

Nem a motivação nem o fim esgotam o ato moral. Porque moral é práxis. É preciso decidir, além de antecipar. E agora você já tem todos os ingredientes para entender o que é vontade, o que significa ato voluntário. Trata-se da antecipação mental da vida, o fim, seguida da decisão de viver essa experiência.

Há uma distância entre o fim e a decisão, até porque várias vidas podem passar pela sua cabeça. São muitas as antecipações possíveis. Muitos os fins que podemos perseguir, bem como os meios para alcançá-los. E a vontade, o ato voluntário, implica a identificação do melhor para que haja decisão. Diante de várias vidas cogitadas, é preciso jogar no lixo a maioria. Porque uma só será vivida. A entendida como melhor. E essa identificação pressupõe a adoção de um critério. De um valor moral. Valores morais são critérios existenciais, a partir dos quais os fins serão valorados.

Sobre valor moral, nunca houve unanimidade. Grosso modo, há duas formas muito diferentes de concebê-lo: de um lado, a dos herdeiros de Platão, por muitos chamados hoje de objetivistas. De outro, a de seus opositores, subjetivistas ou relativistas. Muita nomenclatura para pouco entendimento. Vamos dar um jeito nisso. Se eu lhe perguntar sobre o valor didático desse meu texto, talvez você rapidamente ofereça uma resposta. “Está bem meia­ boca”, poderia dizer. O que foi preciso para que você chegasse a esta conclusão?

Muitos estão convencidos de que o valor do meu texto, como de tudo mais, é objetivo. O que isto quer dizer? Que é identificado a partir de um critério único. Critério que já está definido e que se impõe a nós. A todos nós, de forma absoluta, portanto. Assim, para muitos, como Marcel Conche, filósofo contemporâneo e excelente professor, o sofrimento de uma criança é o mal absoluto. Inaceitável em qualquer situação. Tanto como meio – para alguma coisa melhor – quanto como fim. Diferente da dor durante um tratamento odontológico, que revela um mal relativo, aceitável como meio para uma boca melhor.

Para esta concepção, o valor não depende de nada. Nem da época, o começo do século 21, nem do lugar, nem das eventuais oscilações de humor de cada um de nós. Este critério único é ideal. Uma ideia desencarnada. Um texto perfeito em si mesmo. Que não corresponde a nenhum dos que já lemos. Mas que serve de referência na hora de identificar o valor de todos eles.

Assim, como no caso do texto, haverá ideias e critérios objetivos para valorar qualquer coisa inscrita no mundo da vida, como o valor estético de uma obra musical ou literária. Ou o valor moral de um fim cogitado num certo instante. E o conhecimento destes critérios é condição de uma boa decisão moral. Ao menos segundo a perspectiva objetivista. Ou do objetivismo axiológico, para os mais pedantes, defendido por autores idealistas do nosso tempo como Max Scheler e Nicolai Hartmann.

Mas, e se não houver este gabarito absoluto para a melhor das vidas a viver? Para a boa aula? O bom romance? Ou para nada? Neste caso, tudo estaria na nossa mão. Dependeria do nosso apreço do momento. Valor inscrito no fluxo da existência. Sem referência fora dela. Sem nada nem ninguém acima, onde amarrar. Vida linkada na vida. E o todo flutuando à deriva. Os valores agora seriam relativos. A vida estaria ao sabor dos encontros com o mundo, dos afetos de Espinosa, das alegrias e tristezas, dos prazeres e das dores. Neste caso, seria bom tudo que alegra, enquanto alegra, na intensidade que alegra. E ruim o que entristece.

E agora, o que fazemos com o nosso texto? Qual o seu valor? Ora, o valor do texto estaria à mercê de tudo isto. Seria relativo, portanto. Fossem outros os leitores, o texto teria certamente outro valor. Aliás, como vocês são muitos, haverá os que se alegram mais com as coisas que digo. Para estes, o texto será melhor. Há os que já não veem a hora de terminar. Para estes, é certamente pior. Perspectiva subjetivista, portanto, ou subjetivismo axiológico, defendido em nossa época por R. B. Perry, I. Richards, Stevenon, entre outros.

CRISTALINO E ONIPRESENTE

Subjetivismo, com uma ressalva. Que esse sujeito, todo-poderoso definidor dos valores do mundo, seja entendido como o resultado, sempre provisório, de um interminável processo de socialização, num mundo social concreto, inserido histórica e geograficamente. Porque ele vive neste mundo. E está em relação ininterrupta com ele. Na impermanência dele e do mundo. Relação objetivada em encontros que vão esculpindo seu corpo e o transformando, predispondo a afetos futuros, ensinando a se alegrar com o que é alegrável. Com meios e fins morais legítimos e autorizados pela civilização. Com os troféus reconhecidos. Canalizando as energias vitais na direção do que vale a pena perseguir para que busquemos o bem e evitemos o mal. Pedra de toque de toda ética.

E quando o tema é ética, a reflexão sobre o mal se impõe. O impulso primeiro é defini-lo como o contrário do bem. Pouco enriquecedor, quando não sabemos com clareza o que vem a ser este último. Acredito até que definir o mal pelo bem é regredir em entendimento por estar convencido de que conhecemos muito melhor o mal do que o bem.

Apresento aqui uma ideia que sempre me encantou. Inspirada na leitura da obra Pensamentos, de Pascal, no século 18, um dos pesos pesados da filosofia cristã. Trata-se da assimetria entre o bem o mal. Esse último seria gigante, cristalino e onipresente. Enquanto o bem, suspeito, frágil e raro. Perspectiva que contrasta com minhas aulas de religião, nos distantes tempos do colégio jesuíta, em São Paulo, onde fiz toda a minha formação pré-universitária. Nelas, o bem e o mal eram apresentados como alternativas equivalentes. Opções equidistantes para mim.

O paralelo didático recomendado é com a assimetria, proposta por Karl Popper, entre o verdadeiro e o falso. Esse último parece estar em todas as partes. Enquanto o verdadeiro encontra-se sempre sob suspeita. Isto desde as reflexões propostas por David Hume sobre a indução. Como passar do fato à lei? Como a observação empírica de uma infinidade de fatos poderia autorizar uma lei universal? A rigor, não autoriza. O exemplo é conhecido.

Como verificar a veracidade da proposição: todos os cisnes são brancos? Por mais cisnes que tenhamos visto, mil, por exemplo, todos claros, nada garante que o milésimo primeiro seja também branco. A proposição é, portanto, inverificável. Bastaria encontrar um único cisne negro para que fosse falsa. Como a água ferver a 100 graus Celsius. Você faz a água ferver mil vezes a essa temperatura, mas nada pode nos garantir que na milésima primeira o mesmo aconteça. A assimetria é evidente. Toda assertiva tende, de certa forma, à falsidade. Está a sua espera. Condição da sua cientificidade.

O mesmo se passa com o bem e o mal. Quando julgamos que alguém agiu bem, logo nos damos conta da fragilidade de nosso juízo. A boa ação parece sempre suspeita. O bem é sempre duvidoso. Assim, dar algum trocado a um pobre pode corresponder a inúmeras motivações egoístas: aliviar algum peso de consciência, parecer generoso a terceiros, ser merecedor de alguma recompensa transcendente etc.

Em contrapartida, alguém que rouba de pobres – como no desvio de verbas públicas de programas de assistência emergencial a vitimados por alguma catástrofe natural – este age mal. Indiscutivelmente. Porque o mal se presta menos a dúvidas. É mais transparente. Cristalino. Daí a proposta de Pascal: o que eu conheço é o mal e o falso. O seu exemplo de que a castidade é um bem se prestaria a muita discussão. Não fosse pelo bem-estar que algumas aproximações físicas proporcionam, pelo fato de que a humanidade não se reproduziria. Desapareceria, portanto. Em contrapartida, o estupro é mal. Sem muita discussão.

Esta assimetria está presente nos mais diversos males. Na sua Teodiceia Da justiça de Deus, Leibniz nos propõe três tipos de mal: o metafísico (a imperfeição de não ser Deus), o físico (o sofrimento) e o moral (o pecado, a canalhice). Interessam-nos aqui o físico e o moral. O mal físico se traduz no ódio pelo mundo que provoca tristeza. Nada disso se confunde com o mal moral que é deliberação racional inadequada sobre a própria conduta. A mesma distância separa o amor do bem moral, da virtude. Amor é sentimento decorrente dos encontros com o mundo, sensação que se impõe. O amor é tudo de bom. Ame e faça o que quiser, propõe Agostinho.

Em contrapartida, virtude é amor falsificado. Parece, mas não é. É imitação de amor. Como se amor houvesse. Assim, generosidade é virtude. Deliberação moral de dar, que supre a falta de amor. Respeito é virtude. Prêmio de consolação, racionalmente escolhido, para ocupar o lugar de um amor que já se foi. Gratidão é virtude. Foi tudo que sobrou. Valeu. Valeu pelos momentos de amor compartilhados e já pretéritos. Gratidão para quando o amor acaba com dignidade.

Mas a verdade é que não amamos muito. Não amamos muita gente. Façamos a conta: filhos pequenos, filhos grandes quando não se tornaram delinquentes, cônjuges nos primeiros tempos da relação, pais quando não tiranizaram muito, alguns amigos talvez. Se espremermos, umas dez pessoas. No caso de alguém particularmente amoroso, quem sabe o dobro. Admitamos: falta muita gente. E as relações com as pessoas não podem contar com o amor. Nem esperar que você as ame. Por isso, a moral é tão importante. Deliberação autônoma. Que pressupõe alguma soberania da razão. Justamente para quando não há amor. Um sucedâneo dele. Já que não ama, delibere e faça como se amasse. Um amor prático para lmmanuel Kant. Se amássemos mais, careceríamos de menos moral.

Mas quando o mal é físico, a assimetria é mais que evidente, hiper-real. Porque o amor é escasso. E o ódio, abundante. Inesgotável. Assimetria afetiva. Excesso de mal. Mediocridade de bem. Afinal, um riso nunca compensará um choro. Um momento de tranquilidade nunca compensará um de depressão. E uma criança brincando feliz nunca compensará outra, em choque pela morte dos pais. Enquanto os orgasmos são efêmeros, em conta-gotas, contamos todas as dores aos baldes.

E não pretendemos aqui nenhuma negação da vida. Afinal, todo vivente continuará lutando pela própria potência, buscando gozar o mais possível e sofrer o menos possível. Princípio freudiano do prazer já presente em Michel de Montaigne (séc. 16). Trata-se de estender a alegria e diminuir – tanto quanto pudermos – a tristeza. Mas todo este esforço tem limites. Porque gozar sem entrave esbarra sempre na existência do outro. Questão moral por excelência. Questão relevante, quando o amor rareia.

No texto A religião nos limites da simples razão Kant começa por constatar que o mundo é mau. E que o homem é mau, jogando luzes sobre a assimetria entre o bem e o mal moral. Há quem não concorde e considere o mundo maravilhoso, quem garanta que os bons são maioria. No que me diz respeito, tendo a concordar com Kant neste ponto.

Em O homem é mau por natureza, Kant investiga a origem do mal moral. O homem teria consciência do seu dever, da lei moral, e, na hora de agir, daria um jeito de se afastar dela. Quando isto lhe conviesse. Haveria no homem uma inclinação natural ao mal. Desejado livremente. Mal radical inato na natureza humana. Para quem não está entendendo, sugere Kant, basta olhar em volta. Basta ligar a televisão. A televisão aqui ficou por minha conta, mas quanto à evidência do mal que dispensaria maiores elucubrações, está no texto, desse jeito mesmo: é só olhar em volta.

A primeira suposição, comentada por Kant, sobre a tal origem do mal moral, é a de que o homem seria mau por sua sensibilidade. Entenda­ se sensibilidade por seus afetos, inclinações corporais, instintos, pulsões. Poderiam estas ser a causa do mal moral? Teria o corpo apetites que levariam o homem a agir de forma moralmente inaceitável? Estaria nas vísceras a inclinação natural para o mal? No caso de um indivíduo que lança mão de uma arma de fogo e dispara contra toda a sua família, ou de outro que viola uma criança, agiriam simplesmente por raiva e apetite erótico?

Não, responde Kant. Porque se assim fosse, o mal moral seria ódio. E não é. Como também não é amor. Se o homem fosse simplesmente regido pelos instintos, seria bestial. Não transcenderia a mais estrita animalidade. Os animais, esses não têm moral. Falta-lhes, para tanto, justamente a condição de autonomia deliberativa. Um lobo, um javali ou um polvo não são maus. São o que são – estão fora da moral. E o homem não se confunde com eles.

NEM ANIMAL NEM DEMÔNIO

Bem, já que a origem do mal não está nos apetites, onde mais poderia estar? Na razão talvez? Na instância de liberativa? Adviria o mal de uma perversão da consciência moral? De um vício da razão prática? De uma vontade absolutamente maligna? Optaria o homem pelo mal, na hora de agir, por uma característica intrínseca ao próprio pensamento?

Também não, dirá Kant. Porque se assim fosse, não poderia haver consciência do mal. Mal que estaria no homem. Que lhe seria intrínseco. Não haveria, em relação ao mal, nenhum recuo. Distanciamento. Condição da consciência. O homem, neste caso, seria o próprio demônio. Que faz o mal pelo mal. Mal como motivação. Mal como fim. Mal como decisão. O que também não é o caso. Segundo Kant o homem sempre faria o mal visando algum tipo de bem ou vantagem para si próprio.

Parece que Kant, tão preocupado com o rigor de suas abstrações, não tinha tempo para acompanhar a atualidade policial do seu tempo. Chacotas à parte, sempre se poderá propor a Kant a mesma recomendação, a de olharem volta. Será que nenhuma das atrocidades que diariamente são cometidas não configurariam o tal mal pelo mal? Em defesa do autor, sempre se poderá argumentar que sádicos e perversos agem mal porque têm algum prazer nisto. Se assim não fosse, seriam demônios, na categorização kantiana.

Bem, podemos concluir que o homem não é animal nem demônio. Mas se a origem do mal não está na sensibilidade, coisa de corpo e de animal, nem na razão prática, coisa de alma e de demônio, onde poderia estar? Aqui está o pulo do gato da teoria kantiana sobre o mal. A sua origem estaria no encontro dos dois. Encontro da sensibilidade, apetites e pulsões com a consciência moral, com a razão prática. E qual seria o problema nesse encontro entre o que sentimos e o que pensamos? O mal estaria na inversão da hierarquia legítima entre ambos. Numa defasagem entre o que deveria acontecer e o que acaba acontecendo.

Comecemos pelo que deveria acontecer. Sempre segundo Kant, qual seria a relação hierárquica legítima entre a consciência moral e os apetites do corpo? A prevalência da prime ira, é claro. Senão não seria Kant. De tal maneira que os últimos devem ser satisfeitos dentro dos limites e das condições definidos pela primeira. Em outras palavras, a satisfação deve ser buscada de acordo com a lei moral. Se preferirem, a busca da felicidade deve estar subjugada ao dever.

Passemos, agora, ao que acaba acontecendo. A inversão desta hierarquia legítima. Isto é, na adequação indevida das normas aos apetites. No alinhamento do dever aos interesses do momento. Na lei como trampolim para a felicidade. Quando só deveríamos aceitar o gozo e a felicidade na medida em que estivessem conforme a lei moral, o que fazemos é respeitar esta última nos limites e nas condições que nos permitam gozar e buscar o mais eficazmente possível a felicidade.

Perceba que nesta reflexão kantiana, a busca da felicidade pode ser o próprio mal. Aqui a felicidade não é o bem supremo. Está longe de ser o máximo. Não deve ser entendida como tudo de bom. Não representa o maior dos troféus. E jamais poderia reinar como referencial maior na hora de pensar a vida boa e muito menos a melhor forma de conviver.

E aqui o leitor conclui. No período em que o homem acreditava fazer parte de uma engenhoca ordenada, a vida boa dependia da harmonia entre o vivente e o todo. Neste momento, a felicidade era bem supremo. Todos os esforços deveriam para ela convergir. A partir do instante em que o homem colocou em xeque a existência de um todo ordenado, comparável a um organismo vivo, a reflexão sobre a vida boa exige algum tipo de entendimento entre nós. O alinhamento agora é contrato. É pacto. A confiança é no comportamento do outro. A felicidade de cada um perdeu prestígio. A convivência tornou-se soberana.

CLÓVIS DE BARROS FILHO é professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Graduado em direito, filosofia e jornalismo, mestre em ciência política, doutor em comunicação.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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