ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2: 19-23

A Volta do Egito

Cristo retorna do Egito para a terra de Israel. O Egito poderia servir, por algum tempo, como um lugar de breve residência, ou de abrigo, mas não para uma longa permanência. Cristo havia sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, portanto para elas Ele devia retornar. Observe:

I – O que abriu caminho para seu retorno foi a morte de Herodes, que aconteceu pouco depois do assassinato dos infantes. Segundo alguns, ainda não havia se passado mais que três meses. Tal expedito acontecimento fora obra da vingança divina! Observe que Herodes devia morrer. O dia dos tiranos orgulhosos, terrores dos poderosos e opressores dos justos na terra dos vivos, deve chegar e no abismo devem ser lançados. “Quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal” (Isaias 51.12,13), considerando especialmente que na morte não só sua inveja como seu ódio irão perecer (Eclesiastes 9.6) e que irão cessar de perturbar (Jó 3.1 7) e serão punidos. De todos os pecados, a culpa pelo sangue dos inocentes é a que mais rapidamente irá saturar a medida. É um terrível relato aquele feito por Josefo sobre a morte desse mesmo Herodes (Antiq. Jud., liv. 17, caps. 6 e 7), dizendo que ele foi tomado por uma doença que o queimava por dentro com uma inexprimível tortura; que tinha uma insaciável avidez pela carne, apresentando cólicas, gota e inchaço. Sua doença era acompanhada por um intolerável mau cheiro, a ponto de ninguém poder se aproximar dele. Tão irascível e impaciente estava que se tornara um tormento para si mesmo e um terror para todos os que o atendiam. Sua inata crueldade, estando assim exacerbada, o tornava mais bárbaro que nunca, tendo ordenado a morte do seu próprio filho. Ele mandou prender muitos nobres e pessoas de boa família e ordenou que fossem executados logo depois da sua morte. Mas essa ordem não foi cumprida. Observe que espécie de homens eram os inimigos e perseguidores de Cristo e dos seus seguidores! Aqueles poucos que se opuseram ao cristianismo haviam primeiramente renunciado à própria humanidade, como Nero e Domiciano.

II – As ordens emanadas dos céus relativas ao seu retorno, e a obediência de José (vv. 19 -21). Deus

havia enviado José ao Egito e lá ele permaneceu até que aquele que o havia levado ordenasse a sua volta. Observe que em todos os nossos movimentos será bom que o nosso caminho seja claro, e que Deus esteja caminhando à nossa frente. Não devemos seguir um caminho ou outro sem receber ordens. Essas ordens foram enviadas a José por um anjo. Observe que se mantivermos a nossa comunhão com Deus, ela também será mantida por parte dele em qualquer lugar que possamos estar. Nenhum lugar pode impedir as bondosas visitas de Deus. Os anjos vieram a José no Egito, a Ezequiel na Babilônia e a João em Patmos. Portanto:

1.O anjo informou sobre a morte de Herodes e dos seus cúmplices: “Já estão mortos os que procuravam a morte do menino”. Eles haviam morrido, mas o pequenino estava vivo. Os santos que são perseguidos muitas vezes vivem tempo suficiente para pisar sobre o túmulo dos seus perseguidores. Foi assim que o Rei da Igreja venceu a tempestade, e é assim que muitos na igreja têm resistido. “Já estão mortos”, isto é, Herodes e seu filho Antípatre. Embora entre eles houvesse um sentimento mútuo de ciúme, provavelmente estavam de acordo em procurar a destruição desse novo Rei. Se primeiramente Herodes mandou matar Antípatre e depois ele mesmo encontrou a morte, as coisas naquela região ficaram limpas; o Senhor é conhecido pelos castigos que aplica quando um iníquo instrumento é empregado para a ruína dos outros.

2.O Senhor ordenou a José o que devia fazer. Devia voltar para a terra de Israel, e sem demora. Sem pleitear a tolerável e boa situação que gozava no Egito, nem alegando os inconvenientes da jornada, especialmente se, como se supõe, estavam no início do inverno – ocasião em que Herodes havia morrido – a obediência veio em primeiro lugar. O povo de Deus segue as suas ordens em qualquer direção que Ele os possa levar, ou abrigar. Se olharmos para o mundo apenas como o nosso Egito, lugar da nossa escravidão e exílio, e para o céu apenas como a nossa Canaã, nosso lar e nosso repouso, deve­ remos prontamente levantar e partir quando formos chamados, como fez José quando saiu do Egito.

 

III – As novas ordens que recebeu de Deus, qual caminho devia seguir e onde se fixar na terra de Israel (vv. 22,23). Deus poderia ter-lhe dado essas instruções junto com aquelas que recebera anteriormente, mas Ele revela gradualmente seu pensamento ao povo, para mantê-lo sempre esperando por Ele, aguardando receber mais notícias. José recebeu essas ordens num sonho, provavelmente da mesma maneira corno havia recebido as ordens anteriores, através da intervenção de um anjo. Deus poderia ter revelado a sua vontade a José através do menino Jesus, mas a nossa opinião é que Ele não tomaria conhecimento desses movimentos, nem daria um sinal sobre qualquer coisa que ocorresse, certamente porque em todas as coisas seria conveniente agir como os seus irmãos; sendo uma criança, Ele agiu e se comportou como uma criança, colocando um véu sobre o seu infinito conhecimento e poder. Entendemos que, como uma criança, Ele tenha crescido em sabedoria.

Portanto, as ordens transmitidas a essa santa e real família foram:

1.De que não deveria se estabelecer na Judéia (v. 22). José poderia pensar que Jesus, tendo nascido em Belém, deveria ser criado lá; no entanto, estava prudentemente temeroso pela pequena criança, pois ficara sabendo que Arquelau reinava no lugar de Herodes, não sobre todo o reino, como seu pai, mas somente sobre a Judéia, sendo que as outras províncias estavam em outras mãos. Observe que sucessão de inimigos havia para lutar contra Cristo e a sua Igreja! Se um deles se retirasse do contexto, outro surgiria imediatamente para dar continuidade à inimizade que vinha desde a antiguidade. Portanto, por essa razão, José não devia levar o pequeno infante para a Judéia. Observe que Deus não lança os seus filhos aos limites do perigo, exceto se tal atitude for para a própria glória do Senhor ou para provação deles; pois são preciosas à vista do Senhor a vida e a morte dos seus santos; para Ele, o sangue deles é precioso.

2.Que deviam se estabelecer na Galileia (vv. 22). Nessa ocasião, reinava na Galileia um homem tranquilo e brando chamado Filipe. A providência de Deus geralmente assim ordena, que ao seu povo não falte um abrigo tranquilo do tumulto e da tempestade; quando um clima se torna demasiadamente quente e abrasador, um outro se mantém fresco e temperado. A Galileia estava localizada mais ao norte, e Samaria, entre ela e a Judéia. Para lá foram enviados, isto é, par a Nazaré, cidade situada sobre uma colina, no centro da região de Zebulom.

Lá vivia a mãe do nosso Senhor quando concebeu o ser santo e provavelmente era também a residência de José (Lucas 1.26, 27). Lá tinham muitos conhecidos e estariam entre parentes. Era o lugar mais apropriado para ficar. Lá eles continuaram a viver e lá nosso Salvador foi chamado Jesus de Nazaré, nome que para os judeus representava um obstáculo, pois, diziam eles, poderia “vir alguma coisa boa de Nazaré?”

Nisso, dizem que se cumpriu o que havia sido dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”. O que podemos considerar é:

(1) Que era um homem de honra e dignidade, embora esse nome significasse primeiramente apenas alguém de Nazaré. Existe uma alusão ou mistério ao falar disso, pois significa falar o que Cristo seria:

[1] O Homem, o Rebento, mencionado em Isaías 11.1. A palavra aqui é Netzar, que significa rebento, ou a cidade de Nazaré. Ao receber o mesmo nome da cidade, Ele é declarado como sendo esse Rebento.

[2] Menciona que Ele seria o grande nazireu; os nazireus legais formavam um tipo e uma figura (especialmente Sansão, Juízes 8.õ). José é chamado de nazireu entre os seus irmãos (Genesis 49.26) e há uma referência àquilo que tinha sido prescrito em relação aos nazireus em Números 6.2, e em outras passagens. Não que Cristo fosse, estritamente falando, um nazireu, pois bebia vinho e tocava no corpo daqueles que haviam morrido. Mas era eminentemente assim, singularmente santo. Por solene indicação e designação, havia sido escolhido para honrar a Deus Pai na obra da nossa redenção, da mesma maneira que Sansão havia sido escolhido para salvar Israel. Trata-se de um nome que nos dá todo motivo para conhecê-lo e nos alegrarmos. Ou: (

2) Que era um nome digno de reprovação e desprezo. Ser chamado de Nazareno era o mesmo que ser chamado de um ser desprezível, de um homem do qual nada de bom alguém poderia esperar e que não merecia nenhum respeito. O diabo primeiro ligou este nome a Cr isto, para torná-lo desprezível e criar no povo um preconceito contra Ele. E esse nome ficou como um apelido para Ele e seus seguidores. Porém, embora isso não tivesse sido particularmente previsto por nenhum profeta, era geralmente comentado por eles que Cristo seria desprezado e rejeitado pelos homens (Isaias 53.2,3). Seria um verme, não um homem (Salmos 22), e seria um estranho para os seus irmãos. Não deixemos que, em nome da religião, qualquer nome possa parecer suficientemente vergonhoso para nós, tendo em vista que o nosso próprio Mestre foi chamado de Nazareno.

O mal nãoé o posto do bem

O MAL NÃO É O OPOSTO DO BEM

Há uma assimetria entre o primeiro, considerado tão grande e onipresente, e o segundo, aparentemente frágil e raro. Vale lembrar que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

 Apalavras “ética” e “moral” têm a mesma origem etimológica. Ethos, em grego, e amor, em latim querem dizer a mesma coisa: hábito, prática recorrente. Esta significação consta das primeiras linhas de dez

Em relação à fruta maçã, a palavra ética guarda uma diferença. Enquanto a maçã que comemos é materialidade de fruta e também é signo, a palavra ética, como qualquer outra palavra, é apenas signo. Seu uso é exclusivamente semiótico. Isto é, tão somente indicativo de outras coisas, externas às suas letras, de seus significados.em cada dez manuais de ética. E para o senso comum, ética e moral sempre foram usadas indistintamente. E, mesmo entre os iniciados, muitos não têm interesse em estabelecer diferença entre as noções. Mas, apesar de tanta proximidade, para a maioria dos autores essas duas palavras querem dizer coisas muito diferentes. Antes de apresentar esta diferença, cumpre um alerta. É preciso lembrar que palavras como “ética” e “moral” são signos. E como qualquer signo, são materialidades que remetem a significados que lhes são exteriores. Mesmo as coisas do mundo, que não são palavras, também podem ser entendidas na sua estrita materialidade ou enquanto signo, indicativo de outras coisas. Uma maçã, por exemplo, é uma fruta. Não há dúvida. Mas indica também alimento, saúde, pecado, erotismo, dieta e muito mais.

Pelo fato de ambas remeterem a uma exterioridade – a fruta maçã a pecado e a palavra ética ao valor da conduta -, dizemos que todo signo é ideológico. Seu uso, portanto, não é neutro. Isto é, atende aos interesses daqueles que deles se servem. Porque significar as coisas do mundo é forma privilegiada de manifestar o que se pretende. Seja enquanto agente social singular, seja enquanto membro de um grupo, classe etc.

Quando relacionamos qualquer coisa a algum significado, pretendemos que essa coisa queira dizer para os demais o mesmo que quer dizer para nós. Que todos compartilhem do sentido que a ela estamos atribuindo. A má notícia é que, na vida em sociedade, nossos interesses podem ser excludentes dos de outros. Outros, aliás, que também se servem dos signos. Que também lhes atribuem os sentidos que lhes são convenientes, alinhados com pretensões específicas.

Por isso, ante interesses contraditórios, haverá luta pela definição do sentido legítimo, do bom sentido. Considerado óbvio. Porque nomear não é só dar nome a coisas e a ideias abstratas. É impor certa visão e divisão do mundo que convém a quem nomeia. No caso da ética, o troféu é precioso. Afinal, a todos interessa, em algum momento da vida, participar da disputa sobre o que se deve e o que não se deve fazer.

Na particularidade de sua trajetória, todo homem vive situações que se convertem em problemas morais. Para resolvê-los, analisa as possibilidades, pondera os efeitos das possíveis condutas, formula juízos e acaba decidindo. Afinal, é preciso viver. Assim, para deliberar sobre delação de um colega e amigo que lesa o patrimônio da empresa, por exemplo, você pensaria muito. Avaliaria as consequências, tanto do silêncio quanto da delação. Conversaria com outros colegas. E, finalmente, optaria por entregá-lo ao superior hierárquico. Caso encerrado. Questão moral resolvida.

Mas quando pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda a sua particularidade, possam valer para qualquer situação semelhante, para qualquer caso, passamos da prática para uma teoria da prática, do pessoal para o impessoal, do particular para o genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. Desta forma, propõe-se que a ética seja uma teoria – ou uma ciência – da moral. Ou, esta última, objeto da primeira. Por isso, os códigos de exercício profissional bem como os desta ou daquela organização não são denominados código s de moral, mas de ética. Porque pretendem valer para qualquer um que atue nestes espaços.

Uma vez entendida e aceita esta diferença, consagrada nos manuais autorizados, sempre é possível destacar aproximações. De um lado porque uma ética que ignorasse os dilemas morais de viventes de carne e osso seria um simples arranjo lógico de máximas e princípios. Inversamente, por mais específicas e particulares que possam ser as situações que vivemos no mundo, sempre haverá que se considerar – socializados que somos – princípios éticos objetivados em cultura, em saberes práticos, em disposições. Mas aqui cabem algumas precisões conceituais.

Ética é ao mesmo tempo reflexão sobre a vida e vida pensada. Ao mesmo tempo princípio e ação. Norma e deliberação. Decisão e vida decidida. Para Aristóteles, o objeto da ética é a práxis. Para Kant, a vontade. Segundo ambos, é a ação submetida à razão. Sócrates já nos advertia que uma vida impensada, não examinada por quem a vive, não pode valer a pena ser vivida. Em contrapartida, toda ação que não estiver imbricada num processo deliberativo está excluída do campo da moral.

Muitos questionam nossa liberdade. Afinal, se tudo no universo vive regido por causalidades materiais, e a pera cai da pereira sem nunca poder se opor, por que seríamos diferentes? O que permitiria que fôssemos autores de nós mesmos, semideuses, criadores da nossa própria trajetória? Não deveríamos ser o mero resultado de vetores causais que nos determinariam absolutamente? O que nos facultaria transcender à inexorabilidade da matéria, de suas relações e fluxos?

O assunto vai longe. Aqui basta deixar claro que não há ética entre animais ou peras. Trata­ se de uma prerrogativa exclusivamente humana – justamente porque supomos que no nosso caso a vida é diferente. Que temos uma grande participação na sua definição. E que, para isso, refletimos e deliberamos. Que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

Se a liberdade, como condição da moral, enfrenta argumentos relativos ao próprio corpo, sua energia vital, seus desejos, suas paixões e também as relações com o mundo, parecem às vezes nos constranger. Afinal, estamos cercados de limites. A impressão exagerada de estar sendo vigiado a cada passo pode ser sintoma de patologia psíquica. Em certa medida, porém, indica lucidez e senso de realidade face a um mundo cada vez menos moral.

O objeto da ética não é tanto a ação, mas tudo o que possa guiá-la. Norteá-la, se for para o Norte. Orientá-la, para o Oriente, com suas regras, normas e máximas. Em suma, a ética se dispõe ao estudo de certo tipo de ação humana, normatizável pela razão, uma ética que doravante denominaremos ato moral. E que não se entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento, como em algumas psicologias e sociologias – mas como princípios seguidos livremente pelo agente.

Por causa desta interdependência entre a razão prática e a conduta, a estrutura do ato moral é complexa. Constituída por elementos subjetivos e objetivos, diria um jurista. Tais como motivação para agir, consciência dos fins visados, valores morais, consciência dos meios mais adequados para alcançá-los e materialização dos resultados.

Todo ato moral tem uma motivação. E muitas podem ser as motivações para qualquer ato. Assim, não aceitar um cargo público em um governo local sabidamente corrupto pode ter muitas motivações, como paixão por certos princípios, pela própria notoriedade ou imagem impoluta, pelo altíssimo salário que já se recebe na iniciativa privada ou pelo primo que vai assumir no lugar. Nestes casos, o sujeito tem plena consciência dos motivos de suas ações. E esta motivação consciente integra o ato moral – é sua condição.

Mas nem sempre temos essa consciência das nossas motivações. A competência para perceber os próprios afetos é muito rudimentar. A ponta de um iceberg. Uma garrafa vazia no oceano. Assim, muitas vezes, agimos em plena melancolia, por ciúme, por excitação ou ira sem nos darmos conta disso. E estas ações encontram-se, por isso, excluídas do campo da moral. Não podem ser objeto de aprovação, desaprovação ou responsabilidade. Serão levadas em conta em outras esferas, jurídica e psicanalítica, por exemplo. Afinal, alguém precisa proteger a sociedade e tentar lidar com nossos demônios.

APENAS UMA VIDA

Devido a essas nossas motivações, percebidas ou não, várias possibilidades de vida futura passam pela nossa cabeça. São os fins do ato moral. Não sei se me caso ou se compro uma bicicleta, sugere o gracejo do indeciso. Pois é. Todo ato moral implica a consciência de um fim. Um ponto de chegada. Ainda que provisório. Este fim é sempre uma antecipação mental da vida a ser vivida depois. Uma antecipação ideal. Uma ideia, portanto.

Só não se pode confundir motivação com finalidade. Uma tem certamente a ver com a outra, mas não são a mesma coisa. Motivação é energia vital, oscilação de potência, afeto, o que sentimos. O fim é planejamento, projeto, o que pensamos. Se não ficou claro, tentemos com outras palavras. Motivação é tesão. Excitação. Ganho setorizado de potência, nem sempre consciente. Fim é fantasia, imaginação, sempre consciente. De mulher com topografia generosa, em trajes mínimos, clamando pela sua aproximação física. Ou ainda, para que não me acusem de machista, de homem malhado em academia, exposto ao sol em sunga sumária.

Nem a motivação nem o fim esgotam o ato moral. Porque moral é práxis. É preciso decidir, além de antecipar. E agora você já tem todos os ingredientes para entender o que é vontade, o que significa ato voluntário. Trata-se da antecipação mental da vida, o fim, seguida da decisão de viver essa experiência.

Há uma distância entre o fim e a decisão, até porque várias vidas podem passar pela sua cabeça. São muitas as antecipações possíveis. Muitos os fins que podemos perseguir, bem como os meios para alcançá-los. E a vontade, o ato voluntário, implica a identificação do melhor para que haja decisão. Diante de várias vidas cogitadas, é preciso jogar no lixo a maioria. Porque uma só será vivida. A entendida como melhor. E essa identificação pressupõe a adoção de um critério. De um valor moral. Valores morais são critérios existenciais, a partir dos quais os fins serão valorados.

Sobre valor moral, nunca houve unanimidade. Grosso modo, há duas formas muito diferentes de concebê-lo: de um lado, a dos herdeiros de Platão, por muitos chamados hoje de objetivistas. De outro, a de seus opositores, subjetivistas ou relativistas. Muita nomenclatura para pouco entendimento. Vamos dar um jeito nisso. Se eu lhe perguntar sobre o valor didático desse meu texto, talvez você rapidamente ofereça uma resposta. “Está bem meia­ boca”, poderia dizer. O que foi preciso para que você chegasse a esta conclusão?

Muitos estão convencidos de que o valor do meu texto, como de tudo mais, é objetivo. O que isto quer dizer? Que é identificado a partir de um critério único. Critério que já está definido e que se impõe a nós. A todos nós, de forma absoluta, portanto. Assim, para muitos, como Marcel Conche, filósofo contemporâneo e excelente professor, o sofrimento de uma criança é o mal absoluto. Inaceitável em qualquer situação. Tanto como meio – para alguma coisa melhor – quanto como fim. Diferente da dor durante um tratamento odontológico, que revela um mal relativo, aceitável como meio para uma boca melhor.

Para esta concepção, o valor não depende de nada. Nem da época, o começo do século 21, nem do lugar, nem das eventuais oscilações de humor de cada um de nós. Este critério único é ideal. Uma ideia desencarnada. Um texto perfeito em si mesmo. Que não corresponde a nenhum dos que já lemos. Mas que serve de referência na hora de identificar o valor de todos eles.

Assim, como no caso do texto, haverá ideias e critérios objetivos para valorar qualquer coisa inscrita no mundo da vida, como o valor estético de uma obra musical ou literária. Ou o valor moral de um fim cogitado num certo instante. E o conhecimento destes critérios é condição de uma boa decisão moral. Ao menos segundo a perspectiva objetivista. Ou do objetivismo axiológico, para os mais pedantes, defendido por autores idealistas do nosso tempo como Max Scheler e Nicolai Hartmann.

Mas, e se não houver este gabarito absoluto para a melhor das vidas a viver? Para a boa aula? O bom romance? Ou para nada? Neste caso, tudo estaria na nossa mão. Dependeria do nosso apreço do momento. Valor inscrito no fluxo da existência. Sem referência fora dela. Sem nada nem ninguém acima, onde amarrar. Vida linkada na vida. E o todo flutuando à deriva. Os valores agora seriam relativos. A vida estaria ao sabor dos encontros com o mundo, dos afetos de Espinosa, das alegrias e tristezas, dos prazeres e das dores. Neste caso, seria bom tudo que alegra, enquanto alegra, na intensidade que alegra. E ruim o que entristece.

E agora, o que fazemos com o nosso texto? Qual o seu valor? Ora, o valor do texto estaria à mercê de tudo isto. Seria relativo, portanto. Fossem outros os leitores, o texto teria certamente outro valor. Aliás, como vocês são muitos, haverá os que se alegram mais com as coisas que digo. Para estes, o texto será melhor. Há os que já não veem a hora de terminar. Para estes, é certamente pior. Perspectiva subjetivista, portanto, ou subjetivismo axiológico, defendido em nossa época por R. B. Perry, I. Richards, Stevenon, entre outros.

CRISTALINO E ONIPRESENTE

Subjetivismo, com uma ressalva. Que esse sujeito, todo-poderoso definidor dos valores do mundo, seja entendido como o resultado, sempre provisório, de um interminável processo de socialização, num mundo social concreto, inserido histórica e geograficamente. Porque ele vive neste mundo. E está em relação ininterrupta com ele. Na impermanência dele e do mundo. Relação objetivada em encontros que vão esculpindo seu corpo e o transformando, predispondo a afetos futuros, ensinando a se alegrar com o que é alegrável. Com meios e fins morais legítimos e autorizados pela civilização. Com os troféus reconhecidos. Canalizando as energias vitais na direção do que vale a pena perseguir para que busquemos o bem e evitemos o mal. Pedra de toque de toda ética.

E quando o tema é ética, a reflexão sobre o mal se impõe. O impulso primeiro é defini-lo como o contrário do bem. Pouco enriquecedor, quando não sabemos com clareza o que vem a ser este último. Acredito até que definir o mal pelo bem é regredir em entendimento por estar convencido de que conhecemos muito melhor o mal do que o bem.

Apresento aqui uma ideia que sempre me encantou. Inspirada na leitura da obra Pensamentos, de Pascal, no século 18, um dos pesos pesados da filosofia cristã. Trata-se da assimetria entre o bem o mal. Esse último seria gigante, cristalino e onipresente. Enquanto o bem, suspeito, frágil e raro. Perspectiva que contrasta com minhas aulas de religião, nos distantes tempos do colégio jesuíta, em São Paulo, onde fiz toda a minha formação pré-universitária. Nelas, o bem e o mal eram apresentados como alternativas equivalentes. Opções equidistantes para mim.

O paralelo didático recomendado é com a assimetria, proposta por Karl Popper, entre o verdadeiro e o falso. Esse último parece estar em todas as partes. Enquanto o verdadeiro encontra-se sempre sob suspeita. Isto desde as reflexões propostas por David Hume sobre a indução. Como passar do fato à lei? Como a observação empírica de uma infinidade de fatos poderia autorizar uma lei universal? A rigor, não autoriza. O exemplo é conhecido.

Como verificar a veracidade da proposição: todos os cisnes são brancos? Por mais cisnes que tenhamos visto, mil, por exemplo, todos claros, nada garante que o milésimo primeiro seja também branco. A proposição é, portanto, inverificável. Bastaria encontrar um único cisne negro para que fosse falsa. Como a água ferver a 100 graus Celsius. Você faz a água ferver mil vezes a essa temperatura, mas nada pode nos garantir que na milésima primeira o mesmo aconteça. A assimetria é evidente. Toda assertiva tende, de certa forma, à falsidade. Está a sua espera. Condição da sua cientificidade.

O mesmo se passa com o bem e o mal. Quando julgamos que alguém agiu bem, logo nos damos conta da fragilidade de nosso juízo. A boa ação parece sempre suspeita. O bem é sempre duvidoso. Assim, dar algum trocado a um pobre pode corresponder a inúmeras motivações egoístas: aliviar algum peso de consciência, parecer generoso a terceiros, ser merecedor de alguma recompensa transcendente etc.

Em contrapartida, alguém que rouba de pobres – como no desvio de verbas públicas de programas de assistência emergencial a vitimados por alguma catástrofe natural – este age mal. Indiscutivelmente. Porque o mal se presta menos a dúvidas. É mais transparente. Cristalino. Daí a proposta de Pascal: o que eu conheço é o mal e o falso. O seu exemplo de que a castidade é um bem se prestaria a muita discussão. Não fosse pelo bem-estar que algumas aproximações físicas proporcionam, pelo fato de que a humanidade não se reproduziria. Desapareceria, portanto. Em contrapartida, o estupro é mal. Sem muita discussão.

Esta assimetria está presente nos mais diversos males. Na sua Teodiceia Da justiça de Deus, Leibniz nos propõe três tipos de mal: o metafísico (a imperfeição de não ser Deus), o físico (o sofrimento) e o moral (o pecado, a canalhice). Interessam-nos aqui o físico e o moral. O mal físico se traduz no ódio pelo mundo que provoca tristeza. Nada disso se confunde com o mal moral que é deliberação racional inadequada sobre a própria conduta. A mesma distância separa o amor do bem moral, da virtude. Amor é sentimento decorrente dos encontros com o mundo, sensação que se impõe. O amor é tudo de bom. Ame e faça o que quiser, propõe Agostinho.

Em contrapartida, virtude é amor falsificado. Parece, mas não é. É imitação de amor. Como se amor houvesse. Assim, generosidade é virtude. Deliberação moral de dar, que supre a falta de amor. Respeito é virtude. Prêmio de consolação, racionalmente escolhido, para ocupar o lugar de um amor que já se foi. Gratidão é virtude. Foi tudo que sobrou. Valeu. Valeu pelos momentos de amor compartilhados e já pretéritos. Gratidão para quando o amor acaba com dignidade.

Mas a verdade é que não amamos muito. Não amamos muita gente. Façamos a conta: filhos pequenos, filhos grandes quando não se tornaram delinquentes, cônjuges nos primeiros tempos da relação, pais quando não tiranizaram muito, alguns amigos talvez. Se espremermos, umas dez pessoas. No caso de alguém particularmente amoroso, quem sabe o dobro. Admitamos: falta muita gente. E as relações com as pessoas não podem contar com o amor. Nem esperar que você as ame. Por isso, a moral é tão importante. Deliberação autônoma. Que pressupõe alguma soberania da razão. Justamente para quando não há amor. Um sucedâneo dele. Já que não ama, delibere e faça como se amasse. Um amor prático para lmmanuel Kant. Se amássemos mais, careceríamos de menos moral.

Mas quando o mal é físico, a assimetria é mais que evidente, hiper-real. Porque o amor é escasso. E o ódio, abundante. Inesgotável. Assimetria afetiva. Excesso de mal. Mediocridade de bem. Afinal, um riso nunca compensará um choro. Um momento de tranquilidade nunca compensará um de depressão. E uma criança brincando feliz nunca compensará outra, em choque pela morte dos pais. Enquanto os orgasmos são efêmeros, em conta-gotas, contamos todas as dores aos baldes.

E não pretendemos aqui nenhuma negação da vida. Afinal, todo vivente continuará lutando pela própria potência, buscando gozar o mais possível e sofrer o menos possível. Princípio freudiano do prazer já presente em Michel de Montaigne (séc. 16). Trata-se de estender a alegria e diminuir – tanto quanto pudermos – a tristeza. Mas todo este esforço tem limites. Porque gozar sem entrave esbarra sempre na existência do outro. Questão moral por excelência. Questão relevante, quando o amor rareia.

No texto A religião nos limites da simples razão Kant começa por constatar que o mundo é mau. E que o homem é mau, jogando luzes sobre a assimetria entre o bem e o mal moral. Há quem não concorde e considere o mundo maravilhoso, quem garanta que os bons são maioria. No que me diz respeito, tendo a concordar com Kant neste ponto.

Em O homem é mau por natureza, Kant investiga a origem do mal moral. O homem teria consciência do seu dever, da lei moral, e, na hora de agir, daria um jeito de se afastar dela. Quando isto lhe conviesse. Haveria no homem uma inclinação natural ao mal. Desejado livremente. Mal radical inato na natureza humana. Para quem não está entendendo, sugere Kant, basta olhar em volta. Basta ligar a televisão. A televisão aqui ficou por minha conta, mas quanto à evidência do mal que dispensaria maiores elucubrações, está no texto, desse jeito mesmo: é só olhar em volta.

A primeira suposição, comentada por Kant, sobre a tal origem do mal moral, é a de que o homem seria mau por sua sensibilidade. Entenda­ se sensibilidade por seus afetos, inclinações corporais, instintos, pulsões. Poderiam estas ser a causa do mal moral? Teria o corpo apetites que levariam o homem a agir de forma moralmente inaceitável? Estaria nas vísceras a inclinação natural para o mal? No caso de um indivíduo que lança mão de uma arma de fogo e dispara contra toda a sua família, ou de outro que viola uma criança, agiriam simplesmente por raiva e apetite erótico?

Não, responde Kant. Porque se assim fosse, o mal moral seria ódio. E não é. Como também não é amor. Se o homem fosse simplesmente regido pelos instintos, seria bestial. Não transcenderia a mais estrita animalidade. Os animais, esses não têm moral. Falta-lhes, para tanto, justamente a condição de autonomia deliberativa. Um lobo, um javali ou um polvo não são maus. São o que são – estão fora da moral. E o homem não se confunde com eles.

NEM ANIMAL NEM DEMÔNIO

Bem, já que a origem do mal não está nos apetites, onde mais poderia estar? Na razão talvez? Na instância de liberativa? Adviria o mal de uma perversão da consciência moral? De um vício da razão prática? De uma vontade absolutamente maligna? Optaria o homem pelo mal, na hora de agir, por uma característica intrínseca ao próprio pensamento?

Também não, dirá Kant. Porque se assim fosse, não poderia haver consciência do mal. Mal que estaria no homem. Que lhe seria intrínseco. Não haveria, em relação ao mal, nenhum recuo. Distanciamento. Condição da consciência. O homem, neste caso, seria o próprio demônio. Que faz o mal pelo mal. Mal como motivação. Mal como fim. Mal como decisão. O que também não é o caso. Segundo Kant o homem sempre faria o mal visando algum tipo de bem ou vantagem para si próprio.

Parece que Kant, tão preocupado com o rigor de suas abstrações, não tinha tempo para acompanhar a atualidade policial do seu tempo. Chacotas à parte, sempre se poderá propor a Kant a mesma recomendação, a de olharem volta. Será que nenhuma das atrocidades que diariamente são cometidas não configurariam o tal mal pelo mal? Em defesa do autor, sempre se poderá argumentar que sádicos e perversos agem mal porque têm algum prazer nisto. Se assim não fosse, seriam demônios, na categorização kantiana.

Bem, podemos concluir que o homem não é animal nem demônio. Mas se a origem do mal não está na sensibilidade, coisa de corpo e de animal, nem na razão prática, coisa de alma e de demônio, onde poderia estar? Aqui está o pulo do gato da teoria kantiana sobre o mal. A sua origem estaria no encontro dos dois. Encontro da sensibilidade, apetites e pulsões com a consciência moral, com a razão prática. E qual seria o problema nesse encontro entre o que sentimos e o que pensamos? O mal estaria na inversão da hierarquia legítima entre ambos. Numa defasagem entre o que deveria acontecer e o que acaba acontecendo.

Comecemos pelo que deveria acontecer. Sempre segundo Kant, qual seria a relação hierárquica legítima entre a consciência moral e os apetites do corpo? A prevalência da prime ira, é claro. Senão não seria Kant. De tal maneira que os últimos devem ser satisfeitos dentro dos limites e das condições definidos pela primeira. Em outras palavras, a satisfação deve ser buscada de acordo com a lei moral. Se preferirem, a busca da felicidade deve estar subjugada ao dever.

Passemos, agora, ao que acaba acontecendo. A inversão desta hierarquia legítima. Isto é, na adequação indevida das normas aos apetites. No alinhamento do dever aos interesses do momento. Na lei como trampolim para a felicidade. Quando só deveríamos aceitar o gozo e a felicidade na medida em que estivessem conforme a lei moral, o que fazemos é respeitar esta última nos limites e nas condições que nos permitam gozar e buscar o mais eficazmente possível a felicidade.

Perceba que nesta reflexão kantiana, a busca da felicidade pode ser o próprio mal. Aqui a felicidade não é o bem supremo. Está longe de ser o máximo. Não deve ser entendida como tudo de bom. Não representa o maior dos troféus. E jamais poderia reinar como referencial maior na hora de pensar a vida boa e muito menos a melhor forma de conviver.

E aqui o leitor conclui. No período em que o homem acreditava fazer parte de uma engenhoca ordenada, a vida boa dependia da harmonia entre o vivente e o todo. Neste momento, a felicidade era bem supremo. Todos os esforços deveriam para ela convergir. A partir do instante em que o homem colocou em xeque a existência de um todo ordenado, comparável a um organismo vivo, a reflexão sobre a vida boa exige algum tipo de entendimento entre nós. O alinhamento agora é contrato. É pacto. A confiança é no comportamento do outro. A felicidade de cada um perdeu prestígio. A convivência tornou-se soberana.

CLÓVIS DE BARROS FILHO é professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Graduado em direito, filosofia e jornalismo, mestre em ciência política, doutor em comunicação.

GESTÃO E CARREIRA

As dimensões da integridade

AS DIMENSÕES DA INTEGRIDADE

Basta dar uma olhada nos jornais para nos depararmos com condutas eticamente questionáveis no mundo dos negócios. Não há setor que fuja dessa realidade. E a notícia pode ter origem em qualquer país, inclusive naqueles que tomamos por exemplares. Porém, seria um erro pensar que a ética é uma questão individual. O ser humano vive e atua em sociedade. Portanto, não podemos deixar de considerar o impacto das nossas decisões nos outros nem a influência dos outros em cada um de nós. O que podemos fazer a respeito disso? A melhor maneira de evitar condutas imorais não é tanto uma questão de marcar os limites do não ético, mas sim fomentar um comportamento íntegro. A integridade se compõe de três dimensões:

INTEGRIDADE NO QUE PENSAMOS.

Chamamos de oportunista alguém que não se mantém fiel a uns valores e que atua segundo as vantagens de cada ocasião. Tendo, e mantendo, uns princípios e valores morais, asseguramos um entorno de liberdade – tanto do ponto de vista individual, porque evita que percamos de vista o que consideramos importante, quanto do ponto de vista social, porque nos liberam da arbitrariedade de quem ostenta o poder em cada momento. Quando não nos deixamos guiar pela força da razão, acabamos sucumbindo à razão da força.

INTEGRIDADE NO QUE DIZEMOS.

Uma condição necessária à integridade é a veracidade. Dificilmente diremos que alguém é íntegro se não diz as coisas como são ou se expressa coisas diferentes das que pensa. A falta de veracidade prejudica profundamente a confiança, algo que se deve ter muito presente na comunicação interna e externa da empresa. De toda forma, a veracidade não significa que todos devam saber tudo. Há ocasiões em que a integridade obriga a calar, por exemplo, como acontece com o “sigilo profissional”.

INTEGRIDADE NO QUE FAZEMOS.

Uma pessoa íntegra cumpre o que anuncia, sem fissuras entre suas palavras e seus atos. É o oposto do fingimento, que consiste em dizer uma coisa e fazer outra, tanto por uma vontade débil como por uma intenção viciada (prometeu-se algo que não se pensava cumprir). Um aspecto da integridade é a coerência entre o que pensamos e o que fazemos. Há uma contínua retroalimentação entre essas duas ordens, de tal forma que, como disse o filósofo Gabriel Marcel, “se não vive como pensa, acaba pensando como vive”.

 

JOAN FONTRODONA – Professor de ética nos negócios e diretor acadêmico do Center for Business in Society, e Pablo Sanz, assistente de pesquisa no Departamento de Ética nos Negócios, ambos do Iese Business School, da Espanha