ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2:16-18

 A Matança dos Inocentes

Vemos aqui:

I – O ressentimento de Herodes pela partida dos magos. Ele havia esperado longamente pelo retorno deles; achava que, embora fossem demorar, não o decepcionariam e que iria esmagar o seu rival na sua primeira aparição. Mas ficou sabendo que eles haviam partido por outros caminhos e isso aumentou o seu ciúme e o levou a suspeitar que estavam agindo segundo os interesses desse novo Rei. Isso o deixou excessivamente irado, e também desesperado e insultado por acreditar que havia sido enganado. Observe que a inveterada corrupção se avoluma nos poderosos pelas obstruções que encontram ao seu pecaminoso empreendimento.

 

II – Apesar do acontecido, seu artifício político era eliminar aquele que nascera como Rei dos judeus. Se não tinha condições de alcançá-lo através de uma execução particular, ele não tinha dúvidas de envolvê-lo num golpe generalizado que, como a espada da guerra, iria devorar uns e outros. Essa seria uma obra decisiva; desse modo, aqueles que tinham o propósito de destruir a sua própria iniquidade deveriam não deixar de destruir todas as suas iniquidades. Herodes era um idumeu e dentro dele havia nascido e se desenvolvido uma inimizade contra Israel. Doegue era um edomita que, por causa de Davi, tinha sacrificado todos os sacerdotes do Senhor. Era estranho que Herodes pudesse encontrar pessoas tão desumanas e capazes de serem usadas para realizar um trabalho tão sangrento e bárbaro. Mas às mãos iníquas nunca faltam ferramentas iníquas com as quais possam trabalhar. Os infantes sempre haviam gozado de uma proteção especial, não só das leis humanas, como também da própria natureza humana. No entanto, foram sacrificados à ira desse tirano, sob o qual, assim como também sob Nero, a inocência nada representava quando se tratava de sua segurança. Herodes havia sido, durante todo o seu reinado, um homem sanguinário. Não fazia muito tempo que ele mandar a destruir todo o Sinédrio, isto é, o grupo de juízes judeus. Mas o sangue, para o sanguinário, é como a bebida para o beberrão: “Quanto mais bebem, mais sedentos ficam”. Herodes tinha cerca de setenta anos de idade, de modo que essa criança, com menos de dois anos de vida, provavelmente nunca iria lhe causar qualquer perturbação. Ele também não era muito apega do aos próprios filhos, ou tinha preferência por eles, pois havia anteriormente mandado matar dois deles, Alexandre e Aristóbulo, e depois a seu filho Antípatre, apenas cinco dias antes de morrer. Ele fez isso apenas para satisfazer à sua cruel ambição e orgulho. “Tudo que caía em sua rede era peixe”.

Observe as grandes medidas que ele tomou:

1.Quanto à idade, mandou matar todos que tivessem dois anos ou menos. É provável que nessa época o bendito Jesus tivesse menos de um ano, no entanto Herodes incluiu todos que tivessem até dois anos para ter a certeza de que a sua presa não escaparia. Esse tirano não se preocupava com quantas cabeças pudessem rolar, mesmo de inocentes, desde que não escapasse aquele que ele cria ser o culpado.

2.Quanto ao lugar, mandou matar todos os meninos, não só em Belém, mas também os que viviam nos arredores, e em todas as comunidades daquela região. Isto era ser “demasiadamente ímpio” (Eclesiastes 7.1 7). O ódio, quando nasce de uma ira descontrolada, e é armado de um poder ilegítimo, transporta muitas vezes o homem aos mais absurdos e injustos estágios da crueldade. Deus não estava sendo injusto quando permitiu que isso acontecesse; toda vida está penhorada à sua justiça desde que começa. Quando o pecado foi introduzido pela desobediência do homem, a morte veio com ele. Nada devemos supor além dessa culpa geral; não devemos supor que essas crianças fossem sofrer tais coisas por serem os maiores pecadores que existiam em Israel. Os julgamentos de Deus são profundos. A enfermidade e a morte das crianças são reflexos do pecado de Adão e Eva. No entanto, devemos considerar a morte desses infantes sob um outro aspecto; ela representou o seu martírio. Como começou cedo a perseguição contra Cristo e o seu reino! Você pensa que Ele veio para trazer paz à terra? Não, mas uma espada, urna espada igual a essa (cap. 10.34,35). Aqui foi introduzido um testemunho passivo do Senhor Jesus. Da mesma forma que, quando ainda no ventre materno, Ele foi reconhecido pelo salto de alegria de outra criança em um outro ventre, quando dele se aproximou, também agora, quando tinha apenas dois anos, Ele teve outras testemunhas contemporâneas, com idade próxima à sua. Elas derramaram seu sangue por Ele e, mais tarde, Ele mesmo derramou seu sangue por elas. Essa era a infantaria do nobre exército dos mártires. Se essas crianças foram então batizadas com sangue, embora o delas próprias, dentro da Igreja triunfante, poderíamos dizer que com o que receberam no céu elas foram plenamente recompensadas pelo que perderam na terra. Da boca desses infantes, Deus recebe o perfeito louvor; doutro modo, o Supremo não permitiria tal aflição.

A tradição da igreja grega diz que o número de crianças mortas chegou a 14.000, mas isso é um grande absurdo. Acredito que mesmo nas cidades mais populosas do mundo, se tivesse sido registrado semanalmente o número de crianças nas cidades do sexo masculino, não encontraríamos muitas com menos de dois anos, quanto mais numa cidade que nem chegava a ser a quarta parte disso. Mas este é um exemplo da vaidade da tradição. É estranho que esta história não tenha sido incluída nos relatos de Josefo, que escreveu algum tempo depois de Mateus. É provável que Josefo não tenha registrado algumas informações para não favorecer ou reforçar a história do cristianismo, pois ele era um judeu muito zeloso. De qualquer modo, se esse fato não tivesse sido verdadeiro e muito bem documentado, ele o teria contestado. Macróbio, um outro escritor pagão, nos diz que César Augusto, ao saber que entre as crianças menores de dois anos assassinadas por ordem de Herodes estava o seu próprio filho, escarneceu dele dizendo que era melhor ser o porco de Herodes do que seu filho. A tradição do país proibia que alguém matasse um porco, mas nada impedia que matasse seu próprio filho. Alguns acreditam que ele tinha um filho pequeno num berçário em Belém; outros pensam que, por engano, os dois acontecimentos foram confundidos, o assassinato dos infantes e o do seu filho Antípatre. Mas o fato de a igreja de Roma colocar os Santos Inocentes, como são chamados, no seu calendário e consagrar a eles um dia em sua memória, é fazer como seus predecessores que construíram as tumbas dos profetas, pois essa igreja muitas vezes justificou os seus bárbaros massacres, às vezes até mesmo sobrepujando aquele que foi cometido por Herodes.

Alguns chegam a observar um outro desígnio da Providência no assassinato das crianças. Parece que em todas as profecias do Antigo Testamento, Belém era o lugar e esse era o tempo do nascimento do Messias. Portanto, se todas as crianças de Belém nascidas nessa época foram assassinadas, com exceção de Jesus, que escapou, somente Ele podia reivindicar ser o Messias. Herodes acreditava ter frustrado todas as profecias do Antigo Testamento, e derrotado as indicações da estrela e a piedade dos magos, livrando o país desse novo Rei. Tendo queimado a colmeia, concluiu que havia matado a abelha rainha. Mas do céu Deus o ridicularizou e menos prezou. Quaisquer que sejam os ardilosos e cruéis artificias do coração dos homens, os desígnios do Senhor permanecem imutáveis.

 

III – O cumprimento das Escrituras (vv. 1 7,18). Então a profecia se cumpriu (Jeremias 31.15) e uma voz foi ouvida em Ramá. Observe e adore a plenitude das Escrituras! Essa profecia havia se cumprido na época de Jeremias, quando Nebuzaradã, depois de ter destruído Jerusalém, levou todos os prisioneiros para Ramá (Jeremias 40.1), onde fez com eles o que bem entendeu, com a espada ou o cativeiro. Então, o apelo de Ramá foi ouvido até Belém (pois essas duas cidades, uma na região de Judá e a outra na de Benjamim, não eram distantes); agora a profecia cumpriu-se novamente na grande tristeza pela morte desses infantes. A Escritura havia se cumprido:

1.No lugar da lamentação. O pranto foi ouvido desde Belém até Ramá, pois a crueldade de Herodes havia se estendido desde toda a costa de Belém até a região de Benjamim, e entre os filhos de Raquel. Alguns acreditam que as terras em volta de Belém eram chamadas de Raquel, por ter sido o lugar onde ela morreu e foi sepultada. O sepulcro de Raquel estava junto a Belém (Genesis 35.16,19). Compare com 1 Samuel 10.2. O coração de Raquel estava sobre os seus filhos, como estava sobre o seu filho naquele trabalho de parto que a levou à morte e a quem ela deu o nome. -de Benoni, que significa filho do meu sofrimento. Essas mães eram como Raquel, moravam perto do seu túmulo e muitas delas eram suas descendentes. Portanto, seus lamentos foram elegantemente representados no pranto de Raquel.

2.Na intensidade dessa manhã. Aconteceu uma lamentação e um pranto, um grande pranto; porém, este era demasiadamente pequeno para refletir o sentimento causado por essa exacerbada calamidade. Houve um grande clamor no Egito, quando os primogênitos foram mortos, e o mesmo aconteceu aqui, quando novamente os primogênitos foram mortos, por quem sentimos uma particular ternura. Ali teve lugar uma representação do mundo em que vivemos. Podemos ouvi-la nos lamentos, no pranto e na tristeza, vemos nas lágrimas dos oprimidos, alguns por uma razão, outros por outra. Nossos caminhos atravessam um vale de lágrimas. Essa dor era tão grande que as pessoas não queriam ser confortadas. Elas se endureceram em meio a tamanha dor, e desejavam se lamentar profundamente. Bendito seja Deus, não existe nenhum motivo para tristeza nesse mundo – não, nem aquela provocada pelo próprio pecado – que justifique a atitude de recusarmos o conforto! Eles não queriam ser consolados porque as crianças não estavam mais na terra dos vivos, não estavam mais nos braços de suas mães. Como realmente não estavam mais ali, haveria alguma desculpa pela tristeza, porém não poderiam perder as esperanças; pois sabemos que não estavam perdidas – tinham apenas partido precocemente. Se nos esquecermos disso, perderemos o fundamento do nosso conforto (1 Tessalonicenses 4.13). Alguns entendem essa dor dos belemitas como um castigo por terem desdenhado a Cristo. Aqueles que não se regozijaram com o nascimento do Filho de Deus foram justamente levados a chorar a morte dos seus próprios filhos, pois haviam apenas se admirado pelas notícias trazidas pelos pastores, mas não as receberam de boa vontade.

A citação dessa profecia pode servir para eliminar a objeção que alguns poderiam fazer contra Cristo, em razão dessa triste providência. “Pode o Messias, que deve ser o Consolo de Israel, ser apresentado com toda essa lamentação?” Sim, pois assim havia sido profetizado, e as Escrituras devem ser cumpridas. Além disso, se examinarmos melhor essa profecia, iremos descobrir que esse amargo lamento em Ramá representava apenas o prólogo de uma grande alegria, pois está escrito: “Teu trabalho será recompensado e existe esperança no fim”. Ou seja, quanto piores forem as coisas, mais rapidamente elas serão reparadas. Para eles, havia nascido uma criança, plenamente suficiente para reparar as perdas que sofreram.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O poder dos hormônios

 

O PODER DOS HORMÔNIOS

 O estrogênio não influi apenas na sexualidade feminina. Tem efeitos também em diversas capacidades cognitivas – tanto no homem quanto na mulher.

De forma quase imediata, a palavra estrogênio evoca sexo e provoca associações quase sempre direcionadas à mulher. Esse hormônio sexual deve sua grande notoriedade à participação decisiva na condução de todos os processos do corpo feminino necessários à reprodução. Controla o ciclo menstrual, exerce influência no amadurecimento do óvulo a ser fecundado, dispara a ovulação e prepara o útero para a implantação do embrião. Sem o estrogênio, produzido em grande parte nos ovários – e existente, aliás, em variações muito semelhantes, razão pela qual se fala também em “estrogênios”, no plural -, vida nenhuma se desenvolveria no ventre materno. Na puberdade, seus níveis crescentes arredondam as formas femininas, trazendo a maturidade sexual. Em suma: é ele que faz das mulheres, mulheres. Não por acaso, o estrogênio é tido como o hormônio tipicamente feminino, e isso fez com que especialistas acreditassem durante muito tempo que sua atuação se restringia aos órgãos fundamentais para a reprodução. Mas posteriormente se verificou a existência de um complicado circuito regulatório por trás do controle dos níveis de estrogênio. Por um lado, mensageiros químicos do hipotálamo e da hipófise influem na produção hormonal dos ovários; por outro, o próprio estrogênio atua também sobre essas duas estruturas cerebrais (veja quadro na pág. 8). Assim sendo, ficou claro que nosso órgão do pensamento – ou ao menos partes dele – é sensível ao hormônio sexual.

Hoje, porém, os pesquisadores sabem que os estrogênios exercem sobre o cérebro influência muito maior que o mero controle da produção do hormônio sexual. Eles contribuem em diversas capacidades cognitivas, tais como o aprendizado e a construção da memória; controlam quais estratégias de comportamento ou de resolução de problemas vamos adotar; e também regulam nossa vida emocional. Vários estudos indicam que as células nervosas de algumas regiões cerebrais precisam dos estrogênios para entrar e permanecer em funcionamento. De resto, isso vale também para os homens, em cujo cérebro o mais importante hormônio sexual masculino – a testosterona – é transformado em estrogênio.

As primeiras indicações de que o estrogênio auxilia o trabalho cerebral provêm do início da década de 70, quando pesquisadores descobriram em células nervosas do cérebro de ratos moléculas de proteína que só se ligam ao hormônio sexual feminino. Por intermédio desses receptores o mensageiro químico transmite informações para as células nervosas. Receptores de estrogênio, porém, possuem não apenas neurônios transmissores de sinais, mas também outras células cerebrais, como as micróglias, importantes para a defesa imunológica, e as macróglias, que atuam como células de apoio e nutrição. É provável que o estrogênio cumpra tarefas distintas nos diferentes tipos de células, mas essas funções ainda não foram explicadas. Experiências com animais comprovam que o hormônio reprime a reação natural de defesa das micróglias contra estímulos inflamatórios. Isso pode ser muito útil, por exemplo, nos casos de esclerose múltipla ou da doença de Alzheimer, já que nessas duas enfermidades proteínas anômalas se depositam nos neurônios provocando um estado inflamatório que danifica e, em última instância, destrói as células nervosas.

Nas macróglias, o hormônio sexual cumpre função clara­ mente trófica. Isso significa que ele estimula o metabolismo dessas células. Sob influência do estrogênio, as macróglias multiplicam a produção dos hormônios do crescimento, que, por sua vez, põem à disposição dos neurônios todas as substâncias de que necessitam para um funcionamento otimizado. Não apenas experiências com animais, mas também a observação de seres humanos indica que os estrogênios oferecem proteção contra algumas doenças neurodegenerativas, ou ao menos retardam seu avanço. Muito provavelmente, eles exercem esse efeito protetor não nos neurônios em si, mas sobretudo por intermédio dos receptores nas células gliais.

Segundo descoberta recente, o estrogênio é capaz também de amenizar as consequências de um derrame cerebral. Sob o comando de Phyllis White, pesquisadores da Universidade da Califórnia removeram os ovários de camundongos, limitando a produção natural de estrogênio. A seguir, dividiram os roedores em dois grupos, um dos quais recebeu estrogênios em baixa dosagem. Uma semana depois, bloquearam brevemente o fluxo de sangue em determinada artéria do cérebro, desencadeando um derrame. Então, passados poucos dias, compararam os vestígios do experimento deixados no cérebro.

Nos camundongos submetidos à “terapia de reposição hormonal”, os danos foram visivelmente menores. Segundo Phyllis, o estrogênio torna mais lento o avanço das lesões nas células induzidas pelo derrame. “Mais neurônios sobre­ vivem, sobretudo no córtex cerebral.” Em especial durante a fase final de um derrame, muitas células cerebrais sucumbem à chamada morte celular programada, mediante a qual o corpo se livra até de células pouco danificadas. O estrogênio parece limitar esse processo, também conhecido como apoptose. E mais: exerce um efeito positivo sobre o crescimento de novos neurônios.

O hormônio sexual transformou-se em tema discutidíssimo nas neurociências não só graças a essa atuação neuro protetora. Interesse científico semelhante desperta a observação de que o estrogênio influencia diversas esferas cognitivas, como aprendizado, memória e comportamento. Afinal, independentemente de estereótipos e clichês, não há como ignorar a “pequena diferença” entre os sexos no tocante à prevalência de certos talentos específicos em homens e mulheres. Hormônios sexuais dão aí sua contribuição, e disso existe comprovação bastante convincente: nas mulheres, determinadas capacidades cognitivas se alteram de acordo com o nível do hormônio.

Não faz muito tempo, Onor Güntürkün, biopsicólogo do Instituto de Neurobiologia Cognitiva da Universidade do Ruhr, Alemanha, começou a investigar como voluntárias se saíam nos chamados testes de rotação mental em momentos diversos de seu ciclo menstrual. A tarefa a cumprir nesse teste é girar na mente uma figura geométrica. Ele avalia, portanto, nossa capacidade de visualização espacial. E, vejam só: durante a menstruação, quando os hormônios sexuais se encontram nos níveis mais baixos, as mulheres se saíram tão bem quanto os voluntários do grupo de controle. Ao final do ciclo, porém, quando os níveis de estrogênio sobem, o desempenho delas caiu sensivelmente. Mas melhorou em outro teste realizado paralelamente, no qual o objetivo era encontrar palavras apropriadas. Os resultados comprovam que as habilidades espaciovisuais das mulheres não são, em essência, inferiores às dos homens: o que ocorre com elas é, antes, uma oscilação mais forte do nível de estrogênio no cérebro, deslocando a ênfase de um talento para outro.

Também os ratos exibem certos comporta­ mentos específicos de cada sexo. Como nos humanos, o nível de estrogênio parece desempenhar aí algum papel. Nos ratos, salta aos olhos sobre­ tudo que machos e fêmeas não demonstrem o mesmo grau de interesse por um novo ambiente. Postos em território desconhecido, e em companhia de três objetos diferentes – uma garrafa, um tubo e uma bola, por exemplo -, as fêmeas põem-se no primeiro dia a examinar seu entorno de forma muito mais intensa que os machos.

Com o tempo, seu ímpeto investigativo decresce, mas torna a despertar de imediato se há um rearranjo dos objetos na gaiola. Isso, porém, acontece apenas com as fêmeas prontas para conceber, com baixos níveis de estrogênio. Somente elas inspecionam o ambiente modificado com curiosidade contínua. Os companheiros revelam de fato algum breve interesse, mas seu ímpeto investigativo torna a ceder com rapidez. Contudo, se as fêmeas não estão em fase de concepção, apresentando níveis altos de estrogênio, o novo arranjo do ambiente lhes é totalmente indiferente. Essa espécie de “balizamento hormonal do comportamento” faz todo o sentido. Provavelmente, fêmeas prontas para conceber tendem, na época da ovulação, a proceder a uma extensa investigação de se u entorno porque assim aumentam suas chances de encontrar um macho disposto ao acasalamento. Mesmo depois do parto, os níveis de estrogênio permanecem baixos, mas o ímpeto investigativo da mãe prossegue, o que lhe facilita proteger o rebento de eventuais perigos e prover-lhe comida suficiente.

Estudos como esse não deixam dúvida quanto à conexão entre os níveis de estrogênio e de desempenho de determinadas funções cognitivas, uma relação capaz de explicar certas diferenças entre os sexos. Pesquisas realizadas com o auxílio da ressonância magnética funcional mostram ainda que, já de antemão, homens e mulheres não utilizam as mesmas regiões cerebrais no cumprimento de algumas tarefas. Conforme se verificou em experiências com voluntários de ambos os sexos, quando se trata, por exemplo, de encontrar a saída deum labirinto virtual, ativam-se nas mulheres regiões nos lobos parietal e frontal direitos do córtex, ao passo que, nos homens, são neurônios do hipocampo que se agitam. Apesar disso, tanto homens como mulheres muitas vezes encontram a solução com a mesma rapidez. Seus cérebros, portanto, têm igual desempenho, embora adotem caminhos diversos.

A fim de descobrir como os estrogênios in­ fluem nessa complexa interação, pesquisadores passaram a investigar que regiões cerebrais possuem, afinal, células nervosas com acoplamentos compatíveis. A concentração de receptores de estrogênio é particularmente alta no hipotálamo e na chamada área pré-óptica. Era de esperar, uma vez que o hipotálamo integra o circuito regulador da síntese de estrogênio e, por meio de mensageiros químicos próprios, estimula a produção de hormônios sexuais. Quanto à área pré-óptica, ela parece participar no balizamento do comportamento reprodutor, ao menos nos animais. A hipótese é admissível, já que se trata de um hormônio sexual. Mas ocorre que também no hipocampo, e no córtex pré-frontal se encontram receptores de estrogênio em abundância. E essas são regiões vinculadas a funções intelectuais mais elevadas, tais como o aprendizado, a memória e o pensamento abstrato.

Experiências com camundongos e com ratos que tiveram os ovários removidos visando a diminuição do nível natural de estrogênio demonstraram que, após a remoção, os animais passaram a se sair muito pior em diversas tarefas de aprendizado e em testes de memória. Doses do hormônio, porém, anularam esse efeito negativo. Portanto, deve haver alguma ligação entre o estrogênio e a atividade no hipocampo, um centro de aprendizado.

Com o intuito de esclarecer essa conexão, a neurobióloga Catherine Woolley, da Universidade Rockefeller, em Nova York, passou a pesquisar as sinapses das células nervosas. É nesses pontos de contato que acontece a transmissão da informação entre os neurônios, e eles se situam nos chamados espinhos dendríticos – pequenos apêndices dos dendritos. Quanto mais ligações sinápticas existirem numa rede neuronal, melhor a transmissão. E, na linguagem do cérebro, aprender alguma coisa nada mais é que estabelecer novas sinapses e intensificar as conexões já existentes.

No hipocampo, os neurônios cultivam um gosto particular pelo contato: uma única célula nervosa pode estar em contato sináptico com até 20 mil outras. Quando estamos em processo de aprendizado, esse número comprovadamente aumenta. Como descobriu há alguns anos o grupo comandado por Catherine, com o auxílio de seções do cérebro com coloração especial, o estrogênio estimula a formação de novos es­ pinhos dendríticos em determinados neurônios do hipocampo. Em 2001, Catherine e seu colega Bruce McEwen demonstraram que os espinhos adicionais não apenas fortalecem as conexões já existentes como também estabelecem novos contatos com outras células nervosas. Estudos equivalentes foram efetuados com fêmeas adultas de rato. O resultado ressalta acima de tudo como o cérebro permanece maleável mesmo na idade adulta. É à enorme plasticidade desse órgão que devemos o fato de uma antiga crença felizmente não corresponder à realidade: a de não ser possível aprender na velhice. É possível sim.

Os resultados da pesquisa também despertaram a esperança de, com o estrogênio, podermos desenvolver um novo medicamento contra a doença de Alzheimer, por exemplo, que causa a morte dos espinhos dendríticos no hipocampo. Em consequência disso, vai desaparecendo o poder da memória, que já não aceita novos dados. E outras capacidades cognitivas sofrem perdas crescentes, como a de orientação e visualização espacial. Considerando-se que o estrogênio dá suporte à formação de novas conexões sinápticas, esse hormônio talvez detenha a demência, ou desacelere seu avanço.

Mas as ambições de alguns cientistas vão mais longe, alimentadas pela observação de que, em todos nós, o número de espinhos dendríticos no hipocampo diminui com o tempo, assim como nosso desempenho intelectual decresce com a idade. Daí a ideia de empregar o estrogênio como o chamado cognitive enhancer – ou seja, como remédio para a melhora direcionada da memória e da capacidade de aprendizado.

Bruce McEwen, neuroendocrinologista da Universidade Rockefeller, pesquisa os mecanismos por meio dos quais o hormônio sexual feminino estimula, no plano molecular, o crescimento dos espinhos dendríticos nos neurônios do hipocampo. Para ele, está claro que esse mensageiro químico fortalece as funções de aprendizado e memória normais. “Mesmo sem a presença do estrogênio, há ainda um sem-número de ligações sinápticas no hipocampo. Nossos trabalhos mostram, porém, que, sem o hormônio, essas redes não operam com seu melhor rendimento no armazenamento e na evocação de determinados conteúdos de memória.”

O pesquisador defende uma espécie de terapia de reposição hormonal para o cérebro, da qual se beneficiariam sobretudo mulheres de mais idade. A razão para tanto é que, com a menopausa, os ovários praticamente param de sintetizar estrogênio. Sintomas como as ondas de calor e também os problemas psíquicos de que tantas mulheres sofrem durante essa fase parecem ter vínculo causal com a relativa escassez do hormônio-isso porque, em geral, as queixas diminuem com a aplicação de estrogênio.

Nesse meio tempo, também o desempenho cognitivo de mulheres na menopausa já foi objeto de diversos testes. Os resultados são contraditórios. Em muitos estudos, o estrogênio melhora a capacidade de aprendizado, mas somente em relação a tarefas que demandem a utilização da memória verbal.

É para essa atuação seletiva que nos chama a atenção a psicóloga Donna Korol, da Universidade de Illinois. Ela se dispôs a investigar se, em ratos jovens que tiveram os ovários removidos, doses de estrogênio exerciam influência sobre determinadas estratégias de resolução de problemas. Com esse objetivo, aplicou dois testes aparentemente semelhantes, cujas soluções, porém, demandam do cérebro a ativação de redes neuronais distintas. Em essência, os ratos tinham de aprender a encontrar comida num labirinto. No teste A, a comida fica sempre no mesmo lugar, mas altera-se o ponto a partir do qual os ratos dão início à busca. Os animais que receberam estrogênio apreenderam o princípio do teste com muito mais rapidez do que os companheiros privados do hormônio.

Mas esses últimos foram muito superiores no teste B, em que o ponto de partida também é alterado, mas o rato sempre encontra sua comida, bastando para tanto que ele vire à direita no primeiro corredor. De acordo com Donna, o fato de os animais com deficiência de estrogênio terem aprendido a cumprir a tarefa com mais rapidez contradiz a noção de que o hormônio prestaria ajuda generalizada ao órgão do pensamento. “Se o estrogênio melhora nossa capacidade geral de aprendizado, então os resultados dos dois testes teriam de ser iguais.” Na opinião da psicóloga, o nível do hormônio sexual determina, antes, a estratégia cognitiva com o auxílio da qual o cérebro se lança à solução de um problema. “O estrogênio de fato favorece algumas formas de aprendizado, mas inibe outras.” E, mais importante: “Sem esse mensageiro químico, o cérebro trabalha de modo diferente, mas continua trabalhando bem”.

Os estudos de Donna Korol lançam nova luz sobre o declínio da capacidade cognitiva que muitas mulheres sentem após a chegada da menopausa. Em seu livro Animal researchand human hea/th, Don na defende a tese de que o nível decrescente de estrogênio pura e simplesmente altera o modo como o cérebro trabalha – direcionando-o para pontos que são fortes sobretudo nos homens, como a capacidade de orientação espacial. “Depois da menopausa, as mulheres poderiam melhorar seu desempenho em muitas tarefas se encarassem a coisa toda de maneira diferente”, explica. “Mas percebem as alterações provocadas pelo declínio hormonal como piora.”

Descobrir e fazer uso de novas forças decerto não é fácil, e Donna Korol ainda não ofereceu comprovação definitiva de sua teoria. Ainda assim, seus resultados parciais ensejam algumas dúvidas quanto à ideia de que, depois da menopausa, o cérebro feminino se beneficiaria como um todo de uma espécie de terapia de reposição de estrogênio. Certo, porém, é que o estrogênio pode faze r muito mais que dar às mulheres aparência diferente da masculina. Por meio de receptores em regiões cerebrais como o hipocampo, o mais importante hormônio sexual feminino contribui para muitas “pequenas diferenças” no modo de pensar e nos talentos específicos de homens e mulheres. Mas enquanto os efeitos do estrogênio sobre o cérebro não forem conhecidos com exatidão, é necessário conter a euforia. Ou não servem de advertência as acaloradas discussões da atualidade a respeito da ampliação do risco de câncer em decorrência de terapias de reposição hormonal?

 

 

ULRICH KRAFT – é médico e colaborador da revista GehirnflGeist.

GESTÃO E CARREIRA

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A JUNIORIZAÇÃO DO RH

Profissionais cada vez mais jovens ingressam na área de recursos humanos. Mas a falta de experiência pode afetar as boas práticas de gestão de pessoas e o negócio da companhia.

 Há algum tempo, a pouca idade deixou de ser um impeditivo para um profissional assumir cargos de gerência, diretoria e até presidência. Segundo uma pesquisa da consulto- ria Hay Group, de 2014, feita com 105 empresas com faturamento acima de 50 milhões de reais, um em cada dez CEOs tinha menos de 40 anos de vida. Mas, se antes a procura pelos mais jovens se dava porque faltava gente para preencher as vagas em aberto, com a crise e a necessidade de reduzir custos, o motivo se tornou outro: os salários mais baixos. Um exemplo disso é que na contramão do crescente desemprego entre os profissionais com carteira assinada, de acordo com a Catho, as oportunidades para os estagiários aumentaram em 36%, em 2015. O fenômeno da juniorização da mão de obra, já vivida por outras áreas, também chegou ao departamento de recursos humanos. Em 2015, das companhias listadas entre as 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar (pesquisa que é realizada há 20 anos pela revista VOCÊ S/A, em parceria com a Fundação Instituto de Administração), apenas 23% do time de RH tinha mais de 40 anos. “A tecnologia fez com que alguns processos demandassem profissionais mais executores. Aliado a isso, veio a necessidade de enxugar orçamentos. Diminuíram-se os cargos seniores e aumentaram os analistas”, diz José Augusto Minarelli, presidente da consultoria de gestão Lens & Minarelli. Um dos riscos é de a área de recursos humanos perder o status estratégico que levou anos para construir — e voltar a ser cada vez mais operacional.

DESPREPARO GERA DESAMPARO

A juniorização da mão de obra acontece de forma mais acelerada em alguns negócios, como os de tecnologia e serviços. “Em setores mais ágeis isso já acontecia, por- que essas empresas tinham uma cultura de mais rapidez e menos profundidade. Entretanto, a crise vem fazendo com que ramos mais tradicionais, como a indústria, também passem por isso”, afirma Vicky Bloch, coach e consultora empresarial. O varejo é um dos segmentos que passavam por uma mudança de perfil dos funcionários e que teve de acelerar a troca por conta da crise, que reduziu o consumo dos brasileiros. Carolina Bussadori, de 35 anos, assumiu a gerência de RH das 182 lojas de roupas da TNG em outubro do ano passado. Não só ela, mas todo o seu time é jovem, sendo que a profissional mais velha tem apenas 26 anos de idade. A juventude, embora ajude o negócio, traz as suas dificuldades. “Às vezes é preciso agir como mãe, estabelecer regras e colocar prazos. Explicar o porquê e dar feedback também é fundamental”, diz Carolina. Além da maior demanda da sua equipe, a executiva sente na pele o peso dos anos de vida a menos. “Li- dar direto com o CEO possibilita uma redução dos processos burocráticos, mas muitas vezes faz com que eu me sinta solitária na hora de tomar decisões”, afirma. A sensação de abandono é comum a outros profissionais com menos experiência. “Os executivos jovens ficam perdidos, sem amparo. Muitas vezes, perdem as perspectivas profissionais e só encontram as respostas para os seus dilemas em serviços fora da empresa, como consultorias de carreira”, diz Simone Madrid, presidente da People Executive, empresa de busca de executivos.

INEXPERIÊNCIA OU IMATURIDADE?

Além da falta de bagagem profissional, há quem defenda que os jovens de atualmente são ainda mais imaturos do que os do passado. Alguns psicólogos americanos afirmam que a adolescência hoje em dia vai até os 25 anos — e não mais até os 18. Isso por- que a neurociência tem defendido a ideia de que a maturidade emocional só atinge seu máximo depois que o córtex pré-frontal esteja totalmente desenvolvido. Assim, não é exagero afirmar que as organizações estão, literalmente, contratando adolescentes. “Falta-lhes maturidade comportamental para olhar para o negócio como um todo. Eles são mais ansiosos, ouvem menos e às vezes ficam presos apagando incêndios, sem construir estratégias de longo prazo”, diz Simone. Minarelli, que sente essas deficiências toda vez que precisa negociar com uma empresa, sabe que não se pode culpar os jovens, uma vez que “realizações e repertório são fruto de um processo natural que requer experiência”, algo que só adquirimos ao longo da vida. O problema é que encher a área de recursos humanos com profissionais inexperientes representa um risco não só para o próprio RH como também para o negócio. “As organizações podem se deparar com atrasos e trabalhos superficiais, entre outras falhas”, afirma Minarelli.

Foi o que aconteceu na distribuidora de combustível Alesat. Lá, o quadro de funcionários total tem um percentual significativo de jovens, com 73% sendo pessoas com menos de 30 anos. Na área de RH esse número salta para 88%. Dos 65 profissionais que trabalham no departamento, 54 deles não chegaram a três décadas de vida. A pouca idade logo teve reflexos. Os jovens se mostravam superconectados, e o que poderia ser um benefício se tornou algo prejudicial. Segundo Vladimir Barros, gerente de recursos humanos da empresa, eles atrasavam as tarefas e tinham dificuldade para se concentrar nas atividades do trabalho. “O gestor teve que assumir um papel mais próximo e orientar o jovem a usar menos as redes sociais, por exemplo”, diz Barros. Os jovens da Alesat também não aceitavam os retornos negativos, se mostravam insatisfeitos nas avaliações de performance e contrariados com as orientações para mudar comportamentos. “Fizemos diversos treinamentos com os gestores e os trainees para melhorar a forma como davam e recebiam feedback”, afirma Barros. A solução acabou ajudando em outro ponto: a rotatividade dos jovens. De três anos para cá, a retenção dos funcionários que ingressam pelo programa de trainee chegou a quase 100%.

TALENTOS PERDIDOS

Outro risco de ter uma equipe com poucas rugas é o de per- der bons e talentosos profissionais, simplesmente por eles não aguentarem a pressão. Isso acontece especialmente quando são promovidos. “Eles podem ficar taxados de incompetentes, mas na verdade não tiveram tempo de se preparar”, afirma Rafael Souto, da consultoria Produtive. A insegurança dos mais jovens foi algo com que Julia Fernandes, diretora de recursos humanos do Citibank, teve que lidar. Ao assumir a liderança de gestão de pessoas do banco, em 2014, a executiva trocou metade dos superintendentes de RH, que antes possuíam mais de 40 anos, por profissionais na faixa dos 30 anos. Com o tempo, percebeu que os novatos estavam mais tímidos e que tinham receio de expor a opinião para alguns colegas – que até pouco tempo atrás eram seus chefes. A solução foi apelar para o coaching, realizado pela própria Julia, semanalmente. “Eu quero que eles proponham soluções, as- sumam responsabilidades. É um risco calculado”, afirma a executiva. Mesmo assim, ela mantém pelo menos um profissional mais experiente como braço direito.

A melhor decisão é manter esse mix de gerações. Assim, o líder de RH irá conseguir o equilíbrio entre a inovação e o entusiasmo dos jovens aliado ao conhecimento e à maturidade dos mais experientes.