PSICOLOGIA ANALÍTICA

O ciclo das pequenas maldades

O CICLO DAS PEQUENAS MALDADES

Sucessões de atitudes egoístas se formam mais facilmente do que sequências de gentilezas; estudo revelou que quando nos sentimos prejudicados, tendemos a nos vingar em outras pessoas, ainda que não tenham sido responsáveis por nosso desconforto.

 Não é raro ouvir casos de pessoas comuns que decidem criar correntes do bem. Uma vez vi acontecer na estrada: um motorista decidiu pagar o pedágio para o próximo da fila, que fez o mesmo com o de trás e assim por diante. Bom de ver. Recentemente, na véspera de Natal, mais de mil clientes de uma loja Starbucks, em Connecticut, concordaram em pagar a conta de outro. A atitude inspirou muita gente, que decidiu repetir a dose em lavanderias, lanchonetes e lava-rápidos em várias cidades dos Estados Unidos. Há boas razões para acreditar que esses atos de bondade casuais sejam com uns, a ponto de chamar a atenção de pesquisadores que buscam entender os mecanismos pelos quais a generosidade nos torna mais felizes e saudáveis.

No entanto, qualquer um que tenha experimentado a gentileza de estranhos provavelmente também já se sentiu ultrajado por outros tantos, seja por um motorista que não respeitou o trânsito ou um mal-educado que cortou a fila no banco. Infelizmente, a pesquisa que conduzi sugere que temos maior propensão a criar ciclos de ganância do que círculos de ações que nos movem para estender a mão ao próximo.

Duvida? Muito bem, imagine a seguinte situação: você é informado de que alguém recebeu US$ 6 e deverá lhe dar uma parte, mantendo o resto para si. Mas, na hora de verificar o envelope com a quantia, percebe que não lhe deixaram nada. Nem um centavo sequer. Pense como se sentiria e que palavras usaria para descrever essa pessoa.

Agora, considere que foi você quem recebeu US$ 6 e deve doar uma parte para um terceiro, guardando o restante para si. Quanto colocaria no envelope? Com isso em mente, imagine outro cenário. E se o participante anterior tivesse ofertado a quantia total? Ou entregue metade para cada um? Como isso afetaria seu comportamento?

Eu e meus colegas, os psicólogos Kurt Gray, da Universidade da Carolina do Norte, Chapei Hill, e Adrian F. Ward, da Universidade do Colorado em Boulder, submetemos centenas de voluntários a uma das três situações (que denominamos ganância, generosidade ou justiça) e os resultados não foram muito animadores. Mas, antes, vamos à boa notícia. Como descrevemos em um artigo científico que deve ser publicado ainda este ano, descobrimos que os participantes que se sentiram tratados com justiça foram mais propensos a agir da mesma forma com outros. Aqueles que receberam metade da quantia passaram 50% para a frente em sua vez de escolher. Porém, os voluntários que ganharam o valor integral não retribuíram com a mesma generosidade: em média, estavam dispostos a doar apenas metade, o que revela que tendemos a nos comportar apenas de maneira equitativa.

A má notícia é que aqueles que foram afetados pela ganância do outro foram mais propensos a “pagar na mesma moeda”, ofertando ao próximo pouco mais de US$ l, em média. Ou seja: comportamentos egoístas parecem nos marcar mais do que atitudes generosas.

INTERROMPENDO A REPETIÇÃO

Algo interessante a respeito das correntes que beneficiam desconhecidos é que, do ponto de vista da ciência, parece não haver boas razões para compensar alguém dessa maneira. Afinal, não há intenções prévias em relação ao destinatário da boa ação nem indicações de que haverá oportunidade de conhecê-lo no futuro. Mas, certamente, faz sentido “dar o troco”: se não recebemos nada de uma pessoa e, em seguida, tendo a chance de dividir US$ 6 com ela decidimos não doar nenhum centavo, talvez a ensine a ser mais gentil conosco no futuro. No entanto, descontar em alguém o erro de outro (como muitos fizeram em nossa pesquisa) parece ser injusto e ilógico.

Nossa hipótese era de que somos pro­ pensos a agir com ganância porque emoções negativas tendem a exercer mais influência sobre nós do que as positivas. Para termos certeza, submetemos um novo grupo de participantes a um experimento similar, mas em vez de dinheiro deveriam compartilhar tarefas agradáveis (fazer associação de palavras divertidas) ou monótonas (circular vogais em trechos densos, no idioma italiano).  Um desconhecido distribuiu as atividades. Alguns receberam tarefas estimulantes, outros foram encarregados de atividades pouco interessantes e um terceiro grupo deveria realizar as duas incumbências. Imediatamente depois, os participantes preencheram um questionário que avaliava seu estado emocional. Em seguida, puderam atribuir outro conjunto de atividades (no mesmo sentido) para outra pessoa.

Os resultados revelaram que tendemos a lesar o próximo como uma maneira de lidar com emoções negativas por termos nos sentido prejudicados anteriormente. Se não podemos dar o troco ao responsável, fazemos outra pessoa qualquer “pagar” por nosso desconforto.

Obviamente isso não quer dizer que não podemos propagar boas ações. O exemplo da loja Starbucks revela que é possível criar notáveis correntes de generosidade, mas somente em certas condições: a sensação de grupalidade (ou pertencimento) é uma delas. O sociólogo Robb Willer e seus colegas Francis). Flynn e Sonya Zak, da Universidade Stanford, realizaram uma pesquisa sobre o que chamaram de Freecycle (ciclo gratuito, em tradução livre), um site onde as pessoas posta m itens (desde produtos baratos, como material de escritório, até objetos caros, como carros) que desejam doar e receber. A principal característica da plataforma virtual é que tudo deve ser doado, sem remuneração ou reciprocidade. Não é possível ganhar dinheiro ou doar algo para receber outra coisa. Os pesquisadores entrevistaram 805 usuários em relação ao serviço. Eles também responderam perguntas que avaliavam o grau de identificação que tinham com a comunidade Freecycle. Os resultados mostraram que aqueles com forte senso de solidariedade eram mais propensos a contribuir com a rede. O sentimento de pertencer a um grupo altruísta (relacionado à própria identidade) influenciou o comportamento.

Mas, no cotidiano, é inegável que nem sempre interagimos com pessoas que compartilham as mesmas ideias. Nesses casos, infelizmente, parece ser mais comum ter de lidar com falta de generosidade alheia – e, claro, a nossa própria. Nesse sentido, pesquisas no campo no qual temos trabalhado ajuda a nos lembrar de que podemos escolher: não precisamos ser o próximo elo de uma cadeia perpétua de negatividade quando os outros nos tratam mal. E felizmente, há saídas para o comportamento reativo que nos priva de autonomia. Descobrimos, por exemplo, que focar em algo positivo, mesmo que seja em uma simples cena divertida de desenho animado, por exemplo, pode aliviar a sensação de dano e, consequentemente, nos encorajar a não passar o mal-estar adiante.

Então, da próxima vez que alguém cortar sua frente no trânsito, faça a experiência: cante sua música favorita em alto em bom som. É bem provável que isso ajude a interromper ciclos de atitudes egoístas – e você descubra que pode fugir dos hábitos e fazer algo diferente.

MICHAEL I. NORTON é professor associado de administração de empresas da Harvard Business School e coautor de Happy money: The science of smarter spending (Simon & Schuster, 2013).

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.