ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2: 1-8

Os Magos do Oriente 

Foi um sinal da humilhação imposta ao Senhor Jesus o fato de, embora ser o Desejado de todas as nações, sua vinda ao mundo ter sido pouco comentada, passando quase despercebida, e que seu nascimento tenha sido ignorado e desconsiderado. Ele havia se tornado um ser anônimo e desconhecido. Se o Filho de Deus devia vir ao mundo, poderíamos, com toda razão, esperar que fosse recebido com o maior cerimonial possível, que coroas e cetros se colocassem imediatamente aos seus pés e que os soberanos e os poderosos príncipes do mundo se tornassem seus humildes servos; um Messias assim era o que os judeus esperavam, mas não foi isso que aconteceu. Ele veio ao mundo e o mundo não o conheceu, isto é, Ele veio para o seu povo, mas o seu povo não o recebeu. Por ter se incumbido de satisfazer a justiça do Pai pelas ofensas e pela desonra contra Ele praticadas através dos pecados do homem, Ele assim o fez anulando-se e privando-se de todas as honras que, sem dúvida, deveriam ser concedidas a uma Divindade encarnada. No entanto, por ocasião do seu nascimento, assim como sucedeu mais tarde, raios de glória brilharam nos momentos mais importantes da sua humilhação. Embora seu poder se mantivesse oculto, raios brilhantes saíam das suas mãos (Habacuque 3.4), suficientes para condenar o mundo, especialmente os judeus, pela estupidez que demonstraram.

Depois do seu nascimento, os primeiros a tomar conhecimento de Cristo foram os pastores (Lucas 2.15ss.) que viram e ouviram coisas gloriosas a seu respeito e as transmitiram a todo mundo, para a admiração de todos os ouvintes (vv. 17,18). Em seguida, Simeão e Ana falam sobre Ele, pela inspiração do Espírito, a todos que estavam dispostos a prestar atenção às suas palavras (Lucas 2). No entanto, alguém poderia pensar que estas mensagens deveriam ter sido atendidas pelos homens da Judéia e pelos habitantes de Jerusalém que, com braços abertos, receberiam o tão longamente esperado Messias. Porém, por mais estranho que pareça, durante quase dois anos Ele permaneceu em Belém sem receber qualquer atenção até a chegada dos magos. Na verdade, nada iria despertar aqueles que estavam resolvidos a ser indiferentes. Ó, que incrível estupidez a desses judeus! E também dos muitos que ostentam o nome de cristãos! Observe:

 

I – Quando foi realizada esta pesquisa a respeito de Cristo. Foi nos dias do rei Herodes. Esse rei Herodes era um idumeu, nomeado rei da Judéia por Augusto e Antônio, os principais chefes do estado romano daquela época. Era um homem falso e cruel e, no entanto, havia sido agraciado com o título de Herodes, o Grande. Cristo nasceu no 35º ano do seu reinado e isto foi registrado para mostrar que o cetro havia se apartado de Judá e o legislador dentre seus pés. Portanto, havia chegado a hora da vinda de Siló e para ele se congregariam todos os povos. Observe esses magos em Gênesis 49.10.

 

II – Quem e o que eram esses magos; aqui eles são chamados de “magos”. Alguns consideravam o nome no bom sentido; entre os persas, os magos representavam seus filósofos e seus sacerdotes. O povo não aceitaria ninguém para ser rei se não tivesse antes estudado entre os magos; mas outros pensavam que eles lidavam com artes espúrias. No original, esta palavra (mago) foi usada para Simão, o mágico (Atos 8.9,11), e também para Elimas, o feiticeiro (Atos 13.6,8). Também, nas Escritura, ela é empregada com um outro sentido, como um primeiro exemplo e presságio da vitória de Cristo sobre o diabo, quando aqueles que haviam sido seus adeptos se tornaram adoradores do menino Jesus, logo que os troféus da sua vitória sobre os poderes das trevas foram erguidos. Bem, quaisquer coisas que tenham sido antes, agora os magos se tomaram verdadeiros sábios quando decidiram indagar sobre Cristo.

De uma coisa temos certeza

8. De que eram gentios e não pertenciam à nação de Israel. Os judeus não se importavam com Cristo, porém esses gentios decidiram perguntar por Ele. Muitas vezes aqueles que estão mais próximos aos meios estão mais longe do fim (veja cap. 8.11,12). A homenagem prestada a Cristo por esses gentios representava um feliz presságio e também um exemplo daquilo que iria acontecer quando Cristo trouxesse para perto de si aqueles que estavam distantes.

9. De que eram sábios. Eles lidavam com artes; artes curiosas. Os bons sábios devem ser bons cristãos que completam seu aprendizado quando aprendem sobre Cristo.

10. De que eram homens do Oriente, notáveis por suas profecias (Isaias 2.6). A Arábia é chamada de terra do Oriente, ou oriental (Genesis 25.6), e os árabes são chamados de homens do Oriente (Juízes 6.3). Os presentes que trouxeram eram produtos do seu país. Os árabes haviam prestado homenagem a Davi e Salomão como exemplos de Cristo. Jetro e Jó eram desse país. Tudo que podemos dizer sobre eles é que as tradições da igreja romana são de pouco valor, ao afirmarem que eles eram em número de três (embora um dos antigos diga que eram quatorze), que eram reis e que se encontram enterrados em Colen, daí a razão de serem chamados de os três reis de Colen. Não desejamos ir além do que está escrito.

 

III O que os levou a fazer essa pesquisa. Quando ainda estavam no seu país oriental, eles viram uma estrela extraordinária, como nunca haviam visto antes, que entenderam ser a indicação de que uma pessoa extraordinária havia nascido na Judéia, sobre cujas terras ela parecia pairar, como se tivesse a natureza de um cometa, ou melhor, de um meteoro, nas regiões mais baixas da atmosfera. Isso era tão diferente de qualquer outra coisa habitual, que foram levados a concluir que ela também devia significar uma coisa incomum. Veja que as extraordinárias aparições de Deus às criaturas devem nos levar a indagar sobre o seu espírito e a sua intenção. Cristo era a antecipação dos sinais celestiais. Seu nascimento foi comunicado aos pastores judeus através de um anjo, e aos filósofos gentios, por uma estrela; e a ambos Deus falou na sua própria língua e da forma que eles estavam mais familiarizados. Alguns pensam que a luz que os pastores viram brilhando em volta de si, na noite seguinte ao nascimento de Cristo, foi a mesma vista pelos magos, que viviam num lugar distante, com a aparência de uma estrela. Mas isso não pode ser facilmente admitido porque a estrela que viram no Oriente foi a mesma que tornaram a ver muito depois, e que os levou até a casa onde Cristo se encontrava deitado na manjedoura. Tratava-se de uma luz colocada no céu com o propósito de os guiar até Cristo. Os idólatras adoravam as estrelas como sendo os exércitos dos céus, especialmente as nações do Oriente, onde os planetas tinham o nome dos seus deuses e ídolos. Sabemos de uma estrela que era particularmente venerada (Amos 5.26) – Desse modo, as estrelas que antes haviam sido mal-usadas passaram a ter urna correta finalidade, guiar os homens a Cristo; os deuses dos pagãos haviam se tornado seus servos. Alguns pensam que essa estrela os levou a pensar na profecia de Balaão, isto é, que uma estrela procederia de Jacó, indicando um cetro que iria se levantar de Israel (veja Números 24.17). Balaão tinha vindo das montanhas do Oriente e era um dos seus sábios. Outros atribuem a pesquisa deles à expectativa geral acolhida naquela época, nessas regiões, de que algum grande príncipe iria aparecer. Tácito, na sua história (liv. 5), observa isso. Pluribus persuasio inerat, antiquis sacerdotum literís contineri, eo ipso tempore fore, ut valesceret oriens, profecti ­ que Judaea rerum potirentur – Existia, na mente de todos, uma convicção de que alguns escritos antigos dos sacerdotes continham uma profecia de que mais ou menos nessa época um poder do Oriente iria prevalecer e que as pessoas provenientes da Judéia iriam alcançar o domínio. Também Suetônio, na vida de Vespasiano, fala sobre isso. De forma que esse extraordinário fenômeno foi interpretado como a indicação desse rei. Podemos imaginar a divina impressão que se estabeleceu em suas mentes, permitindo-lhes interpretar essa estrela como um sinal enviado pelos céus sobre o nascimento de Cristo.

 

IV – Como deram seguimento a essa pesquisa. Eles haviam vindo do Oriente até Jerusalém para aprofundar suas indagações sobre esse príncipe. Onde iriam pesquisar sobre o Rei dos Judeus a não ser em Jerusalém, a cidade-mãe, para onde sobem as tribos, as tribos do Senhor? Eles poderiam ter respondido: “Se tal príncipe viesse a nascer, logo ficaríamos sabendo no nosso próprio país e haveria tempo suficiente para lhe prestar homenagens”. Mas estavam tão ansiosos por conhecê-lo melhor que deram início à uma longa viagem com o propósito de fazer a sua pesquisa. Veja bem, aqueles que verdadeiramente desejam conhecer a Cristo, e encontrá-lo, não se importarão com as dores e os perigos que terão de enfrentar em sua jornada. Logo o conheceremos plenamente, se continuarmos a buscá-lo.

Sua pergunta era: “Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus?” Eles não perguntaram: Será que Ele nasceu? (tinham certeza disso e falavam com segurança, tão forte estava essa crença entranhada nos seus corações). Mas, onde tinha nascido? Observe que aqueles que conhecem alguma coisa sobre Cristo sempre querem conhecer ainda mais sobre Ele. Eles chamam Cristo de o Rei dos Judeus, pois era isso que o Messias deveria ser, o Protetor e o Líder do Israel espiritual; Ele nasceu como Rei.

Eles não tinham dúvida sobre essa questão, mas queriam uma resposta imediata, encontrar toda Jerusalém adorando aos pés desse novo rei. Iam de porta em porta fazendo essa pergunta, mas ninguém podia lhes dar qualquer informação. Existe mais ignorância no mundo, e também na igreja, do que podemos imaginar. Muitos daqueles que julgamos poder nos levar diretamente a Cristo, o desconhecem. Eles perguntam, como faz a noiva às filhas de Jerusalém: ” Vistes aquele a quem ama a minha alma?” Mas ninguém nunca sabia responder. Entretanto, assim como a noiva, eles continuam com sua indagação. “Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus?” E as pessoas queriam saber: “Por que fazem essa pergunta?”. É porque vimos a sua estrela no Oriente. Então os outros continuam: “Que negócios vocês têm com ele? O que os homens do Oriente querem com o Rei dos Judeus?” Os magos têm uma resposta pronta: “Viemos adorá-lo”. Sabem que, com o passar do tempo, Ele se tornará o seu rei, portanto desejam ser agradáveis a Ele e aos que o cercam. Note que aqueles em cujo coração nasceu a estrela da manhã, para dar-lhes algum conhecimento sobre Cristo, devem se dedicar a adorá-lo. Será que nós também vimos a estrela de Cristo? Vamos estudar para lhe prestar todas as honras.

 

V – Como essa pesquisa foi tratada em Jerusalém?

Por fim, notícias sobre ele haviam chegado até a corte e, ao tomar conhecimento desse fato, Herodes ficou muito perturbado (v. 3). Ele não podia desconhecer as profecias do Antigo Testamento a respeito do Messias e do seu reino, e da época fixada para a sua aparição através das semanas de Daniel. Mas tendo reinado durante tanto tempo e com tanto sucesso, ele começou a esperar que tais promessas não se realizariam e que seu reino seria estabelecido e se perpetua ria, a despeito delas. Que desânimo, portanto, deve ter se abatido sobre ele ao ouvir falar que esse Rei havia nascido e que o momento da sua aparição havia chegado! Observe que aquilo que o coração dos iníquos mais teme é o cumprimento das Escrituras.

Porém, embora Herodes, o idumeu, tivesse ficado perturbado, poderíamos supor que o povo de Jerusalém fosse ficar extremamente feliz ao saber que o Messias tinha chegado. No entanto, parece que, com exceção daqueles que aguardavam pela consolação de Israel, as pessoas ficaram tão perturbadas quanto Herodes e apreensivas por desconhecer as consequências do nascimento desse novo rei, que poderia envolvê-las numa guerra ou refrear sua luxúria. Por seu lado, eles não queriam outro rei a não ser Herodes, nem mesmo o próprio Messias. Veja que a escravidão do pecado é mais insensatamente preferida à gloriosa liberdade dos filhos de Deus, somente porque est a apresenta algumas dificuldades que exigem uma revolução necessária, cujo objetivo é o controle da alma. Herodes e Jerusalém ficaram ambos perturbados por causa da errônea noção de que o reino do Messias iria interferir e se chocar contra os poderes seculares, embora a estrela, que o havia proclamado rei, houvesse claramente anunciado que seu reino era celestial, e não desse mundo inferior. Veja que as razões que levam os reis da terra e as pessoas em geral a se oporem ao reino de Cristo não se devem ao fato de desconhecê-lo, mas estar em enganados a seu respeito.

 

VI – Que ajuda estes magos receberam dos escribas e dos sacerdotes em sua pesquisa (vv. 4-6). Ninguém tinha a pretensão de informar onde estava o Rei dos Judeus, mas Herodes desejava saber onde esperavam que ele fosse nascer. As pessoas que ele consultou eram os principais sacerdotes, que tinham o oficio de mestres, e os escribas, que tinham como profissão estudar as leis. Eles deviam conhecê-las e era a eles que as pessoas deviam perguntar a esse respeito (Malaquias 2.7). Era do conhecimento comum que Cristo deveria nascer em Belém (João 7.42), mas Herodes queria ter a opinião dos conselheiros sobre o assunto, portanto convocou as pessoas adequadas e, para poder ser melhor atendido, também os principais sacerdotes e escribas, exigindo que informassem qual era o lugar, de acordo com as Escrituras do Antigo Testamento, onde Cristo iria nascer. Muitas perguntas inocentes são feitas com maus propósitos, e foi isso que aconteceu com Herodes.

Os sacerdotes e os escribas não precisaram de muito tempo para dar sua resposta, nem suas opiniões se revelaram diferentes, pois todos concordaram que o Messias devia nascer em Belém, cidade de Davi, agora chamada de Belém da Judéia, para distingui-la de outra cidade do mesmo nome nas terras de Zebulom (Josué 19.15). Belém significa “casa de pão”, o lugar mais adequado para o nascimento daquele que é o verdadeiro maná, o pão vivo que desceu do céu, que foi dado pela vida do mundo. A prova que apresentaram está em Miquéias 5.2, onde está previsto que, embora Belém fosse pequena entre milhares de cidades de Judá (como consta em Miquéias), e um lugar de pequena população, ainda assim não seria considerada a última entre as principais de Judá (como está aqui), pois a honra de Belém não está, como acontece com as outras cidades, na quantidade de habitantes, mas na magnificência dos príncipes que produz. Embora, em alguns relatos, Belém fosse uma pequena cidade, ela ainda mantinha uma proeminência sobre as demais cidades de Israel, que o Senhor iria considerar ao determinar às pessoas que esse homem, Cristo Jesus, ali iria nascer (SaImos 87.6). Dela viria um Governador, o Rei dos Judeus. Observe que Cristo será um Salvador somente para aqueles que estão dispostos a considerá-lo como seu Rei. Belém era a cidade de Davi, e Davi era a glória de Belém. Portanto, era lá que o filho e sucessor de Davi devia nascer. Havia uma famosa cisterna, perto da porta de Belém, da qual Davi teve vontade de beber (2 Samuel 23). Através de Cristo, recebemos não só o pão suficiente para comer (que chega até a sobrar), como também a liberdade de tomar livremente da água da vida. Observe aqui como os judeus e os gentios comparam seus conhecimentos sobre Jesus Cristo. Os gentios ficaram conhecendo o momento do seu nascimento através de uma estrela, enquanto os judeus conheciam o lugar desse nascimento através das Escrituras, dessa forma eles eram capazes de trocar informações. Note que muito iria contribuir para aumentar nosso conhecimento se mutuamente comunicássemos o que sabemos. Os homens ficam ricos no comércio e nas trocas, portanto se tivermos conhecimentos para comunicar aos outros, eles também estarão prontos para se comunicar conosco. Muitos iriam fazer discursos, correr de uma para outra parte, e a ciência se multiplicaria.

 

VII – O projeto e a intenção sanguinária de Herodes nasceu dessa pesquisa (vv. 7, 8). Nessa ocasião, Herodes já era um homem velho, que havia reinado durante trinta e cinco anos, enquanto esse outro rei havia acabado de nascer. Provavelmente, ele não iria dar início a qualquer considerável empreendimento por muitos anos, mas ainda assim ele despertou o ciúme de Herodes. Cabeças coroadas não conseguem suportar a ideia de ter sucessores, e muito menos rivais. Portanto, somente o sangue desse rei infante iria satisfazê-lo. Além disso, Herodes não poderia se permitir a liberdade de pensar que, se esse infante fosse realmente o Messias, poderia se opor a ele, ou preparar-lhe algum atentado. Nesse caso, ele acabaria tendo de lutar contra Deus e nada seria mais inútil ou perigoso. As paixões são capazes de dominar a razão e a consciência.

Assim:

1.Veja como Herodes foi esperto ao elaborar o seu projeto (vv. 7, 8). Convocou particularmente os magos para com eles conversar sobre esse assunto. Não iria demonstrar publicamente o seu ciúme e temores, seria sua desgraça deixar que fossem percebidos é um perigo se as pessoas ficassem sabendo sobre eles. Muitas vezes, os pecadores são atormentados pelos medos secretos que guardam dentro de si. Por intermédio dos magos, Herodes ficou sabendo sobre a data do aparecimento da estrela e assim pôde tomar as medidas apropriadas. Depois, usou-os para aumentar seus conhecimentos e os convidou a lhe trazer informações. Tudo isso poder ia parecer suspeito se não tivesse sido coberto por uma exibição de piedade, isto é, para que ele também pudesse ir visitar e adorar o Messias. Observe que, muitas vezes, a maior iniquidade se esconde atrás de uma máscara de piedade. Absalão revestiu seu projeto de rebelião com uma promessa.

2.Veja como, estranhamente enganado e apaixonado por esse projeto, ele o confiou aos magos e não procurou a orientação de outros que teriam sido mais fiéis aos seus interesses. Estavam a apenas sete milhas de distância de Jerusalém; teria sido muito fácil enviar espiões para vigiar esses magos, e poderiam logo destruir essa criança enquanto eles a adoravam! Não se esqueça de que Deus pode esconder dos olhos dos inimigos da igreja aqueles métodos que poderiam facilmente destrui-la. Quando o seu propósito é afastar os príncipes ímpios, o seu método consiste em tornar os juízes néscios.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Suar para melhorar o humor e o raciocínio

SUAR PARA MELHORAR O HUMOR E O RACIOCÍNIO

Que a atividade física fortalece ossos, músculos, sistema cardiovascular e controla a taxa de glicose já sabemos. A novidade é a descoberta de mecanismos que ajudam a entender por que exercícios expandem a capacidade cognitiva e favorecem o equilíbrio emocional.

Todo mundo sabe: é preciso fazer exercícios. Inúmeros experimentos comprovam que praticar atividade física é uma das providências mais eficazes que podemos tomar para melhorar ou manter a saúde. Do ponto de vista físico, o movimento regular reduz o risco de desenvolver doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e diabetes, favorece o sistema imune, ajuda a prevenir certos tipos de câncer, fortalece ossos e músculos, aumenta a capacidade pulmonar e diminui o risco de quedas e fraturas. Alguns estudos científicos mostram influências positivas do movimento físico regular até mesmo no nível celular e molecular, contribuindo para o tratamento de aterosclerose e diabetes.

Nos últimos anos, porém, uma explosão de pesquisas expandiu ainda mais essas observações. Há constatações de que o exercício reduz sintomas de depressão e ansiedade e favorece a neurogênese (processo de nascimento de neurônios), o que tende a beneficiar a memória e a aprendizagem. E ainda incrementa a capacidade intelectual no que diz respeito à realização de tarefas que exigem atenção, organização e planejamento.

Uma constatação importante é a de que não é preciso ser triatleta para colher benefícios do exercício. Há 20 anos especialistas em saúde preventiva se concentravam quase exclusivamente nos ganhos decorrentes de atividade vigorosa. Atualmente, enfatizam também o valor de rotinas constantes de movimentos moderados. Um de nós JoAnn) ajudou a demonstrar benefícios em vários estudos em programas de larga escala do Nurses’ Health Study e da Women’s Health lnitiative. As últimas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o exercício, baseadas em dados desses e outros projetos, recomendam o equivalente a pelo menos 30 minutos de atividade moderada, como caminhada rápida, cinco ou mais dias por semana (ou 90 minutos de atividade vigorosa, como corridas, por semana), aliada a 30 minutos de atividade de fortalecimento muscular, pelo menos duas vezes por semana.

EFEITOS IMEDIATOS

Para compreender as mais recentes descobertas é bom saber algo sobre como o organismo costuma responder ao aumento da demanda física. Em variados níveis de intensidade – de caminhadas, natação e até exercício aeróbico – o exercício não só aumenta consideravelmente a quantidade de oxigênio necessária para os músculos, exigindo que os pulmões trabalhem, mas tem significados psíquicos diversos para cada pessoa. Seus benefícios para a saúde do corpo são hoje melhor compreendidos.

Cientistas desenvolveram métodos simples, mas bastante rigorosos, para avaliar a intensidade do exercício. Uma forma eficaz e pouco dispendiosa para medir o grau de exigência em relação ao corpo é o teste da conversa, que começa quando o batimento cardíaco fica mais acelerado e a respiração se intensifica. O nível está moderado quando o voluntário consegue falar ou recitar um poema enquanto se movimenta. Se for possível emitir apenas uma palavra ou duas de cada vez, então está se exercitando vigorosamente. No outro extremo da escala, se puder cantar enquanto se movimenta, é sinal de que está trabalhando em nível leve de intensidade.

Sempre que uma pessoa adquire ritmo, o sistema nervoso convoca os órgãos do corpo à ação. Inicialmente, percebe-se um senso elevado de consciência, aumento da frequência cardíaca, respiração acelerada e leve suor. Internamente, o fluxo sanguíneo diminui em órgãos do trato gastrointestinal e dos rins, não essenciais para o movimento. Ao mesmo tempo, os vasos sanguíneos em músculos ativos se alargam, garantindo que sangue rico em oxigênio flua para os músculos que trabalham mais nesse momento.

Assim que atinge as células musculares o oxigênio se difunde em estruturas celulares chamadas mitocôndrias, que o utilizam para gerar energia para a célula. O combustível básico para este processo é a glicose da molécula de açúcar, que o corpo obtém da decomposição das partículas de alimentos maiores e absorve durante a digestão. A reação entre oxigênio e glicose nas mitocôndrias desencadeia um tipo de combustão altamente eficaz. Com o oxigênio disponível as mitocôndrias podem gerar cerca de 20 vezes mais energia por molécula de glicose.

Primeiro, o organismo queima moléculas de glicose armazenadas sob a forma de um composto chamado glicogênio, encontradas principalmente no fígado e nos músculos, mas se o exercício prossegue, o estoque disponível de glicogênio se esgota e as moléculas de triglicérides (um tipo de gordura) se tornam a principal fonte de combustível. Toda essa combustão interna origina certos subprodutos como o ácido láctico e o dióxido de carbono, que escoam dos músculos para a corrente sanguínea, onde são detectados por todo o organismo. A crescente concentração desses resíduos incita mais reações bioquímicas no cérebro, pulmões e coração que, por fim, removem esses compostos de forma mais eficiente e menos cansativa.

Os benefícios do exercício realmente começam a se acumular assim que a atividade física se torna um hábito. O corpo se adapta às crescentes demandas que vão sendo colocadas, levando a um aumento da resistência conforme as pessoas ficam mais em forma. Os pulmões processam mais oxigênio enquanto a respiração se torna mais intensa e o coração bombeia mais sangue a cada batida, por exemplo. Essas adaptações, que normalmente começam a aparecer em algumas semanas, também levam a mudanças biológicas e melhoram a saúde a longo prazo.

ALTERAÇÕES MOLECULARES

Atletas sabem há muito tempo que o exercício melhora o humor e a saúde mental, mas só em 2008 cientistas conseguiram medir diretamente a “euforia do corredor”, que ocorre após exercício prolongado. Mostraram que o cérebro libera mais endorfinas (hormônios que evocam sensações de prazer semelhantes às provoca das pelo ópio) durante uma corrida de longa distância e também que os compostos ficam ativos em áreas cerebrais responsáveis pelas emoções fortes. Trabalhos anteriores já haviam detectado um pico de endorfina apenas na corrente sanguínea, não relacionado a alterações no cérebro.

Mais recentemente cientistas se concentraram nas alterações químicas catalisadas pelo exercício que permitem ao cérebro aumentar a capacidade de concentração, raciocínio e tomada de decisões. Em 2011, um experimento científico randomizado controlado com 120 pessoas entre 60 e 70 anos demonstrou que a atividade física aumenta o tamanho do hipocampo, área cerebral considerada “sede da memória”. Os autores do estudo observaram que a parte específica do hipocampo afetada pelo exercício é a que permite que as pessoas se lembrem de ambientes familiares, mas é também uma das poucas áreas cerebrais que produz células nervosas novas – pelo menos em ratos. Acredita-se que neurônios recém-nascidos ajudem na distinção de eventos e coisas semelhantes, mas diferentes. Estudos com animais mostraram ainda que o exercício aumenta os níveis da substância química responsável por desencadear o crescimento desses novos neurônios, uma molécula conhecida como fator neurotrófico derivado do cérebro, ou BDN F.

Agora a pesquisa desafia o conhecimento que tínhamos como certo sobre como atividade física previne doenças cardíacas Cientistas inicialmente acreditavam que, em grande parte, a atividade rotineira reduzia risco cardiovascular diminuindo a pressão arterial, reduzindo a quantidade de colesterol LDL (também conhecido como mau colesterol) e elevando a quantidade de colesterol HDL (o colesterol bom) no sangue. Mas essa conclusão estava apenas parcialmente correta. O exercício reduz a pressão arterial substancialmente para algumas pessoas, mas para a maioria esse benefício é relativamente pequeno. Além disso, os treinos, especialmente os de resistência, como aqueles em que são usados peso, podem elevar o colesterol HDL, uma alteração que normalmente leva vários meses para surgir e embora o resultado seja bastante modesto.

Outras investigações mostraram que o efeito mais importante relacionado ao LDL está ligado ao modo como o exercício altera as propriedades da molécula em vez de reduzir a quantidade encontrada no sangue. Falando tecnicamente, o LDL não é sinônimo de colesterol, mas ele leva o colesterol pela corrente sanguínea da mesma forma que um caminhão de entrega transporta mantimentos. (Sendo gordura, o colesterol não é solúvel no meio aquoso da circulação sanguínea, por isso tem de ser envolto em algo que possa transportá-lo.) Partículas de LDL também têm tamanhos variados, da mesma forma que mantimentos podem ser entregues em minivans e caminhões gigantes.

Nos últimos anos um número crescente de cientistas descobriu que as menores moléculas de LDL são especialmente perigosas. Têm a tendência, por exemplo, de perder elétrons que depois ricocheteiam em torno dos vasos sanguíneos prejudicando outras moléculas e células (imagine um motorista enlouquecido atrás do volante de uma perua velha). Moléculas grandes de LDL, por outro lado, são muito mais estáveis e flutuam pela corrente sanguínea, sem bater em nada (mais semelhantes a caminhões grandes e bem cuidados, conduzi­ dos por motoristas competentes).

Estudos atuais mostram que o exercício aumenta o número de moléculas de LDL maiores, mais seguras, e diminuem o número das pequenas e perigosas. Ao alterar a proporção, incentiva a atividade da enzima lipoproteína lipase sobre a gordura e o tecido muscular. Duas pessoas com a mesma quantidade de colesterol no sangue, mas diferentes níveis de atividade física, poderiam, assim, ter perfis de risco muito diferentes para doença cardíaca. O sedentário, provavelmente, tem muitas LDLs pequenas e poucas, ou nenhuma, grandes, enquanto as grandes moléculas de LDL predo­ minam no sangue da pessoa ativa. Apesar do nível de colesterol idêntico, a primeira pessoa teria risco muito maior de sofrer um ataque cardíaco que a segunda.

MAIS ENERGIA

A atividade física regular afeta positivamente outro componente essencial do sangue – a glicose. O fígado, pâncreas e músculos esqueléticos, que movimentam a cabeça, braços, pernas e tronco, normalmente trabalham juntos para garantir que cada parte do organismo consiga açúcar necessário em estado de repouso ou ativo. Por definição, o exercício aumenta demandas dos músculos esqueléticos, que necessitam de quantidades crescentes de glicose para alimentar seus esforços. Em longo prazo, o exercício também estimula as fibras dentro do músculo a se tornarem mais eficientes no uso de glicose, permitindo que ele se torne mais forte. O fígado responde imediatamente à demanda de mais combustível jogando moléculas de açúcar na corrente sanguínea, e o pâncreas libera um hormônio chamado insulina, que sinaliza às células para absorver quantidades crescentes de glicose do sangue. Imagina-se que todo o processo possa levar a oscilações na taxa de glicose, especialmente após uma refeição ou uma corrida, mas o organismo trabalha arduamente para manter sua taxa de açúcar no sangue dentro de um nível bastante limitado entre 70 e 140 miligramas por decilitro (em jejum, muito abaixo de 126 mg/dl) – pelo menos em não diabéticos. Um motivo pelo qual o açúcar no sangue deve ficar acima de 70 mg / dL é que o cérebro depende muito da glicose como fonte primária de combustível, sendo, portanto, extremamente sensível a qualquer alteração na quantidade encontrada no sangue. Embora taxas extremamente baixas de glicose possam levar ao coma e à morte em questão de minutos, também é importante o nível fisiológico não passar longos períodos no extremo oposto. Em termos gerais, o açúcar adicional no sangue tende a obstruir a operação, fazendo as células envelhecerem prematuramente.

É MELHOR SE LEVANTAR

Quando o exercício se transforma em hábito diário, os músculos se tornam mais sensíveis aos efeitos da insulina. Isso significa que o pâncreas não tem de trabalhar tanto para ajudar a manter taxas de glicose sob controle; níveis mais baixos de insulina conseguirão o mesmo resultado que quantidades mais elevadas costumavam fazer. Produzir mais com menos insulina é especialmente útil para pessoas com diabetes tipo 2, cujo organismo tem dificuldade em manter o açúcar no sangue dentro dos valores normais, em grande parte por terem se tornado resistentes aos efeitos do hormônio. A insulina também promove a proliferação, ou a produção rápida, de célula s novas e, assim, níveis elevados têm sido associados a risco maior de desenvolver principalmente câncer de mama e de cólon.

Tendo em conta os múltiplos benefícios do exercício moderado sobre a saúde seria de esperar que todos estivessem amarrando os tênis e saindo pela porta, mas americanos não conseguem alcançar sequer metade de uma hora de atividade moderada recomendada em cinco ou mais dias da semana.

A dificuldade de mudar hábitos sedentários levou cientistas a investigar se sequências mais leves ou mais curtas de exercício exercem benefícios sobre a saúde. Até agora, as informações sugerem que mesmo rotinas mínimas de treinos diários podem estender um pouco a vida das pessoas. Uma análise de 2012 sobre dados de seis estudos, totalizando 655 mil adultos americanos, acompanhados por cerca de dez anos, revelou que pessoas que gastam tão pouco quanto 11 minutos por dia em atividades de lazer (jardinagem, lavar o carro, caminhada noturna) tiveram 1,8 ano de expectativa de vida a mais após os 40 anos, comparados com seus companheiros inativos. Foi evidente que participantes que seguiram as orientações recomendadas de atividade moderada estavam em melhor situação; sua expectativa de vida foi de 3,4 anos a mais. E os que ficaram ativos entre 60 e 90 minutos todos os dias atingiram ganhos ainda maiores (4,2 anos a mais de expectativa de vida).

Apesar das vantagens de esforços mínimos, um olhar abrangente em estudos sobre exercícios revela que a maioria das pessoas se beneficiaria aumentando a atividade se estiverem habituadas a exercícios moderados. Talvez a pior notícia seja para aqueles que trabalham sentados por mais de seis horas diárias: continuar na mesma posição durante a hora de lazer pode ser muito prejudicial para a saúde, mesmo que a pessoa execute exercícios de alta intensidade. Ainda não se sabe se o problema está relacionado ao próprio ato de sentar, ou à falta de movimento geralmente associado a ele. Mas a mensagem é clara. Movimento regular e prolongado – em qualquer nível de intensidade que possa ser seguramente controlado – deve ser incorporado aos hábitos diários.

COM A MENTE MAIS CLARA

A maioria das pessoas se sente bem depois de correr ou mesmo fazer uma caminhada leve. Há várias hipóteses, levantadas pela ciência e pelo senso comum, que explicam esse fato: o exercício físico ajuda a “esquecer” pequenas frustrações diárias, reduz a tensão muscular e estimula a produção de endorfinas. Mas talvez a maior razão de nos sentirmos tão bem quando o coração bate mais rapidamente e bombeia sangue por todo o corpo é que isso ativa o cérebro e seus intrincados circuitos – o que, segundo estudos recentes, é o maior benefício do exercício físico. O desenvolvimento de músculos e o condicionamento do coração e dos pulmões podem ser considerados apenas efeitos colaterais diante do potencial que a atividade física tem de nos tornar mais bem-humorados e com maior facilidade para raciocinar.

 

Alguns benefícios da atividade física para o cérebro

1 – Previne acidente vascular cerebral: o aumento da capacidade cardiorrespiratória reduz a pressão sanguínea do corpo em repouso, o que diminui o risco de acidentes vasculares cerebrais (AVC). A movimentação sintetiza proteínas, como o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF, na sigla em inglês), que estimula a produção de células endoteliais, que compõem o revestimento interno de vasos sanguíneos tornando-os mais resistentes. O exercício desencadeia também a liberação do gás óxido nítrico, que dilata os vasos para permitir a passagem de um maior volume de sangue.

2 – Reduz risco de demência: pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, acompanharam 1.173 pessoas com mais de 75 anos por quase uma década. Nenhuma delas tinha diabetes, mas as que possuíam altos níveis de glicose apresentaram uma probabilidade 77% maior de desenvolver Alzheimer. Conforme envelhecemos, os níveis de insulina caem e a glicose tem mais dificuldade para chegar às células e abastecê-las. O excesso de glicose não absorvida cria resíduos nas células, como os radicais livres, que danificam os vasos sanguíneos, colocando-nos em risco de desenvolver Alzheimer. No organismo em equilíbrio, a insulina age contra o acúmulo de placas amiloides, mas seu excesso contribui para o aumento das placas e para a inflamação, danificando os neurônios ao redor.

 3 – Melhora o humor: a maior produção de neurotransmissores, como a serotonina, e o aumento do número de sinapses previnem a atrofia do hipocampo, associada à depressão e ansiedade. Vários estudos relacionam a prática de atividade física regular à melhora do humor. Além disso, exercícios ao ar livre ou mesmo na academia de ginástica são boa oportunidade para interagir socialmente e fazer novos amigos; as relações sociais são importantes para a manutenção do humor e da autoestima, principalmente depois dos 60 anos.

4 – Aumenta a motivação: a atividade física ativa a produção de dopamina, neurotransmissor responsável pelas sensações de prazer e motivação. Iniciar um programa de exercícios, aliás, é um desafio que de­ manda planejamento e autocontrole.

5 – Promove a neuroplasticidade: atividades aeróbicas fortalecem as conexões neuronais e estimulam as células-tronco recém-nascidas a se dividir e se transformar em neurônios funcionais no hipocampo, o que previne o atrofiamento dessa área do cérebro relacionada à memória. Um cérebro ativado pelos exercícios favorece a neuroplasticidade e a neurogênese, que é a formação de novos neurônios.

Benefícios 

 SHARI S. BASSUK é epidemiologista do Brigham and Women’s Hospital e associada de pesquisa da faculdade de medicina da Universidade Harvard.

TIMOTHY S. CHURCH é diretor do Preventive Medicine Research Laboratory e professor do Pennington Biomedical Research Center da Louisiana State University.

JOANN E. MANSON é chefe da divisão de medicina preventiva do Brigham and Women’s Hospital, professora de medicina e professora do departamento de epidemiologia da faculdade de medicina da Universidade Harvard.

 

 

GESTÃO E CARREIRA

O fim das avaliações

O FIM DAS AVALIAÇÕES

Aos poucos as empresas estão percebendo que rotular o funcionário pelo desempenho bom ou ruim do passado não traz benefícios. A alternativa? Valorizar os talentos pensando no futuro.

A avaliação de desempenho, tal qual a conhecemos, está chegando ao fim. Grandes companhias começaram a abolir a rotulagem dos funcionários pelo que eles fizeram no passado e passam a desenvolver um plano individual que valorize suas habilidades — de olho no futuro.

Esse é um reflexo da percepção dos próprios líderes de RH, que em sua maioria notam que os atuais modelos de medição são ineficientes. As avaliações não refletem de forma correta as contribuições dos indivíduos, muito menos apoiam o cresci- mento necessário dos negócios. De acordo com uma pesquisa de 2013 da CEB, consultoria de benchmarking global de capital humano, realizado com 35 000 empregados de mais de 40 organizações no mundo, 45% dos líderes de RH reconhecem que grandes mudanças no processo de avaliação são necessárias, enquanto 41% fizeram alguma alteração recentemente.

A fabricante de papéis e celulose Klabin foi uma das primeiras empresas a adotar um novo modelo no Brasil, há um ano. “Deixamos de lado a avaliação que vinha com notas e classificações e agora as discussões ficam em torno das oportunidades de cada um para se desenvolver e, assim, entregar resultado. Saímos do feedback e fomos para o ‘feedforward’, que tem foco no que a pessoa fez de positivo, sempre olhando para o futuro”, diz Sergio Piza, responsável por gente e gestão da Klabin. A ideia é puxar do empregado o que ele tem de melhor, para que isso se reverta em resultado para a organização. A palavra de ordem passa a ser o desenvolvimento — não mais o desempenho. E por que fazer essa mudança agora? Piza explica que assim se cria um ambiente de confiança, um espaço no qual as pessoas podem ser autênticas e dizer o que pensam. “Dar um bom feedback é difícil. O que temos agora é um diálogo com mais qualidade e que faça sentido para todos”, afirma.

Avaliação subiu o telhado

Velhos problemas

Afinal, o que há de errado com as avaliações feitas até agora? “O processo todo sempre foi muito longo, burocrático e estático”, diz Adriana Chaves, sócia responsável pela divisão de desenvolvimento e carreira da DMRH, consultoria de gestão de pessoas e processos seletivos.

Para Luiz Gustavo Mariano, sócio da Flow Executive Finders, empresa de seleção de executivos, a principal dificuldade é que o gestor não atua na correção da rota na hora em que alguma coisa ruim acontece. “O chefe espera chegar o período da avaliação, que pode ser daqui a seis meses ou um ano, para dar o feedback”, diz. E, com um mundo em constante mudança, cada vez mais é preciso agir rapidamente. Outra dificuldade, completa Mariano, é que, quando o executivo de RH mensura o tempo de preparo dos funcionários e da aplicação do questionário em si, e o valor financeiro de ter líderes envolvidos em diversas reuniões de discussão de pessoas, especialmente em grupos com mais de 1 000 trabalhadores, ele percebe o quão custoso esse processo é. “A companhia toda para por um mês”, diz Mariano. Devagar, as corporações começam a perceber as falhas e a mudar as formas de aferir o desempenho. Segundo um levanta- mento da Fundação Instituto de Administração (FIA) junto com a pesquisa 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar (realizada há 20 anos pela revista VOCÊ S/A), em 2014, todas as organizações mediam os empregados com base no que fizeram no passado, com feedbacks semestrais ou anuais. Em 2015, a porcentagem caiu para 98%. Entre as organizações que estão revendo a avaliação, a busca é por conversas mais frequentes, com menos peso para a hierarquia e processos internos mais simples.

O passado e o futuro das avaliações

Hora de mudar

Para agilizar a avaliação, a multinacional americana GE, reconhecida defensora da matriz 9 Box, nos anos 1960, trocou a mania de rotular os funcionários em quadrantes por um processo de co-criação, envolvendo seus 165 000 trabalhadores nos países onde está presente. “Nós visamos o futuro. Buscamos desenvolvimento profissional e queremos abrir diálogo sobre a carreira de nossos colaboradores”, diz Ana Manhães, líder de desenvolvimento de talentos da GE para América Latina. Agora o feedback é dado à medida que as atividades e os fatos acontecem — sem a necessidade de uma reunião formal. Para isso, a companhia desenvolveu uma ferramenta na qual as pessoas publicam, a qualquer momento, suas conquistas e contribuições. Elas também têm a oportunidade de dar, solicitar e receber a opinião de seus colegas, superiores e subordinados.

Camille Mirshokrai, diretora de desenvolvimento de liderança para mercados emergentes da Accenture, em sua visita ao Brasil, afirmou que a chave para um bom processo de medição dos funcionários não é apenas dar feedback na hora certa, mas “ser coach” — principalmente pensando em alavancar o desempenho. “Essa, sim, é a grande mudança”, diz. Há um ano, a consultoria decidiu parar com as avaliações anuais de seu pessoal. Desde então, os líderes trabalham para descobrir suas próprias fortalezas e estabelecer as prioridades para fazer a diferença nos projetos que serão desenvolvidos durante o ano.

É inegável que as pessoas ficam motivadas e, consequentemente, trabalham mais e melhor quando são avaliadas justa e corretamente. Mas é preciso cuidado para, em busca de melhorias, não dar às avaliações apenas uma roupagem diferente para velhos problemas. O alerta é feito por Sofia Esteves, presidente do conselho do Grupo DMRH. Nos últimos três anos, ela tem coordenado um grupo com 25 representantes de grandes empresas, como Ultra, GE, Samsung, Unilever e Novelis, cujo objetivo é debater ideias relacionadas ao trabalho que vão surgindo no mercado. A avaliação de desempenho, como é feita hoje, foi tema da mais recente reunião do grupo. “Foram levantados prós e contras, e o que vimos foi que os profissionais de RH estão num grande questionamento sobre o tema”, afirma a empresária.

Para Joel Dutra, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), que acompanha as questões que envolvem gestão de pessoas há 20 anos, as corporações que realmente quiserem mudar a forma como medem seus empregados terão de lutar contra uma cultura interna extremamente arraigada. “Há uma grande evolução nos processos de avaliação nos últimos anos. A discussão não é se a companhia faz ou não, mas em que nível de maturidade (para avaliar pessoas) ela está para dar um novo passo.” Mais do que abandonar cronogramas ou simplificar processos, os executivos de RH precisam repensar a forma como enxergam os funcionários. Avaliar recursos ou peças é uma coisa, pensar em seres humanos complexos é outra.

AS 7 ETAPAS DA AVALIAÇÃO E SEUS PROBLEMAS

O professor Joel Dutra, da Universidade de São Paulo, faz um resumo de como os processos internos caminham dentro das empresas:

1 – O PACTO: Os gestores olham para todos os funcionários sob a ótica de um mesmo pacote de critérios, o que é muito confortável.

2 – O RITUAL: Pacto se transforma em um ritual. O gestor faz a avaliação uma vez por ano, com um sistema mais formal de avaliação.

3 – O PADRÃO: Ao avaliar, a empresa percebe que, apesar de usar a mesma métrica, cada líder tem um jeito diferente. Tem gestor mais rígido, outro mais benevolente. Por outro lado, os gestores tentam estabelecer uma mesma forma de olhar os critérios e eliminar a subjetividade, para serem mais justos e adequados.

4 – A CRÍTICA: Ser mais crítico. Os gestores se dividem entre aqueles que avaliam as pessoas por seu desenvolvimento conforme parâmetros e aqueles que fazem a avalição para definir remuneração.

5 – A MERITOCRACIA: Cada líder tem que ter a consciência de quem merece ou não aumento e bancar essa decisão.

6 – A EXECUÇÃO: Os gestores assimilam que devem fazer acontecer. As ações começam a integrar a agenda ao longo do ano.

7 – A ROTINA: A avaliação já está no sangue da empresa, já faz parte da rotina.

 

FONTE: Revista VOCÊ RH