O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O JÁ E O AINDA NÃO

Eu comecei a Introdução com a tensão entre o “ontem” (passado) e o “hoje” (presente); termino agora com uma outra tensão, entre o “já” (presente) e o “ainda não” (futuro). A primeira concerne à conexão entre o histórico e o contemporâneo; a segunda, entre o contem­porâneo e o escatológico. Mas as duas tensões andam juntas. Afinal, em Jesus Cristo e através dele o “ontem”, o “hoje”, o “já” e o “ainda não” —passado, presente e futuro — se conciliam em uma criativa relação. Os cristãos vivem no presente, mas o fazem em gratidão pelo passado e na expectativa do futuro.

Este capítulo final é um ensaio a respeito do que eu gosto de chamar de “CBE”. Não, eu não estou falando do “Con­gresso Brasileiro de Evangelização”, mas de “Cristianismo Bíblico Equilibrado”. Equilíbrio é uma coisa rara em nossos dias em quase todas as esferas, inclusive entre nós que professamos seguir a Cristo.

Não estou dizendo que tenho um conhecimento pessoal mais achegado com o diabo; aliás, pode até ser que alguns de meus leitores o conheçam melhor do que eu! Mas o que eu sei é que ele é um fanático e o grande inimigo de todo bom senso, moderação e equilíbrio. Um dos seus passatem­pos prediletos é perturbar o nosso equilíbrio e desestruturar os cristãos (especialmente os evangélicos). Quando não consegue nos induzir a negar a Cristo, ele dá um jeito de nos fazer distorcê-lo. É por isso que se vê por toda parte um cristianismo desequilibrado, em que se superenfatiza um aspecto da verdade em detrimento do outro. Graças a Deus, porém, que ele nos deu dois ouvidos, a fim de que possamos ouvir em dobro e com sensibilidade, atentando cuidadosamente para ambos os lados de cada questão; deu-nos dois olhos, para que possamos enxergar bem e não pela metade; duas mãos, para que possamos agarrar os dois extremos de cada antinomia bíblica; e dois pés, que nos per­mitem caminhar com estabilidade e não sair manquejando pela vida.

Uma compreensão equilibrada da tensão existente entre o “já” e o “ainda não” seria de muita ajuda para a unidade cristã, e especialmente para uma harmonia maior entre os crentes evangélicos. Eu confesso que fico profundamente confuso com as barreiras que se colocam entre nós, que compartilhamos da mesma fé bíblica. Eu não estou falando, agora, nem da divisão entre Roma e as igrejas da Reforma, nem do abismo que há entre cristãos liberais e conserva­dores, ou seja, entre aqueles que creem no dom da verdade revelada e aqueles cuja maior autoridade é aquilo que eles chamam de “o consenso da opinião moderna”. Pelo con­trário, estou me referindo à desunião que reina dentro do próprio movimento evangelical. Isto sem falar que nós cremos no Credo dos Apóstolos e no Credo Niceno, como também na substância das grandes confissões da Reforma. E tem mais: não faz muito tempo que estabelecemos um conveniente ponto de referência através do Pacto de Lausanne (1974) e sua elaboração no Manifesto de Manila (1989). Assim, estamos todos de acordo quanto aos fun­damentos éticos e doutrinários da fé. Mesmo assim, parece que, constitucionalmente, somos dados a discussões e divisões, ou simplesmente a seguir o nosso próprio cami­nho e construir o nosso próprio império. Parece que sofremos de uma incapacidade patológica de nos acertar­mos uns com os outros ou de cooperarmos juntos na causa do reino de Deus. Nós não podemos ignorar esta situação deveras lamentável.

Quem já leu o maravilhoso conto O Pecado Secreto de Septimus Brope, de Saki? Nele a Sra. Troyle expressa o seu desânimo ao pensar em perder Florinda, sua empre­gada. “Eu tenho certeza de que não sei o que fazer sem Florinda… Ela compreende o meu cabelo. Eu mesma já desisti há muito tempo de fazer alguma coisa com ele. Na minha opinião, o cabelo da gente é como um marido: conquanto que apareçamos juntos em público, não impor­tam as nossas divergências na vida privada!” Mas nós não temos o direito de nos considerar uns aos outros assim como a Sra. Troyle considerava seu cabelo ou seu marido. As nossas divergências, tanto as públicas como as parti­culares, têm importância, sim. Afinal, elas são, sem dúvida alguma, desagradáveis a Deus e prejudiciais à nossa missão ao mundo.

Um exemplo disso tem relação com o tremendo progresso das igrejas pentecostais e do movimento carismático no mundo inteiro. Eles têm crescido mais rápido do que qual­quer outro grupo cristão. Mas certos cristãos têm contra eles uma reação tão negativa que parece que estão correndo o risco de apagar o Espírito, ao passo que certos carismáticos são tão triunfalistas que acham difícil escutar quem porventura tenha sérios questionamentos teológicos acerca de suas crenças e práticas pentecostais distintivas. Mas, então, será que os evangélicos, tanto carismáticos como não-carismáticos, não podem se respeitar e aceitar mutua­mente a ponto de permitir que haja entre eles uma comu­nhão genuína e uma ativa colaboração? Eu acho que sim, é possível, mesmo sendo problemático; e acho que uma ideia do que significa a tensão entre o “já” e o “ainda não” deveria contribuir consideravelmente para uma compreensão mútua.

O REINO QUE VEIO E QUE VIRÁ

Para o cristianismo do Novo Testamento, é fundamental a perspectiva de que nós estamos vivendo “tempos inter­mediários” — entre o passado e o futuro, entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, entre o que foi feito e o que resta por fazer, entre a realidade presente e o destino futuro, entre o reino que veio e o reino que virá, entre o “já” em relação à instauração do reino e o “ainda não” em relação a sua consumação. Do ponto de vista físico, é naturalmente impossível olhar ao mesmo tempo para duas direções opostas; espiritualmente falando, porém, é essen­cial que o façamos, olhando para trás, para a encarnação e todas as suas implicações, e olhando para a frente, para a parusia e tudo o que ela há de trazer. Um texto que exemplifica isto, se me permitem modificá-lo um pouquinho, seria este: “Queridos amigos, agora nós somos filhos de Deus, mas ainda não foi revelado o que haveremos de ser.” A base teológica para esta tensão vai ser encontrada no próprio ensinamento de Jesus acerca do reino de Deus. Todo mundo concorda que o reino se manifestou claramen­te em seu ensino, como também que ele anunciou a vinda desse reino. O que leva os estudiosos a discordarem entre si, porém, é qual é o tempo da sua chegada. Será que o reino já veio, porque Jesus o trouxe consigo? Ou ele ainda virá no futuro e, portanto, temos que   continuar aguardando-o? Ou será que a verdade reside entre estas posições, consis­tindo na combinação das duas?

O teólogo alemão Albert Schweitzer, falecido em 1965, foi um homem incrivelmente versátil: era músico, médico, teólogo e missionário. Em seu famoso livro Era Busca do Jesus Histórico (The Quest for the Histórical Jesus,1906), ele argumenta que, de acordo com Jesus, o reino jaz in­teiramente no futuro. Jesus teria sido um profeta apoca­líptico, que ensinou (equivocadamente) que a qualquer momento Deus iria intervir de maneira sobrenatural, estabelecendo o seu reino. As demandas deveras radicais que Jesus fez aos seus discípulos (p. ex. vender os seus bens, voltar a outra face e não resistir ao mal) representariam uma “ética interina” à luz da iminente chegada do reino. Essa posição de Schweitzer tem sido chamada de escatologia “consistente”, pois ele desenvolveu sua única tese com eficácia e consistência.

No outro extremo encontra-se C. H. Dodd, que morreu em 1973. Em seu livro As Parábolas do Reino (The Parables of the Kingdom, 1934) ele elaborou sua “escatologia rea­lizada”, a saber, que a vinda do reino residia completamente no passado. Embora o domínio de Deus seja eterno, mesmo assim ele irrompeu no tempo e no espaço na pessoa de Jesus. Dodd colocava uma ênfase especial em dois versículos, cujos verbos se encontram no pretérito perfeito: “O reino de Deus chegou” e “O reino de Deus chegou sobre vós”. Além disso, segundo Dodd, não existe nenhuma vinda futura do reino. Os versículos que falam nisso devem ser enten­didos como concessões a uma escatologia cristã popular, primitiva; eles não faziam parte do ensino de Jesus.

Em lugar dessas polarizações extremas (Schweitzer de­clarando ser a vinda do reino completamente futura, e Dodd completamente passada), a maioria dos estudiosos tem assumido uma posição intermediária, afirmando que Jesus falou do reino tanto como uma realidade presente como uma expectativa futura. Por um lado, ele mesmo o inau­gurou; e, por outro lado, ele o consumaria quando de sua vinda. Joachim Jeremias, por exemplo, escreveu em seu livro As Parábolas de Jesus (The Parables of Jesus, 1947) a respeito da “escatologia no decurso da realização”. A. M. Hunter, em seu Interpretando as Parábolas (Interpreting the Parables, 1960), preferiu o termo “escatologia inaugu­rada”. Uma estância similar foi adotada pelo teólogo holandês Herman Ridderbos em A Vinda do Reino (The Corning of the Kingdom, 1950) e pelo americano George Eldon Ladd, tanto em O Evangelho do Reino (The Gospel ofthe Kingdom, 1959) como em A Presença do Futuro (The Presence of the future, 1974), em que o assunto é tratado com muita maturidade. A tese central de Ladd era que o reino de Deus, no sentido de domínio dinâmico e redentor de Deus,

que há de aparecer como um ato apocalíptico no final dos tempos, já chegou à história humana na pessoa e missão de Jesus, que veio para derrotar o mal, livrar os homens do poder do mal e conduzi-los às bênçãos do reino de Deus.

Assim, o reino realmente chegou com Jesus. “Mas ele não veio sem deixar algo para trás: a consumação ainda jaz num futuro indeterminado. “

Que Jesus considerava e descreveu o reino como um fenô­meno presente, disso não há dúvida. Ele ensinou que o tempo do cumprimento havia chegado; que agora o “va­lente” estava amarrado e desarmado, facilitando que lhe saqueassem os bens, como era evidente a partir de seus exorcismos; que o reino já estava ou “dentro “ou “entre” as pessoas; que agora se podia “entrar” nele ou “recebê-lo”; e que, desde o tempo de João Batista, seu precursor, que havia anunciado sua chegada iminente, o reino de Deus vinha sendo “tomado por esforço” e que “aqueles que se esforçam” se haviam “apoderado dele”.

Na perspectiva de Jesus, porém, o reino era também uma expectativa futura. Ele só seria aperfeiçoado no último dia. Assim ele olhava em direção ao fim, e ensinou seus dis­cípulos a fazerem o mesmo. Eles deviam orar “Venha o teu reino” e “buscá-lo primeiro”, dando prioridade a sua expansão. Às vezes ele se referia ao estado final de seus seguidores em termos de “entrar” no reino ou “recebê-lo”.

Suas parábolas, principalmente as rurais (p. ex. a pará­bola da semente que crescia secretamente, a do grão de mostarda, a do trigo e do joio), conciliam os processos de plantar, crescer e colher. Como semente, o reino já tinha sido plantado no mundo; agora, através da invisível atividade divina, ele iria crescer até o fim. Parece ter sido isso o que Jesus quis dizer com “o mistério (ou segredo) do reino”. Sua presença era discreta, mas também revo­lucionária, assim como o poder de Deus a faria crescer até que finalmente se tornasse    manifesta a todos.

Uma outra maneira pela qual a Escritura expressa a tensão entre o “já” e o “ainda não”, o presente e o futuro, é através da terminologia das duas “eras”. Na perspectiva do Antigo Testamento, a história se divide entre “esta era” e a “era vindoura”, entre “o tempo presente” (mau) e “o tempo por vir” ou “os últimos dias”, a saber, o reino da justiça a ser introduzido pelo Messias. Às vezes esta era é comparada a uma noite longa e escura, à qual se seguirá o alvorecer de um novo dia. Esta estrutura simples de duas eras consecutivas foi decisivamente mudada, porém, com a vinda de Jesus. Ele introduziu uma nova era, morrendo por nós a fim de livrar-nos “deste mundo perverso”. Consequentemente, através de Jesus, o Pai já “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor”. Nós fomos até mesmo ressuscitados da morte e assentados com Cristo nos lugares celestiais.

Ao mesmo tempo, a velha era continua. E assim as duas se sobrepõem. “As trevas se vão dissipando e a verdadeira luz já brilha.” “Lado a lado… com a continuação desse esquema mais velho (se. a nova era sucedendo a velha), pode-se notar o irromper de um novo sistema, que implica numa coexistência dos dois mundos ou estados. Um dia a velha era chegará ao fim (que será o “fim dos tempos”, a “consumação dos séculos”), e a nova era, que foi inau­gurada pela primeira vinda de Cristo, se consumará em sua segunda vinda. Entrementes, enquanto as duas eras continuam e nós nos vemos envolvidos na tensão entre elas, somos exortados a “não nos conformarmos com este mundo”, mas, pelo contrário, “transformar-nos” segundo a vontade de Deus, ou melhor, a vivermos coerentemente como filhos da luz.

Mas a tensão permanece. Com efeito, ela encontra ex­pressão em quase todas as metáforas usadas pelo Novo Testamento para a bênção de pertencer a Cristo. Assim, nós já fomos salvos, mas também seremos salvos um dia. Já “temos a redenção”, mas o dia da redenção ainda é futuro. Já somos filhos adotivos de Deus, mas também aguardamos a nossa adoção. Já “passamos da morte para a vida”, mas a vida eterna é também uma dádiva futura. Já somos novas criaturas, embora Deus ainda não tenha feito novas todas as coisas. Nós já estamos “cheios”, mas ainda não chegamos à plenitude de Deus. Cristo já está reinando, embora seus inimigos ainda não se tenham tornado estrado de seus pés.

Vivendo entre o presente e o futuro, a situação carac­terística dos cristãos é descrita de variadas maneiras: tendo esperança, aguardando, aguardando com ardente expectativa, gemendo. Afinal, nós ainda passamos por lamentáveis provações e tribulações. Na verdade, “nós temos que ver a realidade desse sofrimento como uma manifestação concreta do ainda não”. Enquanto isso, precisamos aguardar, não só “com ardente expectativa,” mas também “com paciência”. Como escreveu John Murray:

Tentativas de reclamar para a vida presente elementos que pertencem à perfeição consumada … são apenas sintomas dessa impaciência que iria interromper a ordem divina. Expectativa e esperança não devem cruzar as fronteiras da história; elas têm que esperar o fim, ‘a liberdade da glória dos filhos de Deus’.

A essência do período intermediário entre o “já” e o “ainda não”, entre o reino que veio e o reino que virá, é a presença do Espírito Santo no povo de Deus. Por um lado, a dádiva do Espírito é a bênção que distingue o reino de Deus e é, portanto, o principal sinal de que a nova era se aproxima. Por outro lado, já que o fato de o Espírito habitar em nós é apenas o princípio da nossa herança no reino, ele é também a garantia de que um dia o resto haverá de ser nosso. O Novo Testamento usa três metáforas para ilustrar isso. O Espírito Santo é “as primícias”, garantindo assim que virá a plena colheita; ele é o “penhor”, ou a primeira parcela do pagamento, garantindo com isso que haverá o pagamento completo; e é o antegosto, garantia de que o banquete completo será desfrutado um dia. Assim, o Espírito Santo é “tanto o cumprimento da pro­messa como a promessa do cumprimento: ele é a garantia de que o novo mundo de Deus já começou, e também um sinal de que esse novo mundo ainda há de vir.”

Agora, sim, estamos prontos para analisar alguns exem­plos da tensão entre o “já” e o “ainda não”.

REVELAÇÃO, SANTIDADE E CURA

O primeiro exemplo encontra-se na esfera intelectual, ou na questão da   revelação.

Nós declaramos com prazer e confiança que Deus já se revelou aos seres humanos, não somente no universo criado, em nossa razão e consciência, mas principalmente em seu Filho Jesus Cristo e através do pleno testemunho que a Bíblia dá a respeito dele. “Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos pro­fetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho.” Por isso nós ousamos dizer que já conhecemos a Deus, porque ele se fez conhecido a nós. Ele mesmo tomou a iniciativa de afastar a cortina que, de outra forma, o esconderia de nós.

Nós nos regozijamos profundamente nas glórias do auto revelação de Deus. Sua Palavra é, de fato, luz para o nosso caminho.

Não obstante, nós ainda não conhecemos a Deus tal como ele nos conhece. Nosso conhecimento é parcial, pois sua revelação foi parcial. Deve ser este o significado do pro­vérbio que diz que “a glória de Deus é encobrir as coi­sas…”. Ele revelou tudo o que quis revelar e que ele considera ser para o nosso bem — mas não tudo o que existe para revelar. Ainda restam muitos mistérios, que não deveríamos tentar desvendar, já que Deus os escondeu de nós. “Andamos por fé, e não pelo que vemos.”

De maneira especial (tomando de empréstimo a impressio­nante imagem usada por Lutero ao dirigir-se aos outros monges agostinianos em Heidelberg, em 1518), tudo que nós conseguimos ver é “as costas visíveis de Deus, ao revelar-se no sofrimento e na cruz”; sua face, porém nós não podemos ver. Como diz o Dr. Alister McGrath, “o Deus que nos fala da cruz é — usando a emocionante e ousada frase de Lutero — ‘o Deus crucificado e oculto’.”

Nós deveríamos acautelar-nos de Eunômio, que foi bispo de Cízico em Mísia no século IV. Ele foi um dos líderes de um grupo herético chamado “Anomoianos”, arianos extremos que ensinavam que o Filho era “diferente” (anomoios) do Pai, e que na verdade havia sido criado pelo Pai. Certa vez Eunômio teve a ousadia de declarar: “Eu conheço a Deus tão bem quanto ele conhece a si mesmo.” Um equivalente moderno (porém mais cômico) seria aquele velho pregador reavivalista lá do sul dos Estados Unidos que disse, certa vez: “Hoje eu vou explicar a vocês o inexplicável. Vou definir o indefinível. Vou ponderar o imponderável. Vou destrinchar o indestrinchável.”

Seria muito mais sábio colocarmo-nos ao lado daqueles autores bíblicos que, mesmo sabendo-se instrumentos da revelação divina, confessaram humildemente, no entanto, que o seu conhecimento permanecia limitado. Moisés, a quem o Senhor “conhecia face a face”, reconheceu: “O Senhor Eterno, eu sei que começaste a mostrar a tua grandeza e o teu poder a mim, teu servo.” E Paulo? Como igreja, nós temos para com ele uma dívida eterna por tudo que nos ensinou. Mesmo assim, ele disse que o seu conhe­cimento era parcial e imperfeito e o comparou aos pensa­mentos imaturos de uma criança, como também aos distorcidos reflexos de um espelho. E o apóstolo João, que havia penetrado profundamente na mente de Cristo, ad­mitiu que “ainda não se manifestou o que havemos de ser”.

Portanto, embora esteja certo gloriar-se na dádiva de Deus e na supremacia da revelação de Deus, também está certo confessar a nossa ignorância acerca de muitas coisas. Nós sabemos e não sabemos. “As coisas encobertas per­tencem ao Senhor nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos as palavras desta lei.” É muito importante conservar essa distinção entre as coisas reveladas e as coisas secretas, pois isto nos mantém confiantes e até dogmáticos com relação às primeiras, que nos pertencem, enquanto que permanecemos agnósticos acerca das últi­mas, que pertencem a Deus. Assim também nos sentiremos livres para explorar as coisas reveladas, e firmes para não ultrapassar os limites dos segredos de Deus. Mas, por outro lado, embora nos refreando diante das coisas secretas, não devemos ser tímidos em acreditar, expor e defender aquilo que Deus nos revelou. Eu gostaria de ver entre nós mais ousadia na proclamação daquilo que foi revelado, e mais reticência diante do que foi mantido em segredo. Para que haja unidade é preciso haver concordância quanto à ver­dade plenamente revelada, mesmo quando damos um ao outro liberdade na área da adiaphora, as “questões secun­dárias”. E qual é o critério para discerni-las? É quando os cristãos, apesar de tudo, chegam a diferentes conclusões a respeito delas. Estou pensando, por exemplo, em contro­vérsias quanto ao batismo, governo da igreja, liturgia e rituais, posições carismáticas e cumprimento da profecia.

A segunda tensão reside na esfera moral, ou na questão da santidade.

Deus já colocou dentro de nós o seu Espírito Santo, a fim de tornar-nos santos. O Espírito Santo já está atuando em nós, subjugando nossa natureza humana caída e egoísta e fazendo amadurecer em nosso caráter as nove manifestações do seu fruto. Semelhantemente, podemos afirmar que ele já está nos transformando pouco a pouco, conforme a imagem de Cristo.

No entanto, a nossa natureza caída ainda não foi erradicada, pois ainda “a carne milita contra o Espírito”, de forma que “se dissermos que não temos pecado, enga­namos a nós mesmos”. Nós ainda não nos conformamos completamente à perfeita vontade divina, pois ainda não amamos a Deus com todo o nosso ser, nem o nosso próximo como a nós mesmos. Estas coisas aguardam a vinda de Cristo. Como disse Paulo, nós “ainda não obtivemos a perfeição”, mas “prosseguimos para o alvo”, confiantes de que “aquele que começou boa obra (em nós) há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus”.

Assim, pois, nós vivemos uma dolorosa dialética entre o “já” e o “ainda não”, entre a derrota e a vitória, entre o desânimo com as nossas constantes falhas e a promessa de libertação definitiva, entre o clamor de suspirar: “Quem me livrará do corpo desta morte?” e o grito de segurança: “Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor!” Por um lado, precisamos levar mais a sério a ordem de Deus: “Sede santos, porque eu… sou santo”, a instrução de Jesus: “Vai, e não peques mais” e as declarações de João, de que ele está escrevendo a fim de que os seus leitores “não pequem” e de que “todo aquele que é nascido de Deus não viva na prática do pecado”. Por outro lado, precisamos reconhe­cer a realidade de que tanto o pecado como o Espírito Santo habitam em nós. Nós continuamos em busca da perfeição sem pecado pela qual tanto ansiamos. Por isso, mesmo rejeitando o perfeccionismo, nós nos recusamos a abraçar o reducionismo, ou seja, contentar-nos com baixos padrões de expectativa.

Handley Moule resumiu esta tensão no primeiro capítulo do seu livro Pensamentos sobre A Santidade Cristã (Thoughts on Christian Sanctity, 1888), intitulado “Obje­tivos, Limites, Possibilidades”. Ao tratar dos “Objetivos”, ele escreveu: “O mínimo a que aspiramos é andar o dia inteiro com Deus; habitar a cada hora em Cristo…; amar a Deus de todo o coração e o nosso próximo como a nós mesmos …; “entregar-nos a Deus”….; romper com todo o mal e seguir todo o bem.” E ele continua: “Temos que renegar absolutamente todo propósito secreto de imora­lidade, toda tolerância para com o pecado… Não podemos, sequer por um instante, deixar de andar dia a dia, hora a hora, continuamente com Deus, em Cristo, pela graça do Espírito Santo.” Mas depois, sobre os “Limites” (não dos nossos objetivos, mas relativos às nossa realizações), ele acrescentou: “Eu afirmo com absoluta convicção, baseado não só na experiência da Igreja como também na infalível Palavra de Deus, que, no mistério das coisas, haverá li­mitações até o fim, limitações muito humilhantes, fracas­sos bem reais. Até o fim será um pecador que haverá de andar com Deus.” E J. C. Ryle afirmou algo similar: “O velho John Newton, um traficante de escravos convertido, disse: ‘Eu não sou o que deveria ser, não sou o que quero ser, não sou o que espero ser em um outro mundo; mas pelo menos não sou mais aquilo que fui   um dia e, pela graça de Deus, sou o que sou.”

A terceira tensão entre o “já” e o “ainda não” encontra-se na esfera física, ou na questão da cura.

Nós declaramos que o reino de Deus, há muito tempo prometido, já foi inaugurado, uma vez que ele irrompeu na história com Jesus Cristo. Além do mais, Jesus não se contentou simplesmente em anunciar o reino; ele foi mais além, demonstrando a sua chegada através dos seus po­derosos feitos no campo físico. Ele andou sobre as águas e transformou água em vinho. Repreendeu, o vento, acal­mou uma tempestade e multiplicou pães e peixes. A na­tureza submeteu-se a ele. Seu poder se manifestou de forma especial no corpo humano, quando ele curou os enfermos, expulsou demônios e ressuscitou os mortos.

Semelhantemente, ele conferiu, tanto aos Doze como aos Setenta, autoridade para divulgar sua missão messiânica em Israel e para realizar milagres. Agora, até que ponto ele pretendia ampliar sua autoridade, isso é uma questão em discussão. Falando em termos gerais, os milagres eram “as credenciais de um verdadeiro apóstolo”. No entanto, seria ridículo tentar limitar ou domesticar o Deus todo-poderoso. O Deus que criou o universo, e que através de Jesus introduziu o reino, não pode ser colocado por nós em uma camisa-de-força. Nós temos que dar a ele a liber­dade e a soberania que lhe pertencem, ficando inteiramente abertos à possibilidade de ver milagres físicos hoje.

O reino de Deus, entretanto, ainda não chegou em sua plenitude. Afinal, “o reino do mundo” ainda não “se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo”, quando então “ele reinará pelos séculos dos séculos”. Ele continua aguardando aquele dia. E os nossos corpos, de maneira particular, ainda não foram redimidos. Tampouco a natureza foi inteiramente submetida ao domínio de Cristo. Pelo contrário, “toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias até agora”, aguardando que nasça o novo mundo. “E não somente ela, mas também nós… gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção de nosso corpo”.

Assim, pois, temos de admitir a tensão entre o “já” e o “ainda não” também nessa esfera. Na verdade, nós já “provamos… os poderes do mundo vindouro”, mas até aqui só foi um gostinho. Parte da nossa experiência cristã consiste em que a vida ressurreta de Jesus se “manifesta em nosso corpo mortal”, sua vida em meio a nossa morte, sua força em nossa fraqueza, dando-nos um vigor físico e uma vitalidade que de outra forma não conheceríamos. Ao mesmo tempo, nossos corpos continuam sendo frágeis e mortais, e querer gozar agora de perfeita saúde seria antecipar a nossa ressurreição. A ressurreição corporal de Jesus foi a garantia — ou melhor, o começo — da nova criação de Deus. No entanto, Deus ainda não se ergueu do seu trono para proferir a palavra decisiva: “Eis que faço novas todas as coisas!” Resumindo: aqueles que descar­tam a possibilidade dos milagres hoje estão se esquecendo do “já” do reino, enquanto que aqueles que veem neles a evidência da chamada “vida cristã normal” estão esque­cidos do “ainda não”do reino.

IGREJA E SOCIEDADE

Em quarto lugar, a mesma tensão é experimentada na esfera eclesiástica, ou na questão da disciplina na igreja. Nós afirmamos, e com razão, que Jesus, o Messias, já está congregando à sua volta um povo de propriedade sua. E a comunidade messiânica já se caracteriza pela verdade, o amor e a santidade para a qual é chamada. A igreja é “coluna e baluarte da verdade”, isto é, o alicerce que a mantém firme e a coluna que a mantém erguida. Quanto ao amor, Cristo, através da sua cruz, derrubou “a parede da separação” que dividia povos de diferentes raças, nações, tribos e classes, a fim de “criar em si mesmo um novo homem”. Quanto à santidade, sua nova sociedade é chamada, em diversos lugares, uma nação santa, um sacerdócio santo e um povo santo. Assim, verdade, amor e santidade já são marcas essenciais da nova sociedade de Jesus Cristo.

Contudo, Cristo ainda não apresentou a sua noiva a si mesmo como “igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”. Pelo con­trário, a vida presente e o testemunho da igreja carregam as máculas de muitos erros, pecados e discórdias. A história da igreja é a história da incrível paciência de Deus com um povo duro e obstinado.

Assim, pois, sempre que pensamos na igreja, temos que levar em conta o ideal e a realidade. A igreja é, ao mesmo tempo, comprometida com a verdade e inclinada para o erro, unida e dividida, pura, mas também impura.   Não que devamos condescender com suas falhas. “O incontes­tável ainda não nunca pode servir de álibi para as nossas derrotas.” Precisamos guardar tanto a visão da pureza como a da unidade da igreja, isto é, tanto sua pureza e ética doutrinária como sua unidade invisível. Já que estas coisas são da vontade de Deus, elas devem ser o nosso alvo. Em consequência, nós somos convocados a “combater o bom combate da fé”, como também a “esforçar-nos diligente­mente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”. E, na busca destas coisas, há lugar para a disciplina em casos de séria heresia ou pecado.

Mas o erro e a maldade não serão completamente erra­dicados da igreja neste mundo. Eles continuarão coexis­tindo com a verdade e a bondade. “Deixai-os crescer juntos até a colheita”, Jesus disse na parábola do trigo e do joio. Certas pessoas argumentam que, porque nesta parábola “o campo é o mundo”, a coexistência a que Jesus se refere está no mundo e não na igreja. O inimigo, porém, semeia o joio “no meio do trigo”, e é “do seu reino” que, no último dia, o Filho do homem irá arrancar o mal. Nem a Escritura nem a história da igreja justifica o uso de severas medidas disciplinares como uma tentativa de garantir uma igreja perfeitamente pura neste mundo.

A quinta área de tensão entre o “agora” e o “depois”, entre o “já” e o “ainda não”, encontra-se na esfera social, ou na questão do progresso.

Deus já está agindo na sociedade humana, é o que nós dizemos. Isto se dá, em parte, pela sua “graça comum”, quando dá ao mundo a bênção da família e do governo, através dos quais o mal é restringido e os relacionamentos controlados. Mas acontece também através dos membros de sua comunidade redimida, que zela pelos valores do seu reino, sem comprometê-los. Jesus disse que o seu povo deveria impregnar a sociedade como sal e luz. A partir destes modelos, pode-se deduzir que Jesus esperava que os seus seguidores influenciassem o mundo para o bem. Afinal, ambas as coisas refletem coisas práticas e efetivas na vida. Elas fazem diferença no contexto em que são colocadas: o sal previne a deterioração e a luz expulsa as trevas. Assim, lado a lado com a degeneração social, tem se registrado um considerável progresso social: maior disponibilidade de cuidados médicos, maior alcance da alfabetização e educação, defesa dos direitos humanos, melhora nas con­dições de trabalho, abolição da escravidão e do tráfico de escravos e proteção para os fracos e os vulneráveis.

No entanto, Deus ainda não criou o que prometeu, “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”. A justiça do reino ainda não eliminou toda opressão, nem a paz do reino toda violência. Ainda existem “guerras e rumores de guer­ras”. As espadas ainda não se converteram em relhas de arados, nem as lanças em podadeiras. As nações ainda não abriram mão da guerra como um método de acertar suas diferenças. O egoísmo, a crueldade e o medo conti­nuam existindo.

Assim, pois, embora esteja certo defender a justiça social e tentar melhorar ainda mais a sociedade, tornando-a mais agradável a Deus, nós sabemos que ela nunca será perfeita. Os cristãos não são utopistas. Mesmo conhecendo o poder transformador do evangelho e os saudáveis efeitos que, como sal e luz do mundo, podemos produzir, nós sabemos também que o mal está entranhado na natureza humana, assim como na sociedade humana. Nós não acalentamos ilusões. Somente Cristo, ao voltar novamente, irá erradicar o mal e entronizar a justiça para sempre. E esse dia nós aguardamos com ansiedade.

Eis aqui, pois, cinco áreas (intelectual, moral, física, eclesiástica e social) em que é vital preservar a tensão entre o “já” e o “ainda não”. Até se poderia dizer que há três diferentes tipos de cristãos, dependendo de como eles con­seguem manter esse equilíbrio bíblico.

Primeiro vêm os cristãos do “já”. Estes são os otimistas radiantes. Enfatizam, com razão, o que Deus já fez por nós através de Cristo e nos concedeu em Cristo. Mas a impres­são que eles nos dão é que, por isso mesmo, agora já não resta mais nenhum mistério, nenhum pecado que não possa ser superado, nenhuma doença que não possa ser sarada e nenhum mal que não possa ser erradicado da igreja ou até mesmo do mundo. Em resumo: parecem acreditar que a perfeição já pode ser alcançada aqui, agora. Eles me lembram aqueles crentes de Corinto a quem Paulo escre­veu: “Vocês já têm tudo o que precisam! Já são ricos! Vocês já se tornaram reis, e nós, não!”

Não há por que censurar os cristãos do “já”. Afinal, sua motivação é glorificar a Cristo. Assim, recusam-se a enxergar limites para aquilo que ele pode fazer. Acham que não aspirar à perfeição agora é uma humilhação para Jesus. Seu otimismo, porém, pode facilmente virar arrogância e acabar em desilusão. Além de ignorar o “ainda não” do Novo Testamento, eles esquecem que a perfeição aguarda a parusia.

Segundo, temos os cristãos do “ainda não”. Estes fazem muito bem o estilo do pessimista deprimido. Eles enfatizam, e com razão, o fato de que a obra de Cristo ainda não se completou, e, também acertadamente, aguardam a parusia, quando Cristo há de completar aquilo que ele começou. Mas a impressão que se tem é a de que eles são extremamente negativos em suas atitudes. O que os preocupa é a igno­rância e o fracasso da humanidade, o domínio arrasador da doença e da morte e a impossibilidade de se garantir a existência de uma igreja pura ou uma sociedade perfeita. A qualquer afirmação de que Cristo pode estar agindo vitoriosamente em alguma dessas áreas, eles reagem com um balde de água fria.

Estes também têm uma excelente motivação. Se o pro­pósito dos cristãos do “já” é glorificar a Cristo, o dos cristãos do “ainda não” é ser humildes pecadores. Estão firmemente determinados a corresponder fielmente ao que a Escritura diz sobre a corrupção humana. Mas o pessi­mismo deles pode facilmente virar complacência; aliás, pode até mesmo levá-los a serem condescendentes com o status quo e a uma apatia diante do mal. Eles esquecem o “já” daquilo que Cristo fez através de sua morte, res­surreição e dádiva do espírito, e também o que nós podemos fazer em nossas vidas, e na igreja e sociedade, como re­sultado disso.

Em terceiro lugar vêm os cristãos do “já-e-ainda-não”. São os realistas bíblicos. Eles tentam dar o mesmo peso às duas vindas de Jesus, àquilo que ele fez e ao que ele irá fazer. Regozijam-se no primeiro e aguardam ansiosamente pelo último. Querem ao mesmo tempo glorificar a Cristo e humilhar os pecadores. Por um lado, eles têm grande confiança no “já”, naquilo que Deus disse e realizou através de Cristo, e um grande desejo de explorar e experimentar ao máximo as riquezas da pessoa e obra de Cristo. Por outro lado, revelam uma humildade genuína diante do “ainda não”, humildade para confessar que ainda existe muita ignorância e pecaminosidade, muita fragilidade física, infidelidade eclesiástica e degeneração social — que, aliás, continuarão existindo, como sinais de um mundo caído e “meio salvo”, até que Cristo, em sua segunda vinda, venha aperfeiçoar aquilo que começou na sua primeira vinda.

É esta combinação entre o “já” e o “ainda não”, o reino inaugurado e o reino consumado, a confiança cristã e a humildade cristã, que caracteriza o verdadeiro evangelicalismo bíblico e que exemplifica aquele “CBE”, tão neces­sário nos dias de hoje.

As grandes proclamações acerca de Cristo sintetizam a nossa posição como “cristãos contemporâneos”:

Cristo morreu!

Cristo ressuscitou!

Cristo voltará!

Sua morte e ressurreição fazem parte do “já” do passado, ao passo que sua gloriosa parusia pertence ao “ainda não” do futuro. Seu triunfo supremo, no entanto, é certo. Com efeito, “a esperança da vitória final”, escreve Oscar Cullmann, “torna-se ainda mais vívida diante da con­vicção firme e inabalável de que a batalha que decide a vitória já se realizou.”

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Novidades no combate a depressão

NOVIDADES NO COMBATE À DEPRESSÃO

Caracterizada pela tristeza duradoura, profunda e sem causa específica, a patologia não tem um tratamento definitivo, até mesmo porque os sintomas podem aparecer em variados níveis, associados a questões físicas, psíquicas e à história pessoal. Felizmente, novas intervenções aumentam as chances de que cada paciente encontre as estratégias mais adequadas para seu caso.

A depressão assombra com uma estatística incômoda: será o problema de saúde mais comum do mundo em 2030, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Afetará mais pessoas do que qualquer outra doença, como o câncer e as patologias cardiovasculares. No entanto, ela ainda permanece uma incógnita para a ciência. Por resultar de uma interação de fatores genéticos, experiências emocionais e valores culturais, adquire contornos diferentes em cada paciente. Seu sintoma proeminente é a tristeza profunda, difusa e duradoura. “É diferente da tristeza em si, que é uma emoção comum, principalmente em situações de perda de entes queridos, de emprego ou diante de frustrações. Ela tende a desaparecer com a resolução ou adaptação da pessoa à situação. No caso da depressão, essa sensação é permanente”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, coordenador do Grupo de lnterconsultas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (1PQ-USP). Esse estado emocional pode vir acompanhado da persistência de outros sintomas bem característicos: ausência de prazer nas atividades diárias, problemas de sono, como a insônia, alterações no apetite, dificuldade para se concentrar, cansaço físico, lentidão (ou, em alguns casos, agitação mental) e pensamentos pessimistas e depreciativos em relação a si mesmo e ao futuro. Confirmado o diagnóstico, é indispensável o tratamento médico e psicológico.

As intervenções atuais podem ser muito eficazes para algumas pessoas – e inúteis para outras. O tratamento mais comum, e de mais fácil acesso, ainda é o farmacológico, embora, em depressões leves, o desempenho dos antidepressivos seja equivalente ao do placebo (substância neutra, mas que pode desencadear efeitos psicológicos). Nesses casos, psicoterapia pode ser a melhor saída. Os medicamentos-padrão costumam trazer alívio para pacientes com sintomas moderados ou graves, que geralmente apresentam prejuízos no trabalho e na vida pessoal. O paciente deve seguir as orientações médicas e não abandonar por conta própria o tratamento logo que os sintomas cessarem – a chance de que eles surjam novamente, se for assim, é grande. Outra medida que pode ajudar muito – aparentemente simples, mas que exige um pouco de esforço para ser colocada em prática – é a adoção de um estilo de vida mais saudável: incluir atividade física na rotina, comprometer-se com uma dieta mais rica em determinados nutrientes e, principalmente, aprender a gerenciar o estresse, que é inerente à vida, de forma mais inteligente. Tais medidas ajudam a equilibrar o organismo como um todo e a amenizar os impactos metabólicos da depressão, que está mais relacionada a outras doenças, como as cardíacas, do que se pensava.

Nas duas últimas décadas, foram publicadas muitas pesquisas sobre os transtornos depressivos. Não há, e provavelmente não haverá, uma promessa de “cura” definitiva. No entanto, um balanço das descobertas mais recentes revela novas tecnologias, técnicas de psicoterapia e substâncias com potencial antidepressivo que renovam as esperanças de muitas pessoas que sofrem com o problema – somente no Brasil, são mais de 38 milhões. Considerando a complexidade da depressão, um maior leque de informações e opções de tratamento aumenta as chances de que um paciente encontre a estratégia, ou a combinação de várias, mais adequada para si. Conheça algumas.

ANTIDEPRESSIVOS

APRENDER A DORMIR

Noites mal dormidas e depressão andam juntas, no entanto não é possível determinar qual vem primeiro. Até a década passada a insônia era considerada por especialistas um dos sintomas mais frequentes da depressão, de forma que o tratamento era mais direcionado para o transtorno psíquico. “O raciocínio usual era que, tratando a depressão, a dificuldade para dormir melhoraria, mas muitos novos medicamentos que se mostraram eficazes no tratamento da depressão não foram eficientes contra a insônia. Quando ela é tratada, inevitavelmente os sintomas depressivos melhoram”, diz a psicóloga Karina Haddad, do centro de pesquisa Instituto do Sono. Uma pesquisa divulgada em 2006 na Reunião Anual das Sociedades do Sono (APSS), em Denver, que avaliou quase 2 mil homens e mulheres, mostrou que insones têm risco 11 vezes maior de desenvolver depressão dentro de seis meses e mais risco de continuar doentes após um ano. A conclusão foi que o tratamento da insônia pode auxiliar na recuperação da depressão.

A insônia é, mais provavelmente, uma comodidade, ou seja, um transtorno que predispõe à depressão e que também pode ser desencadeado por ela. A relação é direta: o neurotransmissor serotonina – que induz ao bem-estar, relaxamento e equilíbrio e encontra-se em níveis mais baixos em pessoas com depressão – é precursor da melatonina, hormônio regulador do sono. Em outras palavras, se uma dessas substâncias é produzida em menor quantidade, ela afeta a outra sistemicamente.

A presença de luz influi diretamente no ciclo sono-vigília. Um exemplo simples do impacto do ambiente externo na regulação do organismo é a depressão sazonal, mais frequente em países que têm “dias mais curtos”, isto é, períodos de iluminação solar menores no inverno. Ao longo da evolução, nosso ritmo circadiano – nosso relógio interno, que sinaliza ao corpo quando é necessário descansar e se recuperar para o dia seguinte – foi sincronizado com a iluminação solar. Naturalmente, ao entardecer, começam a ser produzidos hormônios que nos “desaceleram”. No último século, esse ciclo tem sofrido uma interferência sem precedentes -a da tecnologia. “A luz elétrica inibe a secreção de melatonina. A do computador, da televisão, dos tablets também. Além disso, temos à nossa disposição uma série de estímulos – programas, filmes, videogames – que estimulam o funcionamento cerebral, retardando assim a mensagem de que é preciso dormir, comprometendo a arquitetura do sono. Aos poucos, começamos a ir para a cama cada vez mais tarde”, explica Karina.

A privação de sono pode reduzir funções imunológicas e deixar o organismo mais vulnerável. Menos horas para dormir restringem etapas importantes do sono, que se alternam em vários ciclos ao longo da noite, como o sono REM (rapid eye movement), relacionado à consolidação da memória e do aprendizado, e o sono delta, fase associada à restauração orgânica. Estresse, ansiedade e depressão liberam cortisol na corrente sanguínea. Em excesso, esse hormônio prejudica o sono delta, o que explica por que pessoas com esses transtornos dormem mal. Pacientes com depressão também apresentam altas concentrações de cortisol no sangue, e, consequentemente, uma diminuição do sono delta, o que compromete o sistema imunológico e prejudica a saúde de maneira geral.

Os antidepressivos hoje comercializados visam trazer a serotonina para níveis adequados, o que certamente interfere na qualidade do sono. Não é incomum, entretanto, que pacientes apresentem melhora dos sintomas depressivos, mas continuem a ter insônia – o que obviamente aumenta o risco de recaída da depressão. Não por acaso, um dos antidepressivos mais modernos, a agomelatina, age sobre os receptores de melatonina. Assim, o tratamento farmacológico integrado, com medicamentos específicos para o transtorno psíquico e para a insônia, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) direcionada para a insônia podem aumentar a chance de sucesso contra a depressão. Segundo Karina, o terapeuta conduz o paciente a uma “psico­educação”, que envolve mudança de hábitos e reestruturação de pensamentos e de crenças disfuncionais relacionados ao sono. Anotar as preocupações que pairam na mente na hora de dormir e aprender a relaxar são algumas das estratégias ensinadas. “É importante estabelecer uma higiene do sono, recondicionar o corpo a dormir, estipulando horários regulares e evitando atividades estimulantes nas horas antes de ir para a cama”, exemplifica.

CETAMINA: POTENCIAL E RISCOS

Quarenta minutos. É o tempo médio que a cetamina, ou quetamina, leva para aliviar os sintomas de pessoas com depressão crônica com resistência aos antidepressivos comercializados atualmente – que demoram, em média, mais de duas semanas para fazer efeito. Conhecida desde os anos 60, a droga é um anestésico de uso intravenoso desenvolvido para operar soldados na Guerra do Vietnã, usada também de forma ilícita como alucinógeno – o “Special K”, que provoca a sensação de “desprendimento” do corpo. Seu potencial antidepressivo tem sido estudado na última década. A principal diferença da cetamina em relação aos medicamentos existentes é que ela é a única que bloqueia os receptores de glutamato, neurotransmissor que estimula as sinapses. Em uma revisão dos estudos feitos com a droga, publicada na Science em 2012, pesquisadores da Universidade Yale demonstraram que uma única dose da droga, administrada por injeção, é aparentemente capaz de restaurar conexões sinápticas deterioradas pelo estresse crônico – daí o rápido alívio dos sintomas depressivos, que podem durar até dez dias. As pesquisas com a droga abrem, sem dúvida, perspectivas para criar uma nova geração de antidepressivos com ação no glutamato, que possam replicar a resposta rápida e a aparente eficácia da cetamina. Eles representam uma nova esperança para pessoas com depressão grave que não respondem a nenhuma outra intervenção.

No entanto, é preciso cautela. Ainda não está comprovada sua utilidade para tratamento de longo prazo nem se sabe ao certo se seu uso é seguro. Apesar de sugerida como droga para tratar emergências psiquiátricas, como pacientes que tentam suicídio, não há estudos consistentes que possam indicar sua eficácia na prevenção de novas tentativas. Além disso, doses altas – quantidade que é difícil precisar para cada pessoa – podem desencadear psicose. “A cetamina foi utilizada em pacientes resistentes aos antidepressivos tradicionais. Isso não quer dizer que ela seja mais eficiente que esses antidepressivos em todos os pacientes. É provável que alguns não melhorem nada e até piorem. Cada pessoa responde de maneira diferente a um tratamento”, diz Tung.

ESTIMULAÇÃO CEREBRAL PROFUNDA (DBS)

Experimental no Brasil, a técnica de estimulação cerebral profunda (DBS, na sigla em inglês) consiste em colocar, por meio de neurocirurgia, dois eletrodos fixos no cérebro. Eles são ligados por fios a uma bateria implantada no tórax, que envia a eles impulsos elétricos de forma sistemática. A DBS deve ser considerada um recurso apenas para pacientes com depressão grave que não reagem a nenhum outro tratamento. A estimulação elétrica excita o córtex cingulado e o núcleo accumbens, provocando a liberação de neurotransmissores relacionados à melhora do humor. Um estudo da Universidade Emory, na Geórgia, publicado em 2012 no Archives of General Psychiatry, mostrou que pacientes com sintomas graves de depressão que foram tratados com a técnica por dois anos apresentaram melhora significativa dos sintomas – as taxas de resposta dos voluntários ao tratamento foram de 92% e, de remissão, 58 %.

ESTIMULAÇÃOMAGNÉTICA TRANSCRANIANA (EMT)

Reconhecida para tratamento de depressão pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 2012, a técnica de estimulação magnética transcraniana (EMT) superficial consiste em aplicar ondas eletromagnéticas sobre o cérebro, com o objetivo de modular o funcionamento de regiões (determinadas por exames de neuroimageamento) que operam de forma alterada em pessoas com transtornos neuropsiquiátricos. No caso da depressão, os estímulos, produzidos a 3 centímetros de profundidade, são direcionados para o córtex dorsolateral pré-frontal esquerdo, região associada, entre outras funções, ao autocontrole e à resposta a situações estressantes, e hipoativa (com atividade abaixo do normal) em depressivos. As ondas eletromagnéticas aumentam o fluxo sanguíneo na área e, consequentemente, sua atividade cerebral.

“A área do cérebro a ser trabalhada é marcada numa touca e o médico direciona os estímulos para o local correto”, explica o psiquiatra Marco Marcolin, coordenador do Serviço de Estimulação Magnética Transcraniana do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). A EMT pode ajudar pacientes que não respondem ao tratamento medicamentoso, acelerar a resposta a ele ou mesmo ser uma alternativa para aqueles que não toleram os efeitos colaterais dos antidepressivos ou têm contraindicação a esses medicamentos.

Cada sessão dura aproximadamente 15 minutos (com intervalos entre as aplicações) e é indolor, pois o tratamento é não invasivo, isto é, não há nenhum tipo de corte nem é preciso anestesia. Os efeitos colaterais são pouco significativos, como vermelhidão na área de aplicação, zumbido e dores de cabeça. Um estudo observacional publicado em junho de 2012 na Depression and Anxiety, que acompanhou 307 pacientes com depressão grave que não estavam sendo tratados com antidepressivos, aponta que a EMT é eficaz para pacientes que não respondem aos medicamentos: as taxas de resposta foram de 58% e, de remissão, 37%.

Atualmente, em um estudo em andamento no IPQ-USP, os pesquisadores estão testando uma versão mais profunda de EMT, na qual os estímulos eletromagnéticos são aplicados com profundidade de 8 centímetros, e não de 3, como na EMT superficial. O Brasil é um dos poucos países no mundo que fazem a pesquisa, além de Estados Unidos, Israel, Canadá e Alemanha. Por precisar ainda de definição de limites de seu emprego e de critérios de segurança, a EMT profunda por enquanto é um tratamento apenas experimental.

CUIDE DO SEU CORAÇÃO

A saúde psíquica e a cardiovascular podem ter relações muito próximas. Estudos voltados para a relação “mente-coração” ainda são poucos e recentes, mas já se sabe que transtornos de humor dobram as chances de uma pessoa sofrer ataques cardíacos. Em 2012, cientistas do Laboratório de Transporte de Membrana da Universidade do Estado do Rio de janeiro (Uerj) estudaram um possível marcador biológico em comum para transtornos psíquicos e doenças cardíacas: baixa concentração do aminoácido L- arginina no sangue. Produzida nos rins e adquirida na dieta, essa molécula é usada pelas células para sintetizar óxido nítrico (NO), gás com efeito vasodilatador e inibidor da agregação plaquetária, isto é, formação de coágulos que podem obstruir os vasos sanguíneos e ele var a pressão arterial, o que aumenta a predisposição para problemas como derrame vascular e infarto. Uma das linhas de pesquisa se concentra na via L- arginina-óxido nítrico – isto é, todos os processos envolvidos na produção do gás, desde o transporte do aminoácido para o interior das células até sua sintetização.

Segundo a psicóloga Monique Oliveira, pesquisadora da equipe coordenada pela cardiologista Tatiana Brunini, pessoas com transtorno depressivo maior apresentam, em média, níveis de L-arginina no sangue 20% menores. “Isso implica maior vulnerabilidade aos problemas cardiovasculares”, diz a psicóloga. O grupo também estuda os efeitos de exercícios aeróbicos no aumento da produção de óxido nítrico em ratos. Os pesquisadores submeteram roedores separados da mãe ao nascer – uma simulação do estado depressivo em humanos –  a uma rotina de exercícios físicos: os animais apresentaram, além de perda de peso e melhora do condicionamento físico, aumento dos níveis de óxido nítrico. A descoberta reforça a ideia deque atividades aeróbicas são uma alternativa ao uso de medicamentos para tratar sintomas “leves” de transtornos de humor e também para ajudar a prevenir reincidência de episódios depressivos. “A atividade física ajuda a reduzir o estresse oxidativo (desequilíbrio na produção de gases no meio intracelular), condição biológica associada tanto a doenças vasculares, como a ateroscleros, e quanto a neurológicas”, explica Monique.

PSICOTERAPIA E MEDITAÇAO

A abordagem psicológica mais tradicional para tratamento da depressão é a terapia cognitivo­ comportamental (TCC). Basicamente, o terapeuta ajuda o paciente a se conscientizar das crenças negativas que tem sobre si mesmo e o mundo e como elas se refletem em padrões de comportamento. Em casos de depressões moderadas e mais graves, a técnica apresenta melhores resultados quando combinada com medicamentos. Mais recentemente, pesquisadores comprovaram os efeitos positivos de uma variação da TCC: a terapia cognitivo-comportamental baseada na atenção plena (M BCT, mindfulness-based cognitive therapy). Estudada pelos psicólogos cognitivos Zindel Segai, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Toronto, e Mark Williams, do Centro de Estudos de Meditação da Universidade de Oxford, consiste em mesclar técnicas de meditação à terapia convencional para prevenir a recaída em pacientes que já apresentaram melhora.

Segundo Segai, o cérebro de pessoas com depressão está “habituado” a processos cognitivos que desencadeiam o problema, como os pensamentos depreciativos sobre si mesmas. A meditação ajuda o paciente a se conscientizar de emoções, fantasias, lembranças e situações que passam por sua mente consciente, aceitando-as. Ele e sua equipe acompanharam 84 pacientes que sofriam de depressão e haviam tomado antidepressivos até a remissão dos sintomas. No fim dessa primeira fase, um terço dos pacientes continuou o tratamento medicamentoso, um terço recebeu placebo e o restante participou de sessões de MBCT. Um ano e meio depois, 30% dos pacientes que se dedicaram à MBCT voltaram a sofrer de depressão – um número equivalente a pessoas do grupo tratado com antidepressivos, enquanto a proporção atingia 70% entre aqueles que haviam tomado o placebo. Os pesquisadores concluíram que a prática pode ser tão eficaz quanto os antidepressivos para evitar uma recaída. “Os efeitos positivos da meditação para a saúde se baseiam em uma modificação da atividade cerebral. A ideia é que a pessoa comece a identificar seus processos automáticos e, por meio da reflexão, possa alterá-los” , diz Segai.

ÁCIDO FÓLICO: A VITAMINA DO BEM-ESTAR

Conhecido por comprovadamente prevenir problemas congênitos no cérebro e na coluna vertebral, pois participa da formação do tubo neural do feto, o ácido fólico, ou vitamina B9, também pode ter efeitos antidepressivos. Uma revisão de 11 estudos por pesquisadores da Universidade de York, no Reino Unido, envolvendo mais de 15 mil pessoas no total, aponta que a depressão está associada a níveis mais baixos dessa substância no sangue. Algumas pesquisas sugerem que a combinação de suplementos de ácido fólico (em quantidades determinadas pelo médico, pois em excesso a substância pode causar deficiência de outras vitaminas) com o tratamento medicamentoso-padrão pode incrementar a melhora dos sintomas. No entanto, a ingestão de suplementos por si só não mostra efeito melhor que o de placebo. De acordo com estudo publicado no American Journal of Epidemiology, pessoas com depressão crônica têm um gene relacionado ao processamento menos eficiente de ácido fólico, que por sua vez está relacionado à produção de “substâncias cerebrais do bem estar”, como a serotonina. São necessários mais estudos para reforçar e esclarecer a relação entre o ácido fólico e a depressão, mas nada impede de enriquecer a dieta com alimentos que contenham maiores quantidades desse nutriente, bem como de outros comprovadamente benéficos para o humor, como vitamina B6, triptofano e ácidos graxos ômega-3. Há indicativos de que pessoas que sofrem de distúrbios psíquicos costumam ter carência dessas substâncias nutritivas. Alguns especialistas defendem, inclusive, a ideia de que o cérebro “se ressente” quando é privado delas. Estudos apontam, por exemplo, que a depressão e o distúrbio bipolar se manifestaram com mais frequência em pessoas que haviam consumido menos ômega-3. Nosso organismo é incapaz de produzi-lo, por isso devemos obtê-lo por meio da alimentação, ingerindo, por exemplo, peixes e algas. O ácido docosaexaenoico (DHA) e o ácido eicosapentaenoico (EPA) – ambos ácidos graxos ômega-3 – contidos nesses alimentos ajudam, entre outras coisas, a produzir hormônios que reforçam o sistema imunológico e têm ação anti-inflamatória. O DHA, em particular, é constituinte da membrana dos neurônios e responsável por torná-la mais permeável, o que facilita o transporte das proteínas e contribui para a formação de novas sinapses.

 Combate a depressão - alimentos

FERNANDA TEIXEIRA RIBEIRO, jornalista, editora-assistente da Revista Mente e Cérebro.

GESTÃO E CARREIRA

Licença paternidade - em nome do pai

EM NOME DO PAI: LICENÇA – PATERNIDADE

Companhias que aderirem ao programa empresa cidadã podem se beneficiar da lei que aumenta de cinco para 20 dias o tempo que o funcionário tem para ficar em casa com o filho recém-nascido.

As companhias já podem optar pela licença estendida agora também para os pais. É que entrou em vigor, no dia 9 de março, a Lei 13 257/2016, que altera o artigo 473 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ampliando de cinco para 20 dias o tempo para o funcionário ficar em casa com o filho. Para oferecer o benefício, a organização deve aderir ao programa Empresa Cidadã, o mesmo que ampliou a licença-maternidade de quatro para seis meses — que conta com a participação de 20% das empresas do país, segundo a sócia da área trabalhista do escritório Pinheiro Neto Advogados Thais Galo. Pela nova regra, os primeiros cinco dias da licença dos homens são pagos pelo INSS e os outros 15, pelo empregador. Entre as vantagens está a redução de impostos, pois, quando tributada com base no lucro real, a companhia poderá abater esses dias concedidos do Imposto de Renda a pagar. A regalia, contudo, não atende as pequenas e micro- empresas — geralmente optantes do modelo Simples Nacional, que não gozam da renúncia fiscal. A licença-paternidade de 20 dias ainda contribui para maiores índices de satisfação do funcionário no trabalho, aumento na produtividade e na retenção dos profissionais e melhor imagem da empresa perante a sociedade. Mas, apesar dos pontos positivos, a regra divide opiniões.

Na avaliação da diretora de recursos humanos da empresa de vigilância patrimonial Security Segurança e Serviços, Renata de Luca, num cenário de retração econômica, o benefício pode significar prejuízo financeiro para a companhia. “A organização tem de ter caixa para pagar o funcionário de licença e fazer uma contratação temporária a fim de substituí-lo, caso necessário. A conta não fecha”, afirma ela, que teme que sindicatos e governos populistas transformem a licença-maternidade de seis meses e a paternidade de 20 dias em uma obrigação para os empresários. Com faturamento de 300 milhões de reais em 2015, a Security conta com 7 000 funcionários, sendo 6 200 deles homens. “Supondo que 110 profissionais usufruíssem da licença-paternidade de 20 dias este ano, nosso custo seria de aproximadamente 320 000 reais”, diz Renata, observando que, em países como Holanda e França, o empregado pode ter, respectiva- mente, até 26 ou 28 semanas de licença, mas “recebendo, em média, 19,3% do salário, no primeiro caso, e 24,2%, no segundo”.

Na outra ponta estão organizações como a Radix, de tecnologia da informação, e a gigante de alimentos Nestlé. “Temos 400 funcionários, sendo 67% homens, e, desde a fundação da empresa, em 2010, adotamos licença-paternidade de 15 dias, custeando o benefício com nossos próprios recursos”, diz Cláudia Pittioni, coordenadora de RH da Radix, acrescentando que desde março os pais podem gozar dos 20 dias, mesmo nos casos de adoção. Já Mariana Albino, gerente executiva de remuneração de benefícios da Nestlé, afirma que, em 2007, a empresa se antecipou à legislação ao oferecer a licença-maternidade estendida — agora a multinacional também está adotando a licença-paternidade de 20 dias. A Nestlé, que conta com 20 000 empregados no país, tem cerca de 800 licenças-paternidade por ano. José Carlos Wahle, sócio da área trabalhista do escritório Veirano Advogados, não vê motivos para uma companhia não ade- rir ao programa Empresa Cidadã. “Com 15 dias a mais, a perda de produtividade é pequena e, embora haja um desencontro entre o pagamento do benefício ao empregado [na hora da licença] e o abatimento no Imposto de Renda [no começo do ano], esse é um custo marginal”, afirma. Ele explica que, dado o caráter voluntário do programa, a corporação pode deixar o Empresa Cidadã se — e quando — quiser. “Isso desde que não haja prejuízo para o colaborador que tiver o direito adquirido do benefício em andamento”, diz.

PAÍSES ONDE HÁ LICENÇA-PATERNIDADE REMUNERADA

ÁFRICA DO SUL – Não existe direito especifico aos pais, mas há uma licença para obrigações familiares de três dias por ano, que inclui o nascimento dos filhos.

ARGENTINA – Dois dias

ÁUSTRIA – Não existe lei específica aos pais, mas empregados podem tirar licença para assuntos relevantes (incluindo o nascimento de filhos), de uma semana.

BULGÁRIA – 15 dias, sendo que o benefício não é remunerado pelo empregador. É o estado que pode pagar o auxílio.

CHILE – Cinco dias úteis.

CINGAPURA – Uma semana

INDONÉSIA – Dois dias

MÉXICO – Cinco dias

ROMÊNIA – Cinco dias úteis, que podem ser estendidos por mais dez dias úteis se o empregado concluir um treinamento

SUÉCIA – Em mudança recente, obriga os homens a tirar 90 dias

TURQUIA – Cinco dias

VENEZUELA – 14 dias

 

PAÍSES ONDE NÃO HÁ LEGISLAÇÃO SOBRE O TEMA

CHINA*

EMIRADOS ÁRABES

ÍNDIA

NIGÉRIA

QATAR

*Não há legislação sobre o tema, embora algumas províncias possam ter regras específicas