O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

MISSÃO HOLÍSTICA

“Holístico” (de “holismo”, o conceito filosófico de que “o todo — grego, hólos — é maior do que a soma de suas partes”) talvez não seja um epíteto muito satisfatório para se aplicar à missão cristã. Mas ele pre­tende enfatizar que a verdadeira missão é uma atividade abrangente, que íntegra evangelização e ação social, recusando-se a divorciá-las uma da outra.

Pelo menos durante os últimos trinta anos, a começar na comunidade ecuménica, porém mais recentemente tam­bém no mundo evangelical, tem havido uma considerável divergência no que concerne a estas duas responsabilida­des. Essa divergência tem sido expressa de diferentes maneiras: como a tensão “entre a ação de Deus na igreja e através desta e tudo o que Deus vem fazendo no mundo aparentemente independentemente da comunidade cris­tã”; “entre a interpretação vertical do evangelho — como essencialmente preocupado com a ação salvadora de Deus na vida dos indivíduos — e a sua interpretação horizon­tal — como estando interessado principalmente nas rela­ções humanas no mundo”; entre a busca de Deus pela justificação dos pecadores e a busca de Deus pela justiça nas nações e entre estas; entre redenção e providência, a salvação da alma e o aperfeiçoamento da sociedade.

Às vezes a diferença entre estes pontos de vista se evidencia não apenas em tensão, mas até numa polarização estéril, geralmente ao longo das linhas divisórias entre evangelicais e liberais, cada um deles manifestando uma reação exagerada em relação à posição do outro. Os primeiros tendem a concentrar-se exclusivamente na evangelização, negli­genciando a necessidade social, seja ela comida para os famintos ou libertação e justiça para os oprimidos. Os últimos vão para o extremo oposto, tendendo a negligenciar a evangelização ou tentando reinterpretá-la em termos de ação sociopolítica, tais como a humanização de comuni­dades ou a libertação dos oprimidos. Assim, o estereótipo evangelical tem sido espiritualizar o evangelho, negando suas implicações sociais, enquanto que o estereótipo ecumênico tem sido politizá-lo, negando sua oferta de salvação para os pecadores. Esta polarização tem sido um desastre.

A maioria dos cristãos (embora nem todos eles) está de acordo quanto a ser a nossa responsabilidade tanto evangelística como social. Por exemplo, em sua palavra de aber­tura no Congresso Mundial de Evangelização em Berlim, em 1966, o Dr. Cari Henry enfatizou que os cristãos evangélicos têm uma mensagem duplamente relevante para a presente crise social… pois eles conhe­cem o Deus da justiça e da justificação… Sempre que o Cristianismo é forte na vida de uma nação, ela demonstra interesse tanto na lei como no evangelho, tanto no estado como na igreja, na jurisprudência assim como na evangelização.

Ou, usando uma imagem mais forte, o Dr. Raymond Bakke escreve que “nós, cristãos, somos o único povo da terra que tem uma visão de mundo que integra matéria e espírito, a qual nos capacita a lidar com o desenvolvimento de sistemas de esgoto e com a salvação de almas com o mesmo prazer.” Nós podemos até concordar com afirmações como estas, do tipo “tanto isto como aquilo”; mas a verdade é que temos dificuldade em definir, primeiro, qual é a relação entre evangelização e responsabilidade social, e, segundo, qual o vocabulário que deveríamos usar para expressar essa relação.

A relação entre evangelização e responsabilidade social

O Pacto de Lausanne (1974), com suas francas declarações sobre “A Natureza da Evangelização” e “A Responsabi­lidade Social Cristã”, foi muito bem aceito. Esta última inclui a afirmação de que “a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parcelas do nosso dever cristão”. Uma vez mais, porém, trata-se apenas de uma declaração do tipo “tanto… quanto”. Os parágrafos sobre evangelização e responsabilidade social encontram-se lado a lado, sem qualquer tentativa de relacionar um com o outro. Ou, para ser mais preciso, a única menção de uma relação entre os dois é a declaração, no parágrafo VI, de que “o serviço de evangelização abnegada figura como a tarefa mais urgente na missão da igreja”.

O Movimento de Lausanne tem permanecido fiel a sua afirmação sobre a prioridade da evangelização, e sua “Consulta sobre a Relação entre a Evangelização e a Responsabilidade Social”, realizada em Grand Rapids, em 1982, endossou e explicou de duas formas essa primaria. Primeiro, a evangelização tem uma certa prioridade lógica: “O próprio fato da responsabilidade social cristã pressupõe a ideia de cristãos socialmente responsáveis, e isto só acontecerá através da evangelização e do discipulado.” Em segundo lugar,

A evangelização tem relação com o destino eterno das pessoas; e, trazendo-lhes boas novas de salvação, os cristãos estão fazendo uma obra que ninguém mais pode fazer. Raras serão as ocasiões, se é que elas ocorrerão, em que nós teremos que optar entre… curar o corpo ou salvar a alma… No entanto, se tivermos que fazer esta opção, é bom lembrarmos que a necessidade suprema e máxima de todo ser humano é a graça salvadora de Jesus Cristo. Portanto, a salvação espiritual e eterna de uma pessoa é de maior importância do que o seu bem-estar temporal e material.

O Manifesto de Manila (1989) tem uma declaração simi­lar: “A evangelização é primordial porque o que mais nos preocupa é o evangelho, que todas as pessoas possam ter a oportunidade de aceitar Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador.”

Só que reafirmar a prioridade da evangelização não resolve o problema. A relação entre evangelização e res­ponsabilidade social continua indefinida.

Foi para perseguir essas relações que se convocou a Consulta de Grand Rapids em 1982. Seus membros escla­receram três delas. Primeiro, afirmaram que “a ação social é uma consequência da evangelização”, pois a evangelização conduz as pessoas à fé, “a fé atua pelo amor” e o amor se manifesta em serviço. Na verdade, “mais do que uma simples consequência da evangelização, a responsabilidade social é um dos seus principais objetivos”, uma vez que nós somos salvos “para boas obras”. Em segundo lugar, “a atividade social pode ser uma ponte para a evangelização”. Apesar do perigo de produzir os assim chamados “cristãos de arroz”, que se dizem convertidos apenas por causa dos benefícios materiais que lhes são oferecidos, ainda assim é verdade que o amor em ação “pode destruir preconceitos e desconfianças, abrir portas fechadas e ganhar a atenção das pessoas para o evangelho”. Em terceiro lugar, “a ação social não apenas vem em seguida à evangelização, como seu objetivo e consequência, e a precede, servindo-lhe de ponte, mas também a acompanha, como sua parceira. A ação social e a evangelização são como as duas lâminas de uma tesoura, ou como as duas asas de um pássaro”, tal como sucedeu no ministério público de Jesus. “Trata-se de um verdadeiro casamento.”

Essa parceria aplica-se tanto ao cristão, individualmen­te, como à igreja local. Obviamente, cada cristão recebe um dom e um chamado diferente (ver o capítulo 8), que o habilitam a concentrar-se em ministérios específicos, assim como os Doze foram chamados para um ministério pastoral e os Sete para um ministério social. E igualmente óbvio que diferentes cristãos encontram-se em diferentes situações de necessidade,  e que cada uma requer uma resposta específica. Nós não estamos acusando, nem o “bom samaritano”, por atar as feridas do viajante sem indagar sobre o seu estado espiritual, nem Filipe, por compartilhar o evangelho com o etíope sem inquirir as suas necessidades sociais. Estes foram, no entanto, chamados específicos e situações específicas. Falando em termos gerais, todos os seguidores de Jesus Cristo têm a respon­sabilidade de testemunhar e de servir, de acordo com as oportunidades que lhes forem dadas.

O mesmo se dá com cada igreja local. As necessidades de cada comunidade são muitas e variadas. Mas todo mundo não pode fazer tudo. Consequentemente, qualquer que seja o tamanho da igreja, seus membros deveriam ser encora­jados a se organizarem em “grupos de estudo e ação”, conforme os seus dons, vocações e interesses, assumindo cada um deles uma necessidade evangelística, pastoral ou social específica da vizinhança. Desta forma se poderá atender a uma porção de diferentes desafios. Não obstante, é importante que a igreja local reconheça a especialidade de cada grupo e   apoie a cada um com palavras de enco­rajamento, conselhos, oração e finanças, conforme neces­sário, dando-lhes, de vez em quando, a oportunidade de apresentar relatórios sobre o andamento do seu trabalho.

Ao desenvolver junto a cada grupo este senso de pertença, a igreja conseguirá, através deles, atingir a comunidade o ministrá-la compassivamente em muitas e variadas necessidades.

Até aqui nós vimos as relações existentes entre a evangelização e a responsabilidade social. O segundo problema que enfrentamos tem a ver com o vocabulário que deve­ríamos usar para expressar a parceria entre os dois. Conforme o relatório do Primeiro Congresso Anglicano Evangélico Nacional, realizado na Universidade de Keele, em 1967, “evangelização e serviço abnegado andam juntos na missão de Deus”. Eu mesmo tentei, posteriormente, elaborar esta ideia ao escrever: “‘Missão’ descreve… tudo que a igreja é enviada a fazer no mundo”, a saber, “serviço cristão no mundo, compreendendo tanto evangelização como ação social.”

Certos líderes evangélicos criticam esta definição de “missão”. Eles a consideram potencialmente prejudicial à missão cristã, pois desvia os missionários de suas tarefas prioritárias de evangelizar, discipular e plantar igrejas. Por esta razão, mesmo admitindo que todos os cristãos têm também responsabilidades sociais e políticas, eles acham que, ao referir-nos a estas atividades evangelísticas, de­veríamos continuar usando o conceito tradicional de “missão” e “missionário”. Sem dúvida alguma, a última coisa da qual eu gostaria que me culpassem é de estar atrapalhando a missão da igreja! E igualmente verdade que o próprio termo “missão” não é uma palavra bíblica, assim como não o são as palavras “Trindade” e “sacramento”. No entanto, ela é uma peça útil e prática para um conceito bíblico, por demonstrar aquilo que Cristo envia o seu povo a fazer no mundo. Continuo insistindo que isto não pode limitar-se à proclamação do evangelho, embora eu já tenha mencionado que esta é tarefa prioritária na igreja. A questão não é meramente de semântica (o que significa a palavra “missão”?), mas de substância (por que somos enviados ao mundo?). Mesmo que tivéssemos de admitir que a palavra “missão” não pode suportar o peso que venho colocando sobre ela, isto não faria diferença alguma para o argumento de que nós somos enviados ao mundo tanto para testemu­nhar como para servir. De igual maneira, eu não me sinto capaz de abrir mão da convicção de que nossa missão tem em Cristo o modelo a ser seguido. Assim como o seu amor por nós é comparável ao amor do Pai por ele, assim também ele nos envia ao mundo de forma similar ao envio que ele recebeu do Pai. Se em seu ministério as palavras e as obras andavam juntas, da mesma forma elas deveriam andar juntas em nosso ministério.

Parece que o   maior temor daqueles que me criticam é o de que os missionários sejam deixados de lado. A melhor maneira de evitar isso, a meu ver, é não negando que “missão” é algo mais abrangente do que evangelização, insistindo, porém, em que cada “missionário” deve ser fiel ao seu chamado específico. Eu já disse que na igreja local, embora alguns membros sejam chamados, uns para este ministério, outros para aquele, mesmo assim a própria igreja fica desequilibrada caso não abranja uma variedade de ministérios. Da mesma forma, embora alguns missio­nários sejam chamados para evangelizar ou para o discipulado, plantação de igrejas ou tradução da Bíblia, e outros para ministérios específicos e especializados, como médicos, educadores e especialistas em áreas de desenvol­vimento, mesmo assim a igreja nacional (bem como as agências missionárias que com ela cooperam) ficariam capengas se não abraçassem também essa ampla variedade de ministérios. Com efeito, poderíamos citar muitos exem­plos de equipes missionárias multinacionais e multifun­cionais, compostas tanto de nacionais como de estrangei­ros, de homens e mulheres, evangelistas e assistentes sociais, especialistas em plantação de igrejas e em áreas de desenvolvimento, pastores e professores.

A base bíblica para a parceria

Ser cristão evangélico sem ser cristão bíblico é igual a nada. Pelo menos nosso maior desejo (quer consigamos realizá-lo ou não) é viver “sob” e “de acordo com” a Escritura. Haveria, portanto, uma boa base bíblica para manter juntos a evangelização e a ação social? Existe, sim. Ela tem sido afirmada de diversas formas, mas vou me contentar com três argumentos fundamentais.

Primeiro, o caráter de Deus. O Deus da revelação bíblica, que é tanto Criador como Redentor, é um Deus que se preo­cupa com o total bem-estar (espiritual e material) de todos os seres humanos que ele criou. Tendo criado cada um à sua própria imagem, ele deseja que eles descubram a sua verdadeira humanidade ao se relacionarem com Deus e uns com os outros. Por um lado, Deus busca ansiosamente suas criaturas perdidas. Ele não tem prazer algum na morte do ímpio, e não quer que ninguém pereça. Por isso, roga-lhes que ouçam a sua Palavra, que voltem para ele em penitência e que aceitem o seu perdão. Por outro lado, Deus se importa com os pobres e os famintos, os estrangeiros, as viúvas e os órfãos. Ele denuncia a opressão e a tirania e clama por justiça. Ele espera que o seu povo seja a voz daqueles que não têm voz e o defensor dos impotentes, expressando assim o seu amor por estes. Não é, pois, por acaso, e nem é de se estranhar, que os dois grandes mandamentos de Deus sejam que o amemos com todo o nosso ser e que amemos o nosso próximo como a nós mesmos.

A lei deixa bem claras as implicações destes mandamen­tos. Por exemplo: o povo de Deus devia “temer”, “amar” e “servir” a ele. Como? Em parte, “andando em seus cami­nhos” e “guardando os seus mandamentos”, pois ele é “o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores”, o qual, por isso mesmo, merece ser adorado; e, em parte, seguindo o seu exemplo, como aquele que “faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes”. Assim, adoração e obediência, por um lado, e filantropia e justiça, por outro, andam de mãos dadas, constituindo-se no duplo dever do povo de Deus.

E aí vieram os profetas, que viviam relembrando o povo quanto à lei e advertindo cada um deles a obedecê-la. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a mise­ricórdia, e andes humildemente com o teu Deus?”. Mais uma vez, justiça e misericórdia para com o próximo e humildade diante de Deus estão juntos.

Junto com esse testemunho profético com relação à lei de Deus ocorriam ousadas denúncias contra aqueles que a desprezavam. Elias foi um bom exemplo disso. Vivendo num tempo de apostasia nacional, seu ministério teve o seu ápice em dois grandes confrontos, primeiro no Monte Carmelo, quando ele desafiou o povo a escolher entre Javé e Baal, e depois em Jezreel, quando ele acusou o rei Acabe de haver matado Nabote e confiscado sua propriedade, e o advertiu quanto ao juízo de Deus. É impressionante ver como os mesmos profetas defendiam, tanto a lealdade religiosa como a justiça social.

Então, cento e cinquenta anos mais tarde, nós encon­tramos dois grandes profetas do exílio, Jeremias e Ezequiel, dando continuidade à mesma tradição de protesto. Por que a desgraça haveria de cair sobre Jerusalém? De acordo com Jeremias, porque o povo havia “deixado” Javé em favor de “outros deuses, que não conheceram”, e enchido Jeru­salém com o “sangue de inocentes”. Conforme Ezequiel, a cidade tinha trazido juízo sobre si mesma ao derramar sangue no seu meio e ao fazer ídolos. Em ambos os casos, o cúmulo do pecado de Israel fora a combinação de “ídolos” com “sangue”, sendo a idolatria o pior pecado contra Deus e o assassinato o pior dos pecados contra o próximo.

Assim, a lei e os profetas refletem o caráter de Deus. Aquilo que ele é, também o seu povo deveria ser, compartilhando e refletindo aquilo que interessa a ele. Não há dualismo no pensamento de Deus.

Nossa tendência é contrapor totalmente as ideias de corpo e alma, indivíduo e sociedade, redenção e criação, graça e condição natural, céu e terra, justificação e justiça, fé e obras. A Bíblia certamente faz distinção entre essas ideias, mas faz também uma relação entre elas, ínstruindo-nos a manter cada um desses pares em equi­líbrio dinâmico e criativo.

A segunda base para que evangelização e preocupação social andem juntas é o ministério e o ensinamento de Jesus. Não há como duvidar de que palavra e ação estavam juntas no ministério público de Jesus. Ele foi um pregador, isso é verdade. Ele anunciou a vinda do reino de Deus. Mas também demonstrou a vinda deste através de suas obras de compaixão e de poder. Assim, nós lemos que ele “per­corria as aldeias circunvizinhas, a ensinar” e também que ele “andou por toda parte, fazendo o bem e curando”. Qual é a similaridade existente entre estas duas afirmações? É o fato de que “ele andava”; ele desenvolveu um ministério itinerante e percorreu o território palestino de ponta a ponta. A dissimilaridade tem a ver com “para que” ele andava por aí. Segundo Marcos, era para “ensinar”; con­forme Lucas, era “fazendo o bem e curando”. Havia em seu ministério um elo indissolúvel entre evangelizar e servir. Ele demonstrava em ação o amor de Deus que estava proclamando. “Sua preocupação”, escreveu Chuck Colson, “não era apenas salvar pessoas do inferno no mundo vindouro, mas também livrá-las da infernidade deste mundo presente.”

Dessa forma, suas palavras explicavam suas obras e suas obras eram uma manifestação concreta de suas palavras.

Ouvir e ver, voz e visão, estavam ligados. Uma coisa sustentava a outra. Afinal, as palavras só deixam de ser abstratas quando se concretizam em atos de amor; e as obras, de igual maneira, continuam sendo ambíguas, até que sejam interpretadas pela proclamação do evangelho. Palavras sem ação não têm credibilidade; ações sem pa­lavras carecem de esclarecimento. Assim, as ações de Jesus tornavam visíveis suas palavras; e suas palavras tornavam suas ações inteligíveis.

O que Jesus demonstrou em sua vida e ministério ele também incluiu em seus ensinos. Deixem-me compartilhar com vocês uma reflexão sobre duas das suas parábolas mais conhecidas e apreciadas: a do filho pródigo (que se con­centra na conversão) e a do bom samaritano (que enfatiza a ação social). Existem entre elas similaridades óbvias. Ambas, por exemplo, só são registradas pelo Dr. Lucas, que se preocupava em retratar Jesus (e, portanto, Deus) como o amante dos estrangeiros e dos injustiçados — no primeiro caso, o jovem obstinado e, no outro, a vítima dos espancadores. Semelhantemente, ambas refletem situa­ções trágicas que, pelo que está implícito, desagradam a Deus. Deus não quer que seres humanos criados à sua imagem sejam desmoralizados e fiquem perdidos em uma terra distante, nem que sejam assaltados e abandonados na sarjeta. Seu desejo é que tanto o perdido como o espan­cado sejam trazidos de volta para casa.

Entretanto, o que mais importa para o meu propósito agora são as dissimilaridades entre as duas parábolas. Se nós as conservamos juntas, elas servirão de reforço para a ligação necessária entre evangelização e ação social. Primeiro, tanto numa como na outra, existe uma vítima, um homem que se encontra em uma situação de desespero. Na parábola do filho pródigo, ele é vítima de seu próprio pecado; na parábola do bom samaritano, é vítima do pecado de outros, ou seja, alguém pecou contra ele. Além disso, na primeira parábola, o que se descreve é um pecado pessoal; na segunda, é um pecado social, ou seja, o mal da desordem publica. Ambos deveriam despertar nossa compaixão. Nós nos preocupamos tanto com aquele que pecou como com aquele contra quem alguém pecou.

Em segundo lugar, nas duas parábolas existe um resgate – da alienação em uma terra distante e de um violento assalto na estrada. Na primeira parábola o pecador se arrepende, volta para casa e é perdoado (é a salvação pela fé). Na segunda, a vítima não pode fazer nada: deve o seu resgate à caridade do samaritano (é um resgate pelas boas obras). Terceiro, em ambas há uma demonstração de amor. Na parábola do filho pródigo nós vemos o amor de Deus, como o pai que recebe o filho de volta; na parábola do bom samaritano, vemos o amor do próximo pelo seu próximo, quando o samaritano ata as feridas da vítima. Além do mais, em ambos os casos o amor triunfa sobre o precon­ceito. O pródigo é perdoado, apesar de não merecer tal tratamento; o samaritano se apiada da vítima dos ladrões, apesar de ser este um judeu desconhecido que nada tem a ver com ele.

Em quarto lugar, em ambas as parábolas há um sub-enredo, que representa a alternativa para aquilo que se está recomendando. Na parábola do filho pródigo, seu irmão mais velho recusa-se a regozijar-se com o seu arrependi­mento e retorno. Na parábola do samaritano, o sacerdote e o levita recusam-se a envolver-se com a situação do homem espancado. Até se poderia dizer que quem resiste ao chamado para evangelizar, abandonando as pessoas sozinhas em seus pecados, assemelha-se ao irmão mais velho, ao passo que aqueles que resistem ao chamado para a ação social e deixam as pessoas sozinhas em seus sofri­mentos, lembram o sacerdote e o levita que “passaram de largo”.

Assim, cada uma das parábolas enfatiza um aspecto vital do discipulado cristão — seu início, quando, como o filho pródigo, nós voltamos para casa em busca de salvação, e sua continuação, quando, à semelhança do bom samaritano, nós partimos em missão. Cada um de nós lembra o filho pródigo; cada um de nós deveria lembrar o samaritano.

Primeiro nós encaramos os nossos próprios pecados e depois passamos a encarar os sofrimentos do mundo. Primeiro nós entramos em casa e recebemos misericórdia, e só depois saímos e mostramos misericórdia. Misericórdia não se pode mostrar enquanto não for recebida; mas, uma vez recebida, ela deve ser demonstrada aos outros. Não vamos divorciar aquilo que Cristo uniu. Todos nós já fomos pródigos um dia; Deus deseja que também sejamos samaritanos.

Além do exemplo e ensinamento de Jesus Cristo, eu gostaria de mencionar suas emoções. Nós vimos no capí­tulo 7 como, face a face com o “último inimigo”, a morte, que ele viera destruir, Jesus não só “resfolegou” de raiva contra esse mal, mas também “chorou” de compaixão por suas vítimas. Eu fui ainda mais longe, ao afirmar que essas mesmas emoções deveriam nos motivar, sempre que nos virmos confrontando o mal — seja o mal da perda humana ou os males sociais de nossos dias.

Eu li, recentemente, o livro In Darkest England and the Way Out (A Inglaterra em Trevas e o Caminho de Saída) do General William Booth. Publicado em 1890, seu título foi deliberadamente paralelo ao de H. M. Stanley, In Darkest Africa, que havia aparecido mais cedo naquele mesmo ano. A primeira parte chama-se “A Escuridão” e a segunda, “Libertação”. Booth escreve com profundo sentimento sobre as misérias causadas pela pobreza, o desemprego, o desam­paro, a fome, a exploração da mão-de-obra, a bebedeira, a doença, as favelas, a escravidão branca e a prostituição. “Meu sangue ferve de raiva impotente”, confessa ele, “diante dessas monstruosidades cruelmente infligidas, e sofridas em silêncio por essas miseráveis vítimas.” Obviamente, ele ansiava pela conversão dessa gente e insistia em colocar sempre a salvação em primeiro lugar. Indagava, porém: “De que adianta pregar o evangelho a pessoas cuja atenção está totalmente concentrada em uma luta louca e desesperada para se manterem vivas?” “Ao proporcionar alívio temporário para essa miséria”, acrescenta ele, “eu acho que só estou facilitando onde agora é difícil e possibilitando onde agora é completamente impossível, para que homens v. mulheres encontrem o seu caminho para a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.” Na tentativa de perseguir esta política, a segunda parte de seu livro contém uma sur­preendente relação de propostas: uma colônia-fazenda, uma colônia além-mar, um hospital itinerante, a “brigada da porta da prisão”, lares de resgate para prostitutas e “lares de prevenção para meninas em perigo”, “um posto de investigação para pessoas perdidas”, “refúgios para meninos de rua”, “escolas profissionalizantes”, “vilas-modelo nos subúrbios”, um “banco do homem pobre”, um esquema de auxílio legal para os pobres, etc. E, à medida que esta impressionante combinação de interesses sociais e espirituais foi se tornando conhecida, “inevitavelmente o Exército da Salvação foi sendo identificado pelo slogan de que nunca mais se livraria: ‘Sopa, sabão e salvação’!”  A terceira base bíblica para a parceria entre evangelização e ação social tem a ver com a comunicação do evangelho. Como é que se pode fazê-lo conhecido? Para começar, ele tem que ser verbalizado. Uma vez que o próprio Deus decidiu falar, isto é, comunicar-se com os seres humanos através de palavras, os cristãos não deveriam desprezá-las nem compartilhar desse desencanto que existe hoje em dia com referência à fala como meio de comunicação. Há, na comunicação verbal, quer sejam as palavras faladas ou escritas, uma precisão que inexiste nos outros meios de comunicação. Ao mesmo tempo, a Palavra pessoal de Deus “se fez carne” e, como resultado, “nós vimos a sua glória”. Se a Palavra de Deus se tornou visível, nossas palavras também deveriam tornar-se visíveis. Nós não podemos anunciar o amor de Deus com credibilidade, a não ser que possamos demonstrá-la em ação. Não podemos manter distância daqueles a quem anunciamos o evangelho, ou ignorar sua situação e seu contexto. Nós precisamos nos integrar a sua realidade social e participar dos seus sofri­mentos e de suas lutas. E aqui, diz J. H. Bavinck, que nossos atos “se transformam em pregação”.

Isto nos leva de volta ao ministério de Jesus.

Nós, hoje, somos chamados (diz o Manifesto de Manila) a uma integração similar entre palavras e ações. Em um espírito de humildade, devemos pregar e ensinar, minis­trar os enfermos, alimentar os famintos, cuidar dos prisioneiros, ajudar os necessitados e os deficientes e libertar os oprimidos. Embora reconheçamos a diversi­dade dos dons, chamados e contextos espirituais, afir­mamos também que boas novas e boas obras são inseparáveis.

Cinco objeções a considerar

Embora a base bíblica para a parceria entre evangelização e responsabilidade social pareça estar bem estabelecida, levantam-se contra ela diversas objeções.

Em primeiro lugar, não seria melhor os cristãos se conservarem longe da politica Esta objeção geralmente é seguida do comentário de que, embora todos os cristãos concordem com o serviço social (por exemplo, a filantropia), nós não estamos tão seguros assim quando se trata de ação social (envolvimento político, por exemplo).

Nossa resposta a esta primeira objeção depende em grande parte da conotação que dermos à palavra “política”. Se a tomarmos em sua definição mais restrita (no sentido de políticas e programas em favor de mudanças legislativas, desenvolvidos por partidos políticos), então os cristãos não deveriam se envolver, a menos que estejam preparados para desempenhar esse papel. Política é coisa para políticos que já têm a experiência necessária. Não existe coisa mais embaraçosa do que ver um cristão dando palpites sobre ques­tões políticas sem ter conhecimento do assunto.

definição mais ampla de “política”, porém, refere-se a vida da polis, a cidade, e à arte de viver juntos em comunidade. Neste sentido, todos nós estamos envolvidos em política, uma vez que Jesus nos chama a viver no mundo secular.

Aí temos de admitir que só serviço social não basta. Batalhar (e mesmo promover agitações) em favor de mu­danças legislativas é uma expressão essencial de amor ao próximo. Por exemplo: ao invés de nos limitarmos a curar indivíduos, precisamos ir mais além, construindo hospitais em que se concentrem diferentes especialidades médicas; não somente alimentar os famintos, mas lutar pelo es­tabelecimento de uma nova ordem econômica, em que a fome seja abolida; não só atar as feridas das pessoas, como o bom samaritano, mas livrar dos bandidos a estrada de Jericó; não só tratar os escravos com justiça, mas lutar pela abolição da própria instituição da escravatura. É possível que não haja na Bíblia nenhuma exortação explí­cita quanto a estas coisas, assim como é certo que Jesus nunca militou pela emancipação dos escravos. Mas não é verdade também que nós somos profundamente gratos pelo fato de que os seus seguidores o fizeram, séculos mais tarde? A atuação política (que bem poderia ser definida como amor em busca de justiça para os oprimidos) é uma extrapolação legítima da ênfase bíblica sobre as priorida­des práticas do amor.

Segundo: isto não seria voltarão velho “evangelho social”? Não, não é. Nós precisamos estabelecer uma distinção entre o evangelho social do liberalismo teológico desenvolvido por Walter Rauschenbusch e seus amigos no começo deste século e as implicações sociais do evangelho bíblico.

O “evangelho social” tentava identificar o reino de Deus com a sociedade socializada, e então falava de ação sociopolítica em termos de “construir o reino de Deus na terra”. Era uma visão orgulhosa, autoconfiante e utopista. Mas as implicações sociais do evangelho bíblico são diferentes. Uma vez que passamos a ser novas criaturas em Cristo, tornando-nos membros de sua nova sociedade, recebemos dele a responsabilidade de impregnar a velha sociedade, funcionando para esta como sal e luz.

Terceiro: essa preocupação social não é o mesmo que “teologia da libertação”! Não, mais uma vez, não é. Nossa principal crítica à teologia da libertação, como evangélicos, é que ela pretende igualar a libertação social, política e econômica dos seres humanos com a “salvação” que Cristo veio conquistar com sua morte e ressurreição. Além disso, ela tende a endossar as teorias marxistas (especialmente a sua análise social) e desposar a violência. Tendo dito isto, a completa libertação do ser humano de tudo aquilo que o oprime, diminui ou desumaniza é certamente agradável a Deus, o seu Criador. Oxalá os cristãos evangélicos ti­vessem chegado primeiro, com uma teologia da libertação verdadeiramente bíblica}. Mas colocar “libertação” mate­rial e “salvação” no mesmo nível de igualdade é distorcer e deturpar a Escritura.

Em quarto lugar, não seria impossível esperar uma mudança social sem que as pessoas se convertam? Mais uma vez, a resposta é não. Evidentemente, nós queremos que as pessoas se convertam. Mas Jesus Cristo, através de seu povo, tem tido uma influência enorme sobre a sociedade como um todo. Pense-se, por exemplo, na ele­vação dos padrões de saúde e higiene, na disponibilidade mais ampla da educação, no respeito cada vez maior pelas mulheres e crianças, na preocupação com os direitos humanos e as liberdades civis, nas melhores condições de trabalho nas fábricas, minas e prisões e na abolição da escravidão e do tráfico de escravos.

A legislação pode garantir melhorias na sociedade, embora ela não converta as pessoas ou as torne boas. Até os seres humanos caídos guardam suficientes vestígios da imagem divina, a ponto de preferirem a justiça à injustiça, a liber­dade à opressão e a paz à violência. Martin Luther King estava certo ao dizer:

A moralidade não pode ser legislada, mas o comportamento pode ser regulado. Os decretos judiciais podem não mudar o coração, mas podem impor limites a quem não tem coração… A lei não pode fazer um empregador me amar, mas pode impedi-lo de recusar-se a empregar-me por causa da cor da minha pele.

Quinto: será que o comprometimento com a ação social não irá nos desviar da evangelização? Sim, pode até ser; mas não é preciso. Nós certamente precisamos nos precaver quanto a esta possibilidade. Aliás, deveríamos agradecer pelos “cães de guarda” evangélicos que latem muito e bem alto ao perceberem em nós qualquer sinal de diminuição do compromisso com a evangelização. Mas se nós vivermos a luz da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo, os motivos que nos movem a evangelizar serão continua­mente renovados nessa fonte perene. E principalmente o fato de Cristo ter sido elevado ao supremo lugar de honra nos haverá de inspirar, fazendo-nos ansiar que lhe seja dada a glória devida ao seu nome. E então a ação social, longe de desviar-nos da evangelização, irá torná-la mais efetiva, conferindo ao evangelho mais visibilidade e mais credibilidade.

Exemplos de parceria

“A ação social em missão”, escreveu o missiologista americano Dr. R. Pierce Beaver, “pode ser encontrada desde o tempo dos apóstolos.” Além disso, “a preocupa­ção nunca se limitou a assistência”; ela abrangia aquilo que hoje chamamos de “desenvolvimento” e que tem capacitado comunidades inteiras a se tornarem auto-confiantes, seja ao introduzir plantas beneficiadas e a criação de animais, seja eliminando doenças, cavando poços mais profundos para obtenção de água pura e corrente, seja estabelecendo escolas profissionalizantes. Além disso, os missionários lutaram pela justiça social.

Eles sempre foram os protetores dos povos nativos contra a exploração e injustiça por parte do governo e de com­panhias comerciais… Eles desempenharam um papel muito importante na abolição do trabalho forçado no Congo. Resistiram ao comércio de escravos no Sul do Pacífico. Na China, lutaram bravamente pelos direitos humanos, combatendo o ópio, a atadura dos pés das mulheres e o abandono das meninas recém-nascidas. Declararam guerra contra a queima das viúvas, o infanticídio e a prostituição nos templos da Índia, e acima de tudo romperam com a escravidão social e económica do sistema de castas para as pessoas de classe baixa e os marginalizados…

A principal diferença entre aqueles dias e os de hoje é que agora, em muitos lugares, a responsabilidade pelo testemunho social passou dos missionários para as igrejas nacionais. Os estrangeiros só devem envolver-se em atividades desse tipo quando convidados pelos líderes da igreja.

De uma certa forma, esse tipo de preocupação e envolvi­mento era inevitável. Para os missionários pioneiros, teria sido literalmente impossível proclamar a mensagem do amor de Deus em Cristo para a salvação dos pecadores e ao mesmo tempo ignorar as condições sociais dessas pes­soas. Pela natureza do próprio evangelho do qual eram mensageiros, eles se viam obrigados a se opor a qualquer coisa que fosse incompatível com ele, fosse a escravidão na Africa, o sistema de castas e outros males na Índia, ou a exploração dos povos tribais e a degradante pobreza das massas na América Latina. Da mesma forma, no Ocidente, é impossível evangelizar e simplesmente fechar os olhos à situação dos desempregados e desabrigados, da juventude alienada e das famílias sem pai ou sem mãe, nas áreas despojadas e empobrecidas das periferias urbanas. Será que o evangelho nada tem a dizer acerca dessas coisas? Será que a única preocupação do nosso Deus é levar pessoas para o céu, e não melhorar as circunstâncias em que elas vivem aqui na terra? De jeito nenhum. Ignorar os males que desumanizam a sociedade e ao mesmo tempo pregar a influência humanizadora da salvação é fazer-se culpado de uma íntima contradição que deturpa a imagem de Deus e distorce o evangelho. Demonstrar compaixão pelas neces­sidades visíveis dos outros é parte inseparável da missão encarnadora e é uma exigência do evangelho de Cristo. O Dr. David Howard, que foi Secretário Geral da Comuni­dade Evangélica Mundial de 1982 a 1992, escreveu algo sobre o ministério de seu amigo Gregório Landero. Após descrevê-lo como “um dos mais talentosos evangelistas que jamais conheci”, ele continua:

Ao viajar, levando o evangelho a muitas localidades do norte da Colômbia, ele foi sentindo um peso cada vez maior, pois o povo cujas almas ele estava ministrando sofria de subnutrição. Ele agonizava ao ter de pregar um evangelho da salvação quando eles estavam morren-\ do de fome e sofrendo de enfermidades que poderiam ser evitadas com um auxílio mais adequado. Começou a estudar as possibilidades de um ministério que os alcan­çasse de uma forma mais abrangente. O resultado, após vários anos de trabalho duro, foi a criação da Ação Unida, um programa que visava a atingir as necessidades glo­bais do povo. Gregório é o líder da Ação Unida e tem dado visão e ímpeto a todo o desenvolvimento do pro­grama. Hoje, juntamente com a pregação do evangelho, ele e seus colegas estão ajudando as pessoas a melho­rarem os métodos de agricultura, desenvolvendo projetos de criação de aves que possibilitem mais proteínas em suas dietas, ensinando higiene doméstica, provendo assistência odontológica, trabalhos de alfabetização e outras coisas que concorram para o desenvolvimento da vida familiar e comunitária do povo. Existem também tentativas de ajudar a conservar os recursos naturais que fazem parte da criação total.

Festo Kivengere, da Uganda, tinha uma visão holística e um compromisso bem similares. Ele foi, antes e acima de tudo, um evangelista. E, depois que se tornou bispo da diocese de Kigezi, ele continuou seu tremendo e efetivo ministério evangelístico pelo mundo afora, ganhando muitas pessoas para Cristo. Mas ele se preocupava também com o progresso de seu povo, e especialmente em melhorar a educação, saúde e agricultura. O enfoque de sua mensagem era o amor e a reconciliação através de Cristo, mas ele também lutava por justiça. Embora não fosse um bispo político, no sentido de que não tomava parte alguma no trabalho das funções legislativa, judicial ou executiva do Estado, ele, no entanto, jogou um papel fundamental na derrubada de Idi Amin. Diversas vezes arriscou sua vida ao confrontar Amin em particular e ao protestar contra o seu reinado de terror. “Festo era muito corajoso”, lem­bram os seus colegas. “A medida que as prisões iam acon­tecendo, ele sempre voltava até Amin para confrontá-lo com a enormidade daquilo que este estava fazendo.”

Festo não via nenhuma incoerência entre estes diferen­tes aspectos de seu ministério. Ao dirigir um seminário em uma convenção em Amsterdã, em 1987, ele falou da “trágica divisão entre aquilo que, de acordo com o Antigo Testamento e o Novo Testamento, se constitui nos dois lados da mesma moeda — a salvação das almas perdidas dos homens… e a preocupação com suas necessidades sociais”. E Shannon Mallory, da Califórnia, que presidiu a Consulta “Parceiros em Missão” na Uganda, em 1985, disse sobre ele:

Nosso querido Festo foi um profeta impetuoso no meio daquele debate (sc. sobre as violações dos direitos hu­manos que estavam sendo perpetradas na época), ape­lando veementemente, por um lado, para a renovação e a reconciliação espiritual da Igreja da Uganda, e, ao mesmo tempo, erguendo-se ousadamente (e, ao que parecia, quase sozinho) para denunciar e condenar a tirania política e militar que ainda continuava no país.

Assim, testemunho evangelístico e protesto político, longe de serem incompatíveis, foram e continuam sendo gêmeos naturais. Mesmo que sejam poucos os cristãos chamados para envolver-se nos dois simultaneamente (uma vez que diferentes pessoas são chamadas para diferentes ministérios), não obstante, a igreja, como um todo, deve engajar-se em ambos, já que ambos fazem parte da missão que Deus nos deu neste mundo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

medicina da alma

MEDICINA DA ALMA

Como Iluminismo, difundiu-se uma forma mais sensível de cuidar dos transtornos mentais. Profissionais da saúde reformularam o tratamento psíquico, e os pacientes, gradualmente, passaram a ser vistos como pessoas que precisavam de ajuda – e não de tortura.

As origens de uma das áreas aplicadas, mais destacadas da psicologia – a clínica e, em particular, a psicoterapia – remontam a pouco mais de 200 anos. Tudo começou com a mudança de sensibilidade em relação aos que experimentavam sofrimentos psíquicos, mudança estimulada pelo Iluminismo –  inpregnado de valores filantrópicos e desrespeito pela natureza humana. O termo grego “psicologia” significa “estudo da mente”, campo que sempre interessou aos filósofos, aos médicos que investigavam a fisiologia humana e aos estudiosos que consideravam o homem do ponto de vista da interação com a sociedade. Desde a antiguidade, porém, estudo e tratamento do corpo e da mente foram se tomando domínios cada vez mais separados; as reflexões sobre conceitos como o desequilíbrio mental foram deixadas principalmente aos filósofos.

Na época do Iluminismo, o filósofo Emanuel Kant tratou do tema no Ensaio sobre as doenças da cabeça. Ainda nesse período, porém, médicos e futuros assistentes sociais começaram a reformular a “cura da alma”. Abria-se uma fase de reflexão que atingia as instituições europeias e abalava o mundo médico: na França, o soberano queria ser informado sobre as condições dos hospitais e a medicina neles praticada; em Florença, o grão-duque Leopoldo reorganizava os hospitais da cidade, atribuindo o cargo de diretor do novo Hospital de São Bonifácio a Vintenzo Chiarugi, um dos mais importantes médicos italianos da Idade Moderna, Formado em Pisa.

No fim do século XVIII, difundiu­ se o “tratamento mora!”: com essa expressão, os prontoterapeutas da época referiam-se a uma abordagem psicológica do conceito de saúde mental na qual o paciente era tratado com base em princípios filosóficos e morais correntes. A compreensão de que os loucos eram doentes e deviam ser cuidados de forma humana abriu caminho para o surgimento da psicologia médica e da psiquiatria.

CORRENTES DE FERRO

Na Inglaterra, William Tuke, um comerciante de chá e café, fundou cm 1792 o York Retreat Hospital, como reação aos métodos desumanos com que as pessoas que sofriam de transtornos mentais eram tratadas no manicômio da cidade. Tuke lutou contra a aberrante concepção segundo a qual os alienados seriam como animais selvagens que deviam ser domesticados e amansados mediante métodos repressivos. O que se dava, porém, era exatamente o contrário: os internos eram tratados de forma desumana, como animais ferozes, presos em celas apertadas e às vezes imobilizados com pesadas correntes tornavam-se perigosos para si e para os outros, sendo impossível aproximar-se deles e submetê-los a qualquer terapia de recuperação e reeducação. Para Tuke e todos os que nessa época tentavam pôr em prática o tratamento moral, os loucos eram, essencialmente, indivíduos incapazes de controlar as próprias emoções e paixões. Era preciso, assim, ajudá-los a reencontrar o equilíbrio.

Nos Estados Unidos. o tratamento moral foi experimentado pelo médico Benjamin Rush, um dos signatários da Declaração de Independência, mas foi na França que a nova abordagem psicológica conseguiu se impor, gerando o mito da libertação protagonizada por Philippe Pinel durante os turbulentos anos da Revolução. De fato, poucos gestos impressionaram mais a imaginação coletiva do que a libertação dos alienados do “uso bárbaro das correntes de ferro”, proposta pelo médico ao ingressar, em 1793(ano I da República), no hospício parisiense de Bicêtre, em um momento em que o terror imperava na nação. Na realidade, as coisas se passaram de forma menos heroica, mas, ainda assim, significativa.  Na época, os doentes mentais que não melhoravam, mas conseguiam sobreviver ao “tratamento” administrado durante algumas semanas no Hotel-Dieu, o grande hospital público parisiense, eram transferidos para Bicêtre, descrito pelos cronistas da época como um inferno dantesco.

Embora possa parecer surpreendente, Pinel foi o primeiro a ser nomeado “médico da enfermaria” em Bicêtre. Até então, o tratamento dos loucos cabia a Jean-Baptiste Pussin, um ex paciente que se tornara, junto com sua mulher, responsável pela segurança do local. É nesse ponto que vemos cair o primeiro mito: durante os 18 meses de permanência no hospital, o tímido, reservado meio do jogo das paixões será considerado talvez um paradoxo; mas a experiência provou que a imaginação, sozinha, cura mediante uma força desconhecida. (…) talvez esta força não seja desconhecida e inexplicável se a estudarmos com atenção, os médicos se beneficiariam disso tanto quanto os doentes e essa descoberta humilharia apenas os charlatões”.

DELICADEZA E PRUDENCIA

Em 1788, o filantropo grão-duque da Toscana, Leopoldo I inaugurou o Hospital de São Bonifácio, instituição destinada aos doentes mentais e de regulamento considerado avançado, inspirado em critérios racionalistas. Vincenzo Chiarugi, médico e colaborador do empreendimento, foi o “primeiro-enfermeiro” (isto é, o principal) da clínica. No ano seguinte, ele compilou o Regulamento Leopoldino e narrou sua experiência clínica no tratado médico-analítico intitulado Da loucura em geral e em espécie”. Com uma centena de observações. O autor abordou o problema do tratamento moral dos alienados, enfatizando a necessidade de o médico “conquistar o coração do paciente e cativar sua confiança”, advertia que “é preciso se convencer de que os auxílios farmacêuticos e dietéticos podem ser uma parte interessante da cura, mas não serão suficientemente eficazes se não forem acompanhados e se não cederem a principal posição aos auxílios morais”.

O médico recomendava a intervenção delicada e prudente, salientando que seria nefasto opor-se às ideias delirantes dos melancólicos, conviria, sim, conceder-lhes “a realidade das ideias falsas”. Chiarugi sublinhava ainda a utilidade de “persuadir o doente a conhecer o remédio seguro, bastará então algum estratagema ao mesmo tempo cuidadoso e direto para dissipar o erro da mente do doente”. Seria muito útil para certos melancólicos viajar por longo tempo, com frequentes mudanças de local, sem deixar de “promover e alimentar a esperança, que constitui um perfeito antagonista à tristeza e ao temor e que poderá em grande parte mudar a constituição física e moral do indivíduo.

Em Florença, o complexo do Hospital de São Bonifácio era claro, arejado e tinha 200 quartos, além de banheiros, salas de descanso e jardim. O hospital abrigava os insanos pobres, que o governo iluminista considerava “trabalhadores fracassados” e não doentes sem possibilidade de recuperação, o trabalho era visto como oportunidade terapêutica, mas não deveria ser forçado. O regulamento, de fato, prescrevia que nem um funcionário, professor, assistente ou servente, em nenhuma ocasião ou sob qualquer pretexto, batesse nos dementes, lhes dissesse injúrias ou os provocasse, especialmente durante os períodos de fúria, nem lhes dirigisse zombarias ou os obrigasse a trabalhar no hospital, especialmente em tarefas laboriosas, sem a autorização de Chiarugi. Só ele poderia recomendar atividades específicas como forma de tratamento.

É curioso que, embora Pinel cite Chiarugi de forma breve em seu Tratado publicado seis anos depois de Da loucura, -, as palavras que emprega são severas: acusam-no de “seguir sempre caminhos batidos”, não ser inovador e não dar atenção suficiente às observações clínicas. As polêmicas logo começaram, mas, independentemente delas, a história fez a diferença, seja em razão da fama universal (e do mito) de Pinel, seja pela relativa obscuridade de Chiarugi fora da Itália.

Depois da morte de Leopoldo I, o Hospital de São Bonifácio perdeu importância. Chiarugi continuou trabalhando assiduamente lá até 1806 e assumiu depois outros encargos. Mas não formou discípulos, algo que talvez também tenha contribuído para diminuir a influência de seu tratado. Além disso, durante a Revolução e o império, a França reforçava cada vez mais sua influência cultural sobrea Itália, fornecendo o modelo legislativo e administrativo para o sistema médico e a organização universitária.

Em 1864, Carlo Livi defendeu a superioridade de Chiarugi em relação a Pinel, sublinhando, em carta endereçada ao alienista Brierre de Boismont, de que maneira as inovadoras reformas promovidas pelo médico toscano eram sinal de um esforço civil difuso na sociedade da época: “retirar as correntes que aprisionavam os pobres loucos e jogá-las no rio Arno” era parte de uma reforma geral inaugurada na Toscana pela família Lorena. Nessa época, a tortura e a pena de morte já tinham sido abolidas e estava instaurada a liberdade de consciência e de comércio. Uma situação bem diferente daquela que o fundador da mais antiga revista italiana de psiquiatria presenciou na península durante a sua vida, período em que a assistência aos doentes mentais “seguia o modelo ditado pela França e outras nações civilizadas”.

Pinel e Chiarugi são considerados os precursores de um tratamento dos “doentes da alma” que respeitava o ser humano e confiava em sua capacidade de recuperação, estabelecendo assim as bases para a psiquiatria e a psicologia médica. Mas é preciso não esquecer que, embora o pensamento desses pioneiros fosse inovador, eles trabalharam em uma época na qual o inconsciente ainda não havia sido teorizado e, assim, consideravam o doente em sua totalidade, sem as sutilezas perceptíveis anos mais tarde.

No século XIX, os desenvolvimentos do regime moral incluíram não só as psicoses mais graves, mas também as neuroses. A partir dos estudos sobre a hipnose realizados no hospital de Salpêtriêre em Paris, Sigmund Freud desenvolveu sua teoria psicanalítica, baseando-se em observações sobre a influência dos traumas de infância nos transtornos de personalidade que surgem na idade adulta. A teoria influenciou todos os desdobramentos posteriores da psicoterapia.

ANOREA ALBINI é autor de vários artigos de divulgação sobre a história da ciência e da tecnologia publicados em revistas e jornais italianos.

GESTÃO E CARREIRA

BEM VINDO A ERA DAS MUDANÇAS

BEM-VINDO À ERA DAS MUDANÇAS

A chance de uma empresa tradicional desaparecer nos próximos anos é de uma em três. A causa mortis é a dificuldade de se adaptar ao mundo complexo. Para sobreviver, os empresários devem assumir a gestão de mudanças na rotina dos escritórios e das linhas de produção.

A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente.” É assim que a jornalista e escritora americana Joan Didion começa seu best-seller O Ano do Pensamento Mágico, no qual narra o período de um ano após a morte de seu marido.

No mundo corporativo, a sensação não é diferente. Você senta para trabalhar e aquela empresa ou aquele negócio a que você estava habituado já não existe mais. A chance de as organizações tradicionais desaparecerem nos próximos anos, seja por falência, fusão, venda ou outras causas, é de uma em três. O relatório The Biology of Corporate Survival, da consultoria internacional Boston Consulting Group (BCG), indica que as companhias hoje padecem mais jovens que a idade média de seus funcionários. A principal causa mortis é a dificuldade em se adaptar ao ambiente complexo. De reestruturação, troca de presidentes, fusão ou aquisição a reposicionamento cultural, os trabalhadores encararam em média cinco movimentos diferentes nos últimos três anos. Do meio do ano passado para cá, por exemplo, vimos o Citi divulgar sua saída do Brasil no setor de banco de varejo, o Bradesco comprar o HSBC no país, as duas gigantes químicas Dow e Dupont anunciarem fusão e a Vale perder mais de 44 bilhões de reais de faturamento.

A agitação não se restringe aos muros de escritórios e fábricas. Na virada do ano, um grupo de adolescentes derrubou o secretário de Educação do governo paulista após uma série de protestos e ocupações de escolas públicas. Em março, as manifestações ora contra, ora a favor da presidente da República se intensificaram.

Adicione ao cenário local a incerteza geopolítica internacional, o radicalismo crescente e o futuro apocalíptico desenhado pelo aumento da urbanização, pelas drásticas mudanças climáticas e pelo envelhecimento da população mundial. Sem falar nos avanços tecnológicos, que de um lado ameaçam as organizações tradicionais e do outro empoderam os cidadãos — deixando-os mais conectados e críticos ao julgar fornecedores, patrões e governos. Não se trata apenas de um período conturbado. De acordo com os dados da CEB, empresa americana que pesquisa globalmente as melhores práticas de capital humano, 73% dos líderes de recursos humanos de 305 grandes corporações preveem para os próximos anos um número ainda maior de movimentações.

Se a vida cotidiana e corporativa está longe de se acomodar e a disrupção se tornou um fato permanente, como garantir a sobrevivência das empresas (e das pessoas) em um universo que se distorce o tempo todo? O primeiro passo é introduzir a gestão de mudanças na rotina dos escritórios e das linhas de produção e tratá-la efetivamente como uma competência essencial aos trabalhadores. No meio desse furacão, não há melhor personagem para comandar essa transformação do que o líder de recursos humanos.

ANTECIPE AS MUDANÇAS

Vivemos o que os consultores da Deloitte, no relatório Disruption, chamam de “mundo Vuca” — sigla para as palavras em inglês volátil, incerto, complexo e ambíguo. No mundo Vuca, os empresários enfrentam um aumento de demanda por clientes a que nunca serviram e com necessidades que até então desconheciam, uma pressão implacável por produtividade devido aos competidores com baixo custo e ameaças por concorrentes oportunistas.

A melhor forma de antecipar as transformações é seguir o comportamento de quem paga a conta — o cliente. É isso o que têm feito a operadora de telefonia Telefônica Vivo e a rede varejista GPA, dona das lojas Pão de Açúcar e Extra, entre outras. Antônio Salvador, vice-presidente de recursos humanos do Grupo, que emprega 150 000 pessoas, diz que a Lei das Domésticas encareceu o custo dessas profissionais, forçando chefes de família a preparar seu próprio jantar, escolhendo refeições rápidas e práticas. “A gente sente na pele a ruptura tecnológica e do conceito familiar, que não tem mais um formato definido”, afirma o executivo, que acompanha as alterações do consumidor de perto. Em resposta à mudança de comportamento da sociedade, nos últimos dois anos o GPA abriu 300 lojas pequenas e de proximidade, como o Minuto Pão de Açúcar e o Mini Extra, feitas para que o cliente pare no meio do caminho e reponha suas necessidades. Além disso, semana a semana, o Grupo mede o número de pessoas que optam pelo supermercado virtual — hoje, 25% das compras são feitas pela internet. “Se o RH perde esse vínculo, ele perde a conexão com o que a empresa precisa”, diz Salvador.

A equipe de RH da Telefônica Vivo também tem trabalhado junto ao negócio para se antecipar ao que vem por aí. “Nos próximos dois ou três anos, teremos carros conectados com internet e casas inteligentes; e venderemos produtos de realidade virtual com muita frequência”, afirma o vice-presidente de gestão de pessoas Giovane Costa. Para formar a mão de obra, ele optou pela realidade virtual, com óculos 3D e sistemas de simulação de ambientes. A ferramenta imita os possíveis diálogos entre o visitante e o atendente das lojas, prevendo respostas e sinalizando os erros. Segundo Costa, essa foi a solução para antecipar a vida futura de maneira “ágil, atrativa e competente”. “Eu não posso criar algo tão futurista que os colaboradores achem que não irá acontecer”, diz. O curso, que começou há pouco mais de um mês, formou 300 pessoas. A expectativa é alcançar os 7 000 funcionários que ficam nas lojas. De nada adianta, porém, acelerar as transformações dos clientes se internamente a companhia estiver engessada. Por isso, a empresa de tecnologia Cisco está reorganizando seus 25 000 engenheiros, dividindo-os em quatro áreas de atuação chave, como serviços em nuvem e internet das coisas, para dar agilidade frente aos concorrentes.

NOVO MODELO MENTAL

Christian Orglmeister, diretor da consultoria de gestão BCG, alerta que o tradicional modelo mental dos executivos, de olhar o passado e decidir o futuro, se torna inútil quando falamos de disrupções. “As mudanças sem precedentes dão um curto-circuito na cabeça dos líderes, e isso é um problema para os negócios”, afirma. “Houve um emburrecimento das empresas.

Elas aprenderam que fazer mais do mesmo dava resultado, mas hoje elas precisam de gente que desafie o status quo.”

Especialistas de consultorias de gestão e carreira, como PWC, Mercer, FGV e Lee Hecht Harrison, defendem que os profissionais do mundo Vuca precisam ser capazes de se desapegar (de projetos, ideias, enfim, da vida a que até então estavam acostumados), de aceitar erros (seus e dos outros) e de tomar decisões rápidas (com poucas informações). Além de serem aptos a trabalhar com ferramentas digitais e grande volume de dados. “O importante é ter alguém capaz de navegar na próxima onda”, diz João Lins, só- cio da PWC. Uma forma de fazer isso é trocar parte da liderança, contratar mais jovens, ou treinar. Essa tem sido a preocupação da Vivo, do GPA e da concessionária de energia elétrica Energisa. A Vivo elaborou um questionário para avaliar quantos de seus 150 líderes possuem o perfil digital. “Preciso saber quantos estão preparados e o que eu, como RH, devo reforçar a fim de que eles fomentem o desejo de mudança dos colaboradores”, diz Costa, que comanda outra grande transformação pela qual passa a Vivo: a integração com a GVT, operadora adquirida em agosto de 2015.

Um passo à frente, o Grupo Pão de Açúcar incluiu a competência “decisão” na avaliação de desempenho de seus gestores. “Decisão é a habilidade de decidir, com pouca informação, rapidamente. Você precisa ser um especialista nisso”, explica Salvador. Nos últimos dois anos, a companhia também tem perguntado aos candidatos à liderança onde eles desejam estar daqui a dois anos. O que era considerada uma vantagem no passado, hoje quem tem a resposta pronta, tracejado os cargos e carreira futura, tende a ser descartado no processo.

A Energisa, ao integrar as operações do Grupo Rede, em 2014, criou uma escola de liderança para capacitar todos os gestores. De lá para cá, mais de 95% dos 10 000 funcionários passaram pela avaliação de desempenho e cerca de 30 000 ações de aperfeiçoamento individual foram criadas. Então vieram as crises energética e econômica. “Nosso plano estava lindo até 2018, mas daí o mundo desabou. Com o desemprego, aumentam os índices de inadimplência e roubo de energia, exigindo agilidade nas tomadas de decisão”, afirma Daniele Salomão, diretora de gestão de pessoas do grupo. O RH reviu os módulos da academia de líderes e incluiu aulas sobre protagonismo e comunicação. “Quando passamos por modificações o tempo todo, o chefe precisa ser protagonista e incentivar essa qualidade na sua equipe”, diz.

EXPANDA A GESTÃO DE MUDANÇAS

As atuais abordagens de gestão de mudanças, tratadas em projetos pontuais, são insuficientes para a era da disrupção, pois não atingem a velocidade ou os comportamentos de que as organizações necessitam. “Em um mundo de transformações constantes, você tem de incorporar essa realidade no dia a dia”, diz Simone Costa, sócia da Dextera, consultoria especializada em gestão de mudança organizacional (GMO). Ao ouvir representantes das maiores companhias do Brasil, a consultoria descobriu que 46% delas realizavam mais de 50 modificações simultaneamente, fossem elas estratégicas, de processos ou sistemas. Apenas um terço das empresas conseguia manter para a maior parte dos projetos o cronograma e o orça- mento previstos originalmente. Segundo a pesquisa, das corporações que têm uma área para gerir as transformações, apenas 31% são ligadas ao líder de recursos humanos. “O papel do RH é entender que as áreas precisam fazer alterações em escala e, para isso, ele deve incorporar técnicas e ferramentas para que ajam mais rápido”, diz Simone.

Essa tem sido a estratégia da Vivo e da Tigre. A fabricante de materiais de construção popularmente conhecida por seus tubos e conexões criou uma área de gestão de mudança organizacional há quase dois anos, quando desenhou a estratégia de negócios para 2020. O departa- mento tem como missão auxiliar os gerentes de projetos, apoiar e formar a liderança nas rupturas necessárias, e preparar multiplicadores da metodologia. “Se você não faz gestão de mudanças, fica sujeito à própria sorte”, afirma o diretor de gestão de pessoas da Tigre, José Renato Domingues.

A equipe de GMO, subordinada ao RH, entrou em ação em 2015, quando a Tigre encerrou a planta de Pouso Alegre, em Minas Gerais, com 327 empregados. Por seis meses, o grupo mobilizou a liderança, estudou o impacto do fechamento nas pessoas e traçou um plano de ação — entre eles, o de formar operadores de empilhadeira para trabalhar em fábricas da região. No fim, 77% das pessoas foram operar máquinas em outras empresas e apenas seis processaram a Tigre na Justiça do Trabalho — um número baixo, segundo Domingues, sinal de que a mudança foi bem conduzida.

Como a demanda por mudanças tem crescido, a área de GMO iniciou o treinamento de todos os líderes da Tigre. Grande parte do ensino (70%) vem de projetos práticos, como o da fábrica de Pouso Alegre; 20%, por coaches, como o próprio Domingues; e 10%, em sala de aula, com estudos de caso.

Recentemente, a Tigre passou a usar a teoria de GMO nas fusões e aquisições. Em vez de olhar os aspectos técnicos de uma empresa, como produtos ou redes de distribuição, a companhia analisa o líder daquele negócio — que é, na verdade, o que interessa quando alguém pensa em aquisição. Duas transações estão em andamento seguindo esse modelo.

Na Vivo, Giovane Costa tinha passado por outras sete integrações ao longo de sua carreira. Ele sabia da importância de seguir uma metodologia de gestão de mudanças. Antes de a compra da GVT pela Telefônica ser aprovada, ele formou 30 diretores de recursos humanos nos preceitos de GMO. “O RH deveria estar preparado para ajudar os líderes nesse processo”, diz Costa. O segundo passo foi escolher líderes de negócios para aprender o mesmo conceito. Hoje, 60% da diretoria está educada em gestão de mudanças e cada vez mais coordenadores e analistas recebem aulas das práticas de melhorias de processo do Six Sigma.

Vinte e dois projetos estão em curso para unir a GVT à Vivo. Desde o início de fevereiro, 25 000 pessoas, dos 34 000 em- pregados, recebem treinamento sobre os processos da nova operadora. Em maio, a marca muda definitivamente para Vivo.

CUIDE DAS PESSOAS

Uma recente pesquisa publicada no jornal Nature Communications prova que a incerteza é mais estressante ao ser humano do que o fato ruim em si, causando inclusive alterações físicas. Archy de Berker, um dos autores do estudo, afirma que, quando a situação não é clara, o cérebro não sabe como agir, nem que decisões tomar. Ou seja, esperar para saber se será demitido ou não após uma fusão é mais traumático para o trabalhador do que a demissão em si. Em geral, quando uma corporação passa por um período de indefinição, o número de gestores que participam da distribuição de tarefas de seus times cai, assim como também diminui a quantidade de líderes dispostos a aceitar novas orientações de execução do trabalho e de permitir a inovação. Por sua vez, os subordinados sentem mais necessidade de ser reconhecidos, ao mesmo tempo em que seu engajamento diminui. Há ainda uma tendência em aumentar os casos de má conduta, como fraude em relatórios de despesas, manipulação da avaliação de desempenho ou violação das regras de segurança, entre outros.

Não é à toa que dois terços das modificações planejadas pelas organizações fracassam. O ponto mais fraco, como sempre, é o ser humano. Segundo a pesquisa da Dextera, quase 80% das mudanças realizadas nos últimos dois anos não foram aceitas pelos funcionários. Eles não entendiam as transformações, nem como deviam alterar seu comportamento para se adequar à atual realidade.

É bom deixar claro: qualquer alteração, mesmo a mais simples, provoca ruptura com a situação atual, e toda ruptura gera resistência. “A mudança só dará certo se tiver um propósito aceito pelo pessoal”, afirma Simone, da Dextera. Em vez de o empresário dizer que irá instalar um sistema de gestão empresarial, como o SAP, é melhor usar o discurso de que está adotando ferramentas para melhorar o tempo de resposta e a integração das áreas. Afinal, enquanto alguém olhar torto para o propósito, a transformação não atingirá o sucesso.

A Energisa tomou o cuidado de envolver todos os trabalhadores na integração com o Grupo Rede. No primeiro dia de trabalho após definida a compra, distribuiu aos funcionários um jornal criado especialmente para a circunstância, chamado de Notícias da Integração. A primeira edição trouxe o lema Juntos: “Juntos somos 10 000 pessoas, juntos atendemos 15 milhões de usuários”, seguido do organograma da organização e outros fatos relevantes para o processo.

INVERTA O JOGO

Apesar de ter um planejamento para quatro anos, a Energisa já finalizou 54% dos projetos e atingiu 63% dos resultados. Mesmo aumentando em 70% a frota de veículos e 230% os uni- formes, a concessionária conseguiu reduzir 48% do custo com terrenos e economizar 72 milhões de reais em estoque. Nove em cada dez funcionários entendem e estão alinhados com a estratégia da nova empresa.

Na Vivo, a motivação dos em pregados atingiu 82%, segundo a pesquisa de satisfação divulga- da há um mês. Embora o gasto para igualar os benefícios entre os funcionários tenha chegado a 70 milhões de reais, as duas operadoras juntas conseguiram um resultado 5% maior do que o previsto — o segundo melhor resultado do Grupo em todo o mundo. Diante da instabilidade do mundo atual, ter um bom projeto de gestão de mudança é a diferença entre a sobrevivência e a morte. Representa, sobretudo, a segurança de ir para o trabalho e saber que, não importa o que aconteça, no final tudo acabará bem.

7 LIÇÕES PARA O SUCESSO DA MUDANÇA

O que é preciso ter em mente durante as transformações

1 – Uma mudança permanente não é um requisito para o sucesso.

2 –  A repetição não torna a transformação mais fácil.

3 – Os funcionários precisam compreender a mudança, não gostar dela.

4 – A mudança está na pessoa-chave, não no líder de departamento.

5 – A prontidão do empregado, não sua vontade, ajuda na transformação de sucesso.

6 – Metas claras importam mais do que um plano perfeito.

7 – Diferentes áreas da corporação sentem a mudança de maneira distinta.