O QUE E BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A UNICIDADE DE JESUS CRISTO

Certa vez, na Nigéria, um assistente social foi visitar um jovem em uma das ruelas da cidade de Lagos e encontrou, sobre a sua mesinha de cabeceira, os seguintes livros: a Bíblia, O Livro da Oração Comum, o Alcorão, três cópias da revista A Sentinela (das Testemu­nhas de Jeová), uma biografia de Karl Marx, um livro de exercícios de ioga e (evidentemente, o que o pobrezinho mais necessitava) um livreto popular intitulado Como Parar de se Preocupar.

No dia 24 de maio de 1966, o Dia das Nações Unidas, foi realizado o primeiro culto multiconfessional, na igreja St Martin-in-the-Fields, em Londres. Na cerimônia par­ticiparam tanto hindus como budistas, muçulmanos e cristãos, os quais fizeram quatro afirmações de uma fé supostamente comum, quatro leituras de suas respectivas escrituras sagradas (o Tripitaka budista, o Bhagavad Gita, o Alcorão e a Bíblia) e pronunciaram quatro bênçãos, das quais apenas uma mencionou o nome de Jesus — aliás, a primeira e última menção na cerimónia. A imprensa se­cular ficou entusiasmada e considerou o evento “um marco significativo na história da religião”. Já os jornais cristãos o descreveram como “uma traição à fé cristã”. Hoje, porém, duvido que eles iriam escrever algo parecido, pois os cultos multiconfessionais já viraram uma prática comum.

Estes dois incidentes, um em Lagos e outro em Londres, exemplificam muito bem o espírito do sincretismo. Dr. W. A Visser’t Hooft, o primeiro Secretário Geral do Concílio Mundial de Igrejas, define sincretismo como sendo a visão segundo a qual “não existe na história nenhuma revelação única; ela diz que existem várias e diferentes maneiras de se alcançar a realidade divina, que todas as formulações de verdade ou experiência religiosa são, por sua própria na­tureza, expressões inadequadas dessa verdade, e que é ne­cessário harmonizar tanto quanto possível todas as ideias e experiências religiosas, a fim de criar uma única religião universal para a humanidade.” Dr. Visser’t Hooft é muito franco quanto a sua rejeição desta visão. “Está mais do que na hora de os cristãos redescobrirem”, continuou ele, “que a própria essência de sua fé é o fato de que Jesus Cristo não veio para se constituir em uma contribuição a mais para o depósito religioso da humanidade, mas que através dele Deus reconciliou o mundo consigo mesmo…”.

Mas o debate continua desde a década de 60. Hoje, o principal desafio para a compreensão tradicional da sin­gularidade de Cristo não é o “sincretismo”, mas o “plu­ralismo”; não a tentativa de fundir as religiões do mundo em uma única fé universal, mas o reconhecimento da inte­gridade de cada uma em todas as suas diferentes particu­laridades.

Agora, as opções que temos diante de nós geralmente são resumidas em termos de “exclusivismo”, “inclusivismo” e “pluralismo”.

O termo “exclusivismo” (de conotação desafortunada­mente negativa, pois dá a impressão de querer excluir as pessoas do reino de Deus) é usado para expressar a visão cristã histórica de que não há salvação em outras religiões, mas somente em Jesus Cristo.

O “inclusivismo” admite que pôde haver salvação para os adeptos de outras religiões, mas a atribui à obra de Cristo, muitas vezes secreta e não reconhecida. O Vaticano II abraçou esta visão ao declarar que a obra salvadora de Cristo é válida “não apenas para os cristãos, mas para todos os homens de boa vontade em cujos corações a graça atua de maneira invisível”.

O “pluralismo” vai ainda mais adiante, pois seus adeptos consideram o exclusivismo “arrogante” e “presunçoso”, e o inclusivismo “complacente” e “condescendente”. En­quanto “pluralidade” expressa o simples fato de que existem muitas religiões, “pluralismo” significa que são válidas por si mesmas. O pluralismo abre mão de toda e qualquer declaração do Cristianismo como sendo “absoluto”, “úni­co”, “definitivo”, “decisivo”, “normativo”, “supremo” ou “universal”. “Crescimento ilimitado é um câncer, e o mesmo seria uma religião cristã que continuasse crescendo sozinha pelo mundo todo”. Ao invés disso, o Cristianismo deveria ser considerado apenas uma religião entre muitas, e Jesus como apenas um entre muitos salvadores. É o assim cha­mado “ecumenismo mais profundo e mais amplo, que abraça o todo da humanidade” e do qual o arco-íris continua sendo “um símbolo eterno”.

ARGUMENTOS A FAVOR DO PLURALISMO

O que é que há no “pluralismo” para atrair tanta gente? Nós não teremos condições de reagir a eles enquanto não os ouvirmos e tentarmos compreender e sentir o apelo de seus argumentos.

A primeira coisa é a nova conscientização global. Ameaças ao meio ambiente, temores de um conflito nuclear e a contínua situação de injustiça económica entre o Norte e o Sul vêm incentivando as pessoas a desenvolverem uma perspectiva planetária. A própria sobrevivência da raça humana parece depender de nós aprendermos a viver juntos em harmonia e a cooperar para o bem comum. O que quer que seja que nos divida, portanto, inclusive nossas reli­giões, é compreensivelmente visto com crescente desapro­vação.

Os cristãos deveriam, como resposta a isso, estar real­mente na vanguarda em relação àqueles que buscam har­monia global. Por criação de Deus, nós somos um único povo no mundo. Deveríamos estar comprometidos com a promoção da paz internacional, com a democracia participativa, com os direitos humanos, as relações comu­nitárias, a responsabilidade ambiental e a busca por uma nova ordem económica internacional. Além disso, os povos de diferentes raças e religiões podem, deveriam e na verdade cooperam nessas modalidades de testemunho e ação social. Para fazê-lo, no entanto, não precisamos renunciar à nossa convicção quanto à singularidade de Jesus Cristo. Seria tolice buscar unidade à custa da verdade, ou reconciliação sem Cristo como Mediador. Além do mais, Cristo (inevi­tavelmente!) divide as pessoas, como também as une. Ele disse que tinha vindo não “para trazer a paz, mas espada”. Ele previu que, à medida que as pessoas se colocassem ao seu lado ou a favor dele, viriam conflitos.

Em segundo lugar temos o novo gosto pelas outras religiões. Os meios modernos de comunicação (especial­mente a televisão e as viagens) fizeram o mundo encolher. Povos de crenças e costumes estranhos, que até aqui estavam muito distantes de nós, agora vivem do nosso lado, ou melhor, até mesmo entram em nossos lares — através da tela, quando não o fazem pessoalmente. É “uma realidade recente e experimentada por muitos hoje”. Os livros sagrados de outras religiões, traduzidos para as nossas línguas, encontram-se à disposição de qualquer um. E à medida que vamos nos familiarizando mais com as religiões do mundo, aquilo que o professor John Hick chama de o “imenso cabedal espiritual” deles “tende a erodir a plausibilidade do velho exclusivismo cristão”. Além do mais, certas crenças antigas têm dado sinais de ressur­gimento justamente quando se percebe que o cristianismo, em declínio no Ocidente, “não tem conseguido quebrar o poder das grandes religiões históricas”.

Nós deveríamos ficar felizes com o conhecimento mais profundo que se tem hoje sobre as religiões mundiais, inclusive através do estudo comparativo de religiões nas escolas. Mas, se é verdade que descobrimos “riquezas” em outras religiões, nós também discernimos com mais cla­reza a absoluta singularidade de Jesus Cristo, como ve­remos mais adiante. “Fazer afirmações exclusivistas em favor de nossa própria tradição”, escreve Stanley Samartha, “não é a melhor maneira de amar o nosso próximo como a nós mesmos.” Pelo contrário, eu diria: é a melhor forma, e a mais sublime, de expressar amor ao próximo, se é que o evangelho é a verdade. Se ele é verdadeiro, nós não podemos dizer que amamos o nosso próximo se o deixarmos permanecer ignorante quanto à pessoa de Cristo. Quanto à vitalidade de outras religiões, bem como o comparativo fracasso do cristianismo, estas coisas deveriam levar-nos, não a concluir que o evangelho não é verdadeiro, mas, sim, a examinarmos a nós mesmos e, consequentemente, a nos arrependermos e mudarmos de vida, adotando melhores formas de compartilhar as boas novas com os outros.

Temos, em terceiro lugar, a nova modéstia pós-colonial. Por quatro séculos o Ocidente dominou o mundo em termos políticos, militares, econômicos e científicos, pressupondo também ser moral e espiritualmente superior aos outros. Com efeito, “a atitude do Cristianismo em relação a outras religiões tem sido moldada pela mentalidade colonial”. No entanto, o fim da Segunda Guerra Mundial anunciou o fim da era colonial. A medida que o Ocidente passava por uma profunda reviravolta cultural, “de uma posição de evidente superioridade para uma de mera paridade”, deu-se uma mudança paralela, no que tange à consciência teológica. “Essa dramática situação levou forçosamente a… uma nova compreensão quanto aos inter-relacionamentos das religiões, um novo equilíbrio de poder espiritual, por assim dizer, sobre tudo”, escreve o professor Langdon Gilkey. Ela nos fez sair de uma situação de “superioridade” para outra, de “paridade”. Portanto, afirma-se, conti­nuar declarando a universalidade cristã é cair no erro da velha mentalidade imperialista.

Para nós, do Ocidente, é deveras embaraçoso ter de reconhecer que, durante todos estes séculos de expansão colonial, conquista territorial e espiritual, política e re­ligião, armas e a Bíblia, a bandeira e a cruz, andaram de mãos dadas, e que repetidas vezes representantes do poder imperial desenvolveram atitudes de orgulhosa superiori­dade com relação àqueles que eles governavam. Mas “su­perioridade” é uma palavra enganosa. Ela pode evidenciar uma insuportável prepotência — e nós precisamos nos arrepender de todo vestígio disso. Mas o esforço missio­nário dos cristãos ao tentarem ganhar para Cristo adeptos de outras religiões não é, em si mesmo, uma marca de arrogância; indica, pelo contrário, uma profunda e humilde convicção de que o evangelho é superior a outras crenças, por ser ele a verdade revelada de Deus.

A atração do pluralismo, todavia, vai além de uma preo­cupação com a harmonia global, uma apreciação pelas ou­tras religiões e uma busca por modéstia pós-colonial. Ela tem raízes muito mais profundas, analisadas pelos doze autores que deram sua contribuição ao livro O Mito da Unicidade Cristã (The Myth of Christian Uniqueness). Estes estudiosos dizem ter realizado “uma travessia teo­lógica sem volta”, não só do exclusivismo para o inclusivismo, mas também do inclusivismo para o pluralismo; e eles nos falam sobre as três “pontes” que os levaram a fazer essa travessia.

A primeira eles chamam de ponte histórico-cultural, ou relatividade. Desde que a teoria geral da relatividade de Einstein começou a ser extrapolada da Física para outras esferas (inclusive a religião), parece que nada restou de absoluto. Um estudo histórico e comparativo das religiões, argumenta o professor Gordon Kaufman, sugere que elas não passam de “criações da imaginação humana”, cada uma a partir de sua perspectiva cultural específica. Sendo assim, a teologia cristã tem que abrir mão de qualquer declaração quanto a ser uma verdade absoluta ou definitiva e passar a compreender-se, pelo contrário, como “uma imaginativa resposta humana à necessidade de encontrar orientação para a vida em uma dada situação histórica”. O professor Tom Driver vai ainda mais adiante, declarando que “até a Escritura … é criação nossa, como seres hu­manos”.

Agora, é claro, nós também afirmamos que a Bíblia é um livro culturalmente condicionado, no sentido de que cada um dos seus autores fazia parte de sua própria cultura e falou dentro desta. Mas será que esta ênfase no contexto humano, histórico e cultural da Bíblia é um relato completo de sua natureza? De maneira nenhuma. Como já vimos no capítulo 10, existem boas razões para se acreditar na dupla autoria da Escritura, a saber, que por detrás dos autores humanos estava o divino Autor, que pronunciou a sua Palavra através das palavras deles, e que essa Palavra transcende tanto a história como a cultura. Pode até ser que outras religiões pudessem ser descritas (quaisquer que sejam as suas afirmações) como “produtos da imaginação humana”. Mas a convicção e a afirmação histórica do cristianismo são que o evangelho é produto de revelação divina, embora intermediado pelas mentes e bocas de autores humanos.

A segunda “ponte” nessa “travessia teológica sem volta” chama-se místico-teológica, ou mistério. Isto é, em toda religião existe algum sentido do Transcendente ou expe­riência de Deus que, por ser infinito e inefável, está sempre além do nosso alcance. Nossas teologias são apenas “ima­gens conceptuais de Deus”; e, “como outras imagens, cada uma delas pode ser menos ou mais digna do seu Sujeito”, escreve o professor Wilfred Cantwell Smith. Segundo ele, não existe, em princípio, “nenhuma diferença fundamental … entre uma doutrina e uma estátua”. A primeira é uma imagem intelectual de Deus, e a segunda, uma imagem visual. “É errado o nosso intelecto absolutizar a obra de suas próprias mãos.” Afinal de contas, “tanto a teologia como a arte representam apreensões relativas do Absolu­to”; absolutizar a imagem que nós temos de Deus é ido­latria. Ele vai mais adiante: “Esse negócio de os cristãos acharem que o Cristianismo é a verdade, ou que é definitivo ou salvífico, é uma forma de idolatria. Os cristãos pensa­rem que Deus inventou o Cristianismo… em vez de ima­ginarem que Ele/Ela nos inspirou para que o fizéssemos… isso é idolatria.” Ou, como o resume Tom Driver, “ido­latria é insistir em dizer que só há um caminho, uma norma, uma verdade”.

Como resposta, nós certamente concordamos que Deus é a Realidade Transcendente além de toda imaginação, apreensão ou descrição humana possível. Palavras não conseguem compreendê-lo e muito menos contê-lo. Já que ele é infinito, nós nunca vamos chegar ao seu fim: podemos passar a eternidade explorando e adorando o seu insondável ser. No entanto, dizer que ele continua sendo um mistério não é incompatível com afirmar que ele se revelou. Além do mais, sua Palavra encarnada em Jesus e sua Palavra registrada na Escritura tem uma posição normativa para todos os crentes cristãos. É um tanto estranho que, para aqueles que contribuíram para escrever O Mito, todos os cristãos de todas as igrejas durante dois milénios, todas as pessoas que têm crido na unicidade de Jesus, sejam idólatras! Se eles estão se referindo a “cristianismo” como uma invenção humana, então quem sabe absolutizá-lo poderia tornar-se uma idolatria. Mas reconhecer o caráter final e absoluto do próprio Cristo não é idolatria, mas autêntica adoração.

Em terceiro lugar vem a ponte ético-prática, ou justiça. Os quatro autores da terceira parte do livro O Mito da Unicidade Cristã sentem-se ultrajados com os sofrimentos dos oprimidos e estão unidos em seu compromisso com a justiça social. Valendo-se de diversos conceitos empresta­dos da Teologia da Libertação, o professor Paul Knitter escreve que “a necessidade e o propósito primordial do diálogo inter-religioso consistem em fazer uma opção pre­ferencial pelos pobres e os despersonalizados”. Em outras palavras, o pluralismo não é um fim em si mesmo, mas um meio que leva ao fim, que é libertar os oprimidos. Afinal, esta é uma tarefa grande demais para qualquer religião, razão pela qual “um movimento mundial de libertação necessita um diálogo inter-religioso de âmbito mundial” Os autores de O Mito acreditam também que o único critério pelo qual é possível julgar ou “avaliar” as religiões não deve ser, nem doutrinário, nem místico, mas sim, ético, isto é, sua efetividade em promover o bem-estar humano.

Nós temos de admitir que as questões contemporâneas de justiça social deveriam constituir-se em imensa preo­cupação para todos os cristãos, uma vez que nós reconhe­cemos a dignidade dos seres humanos como pessoas criadas à imagem de Deus. E, portanto, uma vergonha que os cristãos evangélicos deste século tendam a permanecer na retaguarda, ao invés de estarem na vanguarda das reformas sociais. Nós não temos problema algum quanto à proposta de avaliar as religiões, inclusive o Cristianismo, de acordo com o seu envolvimento social, já que afirmamos que o (evangelho é o poder de Deus para transformar tanto in­divíduos como comunidades. E, justamente por já termos experimentado esse poder em nossas vidas e visto-o em ação construtiva na história humana, nós não podemos concor­dar com essa avaliação tão negativa do professor Hick, de que a atuação social do Cristianismo representa “uma complexa mistura de elementos valiosos e elementos pre­judiciais”, em nada melhor nem pior do que a atuação de outras religiões.

Em suma, a nossa resposta às seis razões pelas quais muita gente é atraída pelo pluralismo é, em cada um dos casos, fundamentalmente a mesma. Eles fogem da questão da verdade; nós queremos insistir na questão da verdade. Afinal, Deus se revelou de forma completa e decisiva em Cristo e em todo o testemunho que a Bíblia dá acerca de Cristo, ou não?

  • Nós concordamos com a busca por uma harmonia global, mas não à custa da verdade.
  • Concordamos que um maior conhecimento de outras religiões é enriquecedor. Ao compará-las, todavia, não podemos abrir mão da declaração de que Cristo é a verdade.
  • Admitimos que as atitudes coloniais de superioridade são arrogantes; mas ainda assim insistimos em que a verdade é superior à falsidade.
  • Reconhecemos que a Escritura é culturalmente con­dicionada, mas afirmamos que através dela Deus proferiu sua Palavra da verdade.
  • Nós concordamos que o supremo mistério de Deus encontra-se além da compreensão humana. Mesmo assim, continuamos afirmando que Deus verdadeiramente se re­velou em Cristo.
  • Reconhecemos que servir ao pobre é uma parte es­sencial de nosso chamado cristão. Mas nós também somoschamados a dar testemunho da verdade.

Conforme a professora Rosemary Radford Ruether, “a ideia de que o Cristianismo e até mesmo as convicções bíblicas têm um monopólio quanto à verdade religiosa é um chauvinismo religioso absurdo e ultrajante”. Se por “monopólio” ela entende que as outras religiões não pos­suem verdade alguma, ou que os cristãos guardam para si mesmos a revelação de Deus e não a compartilham, então nós até poderíamos concordar com suas estridentes pala­vras. Mas se com “monopólio” ela está se referindo à crença de que Deus se revelou plena e definitivamente em Cristo, então isto não é nem ultrajante nem absurdo. Pelo con­trário, é fé cristã humilde, sábia, sóbria e consciente.

Seria de fato arrogante, e até mesmo “ultrajante”, se nós estivéssemos reivindicando unicidade ou finalidade para as nossas próprias opiniões falíveis ou experiências limi­tadas. Mas não estamos. Como escreveu Lesslie Newbigin, em seu sermão no 50°. aniversário da Conferência Missionária de Tambaram, em 1988:

Se é mesmo verdade que, em um determinado momento e lugar da história humana, o Deus todo-poderoso, criador e sustentador de tudo o que existe nos céus e na terra, humilhou-se a ponto de tornar-se parte de nossa huma­nidade pecaminosa, e de padecer e morrer uma morte vergonhosa a fim de tirar o nosso pecado e de ressuscitar da morte como a primícia da nova criação, se isto é um fato, então afirmá-lo não é arrogância. Calar a esse respeito é traição aos outros seres humanos iguais a nós. Se realmente é verdade, como de fato o é, que “o Filho de Deus me amou e se entregou por mim”, como posso deixar que este maravilhoso ato de incomparável graça venha a tornar-se simplesmente parte de um roteiro para o “estudo comparativo das religiões”?

A UNICIDADE DE JESUS CRISTO

É essencial esclarecer logo de início que os cristãos afir­mam unicidade e supremacia apenas com relação a Cristo, e não ao Cristianismo, em qualquer uma de suas formas institucionais e culturais. A fim de endossar esta decla­ração, quero apelar para três testemunhas, provenientes, respectivamente, da África, da Ásia e da Europa.

Primeiro, o professor John Mbiti, do Quénia, escreve: “A unicidade do Cristianismo está em Jesus Cristo.”

Minha testemunha asiática é Sadhu Sundar Singh, o místico e evangelista cristão indiano. Criado em um lar sikh, ele se converteu ao Cristianismo quando era adoles­cente e mais tarde tornou-se um sadhu, ou seja, um santo homem itinerante. Um dia, ao visitar um colégio hindu, foi interpelado por um agnóstico, professor de religião comparativa, que lhe perguntou o que ele tinha achado no Cristianismo que não havia encontrado em sua antiga religião. “Eu tenho Cristo”, respondeu ele. “Sim, eu sei”, disse o professor, meio impaciente. “Mas que princípio ou doutrina em particular você encontrou, que já não tivesse antes?” “É exatamente isso que eu encontrei”, replicou ele. “Cristo.”

A testemunha europeia para a qual eu apelo é o falecido Bispo Stephen Neill, estudioso muito viajado. Ele enfatizava fortemente a centralidade de Cristo no debate com o pluralismo. Em seu excelente livro A Fé Cristã e Outras Religiões, ele escreveu: “O velho dito ‘Cristianismo é Cristo’ é quase exatamente verdadeiro. A figura histórica de Jesus de Nazaré é o critério pelo qual toda afirmação cristã tem de ser julgada, e à luz do qual ela permanece ou cai.” Então, ao chegar ao final da sua ampla e sensível resposta ao Judaísmo, ao Islamismo, ao Hinduísmo, ao Budismo, às religiões primitivas e ao secularismo, em que encarava com honestidade as críticas ao Cristianismo, ele perguntou:

Será que os nossos interlocutores já olharam de fato para Jesus Cristo, tentando vê-lo como ele é? Pois, se levarmos a sério os Evangelhos…, Jesus não é de forma alguma igual a qualquer outra pessoa que jamais viveu. As coisas que ele diz acerca de Deus não são a mesma coisa que as que foram ditas por qualquer outro mestre de outras religiões. As declarações que ele faz sobre si mesmo não são as mesmas que aquelas que têm sido feitas a favor de qualquer outro mestre religioso. Suas críticas sobre a vida e a sociedade humana são muito mais devasta­doras do que as que jamais foram feitas por qualquer outro homem. As exigências que ele fez aos seus segui­dores demandam deles muito mais do que as que foram estabelecidas por qualquer outro mestre religioso.

Portanto, o que afirmamos não é somente que Jesus foi um dos maiores líderes espirituais do mundo. Seria deses­peradamente incongruente referir-se a ele como “Jesus, o Grande”, comparável a Alexandre, o Grande, Carlos Magno ou Napoleão, o Grande. Jesus não é “o Grande”; ele é o único. Ele não tem semelhantes, nem rivais, nem suces­sores.

O que é que os cristãos primitivos pensavam dele? Eles lhe deram muitos nomes e títulos. Com muita frequência ele é citado simplesmente como “Jesus” ou “Cristo”; ou, quando se combina o seu nome humano com o título mes­siânico, “Jesus (o) Cristo”. Ou então é muito comum acrescentar “o Senhor”, seja como “o Senhor Jesus”, ou “o Senhor Cristo”, ou “o Senhor Jesus Cristo”. Mas quando seu título é pronunciado por completo, ele se torna “nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Este nome aparece, por exemplo, na conclusão da segunda carta de Pedro: “Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”

Dentro desta designação completa estão implícitas três declarações distintas, ou seja: que Jesus é Senhor, que Jesus é Salvador e que Jesus é nosso. Todas as três o declaram como único.

JESUS É SENHOR

Nós já vimos, no capítulo 5, que Kyrios Iesous (“Senhor Jesus”) foi o primeiro de todos os credos cristãos. Ele é seguramente um testemunho da encarnação, já que é uma afirmação da identidade do Jesus humano e do Senhor di­vino. A palavra kyrios era usada com uma grande variedade de significados. Por um lado, podia ser usada simplesmente como um título de cortesia (“senhor”) ou para designar o dono de algum tipo de propriedade. Por outro lado, usava-se durante todo o período clássico grego com referência aos deuses, que eram assim reconhecidos como tendo autoridade sobre a natureza e a história. Depois veio a ser aplicada a governantes humanos, especialmente o impe­rador (Kyrios Kaisar), e era a paráfrase comumente usada para Javé pelos estudiosos ao traduzirem a Bíblia do hebraico para o grego. Daí passou a ser usada no Novo Testamento com relação ao Cristo ressurreto, com a implicação de que seus seguidores eram seus escravos, comprometidos a adorá-lo e obedecê-lo, numa clara indi­cação de que eles reconheciam sua divindade. O mais impressionante é o fato de que os seus primeiros discípulos tenham usado este epíteto, pois eles eram monoteístas tão fanáticos quanto qualquer muçulmano hoje. Eles recita­vam o Shema todo dia, confessando que “o Senhor nos­so Deus, o Senhor, é um só”. Mas, apesar disso, eles chamavam abertamente Jesus de Senhor e o adoravam como Deus.

Não existe nada igual em qualquer outra religião. Os judeus, é óbvio, continuam rejeitando a divindade de Jesus. E os muçulmanos também. Compreendendo erroneamente a encarnação em termos literalmente físicos, Maomé es­creveu no Alcorão: “Alá proíbe a si mesmo de gerar um filho.”

O Budismo, tanto em sua forma primitiva como na clássica, não tinha deus nem culto. O status e a honra divinos só foram atribuídos a Buda uns quinhentos anos depois de sua morte. Portanto, não podemos aceitar o paralelo que o professor Hick faz ao escrever: “A Budologia e a Cristologia desenvolveram-se por caminhos compará­veis”. Ou seja, cada um “veio a ser imaginado” como uma encarnação, como um resultado da devoção religiosa de seus seguidores. A comparação é inepta, porém, pois os próprios contemporâneos de Jesus o chamavam de “Se­nhor”, ao passo que um milénio se passou antes que Buda fosse adorado como Deus.

O Hinduísmo, é verdade, reivindica uma porção de avatares ou “descendentes” divinos, nos quais se diz que o deus Vishnu teria aparecido em Rama, em Krishna e em outros. No Baghavad Gita Krishna diz a Arjuna que ele frequentemente assume forma humana: “Eu já nasci muitas vezes, Arjuna… Embora eu não seja nascido, e seja eterno, e seja o Senhor de tudo, eu venho ao meu estado natural e através do meu maravilhoso poder eu sou nascido.” Talvez mais impressionante ainda seja a declaração de Ramakrishna, o reformador hindu do século XIX, que disse acerca de si mesmo ser “a mesma alma que havia nascido antes como Rama, como Krishna, como Jesus, ou como Buda, nascido novamente como Ramakrishna”.

Mas “encarnação” não é uma tradução adequada ou acurada da palavra sânscrita avatar; ela tende a dissimular as duas diferenças fundamentais entre as declarações do Cristianismo e do Hinduísmo. Primeiro, a questão da historicidade. Os avatares de Vishnu pertencem à mito­logia hindu. O Hinduísmo é uma religião filosófica, mística e ética, e para os hindus não tem importância alguma se os avatares realmente existiram ou não. O Cristianismo, porém, é essencialmente uma religião histórica, baseada na afirmação de que a encarnação de Deus em Jesus Cristo foi um evento histórico, que aconteceu na Palestina quando Augusto era imperador de Roma. Caso se pudesse descomprovar a sua historicidade, o Cristianismo seria destruído.

A segunda diferença jaz na pluralidade dos avatares. Krishna falou de seus múltiplos e até “frequentes” “re­nascimentos”. Mas “encarnação” e “reencarnação” são dois conceitos fundamentalmente diferentes. Os avatares foram manifestações ou incorporações temporárias de Vishnu em seres humanos. Mas nenhum deles implicou em que a divindade tenha assumido de fato a natureza humana, nem é, de forma alguma, fundamental para o Hinduísmo. A afirmação cristã, pelo contrário, é que em Jesus de Nazaré Deus assumiu forma humana de uma vez por todas e para todo o sempre; que sua encarnação em Jesus foi decisiva, permanente e irrepetível, o ponto decisivo da história humana e o começo de uma nova era; e que hoje, reinando à direita de Deus, está precisamente “o homem Cristo Jesus”, ainda humano tanto quanto é divino, se bem que agora sua humanidade tenha sido glorificada. Tendo assumido a nossa natureza, ele nunca a descartou e jamais o fará.

Assim, o primeiro aspecto da unicidade de Jesus é que ele é Senhor. Ele é o “Filho” e a “Palavra” eterna e pessoal de Deus, que se tornou ser humano. Consequentemente, “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divinda­de”.  Ele é o soberano senhor do universo e da igreja. É verdade que ele exerce esse domínio através de amor humilde, pois o Senhor tornou-se servo e lavou os pés de seus dis­cípulos. Ainda assim, o nosso lugar é prostrados com o rosto em terra, aos seus pés.

JESUS É SALVADOR

A segunda afirmação contida no título completo de Jesus é que ele é Salvador. De fato, o Senhor divino é o divino Salvador. E, embora o vocabulário da salvação tenha um sabor desagradável para muita gente hoje, nós não podemos desistir dele de maneira nenhuma. Afinal de contas, o Cris­tianismo é essencialmente uma religião de resgate; ele anuncia boas novas de salvação. Como têm recitado as igrejas durante séculos por intermédio do Credo Niceno, “para nós, homens (seres humanos), e para nossa salvação, ele desceu dos céus…”.

Agora, “salvação” é uma palavra ampla, que abrange a totalidade do propósito redentor de Deus para suas cria­turas alienadas. Em uma palavra, como vimos no capítulo 2, salvação é libertação, e tem aspectos positivos e nega­tivos. Ela inclui libertação do justo julgamento de Deus para os nossos pecados; libertação da nossa culpa e da nossa consciência culpada; libertação para um novo relaciona­mento com ele, no qual nos tornamos filhos seus, recon­ciliados e perdoados, e passamos a conhecê-lo como nosso Pai. E libertação da amarga escravidão da vida sem sentido para um novo senso de propósito na nova e divina sociedade do amor, em que os últimos são os primeiros, os pobres são ricos e os mansos, herdeiros. E libertação da escura prisão de nosso próprio egocentrismo para uma nova vida de auto realização através de serviço altruísta e abnegado. E um dia ela incluirá libertação da futilidade da dor, da corrupção e da dissolução, para um novo mundo de imor­talidade, beleza e gozo indizível. Tudo isso — e muito mais! — é “salvação”.

Foi para garantir estas preciosas bênçãos que Jesus Cristo veio a este mundo, morreu na cruz e ressuscitou. Foi ele que tomou a iniciativa: “o Filho do homem veio pura buscar e salvar o perdido”.

Ele se comparou a um pastor de ovelhas que deixou o resto de seu rebanho a fim de ir atrás daquela que se havia perdido. Longe de abandoná-la, na esperança de que ela pudesse sair balindo e tropeçando até encontrar o caminho de volta para casa, ele arriscou a própria vida para ir à procura dela. Na verdade, “o bom pastor” deu a sua vida por suas ovelhas. Deliberada e voluntariamente, Jesus foi para a cruz, a fim de identificar-se conosco. Deus, em Cristo, assumiu o nosso lugar, a fim de que pudéssemos ser perdoados e feitos nova criação. E então ele foi res­suscitado dos mortos em um evento sobrenatural, a fim de reverter o veredito humano sobre ele e de vindicar sua pessoa divino-humana e sua obra salvadora.

Isto também é singular, um fato único. Não é só em sua encarnação que se pode ver a unicidade de Cristo. Todo o conceito de um Deus gracioso — que se recusou a ser conivente com os nossos pecados, como também a condenar-nos por eles; que, ao invés disso, tomou a iniciativa de nos resgatar; que se entregou à vergonha e sofrimento da morte na cruz e que quebrou o poder da morte através de sua ressurreição — não tem paralelo em outras religiões. “Se existe alguma outra religião que tenha qualquer coisa pelo menos parecida com as doutrinas da encarnação e da expiação”, escreveu Stephen Neill, “eu ainda estou por encontrá-la.” Mas ela não pode ser encontrada. Emil Brunner tinha razão quando se referiu ao “otimismo autoconfiante de toda religião não-cristã” ao ensinar várias formas de salvar-se a si mesmo, enquanto que o evangelho coloca toda a ênfase na iniciativa de Deus em ir gracio­samente ao encontro dos pecadores, e na “falta de esperança própria” como a “antecâmara da fé”.

O Budismo considera a situação humana mais através do sofrimento do que do pecado, como também no “desejo”, que ele considera a raiz do sofrimento. A libertação só pode vir pela abolição do desejo por intermédio do esforço próprio. Não existe Deus nem Salvador. “Lutar sem cessar” foram as últimas palavras de Buda aos seus discípulos, antes de morrer.

O Hinduísmo filosófico situa o nosso problema no maya, geralmente entendido como a “ilusão” da nossa experiência no tempo e no espaço. O Hinduísmo popular, por sua vez, ensina a inflexível doutrina do karma, ou seja, a retribuição através da reencarnação. Cada pessoa deve comer o fruto de seus próprios erros, seja agora, seja no futuro. Do infindável ciclo (samsara) de renascimentos ou reencar­nações não há escapatória pelo perdão, mas somente por aquela libertação final chamada Nirvana, que significa a extinção do ser individual e a absorção em uma realidade divina impessoal (Brahman).

O Judaísmo continua, evidentemente, a ensinar ao pe­nitente a possibilidade do perdão, conforme prometido no Antigo Testamento, mas nega que Jesus seja o Messias e também que a sua morte expiatória seja o único fundamen­to para o perdão de Deus. Para o meticuloso e honesto estudioso judeu C. G. Montefiore, a “grandeza e origina­lidade” de Jesus reside em sua nova atitude para com os pecadores. Ao invés de evitá-los, ele agia, indo à procura deles. Os rabis diziam que Deus acolhe os pecadores que voltam para ele; mas eles nunca haviam falado de um amor divino que toma os primeiros passos para ir buscá-los e salvá-los:

Esta busca direta pelo pecador e esse apelo direto a ele são novas e comoventes notas de alta importância e sig­nificância. O bom pastor que vai em busca da ovelha perdida, e que a reclama e se alegra por ela, é um dado novo…

O Islamismo proclama claramente a misericórdia de Deus. Cada um dos 114 suras (capítulos) do Alcorão é introduzido com as palavras “Em Nome de Alá, o Com­passivo, o Misericordioso”. Mas ele não traz nenhuma demonstração histórica sacrificial que evidencie a sua misericórdia. E quando se pesquisa mais a fundo, percebe-se que Alá é misericordioso para com o merecedor, aqueles que oram, dão esmolas e jejuam no Ramada. Não há sequer uma mensagem para os pecadores que merecem julgamen­to, a não ser que eles hão de receber o julgamento que merecem.

Além disso, o que nós esperamos que o muçulmano procure em Jesus já é por si só um motivo de grave ofensa ao orgulho muçulmano. Nós sugerimos — e não pode­ríamos fazer outra coisa — que ele encontre um Salvador. O muçulmano diz que ele não tem necessidade alguma disso.

Não resta dúvida alguma de que a principal diferença entre o Cristianismo e as religiões do mundo (e a principal pedra de tropeço que elas podem encontrar nele) é a cruz. Ela humilha todo orgulho e acaba com qualquer esperança de salvação própria. Fala também da incalculável genero­sidade do amor de Deus em prover este caminho de salvação. Foi aí que o líder cristão japonês Toyohiko Kagawa (que morreu em 1960) encontrou a unicidade do Cristianismo:

Sou muito grato pelo Xintoísmo, o Budismo e o Confucionismo. Eu devo muito a estas religiões… Só que as três religiões fracassaram completamente em minis­trar as mais profundas necessidades do meu coração. Eu era um peregrino viajando por uma longa estrada que não tinha volta. Estava exausto. Meus pés estavam feridos. Eu vagava através de um mundo escuro e desanimador, onde as tragédias eram abundantes… O Budismo ensina a compaixão…, mas, desde o princípio dos tempos, quem é que declarou: “Este é o meu sangue da aliança que é derramado por muitos para remissão dos pecados”?

JESUS É NOSSO

O título completo de Jesus Cristo não é “o Senhor e Sal­vador”, mas “nosso Senhor e Salvador”. Nós não podemos ignorar este pronome possessivo. É uma palavra pequena, mas altamente significativa. Ela indica que existe, escon­dido em seu título, uma terceira afirmativa, a saber, que Jesus é nosso.

Já no Antigo Testamento o pronome possessivo “meu” costumava expressar a relação pessoal que o povo da aliança de Deus desfrutava com ele, especialmente quando eles se dirigiam a ele em oração, como nos Salmos. Por exemplo: “Senhor, rocha minha e redentor meu”, “O Senhor é o meu pastor”, “O Senhor é a minha luz e a minha salvação… a fortaleza da minha vida”, “Só ele é a minha rocha e a minha salvação, o meu alto refúgio” e “O Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente”.

No Novo Testamento, o que se afirma é um relaciona­mento pessoal idêntico com Jesus Cristo. Tanto Paulo como Pedro constituem-se em notáveis exemplos disso. Eis o de Paulo: “Considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Se­nhor.” Quanto a Pedro, ele reivindica esse relacionamen­to de intimidade, não somente para si mesmo, mas também para os seus leitores: “… Jesus Cristo, a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória.”

Estas são declarações de que Cristo é nosso contempo­râneo. O Jesus que nasceu em nosso mundo e que viveu o morreu na Palestina do primeiro século também ressus­citou dentre os mortos, e agora vive para sempre e está à disposição e acessível para o seu povo. Jesus Cristo não é para ser relegado, como outros líderes religiosos, à história e aos livros históricos. Ele não morreu e se foi, acabado e fossilizado. Está vivo e em plena ação. Ele nos chama a segui-lo e se oferece a nós como nosso Salvador, para viver em nós e transformar-nos.

Isto é geralmente explicado no Novo Testamento como se significasse que sua disponibilidade para nós se dá através do Espírito Santo, que é o Seu Espírito. Paulo indica isto ao orar pelos efésios, pedindo que “(o Pai) vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé”. Na verdade, porém, a fé cristã é essencialmente trinitária. Nós vamos ao Pai através do Filho e pelo Espírito, e o Pai vem a nós através do Filho pelo Espírito.

Uma vez mais, isto é singular. Nada existe que seja comparável a isto em outras religiões. O budista não pode afirmar que conhece Buda, nem o confucionista que conhe­ce Confúcio, nem o muçulmano, Maomé, nem o marxista que conhece Marx. Cada um reverencia o fundador de sua religião ou ideologia como um mestre do passado. Também para os cristãos Cristo é um mestre; porém, muito mais do que isso, ele é o nosso Senhor e Salvador que está vivo. Frases afirmando isto “ocorrem página após página no Novo Testamento, deixando claro que é esse relacionamen­to pessoal e íntimo de confiança, devoção e comunhão que é o próprio cerne da fé cristã”.

Lorde Coggan, quando Arcebispo de Cantuária, chamou atenção para isto ao referir-se às 164 ocorrências da fórmula favorita de Paulo, “em Cristo”:

É uma frase estranha. Mal se pode encontrar um uso paralelo a ela na vida comum. Se, digamos, um amigo íntimo de Churchill que, depois de passar muitos anos com ele, tivesse dedicado uma década para escrever sobre sua vida, estivesse falando conosco sobre esse grande homem, pode ser que ele resumisse o seu relacionamento com ele de muitas e diferentes maneiras. Ele poderia dizer que o temia, ou que o admirava, ou mesmo que o amava. Mas ele nunca diria “Eu sou um homem em Churchill”. Nunca iria lhe ocorrer usar uma frase dessas. Mas Paulo foi, acima de qualquer outra coisa, “um homem em Cristo”.

Embora esteja certo enfatizar desse jeito o relacionamen­to pessoal, individual do crente com Cristo, indicado pelo possessivo singular “meu”, mesmo assim o seu título completo incluí o possessivo plural “nosso”. Deus está chamando um povo para si mesmo, e o foco de unidade do seu povo é Jesus Cristo. E ele que vem e fica entre nós quando nos reunimos para adorar. “Eu estou com vocês”, diz ele, até mesmo quando somente dois ou três se reúnem em meu nome. E ele repete a sua promessa a nós quando saímos para fazer discípulos de todas as nações: “Estou convosco todos os dias até à consumação do século”.

Eis aqui, pois, os três principais aspectos da unicidade de Jesus Cristo. Ele é Senhor. Ele é Salvador. Ele é nosso. Afinal, ele é “nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Historicamente falando, estas são alusões ao seu nasci­mento, morte e ressurreição. Teologicamente, referem-se à encarnação, à expiação e ao dom do Espírito do Senhor ressurreto.

Com efeito, já que em nenhuma outra pessoa, a não ser o Jesus de Nazaré histórico, Deus se tornou humano, viveu na terra, morreu por nossos pecados, venceu a morte, foi elevado aos céus e enviou o Espírito Santo, não há, por­tanto, nenhum outro Salvador. Afinal, não existe nenhuma outra pessoa que possua estas qualificações e que tenha, portanto, a competência de salvar.

Hendrik Kraemer, o teólogo holandês que dirigiu a Con­ferência Missionária Tambaram em 1938, enfatizou for­temente os eventos da unicidade de Cristo. Cinquenta anos mais tarde, Lesslie Newbigin diria:

Kraemer não reivindicou unicidade para o Cristianismo, que é um fenômeno humano mutável, variegado e ambíguo; ele reivindicou unicidade para os eventos que consti­tuem a substância do evangelho. Usando a frase favorita de Kraemer, estes eventos são sui generis. Pode ser que haja ideias, estórias, mitos, lendas que reflitam as mesmas motivações, mas, em se tratando de história, … nada há que se possa colocar lado a lado com esta história. O evangelho é, estritamente, sui generis, sem igual.

Portanto, não basta declarar que Jesus é único, no sentido de que todo ser humano é único, assim como cada floco de neve é de fato único, como toda folhinha de grama. Nem tampouco podemos acompanhar o professor Paul Knitter em sua tentativa de interpretar a fraseologia do Novo Testamento que diz ser Cristo “um só e único”. É a lin­guagem do testemunho e não teologia, diz ele; a linguagem do amor, e não ciência; é linguagem de fé entusiasta, e não filosofia analítica. É, continua ele, “muito mais a lingua­gem que um marido usaria para sua esposa…: ‘Você é a mulher mais linda do mundo… Você é a única mulher para mim’.” É poesia, hipérbole, e não verdade literal. Mais adiante, Knitter argumenta que é “linguagem em ação”, cujo propósito primordial era, não definir uma doutrina, nem excluir outras pessoas, mas, sim, incentivar uma ação por Cristo em “total comprometimento com a sua visão e maneira de agir”.

Mas não é bem assim. Esta apelação para diferentes usos de linguagem, se bem que engenhosa, é certamente pura defesa. Um estudo cuidadoso dos textos que se referem a Cristo como “um só e único”, dentro de seu contexto, deveria convencer-nos de que eles não são puramente expressões poéticas de fé e amor, para se tomar com uma pitadinha de sal. Pelo contrário, são solenes afirmações da verdade, que têm consequências eternas no que concerne à salvação. Além do mais, todas elas, quer implícita ou explicitamente, tiram sua conclusão negativa (“nenhum outro”) a partir de sua declaração positiva (somente ele). Por isso, já uma vez que só ele conhece o Pai, então somente ele pode fazê-lo conhecido; e, como ele é “o caminho, a verdade e a vida”, por isso é que ninguém pode vir ao Pai a não ser por ele. De igual maneira, já que o nome de Jesus Cristo, a quem Deus ressuscitou dos mortos, é poderoso para salvar, não existe outro nome que possa salvar. Portanto (até mesmo no devassador sincretismo do mundo greco-romano) “há um só Deus, o Pai… e um só Senhor, Jesus Cristo…”; há um só sumo sacerdote, que ofereceu um único sacrifício (ele mesmo) pelos pecados de uma vez por todas; e, devido a sua morte como remissão dos pecados de todos, “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.”

Um só caminho, um só nome, um só Deus, um só Senhor, um só Mediador. A reivindicação é exclusiva e a implicação, inevitável. Aquilo que é verdadeiramente único tem signifi­cância universal e deve tornar-se universalmente conhe­cido, ao passo que, citando uma vez mais Visser’t Hooft, “não existe universalidade alguma se não existir nenhum evento que seja único”. Assim, unicidade e universalidade andam juntas. Já que Deus exaltou Jesus acima de tudo, e lhe deu o inigualável nome de “Senhor”, que está acima de qualquer outro nome, por isso é que todo joelho deve dobrar-se diante dele. Por ser Jesus Cristo o único Sal­vador, por isso é que nós temos a obrigação de anunciá-lo em todo lugar. O “inclusivismo” da missão deve-se precisamente à “exclusividade” do Mediador. Para com­pletar, a ele foi dada autoridade universal sobre as nações; é por isso que ele nos manda ir e fazer discípulos das nações.

Para concluir, eu gostaria de tentar responder duas questões que ocorrem à minha mente e que podem estar na mente do leitor. Ambas têm a ver com o nosso relacio­namento com adeptos de outras religiões.

A primeira indagação pode ser esta: “Você está sugerindo uma total descontinuidade entre o Cristianismo e as outras religiões, de forma que toda a verdade está contida nele e nenhuma verdade nelas?” Não. Os cristãos certamente acreditam que Deus se revelou em Jesus Cristo, como o testemunham as Escrituras, de uma maneira única e de­finitiva, de forma que, nesta vida, ele nada mais tem a revelar além do que já revelou (se bem que, evidentemente, nós temos muito mais a aprender). Mas nós não estamos dizendo que fora da igreja Deus deve ser considerado inativo e a verdade ausente. De maneira alguma. Deus sustenta todas as suas criaturas e, portanto, “ele não está longe de nenhuma delas”. Elas são, por criação, “geração de Deus”, e “vivem”, “movem-se” e “existem” nele. Da mesma maneira, o próprio Jesus Cristo, sendo o logos de Deus e a luz dos homens, atua incessantemente no mundo. Já que ele é descrito como “a verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”, nós ousamos declarar que toda beleza, verdade e bondade, onde quer que se encontrem entre os seres humanos, derivam dele, quer as pessoas saibam, quer não. Este é um aspecto da assim chamada “graça comum” de Deus, seu amor demonstrado para com toda a humanidade; no entanto, não é a sua “graça salvadora”, que ele estende àqueles que clamam humilde­mente a ele por misericórdia.

A segunda pergunta pode ser uma sequência da primeira: “Então não existe nenhuma esperança de salvação para aqueles que pertencem a outras religiões e que talvez nunca tenham ouvido falar de Jesus?” Vou tentar responder biblicamente esta pergunta extremamente perspicaz. Isto significa que precisamos combinar confiança com agnosticismo, aquilo que sabemos (porque a Escritura o ensina claramente) com aquilo que não sabemos (ou porque a Escritura não o deixa claro, ou então porque ela silencia a esse respeito).

O que nós sabemos a partir da Escritura é que não existe possibilidade alguma de salvação própria. Todos os seres humanos, a partir da revelação geral de Deus, têm algum conhecimento de Deus e daquilo que é bom; todos fracas­saram quanto a viver de acordo com aquilo que conhecem; e todos são, portanto, culpados diante de Deus, e se encon­tram em estado de “perdição” (a menos que Deus inter­venha). E este o argumento de Romanos 1 a 3. Ninguém pode ganhar sua própria salvação através da sua religião, sinceridade ou filantropia. Nem quem diz ser cristão, nem pessoa alguma. Além disso, o centurião Cornélio não é uma exceção à regra, como às vezes se insinua. Sua história ensina que há salvação — tanto para os gentios como para os judeus, e nos mesmos termos; ela não ensina que ele a adquiriu mediante sua própria retidão, piedade ou ge­nerosidade. Pelo contrário, precisou ouvir o evangelho e responder a ele a fim de receber salvação, vida, purificação e o Espírito Santo. Portanto, é impossível salvar-se a si mesmo. Sabemos também que Jesus Cristo é o único Salvador (pois, como já vimos, só ele tem as qualificações necessá­rias) e que a salvação é somente pela graça de Deus, baseada somente na cruz de Cristo, e somente pela fé.

O que nós não sabemos, contudo, é exatamente quanto conhecimento e entendimento do evangelho as pessoas precisam ter antes que elas possam clamar a Deus por misericórdia e salvação. No Antigo Testamento, as pessoas eram certamente “justificadas pela graça através da fé”, embora tivessem pouco conhecimento de Cristo ou expec­tativa quanto a sua vinda. Talvez hoje haja outros que se encontram em situação semelhante. Eles sabem que são pescadores e culpados diante de Deus, e que nada podem fazer para conquistar seu favor; assim, em desespero próprio, eles clamam ao Deus que eles mal percebem para que os salve. Se Deus salva gente assim, como muitos evangélicos pensam, sua salvação continua sendo só pela graça, só através de Cristo e somente pela fé.

Outra coisa que nós sabemos é que o número final de pessoas redimidas por Deus será na verdade incontável, em cumprimento final à promessa de Deus a Abraão, de que sua posteridade (tanto espiritual como física) seria “como as estrelas dos céus e como a areia na praia do mar”. Nesta mesma linha, parece que nos é garantido por Paulo que haverá muito mais pessoas salvas do que perdidas, pois a obra de Cristo em promover a salvação terá mais sucesso do que a de Adão em promover a ruína, e também porque a graça de Deus em produzir vida irá transbordar “muito mais” do que a transgressão de Adão para a morte.

Embora tenhamos sólidas bases bíblicas para alimentar esta expectativa, nós não sabemos como Deus vai conseguir isso. Mas se, por um lado, continuamos agnósticos a esse respeito, por outro, não podemos ter dúvida alguma quanto ao nosso dever. Nós somos enviados por Aquele que tem autoridade para fazê-lo a pregar o evangelho e fazer dis­cípulos. Dificilmente as pessoas vão dar atenção a alguém em quem não acreditam, ou acreditar em quem não ouvi­ram, ou ouvir, se ninguém tiver pregado a elas. É muito mais fácil as pessoas acreditarem depois de terem ouvido as boas novas de Cristo crucificado. Só quando elas ouvirem sobre a cruz e a misericórdia de Deus para com os pecadores que elas irão clamar: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” Como disse Paulo, “a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”.

Assim, pois, negar a unicidade de Cristo é extirpar o nervo da missão, tornando-a, supérflua. Afirmar sua unicidade, por sua vez, é reconhecer a necessidade de torná-lo universalmente conhecido.

PSICOLOGIA DA LIDERANÇA

Atenção e concentração

ATENÇÃO, CONCENTRAÇÃO!

Manter o foco no presente contribui para nos tornar mais equilibrados e saudáveis, tanto física quanto mentalmente. Estudos recentes demonstram que a técnica, embasada no conhecimento oriental milenar, também ajuda a fortalecer a memória, melhorar o humor e ainda aumenta a longevidade.

 Ao voltar para o estacionamento, você percebe que não se lembra onde deixou o carro. Quando chega ao final de uma página de um livro, sente um pequeno desapontamento porque parece que “sumiu” de sua cabeça o que acabou de ler. Em uma conversa, de repente percebe que não faz a menor ideia sobre o que a outra pessoa está falando ou o nome de um colega de trabalho lhe escapa.

Esses episódios revelam sintomas de uma mente distraída. Não é incomum pensarmos naquelas férias agradáveis que ti­ vemos enquanto lemos um relatório complicado ou revivermos a partida dolorosa de um amigo em vez de prestar atenção à estrada ou à conversa. Sejam lembranças do passado ou projeções do futuro, úteis ou incômodas, as consequências desses pensamentos que nos arrebatam são as mesmas: perdemos o presente, a experiência do momento – enquanto acontece.

É como se fôssemos “sequestrados” em uma viagem mental pelo tempo.

Diferentemente do que acontece quando sonhamos acordados de forma deliberada, a mente fica distraída, como se estivesse “fora da pista”. A maioria das pessoas passa metade do tempo nesse estado, segundo estudos com voluntários que relataram suas ações, seus sentimentos e pensamentos por meio de um smartphone ao longo de um dia. A divagação está relacionada ao humor depressivo. Pessoas consumidas pela ruminação de preocupações e medos tendem a sofrer de estresse psicológico crônico, um problema que afeta milhões ao redor do mundo. O foco difuso e instável também prejudica o desempenho nas mais variadas tarefas e, em alguns casos, as consequências da atenção e percepção desviadas em momentos que exigem decisões rápidas podem ser fatais.

Focar no agora, olhar com cuidado, evitar a distração. É disso que trata a prática de mindfulness ou atenção plena, por meio da qual é possível desenvolver e manter o comprometimento com o momento presente sem avaliações emocionais ou reações. Centenas de artigos científicos demonstram que essa técnica direcionada para se tornar mais consciente ajuda a reduzir o estresse psicológico, melhora a saúde física e mental e alivia depressão, ansiedade, solidão e dor crônica. Mais de 250 centros médicos pelo mundo já oferecem terapias com base na mindfulness para transtornos de humor e outros distúrbios.

BÁLSAMO PARA A TRISTEZA

Recentemente, estudos feitos em meu laboratório e em muitos outros centros de pesquisa revelam benefícios surpreendentes e comprovam que a prática ajuda a fortalecer a capacidade de atenção, favorecendo a habilidade de direcionar nossa vontade em meio ao mar de estimulação interna e externa e, ao mesmo tempo, permitindo maior consciência do que acontece no momento. Embora ainda sejam necessários mais estudos para comprovar se os resultados dos experimentos feitos com pequenos grupos podem ser ampliados para grande número de pessoas, o que sabemos é que a prática favorece a capacidade de nos relacionarmos conosco e com o mundo. E os dados indicam uma perspectiva animadora: aqueles que se concentram no aqui e no agora, sem julgamentos, tendem a ser mais felizes e saudáveis.

Por milênios, culturas orientais desenvolveram várias formas do que hoje chamamos de meditação mindfulness como forma de amenizar o enigma do sofrimento humano. Textos antigos detalham exercícios de treinamento precisos para cultivar a capacidade de focar na experiência perceptiva do momento, em vez de divagar. Desde então, pessoas que praticam a atenção plena relatam ter maior clareza mental, calma e, curiosamente, a maioria vive de forma saudável por muito tempo.

Uma ampla categoria de exercícios de atenção focada orienta as pessoas a se concentrar, prestando atenção, em primeiro lugar, à própria respiração. Os praticantes devem perceber quando a mente se perde e simplesmente atentar ao que se sente, sem se apegar a nenhum pensamento, apenas deixando que se vá. Nesse caso, a proposta é fazer algo aparentemente simples, mas poderoso: ater-se ao trajeto do ar durante a inspiração e a expiração.

Outras variações da atenção plena, como a atividade receptiva ou o treino de monitora­ mento aberto, ensinam os praticantes a prestar atenção ao que passa pela consciência o tempo todo. Imagine ouvir o som fraco de uma sirene do carro de bombeiros a distância. Torna-se mais alto quando o caminhão se aproxima e volta a diminuir à medida que o veículo passa. É possível notar que, inicialmente, a sirene faz parte de um vasto mar de sons. Depois, o ruído fica mais evidente, até que retorna ao segundo plano. Pensamentos, emoções e sensações em geral também podem aumentar e diminuir de acordo com um monitoramento vigilante. Muitos sábios, como o Buda Siddhartha Gautama, falaram sobre o treino constante nessas formas de meditação como um caminho para reforçar a atenção plena na vida diária.

No final da década de 70, a mindfulness começou a fazer parte das pesquisas médicas e psicológicas. Na época, o biólogo Jon Kabat­Zinn, da Escola Médica da Universidade de Massachusetts, desenvolveu um programa ambulatorial não vinculado a nenhuma religião, embora tenha base na filosofia budista, chamado Redução de Estresse com base em Mindfulness (MBSR, na sigla em inglês). O programa – com duração aproximada de duas semanas – enfatiza a capacidade de focar a atenção voluntariamente, estreitando nossos pensamentos para evitar distrações, e a habilidade de reconhecer e acompanhar pensamentos, sentimentos e sensações em curso (sem se prender a eles) -um fenômeno que os cientistas chamam de meta consciência. A ideia é impedir que a mente vague sem nosso consentimento e escape ao controle. Na última década, pesquisadores estabeleceram o MBSR e técnicas semelhantes como eficazes no tratamento de diversas doenças. Em 2011, o pesquisador Jacob Piet e o professor de psicologia Esben Hougaard, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, publicaram uma meta-análise (revisão quantitativa) de seis estudos, com 593 pacientes que receberam terapia cognitiva com base na mindfulness para prevenir recaídas de depressão. A técnica, desenvolvida pelo psicólogo Zindel Segai e seus colegas da Universidade de Toronto, foi elaborada depois da MBSR, mas enfatiza que pensamentos negativos desencadeadores de um episódio depressivo são eventos mentais momentâneos. Sua natureza transitória significa que podemos optar ou não por atendê-los.

Depois de receber a terapia cognitiva com base na atenção plena, os pacientes frequentemente relatam perceber que a experiência de tristeza varia de acordo com o momento e, ao longo do tempo, os pensamentos negativos perdem o efeito. De fato, Piet e Hougaard relataram que depois de receberem o treinamento mental pessoas que passaram por três ou mais episódios de depressão maior demonstraram taxas significativamente menores de recaída do que aquelas que tiveram tratamento usual ou placebo. Diversas formas da técnica ajudam a aliviar o sofrimento de distúrbios psicológicos como ansiedade, pânico e fobias.

Além disso, a técnica é usada para amenizar dores crônicas, uma vez que reduz a contribuição emocional, bastante significativa nessas situações, na medida em que diminui o estresse psicológico. De fato, um dos primeiros usos clínicos do MBSR foi para esse fim. Em 1985, Kabat-Zinn e seus colegas utilizaram a prática para desenvolver um programa de oito semanas de tratamento para 90 pacientes com dor crônica. Eles mediram nível de incômodo, humor negativo e ansiedade antes e depois do experimento.

Ao final, observaram reduções significativas nos sintomas, mas não encontraram mudanças benéficas em 21 pacientes que receberam tratamentos tradicionais, como bloqueio do nervo, fisioterapia e antidepressivos. Surpreendentemente, os ganhos do MBSR foram mantidos por até 15 meses. E, diante dos ganhos, muitos pacientes relataram continuar os exercícios por conta própria.

Dados recentes sugerem que a meditação mindfulness também pode controlar problemas psicológicos significativos, como burnout em profissionais da saúde e professores. Embora não reduza os fatores estressantes, ajuda a mudar a relação com o trabalho, renovando a curiosidade e principalmente a conexão com alunos e pacientes.

O sofrimento causado por estressares sociais, como a solidão em idosos, também pode diminuir com a prática da atenção plena.

Em 2012, o psicólogo J. David Creswell e seus colegas da Universidade Carnegie Mellonse lecionaram 40 voluntários de 55 a 85 anos para um experimento: metade foi submetida ao MBSR e o restante não recebeu tratamento. A equipe de Creswell observou que a solidão autor relatada, avaliada por meio de um questionário, caiu entre aqueles que praticaram MBSR, mas se manteve inalterada entre os outros. A sensação de isolamento não está diretamente relacionada ao número de contatos que uma pessoa mantém. Na verdade, programas para aumentar engajamento social entre os idosos não necessariamente ajudam a diminuir esse sentimento. atenção plena pode tornar a falta de proximidade com os outros menos angustiante na medida em que auxilia a pessoa a reconhecer que, apesar de estar sozinha, a solidão não a define.

Além disso, o estudo de Creswell demonstrou que a melhora psicológica foi acompanhada por mudanças na função imunológica. O programa ajudou a reduzir os níveis sanguíneos de proteínas inflamatórias, o que sugere que a técnica também tem potencial para diminuir o risco de doenças inflamatórias como lúpus, artrite e reumatismo em adultos mais velhos. Outros estudos indicam que a atenção plena alivia sintomas de doenças agravadas pelo estresse como psoríase, dermatite fibromialgia e doença do intestino irritável.

E mais: o foco no aqui e agora pode ser um indicador biológico de longevidade. Em um estudo publicado em 2012, a psicóloga Elissa S. Epel e seus colegas da Universidade da Califórnia em São Francisco observaram que pessoas com maior tendência a divagar mentalmente têm telômeros menores (estruturas de proteínas e DNA que formam as extremidades dos cromossomos) do que aquelas mais frequentemente ancoradas no presente. Telômeros mais curtos estão associados a menor tempo de vida para um organismo. Como resultado, os autores sugerem que “prestar atenção ao que acontece agora favorece um ambiente bioquímico saudável que, por sua vez, colabora para a longevidade celular”.

O QUE ACONTECE AO REDOR

Há quase 15 anos, na medida em que a atenção plena foi ganhando força como ferramenta de promoção de bem-estar e redução de estresse, comecei a considerar seus efeitos do ponto de vista cognitivo. Ainda em 2007, a neurociência cognitiva, meu campo de pesquisa, investigava o que acontece no cérebro de quem pratica mindfulness. Procurei então usar meus conhecimentos sobre as bases cerebrais da atenção para preencher algumas lacunas sobre o que sabíamos até então. Afinal, eram impressionantes os paralelos entre as teorias atuais de distintos sistemas cerebrais de apoio da atenção e relatos de textos antigos que descrevem práticas para cultivar com tranquilidade o foco e a abertura, aceitando os eventos à medida que acontecem.

O médico Michael Baime, da Universidade da Pensilvânia, e o psicólogo Jason Krompinger, agora na faculdade de medicina da Universidade Harvard, e eu investigamos essa relação. Submetemos 34 estudantes de medicina e de enfermagem a um teste de atenção visual. Eles deveriam detectar um alvo que aparecia em determinadas posições na tela de um computador. Vez ou outra eram informados onde e quando o objeto saltaria; às vezes sabiam somente o local; em outros momentos não recebiam nenhuma dica. Depois, metade dos voluntários praticou durante oito semanas exercícios mindfulness que exigiam concentração focada por 30 minutos diários. Quando refizeram o teste, esses últimos foram 5% mais rápidos quando sabiam onde e quando o alvo apareceria, o que indica melhor controle da atenção em comparação ao restante, que não demonstrou melhora. Os resultados forneceram os primeiros indícios de que estávamos na direção certa em relacionar o treinamento mental com a habilidade de orientar deliberadamente o foco.

Em outro experimento, testamos separadamente os efeitos da abordagem de monitoramento aberto e da prática receptiva. Recrutamos 17 pessoas com experiência no treinamento mental para participar de um retiro intensivo de mindfulness por um mês, além de outros exercícios que estimulam o foco. Ao final, os participantes estavam mais ágeis para detectar o alvo (como no experimento anterior), mesmo quando não recebiam nenhum aviso. Responderam 7% mais rápido do que outros grupos que praticaram exercícios de concentração comuns ou não participaram de nenhum treinamento, o que sugere que as abordagens testadas podem ajustar a falta de concentração, tornando-nos mais conscientes do que acontece ao redor. O estudo serviu como ponto de partida para vários outros grupos de pesquisa, que encontraram benefícios similares nesses dois tipos de exercícios de mindfulness.

PARA DIMINUIR A DOR

A prática da atenção plena pode favorecer a percepção tátil e a capacidade de prestar atenção a estímulos visuais. Em 2011, a psicóloga Catherine Kerr e seus colegas da Universidade Harvard selecionaram oito pessoas para um programa de oito semanas de MBSR, que exigia 45 minutos de prática diária. Os cientistas disparavam uma palavra na tela de um computador que denotava partes do corpo, como “pé” ou “mão”, que poderiam, em seguida, tornar-se mais luminosas, com toques de luz quase imperceptíveis. Enquanto isso, Catherine e seus colegas mediam sinais magnéticos contínuos entre 7 e 10 Hertz dos neurônios que representam a mão no córtex somatossensorial, uma região cerebral que registra as sensações de diversas partes do corpo. Os voluntários que participaram do programa demonstraram maior potencial de ação do que o restante na área cerebral relacionada à mão depois de visualizarem a palavra “mão” (em comparação quando viam “pé”), o que reflete aumento na disponibilidade de disparo neural, uma assinatura cerebral da atenção. Essa atividade antecipatória, antes que o termo se tornasse luminoso, sugere que o MBSR ajuda a regular a capacidade de gerar representações em alta resolução das mãos ou outras partes do corpo, aguçando a consciência corporal.

Os resultados ajudam a explicar como o MBSR pode aliviar o impacto psicológico da dor crônica. Se uma pessoa pode voluntariamente dirigir a atenção para partes específicas do corpo que experimenta o incômodo, pode também notar variações sutis nessas regiões, até o ponto em que a ideia de dor concentrada pode mudar para sensações que se alteram constantemente.

Mecanismos semelhantes relacionados à atenção podem estar em jogo quando se trata de estressores psicológicos e sociais. Nesses casos, o foco no presente e o monitoramento da tristeza ou solidão, por exemplo, podem ajudar a minimizar a importância percebida dessas formas de sofrimento.

Recentemente, meus colegas e eu relacionamos a atenção plena com clareza no foco e melhora do humor. Em um estudo publicado em 2010, testamos 51 fuzileiros navais dos Estados Unidos, dos quais 34 foram submetidos a exercícios de atenção focada desenvolvidos pela professora de estudos de segurança Elizabeth A. Stanley, da Universidade de Georgetown. Pedimos aos voluntários que tentassem recordar as letras que apareciam na tela de um computador, antes e depois de resolverem problemas simples de matemática. A tarefa avaliava memória de trabalho (capacidade de manter e utilizar informações selecionadas durante alguns segundos). A habilidade é como um quadro branco mental e trabalha lado a lado com a atenção: mantém informações necessárias sobre a “prancha” e elimina as distrações.

12MINUTOS!

Pessoas com maior capacidade de memória de trabalho (imagine um quadro maior) podem controlar melhor o humor e evitar que a mente se disperse. Infelizmente, esse recurso tende a diminuir em condições de estresse, como as situações enfrentadas pelos marinheiros durante o treinamento militar. De fato, descobrimos que os fuzileiros navais que não praticaram atenção plena demonstraram menor capacidade de memória de trabalho, maior tendência à dispersão e queda no humor ao final das oito semanas. Já aqueles que praticaram a meditação diariamente por 12 minutos ou mais mantiveram o foco, o humor estável e a capacidade de memória de trabalho. Quanto mais treinavam, melhor se safam. Os resultados estão alinhados com outros estudos que sugerem que controlar a atenção é a maneira mais eficaz de regular o humor.

Vários grupos de pesquisa apontam que esses ganhos no desempenho correspondem a mudanças manipuláveis nas estruturas e funções cerebrais. Diversas regiões do córtex parietal e pré-frontal (parte superior à frente da cabeça) dão suporte para a atenção seletiva voluntária e top-down (interesse em características complexas, de acordo com o conhecimento prévio). Enquanto isso, outras áreas dessas estruturas mais a ínsula formam uma rede que monitora o que acontece de forma bottom-up (foco de atenção em características primitivas, como descontinuidades de intensidade em diferentes escalas e orientações, computadas diretamente na imagem, sem qualquer informação contextual). Em 2012, a neurocientista Eileen Luders e seus colegas da Universidade da Califórnia em Los Angeles apontaram que determinadas regiões da rede bottom-up (principalmente a ínsula) eram mais intrincadas e com mais dobras em pessoas que praticavam mindfulness por 20 anos, em média, comparadas com outras que não faziam exercícios similares. É provável que as dobras adicionais indiquem comunicação mais eficiente entre os neurônios dessas regiões, o que pode sustentar melhor a atenção bottom-up. Certamente, os treinamentos mentais não atuam somente na atenção. Alguns estudos já mostram que a meditação de atenção plena altera e reforça diversas redes e processos neurais. Vários estudos sugerem que a técnica pode mudar a maneira como nos vemos, de um modo narrativo (em que o personagem central da história somos nós), para uma visão experimental (na qual podemos observar o desdobramento de pensamentos, sentimentos e sensações ao longo do tempo). O curioso é que essa atitude nos torna mais autônomos e menos reativos. Outras pesquisas indicam que alterações emocionais ou abrandamento de sintomas fisiológicos induzidos pelo estresse podem trazer benefícios psicológicos. Mas, por enquanto, ainda não é totalmente clara a relação da atenção com esses processos.

De qualquer forma, quaisquer que sejam os mecanismos envolvidos, o fato é que tornar-se mais consciente pode ajudar a lapidar consideravelmente o sofrimento humano. A meditação diária pode trazer benefícios similares à prática de exercícios físicos. Como um antídoto contra uma mente lenta e distraída, humor negativo e estresse, a atenção plena ajuda na construção de uma vida mais feliz, saudável e longa. Tanto estudantes quanto profissionais e atletas que querem aumentar o desempenho, bem como cuidadores que almejam ser mais atentos às necessidades dos outros, podem se beneficiar do treinamento mental. No caso de psicólogos, policiais, professores, enfermeiros, cirurgiões e controladores de tráfego aéreo a mindfulness pode ser essencial.

PARA CAPTURAR A ATENÇÃO

A meditação mindfulness, uma maneira de focar no presente sem julgamentos, tem benefícios comprovados para a saúde e felicidade. Praticá-la diariamente pode ajudar a assumir esse modo mental com mais frequência e facilidade ao longo do dia, sem grande esforço. Veja a seguir exercícios de 10 a 15 minutos projetados para reforçar o foco (restrição da atenção) e o monitoramento aberto (ampla consciência das sensações ao redor).

O que fazer:

> Sente-se em uma posição confortável, com a coluna ereta, de forma estável e descanse as mãos sobre as coxas ou, se preferir, una-as sobre o colo.

> Abaixe os olhos ou feche-os, o que lhe parecer melhor.

> Respire pelo nariz de forma natural, sem forçar o movimento.

> Atente a sua respiração seguindo o trajeto do ar em seu corpo. Apenas observe o ar

entrar nos pulmões e sair.

> Caso surjam outros pensamentos não se atenha a eles, deixe-os ir e volte a atenção à

inspiração e à expiração.

> Perceba as sensações em torno de sua barriga à medida que o ar flui.

> Após 5 ou 10 minutos, mude para o monitoramento. Imagine sua mente como um vasto

céu aberto e seus pensamentos, sentimentos e suas sensações como nuvens passageiras.

> Sinta todo o corpo mexer-se suavemente com sua respiração. Seja receptivo a suas

sensações, dê-se conta do que acontece no momento. Esteja atento para o que percebe: sons, aromas, a carícia de uma brisa, pensamentos, mas não se prenda a nada.

> Depois de aproximadamente cinco minutos, abra os olhos suavemente.

> Sentiu-se bem? Então repita, pois só a prática frequente o fará familiarizar-se com essas sensações.

SCOTT ROGERS, diretor de Programas e Treinamentos, Pesquisa e Prática Iniciativa de Mindfulness, da Universidade de Miami.

AMISHI P. JHA é doutora em imageamento cerebral, professora de psicologia da Universidade de Miami e diretora do Laboratório de Pesquisa em Mindfulness e Neurociência Contemplativa, da mesma instituição.

GESTÃO E CARREIRA

Aceite seus erros - gestão e inovação

ACEITE SEUS PRÓPRIOS ERROS

Qualquer manual básico de gestão ou de inovação mostra o erro como fator essencial na construção do conhecimento. Quando o erro gera frustração, ele tende a impulsionar as pessoas a encontrar novas formas de resolver seus problemas, permitindo a aprendizagem e o crescimento. Seja em empresas, em governos, na ciência ou nas relações pessoais.

O Brasil, apesar de seus relevantes índices de empreendedorismo (em geral, mais por necessidade do que por oportunidade) e de algumas boas iniciativas isoladas, ainda está longe de apresentar uma cultura de inovação e permissão ao erro. Provavelmente esse cerceamento começa na infância, quando a liberdade de expressão e a criatividade são trocadas por contextos rígidos e modelos previamente estabelecidos.

 Essas crianças crescem com medo de falhar e, quando adultas, se deparam com um ambiente competitivo e pouco saudável em que o importante é ganhar, ganhar e ganhar.

Aceitar o próprio erro e rever posições são atitudes que demonstram maturidade e humildade. É preciso um maior entendimento de que a postura positiva e de crescimento perante uma falha pode ser um fator importante para levar ao sucesso de uma organização, de uma equipe ou até mesmo de um país. Não é à toa que no Vale do Silício prevalece o mantra “fail often, fail fast” (fa-lhe sempre, falhe rápido), afinal a tolerância ao erro é parte de qualquer processo de inovação. Promover essa mudança de mentalidade não é fácil, mas há alguns caminhos. Um artigo publicado em outubro do ano passado pelo jornal The Wall Street Journal sobre esse tema (How not to Flunk a Failure, de John Danner e Mark Coopersmith) elencou algumas dicas para executivos aprenderem a valorizar os erros como parte do aprendizado. A primeira delas é sobre a aceitação do próprio erro. Outra sugere que o líder precisa aprender a fazer as perguntas certas em vez de apenas apontar o dedo quando algo dá errado. O que, onde, como e por que são questões que podem levar a um entendimento mais claro dos próximos passos e encorajar uma nova tentativa.

O ponto de que mais gosto no artigo é o que reforça o quanto a memória emocional de como o erro foi tratado implica o comportamento futuro dos indivíduos. Imagine um profissional em início de carreira que foi punido todas as vezes que tentou algo que não deu certo. Pode ter certeza que a chance de ele se tornar um profissional flexível e criativo no futuro é pequena. Os gestores precisam ter consciência disso se quiserem desenvolver suas equipes, estimular a inovação e gerar resultados sus- tentáveis para a empresa.

Para os profissionais de recursos humanos, fica a missão de apoiar seus executivos e ajudar a criar esse ambiente que estimula a troca, a geração de ideias e a não punição do erro.

VICKY BLOCK – *Psicóloga, sócia da Vicky Bloch Associados e professora dos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA.