O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

OS PASTORES DA IGREJA

Seria difícil pensar na vida, missão e renovação da igreja sem levar em conta os seus ministros ordenados. Afinal, o Novo Testamento deixa bem claro que sempre foi intenção de Deus ter alguma forma de episkope, isto é, su­pervisão pastoral. Além do mais, a situação da igreja em toda parte depende, em grande escala, da qualidade de ministério que ela recebe. Como disse Richard Baxter: “Se Deus pelo menos reformasse o ministério, fazendo cada um cumprir zelosa e fielmente os seus deveres, o povo certa­mente seria reformado. Todas as igrejas crescem ou caem na medida em que os seus ministros crescem ou caem, não em riquezas ou grandeza mundana, mas em conhecimento, zelo e habilidade para o seu trabalho.”

Hoje em dia, no entanto, há muita confusão quanto à natureza e a função dos ministros ordenados. O que é que eles são: sacerdotes, profetas, pastores, pregadores ou psicoterapeutas? São administradores, facilitadores ou assistentes sociais? Acho que ninguém expôs essa incerteza de maneira tão embaraçosa quanto David Hare em sua peça Racing Demon, que ganhou três Prêmios Olivier em 1990. Ela retrata quatro ministros anglicanos que integram uma equipe no sul de Londres, juntamente com os seus supervisores. Cada um tem uma ideia diferente quanto ao propósito do ministério ordenado. Para Lionel Espy, o gentil (e ineficaz) líder do grupo, “nosso trabalho consiste principalmente em aprender. Com gente comum e traba­lhadora. Nós deveríamos tentar compreendê-los e servi-los.” “Na verdade, na maioria dos casos, é só ouvir os acessos de raiva” e absorvê-la como um saco de pancadas.

Já Tony Ferris, o jovem pastor carismático, é totalmente o oposto, assustadoramente autoconfiante. “Eu tenho um poder incrível”, declara ele. Esse poder capacita-o a “es­palhar confiança” ao seu redor — só que ele o faz à custa de outras pessoas.

Os outros personagens são mais modestos em suas ex­pectativas. O bispo concentra-se na administração da Santa Ceia. “Afinal de contas, é para isso que estamos aqui. Nossa única obrigação, como sacerdotes, é montar um espetáculo.” Seu auxiliar, diplomata por excelência, vê como essência do seu trabalho “evitar que os problemas se transformem em questões”. Para outro pastor, que canta tenor, se embebeda e se considera “um cara feliz”, não existem complicações. “E tudo muito claro. Deus está aí. Na felicidade das pessoas.” O pastor homossexual é um pouco mais ambicioso. “Tem gente do jeito que é. E tem gente como poderia ser. A função do sacerdote é tentar aproximar os dois um pouquinho mais.” Já a jovem e sincera agnóstica vê o ministério como o “desperdício de um ser humano… sempre a sonhar.”

No entanto, essa perplexidade quanto ao papel do pastor não é nada recente. Há mais de um século, Mark Twain a expressou através de seu atraente personagem Huckleberry Finn. Huck disse a Joana que na igreja de seu tio Harvey, em Sheffield, havia “pelo menos dezessete” pastores, se bem que (acrescentou ele) “nem todos eles pregam no mesmo dia; só um deles.”

“Mas, então,” responde Joana, “o que é que os outros fazem?”

“Ora, não muito mais do que isso”, explica Huck. “Ficam por aí zanzando, passam o prato, fazem uma coisinha aqui, outra ali…, mas, a maioria das vezes, eles não fazem nada.”

“Mas, então”, exclama Joana, os olhos arregalados de espanto, “para que é que eles servem?!”

“Ora, só pra enfeitar”, replica Huck. “Será que você não sabe de nada?”

Na verdade, sempre houve opiniões divergentes quanto à importância do ministério ordenado. Certas pessoas, ao verem os pastores marginalizados pela sociedade secular e pelo estado, e ao descobrirem com alegria a visão de Paulo de que há um ministério para cada membro no corpo de Cristo, questionam se ainda é necessário haver ministros ordenados e se perguntam se a igreja não estaria em melhores condições sem eles.

Outros reagem de maneira diferente. Quer por razões teológicas ou pragmáticas, eles colocam o pastor em um pedestal, ou pelo menos aquiescem quando este se coloca ali. E aí, quando as rédeas do ministério vão parar intei­ramente em suas mãos, acontece o quase inevitável: ou a estafa do pastor, ou a frustração dos membros, ou então ambas as coisas.

No decorrer de toda a sua longa história, a igreja tem oscilado entre estes dois extremos: ou o clericalismo (do­minação do clero sobre os leigos) ou o anticlericalismo (desdém dos leigos pelo clero). O Novo Testamento, porém, nos adverte contra ambas as tendências. Aos coríntios que desenvolveram um culto a personalidades de diferentes apóstolos Paulo fez a seguinte advertência: “O que vocês pensam que nós somos, para nos tratarem com tanta de­ferência? Nós somos apenas servos, através de quem Deus agiu para que vocês chegassem a crer.” Já para outros, que consideravam os seus líderes com desdém, Paulo escreveu que eles os deveriam “acatar com apreço” e “ter com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam”. E acrescentou: “Fiel é a palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja.” Ou: “Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função” (NVI).

Voltemos agora à questão básica quanto à natureza e função do clero ordenado. Geralmente as igrejas dão apenas duas respostas, dependendo de como elas veem o ministério, se primordialmente relacionado a Deus ou à igreja. Por um lado, existe o modelo sacerdotal, no qual o ministério é exercido em relação a Deus e em favor do povo. Por outro lado, há o modelo pastoral, em que o ministério é exercido em relação ao povo em nome de Deus.

O modelo sacerdotal

A Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa consideram o seu clero como sacerdotes, especialmente no que concerne ao seu papel na eucaristia. As igrejas anglicanas e luteranas também têm por tradição chamar os seus ministros de “sacerdotes”, mas por uma razão diferente. O Concílio de Trento afirmou que, na missa, oferece-se a Deus um sa­crifício real e propiciatório, e que o sacerdote humano que o oferece representa o Cristo que oferece a si mesmo. E a essência deste ensino foi endossada no Concílio Vaticano II. Assim, aos sacerdotes é “dado o poder da Ordem sagrada de oferecer sacrifício…”. “Eles sacramentalmente ofere­cem o Sacrifício de Cristo de uma forma especial quando celebram a missa.” É verdade que se diz que, ao fazê-lo, eles estão representando o povo de Deus, assim como a Cristo. Mas ainda se concebe como essência do seu sacer­dócio o oferecimento do sacrifício eucarístico.

Os cristãos protestantes, que insistem em submeter todas as tradições eclesiásticas ao ensinamento da Escri­tura, não podem aceitar isso. Afinal, ainda permanece o fato incontestável de que o Novo Testamento nunca chama os líderes cristãos de “sacerdotes” e nunca se refere à eucaristia como um sacrifício oferecido por eles. A palavra hiereus (o sacerdote que sacrifica) ocorre muitas vezes no Novo Testamento. Há apenas uma referência a um sacer­dote pagão, e diversas aos sacerdotes judeus, nos Evan­gelhos, em Atos e em Hebreus. A palavra é aplicada também ao Senhor Jesus, nosso grande sumo sacerdote, que se ofereceu uma vez por todas como um sacrifício pelos pecados. E, em quarto lugar, ela denota os cristãos, que são “sacerdotes de Deus”. Este é “o sacerdócio de todos os crentes”, tão enfatizado pelos Reformadores. Coletivamente, nós somos um “sacerdócio” real e santo, que oferece “sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”. Se indagarmos que sacrifícios são esses, todos eles virão sob a rubrica geral do culto de adoração da igreja. Em particular, eles incluem nossos corpos, nossa oração, louvor e peni­tência, nossos dons e nossas boas obras, nossa vida colocada a serviço de Deus e nossa evangelização, através da qual nós apresentamos os nossos converti­dos como “oferta aceitável a Deus”. Estes oito sa­crifícios são oferecidos a Deus pela igreja toda em sua qualidade de sacerdócio santo. Mas a linguagem sacer­dotal não é usada nenhuma vez para um determinado grupo de líderes cristãos que possam corresponder aos sacerdotes da velha aliança.

Se lembrarmos que o sacerdócio levítico foi, durante séculos, o centro da vida e culto de Israel, e ainda o era no judaísmo palestínico nos dias de Jesus, o fato de os líderes cristãos nunca serem chamados ou comparados a sacerdotes deve ter sido deliberado. Charles Hodge, teólogo de Princeton no século XIX, fala convincentemente sobre isso:

Esbanjam-se com eles (se. ministros cristãos) todos os títulos de honra. São chamados de bispos de almas, pastores, mestres, líderes, governantes, servos ou mi­nistros de Deus; mordomos dos mistérios divinos; sen­tinelas, arautos — mas nunca de sacerdotes. Como os escritores sagrados eram judeus, para quem nada era mais familiar do que a palavra sacerdote, o fato de eles nunca terem usado uma única vez essa palavra, ou qualquer dos cognatos, com referência aos ministros do evangelho… é, no mínimo, um milagre. É um desses casos em que o silêncio da Escritura fala em alta voz.

Neste caso, convém perguntar de uma vez por que no século XVI certas igrejas da Reforma conservaram a palavra “sacerdote” para designar os seus ministros.

A resposta está ligada a uma questão de etimologia. A palavra inglesa priest (sacerdote) vem do termo presbyter (presbítero). Ela é, portanto, uma tradução do grego presbyteros (presbítero) e não de hiereus (sacerdote). Só empregaram a palavra priest porque seu significado não Linha contraindicação teológica e porque presbyter não era uma palavra muito conhecida pelo povo. Mesmo assim, há evidências de que os Reformadores tinham preferência pela palavra presbyter por não apresentar problemas de ambi­guidade. “Mesmo em questões de nomenclatura,” escreveu Norman Sykes, “havia bastante concordância entre eles”. Por exemplo, Calvino reclamou nas Institutas que os bispos romanos, quando ordenavam padres, não estavam consti­tuindo “presbíteros para dirigir e alimentar o povo, mas sacerdotes para oferecer sacrifícios”. Na Inglaterra, Richard Hooker, respondendo aos Puritanos que critica­vam o uso da palavra “priest” no livro de Oração Comum, expressou sua preferência pela palavra “presbyter” porque “na verdade a palavra presbyter parece mais apropriada e mais aceitável que a palavra priest, mais de acordo com o evangelho de Jesus Cristo.” O problema já existia no final do século XVI. Hoje são poucas as pessoas que sabem que priest é uma contração da palavra presbyter, e pouquíssimas conseguem fazer a ginástica mental de dizer uma coisa (priest) pensando em outra (presbyter). Por isso, por uma questão de clareza teológica e de fidelidade bíblica seria bom excluir o termo priest (sacerdote) do nosso vocabu­lário. Poderíamos seguir o bom costume das igrejas uni­das da Índia e Paquistão e nos referirmos aos três grupos de ministros ordenados como “bispos, presbíteros e diáconos”.

Mas nem todos os líderes protestantes estão dispostos a cortar assim o nó górdio. Em anos mais recentes, alguns têm envidado corajosos esforços não somente para reinstituir a palavra “sacerdote”, mas também para de­fender o caráter sacerdotal do ministério ordenado. Em­bora admitam plenamente que os ministros nunca sejam chamados de sacerdotes no Novo Testamento, nem foram chamados assim até Tertuliano (cerca de 200 d.C), eles ainda não estão dispostos a abrir mão, nem da palavra, nem do conceito.

A tentativa mais aclamada encontra-se em Batismo, Eucaristia e Ministério, geralmente referido como “docu­mento de Lima” e que se constitui no fruto de cinquenta anos de discussão ecuménica. Ele resume da seguinte maneira “a principal responsabilidade do ministério or­denado”: “Reunir e edificar o corpo de Cristo pela procla­mação   e ensino da Palavra de Deus, pela celebração dos sacramentos e orientando a vida da comunidade em seu culto, sua missão e seu ministério de compaixão”. O comentário acrescenta que estas tarefas não são levadas a efeito pelo ministério ordenado “de forma exclusiva” (já que os cristãos podem participar deles) mas, sim, “de uma forma representativa”. Além de nada haver de distintivo quanto a esses ministérios (o que poderia separar o clero dos leigos), poderíamos acrescentar, não há neles, tampouco, nada que seja necessariamente “sacerdotal”. Não obstante, o documento de Lima afirma mais adiante que os ministros ordenados “podem ser apropriadamente chamados de sacerdotes, pois eles cumprem um serviço sacerdotal especí­fico ao fortalecerem e edificarem o sacerdócio real e profético dos fiéis através da Palavra e dos sacramentos, através das mias orações e intercessão e ao orientarem pastoralmente a comunidade”. O comentário acrescenta que termos sacerdotais “sublinham o fato de que o ministério ordenado tem relação com a realidade sacerdotal de Jesus Cristo e de toda a comunidade”, se bem que o sacerdócio do ministério ordenado “difere em maneiras apropriadas” do sacerdócio de Cristo e da comunidade.

Eu confesso que essas declarações me assustam. Por que razão o fortalecimento do sacerdócio da comunidade de­veria ser ipso facto um “serviço sacerdotal”? E de que maneiras esse sacerdócio reivindicado pelo ministério or­denado difere do sacerdócio de Cristo e da comunidade? O texto não faz tentativa alguma de responder essas questões.

Em 1986, o “Grupo Consultivo Fé e Ordem”, da Igreja da Inglaterra, produziu um documento intitulado O Sa­cerdócio do Ministério Ordenado. “Não se discute”, con­fessam os seus autores, que hiereus é usado no Novo Testamento com referência ao sacerdócio de Cristo e ao sacerdócio de todo o povo de Deus, e “nunca com referência a um ministro cristão”. Só que a sua conclusão não é coerente com esse fato. Pelo contrário, afirmam que “o sacerdócio comum da comunidade e o sacerdócio especial do ministério ordenado são ambos derivados do sacerdócio de Cristo.” Não obstante, este último difere do primeiro no sentido de que o ministério sacerdotal dos ordenados “é um meio designado, através do qual Cristo torna pre­sente e efetivo o seu sacerdócio para o seu povo”.

Esta afirmação me leva a fazer o mesmo tipo de indagação que já fiz anteriormente: por que razão um ministério que torna o sacerdócio (e o sacrifício) de Cristo efetivo para o seu povo deveria ser ipso facto um ministério sacerdotal? E por que deveria um ministério que ajuda o povo de Deus a “levar a efeito o seu próprio caráter sacerdotal” ser chamado de “sacerdotal”?

Toda essa confusão, ao que me parece, deve-se, primeiro, à nossa falha em definir qual é (segundo as Escrituras) a essência do “sacerdócio”; e, segundo, a de lembrar que os sacerdotes do Antigo Testamento também eram pasto­res. Eles exerciam um papel duplo. Por um lado, como sacerdotes, tinham um ministério voltado para Deus: “Todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é cons­tituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos ho­mens…”. Nesta qualidade, era privilégio deles aproximar-se ou chegar perto de Deus, oferecer sacrifícios e fazer intercessão.

Por outro lado, como pastores, eles tinham um minis­tério para com o povo. Nessa qualidade, eles cuidavam do bem-estar do povo; ensinavam-lhes a lei; eles abençoavam o povo, isto é, buscavam ou pronunciavam a bênção de Deus sobre eles; e agiam como juízes e tomavam decisões. Agora, a partir da cruz, não se podem mais oferecer sacrifícios. E os privilégios remanescentes do sacerdócio para com Deus foram, através da obra de Cristo, herdados por todo o povo de Deus. Todos nós podemos nos aproximar de Deus e ter “intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus”. Todos nós somos convidados a oferecer “sacrifícios espirituais” no nosso culto. E todos nós devemos orar uns pelos outros. Agora nenhum desses ministérios pertence, como nos dias do Antigo Testamento, a uma casta privilegiada, ou seja, ao clero, isoladamente dos leigos. Poder-se-ia argumentar que a intercessão é um ministério que cabe particularmente ao clero. De fato, parece que era neste sentido que Michael Ramsey via como “sacerdotal” o ministério ordenado. “Nós somos chama­dos”, disse ele a um grupo de homens na véspera de sua ordenação, “perto de Jesus e com Jesus e em Jesus, para estar com Deus, com as pessoas em nosso coração. É isto que vocês irão prometer quando eu lhes perguntar: “Você será diligente em suas orações?” Vocês estarão prometendo estar diariamente com Deus, com as pessoas em seus co­rações.” Portanto, mesmo que esse ministério de inter­cessão possa ser uma responsabilidade especial do clero, ele não pode, no entanto, ser reivindicado como um tra­balho distintivamente “sacerdotal” e restrito ao clero.

Temos mais uma coisa a dizer quanto aos profetas dos dias do Antigo Testamento. Os sacerdotes e os profetas complementavam-se uns aos outros, já que que ambos os ministérios eram representativos, se bem que em sentidos contrários. Os sacerdotes representavam o povo de Deus, especialmente quando ofereciam sacrifícios; os profetas eram porta-vozes de Deus para o povo, especialmente ao pronunciarem oráculos. Não seria a essência do relacio­namento da nova aliança entre Deus e seu povo, entretanto, o fato de que agora esse duplo ministério de mediação é exercido unicamente por Jesus Cristo? E por intermédio dele que nós chegamos a Deus. É através dele que Deus fala conosco. Ele é o único sacerdote por cujo intermédio nós temos acesso a Deus, e o único profeta através de quem nós gozamos do conhecimento de Deus. Não precisamos mais de mediadores humanos.

O que se desenvolveu no clero nos dias do Novo Testa­mento foi muito mais o ministério pastoral dos sacerdotes do Antigo Testamento, sua responsabilidade de cuidar pelo bem-estar do povo de Deus e principalmente o seu papel de ensinar. Assim como no Antigo Testamento os sacer­dotes eram pastores, eu suponho que os pastores poderiam ser chamados de sacerdotes no Novo Testamento. Mas os deveres pastorais nada têm de distintivamente sacerdotal (a não ser, talvez, a intercessão). Aliás, como já vimos, nem Jesus nem os seus apóstolos jamais se referiram aos líderes pastorais como sacerdotes.

Eles indicaram, porém, que Deus quer que sua igreja tenha pastores. É verdade que as responsabilidades pas­torais de cuidar e ensinar cabem, até certo ponto, a todo o povo de Deus, já que somos chamados a “instruir-nos e aconselhar-nos mutuamente” e a “levar as cargas uns dos outros”. Não obstante, uma pressuposição muito clara no Novo Testamento é a de que cada igreja tenha um grupo de anciãos ou líderes, cuja principal tarefa é pastorear o rebanho de Deus, especialmente alimentando-o, ou seja, ensinando.

O modelo pastoral

Já que o conceito de “pastor” vem de pastor de ovelhas, refletindo uma imagem rural, tirada de um contexto es­tranho às comunidades urbanas de hoje, às vezes se tem sugerido que se encontre um termo mais adequado para referir-se aos líderes da igreja. Quem vive em apartamento, na cidade, empoleirado nas escarpas de suas paredes per­pendiculares de vidro e concreto, sabe muito pouco a respeito de ovelhas e pastores. Apesar disso, eu duvido que esta­ríamos prontos para nos livrar da imagem que Jesus traçou de si mesmo como “o bom pastor”, que veio buscar e salvar as ovelhas perdidas e dar a vida por nós, ou então para deixar de cantar os hinos populares que integram essa imagem, como “Jesus, Pastor amado” e “Um só rebanho, um só Pastor”.

Nós ouvimos que Jesus se compadeceu ao ver as mul­tidões, “porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor”. Ainda hoje, ver ovelhas sem pastor deve deixá-lo triste e preocupado. Afinal, ele mesmo é o pastor delas. Contudo, ele delega um pouco de sua respon­sabilidade a “subpastores”; “pastores e mestres” ainda estão entre os dons com os quais ele enriquece a sua igreja. Na verdade, todo ministério cristão é derivado de Cristo. O protótipo é o seu ministério. Ele é o verdadeiro servo, que “veio não para ser servido, mas para servir”. E agora ele nos convoca a servi-lo no caminho do serviço e a sermos servos dos outros por amor a ele.

Além disso, o que vale para o servo, vale igualmente para o pastor. Jesus chamou a si mesmo de “o bom pastor”. Em outras partes do Novo Testamento ele é chamado de “o Supremo Pastor”, “o grande Pastor das ovelhas” e “Pastor e Bispo das vossas almas”. Portanto, se os pastores são “subpastores”, então será sábio de nossa parte conhecer e imitar os passos do bom e grande pastor prin­cipal. Afinal, além de ensinar, ele foi também o exemplo de todos os princípios fundamentais do ministério pas­toral. Muito acertadamente, a leitura indicada para a cerimônia de ordenação na Igreja Anglicana é João 10.1-16, pois ali Jesus descreve a essência do seu próprio ministério e como deveria ser o nosso. O bom pastor, que modela o seu ministério pelo do Bom Pastor, tem pelo menos sete características.

Primeiro, o bom pastor conhece as suas ovelhas. Ele “chama pelos nomes as suas próprias ovelhas… Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai.” Naturalmente, o antigo pastor oriental era, em muitos aspectos, diferente dos pastores modernos em outras partes do mundo. A principal diferença consiste em se as ovelhas são destinadas para lã ou para corte. Já que hoje em dia a maioria delas é criada para o consumo, elas vivem por pouco tempo, não desenvolvendo, portanto, um rela­cionamento pessoal com o fazendeiro ou com o guardador de ovelhas. Na Palestina, porém, já que as ovelhas eram criadas para produzir lã, sendo tosquiadas de ano em ano, o pastor as mantinha sob seus cuidados durante muitos anos e entre eles se desenvolvia um relacionamento de confiança e intimidade. O pastor sabia até o nome de cada uma delas e as chamava pelo nome.

Era esta certamente a relação existente entre Jesus e seus discípulos. Ele conhecia pessoalmente as suas ove­lhas. Assim como no Antigo Testamento Javé chamava Abraão, Moisés, Samuel e outros pelo nome, assim Jesus conhecia e chamava as pessoas individualmente. Quando ele viu Natanael se aproximando e lhe disse: “Eis um verdadeiro israelita em quem não há dolo!”, Natanael perguntou-lhe, atónito: “Donde me conheces?” Mais adiante, Jesus chama Zaqueu pelo nome para que desça do sicômoro onde havia se escondido. E, após a sua ascensão, ele chamou Saulo de Tarso pelo nome, na estrada de Damasco. E mesmo que, ao nos convertermos, não tenha­mos escutado nenhuma voz audível, nós também podemos dizer que ele nos chamou pessoalmente.

Talvez a primeira característica (aliás, a mais básica) dos subpastores de Cristo seja o relacionamento pessoal que se deve desenvolver entre o pastor e as pessoas. Elas não são clientes nossos, nem nossos eleitores, pacientes ou fregueses. E muitos menos são meros nomes guardados em registro ou, pior ainda, números de um arquivo de computador. São indivíduos, pessoas que nós conhecemos e que nos conhecem. Além do mais, cada uma tem um nome próprio, símbolo de sua unicidade e identidade; portanto, todo pastor de verdade deveria tentar lembrar o nome delas. Anos atrás, eu tinha dificuldade de lembrar os nomes de duas senhoras idosas que vinham juntas a nossa igreja todo domingo. Assim, ao cumprimentá-las após os cultos, o máximo que eu conseguia era dirigir-me a elas como “vocês duas”. Aquilo acabou virando uma piada entre nós… Acontece que, justamente naquela época, havia considerá­vel publicidade em torno da derrubada, pela União Sovié­tica, do avião americano de vigilância “U2”. Imaginem o meu embaraço quando as duas senhoras em questão co­meçaram a assinar “U2” (cuja pronúncia, em inglês, é a mesma que “vocês duas”, “you two”)! “Saúda aos amigos, nome por nome”, escreveu João.

Que passos se podem tomar para superar uma memória fraca? Eu encontrei dois jeitinhos bastante úteis. Primeiro, é inútil perguntar às pessoas o nome delas sem que antes identifiquemos o seu rosto, pois daí a pouco teremos flu­tuando em volta de nossa mente numerosos nomes, sem nenhum rosto associado a eles. Nesta situação estaríamos seguindo o famoso W. A. Spooner, que, segundo se conta, abordou alguém em uma festa com as seguintes palavras: “Eu conheço tão bem o seu nome! Só não consigo me lembrar do seu rosto!” Ao invés disso, o mais sábio é memorizar primeiro o rosto; então se está pronto para descobrir o nome certo para associar a ele.

A segunda forma de lembrar o nome das pessoas é escrevendo-os e orando por eles. Quando Paulo disse aos tessalonicenses: “Damos sempre graças a Deus por todos vós, mencionando-os em nossas orações”, até parece que ele tinha algum tipo de lista. É, sem dúvida, o fato de mencionarmos regularmente o nome das pessoas em ora­ção que (com muito mais certeza e rapidez do que de outra maneira) fixa esses nomes em nossa mente e memória. Quer queiramos ou não, esquecer o nome de alguém é um sinal de nossa falta de oração como pastores.

Jesus indicou também que o seu relacionamento com o seu povo seria recíproco (“Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim”) e, ao mesmo tempo, íntimo (“assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai”). Havia em Jesus algo de transparentemente franco e sincero. Ele não tinha nada a esconder. Ele mesmo disse que uma marca de sua verdadeira amizade era o fato de ter-se dado a conhecer aos seus discípulos. Obviamente, isto não sig­nifica que os pastores precisam revelar todos os seus segredos à congregação; mas pelo menos eles deveriam estar dis­postos a dar o passo difícil e humilhante de abrir mão de um pouco de sua privacidade e de se deixar conhecer como seres humanos tão frágeis e vulneráveis quanto qualquer outra pessoa.

Ao mesmo tempo, em algumas culturas, dizer nome aos outros ou chamar as pessoas pelo nome   pode ser um ato de muita arrogância e até mesmo presunção, pois o nosso nome simboliza a nossa identidade pessoal e privada. Vincent Donovan descobriu isto quando foi trabalhar entre os masai, na Tanzânia. No começo, ele escreve, “eu agia muito naturalmente a partir do meu contexto americano, e não via nada de errado em dizer o meu nome e perguntar o nome deles.” Ele foi advertido, porém, de que os masai conside­ravam isso uma falta de educação. Em público e com estranhos, eles usavam títulos ou designações, e não nomes. Um dia um masai lhe disse: “Não fique jogando meu nome por aí. Meu nome é importante. Meu nome sou eu. Meu nome é para os meus amigos.” Assim, quando Vincent Donovan mudou-se para uma nova área, adotou o costume de não saber ou não revelar os nomes uns dos outros. Então, “depois de trabalhar entre eles por um longo período de tempo, e talvez como um presente de despedida para mim, um dos anciãos me disse o seu nome e eu lhe disse o meu. Eu me senti lisonjeado com a troca. ‘Meu nome é para meus amigos.’ “Eu acho que seria bom se no Ocidente também se cultivasse algo assim quanto às pessoas e seus nomes. Divulgar o nosso nome e descobrir o de outra pessoa não e algo que se faça assim à toa; afinal, fazê-lo é reivindicar uma intimidade de relacionamento que pode acontecer, porém, na família de Deus.

Em segundo lugar, o bom pastor serve as suas ovelhas. “Eu sou o bom pastor”, disse Jesus. “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas.” Ele se dedica ao bem-estar delas e toda a sua vida é dominada pelas necessidades delas. A principal reclamação de Deus contra os líderes de Israel era esta: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não apascentarão os pastores as ovelhas?”. Agora, ovelha não é exatamente um animal agradável. Nós alimentamos uma imagem muito romântica das ovelhas, como bichos fofinhos e peludos. Mas as ovelhas, em seu estado natural, não têm a mínima preocupação com sua limpeza e são afligidas por um monte de pestes nojentas. Daí a necessidade de enfiá-las várias vezes por ano em fortes soluções químicas. Outra coisa é que elas têm fama de serem obtusas. Portanto, para ser pastor de ovelhas, é preciso lidar com um bocado de sujeira e trabalho baixo. Outra coisa necessária é fortalecer as que são fracas, curar as doentes, atar as feridas das que estão machucadas e buscar as que se encontram extraviadas.

Jesus mesmo deu a vida pelas suas ovelhas. Não agiu como um empregado ou um mercenário, que faz o trabalho por dinheiro. Ele cuidou deles genuinamente, a ponto de morrer por elas. Seu grande amor se revelou em sacrifício e serviço, sacrificando a si mesmo para servir aos outros. É desse amor sacrificial, que serve, que os pastores precisam hoje, pois muitas vezes os seres humanos, assim como as ovelhas, podem ser “perversos e tolos”, desviando-se do caminho. Alguns são também exigentes e mal-agradecidos, sendo-nos difícil amá-los. Mas aí precisamos lem­brar que eles são rebanho de Deus, comprados com o sangue de Cristo e confiados a nossos cuidados pelo Espírito Santo. E se as três pessoas da Trindade estão comprometidas com o bem-estar dessas pessoas, por que nós não faríamos o mesmo? Precisamos ouvir as palavras de Cristo para nós assim como Richard Baxter as imaginou: “Eu morri por elas; e tu, por que não irias buscá-las? Elas foram dignas do meu sangue; por que não seriam dignas do teu trabalho? … Eu fiz e sofri tanto por sua salvação, e me dispus a fazer de ti um cooperador meu; e tu, por que te negas a fazer o pouquinho que está em tuas mãos?”

Em terceiro lugar, o bom pastor guia   as suas ovelhas. Eis aqui uma outra diferença entre as ovelhas orientais e as ocidentais. No Ocidente, os pastores raramente guiam as suas ovelhas (se é que o fazem alguma vez); eles vão atrás delas, dirigindo-as com o auxílio de cães pastores treinados. Já o pastor palestino, devido ao íntimo relacio­namento que mantém com suas ovelhas, consegue cami­nhar à frente delas, chamando-as, às vezes assobiando ou tocando uma flauta, e elas o seguem. Chua Wee Hian, ex-Secretário Geral da Comunidade Internacional de Estu­dantes Evangélicos (IFES), conta-nos, em seu livro Apren­dendo a Liderar, sobre um guia árabe que estava explicando essa tradição a alguns turistas, quando eles “enxergaram, à distância, um homem dirigindo um pequeno rebanho de ovelhas com uma vara bastante ameaçadora”. Mas, então, será que o guia estava enganado? “Ele imediatamente parou o ônibus e saiu correndo pelo campo. Poucos minutos depois ele retornava, com o rosto brilhando. ‘Acabo de falar com aquele homem. Senhoras e senhores, ele não é um pastor. Na verdade, ele é o açougueiro!”

A relação de Israel com Javé, e especialmente a passagem do povo pelo deserto, tem relação com o movimento das ovelhas que seguem o seu pastor: “Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu, que conduzes a José, como um rebanho.” O israelita temente a Deus via a Javé da mesma maneira: “O Senhor é meu pastor: nada me faltará… Leva-me para junto das águas de descanso…”. Assim, Jesus, o bom pastor, pegou essa mesma figura e a desenvolveu: “…as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelos nomes as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o neguem porque lhe reconhecem a voz.” A recíproca é verdadeira. Se o bom pastor conhece as ovelhas pelos nomes, elas, por sua vez, também conhecem a sua voz. Os ouvidos dos cristãos são sintonizados com a voz de Cristo. Nós desenvolvemos uma certa sensibilidade para com a sua mente e vontade. Pouco a pouco vamos descobrindo e sabendo, instintivamente, o que é que agrada ou desagrada a ele. E assim seguimos aonde ele nos guia e por onde ele nos chama.

Com os pastores cristãos acontece algo parecido. É nossa solene responsabilidade guiar as pessoas de tal forma que seja seguro para elas seguirem a nós. Ou seja: temos de ser para elas um exemplo coerente e confiável. Convém lembrarmos que Jesus introduziu no mundo um novo estilo de liderança, a saber, a liderança pelo serviço e pelo exem­plo, e não pela força. O apóstolo Pedro compreendeu isto e o ecoou em seus ensinos: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós… não como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho.” Com efeito, por bem ou por mal, quer gostemos ou não, as pessoas vão nos seguir. Dá até medo pensar em quanto muitas ovelhas são incapazes de discernir. É por isso que é essen­cial liderar bem, ser um bom exemplo, sem nenhuma dicotomia entre a nossa pregação e a nossa prática, a fim de que elas não se desviem por nossa causa.

Em quarto lugar, o bom pastor alimenta as suas ovelhas. “Eu sou a porta”, disse Jesus. “Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e achará pastagem.” A prin­cipal preocupação dos pastores sempre é que suas ovelhas tenham o suficiente para comer. Quer sejam ovelhas cria­das para lã, quer sejam de corte, a saúde delas depende de terem pastagem nutritiva. Assim, o próprio Jesus, na qualidade de bom pastor, foi sobretudo um mestre. Ele alimentou os seus discípulos com a boa comida da sua instrução.

Os pastores de hoje têm essa mesma tremenda respon­sabilidade. O ministro ordenado é essencialmente um mi­nistro da Palavra, entendidos os sacramentos como “pa­lavras visíveis” (como os chamava Agostinho), uma repre­sentação das promessas do evangelho. O pastor é, acima de tudo, um mestre. Esta é a razão para duas qualidades de um presbítero explicitadas nas Epístolas Pastorais. Primeiro, o candidato deve ser “apto para ensinar”. Segundo, ele deve ser “apegado à palavra fiel que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder, assim para exortar pelo reto ensino como para convencer os que a contradi­zem.” Estas duas qualificações andam juntas. O pastor deve ser fiel ao ensino apostólico (didache) e, ao mesmo tempo, ter o dom de ensiná-lo (didaktikos). E, quer estejam ensinando a uma multidão ou a uma congregação, a um grupo ou a um só indivíduo (Jesus mesmo ensinou nestes três contextos), o que distingue o seu trabalho pastoral é que este é sempre um ministério da Palavra.

Seja nas igrejas cansadas do Ocidente ou nas vibrantes igrejas de muitos países do Terceiro Mundo, nada é mais necessário, hoje, do que uma exposição fiel e sistemática da Escritura no púlpito. “Tu me amas?”, Jesus perguntou a Pedro. Então, “apascenta as minhas ovelhas”. E demais o número de congregações que estão enfermas e até mesmo morrendo de fome por falta do “alimento sólido” da Palavra de Deus. Na verdade, o objetivo supremo de nosso ministério pastoral é duplo: “apresentar todo homem per­feito (ou melhor, ‘maduro’) em Cristo” e “aperfeiçoar os santos para o desempenho do seu serviço” (ou melhor, ‘para a sua obra de ministério’)”. Seria difícil imaginar uma ambição mais nobre do que, pelo nosso ministério do ensino, guiar o povo de Deus, tanto à maturidade quanto ao mi­nistério.

Mas, então, como é que os pastores alimentam as suas ovelhas? Estritamente falando, eles não fazem absoluta­mente nada. Para falar a verdade, quando uma ovelhinha recém-nascida está doente, pode ser que o pastor a tome nos braços e a trate com mamadeira. Mas normalmente o que o pastor faz é guiar o seu rebanho até “bons pastos” ou “boa pastagem”, onde elas possam pastar e assim alimentar-se sozinhas. Acho razoável considerarmos isto uma parábola de uma boa educação pastoral. Dar comida na boca ou alimentar com mamadeira é coisa para bebês em Cristo. Só ensinando-os a se alimentarem nos pastos é que os conduziremos à maturidade em Cristo. Quando o pregador abre a Escritura, ele convida as pessoas a se aproximarem dela, a fim de que possam alimentar-se de sua rica pastagem.

Em quinto lugar, o bom pastor controla as suas ovelhas, admitindo que tem sobre elas uma certa autoridade. Eu sou tentado a omitir esta dimensão; mas fazê-lo seria falta de integridade. Leslie Newbigin, em seu livro O Bom Pastor, está certo ao reclamar que “a figura do bom pastor tem sido sentimentalizada”. Em grego clássico, o rei era conhecido como “o pastor” de seu povo; essa analogia do rei-pastor ocorre com bastante frequência no Antigo Tes­tamento. Por exemplo, o povo lembrou a Davi de como Deus lhe havia dito: “Tu apascentarás o meu povo de Israel, e serás chefe sobre Israel”. Mais tarde, o verbo grego poimaino, que significa “pastorear um rebanho”, passou a significar domínio rígido: “Com vara de ferro a regerás (LXX poimaino). Claramente, nós não temos liberdade alguma, nem para deduzir a partir disso que os pastores de igrejas precisem ser burocratas, nem para justificar o conceito medieval do bispo-príncipe. De jeito nenhum. Termos relativos à realeza (“palácios”, “tronos” e “rei­nos”) são inteiramente inadequados se aplicados ao bispo-presbítero da Bíblia. Não obstante, juntamente com a ênfase neotestamentaria sobre o serviço humilde dos presbíteros existem também alusões ao seu papel de liderança, ao fato de “presidirem” uma igreja local “no Senhor” e à neces­sidade de se “obedecer” a eles e “submeter-se” a eles, se bem que a sua autoridade deva ser exercida através do seu ministério da Palavra e do seu exemplo. E diversas passagens do Novo Testamento deixam muito claro que, se for necessário exercer disciplina, isto deve ser feito coletivamente, através da congregação local, e não através de um único pastor.

Em sexto lugar, o bom pastor guarda as suas ovelhas. O maior inimigo das ovelhas na antiga Palestina era o lobo, selvagem e predatório, quer viesse como caçador solitário, quer fosse em bandos. Contra ele as ovelhas eram indefesas. Se o pastor era apenas um mercenário, pago por seus serviços, ao ver a aproximação do lobo ele abandonava as ovelhas e fugia, deixando o lobo atacar e dispersar o re­banho. Somente um bom pastor iria ficar, arriscando a própria vida para defender e recuperar as suas ovelhas.

Interpretar a alegoria de Jesus não é nada difícil. “Acautelai-vos dos falsos profetas”, disse ele em outro lugar. Eles “se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores.” Se as ovelhas são o povo de Deus e os guardadores são os seus fiéis pastores, então os lobos são os falsos mestres e os mercenários são pastores infiéis, que nada fazem para proteger o povo de Deus de erros. Infelizmente, ainda hoje existem lobos no rebanho de Cristo, enganadores que negam certos fundamentos da fé cristã histórica. Quem é pastor de verdade não se comporta como mercenário, fugindo do perigo. Ele enfrenta os lobos. E uma tarefa penosa. Afinal de contas, um pastor de ovelhas não espanta os lobos simplesmente com um tiro ou ges­ticulando para expulsá-los. Ele tem que partir para cima deles e enfrentá-los, como o jovem Davi fez com o leão e o urso. O pastor da igreja, de igual maneira, precisa enfrentar a dor e o perigo de combater de perto os falsos mestres. Não bastam denúncias vagas. Pelo contrário, necessitamos estudar sua literatura, ouvir o que eles ensinam e combater as questões que eles levantam, a fim de rebater com eficiência os seus argumentos em nosso ensinamento.

Mas, se este é um ministério arriscado, ele é também um ministério necessário e compassivo. Nós nunca deve­ríamos apreciar a controvérsia. Ela não pode passar, para nós, de um dever de desagradável sabor. A única razão para nos envolvermos nele é a nossa compaixão pelas ovelhas. O mercenário foge porque “não tem cuidado com as ove­lhas”. Somente o fato de preocupar-se com as ovelhas e de se importar profundamente com o bem-estar do povo a quem ele serve é que leva um bom pastor a buscar graça e coragem para enfrentar os desvios na igreja. Ovelha sem pastor é uma presa fácil para os lobos. Por que deixar que digam sobre o rebanho de Deus hoje que “se espalharam por não haver pastor, e se tornaram pasto para todas as feras do campo”? Pelo contrário, se nós realmente nos preocupamos com eles, seremos vigilantes e “guardaremos os nossos rebanhos”, como aqueles pastores nos campos perto de Belém. Na verdade, às vezes se diz que sempre devemos ser positivos em nosso ensino, nunca negativos. Mas não é bem assim. O próprio Jesus se opôs aos falsos mestres. E o dever de um pastor não consiste apenas em ensinar “a sã doutrina”, mas também em “convencer os que contradizem”. Alimentar as ovelhas e afugentar os lobos não podem ser tarefas isoladas uma da outra.

Em sétimo lugar, o bom pastor busca as suas ovelhas. “Ainda tenho outras ovelhas”, disse Jesus, “não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então haverá um rebanho e um pastor.” Esta alusão às “outras ovelhas” deixa claro que Jesus estava se referindo aos gentios. Mas ele também disse “Eu tenho” e “a mim me convém conduzi-las”. Essa mesma segurança nós precisamos ter ao evangelizarmos. Onde quer que vivamos ou trabalhemos, devemos estar certos de que ali se encontram algumas das “outras ovelhas” de Cristo, que elas já lhe pertencem no propósito de Deus e que ele está decidido a ir buscá-las e conduzi-las ao rebanho.

Esta tarefa de ir em busca daqueles que estão alienados e perdidos é uma parte essencial do ministério pastoral, se bem que ela seja muito mais entregue aos membros leigos da igreja que vivem e trabalham entre aqueles. É verdade que nós costumamos estabelecer uma distinção entre “evangelistas”, que buscam ovelhas perdidas, e “pastores”, que nutrem aquelas que foram achadas. No entanto, estes são ministérios que se sobrepõem. Se Jesus, o bom pastor, não somente alimenta as ovelhas que se encontram no rebanho, como também busca aquelas que estão distantes, seus subpastores e imitadores devem fazer o mesmo. Na cerimônia de ordenação da Igreja Anglicana o dirigente exorta os candidatos a que vão “buscar as ovelhas de Cristo que se encontram dispersas… a fim de que sejam salvas por Cristo para sempre”. Se nós nos evadíssemos dessa responsabilidade, Deus haveria de queixar-se mais uma vez: “Minhas ovelhas… andam espalhadas por toda a terra, sem haver quem as procure, ou quem as busque”. E o próprio Jesus haveria de nos dizer: “Eu desci do céu à terra para buscar e salvar o que se havia perdido. E tu, por que não vais ao teu vizinho ou à rua ou vila mais próxima para buscá-los?” Mas se, pelo contrário, nós sairmos em busca das pessoas, haveremos de participar do regozijo celestial “por um pecador que se arrepende”.

Eis aqui, portanto, a belíssima ideia de ministério pas­toral retratada por Jesus. Onde quer que haja ovelhas, sejam elas perdidas ou achadas, existe a necessidade de pastores que vão buscá-las e pastoreá-las. Seguindo o exem­plo do próprio bom pastor, os pastores humanos irão esforçar-se por conhecer e servir, guiar, alimentar e governar as ovelhas do rebanho de Cristo, protegê-las dos lobos saqueadores e buscá-las quando se extraviarem. E depois, por menor que seja o reconhecimento, apreciação ou honra que eles recebam (ou que gostariam de ter recebido) aqui na terra, eles hão de receber do Supremo Pastor, quando este se manifestar, “a inacessível coroa da glória”.

O ideal de pastor exemplificado em Jesus, o bom pastor, e que ele gostaria que os líderes imitassem, precisa ser com­plementado por dois outros modelos que eles os advertiu a que evitassem. Primeiro, disse ele, são os governantes seculares que “têm sob seu domínio” o povo e “exercem autoridade” sobre ele. “Mas entre vós não é assim”, enfatizou a seguir. Na sua nova comunidade, a liderança deveria ser completamente diferente da liderança no mundo. “Pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva.” Como diz T. W. Manson, “no reino de Deus o serviço não é um degrau para a grandeza; ele é grandeza — o único tipo de grandeza que é reconhe­cido.” Em segundo lugar, Jesus exortou seus discípulos a que não imitassem os fariseus. Estes apreciavam os lugares de honra (nos banquetes e nas sinagogas) e os títulos de honra, pois estes eram sinais do respeito prestado pelo povo. “Não façam como eles”, Jesus disse. Os líderes cristãos não devem ser chamados de “Rabi” (professor), “Pai” ou “Mestre”. Isto é, não devemos adotar em relação a qualquer ser humano na igreja, nem permitir que outros o façam em relação a nós, uma atitude de dependência e desamparo, como a de uma criança para com seu pai, nem de obediência servil, como a de um escravo para com o seu senhor, nem de aquiescência sem questionamentos, como a de um aluno para com seu professor. Segundo Jesus, isto seria usurpar as prerrogativas da Santa Trindade (Deus, nosso Pai, Jesus, nosso Mestre, e o Espírito Santo, nosso ensinador), como também romper o relacionamento entre irmãos e irmãs dentro da família cristã.

Temos aqui dois diferentes modelos contemporâneos de liderança — um secular (os governadores) e o outro reli­gioso (os fariseus) — que, não obstante, compartilhavam a mesma característica básica, a sede de poder e prestígio. Hoje, o modelo mais parecido que temos a imitar é o da gerência de negócios. Este também, apesar de alguns pa­ralelos aceitáveis, geralmente é mais mundano do que cristão. Com o crescente declínio do status dos pastores na sociedade, nós precisamos cuidar para não procurarmos compensar este fato buscando mais poder e mais honra na igreja. A marca essencial da liderança cristã é a humildade, não a autoridade; serviço e não senhorio; e também “a mansidão e benignidade de Cristo”.

A última palavra, quero deixá-la com Chuck Colson, que provou pessoalmente, antes de converter-se a Cristo, o intoxicador vinho do poder: “A sedução do poder pode separar o mais decidido dos cristãos da verdadeira natureza da liderança cristã, que é servir aos outros. É difícil colocar-se num pedestal e lavar os pés de quem está embaixo.” E ele acrescenta: “Nada distingue mais os reinos do homem do reino de Deus do que as suas visões diametralmente opostas quanto ao exercício do poder. Um, procura controlar as pessoas, o outro, busca servir a elas; um promove o ego, o outro abate o ego; um busca prestígio e posição, o outro eleva o humilde e o desprezado.”

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Complexo de Turner

COMPLEXO DE TURNER

O Depressivo se coloca em lugar de terceiro entre a vida e o mundo, de maneira homóloga a um pintor formalista ou monocromático – onde há forma, falta cor.

Depois de atender pacientes depressivos, clínicos e sub clínicos, crônicos e agudos, narcísicos ou enlutados, desenvolvi uma espécie de teoria intuitiva que me ajuda a ver, de quando em quando, se algum progresso foi realizado. No sofrimento destas pessoas o mundo fica cinza, a vida fica meio sem graça e meio sem gosto. Mas há sempre certa atitude filosófica, que olha para o mundo e para a vida, de um lugar terceiro, difícil de discernir. Nos últimos tempos passei a levar menos a sério a teoria aristotélica do sentido dos humores (os líquidos do corpo) e mais em conta o fato de que até para ele tratava-se de uma cor, uma patologia da bílis negra. Este lugar terceiro entre a vida e o mundo, no qual o depressivo se coloca, é homólogo ao lugar do pintor. Um pintor monocromático ou formalista. O pintor depressivo está obcecado por um modo de ver o mundo, separando dois problemas clássicos da representação visual: a forma e a cor. Ali onde a vida tem forma, o mundo não lhe garante cor. E ali onde a vida tem cor, não se discerne sua forma no mundo. Por isso meus três tipos depressivos não são a distimia, o transtorno depressivo maior ou a bipolaridade, mas os que vivem uma espécie de dissolução das cores, os que se apaixonam pelo reino das formas e os que se evadem para o mundo das texturas.

Minha especulação encontrou algum reforço empírico diante da recente exposição do pintor romântico inglês William Turner (1775-1851), no Tate Britain de Londres. Pintando por encomenda para as exposições anuais da Academia ele pôde negociar com seu público a gradual exclusão da forma retrato com a subsequente introdução de grandes volumes de cor, em representações majestosas e cativantes do céu, do mar, dos reflexos do céu no mar, das tempestades, do sol poente, das avalanches de neve junto com seu tema depressivo maior: o naufrágio. Tendo levado uma vida de raro reconhecimento, Turner chegou à velhice afetado por estados confusionais, provavelmente gerados por anos de acúmulo de chumbo, presente nas tintas que usava em seu ofício. Esta é também a origem da alusão de Lewis Caroll, em Alice no País das Maravilhas, ao Chapeleiro Louco (os que faziam chapéus tinham de lidar com o chumbo usado nas abas dos chapéus, e assim terminavam “loucos”). Para diminuir os efeitos do chumbo, Turner ingeria doses cavalares de cherry todo dia, tornando-se assim, mais provavelmente, alcóolatra. Devemos acrescentar ao problema do “último Turner”, foco da exposição (O Último Turner), o fato de que ele tinha um tipo específico de catarata, que o fazia perceber com maior dificuldade certos tons de amarelo, que realmente se tornam inigualavelmente vivos e impressionantes em seus derradeiros trabalhos. Turner tinha um método de produção baseado em sucessivas retomadas de uma mesma tela, legando ao final mais de uma centena de trabalhos em seu estúdio. Isso colocou um problema para os críticos: seriam estas obras inacabadas, que não couberam no tempo de uma vida, ou então são trabalhos que, de modo visionário, antecipa-se ao próprio tempo, radicalizando a tendência da obra à decomposição entre forma e cor, tal como se verá na arte vindoura? O “complexo de Turner” mostra como é possível, ao mesmo tempo, dissolver as formas e as cores tornando a luz o próprio objeto do olhar. Talvez essa seja a essência da experiência depressiva: inacabamento e antecipação, percepção demasiadamente perfeita e ilusão. Catarata mental. Se queremos entender com mais precisão a experiência depressiva precisamos rever nossa teoria da formação do eu, cuja metáfora é a de Narciso, introduzindo no seu interior o problema da integração entre forma e cor na determinação da imagem.

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER, psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

GESTÃO E CARREIRA

A banalização do coaching

A BANALIZAÇÃO DO COACHING

O Ex-presidente da ICF no Brasil, Jorge Oliveira, critica o uso indiscriminado do coaching, alfineta os coaches por oportunidade e revela as tendências nesse mercado.

 Um setor que não para de crescer. Entre sérios e oportunistas, o universo do coaching já soma mais de 40 000 profissionais (embora esse não seja o termo correto, já que não existe uma profissão regulamentada no setor) no mundo todo. Os Estados Unidos representam a maior fatia, onde a atividade já movimenta mais 2,5 bilhões de dólares por ano. Embora mais tímido, o crescimento no Brasil é bastante acelerado. Estima-se que entre 2010 e 2014 houve um aumento de 300% no número de coaches ativos no país. A explosão tem um lado negativo. À medida que aumenta o número de pessoas atuando como coaches, aumenta também a confusão sobre sua aplicabilidade. Hoje, dependendo de quem vende o serviço, o coaching pode “resolver” um pouco de tudo. E aí é que mora o perigo. Ex-presidente da International Coach Federation (ICF) no Brasil, a maior associação global de coaches, presente em 140 países, o gaúcho Jorge Oliveira faz uma análise desse fenômeno, critica sua banalização e alerta para o problema da ansiedade das empresas e da falta de formação dos coaches. “Quanto menos formação você tem, mais mágico você se acha”, diz. Com um currículo de peso, que inclui duas graduações, duas pós e diversos cursos, Oliveira investiu só no ano passado 40 000 reais na própria formação. Como coach de executivos atuou mais de 2 500 horas e hoje coordena o Programa de Formação de Coaches do Eco- Social. Numa conversa franca, ele falou sobre o tema e traçou tendências nesse mercado. Confira a seguir.

Como o coaching se tornou essa febre que é hoje?

No começo dos anos 2000, já existia no Brasil uma demanda bastante grande para coaches atuarem em processos. O coaching era usado como apoio ao processo de desenvolvimento das pessoas efetivamente. Foi quando ele deixou de ser visto como algo que “conserta” as pessoas que têm problemas para se tornar algo que pode ser usado para desenvolver o potencial dos profissionais. Nesse meio do caminho, algumas empresas entenderam que o coaching poderia ir além e entrar na cultura organizacional. Surge aí uma série de coisas diferentes, como o conceito de líder coach. Acredito que é nesse ponto que começamos a banalizar o conceito, pois começam a pedir para o coach coisas que não são de sua responsabilidade.

Que tipo de coisas?

O coaching virou remédio para tudo. Com isso, a gente perde efetivamente sua contribuição. Há uma série de possibilidades de intervenções nas empresas, como mentoring e outros tipos de treinamento, mas como o coaching é mais abrangente começa a existir uma confusão. Tem gente que é contratada para fazer coaching e faz mentoring.

Essa confusão acontece apenas no Brasil?

Essa confusão existe no mundo todo. Se for pesquisar nos EUA sobre mentoring e coaching há definições exatamente iguais. Nos EUA, eles investem um tempo enorme em tentar fazer essas diferenciações, porque lá é muito séria essa questão do coaching x terapia. Não acho que esse seja o cerne da questão aqui.

Por que chegamos a esse ponto de banalização do coaching?

Primeiro porque coaching realmente funciona e faz a diferença. Quando é bem-sucedido, muda o clima da empresa, e muita gente começou a achar isso mágico. Mas isso demora, leva tempo e as organizações passaram a querer tudo muito rápido. E sempre vai ter gente na outra ponta que acha que pode fazer em cinco, quatro meses. Quanto menos formação você tem, mais mágico você se acha. O processo, nesse caso, pode até causar mudanças fantásticas, mas não se sustenta. Segundo porque que quem olha de fora e vê quanto um coach recebe por hora acha isso um ótimo negócio. O pensamento é lógico: sou executivo, vou para o mercado e viro coach. O que as pessoas não olham é o tempo que você deve investir na preparação.

Qualquer um pode ser coach?

No início, eu achava que qualquer pessoa com vontade e vivência organizacional poderia ser coach. Hoje, depois de treinar por dez anos, digo que tem pessoas que não podem ser coaches. Há quem pode ser um bom consultor ou bom mentor, mas não consegue ser um bom coach.

Quem normalmente tem dificuldade em ser coach?

Quem tem verdades muito estabelecidas. No processo de coaching, você precisa estar inteiro, a serviço do cliente e conseguir se sensibilizar. Do contrário, você fica preso nos seus parâmetros. Quando parto de uma posição que eu já sei antes, tendo a conduzir o processo, e isso não é legal. Essa postura é mais fácil de encontrar em pessoas que tiveram cargos mais altos. Os que não tiveram cargos tão pesados muitas vezes têm mais facilidade, mais abertura e menos amarras. Conseguem se conectar mais. O problema é que o mercado ainda contrata você pelo seu passado, pelo que você foi, e não pelo coach que você é.

Podemos dizer que parte dessa responsabilidade na contratação é do próprio RH?

Sem dúvida. Primeiro porque muitos contratam amigos que estão no mercado. Segundo porque o próprio RH também não tem muito claro o que é coaching, no que o coaching pode contribuir e como o coach se forma. Existe uma confusão de informação generalizada e o RH não escapa disso. Existem, por exemplo, cursos de formação de coach, mas que, na verdade, formam líder coach ou coach interno.

O que você acha desses dois conceitos, do líder coach e do coach interno?

Não gosto desses conceitos. Coaching é um estilo de liderança, que você pode usar dependendo da situação. Ser líder coach pressupõe que o tempo todo tem que ser líder a partir dessa habilidade e, na prática, não funciona assim. Às vezes você precisa ser democrático, outras vezes diretivo. As pessoas têm muito medo de falar sobre essas coisas. O líder coach parece o bonzinho, né? Líder diretivo não é bom. Essa história de líder coach é coisa para vender em treinamento. Já o coaching interno é um conceito perigoso, pois se você é funcionário tem que tomar cuidado com questões confidenciais. Não sou contra, mas já vivi muito e sei como isso é complicado. E tem também a questão da dedicação. Para ser um bom coach, você precisa dedicar horas do seu tempo com a pessoa. Mas, se você é funcionário da empresa, no final das contas ela não vai querer que você deixe de fazer o seu trabalho para fazer “apenas” coaching. Por isso, não acho que funciona.

Como contratar um bom coach?

Fazendo as perguntas adequadas, que são simples: qual a formação dessa pessoa, qual metodologia ela usa, quantas horas tem de experiência. Isso tudo é fundamental. Não pode ser alguém apenas teórico nem alguém apenas prático. Pergunte quanto essa pessoa investe por ano na própria formação e se ela faz supervisão (quando você reflete sobre sua prática com um profissional mais experiente). Isso vai ajudá-lo a entender por que tem coach que cobra 60 reais a hora e outro que cobra 1 500 reais. Pergunte qual o foco desse coach. Ele é coach e também é consultor de informática?

Teremos uma nova onda em coaching?

Acho que o mercado fica cada vez mais pulverizado. Infelizmente, em vez de programas organizacionais que mexem com a cultura, percebemos cada vez mais demandas isoladas das empresas, o que para mim volta um pouco ao início. Mas tem algo que deve explodir por aqui que é o life coaching. Nos Estados Unidos, isso já é muito forte. Lá, a maioria dos 20 000 coaches da ICF já atua como life coaches.

O que é o life coaching?

É quando você lida com problemas da vida diária. É um conceito muito próximo da terapia. A diferença é que o terapeuta vai lidar num nível mais profundo e mais abrangente. Vai querer desatar os nós. O life coach vai lidar com questões mais específicas. É algo mais circunstancial, definido e delimitado. Um comportamento mais claro e mais operacional. Mas não deixa de estar muito próximo da terapia.