ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 21-26

 Continuação do Sermão da Montanha

Tendo apresentado estes princípios, de que Moisés e os profetas ainda seriam os legisladores do povo, mas que os escribas e os fariseus já não mais seriam os seus governantes, Jesus passa a explicar a lei em alguns exemplos em particular, e a defendê-la das observações corruptas que aqueles intérpretes tinham colocado sobre ela. Ele não acrescenta nada novo, somente limita e restringe algumas permissões que tinham sido excessivas; e, quanto aos preceitos, mostra a amplitude, a severidade e a natureza espiritual deles, acrescentando estatutos explicativos para torná-los mais claros e tendendo mais ao aperfeiçoamento da nossa obediência a eles. Nestes versículos, Ele explica a lei do sexto mandamento, de acordo com a verdadeira intenção e a sua abrangência completa.

I – Aqui está apresentado o mandamento (v. 21). Nós o ouvimos, e o recordamos. Ele fala àqueles que conhecem a lei, que tiveram as palavras de Moisés lidas nas suas sinagogas todos os sábados: “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, ou como está na observação à margem de algumas versões, “aos seus antepassados”, os judeus; “Não matarás”. Observe que as leis de Deus não são leis novas e surgidas do nada, mas tinham sido entregues aos antigos; são leis antigas, mas de uma natureza que nunca fica antiquada nem obsoleta. A lei moral está de acordo com a lei da natureza, com as leis e razões eternas do bem e do mal, isto é, a retidão da Mente eterna, a Mente de Deus. Matar aqui é proibido, matar a nós mesmos, matar a qualquer pessoa, direta ou indiretamente, ou de qualquer maneira ajudar a fazê-lo. Alei de Deus, o Deus da vida, é uma cerca de proteção ao redor da nossa vida. Este foi um dos preceitos de Noé (Genesis 9.5,6).

II – A explicação deste mandamento sobre o qual os professores judeus discutiam. O seu comentário era: ”Aquele que matar, correrá o risco do julgamento”. Isto era tudo o que eles tinham a dizer a este respeito, que os assassinos deliberados estariam sujeitos à espada da justiça, e os ocasionais estariam sujeitos ao julgamento da cidade de refúgio. As cortes de julgamento ficavam nos portões das suas cidades principais. Os juízes, normalmente, eram vinte e três; eles julgavam, condenavam e executavam os assassinos; assim, qualquer pessoa que matasse estava sujeita ao seu julgamento. Mas este comentário sobre esse mandamento era falho, pois ele dava a entender que:

1.A lei do sexto mandamento era apenas externa, e não proibia nada além do ato de assassinato, e deveria restringir os desejos interiores, dos quais nascem as guerras e as pelejas. Este era realmente o proton pseudos – o erro fundamental dos professores judeus, dizer que a lei divina proibia somente o ato pecaminoso, e não o pensamento pecaminoso; eles estavam inclinados a haerere in conticeae descansar na letra da lei, e nunca investigaram o seu significado espiritual. Paulo, embora sendo um fariseu, não o fez, até que, pela chave do décimo mandamento, a graça divina o levou ao conhecimento da natureza divina de todas as demais coisas (Romanos 7.7,14).

2.Outro engano era o de que esta lei era meramente política e cívica, dada por causa deles, e com a intenção de ser uma orientação para os seus tribunais, e nada mais; como se somente eles fossem o povo de Deus, e a sabedoria da lei devesse morrer com eles.

 

III – A explicação que Cristo deu deste mandamento. Nós estamos certos de que, de acordo com a sua explicação, seremos julgados no futuro; portanto, devemos ser governados agora. O mandamento é extremamente amplo, e não deve ser limitado pela vontade da carne, ou pela vontade dos homens.

1.Cristo lhes diz que a ira irrefletida é assassinato no coração (v. 22). “Qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão” estará infringindo o sexto mandamento. Aqui, por “seu irmão” devemos entender qualquer pessoa, mesmo que se trate de alguém inferior a nós, como uma criança ou um servo, pois todos nós somos feitos de um único sangue. A ira é uma paixão natural; existem casos nos quais ela é lícita e salutar; mas é pecaminosa, quando nos iramos sem motivo. A palavra é eike, que significa sine causae, sine efjectu, et sine modo sem causa, sem nenhum bom efeito, e sem moderação.

Como consequência, a ira é pecaminosa:

(1) Quando ocorre sem nenhuma provocação justa; seja por nenhuma causa, ou nenhuma boa causa, ou nenhuma causa justa e adequada ; quando nos iramos com as crianças ou com os servos por aquilo que não pôde ser evitado, que foi somente uma questão de esquecimento ou de engano, de que nós mesmos poderíamos ser facilmente culpados, e pelo que não ficaríamos irados conosco; quando nos iramos devido a suspeitas infundadas ou por ofensas banais que nem merecem ser mencionadas.

(2) Quando a ira ocorre sem visar nenhuma boa finalidade, meramente para mostrar a nossa autoridade, para satisfazer uma paixão bruta, para fazer com que as pessoas conheçam os nossos ressentimentos e para nos motivar à vingança; nestes casos, a ira é vã, e só se destina a magoar. Se em alguma ocasião estivermos irados, isto deverá se destinar a despertar o ofensor ao arrependi­ mento, e a evitar que ele repita outra vez o que fez; para nos purificar (2 Coríntios 7.11) e para advertir aos outros.

(3) Quando ela ultrapassa os limites. Quando somos duros e teimosos na nossa ira, violentos e veementes, cruéis e perversos, e procuramos ferir aqueles que nos desagradaram. Isto representa uma infração ao sexto mandamento, pois aquele que se ira desta maneira chegaria a matar, se pudesse. Um homem deu o primeiro passo em direção a isto; quando Caim matou seu irmão, tudo começou com a ira; ele é um assassino aos olhos de Deus, que conhece o seu coração; pois é do coração que procede o assassinato (cap. 15.19).

2.Jesus lhes diz que o uso de uma linguagem ultrajante com o nosso irmão é o assassinato pela língua (chamá-lo de raca, e chamá-lo de louco). Quando isto é feito com moderação e com uma boa finalidade, para convencer os outros da sua vaidade e das suas tolices, não é pecaminoso. Assim, Tiago diz: “O homem vão” (Tiago 2.20), e Paulo diz: “Insensato” (1 Coríntios 15.36), e o próprio Cristo diz: “Ó néscios e tardas de coração” (Lucas 24.25). Mas quando isto nasce da ira e da maldade interior, é a fumaça daquele fogo que arde no inferno, e se enquadra na mesma característica.

(1) Raca é uma palavra de desdém, que se origina no orgulho. “Zombador é o teu nome”, é como Salomão chama aqueles que tratam com indignação e soberba (Provérbios 21.24), que desdenham do irmão para equipará-lo aos cães que possuem. ‘Esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (João 7.49).

(2) “Louco” é uma palavra de rancor, que nasce do ódio; considerando a pessoa não somente comum e indigna de ser honrada, mas como uma pessoa odiosa e indigna de ser amada; “Tu, homem iníquo, réprobo”. A primeira palavra fala de um homem desprovido de razão; ela (em termos das Escrituras) fala de um homem sem graça; quanto mais a censura tocar a sua condição espiritual, pior será; a primeira é uma zombaria arrogante do nosso irmão; esta é uma censura maldosa e uma condenação a ele, como se estivesse abandonado por Deus. Esta é uma infração do sexto mandamento; calúnias maldosas e críticas são veneno, sob a língua, que mata secreta e lentamente. As palavras amargas são como flechas que matam repentinamente (SaImos 64.3), ou como uma espada nos ossos. O bom nome do nosso próximo, que é melhor do que a vida, é, desta forma, esfaqueado e assassinado; e esta é uma evidência de uma má intenção para com o nosso próximo, a ponto de atingirmos a sua vida, se pudéssemos fazê-lo.

3.Jesus lhes diz que não importa o uso que eles façam desses pecados, certamente eles lhes serão computados. Aquele que se encolerizar com seu irmão está correndo o risco do juízo e da ira de Deus; aquele que o chama de raca estará nas mãos do conselho, passível de ser punido pelo Sinédrio por insultar um israelita; mas aquele que disser: “Louco, pessoa profana, filho do inferno”, estará em perigo do fogo do inferno, para o qual ele condena o seu irmão, segundo o erudito Dr. Whitby. Alguns pensam, em alusão às punições usadas nos diversos tribunais de julgamento entre os judeus, que Cristo mostra que o pecado da ira irrefletida expõe os homens a punições mais graves ou menos graves, de acordo com os graus da sua origem. Os judeus tinham três penas capitais, uma pior que a outra: a decapitação, que era imposta pelo julgamento; o apedrejamento, pelo conselho ou pelo Sinédrio; e o fogo no vale de Hinom, que só era usado em casos extraordinários. Isto significa, portanto, que a ira irrefletida e a linguagem ofensiva são pecados condenáveis; mas alguns são mais pecaminosos que outros, e, de maneira correspondente, existe uma condenação mais severa, e uma punição mais amarga reservada a estes. Assim, ao mostrar a punição mais temível, Cristo mostra que pecado é o mais grave.

IV – De tudo isto, pode se deduzir que nós devemos cuidadosamente preservar o amor e a paz cristãos com nossos irmãos, e, se alguma vez estes forem rompidos, devemos lutar por uma reconciliação, confessando a nossa culpa, humilhando-nos perante o nosso irmão, implorando o seu perdão, e fazendo uma indenização ou oferecendo uma compensação pelo mal feito através de atos ou palavras, de acordo com a natureza da situação; e devemos fazê-lo rapidamente, por dois motivos:

1. Porque, até que isto seja feito, nós estaremos completamente incapacitados para a comunhão com Deus, nos rituais sagrados (vv. 23,24). O caso suposto é: se “teu irmão tem alguma coisa contra ti”, ou seja, se você o injuriou e ofendeu, seja isto real ou na percepção dele. Se você é a parte ofendida, não há necessidade desta demora; se você tem alguma coisa contra o seu irmão, resolva isto rapidamente. Nada mais precisa ser feito, a não ser perdoá-lo (Marcos 11.25), e perdoar a ofensa. Mas se a disputa se iniciou no seu lado, e a culpa foi sua, no início ou ao final, de modo que “teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão”, antes de vir fazer a oferta no altar, antes de se aproximar solenemente de Deus, nos serviços de oração e louvor, ouvindo a Palavra ou os sacramentos. Observe:

(1) Quando nos dirigimos a qualquer prática religiosa, é bom que aproveitemos a ocasião para uma séria reflexão e exame próprio. Há muitas coisas a ser em lembradas quando levamos a nossa oferta ao altar, se o nosso irmão tiver alguma coisa contra nós; então, se este for o caso, precisaremos considerar a questão para que façamos um acerto de contas.

(2) As práticas religiosas não são aceitáveis perante Deus, se forem realizadas quando sentimos ira. A inveja, a maldade e a falta de caridade são pecados tão desagradáveis a Deus, que nada que venha de um coração onde estas coisas ainda predominem pode agradá-lo (1 Timóteo 2.8). As orações feitas com ira são escritas em amargura (Isaias 1.15; 58.4).

(3) O amor ou a caridade são tão melhores que todos os holocaustos e sacrifícios, que Deus deseja que a reconciliação com um irmão ofendido ocorra antes que a oferta seja feita. Ele se satisfaz por esperar pela oferta, em lugar de tê-la quando somos culpados e estamos envolvidos em alguma disputa.

(4) Embora estejamos incapacitados para a comunhão com Deus devido a uma disputa continuada com um irmão, ainda assim isto não pode ser uma desculpa para a omissão ou para a negligência em relação ao nosso dever: “Deixa ali diante do altar a tua oferta”, em outras palavras, “para que, de outra forma, quando tiver ido embora, você não se sinta tentado a não voltar”. Muitos expressam este pensamento como a razão pela qual não vêm à igreja ou participam da Santa Ceia, por estarem com algum problema com o próximo. E de quem é a culpa? Um pecado jamais irá justificar outro, mas irá dobrar a culpa. A falta de amor jamais poderá justificar a falta de piedade. O problema pode ser facilmente superado. Nós devemos perdoar àqueles que nos fizeram mal; e àqueles a quem nós fizemos mal, devemos compensar, ou pelo menos fazer uma proposta e desejar a restauração da amizade, para que se a reconciliação não acontecer, não seja por nossa culpa; e então vir e ser bem recebido, vir e oferecer a nossa oferta, e ela será aceita. Portanto, não devemos deixar que o sol se ponha sobre a nossa ira nenhum dia, porque devemos orar antes de dormir. Também não devemos deixar que o sol nasça sobre a nossa ira em um dia que consagramos ao Senhor, porque este é um dia de oração e adoração.

2.Porque, até que isto seja feito, estaremos expostos a muitos perigos (vv. 25,26). É arriscado não procurarmos um acordo, e rapidamente, sob dois aspectos:

(1) Um aspecto temporal. Se a ofensa que causamos ao nosso irmão, ao seu corpo, aos seus bens ou à sua reputação, for tal que exija alguma ação na qual ele possa recuperar danos consideráveis, é sábio de nossa parte, e é a nossa obrigação para com a nossa família, evitar isto por meio de uma submissão humilde e uma satisfação justa e pacífica, para que, de outra maneira, ele não recupere os danos pela lei e não nos coloque numa prisão. Em um caso como este, é melhor entrar em acordo, nas melhores condições que pudermos, do que suportarmos alguma punição; pois é inútil disputar com a lei, e existe o perigo de sermos esmagados por ela. Muitos arruínam as suas propriedades e os seus bens persistindo obstinadamente nas ofensas que fizeram, que poderiam ter sido resolvidas de modo pacífico, se cedessem em algo, rapidamente, no início do problema. O conselho de Salomão no caso de responsabilidade é: “Vai, humilha-te… e li­vra-te” (Provérbios 6.1-5). E bom chegar a um acordo, pois a pena da lei é cara. Embora devamos ser misericordiosos com aqueles sobre os quais estamos em vantagem, ainda assim devemos ser justos com aqueles que têm vantagens sobre nós, desde que sejamos capazes. “Concilia-te depressa com o teu adversário”, em outras palavras, para que ele não se exaspere com a sua teimosia, e não se sinta provocado a insistir com as máximas exigências, e não deixe de fazer o abatimento que a princípio teria feito. Uma prisão é um lugar incômodo para aqueles que são levados a ela pelo seu próprio orgulho e desperdício de oportunidade, pela sua própria teimosia e tolice.

(2) Um aspecto espiritual. “Vai reconciliar-te … com o teu irmão”, seja justo com ele, seja amistoso com ele, porque enquanto continuar a disputa, assim como você estará incapacitado para trazer a sua oferta ao altar, incapacitado para participar da mesa do Senhor, também estará incapacitado para morrer. Se você persistir neste pecado, existe o perigo de você ser repentinamente levado pela ira de Deus, de cujo julgamento você não poderá escapar nem se isentar. E se você for o responsável por esta iniquidade, você estará perdido para sempre. O inferno é urna prisão para todos aqueles que vivem e morrem na maldade e na falta de amor, pois todos são contenciosos (Romanos 2.8), e desta prisão não há resgate, não há redenção, não há fuga, por toda a eternidade.

Isto se aplica à grande questão da nossa reconciliação com Deus, por meio de Cristo: “Concilia-te depressa com [ele]… enquanto estás no caminho”. Observe que:

[1] O grande Deus é um adversário para todos os pecadores, antidikos um adversário legal; Ele tem uma controvérsia com eles, uma ação contra eles.

[2] É nosso interesse estar de acordo com Ele, nos familiarizar com Ele, para podermos estar em paz (Jó 22.21; 2 Coríntios 5.20).

[3] Ê prudente fazermos isto rapidamente, enquanto estamos no caminho. Enquanto estamos vivos, estamos no caminho; depois da morte, será tarde demais para fazê-lo; portanto, não dê descanso aos seus olhos antes que isto seja feito.

[4] Aqueles que continuam em uma situação de inimizade com Deus estão continuamente expostos à prisão da sua justiça, e aos exemplos mais temíveis da sua ira. Cristo é o Juiz, a quem os pecadores impenitentes serão entregues. Pois todo o julgamento foi confiado ao Filho. Aqueles que o rejeitarem como Salvador jamais poderão escapar dele como Juiz (Apocalipse 6.16,17). É atemorizante ser entregue, desta forma, ao Senhor Jesus, quando o Cordeiro se tornará o Leão. Os anjos são os encarregados a quem Cristo os entregará (cap. 13. 41,42); os demônios também são um tipo de encarregados, tendo o poder de serem os algozes da morte de todos os incrédulos (Hebreus 2.14). O inferno é a prisão em que serão lançados todos aqueles que continuarem em um esta do de inimizade contra Deus (2 Pedro 2.4).

[5] Os pecadores condenados continuarão ali por toda a eternidade; eles não poderão partir porque jamais poderão pagar a dívida por seus pecados. Mesmo passando a eternidade em tormentos, jamais conseguirão pagá-la totalmente. A justiça divina só pode ser satisfeita através do sacrifício feito pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O Peso do passado

ARREPENDIMENTO: O PESO DO PASSADO

Não nos arrependemos do mesmo jeito das coisas que fizemos e das que deixamos de fazer: os psicólogos mostram que as ações não realizadas deixam uma sensação mais amarga.

 Quem consegue não se arrepender de nada na vida? A existência nos impõe inúmeras oportunidades de experimenta-lo: chances perdidas, julgamentos errados, atos impulsivos, inibições inexplicáveis… Um estudo sobre a expressão cotidiana das emoções mostrou que os sentimentos de arrependimento (“Se eu soubesse…”, “Eu não deveria…”!) vêm em segundo lugar nas conversas, depois, é claro, de tudo o que se relaciona ao amor e à afeição. Será p arrependimento um companheiro para toda a vida? Arrepender-se de que? Por quê? E até que ponto? Os arrependimentos servem para alguma coisa? Se sim, para quê? E, enfim, podemos ou devemos tentar escapar deles? Essas perguntas começam a encontrar respostas na psicologia científica.

Os dicionários de francês definem regret como “um estado de consciência penoso, ligado ao passado, pelo desaparecimento de momentos agradáveis”: lamentamos o fim da infância, das férias, de um amor. Em seu Tratado das paixões da alma, Descartes o descreveu como um pesar, uma “espécie de tristeza” daquilo que se passou bem. Esse tipo de sentimento, que se assemelha à nostalgia, pode às vezes, e paradoxalmente, causar certo prazer, pois é associado à evocação de momentos agradáveis. Victor Hugo, por exemplo, definia nostalgia e melancolia como a felicidade de ser triste”.

Outro uso regret, mais difundido, e mais similar ao termo “arrependimento”, em português, é ligado ao descontentamento ou à mágoa por ter feito – ou não – alguma coisa. Trata-se de uma sensação desagradável, associada a numerosas emoções negativas: ressentimento, culpa, auto censura etc. Não nos contentamos mais em somente evocar o que se foi, mas avaliamos nossa responsabilidade num comportamento passado que lamentamos e em suas consequências atuais. Nesse sentido, o arrependimento não é somente a dor do passado, mas também um sofrimento do presente.

Para a psicologia, esse sentimento associa-se a aspectos emocionais (tristeza, às vezes raiva, vergonha ou preocupação) e cognitivos (avaliações de que não agimos como deveríamos). O arrependimento é ligado tanto à ação quanto à ausência dela e se distingue do remorso, que é o arrependimento por ações que prejudicam alguém.

 O QUE É ARREPENDIMENTO?

Imagine a seguinte situação, João ia viajar às 17h30, mas quis terminar um trabalho e decidiu pegar o voo das 19h30. O avião das 19h30 caiu. Sua triste sorte inspira ainda mais pesar em seus parentes e amigos por ele ter feito a mudança do que se tinha previsto desde o início viajar às 19h30(eles pensam, “Se não tivesse mudado de ideia ainda estaria, vivo”). Nesse caso, seria apenas uma fatalidade. Nossos arrependimentos são, assim, estreitamente ligados a nossos atos, quanto mais dependente da fatalidade ou de circunstâncias exteriores um acontecimento parece, menos nos arrependemos dele.

Outra situação avaliada ao longo de uma pesquisa de psicologia social, Paulo e Pedro têm ações nas empresas A e B. No ano passado, Paulo, que havia muito tempo investira em ações da A, teve vontade de mudar e investir tudo na B. Mas acabou não mudando e, por isso, perdeu R$ 2 mil, pois B rendeu muitos lucros, enquanto A aumentou prejuízos. Pedro tinha ações da B, e teve a péssima ideia de transferir tudo para A. Desse modo, ele também perdeu R$ 2 mil. Do ponto de vista estritamente financeiro, ambos tiveram a mesma desventura. Entretanto, quando questionadas sobre qual dos dois deveria sentir mais arrependimento, 92% das pessoas ouvidas estimaram que Pedro provavelmente tinha arrependimentos mais pungentes: sua má inspiração ditou lhe um comportamento nefasto. Teria sido melhor se nada tivesse leito.

Já o arrependimento de Paulo, vítima da própria inação, parece menos penoso às pessoas convidadas a se identificar com os personagens dessa história. A ação engendra mais arrependimento que a inação.

De maneira geral, diversos estudos indicam que nos arrependemos mais pelo que fizemos do que pelo que não fizemos, a curto prazo, nossos fracassos são mais dolorosos quando provêm de ações que não trouxeram os frutos esperados (como no caso de Pedro, que vendeu suas ações da empresa B no momento errado) que quando resultam de inações (como Paulo, que pensou em comprar ações B, mas não o fez). Além disso, os psicólogos evolucionistas supõem que a função do arrependimento é justamente nos permitir aprender com nossos fracassos e nos incitar a ser mais prudentes no futuro, sem que nos lancemos de novo em uma ação incerta.

AGIR OU NÃO AGIR?

Em sentido oposto, outros estudos avaliaram o motivo dos maiores arrependimentos das pessoas e constataram que os mais profundos provêm daquilo que elas não fizeram: “Eu deveria ter seguido meus estudos”, “Deveria ter falado mais com meu pai enquanto ele era vivo”.

Numa pesquisa realizada com 77 pessoas de diversos meios sociais, que foram questionadas sobre os principais pesares de sua vida, dos 213 listados, apenas dez referiam-se a acontecimentos alheios ao controle da pessoa (“ter sofrido paralisia infantil). Quanto aos que dependiam de uma decisão própria, 63 % tinham a ver com uma ação não realizada, contra 37% de atos realizados (por exemplo, más escolhas sentimentais, profissionais ou financeiras).

Como explicar essa aparente contradição? Pelo fato de o arrependimento evoluir com o passar do tempo, temos a tendência imediata de nos arrepender das coisas que fizemos (quando deram errado, claro). E, a longo prazo, tendemos a nos arrepender mais de inações, de intenções de ação não concretizadas.

Além disso, parece que o perfil emocional desses dois tipos de arrependimento é distinto: arrependimentos por ações, a curto prazo, são mais intensos que aqueles provocados por inação. No plano emociona, os primeiros são geralmente chamados de “quentes”, enquanto os últimos são os “melancólicos”. Um estudo com 79 voluntários, que avaliava a intensidade das emoções associadas ao maior arrependimento de cada um nessas duas categorias, mostrou claramente essa relação: arrependimentos por ação são mais associados a emoções imensas (cólera, vergonha, a culpa, frustração etc.), e arrependimentos por inação são mais ligados a emoções discretas (sentir-se melancólico, saudoso, desenganado etc.). No primeiro caso, lamentamos uma realidade e no segundo, uma virtualidade. Como e pôr que passamos da dor pelo que fizemos ao incômodo pelo que não fizemos. Muitas explicações são possíveis. Antes de tudo, diversos fenômenos atenuam o tormento dos arrependimentos ligados aos atos, estes, às vezes, são reparáveis (pôr exemplo, desculpar-se e reconciliar-se depois de uma briga). Além disso, um trabalho de compensação psicológica frequentemente ofusca as consequências negativas de nossos atos, notadamente impelindo-nos a nos concentrar nos aspectos positivos da situação e não nos lamentáveis (“Não me casei com uma pessoa legal, mas meus filhos são maravilhosos”). Para exprimir esse fato, os anglo-saxões têm um provérbio, Every cloud has a silver lining, ou seja, “Toda nuvem tem uma borda iluminada”.

Contrariamente, a inação é mais insidiosa, e alguns mecanismos tendem a amplificar a dor do arrependimento causada pôr ela. Assim, se as consequências de uma ação lamentável são identificáveis e limitadas, as de uma ação não realizada são infinitas. Podemos sem dificuldade imaginar múltiplas cenas decorrentes do que teria acontecido “se” tivéssemos sido mais obstinados, mais seguros, mais ambiciosos…E isso vai aumentando, pois com o tempo tendemos a superestimar nossa capacidade de agir favoravelmente, uma vez que as dificuldades ligadas a uma situação passada se distanciaram. Assim, como o contexto preciso foi esquecido, não conseguimos mais explicar a própria inação, que nos parece indesculpável: “Como não tomei a decisão que se impunha, não posso me perdoar”.

No caso dos arrependimentos por inação, o campo das possibilidades não realizadas cresce à medida que a vida passa. Desse modo, não espanta que o arrependimento pelo tempo que se esvai seja uma fonte importante de inspiração poética e literária. Grande parte da obra Em busca do tempo perdido é inspirada nesse tema, segundo seu autor, Marcel Proust, “só podemos nos arrepender daquilo de que nos lembramos”. Essa frase subentende a existência do recalque de muitas das lembranças desagradáveis.

PERFIL DE PERSONALIDADE

Enfim, o arrependimento por inação é mais memorável que o arrependimento por ação. Esse efeito é conhecido em psicologia social desde 1935 como efeito Zeigamik (do nome de seu descobridor) e recebeu numerosas confirmações experimentais. Numa pesquisa, voluntários foram questionados sobre quais eram seus três maiores arrependimentos por ação e os três maiores por inação Três semanas depois, os pesquisadores telefonaram para cada um deles para saber se eles se lembravam das respostas dadas. A maioria (64%) lembrava-se mais dos arrependimentos por inação.

O interesse das pesquisas sobre arrependimento não é somente teórico. Elas permitem compreender que esses sentimentos representam uma atividade mental importante e inevitável no ser humano, às vezes útil, mas cujos efeito podem ser prejudiciais para alguns.

Assim, as pessoas que sofrem de fobias graves, como as sociais (timidez patológica, que leva a evitar inúmeras situações) ou a agorafobia (medo excessivo de frequentar lugares públicos, o que limita a autonomia e o deslocamento), devem renunciar, devido a seu distúrbio, a muitas atividades. Elas sofrem de arrependimentos múltiplos que muitas vezes dão origem a um estado depressivo. Todavia, os sofrimentos ocasionados por arrependimentos não se relacionam apenas às pessoas com problemas psiquiátricos. Cada um está sujeito a tais sofrimentos em graus variáveis, mas certos traços de personalidade os favorecem. Diversos estudos expuseram os fatores que agravam ou aliviam os arrependimentos, assim como as atitudes que nos permitem enfrentá-los melhor.

Determinados perfis de personalidade parecem mais expostos aos riscos de um arrependimento excessivo que outros. Assim, as pessoas que têm o hábito de cultivar uma visão positiva da existência

Têm menos arrependimentos mesmo em relação a acontecimentos desfavoráveis. Numa experiência, contou-se aos voluntários a seguinte cena: “Enquanto você espera sua vez na fila do banco, aparece um assaltante que, durante a fuga, dá vários tiros e um deles atinge o seu braço. Você teve sorteou azar?”. Diferenças de opinião muito claras aparecem: alguns lamentam a má sorte (“Precisava acertar justo em mim?”’ “Se eu tivesse chegado dez minutos mais tarde não teria acontecido nada…”) e outros comemoram a sorte, sem pesar. (“Que sorte, eu poderia ter morrido!”) Pode-se tirar daí um conselho de muita lucidez: diante dos acontecimentos, é fundamental imaginar tudo que poderia ter acontecido, e não somente o que poderia ter sido melhor!

Outros trabalhos mostraram como pessoas perfeccionistas, que buscam sempre atingir o melhor resultado e fazer as melhores escolhas possíveis, são geralmente menos satisfeitas, pois estão mais expostas ao arrependimento, que aquelas que se contentam com uma “escolha aceitável”. Um segundo conselho, muito sábio: é importante aprender nos diversos domínios do cotidiano, a renunciar ao ideal e a apreciar resultados modestos. Essa atitude não é aceitação da mediocridade, mas a busca pelo equilíbrio e pela melhor relação entre custo e benefício no dia-a-dia.

Por fim, há outro campo de pesquisa, sabemos que para muitas pessoas que têm vontade de agir, mas frequentemente desistem com medo do fracasso, ou para aquelas que tendem a transferir tudo para o dia seguinte, o hábito de se sujeitar a situações desagradáveis, ou pior, de renunciar a agir, é fator de frustração e arrependimento. Esta atitude é problemática, já que, mais de uma vez, foi demonstrado que a falta de ação tende a prender a pessoa num círculo vicioso.

Assim, se você não reagir rápido o bastante ou se perdeu uma primeira oportunidade de agir e tirar proveito disso (por exemplo, a liquidação com 50% de desconto numa loja que você adora), quando se apresentar uma segunda ocasião, também favorável, embora menos que a primeira, há grande probabilidade de você renunciar novamente para não ter arrependimentos do tipo, “Deveria ter aproveitado a primeira chance”.

Uma vez que os arrependimentos ligados à inação parecem infinitos, e que a inação leva a mais inação, outra ponderação útil poderia ser, na dúvida, aja. Aliás esta terceira sugestão também não deve ser levada ao pé da letra. Ao contrário, deve ser adaptada e personalizada. Com efeito, para pessoas que agem com facilidade, os arrependimentos têm menor importância em um fracasso ligado à ação que em um insucesso ligado à inação. Com pessoas indecisas dá-se o contrário, o arrependimento por um fracasso ligado à ação é mais doloroso. Decididamente, parece difícil não se arrepender de nada. Além do mais, talvez isso nem seja desejável.

IMPOSSÍVEL NÃO SE ARREPENDER

Entre dezenas de pesquisas realizadas sobre “os maiores arrependimentos da vida”, a maioria constatou que é impossível não se arrepender de absolutamente nada pois cada escolha se faz em detrimento de outra. Escolher uma opção é, implicitamente, eliminar outra. Em vez de visar o domínio total das escolhas ideais (o que é impossível) ou evitá-las totalmente (o que é ineficaz), parece melhor aprender a lidar de maneira inteligente com os arrependimentos. Como todas as emoções, esses sentimentos têm papel importante na capacidade de adaptação ao meio e no equilíbrio psíquico. Eles nos ensinam a fazer um balanço de nossos atos e a tirar deles lições para o futuro. Para libertar­ se do medo do fracasso e do arrependimento antecipado, o mais eficiente não é renunciar à ação, mas aumentar a tolerância com as derrotas. E, sobretudo, aprender a enxergar os ensinamentos que elas trazem, para transformar as situações de arrependimento em oportunidades de aprendizado, como nos lembra o ditado, “Se perder, pelo menos não perca a lição”.

Tentemos contradizer La Bruyére, que, em seu Caracteres, constatou com certo pessimismo o mau uso que o ser humano faz de suas experiências, o arrependimento que sentem os homens por causa do mau emprego que deram ao tempo que viveram, nem sempre os leva a aproveitar melhor o tempo que lhes resta“.

 CHRISTOPHE ANDRÉ é psiquiatra do Hospital Sainte-Anne e professor da Universidade Paris X.

GESTÃO E CARREIRA

20 competências para ser um bom lider

20 COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS PARA VOCÊ SER UM BOM LÍDER

Gestores competentes e admirados possuem habilidades em comum. Foi o que descobriu o professor Marcelo Veras ao acompanhar por dez anos 170 executivos brasileiros. Veja a seguir as 20 competências essenciais para se tornar um bom líder – e como você pode desenvolver cada uma delas.

 Por que algumas pessoas se tornam bem-sucedidas e outras não? Essa era a pergunta que incomodava Marcelo Veras, professor de planejamento ele carreira e presidente da Inova Business School, de Campinas. Para ele, livros, workshops e cursos não eram o suficiente para responder à questão, que ouvia constantemente dos alunos cm sala de aula. “Queria saber o que as pessoas que de fato chegaram ao topo tinham a dizer sobre isso”, afirma. Foi assim que, em julho de 2006, começou uma pesquisa sobre o assunto. Procurou pessoas em posições importantes de liderança, como diretores nacionais, vice-presidentes e presidentes para fazer uma pergunta simples: “Quais competências o trouxeram até aqui e como você definiria cada uma delas?”.

Foram mais de 170 entrevistados desde então. A partir das respostas, Marcelo reuniu uma lista das principais habilidades apontadas pelos bem-sucedidos. Elas são divididas em três categorias:  comportamentais (como agimos em relação a nós mesmos e as pessoas); técnicas (domínio da área de atuação e de competências básicas de linguagem e leitura); e de gestão, que, claro, têm a ver com nossa atitude na condição de líderes de pessoa e de negócios. Marcelo compara essas competências a um macarrão à bolonhesa. As competências técnicas são o espaguete, as comportamentais, o molho e o resultado final, as competências de gestão, são o macarrão à bolonhesa. “No curto prazo, ter apenas algumas competências funciona, mas, no fim, só uma combinação sólida é que mantém os lideres em seus cargos, diz. Ou seja, as habilidades fazem mais sentido quando combinadas entre si e usadas de forma coerente. E, claro, dificilmente alguém terá todas elas superdesenvolvidas, mas criará um conjunto sólido delas – a sua própria receita. “Querer desenvolver todas as competências no mesmo grau é utopia”, diz Adriana Prates, presidente da Dascin Executivc Scarch, consultoria de recrutamento, de Belo Horizonte. “As pessoas são diferentes e vão se destacar por diferentes motivos. “O segredo é identificar quais são as mais importantes para voe”. Ter essa clareza nem sempre é fácil, até porque envolve aceitar as limitações que temos, além de um conhecimento aprofundado de si mesmo. Esse entendimento serve, inclusive, para ver quando vale mais melhorar os pontos fortes e deixar os fracos de lado.

Tudo isso demanda saber escutar os outros e receber bem os feedbacks, além de criar o hábito de pensar sobre si mesmo. Para fazer isso, Silvana Mello, diretora da Lee Hecht Harrison, consultoria de transição de carreira, de São Paulo, propõe um exercício de autoanálise baseado em três dimensões. A primeira é tentar definir o que se busca em termos de carreira e vida no longo prazo. A segunda é entender por que você busca esses objetivos e o que motiva suas atitudes. A terceira é pensar como você fará para alcançar esses objetivos e que valores usará para chegar lá.  “Gosto desse modelo de tripé porque ele serve para buscar uma coerência no dia a dia e se obrigar a questionar sempre para onde você está indo e como, diz Silvana.

De fato, um dos principais fatores que determinam o sucesso de uma empreitada é a clareza sobre por que se está fazendo aquilo. Mas, além disso, é preciso olhar para fora e notar como você está se comportando em relação ao meio em que atua. Isso significa prestar atenção ao que está acontecendo e identificar quais as demandas implícitas e explícitas das empresas e de seus colegas. Normalmente, o melhor sinal de que é preciso desenvolver uma competência é quando você pensa que não é (ou não foi) capaz de lidar tão bem quanto gostaria com uma situação. Expor-se a diferentes cenários – dentro ou fora do trabalho – facilita esse aprendizado. ‘”Saia da rotina de vez em quando para perceber coisas novas”, diz Paula Chimenti, professora do Coppcad, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É a melhor forma de perceber o que você ainda precisa melhorar e o que já tem de bom. E ter essa percepção é o que ajuda na motivação. “É difícil desenvolver algo se você não sentiu a necessidade”, diz. Por isso, é preciso ter um olhar constantemente voltado à melhoria e ao crescimento pessoal para dar conta de notar seus pontos fortes e fracos.

O desenvolvimento de competências não é um processo isolado, mas combinado a diversos fatores: seus objetivos e personalidade, a necessidade dos outros e o meio em que você quer crescer.  A relação entre competência e o contexto é inseparável, diz Roberto Aylmer, professor da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. O que vai diferenciar cada um são as atitudes, ou seja, as competências comportamentais. Já as competências técnicas são obtidas por meio de estudo e aprendizado contínuo. As de gestão são como você combina as anteriores de forma a ser um líder bem-sucedido. Ao longo da reportagem, você encontra os 20 ingredientes que mais levaram as pessoas ao sucesso e pode escolher os que mais combinam com a sua receita pessoal de felicidade na carreira.

COMPETÊNCIAS COMPORTAMENTAIS

Equilíbrio emocional

“Você não tem como controlar os problemas, mas pode melhorar a forma como reage a eles”, diz. Adriana Prates, da Dasein. Ter autonomia em relação aos sentimentos para escolher como vai se comportar faz parte do equilíbrio emocional. Para chegar a esse ponto é preciso ser capaz de entender suas próprias emoções –  que não devem ser suprimidas ou ignoradas, mas geridas. Assistir a si mesmo no dia a dia e perceber como você se sente e quais tipos de situação trazem determinadas reações é uma forma de melhorar essa habilidade. Saber, por exemplo, que você tende a ficar alterado com um tipo de cenário pode ajudá-lo a resolver o que causa aquilo e a monitorar ocasiões futuras. A resposta pode ser desde encontrar válvulas de escape, como um hobby, até fazer terapia ou mudar o ponto de vista. Se for difícil perceber onde estão seus pontos frágeis, peça a opinião de pessoas em quem confia. “É como exercício físico, não dá para fazer um tempo e depois parar, diz Adriana.

Flexibilidade

“Ser flexível é aceitar o desconhecido, diz Silvana Mello, da Lee Hecht Harrison.  Sair da zona de conforto é difícil, mas essencial para ter flexibilidade para encarar coisas novas e mudar de ideia. “Tenha em mente que sempre podemos crescer mais, e que para isso precisamos conhecer o novo, afirma. Fora do trabalho, vale desenvolver essa característica sempre que possível, se colocando em situações diferentes. A experiência diversificada, aliás, o ajudará a perceber quando você deve ser mais firme e quando deve mudar de ideia. Ser humilde em relação ao quanto você mesmo sabe sobre as coisas é importante.  “Hoje as pessoas estão muito mimadas e pouco flexíveis, diz Adriana. Essa é com certeza uma competência que fará toda diferença nas empresas.” Mostre essa habilidade tendo abertura a opiniões diferentes das suas e mantendo o debate focado em ideias, e não em pessoas. O objetivo deve ser conseguir o melhor para todos – e não ter razão sempre.

COMPETÊNCIAS DE GESTÃO

Empreendedorismo

Empreendedorismo está relacionado à forma como enxergamos as coisas. Uma mesma situação pode ser percebida como desafio, como problema ou oportunidade. Para ser empreendedor, é preciso buscar oportunidade em cada cenário. Isso exige um bom conhecimento de si mesmo e de suas capacidades e entendimento sobre o contexto do negócio e mercado em que você atua. Estar bem informado e saber buscar vários pontos de vista de forma crítica e analítica são fatores importantes para saber relacionar dados e identificar pontos promissores de atuação, além da abertura ao risco que tudo novo empreendimento – seja dentro de uma empresa ou em um novo negócio oferece. Saber reconhecer suas limitações também é essencial. “Nem sempre a pessoa tem recursos internos para assumir riscos como um empreendedor faz, diz Silvana. Nesses casos, a saída pode se conseguir tomar decisões articuladas com outras pessoas, que têm uma percepção diferente do risco.

 Tomada de decisão

Entender como você pensa é importante para melhorar suas decisões. Às vezes, são ideias e medos inconscientes que nos impedem de raciocinar mais claramente, outras vezes são conhecimentos técnicos que nos faltam, e é preciso saber avaliar tudo isso. Por outro lado, ter certeza de quais são seus valores e objetivos é uma ferramenta útil na hora da dúvida entre uma opção ou outra. “Vivemos em um contexto de ambiguidade”, diz Silvana. Aprender a lidar como risco de cada decisão e com informações incompletas é cada vez mais necessário, assim como saber usar os recursos que estão à mão. As pessoas à sua volta devem ser suas aliadas. Um líder pode ter em sua equipe pessoas capazes de trazer diferentes lados e informações para complementar uma decisão. Tem que conversar com os outros e recolher informações, ninguém vai saber absolutamente tudo sobre alguma coisa”, diz Miriam Rodrigues, professora de gestão da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo.

Pensamento estratégico

Mais do que ter conhecimento sobre vários temas, o pensamento estratégico exige relacionar diferentes informações para definir quais são os pontos mais importantes de determinado cenário. Em um mundo complexo, é fácil se perder em projeções falaciosas, medos coletivos e na quantidade enorme de dados disponíveis. ” Não adianta guardar conhecimento para si mesmo. Trocar informações e conversar com diferentes pessoas ajuda a melhorar o raciocínio”, diz Miriam. Para desenvolver essa capacidade, reveja a forma como você avaliou situações passadas. O que faltou para ter tido um posicionamento melhor”? A experiência é um instrumento poderoso.

Negociação

Saber negociar é saber usar em conjunto diversas habilidades, diz Márcia.  Afinal, é preciso saber reunir informações sobre aquele tema, saber ler a outra pessoa, se comunicar, ter certeza de seus objetivos, mas também quando mudar de ideia e, finalmente, tomar decisões coerentes e vantajosas para você. Esse é um conjunto complexo e que exige um cuidado especial ao longo da carreira. Quanto menos desenvolvida essa competência, mais você deve tomar cuidado para estudar antes de cada reunião, para ouvir com atenção o que está sendo dito e buscar em mentores a ajuda. “Precisa investir no aprendizado, inclusive de conhecimento acadêmico, para ter uma posição analítica e crítica”, diz Mirian.

Gestão de pessoas

Essa competência exige uma série de outras habilidades anteriormente desenvolvidas. “‘Para ser um bom gestor, você precisa saber formar boas equipes, motivar pessoas de diferentes valores e origens e definir um objetivo claro e que dê propósito às pessoas”, diz Adriana. Isso envolve a capacidade de entender os outros, de saber de que tipo de competência e conhecimento você precisa em suas equipes e como usar as informações que os outros trazem a seu favor. Uma pessoa que não consegue ela mesma gerir suas próprias emoções e atitudes dificilmente conseguirá fazer uma boa gestão de equipes. Não há uma única fórmula para isso – diferentes líderes têm diferentes estilos de gestão. Em comum, todos têm a capacidade de unir equipes, vontade de desenvolvê-las  e sabem usá-las em  proveito dos objetivos da empresa.

 Cardápio de habilidades

 Competencias famosas - 20 competencias

 

 

 

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 17-20

Continuação do Sermão da Montanha

Aquelas pessoas às quais Cristo pregou, e aquelas que estão relacionadas a estas instruções que o Senhor deixou aos seus discípulos, eram indivíduos que, na sua religião observavam:

1. As Escrituras do Antigo Testamento como sua regra, e neste sentido Cristo aqui mostra que eles estão certos.

2. Os escribas e os fariseus como seu exemplo, e neste senti do Cristo aqui mostra que estão errados, pois:

 I – A lei que Cristo veio estabelecer concordava com exatidão com as Escrituras do Antigo Testamento, aqui chamada de a lei e os profetas. Os profetas eram os comentaristas da lei, e, juntos, os profetas e a lei, criaram aquela lei de fé e prática que Cristo encontrou no trono da sinagoga judaica; e aqui Ele a mantém no trono.

1. Jesus protesta contra a ideia de anular e enfraquecer o Antigo Testamento: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas”.

(1) Em outras palavras “Não deixemos que os judeus religiosos, que têm grande apreço pela lei e pelos profetas, temam que Eu tenha vindo para destruí-los”. Não deixemos que eles tenham preconceito contra Cristo e a sua doutrina, devido a uma inveja deste reino que Ele veio estabelecer, o que pode soar como um menosprezo da honra das Escrituras que eles aceitavam como vindas de Deus e das quais eles sentiam o poder e a pureza. Não. Deixemos que eles fiquem satis feitos por verem que Cristo não tem nenhum mau desígnio em relação à lei ou aos profetas. Em outras palavras:

(2) “Não permitamos que os judeus profanos, que não consideram a lei ou os profetas, e que estão cansados daquele jugo, achem que Eu vim para destruir a lei ou os profetas”. Não permitamos que os libertinos carnais imaginem que o Messias veio para libertá-los da obrigação dos preceitos divinos, e ainda assim assegurar-lhes as promessas divinas, para fazê-los felizes e dar-lhes permissão para viver como desejarem. Cristo não ordena nada agora que fosse proibido, fosse pela lei da natureza ou pela lei moral, nem proíbe qualquer coisa que aquelas leis obrigassem. É um grande engano pensar que Ele faz isto, e aqui Ele toma cuidado para corrigir este engano. “Não cuideis que vim destruir”. O Salvador das almas não destrói nada, a não ser as obras do diabo; Ele não destrói nada que venha de Deus Pai, muito menos aqueles excelentes preceitos que temos de Moisés e dos profetas. Não. Ele veio para cumpri-los. Isto é:

[l]. Ele veio par a obedecer aos mandamentos da lei, pois Ele nasceu sob a lei (Gálatas 4.4). Em todos os aspectos, Ele mostrava obediência à lei, honrava os seus pais, observava o sábado judeu, orava, dava esmolas e fazia o que ninguém mais fazia – obedecendo perfeitamente -, e jamais infringiu qualquer ponto da lei.

[2]. Para cumprir as promessas da lei e as predições dos profetas, de que todos deram testemunho dele. O concerto da graça é, basicamente, o mesmo agora que era naquela época, e Cristo é o seu Mediador.

[3]. Para responder aos símbolos da lei; assim (como expressa o bispo Tillotson), Ele não esvaziou, mas cumpriu a lei cerimonial, e se manifestou como sendo a Essência de todas aquelas sombras.

[4]. Para reparar as suas imperfeições, e assim completá-la e aperfeiçoá-la. Dessa forma, a palavra plemsai tem um significado de quando. Se considerarmos a lei como um recipiente que anteriormente continha alguma água, podemos entender que Ele não veio para jogar a água fora, mas para encher o recipiente até o topo. Ou ainda, podemos considerar a lei como uma imagem que é um primeiro esboço, e que exibe alguns traços somente para delinear a peça que se pretende confeccionar; posteriormente, estes traços são completados. Assim, Cristo aprimorou a lei e os profetas, através das suas adições e explicações.

[5]. Para prosseguir com o mesmo desígnio. As instituições cristãs estão tão longe de distorcer e contradizer aquilo que era o principal desígnio da religião judaica, que o promovem ao máximo. O Evangelho é o tempo da correção (Hebreus 9.10), não para rejeitar a lei, mas para corrigi-la e, consequentemente, estabelecê-la.

2. Ele declara a perpetuidade da lei; não apenas que Ele não desejava ab-rogá-la, mas que ela nunca dever ia ser ab-rogada (v. 18). “Em verdade, vos digo” que Eu, o Amém, a Testemunha fiel, solenemente declaro que “até que o céu e a terra passem”, quando não existir mais tempo e o estado imutável das recompensas substituir todas as leis, “nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido”. Pois o que é que Deus está fazendo em todas as operações, tanto de providência como de graça, a não ser cumprir as Escrituras? O céu e a terra se unirão, e serão completamente envolvidos em ruína e confusão, antes que qualquer palavra de Deus caia ao chão ou seja em vão. A palavra do Senhor permanece para sempre, tanto a da lei como a do Evangelho. Observe que o cuidado de Deus, a respeito da sua lei, se estende até mesmo aquelas coisas que parecem ser menos importantes nela, o jota e o til; pois o que quer que pertença a Deus, e leve a sua marca, por menor que seja, será preservado. As leis dos homens são tão patentemente imperfeitas (e todos temos consciência dessa imperfeição), que permitem urna máxima: Apicesjuris non sunt jura-o. pontos extremos da lei não correspondem à lei; porém Deus estará a postos e manterá cada jota e cada til da sua lei.

3. Ele dá aos seus discípulos a missão de preservar cuidadosamente a lei, e lhes mostra o perigo de negligenciá-la e menosprezá-la (v. 19). “Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos”, da lei de Moisés (quanto mais um dos maiores, como faziam os fariseus, que negligenciavam os aspectos mais importantes da lei), “e assim ensinar aos homens” (como eles faziam, anulando os mandamentos de Deus com suas tradições, cap. 15.3), “será chamado o menor no Reino dos céus”. Embora os fariseus pudessem se denominar os melhores professores possíveis, eles não seriam usados como professores no reino de Cristo. ”Aquele, porém, que os cumprir e ensinar” (como fariam os discípulos de Cristo, portanto provando ser melhores amigos do Antigo Testamento do que os fariseus eram, embora desprezados pelos homens), “será chamado grande no Reino dos céus”. Observe:

(1) Entre os mandamentos de Deus há alguns menores que outros; nenhum deles é pequeno de maneira absoluta, mas de forma comparativa. Os judeus reconhecem o menor dos mandamentos da lei como sendo aquele que fala do ninho de ave (Deuteronômio 22.6,7); mesmo ele, no entanto, tem um significado e uma intenção bastante considerável.

(2) É uma coisa perigosa, na doutrina ou na prática, revogar o menor dos mandamentos de Deus; infringi-lo, isto é, agir de modo a diminuir a sua abrangência ou enfraquecer a sua obrigatoriedade; quem fizer isto estará correndo riscos. Assim, invalidar qualquer um dos dez mandamentos é um golpe ousado demais para que o Deus zeloso possa condescender. É algo além de transgredir a lei, é quebrantar a lei (SaImos 119 .126).

(3) Quanto mais corrupção eles espalham, piores eles são. Infringir o mandamento já é atrevimento suficiente, mas é muito pior ensinar os homens a fazê-lo. Claramente, isto se refere àqueles que, nesta época, se assentavam na cadeira de Moisés e pelos seus comentários corrompiam e desvirtuavam o texto. Opiniões que tendem à destruição da religiosidade séria e dos fundamentos da religião cristã, por meio de observações corruptas às Escrituras, são suficientemente ruins quando defendidas, mas piores quando propagadas e ensinadas como se fossem a Palavra de Deus. Aquele que faz isto será chamado o menor no Reino dos céus, o reino da glória; ele nunca irá para lá, mas será eternamente excluído- Ele não fará parte do reino da igreja do Evangelho. Ele estará tão longe de merecer a dignidade de um professor no reino, que nem chegará a ser considerado um membro dele. O profeta que ensina estas falsidades é a cauda naquele reino (Isaias 9.15); quando a verdade aparecer em sua própria evidência, estes professores corruptos, embora valorizados como os fariseus, não serão considerados juntamente com os sábios e os bons. Nada torna os ministros mais desprezíveis e indignos do que corromper a lei (Malaquias 2.8,11). Aqueles que atenuam e incentivam o pecado, discordando e desprezando a severidade na religião, assim como a seriedade na devoção, são uma contam inação na igreja. Mas, por outro lado, são verdadeiramente honrados e de grande responsabilidade na igreja de Cristo aqueles que dedicam a sua vida e doutrina a promover a pureza e a severidade da religião prática, que tanto fazem como ensinam o que é bom, pois os que não fazem o que ensinam derrubam com uma mão o que edificam com a outra. Estes se entregam à mentira, e tentam os homens a pensar que a religião como um todo é um engano. Mas aqueles que falam com experiência, que vivem o que pregam, são verdadeiramente grandes; eles honram a Deus, e Deus os honrará (1Samuel 2.30), e no futuro irão brilhar como astros no reino do nosso Pai.

II – A justiça que Cristo veio estabelecer com esta lei deve exceder a dos escribas e fariseus (v. 20). Esta era uma estranha doutrina para aqueles que consideravam os escribas e fariseus como tendo chegado à posição mais elevada na religião. Os escribas eram os professores mais admirados da lei, e os fariseus os seus mestres mais celebrados, e ambos se assentavam na cadeira de Moisés (cap. 23.2) e tinham tal reputação entre o povo, que eram considerados como completamente adaptáveis à lei e as pessoas não se consideravam obrigadas a ser tão boas quanto eles eram. Portanto, foi uma grande surpresa para eles ouvir que deviam ser melhores do que os fariseus e os escribas, ou não iriam para o céu. Desta maneira, Cristo aqui declara com solenidade: “Vos digo”, ou seja, é assim. Os escribas e os fariseus eram inimigos de Cristo e da sua doutrina, e eram grandes opressores, e ainda assim deve ser reconhecido que eles consideravam isto um elogio. Eles oravam e jejuavam muito e davam esmolas; eram pontuais na observância dos compromissos cerimoniais e a sua função era ensinar os outros; eles tinham tal interesse pelas pessoas, que achavam necessário que, se somente dois homens fossem ao céu, um deles seria um fariseu. Mas aqui o nosso Senhor Jesus diz aos seus discípulos que a religião que Ele veio estabelecer não somente exclui a maldade, mas supera a bondade dos escribas e dos fariseus. Nós precisamos fazer mais do que eles, e melhor do que eles, ou não chegaremos ao céu. Nós éramos parciais na lei, e atribuíamos mais importância à sua parte ritual. Mas nós devemos ser universais, e não pensar que é suficiente dar à igreja o nosso dízimo, mas dar a Deus os nossos corações. Eles se preocupavam somente com o exterior, mas nós devemos ter consciência da religiosidade interior. Eles procuravam o elogio e o aplauso dos homens, mas nós devemos procurar a aceitação de Deus; eles se orgulhavam do que faziam na religião, e confiavam que o que faziam era justiça; mas nós, quando tivermos feito tudo, precisamos negar a nós mesmos e dizer: “Somos servos inúteis”, e confiar somente na justiça de Cristo, e desta forma poderemos ir além dos escribas e dos fariseus.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Síndrome do ninho vazio

SÍNDROME DO NINHO VAZIO

Por que muitos casais trocam a sensação de missão cumprida depois de tanta dedicação aos filhos pelo sentimento de falta e perda?

Lídia e João se conheceram numa festa. Foi paixão à primeira vista. Os dois estavam no início de carreira e tiveram que trabalhar duro para poder se casar. Curtiram pouco a vida no começo do casamento, pois logo chegaram os filhos. Lídia, então, adiou seus projetos profissionais. Diminuiu os horários que dedicava ao consultório para incumbir-se do papel de mãe. Sentiu como compensadora a escolha porque adorava ficar com as crianças e acompanhar de perto tudo o que faziam.

Passado algum tempo, ela começou a sentir dificuldade em equilibrar seus diversos papéis: esposa, mãe, profissional e dona-de-casa.

Principalmente, o de esposa, pois João vinha fazendo muitas queixas a esse respeito. Com este exemplo, poderíamos dizer que o casal se enquadraria na categoria “casal administrativo”. Eles cuidaram da bom funcionamento da casa e dos filhos. Porém, a relação ficou em segundo plano. Deixaram de cultivar o relacionamento.

O tempo passou. Os filhos cresceram. Saíram de casa. Até aí, sem problemas, a vida seguiu seu curso. E quando poderíamos pensar que cudo está certo, não, não está. Lídia entrou em depressão. E vem a pergunta: mas o que aconteceu? Aconteceu que ela se desdobrou a vida inteira para que tudo se desenvolvesse de maneira harmoniosa com seus filhos. Ela deu o seu melhor e conseguiu: seus filhos são pessoas bem-sucedidas, com boa inserção profissional e social e estão bem casados.

Novamente, tudo bem até aí. Mas Lídia incorreu num erro ao depositar uma grande expectativa em seus filhos. Ela, emocionalmente, não os criou para o mundo, embora na teoria concordasse ser esse o caminho natural da vida. Na prática, não é o que ela sente quando, por exemplo, liga para o flho e ele lhe responde com monossílabos. E, ainda, depois de vários convites para um almoço ele chega arrasado engole a comida e vai embora.

Quando a mulher faz muitas renúncias em relação aos filhos, sem se dar conta, quer ser recompensada. E, geralmente, transforma-se naquele tipo de mãe que faz cobranças quando os filhos já são adultos. Para uma mãe é extremamente difícil fazer este tipo de reconhecimento. Na prática, não é o que ocorre.

Esta mulher, no seu papel de mãe, sente que foi “roubada”. Pois deu tudo de si para seus filhos e, em troca, recebe muito pouco. E mais: sacrificou parte de sua profissão ao aceitar um emprego público, com salário medíocre em troca de liberdade e poucas horas de trabalho, para estar perto dos filhos e cuidar pessoalmente de seu desenvolvimento. Ela não soube ao longo do tempo cuidar da relação do casal. Quando João brigava com as crianças ela sempre o repreendia, considerava-o bravo demais ou muito violento. Saía sempre em defesa dos filhos. Este comportamento desgastou o relacionamento entre marido e mulher.

Conclusão: hoje Lídia se vê sem filhos, sem trabalho, porque se aposentou, casada com alguém com quem tem pouca troca e, muitas vezes, ao observar seu marido pensa estar diante de um desconhecido.

Lídia está sofrendo muito com a saída dos filhos de casa porque eles eram o centro de sua vida. Ela está apresentando o sintoma “do ninho vazio”. Este sintoma costuma aparecer quando os filhos saem de casa. Ou ainda naquelas situações em que as mulheres colocam os filhos no centro de suas vidas quando o casamento fracassa. É como se o fato de ter de quem cuidar suprisse todas as necessidades e carências desta mãe. Por isso, se a relação passa por dificuldades e conflitos é nesse momento que deve ser olhada com carinho. Pois uma relação não pode ser substituída por outra.

A mulher atualmente tem muitas funções a cumprir e todas podem lhe dar satisfação. O problema começa quando ela quer ser muito perfeccionista e o tempo é curto para cuidar de tantas tarefas. A atual mulher eu apelidei de “mulher maravilha” justamente por ser aquela pessoa que tem que dar conta de mil coisas ao mesmo tempo. Ela fica tão angustiada com tanta sobrecarga que o resultado é negativo. Ou seja, não para de se cobrar. Quando está com os filhos pensa que deveria estar com o marido, quando está com o marido pensa que deveria estar no trabalho… Não consegue ficar em paz consigo mesma. Por esta razão, muitas mulheres escolhem ficar em casa apenas cuidando dos filhos. Esta situação poderá ser atenuada quando a mulher tiver outro comportamento, ou seja, não abandonar outros setores da vida, e, com isso, apresentar melhores condições psicológicas.

É o caso de mulheres realizadas profissionalmente, que continuam trabalhando, que têm um marido com quem se entendem e vivem um relacionamento de verdadeiro companheirismo. Dessa forma, a vida continua fazendo sentido, mesmo com a saída dos filhos. Pois entendem que o ciclo não se fecha, a vida terá sua continuidade na nova dinâmica familiar. Neste contexto, com a saída dos filhos, o tempo livre será usado em benefício do casal para que, juntos, possam melhor usufruí-lo.

E em situações em que o casamento fracassou, a saída dos filhos para uma mulher mais realizada em outros setores da vida, poderá representar maior liberdade para seu próprio crescimento e desenvolvimento pessoal.

Outra situação que poderá trazer bem-estar para a mulher é quando ela reconhece a saída dos filhos como algo benéfico, incorporando a chegada de urna nora ou genro e relacionar-se bem com eles. Neste caso, ela se sentirá compensada do vazio com a chegada dos netos. Nos dias de hoje, os avós podem cobrir de forma eficaz a atenção que os pais não conseguem, muitas vezes, dar aos filhos em função da carga exaustiva de trabalho a que são submetidos.

 

MAGDALEMA RAMOS – é psicóloga e terapeuta de casais e família, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da PUC-SP e professora do curso de Psicanálise e coordenadora do curso de formação Casal e Família à Luz da Psicanálise, ambos do Instituto Sedae Sapien em São Paulo – SP.

GESTÃO E CARREIRA

Onda sustentável

ONDA SUSTENTÁVEL

Pequenas e médias empresas aproveitam a mudança de comportamento dos consumidores e apostam em nichos orgânicos.

 Se há alguns setores que enfrentam períodos de dificuldade econômica com um pouco mais de tranquilidade, sem dúvida, o de alimentos orgânicos é um deles. Com a mudança de comportamento dos consumidores, que estão cada vez mais exigentes no quesito alimentação, esse segmento nadou de braçadas nos últimos anos. Segundo um estudo da consultoria Euro monitor, o consumo de alimentos sem adição de agrotóxicos e cultiva- do de maneira natural praticamente dobrou entre 2009 e 2014, enquanto a demanda por alimentos tradicionais cresceu 67% no período. Estima-se que anualmente esse mercado movi- mente 35 milhões de reais – e a previsão é de alta de 20% a 30% em 2018. Esses números colocam o Brasil como o quarto maior consumidor de orgânicos, atrás de Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. “Todo esse potencial pode ser explicado pelo aumento da conscientização dos consumidores, envoltos por essa onda verde. É uma tendência que demorou a chegar no Brasil, mas não tem volta”, diz Silvio Passarelli, diretor da Faculdade de Administração da Faap e especialista em marketing. “As pequenas e médias empresas ainda dominam a comercialização desses alimentos saudáveis, mas a tendência é que grandes grupos in- vistam cada vez mais nessa frente.” Em um levantamento realizado pela Dunnhumby, empresa de pesquisa do grupo varejista britânico Tesco, com 18000 pessoas de 18 países, 79% dos brasileiros disseram que saúde e nutrição são prioridades em sua vida. Esse patamar não passa de 55% no Reino Unido e de 66% nos Estados Unidos. E, segundo um relatório da Nielsen, três quartos dos consumidores leem atentamente o rótulo dos produtos e 63% desconfiam do que consta nas embalagens. É o caso da advogada paulista Sylvia Regina Rocha Batista, de 29 anos. Há cerca de oito anos ela passou a se preocupar mais com o que consome.  “Minhas idas ao supermercado ficaram mais demoradas, pois passo um bom tempo lendo a embalagem dos alimentos antes de comprar. Mas um dos maiores problemas é o preço. Certas vezes deixo de comprar por conta do valor muito mais alto do que o dos alimentos tradicionais”, diz Sylvia. Esse é mesmo um ponto de atenção desse mercado. Um dos fatores que explicam o preço ainda salgado dos produtos é a produção em baixa escala. “São centenas de pequenos produtores e empreendedores descobrindo um mercado”, afirma Silvio. A consolidação desse segmento deve gerar preços mais atrativos ao consumidor nos próximos anos.

Saúde no prato

A questão dos preços foi um dos principais pontos levados em conta para a criação da Pic-me, companhia que comercializa frutas sem conservantes, em formato de purê, uma espécie de papinha para adultos. A empresa foi fundada em outubro de 2015 por Thiago Burgers e três sócios – o grupo de investimento Joá, do apresentador Luciano Huck, uma empresa de comunicação e o presidente de uma multinacional – e vende cada embalagem por 6 reais. “Acredito que os alimentos que contêm adição de açúcar, conservantes e sódio estão com os dias contados. Por isso, resolvi fazer parte dessa revolução e trazer produtos de uma forma acessível”, diz Thiago. Para fundar a Pic-me, ele viajou para alguns países com tradição no segmento saudável e pesquisou possíveis áreas de atuação. “Notei que as frutas eram um ponto de atenção. Muitas pessoas querem comer, mas a dificuldade de transporte e a durabilidade acabam atrapalhando”, diz. Segundo um estudo da Nielsen, 96% dos brasileiros não consomem fruta fora do lar e 92% não consideram a fruta um alimento prático. Mesmo sendo fonte de vitaminas, compostos bioativos e minerais, o consumo de frutas é menor do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde justamente por conta da falta de praticidade. Para possibilitar o encontro da fome com a vontade de comer, a Pic-me desenvolveu uma embalagem com cinco camadas de plástico e alumínio, que impossibilitam a entrada de luz e umidade e impedem a oxidação do alimento. Com a embalagem, as frutas podem ser consumidas em até um ano. O processo é todo feito no Chile, que também fabrica o produto para empresas dos Estados Unidos. “Nossa expectativa é de faturar 10 milhões de reais nesse primeiro ano de funcionamento da empresa”, diz Thiago.

Além de conquistar quem se preocupa com a saúde, os alimentos orgânicos atraem outro tipo de público: os vegetarianos e veganos (que já são cerca de 20 milhões de brasileiros, segundo o Ibope) e as pessoas com restrições alimentares, como as alérgicas a lactose e glúten. Foi pensando nesses nichos que os sócios Patrick Bouzon e Enrico Leta fundaram as marcas Vitalatte, fabricante de queijos frescos, e a Yorgus, produtora de iogurte. As 6 toneladas de produtos produzidas diariamente em Valença, no Rio de Janeiro, são 100% naturais, livres de conservantes, espessantes e aditivos químicos. E há dois anos a Yorgus iniciou a produção de uma versão sem lactose. Segundo os sócios, esse segmento está em plena expansão e hoje já representa 20% do total da categoria de iogurte.

Sem conservantes

Beleza consciente

Mas nem só de alimentos vive essa indústria que prega o consumo mais consciente. Segmentos como o de beleza já entraram nessa onda e conquistam adeptos. A Poli Óleos, por exemplo, nasceu no fim da década de 90 com o objetivo de utilizar a matéria-prima brasileira da forma mais pura possível. Maracujá, acerola, andiroba, buriti, copaíba, cupu- açu, guaraná, maracujá e tucumã são parte da lista de componentes da empresa, que comercializa óleos e ingredientes da biodiversidade para toda a indústria de beleza do país. Em 2008, Evelyn Steiner, que nasceu em uma família com atuação no agronegócio, comprou a companhia, que possui uma unidade fabril em Vinhedo, em São Paulo, e viu o negócio deslanchar. Além de produzir os óleos, certificados por entidades internacionais e com garantia de procedência – como verificação se não há mão de obra escrava no processo –, ela notou a necessidade de vender diretamente para o consumidor final. “A tendência sustentável ainda é um nicho pequeno do segmento de beleza, mas queremos ser os precursores. Afinal, a natureza foi muito generosa com o Brasil e possibilita oportunidades incríveis”, afirma Evelyn.

Em 2010, a empresária adquiriu a Ikove Organics, marca com forte presença na Europa e voltada para o mercado de exportação. Os 54 produtos como xampus, condicionadores e cremes anti-idade são comercializados em seis países, entre eles Estados Unidos, Canadá e Emirados Árabes. No Brasil, os produtos são vendidos para clínicas de estética, lojas especializadas e redes de hotelaria. “Neste ano começaremos a venda em farmácias, perfumarias e redes como Sephora. Isso deve ampliar nossa receita em 30%”, diz Evelyn. Para dar conta do aumento da produção, parte da fabricação dos itens da Ikove será feita em unidades terceirizadas. Até o final de 2017 a marca será comercializada em todas as regiões do país. “Esperamos faturar perto de 4 milhões de reais neste ano e temos planos de ampliar nossa fábrica quando a economia apresentar sinais de melhora”, diz Evelyn.

Estilo verde

Estilo verde

Até a moda leva empreendedores a fazer parte do movimento de orgânicos. Um exemplo é a Insecta Shoes, que produz sapatos artesanais a partir de tecidos reutilizados. A companhia nasceu em 2013 da união de duas amigas apaixonadas por moda: uma dona de brechó e uma fabricante de calçados. De olho no desperdício da indústria têxtil, Pamella Magpali e Bárbara Mattivy resolveram empreender. Com roupas que possuíam estampas interessantes no estoque do brechó, elas começaram a produção artesanal da empresa com sede em Porto Alegre. A primeira leva, de 20 pares, desapareceu em poucos dias. “É uma tendência complementar à da alimentação saudável e zelo com o meio ambiente”, diz Bárbara. Com a demanda crescendo e 100 pares vendidos por mês, elas buscaram uma nova sócia. Foi assim que Laura Madalosso, publicitária que atuou como gerente de pesquisa de moda e tendências na Renner, chegou à empresa no fim de 2014.

A Insecta Shoes tem nove funcionários, duas lojas próprias e vende por volta de 500 pares por mês no Brasil, Estados Unidos e Suécia. Os calçados custam em média 270 reais e, para conseguir ganhar escala, a companhia trabalha com uma cooperativa do Sul do país que produz tecido ecológico feito a partir de garrafas PET e algodão reciclável. Mesmo assim, a maior parte da matéria-prima ainda é fruto de garimpos em brechós. “Quatro pessoas viajam pelo Rio Grande do Sul em busca de roupas bonitas que foram descartadas”, diz Bárbara. Segundo ela, uma peça de adulto rende até sete calçados. “Acreditamos no consumo consciente e buscamos clientes com essa percepção”, afirma a fundadora. Neste ano, a Insecta Shoes deve ampliar seu processo de internacionalização e aumentar o faturamento em cerca de 50%, para 1,5 milhão de reais.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O sangue dos loucos

O SANGUE DOS LOUCOS

Médicos como Jeans-Baptiste Denis adotaram, no século XVII, a sangria e a transfusão como tratamento para mania e melancolia.

Durante o século XV, praticamente quaisquer acidentes ou doenças, incluídas as das faculdades da alma, eram explicáveis como obra dos demônios. Mesmo segundo grandes médicos do período, a fisiologia galenista que adotavam permitia admitir causas imateriais a reger as funções vitais, principalmente as mentais. Esse pandemonismo foi invalidado, durante o século XVl, pelas obras ousadas de Cornélio Agrippa, Paracelso, Weyer e outros, que tiveram influência secular na psicopatologia. Eles atribuíam mania e melancolia a causas passionais ou orgânicas e não a fantásticas atuações diabólicas.

Essa visão mais científica da loucura, contudo, não trazia grandes mudanças na prática terapêutica do médico, ainda fundada na teoria dos fluidos corporais, da tradição galenista. Entre esses fluidos (humores ou pneumas) o mais importante sempre foi o sangue. Mais ainda, depois que, em 1628, Harvey demonstrou que ele circulava pelo corpo e que, portanto, fluía também para o cérebro. Na ânsia de encontrar uma via de ação sobre ele, a sede das faculdades mentais” alteradas, os médicos perceberam que podiam regular o afluxo de sangue ao cérebro, e que, se excessivo, causava a agitação maníaca. Assim, a sangria tornou-se tratamento eletivo da mania: a retirada abundante de sangue, produzia, regularmente, calma e docilidade.

Não tardou a busca da cura da melancolia também através da circulação sanguínea. Tratava-se de irrigar o cérebro com abundante sangue novo, mais vigoroso. Qual sangue? Eis o que escreveu S. Kornfeld, em 1902, “… Em 1667, … Jean-Baptiste) Denis fez a primeira transfusão em um homem de 34 anos, levado à doença mental por um amor infeliz. Denis obteve êxito já na primeira tentativa, na qual retirou 280 gramas de sangue de uma veia do braço e nela injetou outras 140gramas retiradas da artéria da perna de um bezerro. No dia seguinte, Denis retirou mais 60 gramas de sangue e injetou pelo menos 400 de sangue do bezerro.

 No dia seguinte, a mente do paciente se clareou tanto que muito em breve ele curou-se completamente, o que foi confirmado por todos os professores da Escola de Cirurgia… Na Alemanha, Klein recomendava as transfusões de sangue, como fez Ettmuller na sua Cirurgia transfusória, em 1682, particularmente nos casos de melancolia. (Kornfeld, S. Geschte der Psychiatr, em Neuburger, M. e Pagel, J. Handbuch der Gesbachter der Mtdizin, Jena, 1902).

A lógica do tratamento era evidente: se a inquietação ou depressão melancólica resulta de um sangue debilitado ou degradado, por um amor infeliz”, um sangue novo, de um vigoroso bezerro (imune a dissabores amorosos) restauraria a normalidade. Se todos os professores da Escola de Cirurgia confirmaram a eficácia curativa do método é porque não havia doença alguma ou porque ignoravam totalmente a importância de fatores emocionais, tanto no surgimento como na remissão ou cura das doenças mentais. Em 1812, já depois do Traitér de Pinel, B. Rush ainda recomendaria que o tratamento da mania se iniciasse com “a retirada de 600 a 1200 ml de sangue, de uma só vez. Os efeitos desta primeira sangria copiosa são maravilhosos para acalmar pessoas loucas…”. Tal como pensariam os professores da “Escola de Cirurgia de Paris, em 1667.

ISAIAS PESSOTTI – escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina USP, em Ribeirão Preto. É autor de “Os nomes da Loucura” e “O século dos manicômios”.

GESTÃSO E CARREIRA

Lições que veem do espaço

LIÇÕES QUE VÊM DO ESPAÇO

O que aprender com astronautas e astrônomos sobre superação de crise, treinamento incansável e propósito no trabalho.

 Desde a célebre imagem da nave americana pousando na Lua no dia 20 de julho de 1969 e o passo em câmera lenta do astronauta Neil Arms1rong, o mundo descobriu que as fronteiras estão muito além da Terra. Especialmente a partir dali uma legião de interessados em fazer parte da descoberta do universo entrou em ação. Porém conviver com incertezas, pressão constante, medos e perigos iminentes não é para qualquer um. Quatro desbravadores do espaço contam sobre suas missões, desafios e experiências que podem ser replicados em terra firme, no dia a dia do mercado de trabalho.

Treinamento incansável

Marcos Cesar Pontes, de 53 anos, foi o primeiro astronauta brasileiro a ir para o espaço. No dia 29 de março de 2000, decolou a bordo da Soyuz TMA- 8, da plataforma l do Centro de lançamento de Baikonus, no Cazaquistão. para realizar a Missão Centenário, que teve duração de dez dias em órbita. “Antes disso tive oito anos de treinamento incansável”, diz Marcos.

Durante esse período ele ficava uma média de 12 horas por dia na Nasa, em Houston, nos Estados Unidos, imerso em atividades que remetiam à ausência da gravidade, situações emergenciais e controles operacionais da espaçonave. Segundo o astronauta, formado em engenharia, o treinamento excessivo foi uma das lições mais importantes que aprendeu – para o trabalho e para a vida. ‘”A repetição incansável de processos é o que garante a segurança. Imaginar situações adversas e pensar em soluções garante que você esteja pronto”, afirma Marcos, que era responsável por realizar os reparos da espaçonave em órbita. Ele ressalta que o espaço é um ambiente hostil, assim como a vida e o ambiente empresarial de forma geral. “Nada é previsível, a diferença é que lá qualquer erro pode ser fatal”, diz.

Decisões rápidas nas crises

Astronautas e pilotos costumam usar o termo “negrito” para resumir situações de perigo. É uma palavra mágica que descreve os procedimentos capazes de, num momento de crise, salvar vidas. Marcos Pontes relata uma situação em (IUC precisou controlar o medo e usar seus conhecimentos em negrito. Em um dos dias da missão, ele estava escalado para fazer a manutenção do sistema de comunicação e avisou os outros quatro tripulantes que perderia a comunicação interna e parte importante da comunicação de dados com o solo. “O procedimento duraria uns dois minutos. mas. mesmo depois de cumprir as etapas, seguíamos incomunicáveis”, diz Marcos. Ele estava a milhões de quilômetros de casa e ficou sem nenhum tipo de comunicação por dez minutos. “Repeti o processo. Notei que havia pulado uma fase, consertei e tudo se normalizou. Senti medo, mas a segurança por estar treinando e por saber que os sistemas críticos possuíam redundância tripla me motivaram a seguir em frente, diz.

O ex-astronauta canadense Chris Austin Hadfield, de 67 anos, viveu uma situação inusitada em 2012 durante sua terceira viagem ao espaço. Experiente, comandava a nave Soyuz TMA-07M em uma missão com quatro tripulantes até a Estação Espacial Internacional para iniciar a Expedição 35. “Estava fora da aeronave em um passeio espacial quando comecei a sentir uma dor muito forte no olho esquerdo e de repente parei de enxergar. Senti vontade de chorar, mas como não há gravidade as lágrimas não escorrem e senti uma pressão muito forte até perdi a visão dos dois olhos”, lembra. Ele descreve o momento como uma escuridão incomensurável e um silêncio profundo. “Na hora a reação natural seria entrar em pânico, mas lembrei que ainda podia ouvir e falar e alguém poderia me tirar dali. Havíamos treinado muito essas situações. Notei que o perigo é diferente do medo, estava tudo sob controle.  Não era perigoso, pois havia mais gente comigo”, diz.

Chris foi conduzido para dentro da aeronave e limpou os olhos, que haviam sido afetados por um produto químico ante embaçador de seu traje espacial. Fiquei cego no espaço e soube o que fazer graças ao treinamento e a uma recondução da mente”, afirma.

Competição constante

Pertencer ao quadro de funcionários da Nasa é como ganhar na loteria – assim definem alguns cientistas. A competição por um lugar na principal agência espacial do mundo é acirrada. Para se tornar um astronauta, Marcos disputou a primeira seleção pública de astronautas no Brasil feita pela Nasa. “Foram milhares de candidatos naquela espécie de “concurso público”, diz Marcos. Já Chris Austin Hadfield enfrentou 6 300 canadenses para conquistar seu lugar. Essa competição, porém, não acaba depois de garantir o lugar tão sonhado. Ao contrário. Às vezes, ela aumenta.

Duília Mello, de 52 anos, é uma das astrônomas brasileiras mais reconhecidas. Desde os 12 anos, al paulista de Jundiaí, criada no Rio de Janeiro já sonhava cm desvendar os mistérios do universo. Em 1981, começou a cursar astronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e fez toda sua especialização no Brasil. “Sinto orgulho por ter uma formação brasileira, mas infelizmente precisei sair do pais para ter mais reconhecimento e acesso às pesquisas”. diz. Duília destaca que uma das maiores dificuldades de atuação é a concorrência entre os cientistas. É uma pressão constante por resultados rápidos para que ninguém publique antes de você e seu trabalho seja invalidado”, afirma a cientista, que, hoje, comanda uma equipe de 100 pessoas e se especializou em analisar retratos do espaço feitos pelo telescópio Hubble.

Essa competição, claro, pode ser desgastante. Muitas vezes a comunidade não se complementa, mas compete por pioneirismos, diz a brasileira Rosaly Lopes, de 59 anos, pesquisadora sênior do planetário da Nasa. A competição acontece também para conseguir verbas para projetos, algo cada vez mais difícil – urna realidade bem parecida com a das empresas hoje. “Os recursos estão escassos. Há cinco anos cerca de30% das propostas eram financiadas. Hoje esse número fica entre 10% e 20 %, diz Rosaly.

 Dedicação integral

Como o treinamento intensivo é um dos pilares para os profissionais que atuam no espaço, é natural que a carga horária extrapole o período de oito horas diárias. E isso tem seu ônus: o pouco tempo para a vida pessoal.  “Trabalhei durante toda a minha gravidez e, quando meu filho nasceu, tirei apenas duas semanas e meia de licença”‘, afirma Rosaly, que, até hoje, trabalha em quase todos os finais de semana. Duília também está nesse barco. Para ela, é comum passar mais de 14 horas diárias dedicadas às atividades. “A saudade da família que ficou no Brasil pesa”‘, diz. Marcos, que recentemente cumpriu sua missão com a Agência Espacial Brasileira, e agora fica na Nasa, também descreve o trabalho como uma jornada árdua e de longas horas. É dedicação integral para atingir os objetivos”, diz. Por isso, para quem sonha em viajar para o espaço a trabalho, é necessário ter consciência das perdas e, sobretudo, amar o trabalho. “Eu não estava destinado a ser um astronauta. Eu tive que me transformar em um depois de milhares de dias de treinamento e horas extas de trabalho”, diz Chris.

Poder de adaptação

Outra questão importante é a duração da carreira dos trabalhadores do espaço. Assim como em alguns esportes, o tempo dedicado a profissões de astronautas é mais curto.

É fundamental, portanto, “se preparar para quando chegar a hora de aterrissarem definitiva. Limitações físicas e até mesmo a concorrência com mais jovens tiram do jogo quem ainda tem fôlego. Caso de Marcos, que fez apenas um voo espacial. Digo que valeu cada dia de treinamento para ver a terra lá de cima, diz Marcos. Contudo, ele sabe que não será escalado pela Nasa para nenhuma outra expedição, apesar de ainda morar nos Estados Unidos e trabalhar na agencia. Por isso, estuda aceitar um convite de uma empresa americana privada para participar de voos espaciais turísticos como astronauta para preparar a estação e posteriormente como guia. “Em cinco anos essa será uma realidade e quero fazer parte desse movimento que apresenta o espaço para as pessoas, diz. Marcos já possui uma empresa brasileira que vende voos espaciais turísticos e garante que há brasileiros na fila. Uma passagem custa cerca de 250 000 dólares. Esse pensamento a longo prazo é importante para t odos os profissionais: reinventar-se constantemente pensando em alternativas de mercado ajuda a manter a empregabilidade em alta.

Recompensas memoráveis

Toda a pressão, o medo, a ansiedade e, por vezes, a solidão compensam, dizem os desbravadores do espaço. Cada profissional lembra bem do momento em que todo o esforço valeu a pena. Para Rosaly, o auge foi avistar a lua Titã, de Saturno. “Eu operava o radar. Só com a câmera era impossível ver a superfície, por causa da espessa atmosfera. E logo apareceram os acidentes geográficos. Foi mágico a realidade para um astrônomo já (é como um sonho, diz.  Foi também uma imagem que levou Chris ao êxtase quando viu, pela primeira vez, a Terra de longe: “Eu me senti uma criança, a pessoa mais feliz do mundo. Eu estava no espaço, sem peso, e cheguei lá em apenas oito minutos e 42 segundos”, afirma.

Já Duília leva consigo o marco da s descobertas. Ela foi responsável pela localização da supernova SN 1997D e participou também da descoberta das chamadas bolhas azuis, as estrelas órfãs, sem galáxias. “Sinto felicidade todos os dias, mesmo com tantos desafios. Fazer descobertas é motivador, e ver que uma mulher chegou até aqui sozinha prova que não há mesmo fronteiras, nem questões de gênero que podem impedir você de sonhar”, diz Duília. E Marcos sente orgulho por ter sido o primeiro brasileiro a entrar em órbita. “É uma obra de arte sem precedentes ver tudo lá de cima.  Você sente que tudo valeu a pena”, diz.  “É viciante e eu quero mais”. Esse sentimento é o que move os astronautas – e o que pode mover você a ser sempre um profissional melhor que deseja alcançar resultados surpreendentes (mesmo bem longe da gravidade zero).

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 13-16

Continuação do Sermão da Montanha

Cristo recentemente havia chamado os seus discípulos e lhes dito que eles seriam pescadores de homens; aqui lhes diz que Ele os designou para serem o sal da terra, e a luz do mundo, para que eles pudessem realmente ser o que se esperava que eles fossem.

I – “Vós sois o sal da terra”. Seria um incentivo para eles, e um sustento durante seus sofrimentos, o fato de que, embora fossem tratados com desprezo, ainda assim eles seriam verdadeiramente as bênçãos do mundo, e ainda mais por sofrer dessa maneira. Os profetas, que tinham vindo antes deles, eram o sal da terra de Canaã; mas os apóstolos eram o sal de toda a terra, pois deveriam ir por todo o mundo para pregar o Evangelho. Era desanimador para eles o fato de serem tão poucos e tão fracos. O que eles poderiam fazer em uma província tão grande como toda a terra? Nada, se fossem trabalhar pelo poder das armas e por golpes de espadas. Mas, começando a trabalhar tão silenciosamente como o sal, um punhado deste sal propagaria o seu sabor por todos os lugares; percorreria grandes distâncias, e trabalharia imperceptível e irresistivelmente, como o fermento (cap. 13.33). A doutrina do Evangelho é como o sal; ela é viva, eficaz e penetrante (Hebreus 4.12); ela alcança o coração (Atos 2.37). Ela purifica, dá sabor e conserva a salvo do apodrecimento. Nós lemos sobre o sabor (ou cheiro) do conhecimento de Cristo (2 Coríntios 2.14); qualquer outro conhecimento é insípido sem ele. Um concerto perpétuo é chamado de concerto de sal (Neemias 18.19); e o Evangelho é um concerto perpétuo. O sal era exigido em todos os sacrifícios (Levíticos 2.13), no templo espiritual de Ezequiel (Ezequiel 43.24). Agora, os discípulos de Cristo, tendo eles mesmos aprendido a doutrina do Evangelho, e sendo usados para ensiná-la a outros, eram como o sal. Os cristãos, como ministros especiais, são o sal da terra.

1.Se eles fossem como deveriam ser, eles seriam como um bom sal, branco e miúdo e em muitos grãos, mas muito útil e necessário. Diz Plínio: “Sem o sal, a vida humana não se mantém”. Veja nisto:

(1) Que eles devem estar, em si mesmos, temperados de acordo com o Evangelho, com o sal da graça; pensamentos e gostos, palavras e ações, tudo temperado com a graça (Colossenses 4.6). “Tende sal em vós mesmos e… uns com os outros” (Marcos 9.50).

(2) O que eles devem ser para os outros. Eles não devem apenas ser bons, mas fazer o bem, devem conquistar o seu lugar na mente das pessoas, não servir a nenhum interesse secular deles mesmos, mas devem poder se transformar no sabor e no tempero do Evangelho.

(3) As grandes bênçãos que eles representam para o mundo. A humanidade, repousando na ignorância e na maldade, era um grande amontoado de coisas insípidas e prontas a apodrecer. Mas Cristo enviou os seus discípulos para que, pelas suas vidas e doutrinas, a temperassem com conhecimento e graça, e assim a tornassem aceitável a Deus, diante dos anjos e de todos aqueles que apreciam as coisas divinas.

(4) Como eles devem esperar ser usados. Ele s não devem ficar amontoados, não devem sempre permanecer juntos em Jerusalém, mas devem se espalhar, como o sal sobre a comida, um grão aqui e outro ali; como os levitas se espalharam em Israel, para que, onde quer que vivessem, pudessem transmitir o seu sabor. Alguns observaram que, embora os supersticiosos digam, tolamente, que é um mau presságio ter sal jogado sobre nós, na verdade é um mau presságio ter o sal retirado de nós.

2.Se não fossem como deveriam ser, eles seriam como o sal que perdeu o seu sabor. Se vocês, que devem temperar os outros, não têm sabor, são vazios de vida espiritual, de tempero e de vigor. Se um cristão é assim, especialmente se um ministro é assim, a sua condição é muito triste, pois:

(1) Ele é irrecuperável: de que maneira ele poderá ser temperado? O sal é um remédio para a comida sem sabor, mas não existe remédio para o sal insípido. O cristianismo dá um gosto especial ao homem. Mas se o homem absorvê-lo e continuar a professá-lo, e ainda assim permanecer vivendo do mesmo modo como um tolo, sem graça e insípido, nenhum a outra doutrina, nenhum outro meio poderá ser aplicado para dar-lhe sabor. Se o cristianismo não puder fazê-lo, nada o fará.

(2) Ele é infrutífero: consequentemente, ele não serve para nada. Para que ele poderá ser usado, em que não cause mais mal que bem? Assim como um homem sem razão, é um cristão sem a graça. Um homem mau é a pior das criaturas, um cristã o mau é o pior dos homens; e um ministro mau é o pior dos cristãos.

(3) Ele está condenado à ruína e à rejeição. Ele será expulso da igreja e da comunhão de fé, para as quais ele representa um peso e uma mancha; e ele será pisado pelos pés dos homens. Que Deus seja glorificado através da vergonha e da rejeição daqueles por quem Ele foi rejeitado, e que não se fizeram adequados para nada, exceto para serem pisados.

II – “Vós sois a luz do mundo” (v. 14). Isto também dá indícios de que eles são tão úteis quanto o sal (“Nada é mais útil que o sol e o sal”), porém são mais gloriosos. Todos os cristãos são luz no Senhor (Efésios 5.8), e devem resplandecer como astros (Filipenses 2.15), mas ministram de uma maneira especial. Cristo chama a si mesmo de Luz do mundo (João 8.12), e eles são trabalhadores, juntamente com Ele, e têm uma parte da sua honra depositada sobre si mesmos. É verdade que a luz é doce, ela é bem-vinda; a luz do primeiro dia do mundo o foi, quando resplandeceu nas trevas; assim é a luz da manhã de cada dia; assim é o Evangelho, e aqueles que o transmitem, para todas as pessoas sensatas. O mundo estava em trevas, mas Cristo chamou os seus discípulos justamente   para brilharem neste mundo; e, para que eles possam fazer isto, é dele que eles obtêm a luz.

Esta semelhança é aqui explicada em dois aspectos:

1.Sendo a luz do mundo, eles são reconhecidos e visíveis, e têm muitos olhos sobre si. Uma cidade que está edificada sobre um monte não pode ficar escondida. Os discípulos de Cristo, particularmente aqueles que são ativos e zelosos no seu ministério, se tornam notáveis e são observados como faróis de orientação. Eles trarão sinais (Isaias 7.18), serão homens portentosos (Zacarias 3.8); todos os seus vizinhos os estarão observando. Alguns os admiram, os elogiam, se alegram por eles e estudam para imitá-los; outros os invejam, odeiam, censuram e estudam para destruí-los. Desta forma, eles devem se preocupar em agir com cuidado, por causa dos que os observam; eles são espetáculos para o mundo, e devem tomar cuidado com tudo o que pareçam mau, porque são muito observados. O s discípulos de Cristo eram homens desconhecidos antes que Ele os chamasse, mas o caráter que Ele lhes atribuiu lhes dignificou. E, como pregadores do Evangelho, eles criaram um padrão; e embora alguns os tenham condenado por isto, eram respeitados por outros, e se assentarão sobre tronos e julgarão (Lucas 22.30). Pois Cristo irá honrar aqueles que o honram.

2.Sendo a luz do mundo, eles devem iluminar e dar luz aos outros (v. 15), e, portanto:

(1) Eles se estabelecerão como luzes. Cristo acendeu estas candeias, elas não serão colocadas debaixo de alqueires (isto é, cestos), nem estarão sempre confinadas, como estão a gora, às cidades da Galileia, ou às ovelhas perdidas da casa de Israel, mas serão enviadas a todo o mundo.  As igrejas são os castiçais, os castiçais de ouro onde se colocam estas luzes, para que a sua luz possa  ser difundida, e o Evangelho é  uma luz tão forte, e transmite tanto da sua própria evidência, que, como um a cidade sobre um monte, ele não pode  ficar escondido, não pode deixar de evidenciar que é de Deus a todos aqueles que não fecharem voluntariamente seus olhos a ele. Ele dará luz a todos aqueles que estiverem na casa, àqueles que forem atraídos a ele e vierem até ele. Aqueles a quem ele não der luz, devem agradecer somente a si mesmos; eles não estarão na casa com ele, não farão uma investigação imparcial e diligente dele, mas estarão envolvidos em seus próprios preconceitos.

(2) Eles devem resplandecer como luzes: 

[1] Pela sua boa pregação.  Eles deverão transmitir o conhecimento que têm para o bem dos outros; não escondê-lo sob um cesto, mas transmiti-lo. O talento não deve ficar envolto num pano, mas deve ser transmitido. Os discípulos de Cristo não devem se esconder na privacidade e na obscuridade, com a desculpa de contemplação, recato ou autopreservação, mas, por terem recebido o dom, devem ministrá-lo (Lucas 12.3). 

[2] Pela sua vida correta. Eles devem ser candeias que ardem e alumiam (João 5.35); devem evidenciar, pelo seu comportamento, que são verdadeiramente seguidores de Cristo (Tiago 3 .13). Para os outros, eles devem representar instrução, orientação, estímulo e consolo (Jó 29.11).

Observe aqui, em primeiro lugar, como a nossa luz deve brilhar, realizando coisas boas que os homens possam ver e aprovar, obras que tenham boa reputação entre aqueles que não as têm, e que, portanto, lhes darão motivo para pensarem bem do cristianismo. Nós devemos realizar boas  obras que possam ser vistas para a edificação de outros, mas não que possam  ser vistas para a nossa própria ostentação; nós devemos orar em segredo, e o que estiver entre Deus e as nossas  almas deve  ser conservado conosco; mas aquilo que é aberto e óbvio à vista dos homens deve ser feito de modo coerente com a nossa profissão de fé, e de um modo que glorifique a Deus (Filipenses 4.8). Aqueles que estão à nossa volta não devem apenas ouvir falar das nossas boas obras, mas de vem ver as nossas boas obras, para que possam se convencer de que a religião é algo mais do que meras palavras, e que não fazemos dela somente uma profissão de fé, mas que permanecemos sob o seu poder.

Em segundo lugar, para que finalidade a nossa luz deve resplandecer. Para que aqueles que vejam as nossas boas obras possam ser levados a glorificar, não a nós (que era o que os fariseus desejavam, e que prejudicava todo o seu desempenho), mas ao nosso Pai que está nos céus. Observe que a glória de Deus é o bem supremo que devemos procurar em tudo o que fizermos na religião (1 Pedro 4.11). Neste centro, as linhas de todos os nossos atos devem se encontrar. Devemos não somente nos empenharmos para glorificar, nós mesmos, a Deus, mas também devemos fazer tudo o que pudermos para motivar os outros a glorificá-lo. A visão das nossas boas obras fará isto, dando-lhes:

1.Motivos para louvar a Deus. Em outras palavras: “Deixe que vejam as suas boas obras, para que possam enxergar o poder da graça de Deus em sua vida, e assim deem a Ele glória e ações de graças por ter concedido tal poder aos homens”.

2.Motivos de religiosidade. Em outras palavras: “Deixe que vejam as suas boas obras, para que possam se convencer da verdade e da excelência da religião cristã. Que isto provoque uma emulação sagrada, para que imitem as suas boas obras, glorificando, deste modo, a Deus”. Observe que o comportamento regular, santo e exemplar dos santos pode fazer muita coisa com relação à conversão dos pecadores; aqueles que não têm conhecimento da religião podem, por meio disso, ser levados a conhecê-la. Os exemplos ensinam. E aqueles que têm um preconceito contra a religião cristã podem, por meio deles, ser levados a amar o cristianismo. Consequentemente, existe uma virtude vitoriosa em um comportamento devoto.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5: 3-12

O Sermão da Montanha

Cristo inicia o seu sermão com bênçãos, pois Ele veio ao mundo para nos abençoar (Atos 3.26), como o Sumo Sacerdote da nossa profissão; como o bendito Melquisedeque; como aquele em quem serão benditas todas as famílias da terra (Genesis 12.3). Ele veio não apenas para nos trazer bênçãos, mas para derramar e declarar bênçãos sobre nós. E aqui Ele o fez como alguém que tem autoridade, como alguém que pode conceder bênçãos, e até mesmo a vida, para sempre. Aqui a bênção é repetidamente prometida aos bons; o fato de que Ele os chame de bem-aventurados, faz com que eles o sejam; pois aqueles abençoados por Ele, são verdadeiramente abençoados. O Antigo Testamento termina com uma maldição (Malaquias 4.6); porém o Evangelho se inicia com uma bênção, pois aqui fomos chamados para herdar a bênção. Cada uma das bênçãos que Cristo profere aqui tem uma dupla intenção:

1.Mostrar quem são aqueles que devem ser considerados verdadeiramente bem-aventurados, e qual é o seu caráter.

2.Em que consiste a verdadeira bem-aventurança, as promessas feitas a pessoas de determinadas características, cujo desempenho as tornará bem-aventuradas. Agora:

3.Isto tem o objetivo de corrigir os enganos devastadores de um mundo carnal e cego. A bem-aventurança é aquilo que os homens fingem procurar obter. “Quem nos mostrará o bem?” (Salmos 4.6). Mas muitos confundem o seu objetivo e formam uma noção equivocada de felicidade, e então não é de admirar que errem o caminho; eles escolhem as suas próprias ilusões e cortejam uma sombra. A opinião geral é: ‘Bem-aventurados os que são ricos, e grandiosos, e honoráveis no mundo; eles passam seus dias no riso e seus anos no prazer; eles comem o que engorda e bebem o que é doce, e têm a mão erguida a todos os que estão à sua frente, e todos os rostos se curvam diante dos seus rostos; feliz es as pessoas que estão nesta situação; e os seus desígnios, objetivos e propósitos, consequentemente; eles bendizem ao avarento (SaImos 10.3); eles serão ricos. Agora o nosso Senhor Jesus vem corrigir este erro fundamental, trazer uma nova hipótese, e nos dar uma noção diferente de bem-aventurança e de pessoas bem-aventuradas, que, por mais paradoxal que possa parecer aos preconceituosos, ainda é, em si mesma, e parece ser a todos os que são esclarecidos em termos de salvação, uma regra e uma doutrina de verdade e certeza eternas, segundo as quais em breve seremos julgados. Se este é, portanto, o início da doutrina de Cristo, o início de um procedimento cristão deve consistir em levar ao máximo estas medidas de felicidade, direcionando, de acordo com elas, aquilo que buscamos.

2.Isto tem o objetivo de eliminar o desânimo dos fracos e dos pobres que recebem o Evangelho, assegurando-lhes que o seu Evangelho não tornou bem-aventurados somente aqueles que são eminentes por terem dons, graças, conforto e utilidade; mas que até mesmo o menor no reino dos céus, cujo condição seja justo diante de Deus, é bem-aventurado nas honras e nos privilégios daquele reino.

3.Tem o objetivo de convidar as almas a Cristo, e de abrir caminho, nos seus corações, para a sua lei. O fato de Cristo proferir estas bênçãos, não no final do seu sermão, despedindo-se das pessoas, mas no início, preparando-as para o que Ele ainda tem a dizer a elas, pode nos recordar o monte Gerizím e o monte Ebal, onde foram lidas as bênçãos e as maldições da lei (Deuteronômio 27.12 etc.). Ali, as maldições eram expressas, e as bênçãos, somente sugeridas; aqui, as bênçãos são expressas, e as maldições, sugeridas: nos dois casos, a vida e a morte estão apresentadas diante de nós; mas a lei pare­ cia mais um ministério da morte, para nos dissuadir do pecado; o Evangelho parece uma revelação da vida, para nos atrair a Cristo, pois somente nele está todo o bem. E aqueles que viam as curas graciosas realizadas pela sua mão (cap. 4. 23,24), e agora ouviam as palavras graciosas que procediam dos seus lábios, diriam que Ele era feito de amor e doçura.

4.Este sermão tem o objetivo de estabelecer e resumir os artigos do acordo entre Deus e a homem. O objetivo da revelação divina é nos deixar saber o que Deus espera de nós, e o que podemos esperar dele; e em nenhum lugar ele está mais completamente definido em poucas palavras do que aqui, nem com uma referência mais exata a cada um; e este é o Evangelho em que nós devemos crer, pois o que é a fé, a não ser estar de acordo com estas características e confiar nestas promessas1 O caminho para a felicidade está aberto aqui, e já se tornou uma estrada (lsaias 35.8, versão NTLH); e o fato disto vir dos lábios de Jesus Cristo dá a entender que dele, e por Ele, nós iremos receber tanto a semente como o fruto, tanto a graça necessária como a glória prometida. Nada acontece entre Deus e o homem caído, a não ser por intermédio da mão de Jesus Cristo. Alguns dos pagãos mais sábios tiveram noções de bem-aventuranças diferentes do resto da humanidade, e ansiavam por estas, do nosso Salvador. Sêneca, incumbido de descrever um homem bem-aventurado, escreveu que somente um homem honesto e bom pode ser assim chamado: De Vita Beata, cap. 4. Cui nullum bonum malumque si nisi bonus malusque animus. Quem nec extollant forluita, nec fran9ant. Cui vera voluptas erit voliptatum comtemplio. Cui unum bonum honestas, unum malum turpitudo Em sua avaliação, noda é bom ou mau, exceto um coração bom ou mau, aquele que nada exalta ou desanima, cujo verdadeiro prazer consiste no desprezo ao prazer. Alguém a quem o único bem é a virtude, e o único mal: a depravação.

O nosso Salvador nos dá aqui oito características de pessoas bem-aventuradas, que representam, para nós, as principais graças de um cristão. Em cada uma delas, uma bênção é proferida: “Bem-aventurados os…”, e para cada uma, uma bênção futura é prometida, que é expressa de maneiras variadas, como para adequar-se à natureza da graça ou da obrigação recomendada.

Nós perguntamos: Quem é bem-aventurado? A resposta é:

 I – Os pobres de espírito são bem-aventurados (v. 3). Existe uma pobreza de espírito que está muito longe de tornar os homens bem-aventurados; ela é um pecado e uma covardia enganosa, um medo vil, e uma sujeição voluntária aos desejos humanos. Mas a pobreza de espírito a que Jesus se refere é uma disposição graciosa da alma, pela qual nós nos esvaziamos de nós mesmos para termos o nosso ser preenchido com Jesus Cristo. Ser pobre de espírito é:

1.Sermos pobres com satisfação, estando dispostos a nos esvaziar das riquezas do mundo, se Deus ordenar que isto aconteça conosco; trazer a nossa mente à nossa condição, quando esta for humilde. Muitos no mundo são pobres, mas de espírito elevado; pobres e orgulhosos, murmurando e reclamando, culpando o seu destino. Mas nós devemos nos conformar com a nossa pobreza, devemos saber estar abatidos e até necessitados (Filipenses 4.12). Reconhecendo a sabedoria de Deus ao nos indicar a pobreza, devemos estar à vontade nela, suportar pacientemente as suas inconveniências, ser gratos pelo que temos, e aproveitar tudo ao máximo. Isto significa abandonar toda a riqueza do mundo e não dirigir os nossos corações a ela, mas alegremente suportar perdas e desapontamentos que possam nos atingir no estado mais próspero. Isto não significa – com orgulho ou com desculpas – nos fazermos pobres, despojando-nos do que Deus nos deu, especialmente como aqueles da igreja de Roma, que fazem voto de pobreza e, ainda assim, atraem as riquezas das nações; mas se nós formos ricos no mundo, devemos ser pobres em espírito, isto é, devemos ser condescendentes com os pobres e solidários para com eles, como tocados pelo sentimento das suas fraquezas. Devemos esperar a pobreza e estar preparados para ela; não devemos temê-la nem evitá-la desordenadamente, mas devemos recebê-la bem, especialmente quando ela nos sobrevier por mantermos um a boa consciência (Hebreus 10.34). Jó foi pobre de espírito quando bendisse a Deus tanto por dar como por tirar.

2.E sermos humildes aos nossos próprios olhos. Ser pobre de espírito é pensar com modéstia a respeito de nós mesmos, do que somos, do que ternos e fazemos; os pobres frequentemente são compreendidos, no Antigo Testamento, como humildes e aqueles que se sacrificam, em oposição àqueles que estão confortáveis e os orgulhosos. E sermos como crianças, na opinião que temos a nosso respeito, considerando-nas, às vezes, como frágeis, e até insignificantes (cap. 18.4; 19.14). A igreja de Laodiceia era espiritualmente pobre, podendo ser considerada até mesma em desgraça. Financeiramente, havia abundância, a ponto de ela não ter falta de nada (Apocalipse 3.17). Por outro lado, Paulo era rico espiritualmente, abundante em dons e graças, e ainda assim pobre de espírito, menor que o menor dos santos, e não tinha nada que viesse de sua própria iniciativa. Ser pobre de espirita é olhar com santo desprezo para nós mesmos, valorizar os outros e nos desvalorizar, em comparação com eles. Ser pobre de espírito é estar disposto a se tornar inferior, pobre e pequeno para fazer o bem; é adequar todas as coisas a todos os homens. E reconhecer que Deus é grande, e que nós somos pequenos; que Ele é santo e nós somos pecadores; que Ele é tudo e nós não somos nada, menos do que nada, piores do que nada, e é nos humilharmos diante dele, e sob a sua mão poderosa.

3.Este sentimento não deve nascer de uma grande confiança na nossa própria justiça e força, para que possamos contar somente com os méritos de Cristo para a nossa justificação, e o Espírito e a graça de Cristo para a nossa santificação. Aquele espírito quebrantado e contrito, com o qual o publicano pediu misericórdia para um pobre pecador, é esta pobreza de espírito. Nós devemos nos chamar de pobres, porque sempre precisamos da graça de Deus, sempre imploramos à porta de Deus, sempre estamos em sua casa.

Agora;

(1) Esta pobreza de espírito é colocada em primeiro lugar, entre as graças cristãs. Os filósofos não reconhecem a humildade entre as suas virtudes morais, mas Cristo a coloca em primeiro lugar. A autonegação é a primeira lição a ser aprendida na sua escola, e a pobreza de espírito é considerada a primeira bem-aventurança. A base para todas as outras graças está na humildade. Aqueles que querem edificar algo elevado, devem começar por baixo, e isto é uma excelente preparação para a entrada do Evangelho da graça na alma; é conveniente que o solo receba a semente. Aqueles que estão cansados e sobrecarregados são os pobres de espírito, e eles encontrarão descanso em Cristo.

(2) Eles são bem-aventurados. São bem-aventurados neste mundo. Deus olha graciosamente por eles. Eles são os seus pequeninos. A eles, Deus dá mais graça; eles vivem a vida de modo mais confortável e se sentem bem com a sua vida. Nada lhes acontece de maneira aleatória; ao passo que os de espírito elevado se sentem sempre ansiosos e espiritualmente desconfortáveis.

(3) Deles é o Reino dos céus. Assim se compõe o reino da graça; somente eles estão qualificados para ser membros da igreja de Cristo, que é chamada de congregação dos aflitos (ou dos pobres, SaImos 74.19); o reino da glória está preparado para eles. Aqueles que se humilham desta maneira, e que estão de acordo com Deus quando Ele permite que sejam humilhados, serão exaltados. Os de espírito elevado se vão com as glórias dos reinos da terra; mas as almas humildes, mansas e frutíferas obtêm a glória do reino dos céus. Nós estamos prontos para pensar, a respeito dos que são ricos e fazem o bem com as suas riquezas, que, sem dúvida, deles é o reino dos céus; pois eles podem acumular uma boa segurança para o futuro. Mas o que farão os pobres, que não têm os recursos para fazer o bem? Ora, a mesma felicidade é prometida àqueles que são pobres e se satisfazem com isto, e àqueles que são ricos e que fazem um uso proveitoso de sua abundância. Se eu não for capaz de gastar os meus recursos com alegria para Ele, mas só for capaz de passar necessidades com alegria por Ele, ainda assim serei recompensado. E nós não servimos a um Senhor bom?

 

II – Os que choram são bem-aventurados (v. 4); “Bem-aventurados os que choram”. Esta é outra bênção aparentemente estranha, e adequadamente segue a anterior. Os pobres estão acostumados a chorar, os pobres graciosos choram graciosamente. Nós podemos pensar que aqueles que são felizes são bem-aventurados, mas Cristo, que chorou muito, Ele mesmo diz: “Bem-aventurados os que choram”. Existe um pesar pecaminoso na tristeza do mundo, que é um inimigo à bem-aventurança; a melancolia desesperada, em um registro espiritual, e um pesar desconsolado, em um registro temporal. Existe um pesar natural, que pode provar ser um amigo da bem-aventurança, pela graça de Deus que opera nele, e que santifica as aflições pelas quais choramos. Mas existe um pesar gracioso, que se qualifica como uma bem-aventurança, uma seriedade habitual em que o pensamento está mortificado para as alegrias passageiras deste mundo, e se volta a um verdadeiro estado de contrição.

(1) Um pesar penitente pelos nossos pecados; este é um pesar devoto, um pesar de acordo com Deus; um pesar pelo pecado, olhando para Cristo (Zacarias 12.10). Estes são os que choram por Deus, que vivem uma vida de arrependimento, que lamentam a corrupção na sua natureza, e as suas muitas transgressões, e o que deixaram de receber de Deus por não estarem em sua presença; aqueles que, em consideração à honra de Deus, choram pelos pecados dos outros, e também choram e suspiram pelas suas abominações (Ezequiel 9.4).

(2) Um pesar solidário pelos sofrimentos dos outros; o pesar daqueles que choram com aqueles que choram, que se entristeceram por causa da reunião solene, pela desolação de Sião (Sofonias 3.18; SaImos 137.1), especialmente os que olham com compaixão para as almas que perecem, e choram por elas, como Cristo chorou por Jerusalém. Estas pessoas que se lamentam graciosamente:

(1) São bem-aventuradas. Assim como o coração se entristece com a alegria vã e pecaminosa, no pesar gracioso o coração sente uma alegria verdadeira, uma satisfação secreta, em que um estranho não interfere. Elas são bem-aventuradas, pois são como o Senhor Jesus, que foi um homem sofrido, e sobre quem jamais lemos que riu, mas que frequentemente chorou. Elas estão armadas contra as muitas tentações que assolam a alegria vã, e estão preparadas para o consolo de um perdão assinado e de uma paz acordada.

(2) Elas serão consoladas. Embora, talvez, não sejam imediatamente consoladas, ainda assim uma provisão abundante está feita para o seu consolo; a luz se espalha para elas, e, no céu, certamente serão consoladas, como Lázaro (Lucas 16.25). Observe que a alegria do céu consiste em ser perfeita e eternamente consolado, e no enxugar de todas as lágrimas. E a alegria do nosso Senhor, uma plenitude de alegria e de satisfação eterna; o que será duplamente doce para aqueles que foram preparados para isto por este pesar devoto. O céu ser á realmente um paraíso para aqueles que forem para lá chorando; será uma colheita de alegria, a retribuição por um período em que as lágrimas foram semeadas (81 126.5,6); uma montanha de alegria, em direção à qual o nosso caminho passa por um vale de lágrimas. Veja Isaías 66.10.

 

III – Os mansos são bem-aventurados (v. 5); “Bem-aventurados os mansos”. Os mansos são aqueles que tranquilamente se submetem a Deus, à sua palavra e à sua vara, que seguem as suas orientações e que estão de acordo com os seus desígnios, e que são mansos com todos os homens (Tito 3.2); que podem suportar provocações sem se irritar, sem se deixar levar a qualquer indecência; que conseguem ficar tranquilos quando os outros estão acalorados; e, na sua paciência, mantêm o controle de suas próprias almas, quando mal podem ter controle sobre qualquer outra coisa. Estes são os mansos, que rara e dificilmente são provocados, mas são rápida e facilmente tranquilizados; e que preferem perdoar vinte ofensas a vingar uma, seguindo a regra dos seus próprios espíritos. Estes mansos são aqui descritos como bem-aventurados, até mesmo neste mundo.

1.Eles são bem-aventurados, pois são como o bendito Jesus, e aprenderão dele (cap. 11.29). Eles são como o próprio Deus bendito, que é Senhor da sua ira, e em quem não existe fúria. Eles são bem-aventurados, pois têm o mais confortável e despreocupado contentamento consigo mesmos, com seus amigos, com o seu Deus; eles estão qualificados para qualquer relacionamento, e condição, qualquer companhia, qualificados para viver e qualificados para morrer.

2.Eles herdarão a terra; esta é uma citação de Salmos 37.11, e é praticamente a única promessa temporal expressa em todo o Novo Testamento. Não que eles sempre obterão grandes coisas da terra, muito menos que eles devam esperar somente isto, mas esta linha de religiosidade tem, de uma maneira especial, a promessa da vida que existe agora. A mansidão, por mais ridicularizada e subestimada que seja, tem uma tendência real de melhorar a nossa saúde, riqueza, o nosso conforto e a nossa segurança, até mesmo neste mundo. Observa-se que os mansos e tranquilos têm uma vida mais fácil, em comparação com os rebeldes e turbulentos. A expressão “herdarão a terra” pode se referir à terra de Canaã, um tipo de céu. De modo que toda a bem-aventurança do céu, e todas as bênçãos da terra abaixo dele, são a porção dos mansos.

 

IV – Os que têm fome e sede de justiça são bem-aventurados (v. 6). Alguns interpretam isto como um novo incentivo à nossa pobreza exterior, e a uma condição humilde neste mundo, que não somente expõe os homens às ofensas e ao mal, mas torna inútil a sua busca pela justiça; eles sentem fome e sede de justiça, mas o poder por parte dos seus opressores é tal, que eles não a obterão; eles só desejam aquilo que é justo e igual, mas isto lhes é negado por aqueles que não temem a Deus , nem têm consideração pelos homens. E uma situação deprimente! Mas, ainda assim, eles são bem-aventurados se sofrem estas dificuldades com uma boa consciência; que eles tenham esperança em Deus, que cuidará para que a justiça seja feita, e que fará “justiça a todos os oprimidos” (Salmos 103.6). Aqueles que se contentam em suportar a opressão, e tranquilamente se dirigem a Deus para interceder por si mesmos, serão, no devido tempo, satisfeitos, abundantemente satisfeitos, pela sabedoria e pela bondade que se manifestarão nas aparições de Deus a eles. Mas certamente isto deve ser compreendido espiritualmente, como um desejo tal que, sendo destinado a um objetivo como este, é gracioso, e é obra da graça de Deus na alma, qualificando os cristãos para os dons da graça divina.

1.A justiça é mencionada aqui representando todas as bênçãos espirituais. Veja Salmos 24.5; cap. 6.33. Elas nos são compradas pela justiça de Cristo; transmitidas e asseguradas pela imputação daquela justiça a nós; e confirmadas pela fidelidade de Deus. Vários fatos definem o que é a justiça. O fato de Cristo ter sido feito a justiça de Deus por nós. O fato da justiça de Deus ter sido feita nele. O fato de todo homem ter sido renovado na justiça, tornando-se um novo homem, trazendo em si mesmo a imagem de Deus, passando a ter um interesse em Cristo e nas suas promessas.

2.Destas coisas, devemos ter fome e sede. Nós verdadeiramente devemos desejá-las, como alguém que tem sede e fome deseja beber e comer, e não consegue ficar satisfeito com nenhuma coisa, a não ser alimento e bebida, e será satisfeito com estas coisas, embora sinta necessidade de outras. Os nossos desejos de bênçãos espirituais devem ser fervorosos e importunos; em outras palavras: “Dê-me isto, caso contrário morrerei; todo o resto é lixo e não tem valor, não satisfaz; dê-me isto, e eu terei o suficiente, mesmo que não tenha nada mais”- A fome e a sede são desejos que retornam frequentemente, e requerem satisfação renovada; assim também estes desejos santos não se baseiam em nada conseguido, mas se realizam através de perdões renovados e suprimentos novos e diários de graça. A alma avivada exige refeições constantes de justiça, de graça para realizar o trabalho de cada dia, tão pontualmente quanto o corpo vivo exige alimento. Aqueles que têm fome e sede irão trabalhar pelos suprimentos, de modo que devemos não apenas desejar as bênçãos espirituais, mas nos esforçarmos para obtê-las com o uso dos meios indicados. O Dr. Hammond, no seu catecismo prático, distingue entre fome e sede. A fome é o desejo de alimento para o sustento, assim como a justiça santificadora. A sede é o desejo de uma bebida para revigorar, assim como a justiça santificadora e o sentimento do nosso perdão.

Os que sentem fome e sede de bênçãos espirituais são bem-aventurados nestes desejos, e serão fartos destas bênçãos.

(1) Eles são bem-aventurados nestes desejos. Embora nem todos os desejos de graça sejam graça (os desejos dissimulados e débeis não o são), ainda assim um desejo como este o é; é uma evidência de alguma coisa boa, e um desejo por alguma coisa melhor. É um desejo da própria criação de Deus, e Ele não irá abandonar o trabalho das suas próprias mãos. A alma terá fome ou sede de uma coisa ou de outra; portanto, bem-aventurados aqueles que se apegam à coisa certa, que é satisfatória, e não enganadora, e não suspiram pelo pó da terra (Amós 2.6; Isaias 55.2).

(2) Eles serão fartos destas bênçãos. Deus lhes dará o que eles desejam para completar a sua satisfação. Só Deus pode fartar uma alma, pois somente a sua graça e o seu favor são adequados aos justos desejos da alma. E Ele fartará estas pessoas com graça, pela graça que, em um sentido da sua própria condição de vazios, recorre a esta plenitude. Ele enche de bens os famintos (Lucas 1.53), e os sacia (Jeremias 31.25). A felicidade do céu certamente fartará a alma. A sua justiça será completa, trazendo a graça de Deus e a sua imagem; ambas em sua plena perfeição.

 

V – Os misericordiosos são bem-aventurados (v. 7). Isto, como o restante, é um paradoxo, pois os misericordiosos não são interpretados como sendo os mais sábios, nem provavelmente serão os mais ricos; ainda assim, Cristo diz que são bem-aventurados. Os misericordiosos são piedosa e bondosamente inclinados pela piedade, ajudam e auxiliam as pessoas que estão na miséria. Um homem que não tenha recursos para ser generoso ou abundante pode ser verdadeiramente misericordioso, e assim Deus aceita a mente disposta. Nós devemos não somente suportar pacientemente os nossos próprios sofrimentos, como também devemos, pela solidariedade cristã, compartilhar os sofrimentos dos nossos irmãos; o amigo deve mostrar compaixão (Jó 6.14), e revestir-se de entranhas de misericórdia (Colossenses 3.12). E, revestidos, eles devem se apresentar para ajudar em tudo o que puderem àqueles que estão passando por algum tipo de necessidade. Nós devemos ter compaixão das almas dos outros, e ajudá-los; ter compaixão dos ignorantes, e instruí-los; ter pena dos descuidados, e adverti-los; ter compaixão dos que estão em condição de pecado e recolhê-los , como galhos sendo retirados das chamas. Nós devemos ter compaixão daqueles que estão melancólicos e em tristeza, e consolá-los (Jó 16.5); daqueles em relação aos quais temos alguma vantagem, não sendo rigorosos e severos com eles; daqueles que estão passando por necessidades, ajudando-os. Se nos recusarmos a fazer isto, qualquer que seja a nossa desculpa, nós fechamos as entranhas da nossa compaixão (Tiago 2.15,16; 1 João 3.17). Abra a sua alma, repartindo o seu pão com os famintos (Isaias 58.7,10). Um bom homem é misericordioso até mesmo com os seus animais.

Quanto aos misericordiosos: Eles são bem-aventurados; isto foi dito no Antigo Testamento: “Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre” (Salmos 41.1). Neste ponto, eles se assemelham a Deus, cuja bondade é a sua glória; ao sermos misericordiosos como Ele é, seremos, segundo a nossa medida, perfeitos, assim corno Ele é perfeito. Ê uma evidência do amor a Deus; será urna satisfação a nós mesmos, poder ser útil de alguma maneira para o benefício de outros. Uma da s alegrias mais limpas e purificadas deste mundo é a de fazer o bem. Nestas palavras: “Bem-aventurados os misericordiosos”, estão incluídas aquelas palavras de Cristo, que não se encontram nos Evangelhos: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20.35).

2.Eles alcançarão misericórdia; misericórdia dos homens, quando precisarem dela; aquele que dá água, também receberá água (nós não sabemos quando poderemos precisar de bondade dos outros, e, portanto, devemos ser bondosos); mas especialmente misericórdia de Deus, pois com o benigno Ele se mostrará benigno (Salmos 18.25). A pessoa mais misericordiosa e generosa não pode ter pretensões de méritos, mas deve correr para a misericórdia. O misericordioso irá encontrar, com Deus, misericórdia que perdoa (cap. 6.14), misericórdia fornecida (Provérbios 19.17), misericórdia que conserva (SaImos 41.2), misericórdia naquele Dia (2 Timóteo 1.18); eles herdarão o reino que lhes está preparado (cap. 25.34,35); ao passo que aqueles que não demonstram ter misericórdia terão um julgamento sem misericórdia (o que não deve ser muito diferente do fogo do inferno).

 

VI – Os limpos de coração são bem-aventurados (v. 8). “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. Esta é a mais abrangente de todas as bem-aventuranças; aqui, a santidade e a felicidade são completamente descritas e reunidas.

2.Esta é a caracte1is tica mais abrangente dos bem-aventurados: eles são limpos de coração. Observe que a verdadeira religião consiste na pureza de coração. Aqueles que são puros interiormente mostram que estão sob o poder da religião pura e imaculada. O verdadeiro cristianismo está no coração, na pureza do coração; no lavar o coração da malícia (Jeremias 4.14). Nós precisamos erguer para Deus não apenas mãos limpas, mas um coração puro (SaImos 24.4,5i 1 Timóteo 1.5). O coração deve ser puro, em oposição à contaminação de um coração honesto que tem boas intenções; e puro, em oposição à contaminação e à corrupção, como o vinho que não é adulterado, como a água sem sujeira. O coração deve ser mantido puro quanto às cobiças carnais, quanto a todos os pensamentos e desejos impuros; e quanto às cobiças do mundo. A cobiça é chamada de torpe ganância; ela abrange todas as impurezas da carne e do espírito, tudo aquilo que vem do coração e contamina o homem. O coração deve ser purificado pela fé, e precisa estar completamente voltado a Deus; ele deve ser apresentado e preservado para Cristo, como uma virgem. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro!”

3.Aqui está o consolo mais abrangente dos bem-aventurados; “eles verão a Deus”. Observe que:

(1) Ver a Deus é a perfeição da felicidade da nossa alma; vê-lo, como podemos fazer, pela fé, na nossa condição atual, é ter um céu sobre a terra; e vê-lo como faremos na nossa situação futura, no paraíso do céu. Vê-lo, como Ele é, face a face, e não mais por meio de um espelho, obscuramente; vê-lo como nosso, vê-lo e desfrutar esta visão; vê-lo e ser como Ele é, e satisfazermo-nos desta semelhança (SaImos 17.15); e vê-lo para sempre, e jamais deixar de vê-lo; esta é a felicidade do céu.

(2) A felicidade de ver a Deus é prometida àqueles que são limpos de coração, e somente àqueles. Ninguém – exceto os puros – é capaz de ver a Deus; e isto não seria uma fonte de alegria para os impuros. Que prazer teria uma alma não santificada com a “visão de um Deus santo? Da mesma maneira como ela não consegue suportar olhar para o seu próprio pecado, também não suportará olhar para a pureza de Deus; nem poderá entrar nada impuro na nova Jerusalém; mas todos aqueles que são limpos de coração, todos aqueles que são verdadeiramente santificados, têm desejos fundidos em si mesmos, que nada, exceto a visão de Deus, irá santificar; e a divina graça não deixará tais desejos insatisfeitos.

 

VII – Os pacificadores são bem-aventurados (v. 9). A sabedoria que vem do alto é, em primeiro lugar, pura, e em seguida, pacificadora; os bem-aventurados são puros com relação a Deus, e pacificadores com relação aos homens. Pois, com referência a ambos, a consciência precisa ser mantida limpa de pecados. Os pacificadores são aqueles que têm:

1.Uma disposição pacificadora: assim como, para criar uma mentira, é necessário ter a inclinação à mentira, e ser viciado nela, também para fazer a paz, é necessário ter uma afeição forte e sincera pela paz. “Pacifico sou” (Salmos 120.7). Significa amar, desejar, e deleitar-se com a paz; incorporá-la à essência do nosso ser, e estudar maneiras para estar em paz.

2.Uma conversa pacífica. Habilmente, até onde for possível, preservar a paz que não deve ser rompida, e recuperá-la, caso seja rompida; ouvir às propostas de paz conosco, e estar preparados para fazê-las aos outros; onde houver distância entre irmãos e vizinhos, fazer tudo o que for possível para diminuí-la, e ser o reparador das trincas. Fazer a paz, às vezes, é um serviço ingrato, e o que cabe àquele que tenta reconciliar dois lados é sofrer golpes de ambos; ainda assim, é um bom trabalho, e devemos nos apresentar para realizá-lo. Alguns julgam que esta é uma lição especialmente dirigida aos ministros, que devem fazer tudo o que puderem para reconciliar os que estão em divergência, e para promover o amor cristão entre aqueles que estão sob os seus cuidados.

Agora:

(1) Estas pessoas são bem-aventuradas; pois elas têm a satisfação de se divertir em mantendo a paz, e de serem verdadeiramente úteis aos outros, provendo-lhes a paz. Eles estão trabalhando juntamente com Cristo, que veio ao mundo para destruir todas as inimizades, e para proclamar a paz na terra.

(2) Eles “serão chamados filhos de Deus”; isto será uma evidência, para eles mesmos, de que o são; Deus os considerará corno tais, e, consequentemente, eles se parecerão com Ele. Ele é o Deus da paz; o Filho de Deus é o Príncipe da Paz; o Espírito de adoção é o Espírito de paz. Como Deus se declarou reconciliável com todos nós, Ele não considerará os seus filhos como aqueles que são implacáveis com as suas inimizades, uns contra os outros; pois se os pacificadores são bem-aventurados, ai dos que rompem a paz! Por consequência, parece que Cristo nunca teve a intenção de ter a sua religião propagada por fogo e espada, ou por leis penais, ou por reconhecer a inveja ou fanatismo extremo corno a marca de seus discípulos. Os filhos deste mundo adoram pescar em águas turbulentas, mas os filhos de Deus são pacificadores, os pacificas da terra.

Os que sofrem perseguições por causa da justiça são bem-aventura dos. Este é o maior paradoxo de todos, e é peculiar ao cristianismo. Consequentemente, é deixado para o final, e é mais reforçado do que qualquer um dos outros (vv. 10-12). Esta bem-a­venturança, como o sonho de Faraó, é dupla, porque é dificilmente reconhecida, e ainda assim, ela é garantida; e na última parte, há a mudança do sujeito: “Bem-aventurados sois vós”, meus discípulos e seguidores. Em outras palavras: “E com isto que vocês, que têm virtudes abundantes, devem estar mais imediatamente preocupados; pois vocês devem contar com as dificuldades e os problemas, mais do que outros homens”. Observe aqui:

1.A descrição do caso dos santos sofredores; este é um caso difícil, que desperta a compaixão.

2.Eles são perseguidos, caçados, e capturados, como os animais nocivos, que são procurados para serem destruídos; como se um cristão tivesse uma cabeça de lobo, como um malfeitor – qualquer pessoa que o encontre pode matá-lo. Eles são abandonados como os dejetos de todas as coisas; multados, aprisionados, expulsos, privados de suas propriedades, excluídos de todos os lugares de confiança e que podem trazer lucro, espancados, atormentados, torturados, sempre entregues à morte e considerados como ovelhas para o matadouro. Este tem sido o efeito da inimizade da semente da serpente contra a semente sagrada, desde os tempos do justo Abel. Era assim na época do Antigo Testamento, como vemos em Hebreus l l. 35ss. Cristo nos disse que seria assim também com a igreja cristã, e não devemos pensar que isto é estranho (1 João 3.13). Ele nos deixou um exemplo.

2.Eles são injuriados, e têm todos os tipos de maldades falsamente ditas contra si. Apelidos e palavras de acusação se ligam a eles, sobre pessoas, em particular, e sobre a geração dos justos, de maneira geral, para fazê-los odiados; algumas vezes, para fazê-los formidáveis, para que possam ser atacados poderosamente; diz-se contra eles coisas que não sabiam (SaImos 35.11; Jeremias 20.18; Atos 17.6,7). Aqueles que não tinham poder em suas mãos par a causar algum outro prejuízo, ainda podiam fazer isto. E aqueles que tinham poder para persegui-los, também achavam necessário fazê-lo para se justificarem da forma bárbara como os tratavam. Eles não podiam tê-los importunado, se não os tivessem vestido em peles de lobos; nem teriam lhes dado o pior dos tratamentos, se não os tivessem representado, primeiramente, como os piores dentre os homens. Eles serão injuriados e perseguidos. Observe que injuriar’ os santos é persegui-los, e isto será descoberto em breve, quando as palavras duras forem computadas (Judas 15), como também os cruéis escárnios (Hebreus 11.36). Eles dirão todo tipo de maldade contra vocês, com falsidade; algumas vezes, diante do trono do julgamento, como testemunhas; algumas vezes, no assento do escarnecedor, com zombarias hipócritas nas festas; eles são a canção dos bêbados. Algumas vezes diretos, como Simei amaldiçoou Davi; algumas vezes, pelas costas, como fizeram os inimigos de Jeremias. Observe que não há maldade tão negra e horrível que, em uma ocasião ou em outra, não tenha sido dita, em falsidade, sobre os discípulos e seguidores de Cristo.

1.”Por causa da justiça” (v 10); “por minha causa” (v. 11). Por causa da justiça, portanto por causa de Cristo, pois Ele está muito interessado na obra da justiça. Os inimigos da justiça são inimigos de Cristo, Isto exclui da bem-aventurança aqueles que sofrem justamente, e têm maldades ditas com verdade pelos seus crimes reais; que eles se envergonhem e se confundam, isto é parte da sua punição. Não é o sofrimento que faz o mártir, mas a causa. Os mártires são aqueles que saírem por causa da justiça, que sofrem por não pecar contra suas próprias consciências, e que sofrem por fazer a que é bom. Qualquer que seja a desculpa que os perseguidores tenham, é no poder da santidade que eles têm um inimigo; é realmente Cristo e a sua justiça que são difamados, odiados e per seguidos. “As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (SaImos 69.9; Romanos 8.36).

2.O consolo dos santos sofredores é a presentado.

1.Eles são “bem-aventurados”; pois agora, na sua vida, recebem males (Lucas 16.25), e os recebem em grande medida. Eles são bem-aventurados, pois é uma honra para eles (Atos 5.41); é uma oportunidade de glorificar a Cristo, de fazer o bem e de sentir consolo especial e visitas de graça e sinais da presença do Senhor (2 Coríntios 1.5; Daniel 3.25; Romanos 8.29).

2.Eles serão recompensados; “deles é o reino dos céus”. Na atualidade, eles têm direito a ele, e têm doces antecipações dele; e em breve tomarão posse dele. Embora não haja nada nestes sofrimentos que possa, a rigor, ser digno de Deus (pois os pecados da melhor merecem o pior), ainda. assim o reino dos céus é aqui prometido como recompensa (v. 12). “Grande é o vosso galardão nos céus”. Tão grande, a ponto de transcender o serviço. Está no céu, no futuro e fora do alcance da vista; mas está bem guardado, fora do alcance do acaso, da fraude, e da violência. Observe Deus irá cuidar daqueles que perdem por Ele, ainda que seja a própria vida, para que não o percam no final. O céu, no final, será uma recompensa abundante por todas as dificuldades que enfrentam os no nosso caminho. Isto é o que tem sustentado os santos sofredores de todas as épocas, esta alegria que está diante deles.

3.”Assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (v. 12). Eles foram antes de vocês, em excelência, acima do ponto aonde vocês chegaram, estiveram diante de vocês no tempo, para que pudessem ser exemplos de aflição e paciência (Tiago 5.10). Da mesma maneira, eles foram perseguidos e combatidos; e você espera ir ao céu de alguma maneira, por sua própria conta? Isaías não foi ridicularizada pelas linhas que escreveu? Eliseu, pela sua cabeça calva? Os profetas não foram todos maltrata dos desta maneira? Portanto, não se maravilhe como se fosse uma coisa estranha, não murmure coma se fosse uma coisa difícil; é um consolo ver o caminho de dificuldade, e uma honra seguir líderes como estes. Esta graça que foi suficiente para eles, para conduzi-los em meio às suas dificuldades, não faltará para você. Aqueles que são os seus inimigos são a semente e os sucessores daqueles que antigamente zombaram dos mensageiros do Senhor (2 Crônicas 36.16; cap. 23.31; Atos 7.52).

4.Portanto, “exultai e alegrai-vos” (v.12). Não é suficiente ser paciente e contentar-se sob estes sofrimentos, assim como sob as aflições comuns, e não retribuir injúria por injúria; mas devemos nos regozijar porque a honra e a dignidade, o prazer e a vantagem, do sofrimento por Cristo são muita mais consideráveis da que a dor e o opróbrio dele. Não que nós devemos nos orgulhar em nossos sofrimentos (que arruínam tudo), mas devemos nos aprazer neles, como Paulo (2 Coríntios 12.10); como sabendo que Cristo está neste lugar, de antemão, conosco, e que Ele não será tardio par a conosco (1 Pedro 4.12,13).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A tormenta da Ira

A TORMENTA DA IRA

Sentimentos nos tomam de assalto e nos arrastam com eles – e, no entanto, precisamos a todo momento conter nossos impulsos. Como combinar as duas coisas? Psicólogos estudam o controle de nossas emoções mais sombrias, como a raiva e o medo.

O calor do verão convida à vida ao ar livre. Mas, mal ouvimos, lá vem o vizinho com seu maldito aparelho de som, animando o churrasco de domingo. “Que abuso”, pensamos, já tomados de raiva. Alegria ou irritação, medo ou surpresa, pesar ou orgulho: os acontecimentos mais banais despertam múltiplas emoções. Elas acompanham cada instante do nosso cotidiano, onipresentes como o ar que respiramos.

No entanto, empenhamo-nos quase sempre em conter nossos sentimentos ou em mantê-los dentro de limites toleráveis. Assim, quase nenhuma emoção escapa ao crivo da consciência.

Todos gostam de receber um elogio do chefe, mas, se o colega invejoso está por perto, melhor não deixar transparecer demais o orgulho. Se alguém no trabalho se comporta de maneira desajeitada, contemos o riso, para não provocar antipatia. Nós, humanos, não somos apenas seres emocionais, somos seres que controlam suas emoções.

Para pesquisadores que se dedicam ao assunto, duas questões são de interesse particular, A primeira é: por que, afinal, buscamos controlar nossas emoções? Elas não são valiosas demais para ser reprimidas. Sem o afeto, por exemplo, dificilmente ajudaríamos outro ser humano ou criaríamos nossos filhos, e, sem nos roer de raiva, talvez jamais criássemos coragem para pôr o vizinho no seu devido lugar. Portanto, para que o esforço em reprimi-los?

E a segunda questão, como conseguimos conter nossas emoções? Profundamente enraizado em nossa herança biológica, o animal dentro de nós parece muito mais forte que qualquer mecanismo mental de mediação.

O porquê e o como do “controle das emoções “encontram-se no centro de uma área de pesquisa, em que psicólogos, sociólogos, antropólogos e, mais recentemente, neurocientistas têm adquirido valiosos conhecimentos. Tradicionalmente, aquela primeira questão –  se o homem pode de fato controlar emoções – sempre foi respondida afirmativamente. Os estoicos já o postulavam. Marco Aurélio (120-180 d.C.), por exemplo, escreveu em suas Meditações, “Livre da paixão, a mente humana” torna-se mais forte”. E, quase 2 mil anos depois, em O mal-estar da civilização, Sigmund Freud explicou por que emoções transbordantes seriam inconciliáveis com o convívio social. Com certeza, as emoções nem sempre trazem à tona apenas o que há de bom em nós, como o comportamento altruísta ou a solução criativa de problemas. Elas têm também seu lado sombrio: a raiva, que pode transformar-se e violência, os medos, em depressões, que por vezes, conduzem ao suicídio. Como hoje sabem os psicólogos clínicos, transtornos psíquicos são com frequência    resultado de reações emocionais desmedidas, já fora de controle.

A isso vem se somar o fato de que, em nosso mundo altamente tecnologizado, sentimentos sem freios são rápidos na produção de efeitos devastadores. Se um maluco armado ou um motorista endoidecido resolvem dar livre vazão a sua raiva, é fácil prever a catástrofe. A capacidade de regular as próprias emoções parecem, portanto, construir necessidade vital para a sobrevivência do Homo sapiens.

Como é possível, porém, regular as próprias emoções é uma questão que há muito tempo vem provocando dor de cabeça nos pesquisadores. Os exemplos mencionados por certo mostram que se trata de algo que fazemos todos os dias. Mas cuidado:  acreditar que temos nossos sentimentos sob controle está longe de significar que isso acontece de fato. Talvez eles continuem borbulhando sob a superfície da consciência. Como se sabe, essa era a opinião de Freud, que introduziu na psicologia o conceito de recalque, sentimentos muito dolorosos ou incompatíveis com o ideal que temos de nós mesmos são exilados sem maiores delongas no inconsciente. Mas a energia própria das nossas emoções precisa de escape – como numa panela de pressão -, e acaba se manifestando, por exemplo, sob a forma de perturbações neuróticas ou mesmo físicas.

Outros pesquisadores mais tarde sustentaram a hipótese de Freud. Na década de 30, Franz Alexander (1891-1964), psicanalista e um dos fundadores da medicina psicossomática, descobriu que a pressão sanguínea tende a subir de forma constante nas pessoas que reprimem sistematicamente suas emoções. Ou talvez pessoas com hipertensão que tendem a reprimir sentimentos. Não era apenas de parâmetros confiáveis para as emoções e o seu controle que Alexander carecia. Na verdade, suas descobertas baseavam-se em meros dados estatísticos, e não na experimentação. Por isso, ele não conseguiu elucidar a possível relação de causa e efeito existente entre o controle das emoções e a saúde de um indivíduo.

De lá para cá, no entanto, a psicologia estudou melhor as emoções e é capaz de manipulá-las em laboratório. Isso abre caminho para que o modo como os seres humanos regulam seus sentimentos seja estudado em experimentos controlados. É o que faz, por exemplo, James Gross, psicólogo da Universidade Stanford, na Califórnia. Ao lado de sua equipe, ele investiga as estratégias que permitem controlar os sentimentos e de que forma isso afeta o bem-estar psíquico e a saúde. De início, uma surpresa desagradável aguarda os voluntários no laboratório de Gross: eles teriam de assistir a filmes chocantes, gravações em vídeo que despertam repulsa, como a amputação de um braço ou rituais africanos exibindo a prática da circuncisão. Não vale virar o rosto. Afinal, só dessa maneira é possível assegurar a indução de estados emocionais intensos.

Num desses experimentos, Gross solicitou à metade de seus voluntários que, na medida do possível, não fizessem caretas ao assistir às cenas. Eles deveriam se concentrar em manter expressão neutra, de modo que ninguém pudesse ver o que estavam sentindo. Esse tipo de autocontrole é chamado de “supressão” pelos psicólogos.

A outra metade não recebeu instrução alguma. Gross filmou as expressões faciais do grupo e registrou reações fisiológicas como condutabilidade elétrica da pele e frequência e imensidade dos batimentos cardíacos. Todos os participantes responderam a um questionário sobre o que haviam sentido durante a exibição dos vídeos.

REPRESSÃO FATAL

A maioria dos participantes solicitados a manter a expressão neutra conseguiu esconder sinais de suas emoções. Nem por isso, no entanto, eles sentiram menos repugnância, nojo ou até medo – conforme se verificou pelas respostas ao questionário – do que aqueles que haviam assistido às mesmas cenas sem ter recebido instruções específicas. Mas um dado chamou a atenção: apesar da suposta impassibilidade, o sistema nervoso autônomo reagiu com particular imensidade nos que haviam reprimido a emoção, o que permite inferir uma reação veemente de stress. Esse dado fortalece a noção de que controlar emoções fortes pode ser nocivo à saúde.

Todavia, o efeito negativo do controle da expressão emocional não se restringe ao aumento do stress. Como já puderam demonstrar em vários estudos os psicólogos Roy Baumeister e Dianne Tice, ambos da Universidade Estadual da Flórida, em Tallahassee, pessoas que reprimem suas emoções são menos capazes de resolver desafios intelectuais. Jane Richards, da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que os repressores de sentimentos têm mais dificuldade em memorizar detalhes de experiências emocionalmente significativas. Tampouco no relacionamento interpessoal desse se saem tão bem, como demonstrou Emily Butler, da Universidade do Arizona em Tucson. Em questionários com respostas anônimas, pessoas que não deixam transparecer nenhum sentimento em conversa com seus interlocutores foram consideradas por estes menos simpáticas – e também menos interessantes.

Claro está que, além dos efeitos físicos de curta duração, o controle das emoções acarreta consequências duradoras. Num estudo publicado em 2003, James Gross e Oliver John, da Universidade Berkeley, perguntaram a estudantes em que medida descontrolavam seus sentimentos no dia-a-dia. Com base nas respostas, os voluntários foram divididos em dois grupos, o daqueles que davam expressão mais frequente as suas emoções e o dos “repressores”.

A comparação resultou numa série de diferenças significativas. Quem preferia engolir a raiva, o medo, e o pesar revelou-se em média, mais pessimista, com tendência à depressão e mais inseguro. Além disso, essas pessoas fazem menos amizades e suas relações tendem a ser superficiais. Temperamentos mais frios, portanto, parecem de início em desvantagem, em diversos aspectos.

Um estudo do pesquisador belga Johan Denollet, médico do Hospital Universitário de Antuérpia, deu ainda um último empurrãozinho nessa conclusão já preocupante. Ele perguntou a pessoas que haviam sofrido infarto quais eram seus “hábitos emocionais”. Denollet queria saber desses pacientes com que frequência eles tinham mau humor ou outras emoções negativas, tais como medo, raiva ou remorso, e se compartilhavam seus estados de espírito com os outros ou preferiam guarda-los para si. Quando, dez anos depois, Denollet tornou a contatar os mesmos pacientes, com o intuito de repetir as perguntas, cerca de 5% deles haviam morrido. Mas tanto entre os que haviam relatado ter emoções negativas com frequência acima da média como entre os que tinham demonstrado tendência a à repressão emocional, os mortos perfaziam um total de 25%. Ou seja, uma taxa de mortalidade cinco vezes maior. Dar vazão aos sentimentos parece, portanto, não apenas humano como também –  e literalmente – de importância vital.

INTERIORIDADE E EMOÇÃO

As descobertas de Denollet nos deixam num dilema. A psicologia nos diz que, sem controlar as emoções, não podemos ir adiante; mas, ao fazê-lo, nos tornamos indivíduos mais solitários e fisicamente doentes. Felizmente, pesquisas mais recentes apontam uma possível saída. Controlar as emoções não tem necessariamente consequências ruins, basta fazermos uso correto desse controle.

Nos estudos mencionados os voluntários controlavam apenas seu comportamento, e não os sentimentos em si. Mas outra modalidade de controle das emoções tem por alvo menos o comportamento visível que a experiência menor, subjetiva.

A vida cotidiana nos mostra que isso é possível. Somos capazes de ver a mesma situação sob diferentes ângulos e, mediante uma alteração no modo de pensar, de exercer influência sobre nossas emoções. Um garçom demorado, por exemplo, é capaz de nos fazer ferver o sangue. Em geral, porém, basta observar que o pobre homem está apenas atarantado com o grande fluxo de fregueses que nossa irritação se dissipa.

Diversos pesquisadores estudam de que forma esse controle cognitivo das emoções atua – e se ele é capaz de evitar as consequências negativas já descritas. Mas como ensinar voluntários a se sentir, com a força do pensamento, menos mal diante de imagens de cenas horripilantes solicitando a eles, por exemplo, que reflitam sobre as sequências em vídeo com a máxima objetividade, ou seja, que contemplem as cenas de uma amputação, por exemplo, com os olhos de um médico voluntarioso que se valem dessa estratégia de racionalização não apenas deixam transparecer mais raramente sentimentos negativos em seu comportamento, como também dizem experimentar menos mal-estar e repulsa. Além disso, nesses experimentos, verificou-se menor ativação do sistema nervoso autônomo.

É possível, portanto, que certas estratégias cognitivas sejam o caminho das pedras para o controle das emoções. Se podemos manipular nossos sentimentos de acordo com o modo como avaliamos uma situação, então isso deve ser passível de verificação no cérebro. Assim pensaram também Kevin Ochsner e Silvia Bunge, hoje pesquisadores da Universidade Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Davis, respectivamente.

A MENTE NO TOMÓGRAFO

Os neuropsicólogos examinaram voluntários com o auxílio da tomografia por ressonância magnética funcional (flvtRI).  Esse método torna visível a atividade em diferentes regiões cerebrais por meio do teor de oxigênio no sangue. Durante a tomografia, Ochsner e seus colegas exibiram imagens chocantes de cirurgias, de crianças com doenças fatais e de cães bravos mostrando os dentes. Eles ora pediam aos participantes que apenas as contemplassem, ora que se distanciassem delas o máximo possível, empregando para tanto uma estratégia específica, treinada de antemão. Essa estratégia consistia na reelaboração cognitiva da “história por trás da imagem.” Por exemplo, “Imagine que o bebê da imagem logo estará curado”. Ou, “O cachorro está bem longe de você, contido por uma cerca alta”. Deu certo. quando os voluntários seguiram o conselho de refletir sobre a imagem com distanciamento, o córtex pré-frontal revelou nítido aumento de atividade. Essa região cerebral é responsável pelo chamado controle executivo – isto é, por quase tudo que tenha a ver com planejamento, decisão e execução de ações. Quanto mais ativas se revelavam as células nervosas dessa região, maior era a calmaria em regiões do sistema límbico e sobretudo na amígdala, que, como se sabe, tem participação no modo como se lida com emoções negativas. Estratégias de pensamento podem, portanto, balizar reações emocionais com eficácia. Ou se, as coisas em si não são nem boas nem ruins, é o pensamento que as faz assim. As pessoas que se saíram bem com a estratégia de reelaboração cognitiva disseram ter tudo menos náusea e nojo e demonstraram atividade reduzida em seu sistema nervoso autônomo.

A grande questão, no entanto, é se esse método é de alguma valia também na vida cotidiana, ou seja, em situações reais. Foi com o intuito de examinar essa questão que Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madson, partiu ao encontro dos mestres do controle emocional: os monges tibetanos. Método importante dos budistas é se desligar de todos os sentimentos negativos e pensar sempre de forma positiva. Vistos de fora, os monges de fato aparentam impassibilidade admirável. Declaram sentir muito menos medo, pesar ou raiva. Mantêm ao contrário, uma inclinação para a calma e a passividade. Mesmo em situações nas quais outros morrem de medo, os monges tibetanos exibem solene autocontrole mental. Literalmente: ameaçados de tortura pela ocupação chinesa, alguns preferiram a auto- anulação pelo fogo – com sorriso nos lábios, conta-se.

Para o estudo do controle emocional humano, a meditação dos monges seria o objeto de pesquisa ideal, afirma Davidson. Para sorte do pesquisador; o Dalai Lama, supremo representante do budismo tibetano, é bastante aberto às neurociências e já estimulou em diversas ocasiões encontro entre budistas, psicólogos e neurocientistas.

Davidson, portanto, pôs mãos à obra. Por meio da eletroencefalografia(EEG), registrou as ondas cerebrais de oito monges enquanto estavam mergulhados em práticas meditativas. Os participantes desse estudo tinham de 10 mil a 50 mil horas de meditação – não eram, portanto, iniciantes. Os padrões de seus EEG foram comparados aos de novatos em meditação que tinham passado por treinamento de apenas uma semana.

RUMO AO TlBET?

Resultado desse duelo desigual: durante a meditação, os monges apresentaram maior porcentagem das chamadas ondas gama – padrões velozes, de frequência entre 25 e 42 hertz -, que acompanham estados elevados de atenção. As ocorrências revelaram-se especialmente pronunciadas em duas regiões do lobo frontal, ambas envolvidas no controle das emoções. De acordo com Davidson, a atividade gama dos monges está entre as mais intensas já descritas na literatura não-patológica. Na opinião do pesquisador, esses parâmetros neuronais expressam a capacidade dos monges de controlar pensamentos e sentimentos, exercitada durante anos.

Devemos, então, partir todos para o Tibete e seguir o modelo dos monges budistas? Não necessariamente. Exemplos de outras culturas mostram que o controle bem-sucedido das emoções pode ser aprendido de diversas maneiras.

No final da década de 60, por exemplo, a antropóloga americana Jean Briggs viveu vários meses entre os utkus, tribo lnuit do ártico canadense. A pesquisadora espantou-se sobretudo com a raridade de conflitos entre eles. Submeteu sua anfitriã a questionários pormenorizados e observou seu dia-a-dia. Ao fazê-lo, constatou que a manifestação de emoções cognitivas, como irritação e raiva era extremamente malvista. Até mesmo os bebês eram ignorados pelos Utkus quando começavam a berrar. Adultos que, furiosos, levantassem a voz eram tidos ou por idiotas ou um perigo para a comunidade – o que a própria antropóloga teve o desprazer de experimentar na pele quando certa vez perdeu o controle diante da família que a hospedava: precisou de imediato encontrar novas acomodações.

Ainda assim, Briggs ficou tão fascinada com o convívio pacífico da tribo que descreveu suas pesquisas de campo num livro que se tornou clássico. Nele, recomendava tomar os utkus como exemplo no controle eficaz de emoções negativas. Nos anos seguintes, outros pesquisadores classificaram as conclusões da antropóloga como parciais. Ela teria, por exemplo, se deixado levar apenas pela expressão emocional que os utkus demonstravam, e não por relatos da vida emocional interior. Seria, portanto, possível supor que eles pertencem à categoria dos repressores de sentimentos.

Contudo, pesquisas mais recentes corroboram a hipótese de que valores e concepções culturais contribuiriam de fato para moldar a experiência subjetiva das emoções. Psicólogos culturais, como 1-Hazel R. Markus, de Stanford, sabem em que medida e condições socioculturais marcam o trato com as emoções – que podem ser tudo, menos reações determinadas por fatores biológicos. Markus comparou por exemplo, as posturas de americanos e japoneses com as emoções. Os padrões asiáticos demandam do indivíduo em geral um controle emocional mais rígido que aquele observado no Ocidente. Por essa razão, e de acordo com os resultados obtidos por Markus, os ocidentais avaliam negativamente o controle do próprio sentimento: veem-no como dissimulação ou engodo. Muitos chegam a identificar nesse intuito a possível causa de doenças físicas, tais como o câncer ou as enfermidades cardiovasculares.

Os japoneses, por sua vez são de opinião diferente. Para eles, o estado de espírito equilibrado é sinal tanto de saúde física e mental como de contentamento. E, de fato, a população japonesa está entre as mais longevas do mundo.  Assim, enquanto os americanos são mais adeptos do “pôr tudo para fora, os Japoneses se contêm na manifestação de irritação ou mesmo de alegria.

PAPÉIS MENTAIS

Se influências sociais e culturais nos ensinam desde crianças qual o trato “correto’ com os sentimentos, isso significa também que a capacidade de controlar emoções não tem raízes profundas e imináveis na personalidade humana. Valendo-se de estratégias apropriadas, qualquer um poderia, em princípio, aprender a conviver de forma saudável com suas emoções. Voltemos ao garçom atrapalhado, um método de controle emocional interessante para não explodir com o pobre homem consistiria, digamos, em nos colocarmos por um momento na pele dele. Essa mudança de perspectiva tenderá a suscitar compreensão, um pequeno atraso já não parece coisa tão dramática; afinal, não estamos com pressa, e a comida vai acabar chegando, mais cedo ou mais tarde. Graças a tal estratégia, podemos modificar impulsos negativos. E, com algum treino, ela nos permite ver as coisas com outros olhos, sem que a consciência se veja obrigada volta e meia nos repreender para que o façamos.

Todavia, muitas questões permanecem abertas. Por que algumas pessoas têm mais dificuldade em controlar as próprias emoções? Que estratégias de controle são mais eficazes? Como ele pode aprendê-las? O que podemos assimilar de outras culturas? Seja como for, o balanço provisório dos pesquisadores é esperançoso. Não estamos simplesmente à mercê dos nossos sentimentos. O ser humano deve – e pode – se tomar senhor das próprias emoções.

APRENDIZADO EMOCIONAL

Psicólogos distinguem pelo menos três aspectos diferentes na reação aos sentimentos: 1) os reflexos físicos deles decorrentes, tais como taquicardia ou suor, 2) sua expressão comunicativa, mediante gestos e linguagem e 3) o plano da atividade mental. Desde a década de 60, estudiosos das emoções vem se dedicando com ênfase à questão de como as experimentamos e Interpretamos subjetivamente. E isso porque a avaliação cognitiva de uma situação parece contribuir para nossa reação emocional ao mundo que nos cerca. Foi isso que demonstraram, por exemplo os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer num estudo famoso: voluntários que, sem saber, receberam pequenas doses de adrenalina experimentaram altos picos ou grandes quedas de animo quando comparados respectivamente com tipos brincalhões ou sombrios.

Hoje, o aprendizado de estratégias cognitivas desempenha papel importante no tratamento dos transtornos do afeto, como a angústia e a pressão. Abordagens terapêuticas como a da “reelaboração cognitiva”, desenvolvida por Aaron Beck, auxiliam pacientes de forma sistemática a abandonar hábitos negativos de pensamento. Em vez de partir sempre da pior das hipóteses, procura-se reanalisar mentalmente momentos de crise. Para que uma tal reappraisal (reavaliação) tenha êxito, pode ser útil colocar-se no papel de outra pessoa (“há outros jeitos”), lmaginar cenárlos alternativos (“não estou em perigo”) ou voltar a atenção para aspectos positivos da questão. Mediante o exercício repetido, essas técnicas são, então, internalizadas e podem contribuir para manter impulsos negativos sob controle.

O poder do pensamento, no entanto, tem seus limites. Como descobriu o pesquisador americano Joseph LeDoux, com base em experimentos com animais no final da década de 90, por meio de conexões neuronais diretas, informações sensoriais recebidas estimulamos centros cerebrais da emoção no sistema límbico. Por essa via, desencadeiam-se reações rapidíssimas de pavor, sem que elas tenham de passar pelo refúgio do pensamento consciente, o córtex cerebral.

Mestres da emoção

 

Como se acalmar

IRIS MAUSS é formada em psicologia e doutoranda da Universidade Stanford, em Palo Alto, Califórnia, onde pesquisa de que forma controlamos a raiva e a irritação.

GESTÃO E CARREIRA

Divergências no trabalho

DIVERGENCIAS NO TRABALHO

Na internet, é comum os temas polêmicos tomarem conta das discussões. Mas como agir quando essa conversa acontece no escritório?

Você conhece o ditado: futebol, política e religião não se discutem. Apesar da máxima, esses temas tem sido objeto de brigas constantes nas redes sociais, como Facebook e Twitter. Em 2014 e 2015, foram assuntos relacionados à política, por exemplo, diferenças de forma respeitosa terá pouco lugar nas equipes. O caminho não é tão fácil: discutir com calma e respeito, como muitas coisas, é algo que só melhora com a prática. “O essencial é lembrar que nenhuma opinião surge do nada, diz Ana. Todo conjunto de ideia vem de determinado contexto histórico, moral e social. Ter essa consciência ajuda a avaliar com mais frieza tanto as próprias ideias quanto a dos outros e a ter argumentos mais sólidos e baseados nos conceitos apresentados –  e não nas pessoas em si. “Algo que fazemos muito é já pensar na resposta que daremos enquanto ouvimos o outro falar”, diz Ana. Isso quer dizer que, em vez de escutarmos com atenção o que estão dizendo para podermos reagir sobre o que foi apresentado, nos preocupamos mais em ter um discurso pronto e que vença, de vez, a discussão. Qualquer chance de ter aquela conversa com calma e com cuidado ao ouvir o outro diminui com essa atitude. Os mais citados no facebook entre os brasileiros: direitos humanos, impeachment, aborto e crises migratórias são outros temas que povoam as conversas na internet – e nas ruas. Afinal, se a discussão tem esquentado nas redes, não deixa de ter repercussão no nosso dia a dia. Brigas entre manifestantes de diferentes bandeiras políticas, casos de intolerância sexual e religiosa e denúncias de racismo são divulgados frequentemente. Mas o que fazer quando essas discussões invadem o ambiente de trabalho?

As estatísticas mostram episódios de violência e intolerância, mas, ao vivo e entre conhecidos, a história é um pouco diferente. “O brasileiro não sabe discutir e tem o hábito de evitar o debate”, diz Fernando Lanzer, autor de Cruzando Culturas.

Mas há certas situações em que não vale a pena insistir. Se um colega não está aberto ao debate, não adianta forçar. Também é pouco produtivo provocar alguém com quem você já discutiu outras vezes. E, quando o ambiente de trabalho estiver pedindo concentração em uma tarefa, o melhor é deixar as discussões para depois. Nesses casos, buscar alguma coisa em comum para manter o alinhamento da equipe como um objetivo da empresa ou um valor partilhado por todos, pode ajudar a manter um clima mais produtivo. No entanto, se você sentir que, por conta dessas diferenças, fica isolado do grupo e constantemente incomodado com as ideias defendidas pelos colegas, talvez seja hora de repensar se está realmente no lugar certo. Fica difícil fazer um bom trabalho em equipe e ficar feliz no dia a dia se não se identifica com a maioria das pessoas. Existem diversos ambientes corporativos, se você sentir que precisa mudara companhia inteira, é melhor você mesmo mudar, diz Lúcia Costa, diretora na consultoria Stato, de São Paulo.

Por outro lado, as empresas que estão interessadas em ter mais diversidade de ideias e de opiniões deveriam abrir um espaço para as discussões ocorrerem de maneira organizada. Precisa estabelecer alguns pressupostos, como jamais cair em desrespeito e manter a conversa estritamente no mundo das ideias, diz Fernando. Para quem quer disco dar de maneira mais saudável, antes de partir para assuntos muito polêmicos, o melhor é começar por temas neutros. Encarar toda conversa como uma forma de ganhar novas perspectivas é outra forma de iniciar o exercício. Perdemos muito quando não queremos ouvir o outro, quando não nos abrimos para o diferente”, diz Ana. Tantas ideias boas deixam de existir porque não temos coragem de falar algo menos popular.” Entender que as pessoas devem ser respeitadas e que as diferenças sempre existirão (e devem existir em uma democracia) é o primeiro passo.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 5:1-2

O Sermão da Montanha

Aqui temos uma apresentação geral do sermão.

I – O pregador foi nosso Senhor Jesus, o Príncipe dos pregadores, o grande Profeta da sua igreja, que veio a este mundo para ser a Luz do mundo. Os profetas e João tinham trabalhado vigorosamente na pregação, mas Cristo os superou a todos. Ele é a Sabedoria eterna, que esteve no seio do Pai antes de todos os s éculos, e que conhecia perfeitamente a sua vontade (João 1.18); e Ele é a Palavra eterna que nestes últimos dias falou a nós. As várias curas milagrosas realizadas por Cristo na Galileia, que lemos no capítulo anterior, tiveram a intenção de abrir caminho para este sermão, e deixar as pessoas predispostas a receber instruções de alguém em quem se manifestavam tanto poder divino e tanta bondade, e, provavelmente, este sermão foi o resumo, ou a repetição, do que Ele tinha pregado nas sinagogas da Galileia. As suas palavras eram: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Este é um sermão sobre a primeira parte deste texto, mostrando do que devemos nos arrepender; ele deve modificar tanto o julgamento quanto o procedimento, e aqui o Senhor nos diz de que maneira isto deve ocorrer, em resposta à pergunta (MaIaquias 3.7) “Em que havemos de tornar?”. Posteriormente, Jesus pregou sobre a segunda parte do texto, quando, em diversas parábolas, Ele mostrou como era o Reino dos céus (cap. 13).

II – O lugar foi uma montanha na Galileia. Como em outros aspectos, também neste, o nosso Senhor Jesus estava mal acomodado; Ele não tinha um lugar conveniente onde pregar, corno não tinha um lugar onde repousar a cabeça. Enquanto os escribas e os fariseus tinham a cadeira de Moisés onde se sentar, com toda a comodidade, honra e cerimônia, e ali deturpavam a lei, o nosso Senhor Jesus, o grande Mestre da verdade, é levado ao deserto, e não encontra um púlpito melhor do que aquele fornecido por urna montanha; e não era nenhuma das montanhas sagradas, nem urna das montanhas de Sião, mas uma montanha comum, razão pela qual Cristo dá a entender que não existe distinção de lugares sagrados agora, sob o Evangelho, como havia sob a lei, mas que é a vontade de Deus que os homens orem e preguem em todas as partes, em qualquer lugar, desde que tudo transcorra de forma decente e conveniente. Cristo pregou este sermão, que foi uma explicação da lei, sobre uma montanha, porque sobre uma montanha a lei foi dada; e este sermão também foi uma solene promulgação da lei cristã. Mas observe a diferença: quando a lei foi dada, o Senhor desceu sobre a montanha; agora o Senhor subiu. Naquela ocasião, Ele falou em trovões e relâmpagos; agora, em voz suave; naquela ocasião, recomendou-se às pessoas que mantivessem distância; agora, elas são convidadas a se aproximar. Uma mudança abençoada! Se a graça e a bondade de Deus são (como certamente são) a sua glória, então a glória do Evangelho é a glória maior, pois a graça e a verdade vêm por Jesus Cristo (2 Coríntios 3.7; Hebreus 12.18 etc.). Falou-se de Zebulom e Issacar, duas das tribos da Galileia (Deuteronômio 33.19), que elas “chamarão os povos ao monte”; a este monte somos chamados, para aprender a oferecer sacrifícios de justiça. Agora este era o monte, do Senhor, onde Ele nos ensinou os seus caminhos (Isaias 2.2,3; Miquéias 4.1,2).

III – Os ouvintes eram os seus discípulos, que vieram até Ele; atenderam ao seu chamado, o que se entende comparando Marcos 3.13 e Lucas 6.13. A eles, Ele dirigiu suas palavras, porque eles o seguiram por amor e para o aprendizado, ao passo que os outros o procuravam somente para as curas. Ele os ensinou por­ que eles queriam ser ensinados {“aos mansos ensinará o seu caminho”); porque eles compreenderiam o que Ele ensinava, algo que par a outros poderia parecer não ter sentido. E porque eles deveriam ensinar aos outros, e, portanto, era necessário que eles tivessem um conhecimento claro e distinto destas coisas. Os deveres prescrios neste sermão devem ser conscientemente cumpridos por todos aqueles que desejam entrar neste reino dos céus. Eles devem trabalhar pelo seu estabelecimento, com a esperança de se beneficiarem dele. Mas embora este sermão se destinasse aos discípulos, ele foi ouvido pela multidão; pois foi dito (cap.7.28) que “a multidão se admirou”. Não houve limites ao redor desta montanha, para manter afastadas as pessoas, corno houve no monte Sinai (Êxodo 19.12); pois, por intermédio de Cristo, nós temos acesso a Deus, não somente para falar com Ele, mas para ouvir as suas palavras. Ele também se dirigiu à multidão quando pregou este sermão. Quando a fama dos seus milagres tinha reunido uma grande multidão, Ele aproveitou a oportunidade de uma confluência tão grande de pessoas para instruí-las. Observe é um incentivo para um ministro fiel lançar a rede do Evangelho onde há muitos peixes, com a esperança de que alguns sejam alcançados. A visão de urna multidão dá vida a um pregador, mas ela precisa nascer de um desejo pelo hem da multidão, e não do seu próprio louvor.

 IV – A solenidade do seu sermão é dada a entender pelas palavras “assentando- se”. Cristo pregou muitas vezes ocasionalmente, e por meio de conversas, mas este era um sermão definido, kathi santos aiitoii, em que Ele tinha se colocado de maneira a ser bem ouvido. Ele se sentou como um Juiz, ou um Legislador: Isto sugere a tranquilidade e a serenidade de espírito com que as coisas de Deus devem ser ditas e ouvidas. Ele se sentou, para que as Escrituras fossem cumpridas (MaIaquias 3.3): “E assentar-se-á, afinando e purificando a prata; e purificará os filhos de Levi e os afinará como ouro e como prata”. Ele se assentou “no tribunal, julgando justamente” (Salmos 9.4); pois as palavras que Ele disse irão nos julgar. As palavras “abrindo a boca” são uma perífrase em hebraico, como Jó 3.1. Mas alguns pensam que estas palavras sugerem a solenidade deste sermão; uma vez que a congregação era grande, Ele ergueu a sua voz e falou mais alto do que normalmente. Ele tinha falado muitas vezes por meio dos seus servos, os profetas, e abriu as suas bocas (Ezequiel 3.27; 24.27; 33.22), mas agora Ele abria a sua própria boca, e falava com liberdade, como alguém que tinha autoridade. Um dos antigos observa o seguinte: “Cristo ensinava mesmo sem abrir a sua boca, isto é, por meio da sua vida santa e exemplar”. De fato, Ele os ensinou quando, sendo levado como um cordeiro à morte, não abriu a sua boca. Mas agora Ele a abriu, e ensinou que as Escrituras deveriam se cumprir (Provérbios 8.1,2,6). “Não clama, por ventura, a Sabedoria?… No cume das alturas… os meus lábios se abrirão para a equidade”. Ele os ensinou, de acordo com a promessa (Isaias 54.13): “Todos os teus filhos serão discípulos do Senhor”; devido a este objetivo, Ele capacitou a língua dos eruditos (Isaias 50.4), concedendo-lhes o seu precioso Espírito (Isaias 61.1). Ele os ensinou qual era o mal que eles deveriam detestar e em qual bem eles deveriam perseverar, pois o cristianismo não é uma questão de especulação, mas se destina a regular a disposição das nossas mentes e a tendência das nossas conversas; a era do Evangelho é uma era de correção (Hebreus 9.10); e pelo Evangelho nós devemos ser corrigidos, devemos melhorar a cada dia, tornando-nos bons. A verdade ensinada pelo Senhor Jesus é a verdade que “é segundo a piedade” (Tito 1.1).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Doença de Huntington - a dança mortal

DOENÇA DE HUNTINGTON : A DANÇA MORTAL

 Conhecida desde a Idade Média, a doença de Huntington é causada por mutação genética. Manifesta-se principalmente em adultos e provoca dor, fraqueza, espasmos, perda de mobilidade e até problemas cognitivos.

A doença de Huntington é uma patologia genética rara: determinadas áreas cerebrais são destruídas progressivamente. Ela leva inevitavelmente à morte. Desde que eu a mutação genética causadora da doença foi descoberta em 1993, a situação se modificou dramaticamente para os grupos de risco: após a maioridade, qualquer um pode realizar o teste e saber anos ou décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas se vai padecer da doença de Huntington no futuro. Pois esse teste genético fornece um resultado certeiro – todo portador da mutação será, cedo ou tarde, vítima da doença.

O teste de DNA é tão assertivo porque a doença é causada por um único fator genético: o gene da extremidade cromossomo número 4 é um pouco mais longo em pacientes com Huntington que em pessoas saudáveis. Tipicamente, nesse gene os componentes do DNA citosina, adenina e guanina se sucedem repetidamente. Esse bloco CAG representa o aminoácido glutamina. Quanto mais vezes a combinação CAG aparece no DNA, maior a quantidade de glutamina no produto genético: a proteína também chamada huntingtina. Em um gene saudável, o bloco CAG se repete de 10 a 30 vezes. Se, no entanto, ele aparece mais de 37 vezes, então as características da proteína huntingtina se modificam de forma decisiva: quanto maior o número de repetições do CAG no DNA, mais longa a cadeia de glutamina na proteína, mais cedo a doença de Huntington se manifestará e mais penoso será o seu desenvolvimento.

Como é essencialmente hereditária – a mutação transmitida por apenas um dos pais já causa a doença – os riscos para parentes consanguíneos podem ser calculados com exatidão: 50% para os filhos, 25% para a geração seguinte.

Antes de realizar o teste de DNA, os consultores em genética humana do Centro Huntington da Universidade de Ruhr, Alemanha, procuram organizar a distribuição da doença na árvore genealógica da família a partir dos dados daqueles que os procuram. “Nossa avó se jogou na frente de um trem. Não deve ter sido acidente, conta Martin que teve diagnóstico positivo, ao lado da irmã mais nova, Susanne. “E o pai de nossa avó, nosso bisavô, se tornou um pouco estranho com a idade.”

A mãe de Martin teve a doença, mas naquele tempo ainda não era possível confirmar o diagnóstico pela genética molecular.

Martin e a irmã tornaram finalmente coragem para realizar o teste a fim de tirar a dúvida e planejar melhor sua vida pessoal e profissional. Susanne também é portadora da mutação.

Seus outros irmãos ainda não se dispus eram a fazer nenhum exame preventivo – por uma boa razão: o resultado do teste transforma pessoas fisicamente saudáveis em futuros doentes. Um teste de DNA, portanto, deve ser feito apenas depois de muita reflexão, pois uma vez que se conhece da predisposição genética, não se pode mais esquecê-lo.

Martin já apresenta os primeiros sintomas, como espasmos nos braços e nas pernas. Susanne permanece até agora sem manifestação, mas ela se pergunta se já não surgiram indícios inocentes que ela mesma não tenha percebido. A doença costuma se manifestar tipicamente entre os 35 e 45 anos e pode se desenvolver de formas muito diferentes mesmo entre parentes próximos. Sendo assim, irmãos podem padecer de Huntington em diferentes idades. No caso do filho de Martin, ninguém queria ou conseguia acreditar – nem mesmo os pediatras que o acompanhavam – que o menino já pudesse manifestar os primeiros sinais da doença antes dos 1O anos.

 As crises de dor, a fraqueza muscular e as inexplicáveis dificuldades de movimentação foram atribuídas a outras causas. Após seis anos da doença, o teste de DNA revelou doença de Huntington infantil causada por um gene huntingtina extremamente longo, com desenvolvimento atípico.

Mas por que a doença ataca cm fases tão diferentes da vida: Através de exames em pacientes, já conseguimos comprovar que, além da mutação do gene huntingtina, outros fatores hereditários também influenciam. Assim, existem no cérebro diversas variações das chamadas proteínas receptoras que produzem o transmissor glutamato assegurando, dessa forma, a emissão das informações entre as células nervosas. De acordo com a variante desses receptores, a doença se manifesta mais cedo ou mais tarde.

HISTÓRICO DA DOENÇA

Essa moléstia é conhecida há séculos. Na Alemanha da Idade Média, os “dançarinos exagerados” peregrinavam até a Veitskapelle (capela de São Vitus), em Ulm, na esperança de serem curados – dando assim o nome à doença: “Chorea Sancti Viti” ou “Dança de Veit”. Em 1872, o jovem neurologista americano George Huntington (1851-1916) descobriu que se tratava de uma doença hereditária. Junto com seu pai, ele acompanhou o destino de uma família afetada em Long lsland e conseguiu diferenciar claramente a doença da “Chorea Minor”, uma infecção por estreptococo de sintomas semelhantes. A tríade clínica descrita por Huntington – hereditariedade, tendência a distúrbios psíquicos e surgimento em idade adulta – ainda hoje é considerada típica da moléstia que recebeu o seu nome.

O sintoma que lhe dava o nome originalmente (do grego choreia, “dança”) refere-se aos movimentos “dançantes” exagerados dos membros como uma das suas características mais frequentes e marcantes. No início, os pacientes tentam disfarçar os pasmos abruptos como se fossem um sinal de embaraço, balanço de cabeça ou dar de ombros, ou procuram integrá-los a movimentos voluntários. Mas, pouco a pouco, a pessoa perde o controle da musculatura e faz caretas repentinas. Falar e engolir se tornam tarefas difíceis.

Em estágio avançado, as sequências de movimentos se tornam mais lentas e o tônus muscular elevado provoca a paralisia dos membros numa contração dolorosa. Os diversos sintomas, que vão muito além da ‘dança”, substituíram a denominação “Coréia Huntington”, por “doença de Huntington”.

Também são características graves distúrbios psíquicos, que antecedem em anos, às vezes em décadas, os sintomas motores. A própria doença pode provocar episódios de depressão – mas, antes, o stress dos pacientes causado pelo resultado positivo do teste eventualmente leva a variações de humor. Muitas vezes, os parentes percebem mudanças na pessoa afetada: eles passam a se comportar de forma paranoica, tiranizam os que estão à sua volta com ciúmes injustificados ou reagem com uma agressividade exagerada para situações insignificantes.

EFEITOS DELETÉRIOS

Eles falam durante dias e semanas sobre coisas irrelevantes, importunando a família e, não raramente, rompendo ligações sociais. A capacidade cognitiva dos pacientes se reduz, sua memória já não funciona bem e eles têm cada vez mais dificuldade de concentração. A doença se transforma por fim em grave demência com total desamparo. Os distúrbios psíquicos podem ter rapidamente efeitos catastróficos sobre a vida pessoal e profissional, sem descartar tentativas de suicídio –  algumas vezes até com uma brutalidade fora do comum.

Em compensação, a patologia é bastante rara: na Europa estima-se que há 45 mil afetados e, na América do Norte, 30 mil. Na Alemanha, uma em cada 10 mil pessoas tem Huntington, mas há pelo menos 6 a 8 mil com a mutação genética, e a quantidade de portadores desconhecidos deve ser considerável: a estigmatização social e mesmo a onda de eutanásia que houve durante o  período do nazismo  têm como efeito o silencio de muitas famílias sobre doenças hereditárias – muitas vezes com consequências desastrosas para as gerações seguintes.

Apesar da raridade, a doença de Huntington (modelo para várias outras doenças degenerativas – inclusive para males mais frequentes e conhecidos como Parkinson ou Alzheimer. A doença causa a destruição de neurônios em uma pane do cérebro chamada núcleo estriado ou striatum, que produz o neurotransmissor GABA. A redução de liberação desse neurotransmissor determina os movimentos involuntários e a degeneração mental progressiva.

Desde a descoberta do gene huntingtina os cientistas já adquiriram conhecimentos exemplares a respeito dos mecanismos que levam à destruição das células nervosas. Como a proteína huntingtina é a única causadora da doença, ela é perfeita para o estudo dos processos causadores.

A huntingtina em si não é uma proteína má. Em animais vertebrados, ela é aparentemente essencial para o desenvolvimento embrionário, pois ratos knock-out, alterados geneticamente para ter o gene huntingtina silenciado, morrem já em estágio embrionário. Supõe-se, porém, que a proteína huntingtina de comprimento anormal se conecte a outras proteínas importantes para a sobrevivência da célula, prejudicando, assim o seu funcionamento.

São afetados por esse processo, por exemplo, os chamados elementos reguladores de transcrição –  proteínas que asseguram a leitura ordenada da informação genética. Se a huntingtina, com a sua cadeia alongada de poli glutaminas, se liga a um desses reguladores de transcrição, a atividade genética da célula é sensivelmente prejudicada, a regulação da síntese de proteínas entra em colapso.

 Certas proteínas que eliminam neurotransmissores, como o glutamato, se instalam nas sinapses. Se essas proteínas falham, devido a um defeito no processo de síntese, então sobra glutamato na sinapse que estimula constantemente a célula conectada, a qual é então prejudicada. Tal modelo de toxicidade fatal pôde ser comprovado em experiências com animais: as células nervosas de ratos morreram depois que foi injetada quinolina nos animais, substância que age como o glutamato. Os roedores apresentaram sintomas típicos da doença de Huntington.

Há cada vez mais indícios de que a huntingtina participa da comunicação entre as células nervosas. Pois uma proteína ligada à huntingtina chamada HIPI (Hunting-lnteracting Protein1) regula, junto com outras proteínas existentes na membrana celular, a distribuição assim como a reassunção dos transmissores celulares. Devido à sua longa cadeia de poli glutaminas, a proteína huntingtina anormal não consegue mais se conectar corretamente à HIPI – com consequências fatais: a HIP1, então desimpedida, cria com a proteína HIP-Pl (HI Protein lnteractor) um complexo que dá início a uma cascata de enzimas. Entre vários outros processos, esse complexo ativa as chamadas caspases que, por sua vez, dão início à morte celular programada, a apoptose. A cascata provocada leva, assim, as células nervosas ao “suicídio”.

Devido à longa cadeia de poli glutaminas, a huntingtina corrompida é copiada de forma errada. Quando isso ocorre, entram em ação certas enzimas chamadas chaperon, ou acompanhante em inglês) que tem como tarefa, assim como as “damas de companhia”, consertar ou eliminar proteínas com defeito. Para tanto, elas transportam as proteínas defeituosas para o núcleo da célula e as decompõem.

COMUNICAÇÃO FALHA

Realmente, podem ser encontrados corpúsculos incrustados nos núcleos de neurônios prejudicados com partículas da huntingtina modificada. Com o desenvolvimento da doença, a quantidade desses pedaços de proteínas aumenta e, por fim, elas podem ser encontradas até mesmo fora do núcleo celular. Ainda não se sabe se as próprias partículas são as causadoras da doença ou se esta seria uma tentativa desesperada, mas fracassada, das células de eliminar os fragmentos de proteína soltos.

Uma outra teoria parte do princípio de que a huntingtina defeituosa atrapalha a transferência de energia das células nervosas. Pois foi possível observar que diferentes membros da cadeia respiratória das mitocôndrias, espécie de “usina energética” da célula, não funcionam mais corretamente. A falta de energia causada por esse fenômeno acaba levando à morte da célula.

E o que se pode fazer contra essa destruição fatal? A resposta é desanimadora: pouco, pois as opções medicamentosas até agora se limitam a combater os sintomas. Portanto, os neurologistas utilizam os chamados neurolépitcos, como a tiaprida e a tetra benzina. Originalmente desenvolvidos para o tratamento de psicoses esquizofrênicas, um de seus efeitos colaterais indesejáveis é a redução da capacidade motora dos pacientes – efeito desejável no caso dos afetados pela doença de Huntington.

Os médicos procuram combater os distúrbios psíquicos de seus pacientes com antidepressivos, sedativos ou neurolépticos antipsicóticos. Contra a perda da capacidade intelectual ainda não existe nenhum remédio eficaz.

Enquanto isso, vários grupos de estudo do mundo todo tentam atacar o mal pela raiz: eles procuram substâncias que desacelerem ou mesmo interrompam a decadência dos neurônios. Um exemplo de tais substâncias neuroprotetoras são os chamados antagonistas de glutamato, os quais influenciam a liberação do glutamato. O Riluzol, por exemplo, já se mostrou eficaz no tratamento de uma outra doença grave e de desenvolvimento acelerado do sistema nervoso, a esclerose lateral amiotrófica. A substância está sendo testada clinicamente em 450 pacientes de Huntington em um es tudo que abrange toda a Europa.

DOCE ALÍVIO

A minociclina, um antibiótico que era usado originalmente contra acne, também traz esperanças. Ela inibe as caspases, enzimas que causam a morte das células nervosas. O grupo de trabalho de Robert Friedlander, da Escola Médica de Harvard, em Boston, conseguiu, em 2003, interromper assim o avanço dos sintomas de Huntington em ratos.

Outras substâncias, por sua vez, conseguem impedir a aglutinação da proteína huntingtina.  A trehalose, açúcar existente em plantas desérticas, por exemplo, promete um doce alívio”, também em ratos, pesquisadores coordenados por Motomasa Tanaka, do Instituto Riken, em Wako, Japão, conseguiram com isso bloquear a aglutinação da proteína e o início da doença.

Médicos tentam também interferir na transferência defeituosa de energia das células através de substâncias como a coenzima Q e a creatina. A coenzima Q coleta radicais livres de oxigênio na forma de antioxidantes, enquanto a creatina, produzida no fígado e nos rins, funciona como depósito de energia nos músculos e no cérebro. Nesse caso, as experiências com animais também obtiveram sucesso, mas a comprovação de sua efetividade em seres humanos, bem mais cara e demorada, ainda não existe. E, por fim, ainda estão sendo testados medicamentos contra tumores como o fenilbutirato, que deve reabilitar a síntese de proteína, prejudicada pela huntingtina anormal.

Paralelamente a tais estudos farmacológicos, há experiências com terapia genética. Em 2005, cientistas coordenados por Scott Harper, da Universidade de Iowa, conseguiram impedir a leitura do gene huntingtina transmutado. Para tanto, os pesquisadores injetaram no cérebro de animais curtos trechos de RNA exatamente idênticos ao RNA que deveria ser produzido para a proteína huntingtina transformada e que, então, a bloqueavam. Os roedores passaram a produzir uma menor quantidade da proteína que provoca a doença – e a produção da huntingtina saudável não foi influenciada.

Pesquisadores depositam também esperanças nas células-tronco. No ano 2000, Anne-Catherin Bachoud Levi e seus colegas do Centro Hospitalar Universitário Henri Mondor, em Créteil, França, implantaram em pacientes com Huntington células-tronco neurônicas de fetos abortados na esperança de que substituíssem as células cerebrais destruídas. Três anos mais tarde, cientistas coordenados por Robert Hauser, da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, realizaram uma experiência semelhante. Alguns pacientes responderam bem ao tratamento, porém outros sofreram hemorragia cerebral e seus sintomas chegaram mesmo a piorar. Todos os pacientes tiveram de utilizar medicamentos para impedir a rejeição das novas células. E os efeitos de longo prazo do tratamento ainda não são conhecidos.

Portanto, para Martin ainda não existe uma substância que impeça a evolução impiedosa de sua doença. Porém, nunca foram abertas tantas novas possibilidades nas investigações sobre ela. Os cientistas e clínicos europeus se preparam para realizar grandes estudos e já participam do Euro Huntington’s Diseasc Network (Rede Europeia da Doença de Huntington) a fim de trocar informações e coordenar melhor grandes estudos. Várias pessoas do grupo de risco e afetadas pela doença estão dispostas a participar de tais estudos – sem elas, não seria possível alcançar o seu objetivo. Talvez Martin também consiga encontrar um caminho para lidar com sua doença de forma mais eficaz.                          

Repetição fatal

JÜRGEN ANDRICH e JÕRG T. EPPLEN – são médicos e pesquisadores do Centro Huntington (NRW) da Clínica Neurológica da Universidade de Ruhr, em Bochum, Alemanha.

GESTÃO E CARREIRA

Aprenda a ouvir

APRENDA A OUVIR

Para os americanos Sheila Heen e Douglas Stone, quem tem o real poder sobre o feedback é aquele que escuta as críticas, e não quem faz as sugestões.

Por que ainda temos tanta dificuldade em fazer um bom processo de feedback?  Foi essa questão que levou os americanos Sheila Heen e Douglas Stone a estudar o tema profundamente. Autores do livro Obrigado pelo Feedback e professores da Escola de Direito da Universidade de Harvard, eles notaram que há um erro na percepção geral dessa prática: as pessoas acreditam que, para ser eficiente, é preciso treinar quem dá feedback. Mas os estudiosos dizem que o mais importante é treinar quem recebe o feedback. Se isso não for feito, ninguém muda – por mais competente que seja quem está fazendo as críticas. A seguir, aprenda técnicas para receber melhor os conselhos dos outros.

OS GATILHOS DO FEEDBACK

Sheila e Douglas dizem que, embora existam várias maneiras de dar feedback, nossas reações a esse momento se resumem em três gatilhos emocionais, cada um deles é acionado por uma válvula diferente e provoca reações distintas na gente. O lado bom é que eles sempre se repetem e, ao conhecê-los, você já sabe de antemão qual será o resultado emocional.

PODER AOS RECEPTORES

Os especialistas Sheila Heen e Douglas Stone explicam por que precisamos treinar, os ouvidos para aproveitar, melhor os feedbacks.

O livro diz que é necessário treinar para receber o feedback, e não só para dá-lo. Por que isso é tão importante?

É o receptor que determina o que o feedback significa e se irá levar aquilo em consideração ou não. E é ele que se beneficia mais se engajando na conversa em busca de aprendizado e desenvolvimento. Profissionais que solicitam feedback – principalmente negativos tendem a ter avaliações de desempenho melhores. Em parte, isso acontece porque quem tem essa postura é visto como alguém confiante e possuidor de inteligência emocional. Mas acontece também porque quando você pede feedback você ganha o feedback, e quando você ganha” o feedback, você melhora.

O Brasil está em crise. Por isso, os líderes se sentem pressionados e dão feedbacks mais duros. Qual a maneira correta de agir?

Durante as crises, tudo se torna mais desafiador e é compreensível que os lideres ajam assim. De todo modo, durante tempos mais duros, além de fazer uma avaliação justa dos colegas e subordinados e de demonstrar como eles podem melhorar, é necessário mostrar gratidão. Todo ser humano quer se sentir necessário e valorizado e quer saber que seu trabalho é apreciado e faz a diferença. Quando a economia piora, as relações corporativas acabam lidando com o fantasma do estresse. E é durante esses períodos que os relacionamentos são mais importantes para a nossa felicidade e bem-estar. Os líderes têm a responsabilidade de cuidar bem deles.

Quando é melhor ignorar um feedback?

Receber bem um feedback não significa que você tenha que aceitá-lo sempre. Há inúmeras razões para ignorá­Io. Depois de pensar sobre aquilo, você pode decidir se o que foi dito é um bom conselho ou não. Ou pode decidir que não é a hora de melhorar aquele ponto especifico porque tem outras coisas mais importantes para desenvolver antes. Ou pode ser que você não concorde com o ponto de vista de quem dá o feedback. O erro que cometemos é rejeitar o feedback antes de compreendê-lo. É por isso que uma conversa franca e reciproca é tão importante.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:23-25

Cristo Prega na Galileia

 Observe aqui:

I – Que pregador habilidoso Cristo era. Ele passou por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas e pregando o Evangelho do reino. Entenda:

1.O que Crista falava sobre o Evangelho do reino. O Reino dos céus, isto é, o rei no de graça e glória, é enfaticamente o reino, o reino que estava chegando; o reino que iria sobreviver, que superaria todos os reinos da terra. O Evangelho compreende os estatutos deste reino, contendo o juramento de coroação do Rei, pelo qual Ele se obriga graciosamente a perdoar, proteger e salvar os súditos daquele reino e a procurar a sua honra. Este é o Evangelho do reino; dele, o próprio Cristo foi o pregador, para que a nossa fé no reino possa ser confirmada.

2.Onde Ele pregava. Nas sinagogas. Não apenas ali, mas ali principalmente, porque estes eram os lugares onde a multidão se reunia, onde a sabedoria erguia a sua voz (Provérbios 1.21); porque eram os lugares onde o povo se reunia para a adoração religiosa e ali, esperava-se, a mente do povo estaria preparada para receber o Evangelho; e ali as Escrituras do Antigo Testamento eram lidas, e a sua exposição poderia facilmente introduzir o Evangelho do reino.

3.O empenho que Ele tinha em pregar. Ele passou por toda a Galileia, ensinando. Ele podia ter publicado uma proclamação, convocando todas as pessoas para que viessem até Ele; mas para mostrar a sua humildade, e a condescendência da sua graça, Ele vai até eles; pois Ele espera ser gracioso e vir para buscar e salvar. Josefo disse que havia aproximadamente duzentas cidades e vilas na Galileia, e Cristo visitou todas elas, ou a sua maioria. Ele viajava fazendo o bem. Nunca houve um pregador itinerante assim, tão infatigável, como era Cristo. Ele ia de cidade em cidade, para pedir aos pobres pecadores que se reconciliassem com Deus. Este é um exemplo para os ministros, para que se dediquem a fazer o bem, e para que sejam insistentes e constantes, a tempo e fora de tempo, em pregar a palavra.

II – Que médico poderoso era Cristo! Ele viajava, não se limitando a ensinar, mas também curava. Ele ensinava e curava através da sua palavra, e a exaltava até mesmo acima de seu nome. Ele lhes dava a sua palavra e os curava. Note:

1.Que Ele curou todas as doenças, sem exceção. Ele curou todos os tipos de enfermidades, e todos os tipos de doenças. Existem doenças que são a vergonha dos médicos, sendo obstinadas a todos os métodos que eles podem prescrever. Mas mesmo aquelas foram a glória deste médico, pois Ele curou todas, por mais crónicas que fossem. A sua palavra era um verdadeiro remédio para todos os males.

Três palavras são aqui usadas para dar a entender isto. Ele curava todas as doenças, noson, como cegueira, deficiências físicas, febre, acúmulos de líquidos; todas as enfermidades, ou debilitações, malakian, como fluxos e fraquezas; e todos os tipos de aflições, basanous, como gota, cálculos, convulsões e outras perturbações semelhantes; fosse a doença aguda ou crônica, fosse uma enfermidade aguda ou enfraquecedora, nenhuma delas era terrível demais, nenhuma delas era difícil demais para Ele. Cristo curava a todos proferindo a sua palavra.

Três moléstias, em particular, são especificadas: a paralisia (os paralíticos), que é o maior enfraquecimento do corpo; a loucura (os lunáticos), que é o maior mal da mente; e a possessão demoníaca (os endemoninhados), que é a maior infelicidade e calamidade para o corpo e para a mente; e Cristo as curava, a todas; pois Ele é o Médico soberano, tanto do corpo como da alma, e tem poder sobre todas as doenças.

2.Os pacientes que Ele tinha. Um médico com acesso tão fácil, com um êxito tão garantido, que curava imediatamente, sem sequer um suspense doloroso, ou uma expectativa, ou aqueles remédios dolorosos que são piores que a doença; que curava gratuitamente, e não aceitava pagamentos, não podia evitar ter uma abundância de pacientes. Veja aqui, como as pessoas o procuravam. De todas as partes; grandes multidões vinham, não somente da Galileia e das regiões vizinhas, mas até mesmo de Jerusalém e da Judéia, que ficavam distantes; pois a sua fama per correu toda a Síria, não somente entre os judeus, mas entre as nações vizinhas, que, pelas notícias que agora se espalhavam por todas as partes a seu respeito, estariam preparadas par a receber o seu Evangelho, quando, posteriormente, ele fosse levado a elas. Entende-se que esta era a razão pela qual estas multidões vinham até Ele, porque a sua fama se espalhava de maneira tão abrangente.

3.O mistério que havia nelas. Cristo, ao curar as doenças do corpo, pretendia mostrar que a sua grande missão no mundo era curar as enfermidades espirituais. Ele é o Sol da Justiça, que se levanta com esta cura sob suas asas. Sendo o Transformador dos pecadores, Ele é o Médico das almas, e nos ensinou a chamá-lo assim (cap. 9.12,13). O pecado é a doença, a enfermidade e o tormento da alma; Cristo veio para tirar o pecado, e para curar os pecadores. E as histórias, em particular, das curas que Cristo realizou podem não somente ser aplicadas espiritualmente, como alusões e exemplos, mas, creio eu, têm a intenção de revelar-nos coisas espirituais e de nos mostrar o caminho e o método que Cristo usa para lidar com as almas, na sua conversão e santificação. E estas curas foram registradas, pois se­ riam mais significativas e instrutivas desta maneira; e devem, portanto, ser explicadas e compreendidas para a honra e o louvor daquele glorioso Redentor, que perdoa todos os nossos pecados e que cura todas as nossas enfermidades.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Os sonhos

OS SONHOS: NOSSO ORÁCULO BIOLÓGICO

Eles funcionam como simuladores que nos avisam sobre potenciais perigos ou oportunidades – Um verdadeiro “oráculo biológico” capaz de orientar e aconselhar sobre as melhores decisões a serem tomadas no mundo real.

 Quando as diferentes espécies do gênero Homo ainda se misturavam, matavam e amavam entre si, há 30 mil anos, sonhar já era um imenso mistério diariamente renovado. O que seriam esses mundos cheios de universos, verdadeiros cinemas neolíticos, tão vívidos e interessantes à percepção e à emoção? De que modo eram interpretadas essas imagens de gente, bisões, mamutes e tudo o mais que povoava as paredes e a imaginação de nossos arqui-tataravós, ainda tão longe da escrita, da roda e da agricultura? Seria real o mundo daqui ou o de lá? As crianças de hoje têm dificuldade para entender que seus sonhos de satisfação do desejo mais intensos não geram consequências quando elas despertam. E entre aborígines australianos não há dúvida: o mundo real é ilusão, o mundo dos sonhos é que é real.

Não que os outros mamíferos não sonhem. Sonham sim, sonham demais. Basta olhar seu cachorro de estimação dormindo para inferir a rica experiência onírica que devem ter os animais. O sonho ocorre majoritariamente numa fase específica do sono chamada REM (iniciais de rapid-eye-movement), movimentos rápidos dos olhos que caracterizam essa etapa, acompanhada de um completo relaxamento dos outros músculos do corpo.

Quando estamos mais distantes da ação do mundo real, ficamos imersos no interior dos sonhos. Os mamíferos que experimentam mais sono REM são os que ocupam o topo da cadeia alimentar – e por isso não têm muito receio da predação. Os campeões do sono são os felinos, canídeos e símios, dominantes em suas esferas por força das presas, garras ou ação coletiva articulada. Provavelmente, os sonhos desses animais devem ser construídos em torno dos imperativos darwinistas de matar, não morrer e procriar, simulações de comportamentos adaptativos, ensaios de atos essenciais. Mas não, nenhum cão jamais sonhou com a riquíssima variedade de símbolos típica dos humanos. Quando José interpretou os sonhos do faraó no Egito imemorial, tratava-se de um fenômeno essencialmente humano. Como chegamos a isso? Sonhar deve ter sido profundamente perturbador para nossos ancestrais por milênios incontáveis de noites intensamente estreladas e mágicas. Longuíssima noite dos xamãs oníricos através de glaciações e degelos, até a ideia de que o sono e a morte são apenas passagens para outras vidas, gerando coisas completamente novas na cultura primata: as tumbas multicoloridas, as múmias, os sacerdotes sibilantes e os intérpretes de sonhos. De que modo esses elementos culturais se entrelaçaram na gênese da consciência humana é mistério a ser decifrado nos fragmentos de texto remanescentes da Antiguidade. Sabemos por meio desses escritos que cabia aos intérpretes oníricos decifrar as mensagens recebidas em sonhos pelos reis e chefes militares. Como eram tais sonhos?

Os textos mais antigos indicam que eram sonhos de aconselhamento ou comando das ações do sonhador, tipicamente advindos de ancestrais já falecidos. Uma inscrição egípcia de 4 mil anos atrás proclama “instruções que sua majestade o rei Amenemhet I deu ao seu filho quando lhe falou num sonho”. No Épico de Tukulti-Ninurta – rei assírio possivelmente identificado como Nimrod, bisneto do bíblico Noé -, um bem preservado texto cuneiforme escrito em acádio narra a aparição em sonhos de anjos enviados pelo poderoso deus Marduk para consolar e aconselhar o protagonista. Quase mil anos depois, ainda no Império Assírio, presságios oníricos eram coletados em volumes como o Ziqiqu, que estabelecia associações entre eventos ocorridos em sonhos e suas consequências.

Na Antiguidade, era comum ouvir em sonhos as vozes dos mortos. Conta a lenda que Anfiarau, heroico príncipe de Argos famoso por seus poderes divinatórios, suicidou-se do alto de uma ravina por influência de um Zeus colérico. Na vida real, essa ravina na Beócia tornou-se um foco de peregrinação, pois acreditava-se que de suas profundezas ecoava a voz do príncipe morto murmurando conselhos. Com o tempo ali se estabeleceram sacerdotisas que passaram a mediar as consultas, sobretudo através da interpretação dos sonhos dos peregrinos. Mas nem sempre os personagens oníricos traziam conselhos, às vezes eram apenas ecos fantasmagóricos dos que haviam morrido. Na Ilíada, provavelmente escrita no século 8° a.C., o semideus Aquiles é visitado em sonho pelo espírito de Pátrodo, morto em batalha contra os troianos. Quando Aquiles tenta abraçar seu melhor amigo, este simplesmente desaparece no chão fazendo ruídos estranhos…

A sequência causal entre memórias reverberantes, sonhos e impressões dos antepassados foi proposta em 1976 por Julian Jaynes, psicólogo da Universidade Princeton, no célebre livro The origin of consciousness in the breakdown of the bicameral mind (“A origem da consciência no colapso da mente bicameral”). Jaynes postulou que na aurora de nossa consciência atual encontram-se as memórias dos comandos verbais proferidos pelos chefes dos clãs. Tais comandos reverberavam no sistema auditivo de modo a permitir o trabalho continuado ao longo do dia, caçando, coletando, pastoreando, plantando, lutando e trabalhando arduamente mesmo na ausência do chefe por horas a fio. Esses líderes – em geral parentes de todo o grupo -, ao morrer, tinham o corpo untado, pintado e embalsamado com esmero e adoração… e deixavam reverberando em seus súditos as memórias de suas vozes plenas de autoridade. Uma reverberação que era mais forte nos sonhos do que na vigília, pela mera ausência de interferência sensorial propiciada pelo sono. Desses sonhos nasceram Marduk e os outros deuses da Babilônia, bem como todos os inúmeros deuses mais antigos. E com eles a casta de pessoas que ajudavam, de todas as formas possíveis, o transe místico dos que podiam evocar e interpretar as diretrizes divinas. Sacerdotes, pitonisas e outros oráculos divinatórios tiveram um grande poder real, fato bem ilustrado pelo escravo judeu José feito vizir no Egito por ter oferecido uma interpretação satisfatória dos sonhos do faraó.

Mas chegou o tempo em que ruíram as sociedades piramidais colossais, em que centenas de milhares de pessoas eram comandadas por um deus vivo que alucinava as vozes dos deuses mortos. Nessa ruína em que o número de bocas a alimentar e de fronteiras a proteger era maior do que toda a sabedoria dos velhos deuses, suas vozes se calaram. Do Eufrates ao Nilo os textos remanescentes denunciam esse silêncio, até que se rompeu a separação mental entre deuses e humanos. Passamos a entender que a voz incessante de nosso diálogo interno é apenas nossa, não de outra entidade. Desapareceram as pessoas bicamerais, que escutavam anjos e demônios. Surgiram as pessoas unicamerais, unificadas na representação de um “eu” autônomo que dispõe de um vasto repertório de memórias não para alucinar, mas para imaginar planos. Não mais o bicameral, brutal e ingênuo Aquiles que, sem passado ou futuro, apenas buscava a glória movido por comandos divinos. Agora sim, o unicameral Ulisses, “eu” cheio de estratagemas capaz de enganar os troianos num cavalo de madeira, antever os efeitos nefastos do canto das sereias, ludibriar Polifemo com seu conhecimento da mente alheia e principalmente viajar de maneira persistente por dez anos numa odisseia dolorosa, a fim de reencontrar esposa e filho na Ítaca distante. Hoje somos todos Ulisses em nossa capacidade de planejar o futuro usando as memórias do passado como antecipação da recompensa para levar adiante o trabalho. Aqueles hoje em dia que não vivenciam essa fusão, aqueles ainda cindidos numa mentalidade de múltiplos compartimentos seriam os esquizofrênicos. Platão comparou o delírio psicótico a um sonho perpétuo em que alguns homens acreditavam “que eram deuses e podiam voar”.

Impossível recontar nossa história sem mencionar os oráculos oníricos que hoje seriam chamados de loucos, mas que em sua época eram agentes sociais e políticos valorizados e sacralizados. Fundamentais durante muitos milênios, paulatinamente perderam importância e foram relegados, nos séculos mais recentes, ao limbo das superstições, no qual submergiram magos e profetas, até que o fenômeno onírico foi resgatado pela psicanálise.

Integrar toda essa evidência histórica com a ciência contemporânea é uma tarefa que apenas recentemente começou a ser possível. Um dos maiores avanços veio da pesquisa realizada nos anos 90 pelo psicanalista e neuropsicólogo Mark Solms, da Royal London School of Medicine. Estudando centenas de pacientes neurológicos, Solms descobriu que a capacidade de sonhar – mas não o sono REM – é especificamente abolida por lesões dos circuitos dopaminérgicos relacionados a recompensa e punição. Essa descoberta disso­ ciou pela primeira vez o sonho do sono REM, dando um sentido surpreendentemente exato à celebre noção freudiana de que o desejo é motor do sonho.

Apesar do desprezo com que o sonho foi tratado pela biologia e medicina do século 20, a interpretação onírica foi preservada no mundo ocidental por meio da cultura divinatória do povo iletrado, bem como no divã dos psicanalisados pelo método de Sigmund Freud e seus tantos seguidores. Carl Jung, seu colaborador, discípulo e desafeto, afirmou que “o sonho prepara o sonhador para o dia seguinte”. Em 2010, foi demonstrado pela primeira vez de forma sistemática e quantitativa um papel cognitivo para os sonhos. Os pesquisadores Robert Stickgold e Erin Wamsley, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, estudaram a relação do repertório onírico com o desempenho de voluntários experimentais na navegação de um labirinto virtual. Os pesquisadores descobriram que apenas os voluntários que relataram sonhar com o labirinto tiveram melhora substancial de desempenho quando jogaram novamente, horas depois. Sonhos com outros assuntos distintos do labirinto não foram acompanhados de benefícios cognitivos: apenas pensar no labirinto, em estado de vigília, tampouco resultou em efeitos benéficos. Os resultados demonstraram que sonhar é adaptativo – e não simplesmente um epifenômeno do sono. Em 2012, um grupo de pesquisa liderado por Yukiyasu Kamitani nos laboratórios ATR de Neurociência Computacional, em Kyoto, publicou a primeira tentativa bem-sucedida de decodificar o conteúdo de um sonho, isto é, de reconstruir o enredo onírico com base apenas no sinal extraído do cérebro.

Com essas mais recentes descobertas, começa a ser delineado um cenário emocionante da evolução dos sonhos em nossa linhagem. A capacidade de imaginar o futuro com base no passado, eixo central de nossa consciência reflexiva, talvez represente a invasão durante a vigília de algo muito mais antigo, que é justamente a capacidade de sonhar. A função primordial dos sonhos teria sido, então, a de simuladores capazes de avisar sobre potenciais perigos ou oportunidades – um “oráculo” biológico que aconselhas se ou orientasse as pessoas sobre as melhores decisões a tomar num provável mundo real.

Tal oráculo não seria determinístico, e sim probabilístico, produzindo “palpites bem informados” que, a julgar pelo registro histórico, tiveram um papel poderoso na passagem do homem pré-histórico até nossos dias. As vantagens desse oráculo são evidentes, pois nada do que é simulado no mundo dos sonhos acarreta risco real para o sonhador.

Segundo essa teoria, nossos antepassados produziram em sonhos, protegidos pelo manto do sono, as ideias mais criativas e transformadoras de nossa espécie. Com o tempo desenvolveram complexos rituais para acessar o conhecimento oculto nas brumas oníricas. Em pouco tempo já não ousavam fazer qualquer coisa sem tal aconselhamento, dependendo dele para planejar as caçadas, determinar as colheitas, iniciar guerras e escolher as datas dos casamentos e demais eventos de importância social.

Que sorrisos dariam Freud e Jung se tivessem vivido para conhecer essas ideias? Que expressão de assombro veríamos nas faces de um sacerdote assírio ou xamã siberiano se pudessem observar, com seus próprios olhos, um sonho revelado não por uma pitonisa, mas por um escâner de ressonância magnética funcional? Seus olhos certamente brilhariam e então talvez suas pálpebras se fechassem para sonhar um sonho louco.

Motivos para mudar os planos

Ainda hoje, muitas pessoas interpretam sonhos como aviso ou premonição digna de orientar ações de compra e venda, casamentos, ocorrências trágicas, viagens, contratos e apostas a dinheiro. Numa pesquisa realizada por pesquisadores das universidades Carnegie Mellon e Harvard com passageiros do metrô, a maioria dos entrevistados declarou que os sonhos têm impacto efetivo em seu comportamento cotidiano, influenciando suas relações sociais (67%) e tomada de decisões (52%). Essa influência foi justificada pela crença de que os sonhos podem prever o futuro (68 %). Foi pedido aos participantes que imaginassem possuir um bilhete marcado para viagem aérea e lhes foi perguntado como reagiriam caso experimentassem um dos quatro cenários alternativos a seguir: alerta de ameaça terrorista, pensamento consciente na vigília sobre um possível acidente aéreo, sonho sobre um acidente aéreo e notícia sobre um acidente aéreo real. Curiosamente, os participantes declararam ter mais possibilidade de alterar seus planos de viagem em resposta ao sonho do que em qualquer outro cenário – até mesmo no caso de acidente de verdade.

Emoção, memória e aprendizagem

Para entender para que serve o sonho, necessitamos compreender algo básico: o homem contemporâneo tende a esquivar-se de todo risco. Em vez de caçadas perigosas coletas incertas, fazemos visitas regulares ao supermercado. No lugar de turnos de guarda noturna alternados para evitar um ataque traiçoeiro na madrugada, temos a segurança de muros, portas trancadas e alarmes. Em lugar de pedras e peles, dormimos sobre colchões anatômicos. Não enfrentamos dificuldade de encontrar parceiros sexuais férteis que não sejam parentes próximos, apenas o risco de levar um não de uma pessoa desconhecida numa festa ou bar. Se os sonhos alguma vez foram essenciais para nossa sobrevivência, já não o são. Isso não quer dizer, entretanto, que os sonhos não mais desempenhem um papel cognitivo.

Para esclarecer que papel é esse, é preciso em primeiro lugar desconstruir a noção de que os sonhos refletem algum tipo de processamento neuronal aleatório. Embora regiões profundas do cérebro de fato promovam durante o sono REM um bombardeio elétrico aparentemente desorganizado do córtex cerebral, há bastante evidência de que os padrões de ativação cortical resultantes desse processo reverberam memórias adquiridas durante a vigília. Mesmo que não soubéssemos disso, bastaria um pouco de reflexão e introspecção para refutar a teoria aleatória dos sonhos. A ocorrência múltipla de um mesmo sonho é um fenômeno detectável, ainda que ocasional, na experiência da maior parte das pessoas. Pesadelos repetitivos são sintomas bem estabelecidos do transtorno de estresse pós-traumático, que acomete indivíduos submetidos a eventos excessivamente violentos. Dada a imensa quantidade de conexões neuronais existentes no cérebro, seria impossível ter sonhos repetitivos se eles fossem o produto de ativação ao acaso dessas conexões.

Além disso, sonho e sono REM não são o mesmo fenômeno e sequer têm bases neurais idênticas. Temos certeza disso porque existem pacientes neurológicos que perdem a capacidade de sonhar, mas não deixam de apresentar o sono REM. Nesse caso, as regiões lesionadas, descritas por Mark Solms, são circuitos relacionados com a motivação para receber recompensas e evitar punições. Essas estruturas utilizam o neurotransmissor dopamina para modular a atividade de regiões relacionadas à memória, emoção e percepção. Sonhar com algo na vigília é o mesmo que desejar – e é exatamente de desejo que são feitos os sonhos. Curiosamente, são os níveis de dopamina que, em experimentos com camundongos transgênicos, regulam a semelhança entre os padrões de atividade neural observados durante o sono REM e a vigília. Portanto, a ideia de que psicose é sonho, ridicularizada por décadas, também encontra apoio na neuroquímica moderna.

E ainda, ao contrário da teoria de que os sonhos são subproduto do sono sem função própria, prevalece cada vez mais a noção de que o sono e o sonho são cruciais para a consolidação e a reestruturação de memórias. Ambos os processos parecem ser dependentes da reverberação elétrica de padrões de atividade neural que ocorrem enquanto dormimos e representam memórias recém-adquiridas. Essa reverberação se beneficia da ausência de interferência sensorial durante o sono e resguarda o processamento mnemônico de perturbações ambientais. A reverberação é favorecida também pela ocorrência de oscilações neurais durante o sono sem sonhos, chamadas de ondas lentas. Os pesquisadores Lisa Marshall, Jan Born e colaboradores da Universidade de Lübeck, na Alemanha, demonstraram que é possível aumentar a taxa de aprendizado realizando estimulação elétrica de baixa frequência durante o sono de ondas lentas.

Em contrapartida, como venho demonstrando junto com outros grupos de pesquisa desde 1999, o sono REM parece ser fundamental para a fixação de longo prazo das memórias em circuitos neuronais específicos. Esse processo depende da ativação de genes capazes de promover modificações morfológicas e funcionais das células neurais. Tais genes são ativados durante a vigília quando algum aprendizado acontece e voltam a ser acionados durante os episódios de sono REM subsequentes. Como resultado, memórias evocadas por reverberação elétrica durante o sono de ondas lentas são consolidadas por reativação gênica durante o sono REM.

Essa reativação cíclica das memórias em diferentes fases do sono e da vigília vai paulatinamente fortalecendo os caminhos neurais mais importantes para a sobrevivência do indivíduo, enquanto as memórias inúteis são gradativamente esquecidas.

Experimentos eletrofisiológicos e moleculares mostram ainda que as memórias migram de um lugar para outro do cérebro, sofrendo importantes transformações com o passar do tempo. Meu laboratório tem mostrado que áreas do cérebro envolvidas na estocagem temporária de informações, como o hipocampo, apresentam reverberação elétrica e reativação gênica apenas durante os primeiros episódios de sono após o aprendizado. Em contraste, áreas do córtex envolvidas na armazenagem duradoura das memórias apresentam persistência desses fenômenos por muitos episódios de sono após a aquisição de uma nova memória.

PASSAGEM BIBLICA: o faraó sonhou com sete vacas magras que devoravam novilhas gordas, o que foi interpretado por José do Egito como um prenúncio de anos de fartura seguidos por um período de miséria

José interpreta o sonho de faraó

José interpreta o sonho de faraó.2

José interpreta o sonho de faraó.3

SIDARTA RIBEIRO é neurobiólogo, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e professor titular da UFRN.

GESTÃO E CARREIRA

Linha de frente

NA LINHA DE FRENTE

Por causa da crise, os executivos precisaram descer alguns níveis e se envolver na operação para reforçar a busca pelos resultados. Conheça os perfis de liderança que estão em alta no Brasil e os que devem predominar em 2018.

A partir de 2016, a rotina do executivo alagoano Felipe Cansanção, de 33 anos, CEO da Aloo Telecom, empresa de telecomunicações com maior foco na região Nordeste, teve de mudar para reforçar o alcance das metas. Todos os meses, ele passa ao menos uma semana viajando com a equipe de vendas para prospectar novos projetos, conversar com os clientes e, assim, identificar oportunidades de negócio. Com a decisão de descer alguns níveis e acumular tarefas típicas do nível tático, a jornada de trabalho de Felipe pode chegar a 14 horas. Mas os resultados têm compensado o esforço extra. Contrariando a tendência de crise, a companhia, que já contabiliza 3 000 clientes corporativos públicos e privados em 14 estados, está em expansão e espera fechar o ano com um crescimento de 35% em relação a 2015. “Há urna melhora da motivação da equipe, que percebe nosso esforço pessoal, e um estreitamento da relação com o cliente, que se sente importante para a empresa”, diz Felipe.

A atitude de Felipe ilustra uma tendência detectada pelo Brazilian Managernent Institute (BMI) em sua pesquisa CSuite2017, com executivos de 106 médias e grandes empresas, a maioria (57%) presidentes e vice-presidentes. O levantamento revelou que as lideranças das companhias que atuam no Brasil têm priorizado a execução, em vez da pactuação. Isso quer dizer que 67,1% desses executivos têm dedicado a maior parte de seu tempo ao envolvimento direto na busca pelos resultados – ante urna minoria de 32,5% que destina a maior parte de sua atenção à pactuação, isto é, à estratégia, à criação de propósito e ao engajamento dos times. “Esses números refletem o quadro adverso da economia brasileira, que te m exigido um foco muito grande dos líderes nos resultados trimestrais. Isso vai na contramão da liderança em pactuação, que trabalha com uma agenda de longo prazo”, afirma Daniel Motta, CEO do BMI. Agora, num desdobramento dos dados feito com exclusividade para VOCÊ S/A, a consultoria identificou também quais, entre os dez estilos de gestão derivados desses pilares – execução e pactuação, – predominaram nas multinacionais e empresas locais (veja quadro). A ideia era descobrir, em maior detalhe, como os executivos de diferentes tipos de organização encarnaram o foco na execução.

Nas multinacionais, prevaleceram os estilos “tático” e “maquinista”. “A metáfora, neste caso, é que a liderança senta na locomotiva e pilota”, diz Daniel. “Essa postura revela a preocupação em trabalhar ao lado das equipes para assegurar que as entregas aconteçam num cenário desafiador.” Um dos líderes que adotam esse estilo é o alemão Philipp Schiemer, de 52 anos, CEO da alemã Mercedes-Benz no Brasil e América Latina. Para ter uma ideia do grau de proximidade do executivo da operação, uma vez por semana ele liga pessoalmente para clientes que entraram em contato com a central de atendimento ela montadora para saber se seu problema foi devidamente resolvido. “Se digo que todos têm que ouvir o cliente, eu também tenho que fazer isso.” A agenda de Philipp ainda inclui conversas regulares com o chão de fábrica para explicar decisões difíceis que precisem ser tomadas e escutar sugestões para a situação. O objetivo de descer esses níveis era garantir uma comunicação direta, sem intermediários. O resultado foi que, mesmo precisando fazer cortes de pessoal por causa da desaceleração do setor automotivo no Brasil, a empresa não enfrentou greves nem pioras no clima. “Isso nos mostra que as pessoas entenderam a diferença entre o que é efeito da crise e o que é o nosso ambiente interno”, diz.

Já nas empresas nacionais, em 2017, prevaleceu o estilo batizado de “feudal. “Segundo o presidente do BMI, esse perfil sugere uma atuação em silos, com cada executivo preocupado com o desempenho da sua área, e não necessariamente com os resultados da companhia como um todo. “Mostra também a preocupação com o risco de demissão num momento considerado ameaçador, com cada um tentando garantir as próprias entregas”, diz Daniel Motta. Para Joel Dutra, coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração (FIA), os dados refletem a pressão dos acionistas por resultados e o aumento da competição interna. “Prega-se que o executivo deve ter visão global, mas os modelos de avaliação de desempenho, de recompensa e de pagamento de bônus costumam ser baseados no desempenho individual”, diz Joel.

 MUDANÇA DOS VENTOS

Mas a melhora das expectativas para a economia em 2018 pode mudar um pouco esse quadro. Com a redução ela pressão por resultados imediatos, eleve haver um aumento na proporção de líderes com perfil de pactuação, em especial os mobilizadores, que têm por característica inspirar seus liderados a buscar resultados ambiciosos, sem tanto protagonismo do gestor, aposta o presidente do BMI. “Quando a agenda executiva está muito focada nas entregas, a pactuação fica para um segundo plano. Mas, com uma melhora ele cenário, esse perfil de liderança pode voltar a ser mais demandado.” Para Joel Dutra, o início de uma virada econômica pode alterar as prioridades da liderança. “As organizações, aos poucos, vão girar a chave dos resultados de curto prazo para a inovação”, diz. Um dos que se identificam com o perfil mobilizador é o cearense Lucas Araripe, de 30 anos, diretor de novos negócios da empresa de energia eólica Casa dos Ventos, onde comanda uma equipe de engenheiros. Lucas atribui sua opção por esse estilo de gestão à natureza do negócio e à posição que ocupa. “A área ele energias renováveis é extremamente técnica e exige uma variedade ele conhecimentos muito específicos, que dificilmente uma só pessoa vai conseguir concentrar”, afirma. “Por isso, procuro montar equipes multi­disciplinares, compostas dos melhores especialistas, e atuo como uma espécie de árbitro das discussões.”

Para Lucas, a principal vantagem dessa postura é favorecer o surgimento de soluções criativas. Entre 2015 e 2016, por exemplo, a Casa dos Ventos inaugurou 41 parques eólicos. Para isso, precisou montar um grande time de especialistas em operação e manutenção desses espaços. A abertura do executivo à expertise de quem veio de fora permitiu à empresa desenvolver, por exemplo, um dispositivo a laser que identifica os primeiros sinais ele mudança na direção cios ventos. As­ sim, a turbina pode se ajustar com antecedência ao melhor ângulo, de modo a extrair do vento o máximo de energia possível. “Meu papel é deixar as pessoas à vontade para criar e dar o reconhecimento quando boas ideias surgem”, diz Lucas. Para Daniel Motta, do BMI, a alternância de estilos de liderança é bem-vinda. Segundo ele, não existem tipos melhores ou piores, e sim os mais adequados a cada contexto. “Os diferentes papéis desse repertório são mais ou menos requisitados segundo o ambiente econômico, o perfil da organização e o desenvolvimento das equipes”, diz.

 LIDERANÇA EM EXECUÇÃO

Estes gestores se envolvem nas atividades do nível tático – não só na estratégia. Centralizam as decisões e avaliam a companhia e os colaboradores com base em métricas financeiras e de produtividade

TÁTICOS – Toma decisões centralizadas e dedicam menos tempo à articulação, comandando planos de ação com pulso firme.

MAQUINISTAS – Determinam o rum e a velocidade da execução dos projetos, com todos os recursos alinhados nos trilhos e protagonismo no processo.

FEUDAIS – Exercem seu poder por meio da ampliação de suas equipes e do seu orçamento, mesmo elevando o nível de tensão com as outras áreas.

TAREFEIROS – Envolvem-se na execução dos processos e das atividades, mantendo a curva de desempenho diretamente dependente do seu desenvolvimento pessoal.

CONQUISTADORES – Definem o ritmo de conquista de espaço com foco na superação das metas de desempenho e foco primordial no sucesso de curto prazo.

 LIDERANÇA EM PACTUAÇÃO

Para estes perfis, mais focados na estratégia, a organização deve servir a um propósito inspirador e as pessoas devem desenvolver vínculos emocionais com ela e com a liderança para maximizar seu potencial

MOBILIZADORES – Mobilizam mentes e corações a encontrar a melhor forma de trabalho, com vistas a resultados ambiciosos que mantenham a tensão criativa.

EMBAIXADORES – Propõem uma agenda de longo prazo, com metas compartilhadas, valorizando relações duradouras e de confiança.

FACILITADORES – Desafiam suas equipes a propor alternativas, facilitando a tomada de decisão e delegando responsabilidades, com monitoramento do desempenho.

COLABORATIVOS – Exercem influência pela colaboração em agendas transparentes. Demonstram sua relevância pelas conexões de sustentação para seus projetos.

ORQUESTRADORES – Buscam o potencial máximo de cada um, para que a equipe tenha um bom desempenho coletivo, recompensando o esforço individual.

 OS MAIS POPULARES

Os tipos de liderança mais frequentes variaram conforme o perfil da organização.

 MULTINACIONAIS

TÁTICOS ——————————- 24,6%

MAQUINISTAS———————– 15,8%

MOBILIZADORES——————– 14%

 

NACIONAIS

FEUDAIS ——————————————————————————————— 17,4%

CONQUISTADORES, TÁTICOS, TAREFEIROS, COLABORATIVOS——-   13%

MOBILIZADORES, MAQUINISTAS —————————————————–     8%

 

Fonte: Revista Você S/A

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4: 18-22

Cristo Chama Pedro, André, Tiago e João

Quando Cristo começou a pregar, Ele começou a reunir discípulos, que seriam agora ouvintes, e depois pregadores, da sua doutrina. Eles seriam agora testemunhas dos seus milagres, e no futuro os realizariam. Nestes versículos, temos um relato dos primeiros discípulos que Ele chamou para a sua comunhão.

E este foi um exemplo:

1.De uma chamada eficaz a Cristo. Em toda a sua pregação, Ele fez um chamado geral a toda a nação, mas aqui Ele fez um chamado especial e particular àqueles que lhe foram dados pelo Pai. Devemos observar e admirar o poder da graça de Cristo, possuir a sua Palavra como a vara da sua força, e esperar dele as poderosas influências que são necessárias pana eficácia do chamado do Evangelho. Toda a nação foi chamada, mas estes foram escolhidos, foram resgatados entre todos eles. Cristo se manifestou a eles de uma maneira que Ele não se manifestou ao mundo.

2.Foi um exemplo de ordenação e de indicação ao trabalho do ministério. Quando Cristo, como um professor, estabeleceu a sua grande escola, um dos seus primeiros trabalhos foi indicar auxiliares que seriam empregados no trabalho de instrução. Agora, Ele começava a dar dons aos homens, a colocar o tesouro em vasos terrenos. Este foi um dos primeiros exemplos do seu cuidado pela igreja.

Aqui podemos observar:

I – O lugar onde eles foram chamados: Junto ao mar da Galileia, onde Jesus estava caminhando, pois Cafarnaum se situava próxima àquele mar. A respeito deste mar de Tiberíades, os judeus têm um dito: De todos os sete mares que Deus criou, Ele não escolheu outro que não o mar de Genesaré. Isto se aplica à escolha que Cristo fez dele, para honrá-lo, como Ele frequentemente fazia, com a sua presença e com os seus milagres. Aqui, à margem do mar, Cristo estava caminhando em meditação, como Isaque no campo. Ele foi até ali para chamar os seus discípulos; não foi até a corte de Herodes (pois são poucos os poderosos e nobres que são chamados), nem a Jerusalém, em meio aos principais dos sacerdotes e aos anciãos, mas foi até o mar da Galileia. Certamente Cristo vê o que os homens não veem. Caso contrário, aquele mesmo poder que convocou Pedro e André teria convocado Anás e Caifás, pois para Deus nada é impossível. Mas, como em outros aspectos, no seu discurso e na sua presença, Ele se humilhou e mostrou que Deus tinha escolhido os pobres deste mundo. A Galileia era uma parte remota da nação, os habitantes eram menos educados e refinados, a sua própria linguagem era grosseira para os curiosos, o seu modo de falar mostrava de onde eram. Aqueles que foram escolhidos junto ao mar da Galileia não tinham as vantagens nem o aprimoramento dos galileus mais refinados, mas, ainda assim, para lá Cristo foi, para chamar os seus discípulos, que seriam os primeiros-ministros do estado no seu reino, pois Ele escolhe “as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias”.

II – Quem eles eram. Nós temos o relato do chamado de dois pares de irmãos nestes versículos: Pedro e André, e Tiago e João. Os dois primeiros e, provavelmente, os dois últimos também, tinham conhecido a Cristo anteriormente (João 1.40,41), mas até agora não tinham sido chamados a um relacionamento mais íntimo e frequente com Ele. Observe que Cristo traz as pobres almas gradualmente à comunhão com Ele. Eles tinham sido discípulos de João, e assim eram os mais inclinados a seguir a Cristo. Aqueles que se submeteram à disciplina do arrependimento, darão as boas-vindas às alegrias da fé. Podemos observar, a respeito deles:

1.Que eram irmãos. É uma bênção quando aqueles que são parentes segundo a carne (como o apóstolo fala, Romanos 9.3) são unidos em uma aliança espiritual, Jesus Cristo. É a honra e o consolo para uma casa quando aqueles que são de uma mesma família, são também da família de Deus.

2.Que eles eram pescadores. Sendo pescadores:

 (1) Eram homens pobres; se tivessem tido propriedades ou qualquer mercadoria considerável para o comércio, eles não teriam sido pescadores, embora pudessem ter feito da pesca a sua recreação. Cristo não despreza os pobres, e, portanto, nós também não devemos fazê-lo; os pobres são evangelizados, e a Fonte de honra algumas vezes dá uma honra mais abundante àquele grupo que quase não a tem.

(2) Eram homens iletrados, não criados com livros e literatura, como foi Moisés, que era versado “em toda a ciência dos egípcios”. Às vezes, Cristo decide conceder os dons da graça àqueles que têm menos dons naturais a exibir. Ainda assim, isto não justifica a invasão de homens ignorantes e não qualificados na obra do ministério: não se deve esperar dons extraordinários de conhecimento e expressão, mas algumas habilidades essenciais devem ser obtidas de uma maneira normal, e sem uma quantidade razoável destas ninguém deve ser admitido a este trabalho.

(3) Eram homens de negócios, que tinham sido criados para trabalhar. Observe que a diligência a urna vocação honesta agrada a Cristo, e não representa obstáculo a uma vida santa. Moisés apascentava rebanhos, e Davi cuidava de ovelhas, quando foram chamados a atividades eminentes. As pessoas ociosas estão mais abertas às tentações de Satanás do que aos chamados de Deus.

(4) Eram homens acostumados às dificuldades e aos perigos; o ramo da pesca, mais do que qualquer outro, é trabalhoso e perigoso; os pescadores frequentemente estão molhados e com frio; devem ser vigilantes, e esperar, e trabalhar arduamente, e frequentemente estar em perigo nas águas. Aqueles que aprenderam a suportar dificuldades e a correr riscos, são os mais bem preparados para a comunhão e o discipulado de Jesus Cristo. Os bons soldados de Cristo precisam suportar as dificuldades.

III – O que eles estavam fazendo. Pedro e André estavam, então, lançando suas redes, estavam pescando; e Tiago e João estavam consertando as suas redes, o que era um exemplo da sua atividade e da sua boa administração. Eles não foram pedir ao seu pai dinheiro para comprar novas redes, mas se esforçaram para consertar as velhas. É elogiável fazer com que aquilo que tem os dure o máximo possível. Tiago e João estavam com o seu pai, Zebedeu, prontos para ajudá-lo e tornar o negócio mais fácil para ele. Ê um presságio feliz e esperançoso ver filhos que cuidam dos seus pais, e que lhes são obedientes. Observe:

1.Todos eles estavam empregados, todos muito ocupados, nenhum deles ocioso. Quando Cristo chega, é bom a pessoa ser encontrada ocupada. “Eu estou em Cristo?” É uma pergunta muito importante que devemos fazer a nós mesmos, e, em seguida: “Estou agindo conforme a minha chamada?”.

2.Eles estavam fazendo coisas diferentes. Dois deles estavam pescando, e dois outros estavam consertando suas redes. Os ministros devem estar sempre trabalhando, seja no ensino ou no estudo; eles podem sempre encontrar alguma coisa para fazer, caso contrário será sua própria falha; e consertar as redes é, na hora certa, um trabalho tão necessário quanto pescar.

IV – Qual foi o chamado (v. 19): “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens”. Eles tinham seguido a Cristo antes, como discípulos normais (João 1.37), mas podiam seguir a Cristo e também à sua chamada. Portanto, eles foram chamados a um relacionamento mais íntimo e frequente, e precisaram deixar a sua profissão. Mesmo aqueles que foram chamados para seguir a Cristo, têm necessidade de serem chamados para segui-lo mais de perto, especialmente quando são designados para a obra do ministério. Observe:

1.O que Cristo designava para eles: “Eu vos farei pescadores de homens”; isto faz alusão à sua profissão anterior. Que eles não se orgulhem da nova honra que lhes é designada, pois ainda são apenas pescadores; que eles não tenham medo da nova tarefa que lhes foi designada, pois estão acostumados a pescar e continuam sendo pescadores. Era usual que Cristo falasse de coisas espirituais e celestiais com tais alusões, e com tais expressões, que nasciam das coisas comuns que se ofereciam à sua vista. Davi foi chamado de alimentar ovelhas para alimentar o Israel de Deus; e quando ele se torna rei, trabalha corno um pastor do povo. Observe:

(1) Os ministros são pescadores de homens, não para destruí-los, mas para salvá-los, para levá-los a outro fundamento. Eles devem pescar, não por raiva, por riqueza, por honra ou por uma promoção, não para ganhar algo ou alguém para si mesmos, mas devem lutar pelas almas, para ganhá-las para Cristo. Eles velam por nossa alma (Hebreus 13.17), e não buscam o que é nosso, mas, sim, a nós (2 Coríntios 12.14,16). (2) É Jesus Cristo quem os faz assim: “Eu vos farei pescadores de homens”. É Ele quem qualifica os homens para este trabalho, quem lhes dá a vocação, quem os autoriza a realizá-lo, lhes dá a missão de pescar almas, e lhes dá a sabedoria para conquistar as pessoas. Estes ministros terão conforto no seu trabalho, se estiverem na direção de Jesus Cristo.

2.O que eles devem fazer para conseguir isto: “Vinde após mim”. Eles precisam se dedicar a uma comunhão assídua com Ele, estar continuamente na presença dele e ser urna humilde imitação dele. Devem segui-lo corno seu líder. Observe:

(1) Aqueles a quem Cristo emprega em qualquer serviço para si, primeiramente devem ser adequados e estar qualificados para isto.

(2) Aqueles que pregam a Cristo, primeiramente devem conhecer a Cristo, e aprender com Ele. Como podemos esperar levar o conhecimento de Cristo aos outros, se nós mesmos não o conhecermos bem?

(3) Aqueles que conhecem a Cristo devem ser diligentes e constantes na sua comunhão com Ele, precisam estar constantemente na presença dele. Os apóstolos estavam preparados para o seu trabalho, por acompanharem a Cristo “todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre eles” (Atos 1.21). Não existe um aprendizado comparável àquele que se consegue seguindo a Cristo. Ao servir a Moisés, Josué se tornou o homem adequado para ser o seu sucessor.

(4) Aqueles que querem ser pescadores de homens devem, neste sentido, seguir a Cristo, e fazer o que Ele fazia com diligência, fé e carinho. Cristo é o grande padrão dos pregadores; assim, estes devem procurar ser trabalhadores semelhantes a Ele, e que trabalhem junto com Ele.

V – Qual foi o resultado deste chamado. Pedro e André deixaram imediatamente suas redes (v. 20); e Tiago e João imediatamente deixaram o barco e o seu pai (v. 22); e todos eles o seguiram. Aqueles que desejam seguir a Cristo imediatamente, devem deixar tudo para segui-lo. Cada cristão deve abandonar todas as coisas a que é apegado, amando a Cristo mais do que ao pai ou à mãe (Lucas 14.26, versão NTLHJ, estar preparado para se separar dos seus interesses por amor a Ele, e não do seu interesse por Jesus Cristo; mas aqueles que se dedicam à obra do ministério devem estar, de uma maneira especial, preocupados com a sua separação dos assuntos desta vida para que passam se dedicar integralmente àquela obra, que exige o homem por completo. Agora:

1.Este exemplo do poder do Senhor Jesus nos dá um bom incentivo para confiarmos na suficiência da sua graça. Corno é forte e eficaz a sua palavra! Ele fala, e tudo acontece conforme a sua vontade. O mesmo poder acompanha estas palavras de Cristo: “Vinde após mim”, e acompanha as palavras: “Lázaro, vem para fora”; um poder que desperta a vontade (Salmos 110.3).

2.Este exemplo de docilidade dos discípulos nos dá um bom exemplo de obediência ao comando de Cristo. Note que é uma boa qualidade de todos os servos fiéis de Cristo vir quando são chamados e seguir o seu Messias para onde Ele os levar. Eles não levantaram objeções sobre os seus empregos atuais, suas responsabilidades com suas famílias, as dificuldades do trabalho para o qual eram chamados nem a sua própria inadequação para ele; mas, ao serem chamados, obedeceram, e, como Abraão, saíram sem saber para onde iam, mas sabendo muito bem a quem estavam seguindo. Tiago e João deixaram seu pai: não é dito o que aconteceu com ele; a sua mãe, Salomé, era uma seguidora assídua de Cristo; sem dúvida, o seu pai, Zebedeu, era um crente, mas o chamado para seguir a Cristo foi direcionado aos jovens. A juventude é a idade do aprendizado e do trabalho. Os sacerdotes ministram no auge da sua vida.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Corpo, psique e experiencia humana

CORPO, PSIQUE E EXPERIÊNCIA HUMANA

Saúde, sintoma e doença são manifestações de um jogo complexo de forças quase sempre desconhecidas do indivíduo.

 Mais que uma questão de semântica, antes mesmo de discussões filosóficas ou embates ideológicos, as relações entre corpo e psique são uma realidade que sistematicamente se manifesta por meio da experiência de cada um. Das mais simples vivências cotidianas, como a aceleração do ritmo cardíaco diante da lembrança de um encontro amoroso, até as complexas descobertas experimentais da psiconeuroimunologia que comprovam a redução do número de glóbulos brancos e das defesas imunológicas em pessoas que vivem momentos depressivos, a gama de manifestações que revelam as interações permanentes e indissociais entre funções orgânicas e psíquicas é infinita.

Apesar de seu caráter quase intuitivo e das fortes evidências encontradas pela pesquisa experimental em muitas situações clínicas essas relações são negligenciadas, produzindo situações paradoxais. Na medicina, apesar dos enormes avanços diagnósticos terapêuticos avançado em todas as especialidades, não são raros os casos em que os médicos deparam com pacientes cujas queixas e sintomatologia permanecem refratários a todos esses progressos.

As dificuldades encontradas nessas situações originaram diferentes termos que tentam descrever os quadros apresentados por esses pacientes: doenças “funcionais”, “psicossomáticas”, “idiopáticas”, sintomas de “somatizaçâo”. Essas denominações em geral se apresentam como diagnósticos de exclusão, resultantes da impossibilidade de identificação das dinâmicas etiológicas das queixas e da sintomatologia ou do caráter surpreendente de suas evoluções. Os tratamentos prescritos, normalmente sintomáticos, trazem alívio, porém não resolvem o problema do paciente, que volta a apresentar os mesmos ou outros quadros sintomáticos e muitas vezes é submetido a uma sucessão de encaminhamentos a diversos especialistas, com quem as mesmas dificuldades se repetem.

A necessidade não apenas de reconhecer, mas, sobretudo, compreender e tratar em sua plenitude os fenômenos relacionados às interações entre corpo e psique deu origem a diversas hipóteses. Numa perspectiva fenomenológica, Karl Jaspers sugeriu o termo somatopsicologia para descrever o fato de que toda reação expressiva, manifestam-se pôr meio de funções corporais e se prestam como sede da alma, que, por sua vez, determina as qualidades e experiências dessas funções. Utilizada em 1818por J. Heinroth, a palavra psicossomática é atualmente mais conhecida, apesar de questionada. Por meio dela, muitos modelos teóricos buscam descrever e explicar as relações causais existentes entre as dimensões corporais e psíquicas da experiência humana.

Desde seus primeiros modelos, a psicanálise trouxe importante contribuição a essa investigação. Diante da perplexidade e incompreensão provocadas nos médicos pelas manifestações corporais histéricas (paralisias, anestesias, cegueiras, convulsões, entre outros) e pelos sintomas que pareciam não respeitar organizações anatômicas, fisiológicas e neurológicas, Freud revelou a existência de relações particulares entre formas de expressão corporal e dinâmicas psíquicas. Referidos a uma anatomia imaginária, carregados de significados, marcados pela história e por episódios específicos da vida da pessoa, os sintomas histéricos evidenciam a capacidade de expressão, através do corpo, de um conflito psíquico inconsciente. Reconhecendo e considerando a importância dos processos somáticos presentes na sintomatologia, a grande contribuição da psicanálise foi ter desenvolvido instrumentos específicos para a observação e escuta de dimensões da experiência do corpo que transcendem o abstrato orgânico dessa experiência prestando-se à manifestação, ao compartilhamento como outro e à transformação por meio da linguagem e do universo simbólico.

Desde o início do século XX, o modelo da histeria inspirou a investigação das relações etiológicas entre conflitos psíquicos e diversas doenças orgânicas como asma, eczema, psoríase, retocolite, úlcera e muitas outras. Até hoje essa visão conversiva do adoecer impregna certa compreensão popular do adoecimento, quando se afirma que uma pessoa somatiza por problemas emocionais”

Efeitos da fragilidade

Porém, ao propor o conceito de neuroses atuais, o próprio Freud apontou para os limites do modelo da conversão histérica (uma psiconeurose) para a compreensão de algumas expressões e doenças orgânicas. Diferentemente das organizações histéricas, nas quais é possível encontrar sentidos simbólicos para os sintomas, ele observou que nas neuroses atuais (neurose de angústia, neurastenia e hipocondria) parecia haver uma descarga direta da excitação pulsional pelas vias somáticas com pouca ou nenhuma elaboração mental da excitação, nem derivação ou correspondência com dinâmicas psíquicas

Por causa dessas características Freud desaconselhava o tratamento psicanalítico para pacientes com neuroses atuais e doenças orgânicas. Sandor Ferenczi reconheceu as dificuldades apontadas por Freud para o tratamento dessas manifestações, porém insistiu na importância do referencial teórico que a psicanálise vinha desenvolvendo para a apreensão da experiência subjetiva e para o acompanhamento clínico dos pacientes com doenças orgânicas, tanto no âmbito da própria psicanálise como no meio, médico. Ferenczi sugeriu a necessidade de outra postura do terapeuta e de modificações no dispositivo clínico para lidar com esses pacientes, ao mesmo tempo que propunha a sensibilização dos médicos para as vivências psíquicas de seus pacientes, um caminho pelo qual enveredam todos os pioneiros da psicossomática como Georg Groddeck, Felix Deutsch, Franz Alexander, Ballint e muitos outros.

Na esteira desses pioneiros (e de Melanie Klein, René Spitz, Donald Winnicott, Pierre Marty, Pierre Fédida, e vários outros) desenvolveu-se toda uma vertente teórico-clínica que, ampliando a compreensão da metapsicologia psicanalítica, atualmente oferece possibilidades de tratamento não apenas para pacientes que apresentam sintomatologia orgânica, mas também psicóticos, borderlines, adictos e com transtornos de caráter, ou seja, pessoas que vivem os  efeitos das fragilidades decorrentes da precariedade de suas vivências infantis, de seu desenvolvimento, do  esgarçamento de seu tecido psíquico, de suas fragilidades narcísicas, da pobreza de seu mundo objetal e de representações.

Com efeito, apesar das diferenças entre essas formas de manifestação, a clínica revela a existência de uma perfeita continuidade funcional e de modo de organização entre esses quadros, tanto do ponto de vista do desenvolvimento humano, como da manifestação patológica.

A partir dessas constatações, a psicossomática psicanalítica apresenta uma perspectiva teórica e clínica que permite compreender que as manifestações ou as queixas centradas no corpo são apenas uma das modalidades possíveis de expressão do sofrimento humano. Por sua vez, apesar da predominância da expressão psíquica os sintomas psicopatológicos constituem outra vertente para a manifestação desse sofrimento. Mesmo considerando os mecanismos fisiológicos e psiconeuroimunológicos implicados nesses processos, é fundamental compreender a perspectiva intersubjetiva e histórica segundo a qual se desenvolvem e se organizam esses mecanismos em suas relações com as funções psíquicas e com a regulação do funcionamento vital. A preponderância de uma ou outra dessas formas de expressão é fruto da história de cada um, no contexto de uma interação permanente entre fatores constitucionais, condições do ambiente e suas experiências de vida, modeladas pelo tecido relacional estabelecido, desde o nascimento, com as demais pessoas de seu convívio.

Ao longo da vida somos permanentemente confrontados com exigência, incitações e apelos que partem do interior de nosso organismo (instintos, processos biológicos, pulsões), da realidade em que vivemos (ambiente, condições e recursos sociais), e das pessoas que nos cercam (família, amigos, colegas de trabalho, comunidade). Os complexos mecanismos metabólicos do corpo, por exemplo, exigem o aporte de carboidratos, proteínas e sais minerais, entre outros, que por meio da sensação de fome, mobilizam-nos a buscar alimentos capazes de acalmá-la e de satisfazer necessidades físicas

História de vida

Diante das ameaças da natureza ou da civilização, desde sempre buscamos abrigo. A necessidade de sobrevivência e de proteção incita formas de organização coletiva.  Ao mesmo tempo que tentam criar maneiras mais eficientes de produzir recursos, regras de convivência e leis regulam, mas muitas vezes cerceiam comportamentos e iniciativas individuais.

Para lidar com exigências e necessidades como essas, e com muitas outras, o ser humano busca em princípio alcançar os melhores recursos possíveis. Seu grau de desenvolvimento, eficiência e qualidade dependem de sua história de vida: seu patrimônio genético, suas experiências infantis, suas condições materiais de vida, suas experiências afetivas, relacionais, socioculturais, etc. Nesse contexto, modulado pelas relações com seus semelhantes, gradualmente se desenvolvem recursos orgânicos, comportamentais e psíquicos.

A filogênese revela que, ao longo da evolução, os seres vivos mais complexos e mais tardios apresentam características moldadas a partir daqueles presentes em seres mais simples e primitivos. Na ontogênese o desenvolvimento de cada ser humano se inicia através de seu elemento mais essencial, a reprodução celular, formando estruturas e funções de complexidade crescente. Durante a gestação, a partir de uma única célula indiferenciada, formam-se gradativamente os tecidos, os órgãos, os sistemas vitais, o feto como um todo. Após o nascimento, o bebê integra de maneira cada vez mais específica e diferenciada movimentos e funções antes desorganizadas: a convergência ocular, a coordenação motora, a discriminação auditiva, o reconhecimento e a distinção entre seres familiares e estranhos, a memória, a imaginação, o pensamento, a linguagem, entre outros.

Apesar de “completo” do ponto de vista biológico, ao nascer o bebê é um ser imaturo e desamparado, por si só inviável para a sobrevivência. Sua vida e seu crescimento dependem da presença de outro ser humano, geralmente os pais, que além de satisfazer suas necessidades vitais (alimentação, proteção, cuidado), assumem inicialmente funções que o bebê ainda não é capaz de assumir (reconhecer, discriminar, agir, pensar), protegendo-o o de estímulos que ele é incapaz de assimilar, de ameaças que não pode reconhecer nem evitar.

Hierarquias e dinâmicas

Podermos pensar na função maternal como uma “película protetora”, pela qual o adulto de certa forma “empresta” ao bebê seus próprios recursos enquanto os da criança ainda não puderem se desenvolver. Essa dinâmica continua se manifestando sob a mais diversas formas por meio de inúmeras pessoas ao longo de toda a vida e constitui importante paradigma para a função terapêutica, é essencial para o amadurecimento e o equilíbrio da economia psicossomática do bebê, para a integração das funções orgânicas, motoras e psíquicas. As condições promovidas pela função materna propiciam à criança a descoberta e o acompanhamento de seus próprios ritmos, a percepção, a interpretação e a resposta aos contatos corporais, as vocalizações e os gestos do bebê, e a organização de seus comportamentos e funções.

Uma vez presentes as mínimas condições necessárias, no contexto das relações vividas pelo sujeito, as interações entre funções corporais e psíquica constituem organizações, estruturas, hierarquias e dinâmica cada vez mais complexas. O objetivo da complexificação do desenvolvimento humano é responder aos estímulos e solicitações internos e externos e assegurar o equilíbrio de vida do sujeito pelas organizações e modos de funcionamento mais evoluídos. Porém, perturbações do desenvolvimento ou situações desorganizadoras do equilíbrio vital podem impedir a formação ou a utilização de recursos, que se revelam insuficientes para lidar com a intensidade das solicitações e com as condições que se encontra submetido. Para alcançar ou recuperar seu equilíbrio, as interações entre corpo e psique podem responder a essas solicitações por meio de reações anacrônicas, primitivas, menos elaboradas do que é ou já foi capaz

Apesar de potencialmente orientar-se para a formação de funções cada vez mais complexas, organizada e hierarquizada, o equilíbrio da economia psicossomática é algumas vezes alcançado pelo desencadeamento de movimentos regressivos e de desorganização, mobilizando modos de funcionamento mais primitivos. Segundo o psicanalista francês Pierre Marty (1918-1993) o adoecimento, orgânico ou psíquico, pode ser um dos recursos para a regulação da homeostase do indivíduo, de suas relações com o meio e com os outros humanos.

As vias orgânica, motora e de pensamento representam nessa ordem uma hierarquia progressiva de recursos a serem utilizados com tal finalidade. Os recursos psíquicos são o grau economicamente mais elaborado de organização e funcionamento, por permitirem que sejam poupados recursos da motricidade e da desorganização somática, mais primitivos, menos “eficientes” para lidar com estímulos e conflitos.

Consideremos, por exemplo, diferentes reações diante de uma demissão injusta. Um trabalhador reage escrevendo uma carta de protesto à direção da empresa, buscando negociar com os responsáveis por sua demissão. Outro, incapaz dessas atitudes, exprime sua revolta chutando o carro do responsável por recursos humanos. Um terceiro, sem conseguir realizar as ações precedentes, pode acatar a decisão em silêncio, aparentemente sem nenhuma contrariedade e, mais tarde, apresentar algum tipo de disfunção somática

Na vida, muitas situações costumam provocar esses três tipos de reação, com diferentes consequências em benefício ou prejuízo do sujeito. De forma esquemática, elas evidenciam três modalidades hierarquicamente diferente de organização dos recursos psicossomáticos para lidar com as exigências vitais, com os outros e com a realidade e conflitos que deles decorrem. Naturalmente, além da demissão, comum aos três, o segundo trabalhador corre o risco de pagar os danos que provocou ao carro do diretor, e o terceiro pode ter um comprometimento de gravidade variável de sua saúde.

Recursos psíquicos

Marty destaca a importância dos recursos psíquicos por ele denominados mentalização como reguladores da economia psicossomática. A mentalização consiste em operações de representação e simbolização através das quais o aparelho psíquico busca regular as energias instintivas e pulsionais, libidinais e agressivas. A fantasia, o devaneio, o sonho, a criatividade, os recursos metafóricos da linguagem são, portanto, funções essenciais de regulação do equilíbrio psicossomático. Falhas durante o desenvolvimento ou experiências de vida desorganizadoras, traumáticas, comprometem a   estrutura, o funcionamento e a disponibilidade dos recursos psíquicos, de forma duradoura ou temporária. Diante dessas deficiências e da indisponibilidade dos recursos mais evoluídos são mobilizados recursos mais primitivos, da ordem da motricidade ou mesmo da exacerbação de reações orgânicas como tentativas para reequilibrar a economia psicossomática

Observando pessoas que tendem a reagir aos conflitos internos e externos através de manifestações somáticas, Joyce McDougall relata que muitas delas se revelam super-adaptadas à realidade e mesmo às dificuldades de sua existência. Em seu comportamento, as pessoas são frequentemente impelidas à ação em vez de lidar com os conflitos pela elaboração psíquica, solicitando permanentemente dos objetos do mundo exterior a realização de funções que deveriam ser asseguradas por objetos internos simbólicos ausentes ou comprometidos. Muitos dos pacientes que apresentam esse tipo de comportamento procuram seus médicos completamente alienados de outros sofrimentos que não corporais. Por seu caráter concreto, real e urgente, os sintomas orgânicos capturam o médico e o paciente numa visão limitada da vida e da doença deste.

A impossibilidade do desenvolvimento dos recursos mais evoluídos da economia psicossomática ou a desorganização desses recursos em situações críticas de vida podem tornar uma pessoa vulnerável às afecções somáticas, a comportamentos de risco como adições, atos impulsivos e acidentes. As três vias possíveis para lidar com as solicitações vitais e do ambiente – orgânica, motora e de pensamento – são também os caminhos potenciais da doença.

O indivíduo bem organizado no plano psíquico poderá apresentar, em decorrência de uma situação conflitual, manifestação psicopatológicas, da ordem das neuroses ou das psicoses, de intensidade e duração variáveis, geralmente sem maiores riscos de desorganizações comportamentais ou somáticas. A pessoa com falhas estruturais ou agudas das funções psíquicas pode tentar encontrar, através da motricidade ou das vias orgânicas, as vias de descarga e de organização da excitação e dos conflitos vividos por não dispor de recursos mentais (sonhos, fantasias, mecanismos de defesa psíquicos) para lidar com essas experiências. Observa-se então a manifestação de descargas pelo comportamento (impulsividade, toxicomanias, transtornos de caráter), ou ainda, como último recurso, o aparecimento de perturbações, sintomatologias e doenças somáticas.

É importante considerar que, apesar de seu caráter mais primitivo e desviante, toda doença –  mental, comportamental ou somática –  é ainda uma tentativa do humano de alcançar um equilíbrio. A gravidade dessa doença depende da qualidade dos recursos do sujeito para enfrentar tensões e conflitos, mas também da intensidade e da duração destas. A manutenção do equilíbrio psicossomático em patamares mais primitivos dependerá da duração da tensão e da capacidade do organismo de reorganizar-se para responder de maneira mais elaborada a tais situações

Assim, evidencia-se que o caráter traumático de uma experiência não é inerente à natureza de um acontecimento (a perda de um ente querido ou uma frustração, por exemplo), mas depende da conjunção das intensidades afetivas mobilizadas por tais acontecimentos com os recursos dos quais dispõe o indivíduo para lidar com eles. Ou seja, algumas pessoas fragilizadas do ponto de vista da economia psicossomática podem ficar bastante perturbadas diante de acontecimentos de intensidade leve ou moderada (frustração por uma derrota esportiva) enquanto outras, mais bem estruturadas, conseguem preservar sua organização e lidar de forma satisfatória com acontecimentos intensos (como a morte de um próximo).

Efeitos negativos

É evidente, portanto, a importância e o interesse para todos os profissionais da saúde, e para o médico em particular, de ampliar seus recursos diagnósticos e terapêuticos de forma a incluir a compreensão da economia psicossomática do paciente. A avaliação dos elementos clínicos, anatomo­fisiopatológicos, bioquímicos e radiológicos geralmente utilizados para o diagnóstico e para acompanhar a evolução do paciente é enriquecida quando se consideram os recursos deste para lidar com suas situações de vida, com os conflitos a ela inerentes e com a própria doença. No plano terapêutico, os tratamentos médicos podem ser potencializados por técnicas que enriquecem e promovem os recursos da economia psicossomática para propiciar ao paciente o funcionamento segundo níveis mais evoluídos.

Vários autores apontam que ainda é grande a dificuldade dos médicos de diagnosticar e tratar a pluralidade e a heterogeneidade de manifestações dos fenômenos de somatização bem corno de reconhecer o sofrimento psíquico (como depressão e ansiedade) subjacente à sintomatologia orgânica. Essas dificuldades são perturbadoras para o paciente, provocando efeitos negativos na relação terapêutica e no tratamento, sendo também responsáveis pelo excesso de procedimentos médicos e pela insatisfação com o médico e com o serviço de saúde.

O enfoque quase exclusivo na queixa somática faz com que as dificuldades diagnósticas ou a impossibilidade de descobrir as causas orgânicas de tais queixas sejam ansiógenas para o paciente, muitas vezes sem que o médico consiga lidar com elas. O conhecimento das dinâmicas subjacentes à economia psicossomática pode ser um meio de superar grande parte dessas dificuldades e suas consequências, diminuindo as consultas e os procedimentos desnecessários com seus eventuais efeitos iatrogênicos.

Também no âmbito psicoterapêutico é fundamental perceber e lidar com os efeitos das desorganizações e das manifestações corporais do sofrimento. Há momentos em que a palavra, a interpretação e a transferência chegam a seus limites, e é através de atuações e expressões corporais que o paciente ainda tenta comunicar-se com o terapeuta. Ele é convocado ao encontro do paciente nos terrenos mais primitivos da existência deste que muitas vezes se coloca em risco através de adições, atuações impulsivas ou mesmo doenças graves

Ao compreender a função dessas manifestações no momento vivido por quem o procura, o psicoterapeuta pode ajudar a promover o paciente seus melhores modos de funcionamento com relação aos recursos que lhe são imediatamente disponíveis O horizonte terapêutico visa propiciar a evolução e o enriquecimento das capacidades e, em especial, dos recursos psíquico e representativos, através de um trabalho de figuração, de criação e instalação do espaço onírico e lúdico. A descrição da instauração do espaço potencial e da constituição dos objetos transicionais, feita por Winncott, é pertinente para a compreensão dos movimentos fundamentais dessa verdadeira clínica das desorganizações

Percebemos, portanto, a importância de considerar, na clínica e no tratamento, a história do desenvolvimento do paciente que evidencia a inter-relação permanente de fatores orgânicos, psíquicos e o meio ambiente, mediado pela qualidade da presença de seus semelhantes. É nesse contexto que se organiza a economia psicossomática que, no processo de vida, pode em alguns momentos encontrar seu equilíbrio tanto em condições saudáveis como em processos patológicos.

A saúde, o sintoma e a doença são manifestações que resultam de um jogo complexo de forças quase sempre desconhecidas do indivíduo. Diante do sofrimento, paciente e terapeuta devem não apenas eliminá-lo, mas compreender a história da qual ele se constituiu. Não se trata apenas de tentar atribuir um sentido a essa história. Trata-se, sobretudo, de propiciar ao paciente um acolhimento e uma escuta que, simultaneamente aos procedimentos necessários ao tratamento e à cura das manifestações somáticas de uma doença, possam também promover o desenvolvimento de recursos que lhe permitam lidar com conflitos e impasses da vida com menos riscos à integridade física e à própria existência. Através dessa função terapêutica esperamos também que essa pessoa que sofre consiga realizar-se através de modos de vida mais satisfatórios.

GESTÃO E CARREIRA

Estratégia de alto rendimento

ESTRATÉGIA DE ALTO RENDIMENTO

Em novo livro, dez dos maiores investidores do Brasil revelam os métodos que adotam para garantir lucros acima da média em suas aplicações.

Qual o segredo dos grandes investidores do Brasil e o que você pode aprender com eles. Esse é ponto de partida do recém lançado Fora da Curva (Ed. Portfolio Penguin), que nasceu do curso Grandes Investidores, na Casa do Saber, escola de formações de curta duração com unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro. A obra traz a experiência detalhada, em primeira pessoa, de dez profissionais que se destacam por obter retornos acima da média em suas aplicações. “Escolhemos apenas pessoas com experiência, resultados sólidos ao longo dos anos e bons princípios éticos. Não entraram nessa lista investidores que deram um grande tiro, mas nunca mais conseguiram acertar o alvo”, diz Pierre Moreau, sócio da Casa do Saber e um dos organizadores cio livro. “Buscamos investidores que tivessem características complementares e trabalhassem com classes ele ativos diferentes, corno ações, renda fixa e mercado imobiliário”, afirma. Confira, a seguir, um apanhado de cinco atitudes que esses dez profissionais afirmam ser essenciais na hora ele fazer investimentos. Mudar a forma como você planeja e acompanha suas aplicações pode significar algumas dezenas de milhares de reais a mais ou a menos em sua conta ao longo dos anos.

DESEMPENHO FORA DA CURVA

Compare a rentabilidade obtida por três representantes da elite brasileira de investidores com a média do Ibovespa.

1.Estudar o cenário econômico

Esmiuçar o contexto macroe­conômico e seu impacto sobre os diferentes investimentos, como ações, títulos públicos ou fundos multimercados, é regra básica antes de fazer uma aplicação. Para Florian Bartunek, fundador da Constellation, gestora de fundos de ações com 2 bilhões de reais de patrimônio, e sócio do empresário Jorge Paulo Lemann, as pessoas costumam gastar horas na internet antes de comprar um eletrodoméstico, conferindo comentários e comparando preços, mas não gastam nem dez minutos para pesquisar sobre o mercado de ações. “Elas ligam para o corretor e perguntam: ·o que está bom aí?” Ou perguntam para o amigo”, afirma. “Se você for a um médico e ele disser: ‘Olha, não sou formado em medicina, mas gosto muito de cérebros, li muito sobre cirurgia, então vou abrir sua cabeça”, você sairá correndo, certo? Se o piloto disser que não tirou brevê, você provavelmente não vai voar com ele. Mas muita gente ouve dicas do amigo de um amigo sobre a Bolsa”, diz ele. Florian afirma em seu depoimento que a maioria erra justamente por não fazer o dever de casa. “O mercado acionário dá a falsa sensação de que ganhar dinheiro é fácil. Alguém pode me perguntar qual ação acho que vai valorizar, e eu digo. Aí, no dia seguinte, esse cara compra as ações e ganha 30% em seis meses. Eu ganhei a mesma coisa, mas, para isso, fiz um baita trabalho, uma série de contas, conversei com dezenas de pessoas, estudei o setor.”

2.Ter um plano claro

Qual é o seu objetivo: ter uma boa aposentadoria ou abrir       um negócio no curto prazo? Quanto pode poupar para investir? Que valor está disposto a perder? Cálculos fazem parte do roteiro de dez entre dez investidores que fizeram fortuna. Todos eles fazem contas para desenhar um plano de investimento em vez de pular de aplicação em aplicação em busca de uma grande tacada. Luiz Stuhlberger, gestor do Verde, um dos fundos multimercados mais rentáveis do país, criou um método bastante claro. “Investir um terço em ações e dois terços em renda fixa”, diz ele. A ideia é lucrar com a segurança dos juros altos, sem perder algumas oportunidades em renda variável. A abordagem rendeu 12 041% de crescimento desde que o fundo foi criado, em 1997. Isso significa que quem investiu 10 000 reais à época tem, hoje, mais de 1,2 milhão de reais. Outro exemplo de como montar uma estratégia de investimentos vem de André Jakurski, ex-sócio do banco Pactual e fundador da gestora de recursos JGP. Sua tática é ter uma carteira de investimentos permanente e outra variável. Na permanente, concentra ativos com bom retorno no médio prazo. Na variável, aproveita as oportunidades geradas pelas mudanças do mercado. “É preciso ficar atento para descobrir quando comprar uma ação barata com potencial de valorização. Nos raros momentos em que isso ocorre, faço investimentos bem grandes”, diz.

3.Ouvir e compartilhar ideias

Tomar decisões solitárias, com base em intuição ou autoconfiança em excesso, está fora de cogitação para os mestres do investimento. Pierre, um dos organizadores do livro, ressalta que um traço comum desse grupo é a atenção às opiniões das pessoas em quem confiam. “Eles se preocupam em se cercar dos melhores”, diz. Com essa atitude, os investidores fora da curva passam um recado aos mais inexperientes. Se não há tempo nem conhecimento para fazer um bom planejamento das aplicações, delegue isso a um especialista. “Para um investidor leigo, o que mais faz diferença é estar bem assessorado”, diz Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e dono da Mauá Capital, que tem cerca de 2 bilhões de reais sob gestão Ele sugere pesquisar o histórico dos profissionais que cuidarão do seu dinheiro. “Mais do que dar grandes tacadas, eles podem evitar que você cometa grandes erros, que pode comprometer seu patrimônio”, afirma no livro. Para Luís Stuhlberger, do Fundo Verde, o que se deve busca num gestor de investimentos é a capacidade de identificar tendências e mudanças.  “Essa pessoa precisa antecipar o que pode acontecer com os juros, o câmbio e a inflação e entender como isso vai influenciar as em presas e os setores”, afirma.

4.Estar disposto a correr riscos

No prefácio de Fora da Curva, Jorge Paulo Lemann, dono de uma fortuna estimada em cerca de 30 bilhões de dólares e de um império que inclui marcas como Ambev, Heinz e Burger King, opina que o bom investidor é aquele que arrisca na hora certa. “Meu conselho para quem está começando é investir no que conhece melhor e, aos poucos, aumentar a exposição ao risco à medida que vai ganhando experiência”, afirma. Em geral, os investidores entrevistados acreditam que qualquer plano de investimentos deve tentar prever e calcular os riscos. Para Zeca Magalhães, que à frente da gestora Tarpon administra cerca de 10 bilhões de reais, a melhor forma de lidar com a volatilidade da Bolsa é estudar a solidez de uma empresa. Não à toa, ele prefere colocar metade dos recursos em uma só companhia, a BRF, presente em 170 países. “Durmo melhor tendo 55% do patrimônio em ações da BRF”, diz. “A alta e a baixa dos preços fazem parte da dinâmica da Bolsa. Risco é a possibilidade de um negócio se deteriorar e não gerar mais valor para os acionistas.”

5.Aprender com os erros

Na apresentação do livro, Jorge Paulo Lemann ensina que se deve tentar aprender com os erros de investidores mais experientes. “Se não for possível, é importante fazer uma análise para entender o que não funcionou para fazer ajustes e tentar ir melhor da próxima vez”, afirma. Foi o que aprendeu Meyer Joseph Nigri, fundador da Tecnisa, incorporadora com faturamento de 1,2 bilhão de reais no ano passado. Quando abriu o capital da empresa, em 2007, ele tomou decisões motivadas pela pressão dos acionistas. “Os analistas diziam que era preciso construir em cidades com menos concorrência” diz. Hoje, ele julga que foi um erro. “Deveríamos ter feito só o que achávamos viável, não o que o mercado pedia. “Para os novatos no mundo dos investimentos, a lição que se extrai é a importância de evitar o efeito manada. Em vez de tomar decisões que refletem a atitude da maioria, deve-se dedicar tempo a estudar o mercado, as empresas e aplicações. Afinal, o risco de se descolar da média pode ser recompensado com um desempenho fora da curva.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:12-17

O Início do Ministério de Cristo

Aqui nós temos um relato da pregação de Cristo nas sinagogas da Galileia, pois Ele veio ao mundo para ser um pregador. Ele mesmo começou a anunciar a grande salvação que Ele proporcionou (Hebreus 2.3), para mostrar o quanto o seu coração estava nisto, e o quanto o nosso também deveria estar.

Diversas passagens nos outros Evangelhos, especialmente no de João, supostamente, na ordem da história da vida de Cristo, acontecem entre a sua tentação e a sua pregação na Galileia. A sua primeira aparição, depois da tentação, foi quando João Batista apontou para Ele, dizendo: ”Eis o Cordeiro de Deus” (João 1.29). Depois disto, Ele subiu até Jerusalém, para a Páscoa (João 2), conversou com Nicodemos (João 3), com a mulher samaritana (João 4), e então retornou à Galileia, e ali pregou. Mas Mateus, por ter sua residência na Galileia, começa a sua história do ministério público de Cristo com a sua pregação ali, da qual aqui temos um relato. Observe:

 

I – O tempo. Quando Jesus ouviu que João foi lançado na prisão, ele foi para a Galileia (v. 12). Perceba que os gritos de sofrimento dos santos chegam aos ouvidos de Jesus. Se João está preso, Jesus ouve isto, toma conhecimento disto, e altera o seu curso de acordo com isto. Ele se lembra dos laços e das aflições que sobrevêm ao seu povo. Observe:

1.Cristo não entrou nesta região até ficar sabendo da prisão de João Batista, pois João precisava ter o tempo que lhe tinha sido dado para preparar o caminho do Senhor, antes que o próprio Senhor aparecesse. A Providência sabiamente ordenou que João fosse eclipsado antes que Cristo aparecesse; de outra maneira, a mente das pessoas ficaria dividida entre os dois; umas teriam dito: “eu sigo a João”, e outras: “eu sigo a Jesus”. João deveria ser o precursor de Cristo, e não o seu rival. A lua e as estrelas já não são vistas quando nasce o sol. João tinha realizado o seu trabalho, pelo batismo do arrependimento, e depois já não poderia mais estar em evidência. As testemunhas foram mortas quando terminaram o seu testemunho, e não antes (Apocalipse 11.7).

2.Ele foi até a região imediatamente depois de saber da prisão de João; não apenas para cuidar da sua própria segurança, sabendo que os fariseus da Judéia eram tão inimigos seus quanto Herodes era inimigo de João, mas para atender às necessidades de João Batista, e para edificar sobre a boa fundação que João tinha lançado. Observe que Deus não fica sem as suas testemunhas, e a sua igreja não fica sem os seus líderes. Quando Ele remove um instrumento útil, Ele pode levantar outro, pois tudo está sob o controle do seu Espírito. E se houver um trabalho a realizar, Ele o fará. Moisés, meu servo, está morto, João está na p1isão. Agora, por tanto, levante-se, Josué; levante-se, Jesus.

 

II – O lugar onde Ele pregou. Na Galileia, uma parte afastada do país, que era a mais distante de Jerusalém, considerada com desprezo como sendo rude. Os habitantes daquela região eram homens reconhecidamente robustos e vigorosos, bons para serem soldados, mas não eram homens educados, bons para serem alunos. Para lá Cristo se dirigiu, ali Ele estabeleceu o padrão do seu Evangelho; e nisto, como em outras coisas, Ele se humilhou. Observe:

1.A cidade em particular que Ele escolhe para a sua residência; não foi Nazaré, onde tinha sido criado; não, Ele deixou Nazaré. Há uma menção especial a isto (v. 13). E com bons motivos Ele deixou Nazaré, pois os homens daquela cidade o expulsaram do seu meio (Lucas 4.29). Ele lhes fez a sua primeira oferta dos seus serviços, uma oferta muito justa, mas eles o rejeitaram, e também à sua doutrina, e se encheram de indignação com Ele e com a doutrina; portanto, Ele deixou Nazaré e sacudiu a poeira dos seus pés, como um testemunho contra aqueles que não o quiseram ensinando-lhes. Nazaré foi o primeiro lugar que rejeitou a Cristo, e por isto foi rejeitada por Ele. Observe é justo que Deus remova o Evangelho e os meios da graça do meio daqueles que os desprezam, e que abandone estas pessoas. Cristo não irá permanecer muito tempo onde não for bem-vindo. Infeliz Nazaré! “Se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas, agora, isso está encoberto aos teus olhos”.

Mas Ele foi habitar em Cafarnaum, que era uma cidade da Galileia, mas muitos quilômetros distantes de Nazaré, que era uma cidade grande e de muitos meios. Diz-se aqui que ela é uma cidade marítima, na costa do mar, não do grande mar, mas do mar de Tiberíades, um corpo de água interior, também chamado de lago de Genesaré. Próxima à foz do Jordão no mar, ficava Cafarnaum, na tribo de Naftali, e vizinha a Zebulom. Para ali Cristo veio, e ali Ele residiu. Alguns pensam que o seu pai, José tinha uma casa ali, outros pensam que Ele conseguiu uma casa, ou pelo menos alojamento, e outros pensam que era mais provável que Ele residisse na casa de Simão Pedro; no entanto, aqui Ele não ficava constantemente, pois Ele viajava fazendo o bem. Mas aqui foi, por algum tempo, o seu quartel-general: o pouco descanso que Ele tinha, era aqui; aqui Ele tinha um lugar, embora não fosse um lugar seu, para reclinar a cabeça. E em Cafarnaum, ao que parece, Ele era bem-vindo, e encontrava melhor acolhida do que em Nazaré. Se alguns rejeitam a Cristo, outros o receberão, e lhe darão boas-vindas. Cafarnaum está contente com aquilo que sobrou de Nazaré. Mesmo que os próprios compatriotas de Cristo não se reunissem, ainda assim Ele seria glorioso. Em outras palavras: “E tu, Cafarnaum, aproveita. Agora estás sendo elevada aos céus; sê prudente e reconhece a ocasião da tua visitação”.

1.A profecia que se cumpriu com isto (vv. 14-16).

É uma citação de Isaías 9.1,2, mas com alguma variação. Naquela passagem o profeta está predizendo uma grande escuridão de aflição e sofrimento que cairia sobre aqueles que desprezaram o Emanuel, e que se abateu sobre as regiões ali mencionadas, quer no seu primeiro cativeiro, sob Ben-Hadad e, que foi tudo, exceto luz (1 Reis 15.20), ou no seu segundo cativeiro, sob os assírios, que foi muito pior (2 Reis 15.29). A punição da nação dos judeus por rejeitar o Evangelho seria mais amarga do que qualquer um dos dois cativeiros (veja Isaias 8.21,22), pois aquele s que foram aprisionados se revigoraram, de alguma maneira, na sua escravidão, e viram novamente urna grande luz (Isaias 9.2). Este é o sentido no livro de Isaías. Mas as Escrituras se cumprem de muitas maneiras, e o evangelista aqui somente assume a última frase, que fala do retorno da luz da liberdade e prosperidade àquelas regiões que tinham estado nas trevas do cativeiro, e a aplica à chegada do Evangelho entre eles.

Os lugares são mencionados no versículo 15. A terra de Zebulom, acertadamente, é tida como estando na costa marítima, pois Zebulom tinha um porto marítimo, e se alegrava com esta saída para o mar (Genesis 49.13; Deuteronômio 33.18). De Naftali, foi dito que ela proferiria palavras formosas (Genesis 49.21), e seria grandemente abençoada (Deuteronômio 33.23), pois dali começou o Evangelho. Palavras realmente formosas que trazem à alma a graça de Deus que satisfaz. A região além do Jordão é mencionada da mesma maneira, pois ali, às vezes, encontramos Cristo pregando, como também na Galileia dos gentios (das nações), a Galileia superior, à qual os gentios recorriam para o comércio e onde se mesclaram com os judeus; o que dá a entender uma bondade reservada aos pobres gentios. Quando Cristo veio a Cafarnaum, o Evangelho chegou a todos estes lugares próximos; estas influências difusoras fizeram o Sol da Justiça se projetar.

Agora, a respeito dos habitantes desses lugares, observe:

(1) A situação em que estavam antes que o Evangelho viesse até eles (v.16): eles estavam nas trevas. Aqueles que estão sem Cristo, estão nas trevas, melhor dizendo, eles são as trevas propriamente ditas; como as trevas que havia sobre a face do abismo. Não, eles estavam na região e sombra da morte, o que dá a entender não apenas uma grande escuridão, pois o túmulo é uma região de escuridão, mas também grande perigo. Um homem que está desesperadamente doente, e que é provável que não se recupere, está no vale da sombra da morte, embora ainda não esteja morto; assim, estas pobres pessoas estavam às margens da destruição, embora ainda não destruídas. E, o que é pior de tudo, estavam acomodadas nesta situação. Assentados, numa atitude constante. Quando nos sentamos, temos a intenção de permanecer; eles estavam nas trevas, e provavelmente continuariam assim, desesperando-se para encontrar a saída. E esta é uma atitude satisfeita; eles estavam nas trevas, e adoravam as trevas. Eles preferiram as trevas à luz; eles eram voluntariamente ignorantes. A sua situação era triste. E esta ainda é a condição de muitas nações grandes e poderosas, que devem ser consideradas dignas de compaixão, e que devem receber as nossas compassivas orações. Mas a condição delas é ainda mais triste, pois elas estão nas trevas em meio à luz do Evangelho. Aquele que está no escuro porque é noite, pode ter certeza de que o sol em breve nascerá; mas aquele que está no escuro porque é cego, não terá seus olhos abertos tão cedo. Nós temos a luz, mas de que isto nos ajudará, se nós não formos luz no Senhor?

(2) O privilégio que eles tiveram, quando Cristo e seu Evangelho vieram até eles, foi um reavivamento tão grande como uma luz eterna pode ser a um viajante surpreendido pela noite. Quando o Evangelho chega, chega a luz; quando ele chega a qualquer lugar, quando ele chega a qualquer alma, ali se faz dia (João 3.19; Lucas 1.78,79). A luz é descobrimento, é orientação; o Evangelho também é assim.

É uma luz grandiosa, significando a clareza e a evidência das revelações do Evangelho; não é como a luz de uma vela, mas como a luz do sol quando está pleno no seu vigor. Grandiosa, em comparação com a luz da lei, cujas sombras agora estão extintas. E uma luz grandiosa, pois revela grandes coisas e tem uma grande consequência; ela durará muito tempo e se espalhará por uma grande extensão. E é uma luz crescente, o que está implícito na expressão “a luz raiou”. Era apenas o nascer do dia, com eles; agora o dia amanheceu, e irá brilhar cada vez mais. O reino do Evangelho, como um grão de mostarda ou a luz da manhã, era pequeno no seu início, foi gradual no seu crescimento. mas é grandioso em sua perfeição.

Observe que a luz raiou para eles. Eles não foram procurá-la, mas foram surpreendidos pelas bênçãos desta graça, desta bondade. Ela veio a eles antes que eles estivessem conscientes, na ocasião determinada, pela vontade daquele que dá ordens à madrugada, e faz com que a alva conheça o seu lugar, até às extremidades da terra (Jó 38.12,13).

 

III – O texto sobre o qual Ele pregava (v. 17): “Desde então”, isto é, a partir da sua chegada à Galileia, à terra de Zebulom e Naftali; a partir de então, Jesus começou a pregar. Ele tinha pregado, antes disto, na Judeia, e tinha feito muitos discípulos, e os tinha batizado (João 4.1); mas a sua pregação não era tão pública e constante como agora tinha começado a ser. A obra do ministério é tão grandiosa e maravilhosa, que é conveniente que seja apresentada em etapas e avanços graduais. A questão com a qual Cristo lidava agora, na sua pregação (e foi realmente o resumo e o conteúdo de toda a sua pregação), era a mesma que João tinha pregado (cap. 3.2): ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”. Pois o Evangelho tem o mesmo conteúdo, mesmo sob as várias dispensações; os mandamentos são os mesmos, e as razões para observá-los são as mesmas. Um anjo vindo do céu não ousa pregar nenhum outro Evangelho (Gálatas 1.8), e irá pregar este, pois este é o Evangelho eterno. “Temei a Deus e dai-lhe glória”, pelo arrependimento (Apocalipse 14.6,7). Cristo demonstrou um grande respeito pelo ministério de João, quando pregou sobre o mesmo tema que João havia pregado antes dele. Através desta atitude, Ele mostrou que João era seu mensageiro e seu embaixador, pois quando Ele mesmo veio desempenhar a missão, ela era a mesma que Ele tinha dado a João. Assim, Deus confirmou a palavra do seu mensageiro (Isaias 44.26). O Filho veio com a mesma missão que os servos tinham vindo (cap. 21.37), procurar frutos, os frutos adequados para o arrependimento. Cristo tinha estado no seio do Pai e poderia ter pregado noções sublimes de coisas divinas e celestiais, que teriam alarmado e divertido o mundo instruído, mas Ele retoma este texto simples e antigo: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”.

[l] Isto foi o que Ele começou a pregar; esta foi a sua mensagem inicial. Os ministros não devem ter a ambição de apresentar novas opiniões, novos planos, ou cunhar novas expressões, mas devem se contentar com as coisas simples e práticas, com as mensagens que estão próximas de nós, até mesmo na nossa boca ou nosso coração. Assim como João preparou o caminho para Cristo, também Cristo preparou o seu próprio, e abriu caminho para as descobertas posteriores que Ele planejava, com a doutrina do arrependimento. “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo” (João 7.17).

[2] Isto Ele pregava constantemente. Aonde quer que Ele fosse, este era o seu assunto, e nem Ele nem seus seguidores jamais reconheceram que isto fosse ultrapassado, como teriam feito os que têm ouvidos inquietos e que gostam de novidades e variedade mais do que daquilo que é verdadeiramente edificante. Observe que aquilo que foi pregado e ouvido antes pode ainda, com grandes benefícios, ser pregado e ouvido outra vez; mas então, deve ser pregado e ainda melhor, e com carinho renovado. O que Paulo tinha dito antes, ele disse novamente, chorando (Filipenses 3.1,18).

[3] Isto Ele pregava como sendo a mensagem do Evangelho. Em outras palavras: “Arrependam-se, revejam os seus caminhos, e voltem-se para si mesmos”. Observe que a doutrina do arrependimento é uma doutrina fundamental do Evangelho. Não somente o

austero João Batista, que era considerado um homem melancólico e triste, mas também o doce e gracioso Jesus, cujos lábios eram como um favo de mel, pregavam o arrependimento; pois é um privilégio indescritível que haja espaço para o arrependimento.

[4] A razão ainda é a mesma. “É chegado o Reino dos céus”; pois ainda não se reconheceria que o reino já tivesse chegado, até o derramamento do Espírito Santo, depois da ascensão de Cristo. João “tinha pregando que o Reino dos céus era chegado há mais de um ano antes desta ocasião; mas agora a ênfase era muito mais forte, agora a salvação estava muito mais próxima (Romanos 13.11). Nós devemos ser mais diligentes no nosso dever, à medida que percebemos que aquele dia vai se aproximando (Hebreus 10.25).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

As respostas que veem do sonho

AS RESPOSTAS QUE VÊM DOS SONHOS

Formações oníricas são modos de pensar, a partir de um estado de consciência diferente daquele com o qual estamos acostumados, capaz de favorecer a inspiração – várias descobertas científicas, criações artísticas e soluções de problemas cotidianos já surgiram enquanto as pessoas dormiam.

 Na década de 50, o jovem Don Newman ensinava matemática no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) ao lado de um astro em ascensão e futuro vencedor do Nobel, John Nash. Newman lutava bravamente para resolver um problema de matemática: “Eu estava tentando, faltava pouco, mas não conseguia, não conseguia, e não conseguia”, lembra-se. Uma noite, Newman sonhou que estava pensando no problema quando Nash apareceu. No sonho, o rapaz relatou os detalhes do enigma para Nash e perguntou se ele sabia a solução. E o interlocutor explicou como resolvê-lo! Newman acordou com a sensação de que tinha a resposta! Ele passou as semanas seguintes transformando seu insight em um artigo formal que posteriormente foi publicado numa revista científica.

Newman não foi o único a fazer uma descoberta prática durante o sono. Enquanto dormiam, o químico alemão Friedrich August Kekulé teve a percepção da estrutura do benzeno e seu colega Dmitri Mendeleyev imaginou a estrutura final da tabela periódica dos elementos. Mais recentemente, o físico Paul Horowitz, pesquisador da Universidade Harvard e diretor do Projeto Beta, que monitora permanentemente o espaço, sonhou com seu projeto de telescópio óptico.

Inúmeros artistas e cineastas recriaram as imagens que visualizaram enquanto dormiam. A escritora Mary Shelley sonhou com as principais cenas que deram origem ao Frankenstein; o mesmo aconteceu com Robert Louis Stevenson em relação a O médico e o monstro. já os compositores Ludwig van Beethoven e Paul McCartney acordaram com novas melodias soando na cabeça. A convocação do Mahatma Gandhi para um protesto não violento na Índia também foi inspirada por sonho.

Geralmente as experiências oníricas nos parecem estranhas, incoerentes ou triviais. Procuramos desesperadamente um amigo num labirinto interminável porque precisamos entregar-lhe um pacote verde. Mas ao encontrá-lo, esquecemos o objeto – que já não está mais em nossas mãos -, e de qualquer forma ele agora é um vizinho, não mais nosso amigo. Outros sonhos são efêmeros – acordamos, talvez, pensando numa caixa verde, e isso é tudo de que nos lembramos. Durante décadas os cientistas tentaram entender essas características tão diversas dos sonhos. A pesquisa parece indicar que se trata simplesmente de pensamentos, em um estado bioquímico diferente do estado de vigília. Os requisitos psicológicos necessários para sonhar alteram o funcionamento neurológico, por isso a experiência onírica pode parecer estranha ou sem sentido porque a química do cérebro adormecido afeta a forma como percebemos nossos próprios pensamentos. Apesar disso, continuamos focados nas mesmas questões que nos afligem quando acordados. Esse estado incomum de consciência geralmente é muito benéfico para a solução de problemas – ajuda a encontrar alternativas fora do padrão de raciocínio. Seguindo alguns passos simples, podemos ter até algum domínio sobre essa capacidade, encorajando nosso cérebro adormecido a vencer algumas barre iras e produzir ideias criativas.

Há muito tempo os teóricos vêm tentando explicar a razão dos sonhos. Sigmund Freud mostrou que essas formações psíquicas expressam basicamente desejos reprimidos, ou seja, impulsos sexuais infantis e agressivos, e podem ser um caminho privilegiado para instâncias da mente às quais não costumamos ter acesso. Há também casos em que elas nos ajudam a elaborar vivências traumáticas ou situações relacionadas a disputas narcisistas, podendo surgir como compensação de sentimentos de inferioridade – o que também se enquadraria na satisfação de desejos.

MENOS CENSURA

Recentemente, médicos e psicólogos propuseram que os sonhos simulam ameaças ou ajudam a consolidar memórias – hipóteses que não põem em xeque a genialidade das constatações freudianas. Nenhuma teoria, porém, é suficientemente abrangente para dar conta de tantas nuances que caracterizam alguns sonhos. Exatamente como nosso pensamento oscila entre reminiscências, planejamento, reflexão etc., quando acordados, o sonho também engloba vários desdobramentos.

Antigos teóricos acreditavam que nos lembrávamos de tudo o que sonhávamos – algo que hoje sabemos não ser verdade. Várias hipóteses propunham que as pessoas sonhavam apenas quando alguma situação específica disparava um conjunto de sensações distintas – desejo sexual, por exemplo, ou ego ferido. Nos anos 50, no entanto, estudos inovadores realizados por Eugene Aserinsky e Nathaniel Klietman, ambos da Universidade de Chicago, mostraram que sonhamos muito mais do que provavelmente conseguimos recordar. Os dois pesquisadores descobriram que o sono é formado por ciclos de aproximadamente 90 minutos – cada um com um período de rápido movimento ocular (REM, na sigla em inglês) e intensa atividade cerebral. Quando as pessoas são despertadas perto do fim do período REM, elas se referem, em média, a cinco sonhos por noite. A discrepância entre os relatos daqueles que foram despertados logo depois da fase REM e de outros acordados mais tarde levou os cientistas a concluir que os sonhos quase sempre acompanham essa etapa do sono, mesmo que as pessoas não se lembrem deles pela manhã.

Nas duas últimas décadas, a tomografia de emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês) permitiu visualizar áreas do cérebro mobilizadas durante o sonho. Uma das coisas que os especialistas notaram num primeiro momento foi que durante o sono é mais fácil “ligar” e “desligar” certas áreas neurais que outras. Partes do córtex associadas a imagens visuais e percepção do movimento são ativadas até mais fortemente que quando estamos acordados, assim como acontece com certas regiões profundas do cérebro associadas à emoção. Em contraposição, o córtex pré-frontal dorsolateral é menos solicitado durante o sono e está mais associado à ação volitiva e à capacidade de avaliar o que é lógico e socialmente apropriado. Os resultados das tomografias se ajustam bem às características dos sonhos. Relatos de experiências oníricas quase sempre apresentam imagens associadas a movimento.

As descobertas a respeito das regiões pré-frontais estão em perfeito acordo com a ideia de que nos sonhos há “menos censura” – não só no sentido da repressão da sexualidade e dos impulsos agressivos, mas também na filtragem de cenários que parecem ilógicos ou anormais.

SINAL DE FUMAÇA

A parte boa desse momentâneo desprezo da racionalidade e do controle sobre nós mesmos é que a nova ordem que surge nos sonhos nos permite ver a realidade de outros ângulos. Ou seja, às vezes, resolver um quebra-cabeça da forma “errada” leva a insights surpreendentes. Psicólogos evolucionários endossaram a ideia de que o retrato PET do cérebro enquanto sonhamos é uma evidência de que essas atividades teriam garantido a sobrevivência da espécie humana. O antropólogo Donald Symons, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, discute em seu ensaio The stuff that dreams aren’t made of (“De que são feitos os sonhos”), de 1993, que durante o sono as pessoas precisam “monitorar” o ambiente com sentidos específicos – para sentir cheiro de fumaça, ouvir intrusos, perceber mudanças de temperatura e sentir dor. Uma ativação extrema dessas sensações, no entanto, pode nos levar a despertar em estado de pânico desnecessário ou, até pior, se o sobressalto se prolonga por período maior podemos desenvolver um limiar de tolerância para bloquear nossos alertas reais. E tudo isso de olhos fechados, pois não vistoriamos o ambiente visualmente durante o sono. Nosso corpo está imóvel, como costuma acontecer durante o sono REM, porque não precisamos nos mover- e em geral não o fazemos até despertar.

O processo evolutivo pode, então, ajudar a entender por que certas áreas do cérebro são mais – ou menos – ativadas quando dormimos. O padrão de atividade explica as características dos sonhos – visualmente ricos, mas desprovidos de lógica. No início, essas descobertas fisiológicas empolgantes levaram a teorias de que as formações oníricas eram simplesmente um epifenômeno, ou efeito colateral, de padrões cerebrais que apareciam quando adormecíamos. Pesquisadores do sonho geralmente se referem à atividade REM como “aleatória”, embora não haja outras evidências sugerindo que seja mais eventual que a atividade do cérebro em estado de vigília.

Uma coisa da qual nem todas as pessoas se dão conta é que nunca deveríamos descartar rápido demais nossos pensamentos de forma geral. Saber que o córtex pré-frontal está ativo quando deparamos com uma proibição social não resolve o debate subjetivo que vivenciamos nas situações em que temos de decidir como agir. Da mesma forma, descrever o conteúdo de um sonho ou as atividades cerebrais associadas a ele não explica sua finalidade. Estudiosos do cérebro finalmente compreenderam esse fato depois de duas décadas de marasmo – e nos últimos anos voltaram a estudar seriamente os sonhos.

Na década de 90, vários pesquisadores sugeriram que o sono é importante para a consolidação da aprendizagem: estudos anteriores já tinham mostrado que tirar uma soneca depois de aprender algo novo ajuda a reter melhor o conteúdo do que se nos mantivermos acordados. Outras descobertas sugerem que o sono REM desempenha papel relevante na consolidação da memória. Estudos com ratos que aprenderam a caminhar em labirintos mostram que, durante essa fase, a atividade cerebral imita a atividade do roedor quando está acordado treinando – o que leva a crer que os circuitos cerebrais podem ser reforçados na memória. Quanto mais longo o período de sono REM depois de adquirir conhecimentos, melhor as pessoas se lembrarão de fatos emocionalmente marcantes.

Em 2009, psicólogos da Universidade da Califórnia em San Diego investigaram se o sono REM tinha outros efeitos além de facilitar a memorização do aprendizado. Os voluntários do experimento foram submetidos a testes que exigiam a solução criativa de problemas e depois receberam dicas sobre as respostas. Os participantes passavam, então, certo tempo acordados, em sono não REM ou em sono REM antes de ser submetidos ao mesmo teste. Os integrantes do último grupo foram os únicos que mostraram melhora significativa nas soluções criativas dos problemas anterior­ mente apresentados.

No mesmo ano, no laboratório de Robert Stickgold, da Universidade Harvard, a equipe liderada pela pesquisadora lna Djonlagic ensinou aos estudantes que participavam do estudo complicados sistemas de previsão do tempo. Os jovens receberam uma combinação de imagens que representava probabilidades de sol e chuva. Eles não sabiam interpretá-las, mas, por tentativa e erro, traçaram um prognóstico geral. Os pesquisadores observaram que os participantes que cochilaram antes da tarefa, novamente, foram mais bem-sucedidos em descobrir a regra geral para interpretar o significado das imagens, em comparação aos que não dormiram. Além disso, a qualidade do desempenho dos participantes e sua capacidade de articular explicitamente que tinham descoberto a regra geral estavam diretamente relacionadas ao período de sono REM que tiveram.

Pesquisas posteriores confirmaram que o REM ajuda na solução de problemas. Numa série de estudos em andamento no mesmo laboratório de Harvard, a pesquisadora Erin Wamsley solicitou aos participantes que percorressem um labirinto virtual. Depois de praticarem um pouco, alguns permaneceram acordados, outros passaram por um período de sono REM e um terceiro grupo por um sono não REM. Erin relatou na Conferência Internacional da Associação de Estudos do Sonho, em junho de 2011, nos Estados Unidos, que somente o sono REM aperfeiçoou o desempenho dos participantes.

A cientista também descobriu que quando os voluntários eram acordados e lhes era perguntado o que estavam sonhando ou pensando, o foco geralmente era o labirinto – mas somente quando esse pensamento ocorria durante o sono REM os participantes realmente se safam melhor ao enfrentar novamente o labirinto, mais tarde.

Como os sonhos ocorrem na fase de rápido movimento ocular, tudo leva a crer que o ato de sonhar pode estar relacionado com a solução criativa de problemas. Inúmeras evidências experimentais e incontáveis relatos que surgiram dessas condições reforçam essa ideia.

DECISÕES NO TRAVESSEIRO

O primeiro estudo sobre sonhos e solução objetiva de problemas foi realizado há mais de um século. Em 1892, Charles M. Child, da Universidade Wesleyan, em Connecticut, perguntou a 186 alunos se eles já tinham resolvido algum problema enquanto dormiam. Um terço respondeu afirmativamente. Os estudantes relataram ter jogado xadrez, solucionado uma equação de álgebra e traduzido um trecho de Virgílio – ao acordarem simplesmente tinham a resposta.

A maior descoberta surgiu quando os pesquisadores tentaram induzir os participantes de um estudo a sonhar com um problema específico. Em 1972, o psiquiatra William Dement, da Universidade Stanford, solicitou a 500 alunos que passassem 15 minutos à noite tentando resolver quebra-cabeças desafiadores, de forma a adormecerem com o problema em mente. Os alunos relataram ter tido 87 sonhos, dos quais sete se relacionavam à solução de um quebra-cabeça.

Esses tipos de desafio mental são ferramentas úteis para testar a solução criativa de problemas, porque geralmente as pessoas se concentram muito antes de ter um insight do tipo “aha!”. No entanto, eles podem estar além da capacidade de algumas pessoas, e por falta de interesse elas não se comprometem de fato com sua resolução. No estudo de Dement, que durou três noites, todas as respostas corretas surgiram na primeira noite. Ele inferiu que os alunos se desinteressavam por problemas pessoalmente menos importantes. Por isso, na pesquisa realizada em 1996, utilizamos abordagem diferente. Solicitamos aos voluntários que selecionassem seus próprios impasses. Eles registraram os sonhos durante uma semana e anotaram aqueles que acreditavam ter resolvido o problema ou continham uma solução satisfatória. Dois pesquisadores assistentes ajudaram a avaliar se os sonhos estavam focados nas questões propostas antes e se realmente as haviam resolvido.

A maior parte dos participantes escolheu problemas aparentemente mais simples que os desafios mentais de Dement. Metade deles acreditava ter chegado a pistas sobre o que fazer durante o sonho, e um terço sonhou com a solução. Embora várias “respostas” estivessem ligadas a trabalhos da faculdade ou tarefas comuns, como mudar a posição dos móveis, algumas soluções interessantes estavam relacionadas com grandes decisões da vida pessoal. A seguir, uma questão considerada resolvida pelos pesquisadores:

Problema: Eu me inscrevi em dois tipos de curso, de psicologia clínica e de psicologia organizacional, porque não consigo decidir qual seguir.

Sonho: Há um mapa dos Estados Unidos e estou num avião sobrevoando o mapa. O piloto nos avisa que um dos motores está com defeito e precisamos pousar. Procuramos um lugar seguro no mapa e sugiro Massachusetts, que estamos sobrevoando naquele exato momento, mas ele diz que lá é muito perigoso.

Solução: Acordei e me dei conta de que o curso de psicologia clínica que escolhi está em Massachusetts, onde passei toda a minha vida e onde vivem meus pais. O curso de psicologia organizacional é distante, no Texas. Na verdade, eu tinha intenção de permanecer perto de casa, mas lá não havia bons cursos de psicologia organizacional. Mas depois percebi que não seria bom para mim neste momento estar próximo de casa. Por mais estranho que possa parecer, ir para longe é mais importante que o curso que quero seguir. O exemplo mais famoso de todos os tempos – Kekulé perceber que a estrutura da molécula de benzeno baseia-se num anel fechado depois de ter sonhado com uma série de átomos em forma de cobra que engolia o próprio rabo – ilustra dois aspectos diferentes da solução durante o sonho.

Vale lembrar que as áreas do cérebro que normalmente restringem nosso pensamento ao que é lógico e familiar são muito menos ativadas durante o sono REM. Vários estudos sugerem que essa liberação é crucial para a criatividade. Da mesma forma, a alta atividade de áreas visuais do cérebro adormecido permite que ele visualize soluções mais rapidamente do que quando estamos acordados. No caso de Kekulé, ele estava intrigado porque todas as moléculas conhecidas eram formadas por linhas retas com ramificações laterais, e ele imaginava, equivocadamente, que o benzeno deveria seguir o mesmo padrão.

Soluções sonhadas tendem a ter características visuais pouco comuns. No final da década de 90, vasculhei a literatura existente a respeito do universo onírico e até mesmo biografias e livros de história sobre a solução de problemas em sonhos e perguntei a profissionais de várias áreas se já tinham tido sonhos úteis. Alguns padrões se destacaram. Cerca de dois terços dos artistas visuais afirmaram ter usado sonhos em suas criações. Metade dos escritores de ficção também. Pessoas das áreas exatas, como engenheiros e outros profissionais acostumados a visualizar problemas em três dimensões, relataram ter sonhos úteis com frequência. Alguns mencionaram que, depois de ter acordado várias vezes com uma ótima ideia, desenvolveram uma rotina na hora de dormir para facilitar o que chamo de “processo de incubação”.

No estudo que estamos realizando atualmente, cujos resultados preliminares foram apresentados na conferência sobre o sonho, investigamos como as pessoas podem aproveitar melhor essa habilidade. Para isso, pedimos a profissionais entre 21e 69 anos que tentassem resolver problemas concretos relacionados ao seu campo de trabalho durante o sono. Aparentemente, eles sonhavam com esse tipo de questão com mesma frequência que os universitários observados em 1996; no entanto, resolveram menos da metade dos problemas. Talvez isso tenha ocorrido porque as situações relacionadas à profissão sejam mais complexas que os dilemas dos estudantes.

NOS BRAÇOSDE MORFEU

Além disso, como os integrantes desse segundo grupo são mais velhos, podem não se lembrar tanto dos sonhos – principalmente por falta do hábito de se esforçar em fazê-lo ao longo dos anos. A boa notícia é que um número significativo deles relatou ter tido pelo menos um sonho útil após uma semana de exercício de incubação. Isso nos leva a crer que essa ferramenta noturna está ao alcance de todos.

Logo depois de lançar meu livro Tudo começou com um sonho (Ediouro, 2002), ouvi Newman contar novamente sua história com Nash num programa de televisão e assisti ao filme Uma mente brilhante (2001). Um ano de pois, inesperadamente me sentei ao lado de Nash em um jantar. Perguntei-lhe sobre o incidente, do qual ele se lembrava muito bem. “Don incluiu no artigo uma nota me agradecendo, como se eu o tivesse ajudado quando, na verdade, o sonho era dele”, riu discretamente. Eu deparei várias vezes com aquela nota em minha pesquisa. As soluções frequentemente surgem de um personagem do sonho – um programador teve repetidas aulas noturnas com Albert Einstein, por exemplo-, e as pessoas relutam em acreditar no que a mente faz durante o sonho. Essa tendência reforça as descobertas sobre o sono REM nas quais o córtex pré-frontal dorso lateral, associado a percepções de volição, está menos ativo.

Mas não precisamos esperar passivamente que a inspiração surja quando nos entregamos aos braços do deus mitológico Morfeu (do grego, “moldador de sonhos”). Passamos mais de um terço da vida dormindo – e quase um terço desse tempo sonhando. Nossas pesquisas sugerem que em breve as pessoas aprenderão a dirigir essas produções psíquicas – e, por que não, também bioquímicas – para encontrar soluções. Pesquisas mostram que elas podem ser reveladas em sonhos – afinal, dois Prêmios Nobel se inspiraram assim. Mas se você decidir deixar seu cérebro ressonando em paz, preste atenção: depois de adormecer, é muito provável que o estado alterado de consciência já esteja trabalhando a todo vapor. Mesmo que você não perceba.

Movimentos coloridos

 UMA MÃOZINHA PARA OS SONHOS

Sonhar intencionalmente com determinado problema – processo chamado de incubação – aumenta as chances de vislumbrarmos pistas para resolvê-lo. O termo “incubação” foi tomado por empréstimo de antigas práticas gregas executadas no templo de Esculápio (ou Asclépio), onde, em sonho, os doentes buscavam curar suas enfermidades. A psicologia ocidental sugere que podemos procurar interferir nesse processo de forma consciente seguindo alguns passos:

  • – Na hora de dormir, escreva resumidamente a questão que o aflige, de preferência numa frase curta, e coloque a anotação perto da cama. Mantenha também papel e caneta – e até uma lanterna ou luminária – ao lado dela.
  • – Imagine-se sonhando com a situação que deseja resolver, acordando e anotando tudo num papel. Recapitule o problema por vários minutos antes de se deitar.
  • – Já deitado, pense no problema que quer resolver, se possível evocando uma imagem concreta, uma cena.
  • – Enquanto começa a adormecer, repita para si mesmo que quer sonhar com essa questão.
  • – Ao despertar, permaneça imóvel por alguns segundos antes de se levantar. Tente se lembrar de ter sonhado e recapitule ao máximo os detalhes do sonho.
  • – Escreva tudo de que se lembrar. Primeiro registre as palavras-chave que expressem o que for mais importante, depois inclua outras informações.

UMA DICA: Se quiser adotar um procedimento mais elaborado, disponha objetos relacionados ao problema na mesinha de cabeceira ou na parede em frente à cama (se estiver em dúvida sobre um relacionamento, por exemplo, use uma foto da pessoa com quem está envolvido). Mais que a presença desse tipo de objeto, o ritual e a concentração ajudam a estabelecer o foco de atenção.

DEIRDRE BARRETT – Psicóloga da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, autora de The committee of sleep (Oneiroi, 2010) e, Tudo começou com um sonho (Ediouro, 2002).

GESTÃO E CARREIRA

Profissional Poliglota

PROFISSIONAL POLIGLOTA

Não há atalhos para aprender um novo idioma. Mas ter clareza sobre seus objetivos e adotar regras de organização ajuda a desenvolver essa habilidade.

 Você ainda precisa aprender inglês ou espanhol? Pois você não está sozinho. Por mais importante que seja para a carreira e para o desenvolvimento pessoal, poucos brasileiros dominam mais de um idioma. Para você ter uma ideia, em 2015, o Brasil ficou na 41ª posição entre 70 países em um levantamento da Education First, empresa de educação, que mediu o nível de proficiência do inglês entre diversos países no mundo. Mas, em vez de desanimar com esse número, pense nas vantagens que esse aprendizado pode proporcionar. Só ao dominar uma segunda língua, você já estará na frente de milhares de candidatos.

Conseguir fluência em outro idioma tem seus desafios, mas não é algo só para alguns sortudos. “É mito achar que um adulto não tem mais como assimilar uma nova Iíngua”, diz Ângela Morastoni, coach de aprendizado e idiomas, de Blumenau (SC). “Todos têm capacidade em qualquer idade.” A chave está em saber se organizar e se motivar para manter uma rotina de estudos seja em casa ou em uma escola.

  1. Descubra sua motivação

Aprender inglês ou espanhol é a sua meta, contudo ela é um tanto ampla. Reflita sobre seu objetivo de vida e como a língua o ajudará a conquistá-lo. Seja para s tornar uma pessoa mais independente, sem precisar de intermediários para se virar no outro idioma, seja para s comunicar com gente de fora e aprender mais sobre outras culturas.

Descobrir o que é importante para você vale tanto para se motivar quanto para ter clareza de quais devem ser suas prioridades na hora de planejar sua rotina de estudos.

  1. Identifique em que nível está

Antes de se inscrever em um curso, procure descobrir qual é o seu nível real na Língua que quer aprender. “Soa óbvio, porque todo mundo acha que é básico e vai começar do zero”, diz Jaime Cará, coordenador de educação do CNA, rede de escolas de inglês e espanhol. “Mas muita gente ignora que já tem algum nível e perde tempo com coisas menos necessárias.” Portanto, não subestime ou superestime seu próprio nível. Faça um teste, disponível online ou em escolas de idiomas, para saber onde você está e começar do lugar certo.

  1. Saiba aonde você quer chegar

“Dizer que quer ser fluente é genérico, é preciso que a pessoa saiba qual nível almeja”, afirma Jaime. Pense no que você mais gostaria de ser capaz de fazer na nova língua: escrever e-mails curtos, fazer apresentações ou conversar ao telefone? Para isso, ajuda consultar o Quadro Europeu Comum de Referências, usado no mundo todo, e que descreve com detalhes o que cada nível é capaz de fazer e quantas horas de estudo são necessárias para atingi-los. Busque materiais que tenham a ver com aquilo que você quer conquistar.

  1. Planeje uma rotina – e não tenha pressa

Aprender uma língua leva tempo e exige priorização da agenda. Por isso, analise detalhadamente o seu dia a dia e veja onde pode abrir espaço para se comprometer com o estudo do novo idioma. Preveja os horários em que irá estudar e não abra mão deles. E, se puder estudar em intervalos menores, mas com maior frequência, é até melhor. “Tenho visto muito mais resultado quando os alunos estudam um pouco a cada dia em vez de um dia na semana com muitas horas”, afirma Andrea Trench, professora de inglês e espanhol, de São Paulo.

 5.Diversifique seus estudos

Divida o estudo entre gramática, conversação, escuta e escrita. “Planeje quando vai estudar e varie”: diz Andrea. “Num dia, foque em gramática. No outro, estude um vídeo No outro, escreva.” Dá para priorizar aquilo que for mais urgente, mas não deixe nada de fora: todos são importantes. Além de uma gramática com exercícios, você pode buscar vídeo aulas, aplicativos e textos apropriados para seu nível na língua. Reserve um tempo também na semana para revisar os conteúdos gramaticais que você estudou na semana anterior.

  1. Supere seus medos

Como adultos, estamos acostumados a afirmar nossos conhecimentos. Mas não tem jeito: aprender um idioma novo significa não saber dizer as coisas mais básicas. “Expor nossas imperfeições é desconfortável”, afirma Ângela. “Mas temos que lembrar que não se aprende uma língua fechado num quarto. É algo que se constrói na vivência.” Aceite que você irá errar, mas que só assim vai conseguir evoluir. Por isso, não espere alcançar um nível avançado para começar a praticar, faça isso desde o começo do aprendizado.

 7.Encontre pessoas para praticar

“Sugiro que se dedique um terço do tempo de estudo para a interação”, afirma Jaime. Encontrar uma pessoa que esteja aprendendo a mesma Língua, ainda que em um nível diferente do seu, pode ajudar bastante. Ao usar o idioma, fica mais fácil memorizá-la e ver onde você tem dificuldades. Isso é importante especialmente para que está estudando sozinho e não tem os colegas de sala para praticar. Se não encontrar ninguém, use a internet a seu favor: interaja em fóruns daquela Língua e em serviços de chats internacionais.

  1. Aumente seu contato com a língua

Além das horas de estudos, você pode usar seu tempo livre para ter mais contato com o idioma que está estudando. Assistir a vídeos do YouTube, pequenas reportagens e filmes em inglês com legendas em inglês são um exemplo. No caminho do trabalho, ouça podcasts especiais para quem está estudando. Mude o idioma do celular, de jogos e do computador para a língua que você quer dominar. “Só não pense que dá para ficar vendo filmes em inglês e achar que vai aprender por osmose… Precisa ter um exercício por trás”, diz Jaime.

 FERRAMENTAS GRATUITAS PARA QUEM QUER APRENDER SOZINHO

 Aplicativos

MEMRISE – Baseado em um estudo sobre como construímos memórias recentes e de longo prazo, ensina vocabulário e regras gramaticais por meio de lições curtas, revisões e desafios. Também funciona como um site. – memrise.com

HELL OTALK- Este aplicativo permite que você converse com falantes nativos que estejam aprendendo a língua. A ideia é que você os ajude também a aprender as línguas que você sabe. – hellotalk.com

DUOLINGO –  O aplicativo e site tem cursos que prometem levar o usuário até o nível intermediário, com exercícios interativos. – duolingo.com

Sites

CONVERSATIONEXCHANGE.COM- Plataforma para encontrar falantes nativos da língua praticada que possam praticar com você.

PODCASTSINENGLISH.COM-  Site com podcasts desde o nível mais básico até o avançado para quem está aprendendo inglês.

PODCASTFRONSPAIN – Como o anterior, mas para quem quer aprender espanhol.

Canais do YouTube

ENGLISH IN BRAZIL – A brasileira Carina Fragozo dá dicas e miniaulas em seu canal no YouTube: youtube.com/user/carinafragozo

EDUCAÇÃO ATIVA – O canal oferece um curso de espanhol para iniciantes e intermediários, além de aulas em inglês e italiano. youtube.com/user/superchefft1970

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 4:1-11

A Tentação de Jesus

Aqui temos a história do famoso embate, corpo a corpo, entre Miguel e o dragão, a Semente da mulher e a semente da serpente, ou melhor, a própria serpente. Embate no qual a semente da mulher sofre, ao ser tentada, e assim tem o seu calcanhar ferido; mas a serpente é rapidamente frustrada nas suas tentações, e tem a sua cabeça esmagada. Então, o nosso Senhor Jesus emerge como um Conquistador, e desta forma garante não apenas consolo, mas a conquista, por fim, de todos os seus fiéis seguidores. A respeito da tentação de Jesus, observe:

 I – A ocasião em que isto aconteceu: “Então”, existe uma ênfase nesta palavra. Imediatamente depois que os céus se abriram para Ele, e o Espírito desceu sobre Ele, e Ele foi declarado como sendo o Filho de Deus e Salvador do mundo. As notícias seguintes que ouvimos sobre ele são as de que Ele está sendo tentado; pois então Ele está mais capacitado para combater a tentação. Note que:

  1. Grandes privilégios e sinais especiais da graça divina não nos impedem de ser tentados. Na verdade:
  2. Depois que grandes honras nos são concedidas, de vemos esperar algo que seja humilhante. Veja como Paulo teve um mensageiro de Satanás enviado para esbofeteá-lo, depois de ter estado no terceiro céu.
  3. Normalmente, Deus prepara o seu povo para as tentações antes que elas cheguem. Ele dá forças, de acordo com a época, e, antes de uma tentação difícil, dá um consolo maior do que o usual.
  4. A garantia da nossa filiação é a melhor preparação contra a tentação. Se o precioso e bom Espírito dá testemunho da nossa adoção, isto nos dota de uma resposta a todas as sugestões do espírito maligno, cujo objetivo é nos corromper ou inquietar.

Então, recém-saído de um ritual solene, ao ser batizado, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado. Observe que depois de sermos admitidos à comunhão com Deus, devemos esperar ser assediados por Satanás. A alma enriquecida precisa dobrar a sua vigilância. Quando tiver comido e estiver satisfeito, esteja atento. Então, quando Ele começou a apresentar-se publicamente a Israel, foi quando Ele foi tentado, como nunca tinha sido quando vivia em privacidade. Lembre-se, o diabo tem um ódio particular das pessoas úteis, que não são somente boas, mas inclinadas a fazer o bem, especialmente quando iniciam estas boas atividades. É o conselho do Filho de Siraque (Eclesiástico 2.1): “Meu filho, se tu te apresentares para servir o Senhor, prepara-te para a tentação”. Os jovens ministros devem saber o que esperar, e agir de modo adequado.

 

II – O lugar onde isto aconteceu; no deserto, provavelmente no grande deserto do Sinai, onde Moisés e Elias jejuaram durante quarenta dias, pois nenhuma parte do deserto da Judéia estava tão abandonada aos animais selvagens como se diz que esta área estava (Marcos 1.13). Quando Cristo foi batizado, Ele não foi a Jerusalém, para tornar públicas as glórias que tinham sido depositadas sobre Ele, mas retirou-se para o deserto. Depois da comunhão com Deus, é bom ficar sozinho algum tempo, para não perdermos o que recebemos, em meio à agitação das coisas do mundo. Cristo se retirou para o deserto:

  1. Para seu próprio benefício. O afastamento dá uma oportunidade de meditação e comunhão com Deus; mesmo aqueles que são chamados a uma vida mais ativa precisam ter momentos de meditação, e precisam, primeiro, dedicar frequentemente um tempo a sós com Deus. As pessoas que não conversaram sobre estas coisas secretamente, consigo mesmas, antes de mais nada, não são adequadas para falar sobre as coisas de Deus aos outros, em público. Quando Cristo aparecesse como um Mestre, vindo de Deus, não seria dito sobre Ele: “Ele acaba de chegar de viagem, Ele esteve no exterior e conheceu o mundo”, mas: “Ele acaba de sair do deserto, Ele esteve sozinho conversando com Deus e com o seu próprio coração”. 2. Para dar uma ajuda ao tentador, para que ele pudesse ter um acesso mais fácil a Ele, do que teria em meio a muita gente. Embora a solidão seja urna amiga do bom coração, ainda assim Satanás sabe corno usá-la contra nós. Ai daquele que está sozinho. Aqueles que, com a desculpa de santidade e devoção, se isolam em cavernas e desertos, percebem que não estão fora do alcance dos seus inimigos espirituais, e que ali eles precisam do benefício da comunhão com os santos. Cristo se isolou:

(1) Para tornar a sua vitória ainda mais exemplar. Ele permitiu que o inimigo tivesse o sol e o vento do seu lado, e ainda o frustrou. Ele pode ter dado vantagem ao diabo, pois o príncipe deste mundo não tem nada nele; mas ele tem em nós, seres humanos pecadores, e por isto devemos orar para não sermos levados à tentação, e precisamos ficar longe do caminho do mal.

(2) Para ter uma oportunidade de fazer o melhor de si para poder ser exaltado em sua própria força; pois está escrito: “Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo”. Cristo entrou na luta sem companhia.

 

III – Os preparativos para a tentação foram dois:

  1. Ele foi levado ao combate. Ele não se envolveu deliberadamente nele, mas foi levado pelo Espírito para ser tentado pelo diabo. O Espírito, que desceu como uma pomba sobre Ele, traz mansidão, mas também traz coragem. Note que a nossa preocupação deve ser a de não cair em tentação; mas se Deus, pela sua providência, permitir que passemos por circunstâncias de tentação para o nosso aperfeiçoamento, não devemos julgar isto estranho, mas dobrar a nossa vigilância. Seja forte no Senhor, resista com firmeza na fé, e tudo estará bem. Se confiarmos na nossa própria força, e tentarmos o diabo a nos tentar, estaremos provocando a Deus para nos deixar sozinhos; mas, aonde quer que Deus nos leve, podemos ter esperança de que Ele irá conosco, e nos fará mais que vencedores.

Cristo foi levado a ser tentado pelo diabo, e somente por ele. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1.14). O diabo assume o controle e trabalha com sua vítima, mas o nosso Senhor Jesus não possui uma natureza corrompida, e, portanto, foi levado com segurança, sem nenhum temor ou vacilação, como um campeão no campo de batalha, para ser tentado puramente pelo diabo.

A tentação de Cristo é:

(1) Um exemplo da sua própria condescendência e humilhação. As tentações são dardos inflamados, espinhos na carne, bofetadas, provações, lutas, combates, tudo o que caracteriza dificuldades e sofrimentos; portanto, Cristo se submeteu a isto, porque Ele se humilhou em todos os sentidos para ser feito como seus irmãos; assim, Ele deu as costas aos que o feriam.

(2) Uma oportunidade para a confusão de Satanás. Não existe uma conquista ou uma vitória sem um combate. Cristo foi tentado para poder vencer o tentador. Satanás tentou o primeiro Adão, e triunfou sobre ele; mas ele não irá triunfar sempre, o segundo Adão irá derrotá-lo e levar cativo o cativeiro.

(3) Uma questão de consolo para todos os santos. Na tentação de Cristo, percebe-se que o nosso inimigo é sutil, malévolo e muito ousado em suas tentações. Mas apesar disso, percebe-se que ele não é invencível. Embora ele seja um homem fortemente armado, ainda assim, o Capitão da nossa salvação é mais forte do que ele. É um consolo para nós pensarmos que Cristo sofreu, sendo tentado; pois assim nos parece que as nossas tentações, se não cedermos a elas, não são pecados, são somente sofrimentos, e, como tais, podem ser vencidas. E nós temos um Sumo Sacerdote que sabe, por experiência, o que é ser tentado, e que, portanto, é Ele que se compadece carinhosamente dos nossos sentimentos de fraqueza nos momentos de tentação (Hebreus 2.18; 4.15). Mas é um consolo muito maior pensar que Cristo venceu, mesmo sendo tentado, e venceu por nós; o inimigo que enfrentamos não é somente um inimigo derrotado, frustrado e desarmado –  nós temos interesse na vitória de Cristo sobre ele, porque é por meio de Cristo que somos mais que vencedores.

  1. Cristo adotou uma dieta para o combate, como os que lutam, que de tudo se abstêm (1 Coríntios 9.25). Mas Ele superou a todos, pois jejuou por quarenta dias e quarenta noites, em conformidade com o modelo e o exemplo de Moisés, o grande legislador, e de Elias, o grande reformista, no Antigo Testamento. João Batista veio como Elias, no que diz respeito à moral, mas não nos milagres (João 10.41); esta honra estava reservada para Cristo. Cristo não precisava jejuar para mortificação (Ele não tinha desejos corruptos para serem controlados). Ainda assim, Ele jejuou:

(1) Para que assim Ele pudesse se humilhar, e pudesse parecer alguém abandonado, alguém a quem ninguém procura.

(2) Para poder dar a Satanás tanto a oportunidade quanto a vantagem sobre Ele, e desta forma tornar a sua vitória ainda mais exemplar.

(3) Para poder santificar e recomendar o jejum a nós, quando Deus, na sua providência, o exigir, ou quando nós estivermos em situações difíceis, privados do alimento diário, ou quando o jejum for um requisito para a conservação do corpo, ou para o avivamento da oração. Estes são excelentes preparativos para enfrentarmos a tentação. Se as pessoas boas são humilhadas, se precisam dos amigos e de ajuda, isto pode consolá-los: o fato de que o próprio Messias sofreu da mesma maneira. Um homem pode precisar de pão, e ainda assim ser um favorito do céu e estar sob a liderança do Espírito. Quando jejuou os quarenta dias, Ele nunca teve fome; a conversa com o céu substituía a comida e a bebida para Ele, mas, depois, Ele sentiu fome, para mostrar que Ele era verdadeiramente homem; e Ele assumiu as nossas fraquezas naturais, para poder fazer a expiação por nós. O primeiro homem caiu por causa da comida, e desta maneira frequentemente pecamos; por esta razão, Cristo teve fome.

 

IV – As tentações. O que Satanás desejava, com todas as suas tentações, era levar Cristo a pecar contra Deus, e dessa maneira torná-lo eternamente incapaz de ser um Sacrifício pelos nossos pecados. Mas, qualquer que fosse a distorção, o que ele realmente desejava era levar Cristo:

(1) A perder a esperança na bondade do seu Pai.

(2) A suspeitar do poder do seu Pai.

(3) A alienar a honra do seu Pai, entregando-a a Satanás. As duas primeiras tentações pareceram inocentes e nelas se percebe a sutileza do tentador; a última tentação pode parecer até mesmo aceitável. As duas primeiras são tentações ardilosas, e para discerni-las era necessária uma grande sabedoria. A última foi uma tentação forte, e para resistir a ela era necessária uma grande determinação; ainda assim, o diabo foi frustra­ do em todas elas.

1.Ele tentou Cristo com a intenção de levá-lo a perder a esperança na bondade do seu Pai, e a não confiar no cuidado que o seu Pai tinha por Ele.

(1) Veja como aconteceu a tentação (v. 3). O tentador chegou-se a Ele. Observe que o diabo é o tentador, e, portanto, ele é Satanás, um adversário; pois os nossos piores inimigos são os que nos levam a pecar, e são agentes de Satanás, realizando o seu trabalho e executando os seus desejos. Ele é chamado enfaticamente de tentador, porque isto é o que ele foi aos nossos primeiros pais, e ainda o é, e todos os outros tentadores estão trabalhando para ele. O tentador chegou-se a Cristo numa aparência visível, nem terrível nem amedrontadora, como mais tarde, na sua agonia no jardim. Se alguma vez o diabo se transformou num anjo de luz, ele o fez nesta oportunidade, e fingiu ser um anjo bom, um anjo guardião.

Observe a sutileza do tentador, ao unir a sua primeira tentação com o que houve antes, para torná-la mais forte.

[1] Cristo começou a sentir fome, e, portanto, pareceu muito apropriada a proposta de transformar pedras em pão, para o seu necessário sustento. Observe que um dos truques de Satanás é aproveitar- se da nossa condição externa, para instalar o ataque das suas tentações. Ele é um adversário tão vigilante quanto malévolo; e quanto mais inventivo ele é para se aproveitar de nós, mas engenhosos devemos ser para não permitir que ele vença. Quando Jesus começou a sentir fome, no deserto, quando não havia nada para comer, foi quando o diabo o atacou. Note que a necessidade e a pobreza são uma grande tentação para o descontentamento e para a descrença, e para o uso de meios ilegais para o nosso alívio, com a desculpa de que a necessidade não obedece à lei, e com isto se desculpa que a fome rompa paredes de pedra, o que não é desculpa, pois a lei de Deus deve ser mais forte em nós do que as paredes de pedra. Agora contra a pobreza, não por que ela seja um sofrimento e um problema, mas por que ela é uma tentação: “ou que, empobrecendo, venha a furtar”. Por tanto, aqueles que estão em dificuldades precisam dobrar a vigilância. E melhor morrer de fome do que viver e prosperar pelo pecado.

(2] Cristo tinha sido recentemente declarado e reconhecido como o Filho de Deus, e aqui o diabo o tenta a duvidar desta realidade: “Se tu és o Filho de Deus”. Se o diabo não soubesse que o Filho de Deus viria a este mundo, ele não teria dito isto; e se ele não suspeitasse de que esta era Ele, não teria dito isto a Ele, nem se atreveria a dizer isto, se Cristo não tivesse ocultado a sua glória com um véu, e se o diabo não tivesse adotado uma atitude insolente.

Em primeiro lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de questionar se é ou não o Filho de Deus; pois se rá possível que o Filho de Deus, que é herdeiro de todas as coisas, esteja passando por tais sofrimentos? Se Deus fosse o seu Pai, Ele não lhe deixa ria passar fome, pois todos os animais do campo pertencem a Ele (Salmos 50.10,12). É verdade que houve uma voz vinda do céu: ‘Este é o Meu Filho amado’, mas certamente isto foi um engano que foi imposto a você, pois ou Deus não é o seu Pai, ou Ele é um Pai muito pouco amável”. Note que:

  1. O maior resultado que Satanás deseja, ao tentar as pessoas boas, é acabar com o relacionamento que elas têm com Deus como Pai, e desta forma eliminar a dependência que elas têm dele, a obrigação que têm para com Ele e a sua comunhão com Ele. O Espírito bom, como o Consolador dos irmãos, dá testemunho de que eles são filhos de Deus. O espírito mau, como o acusador dos irmãos, faz tudo o que pode para abalar este testemunho.
  2. Aflições, necessidades e problemas externos são os maiores argumentos que Satanás usa para levar o povo de Deus a questionar sua filiação. Como se os sofrimentos não pudessem estar de acordo com o amor paterno de Deus, quando realmente provêm do seu amor paterno. Aqueles que podem dizer, como o justo Jó, sabem como responder a esta tentação: “Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo, os meus caminhos defenderei diante dele. Também isto será a minha salvação, porque o ímpio não virá perante ele” (cap. 13.15).
  3. O objetivo do diabo é abalar a fé que temos na Palavra de Deus, e nos levar a questionar a verdade que há nela. Foi assim que ele começou com os nossos primeiros pais: “É verdade, Deus disse isto e aquilo? Claro que não. Deus lhe disse que você é o seu Filho amado? Certamente Ele não disse isto, ou, se disse, não é verdade”. Então nós abrimos passagem para o diabo, quando questionamos a verdade de qualquer palavra que Deus tenha dito; pois o seu objetivo, como o pai da mentira, é opor-se às palavras verdadeiras de Deus.
  4. O diabo realiza os seus desígnios, em grande parte, infiltrando nas pessoas pensamentos maus sobre Deus, como se Ele fosse cruel ou infiel, e tivesse abandonado ou esquecido aqueles que se entregaram completamente a Ele. Ele se esforçou para produzir nos nossos primeiros pais a noção de que Deus lhes tinha proibido a árvore da ciência porque Ele não queria lhe dar os seus benefícios; e, da mesma maneira, ele aqui insinua ao nosso Salvador que o seu Pai o tinha abandonado e deixado vagar por si mesmo. Mas veja como esta ideia era irracional, e com que facilidade ela é respondida. Se Cristo parecia ser agora um mero homem, porque sentia fome, por que Ele não confessou ser mais do que um homem, e até mesmo ser o Filho de Deus, se durante quarenta dias Ele tinha jejuado, sem sentir fome?

Em segundo lugar: ”Agora você tem uma oportunidade de mostrar que é o Filho de Deus. ‘Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras’ (provavelmente havia uma pilha delas diante dele) ‘se tornem em pães ‘ (v. 3). João Batista tinha dito recentemente que mesmo das pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão; um poder divino pode, portanto, sem dúvida, das pedras produzir alimento para estes filhos. “Se você tem este poder, exerça-o agora, nesta hora de necessidade, para si mesmo”. Ele não disse: “Ore ao teu Pai para que Ele as transforme em pão”, mas ordena que isto se faça. “O teu Pai te abandonou, organiza-te tu mesmo e não dependas dele”. O diabo não é a favor de nada que seja humilhante, mas de tudo o que é arrogante; e ele consegue o que quer, se conseguir apenas retirar os homens da dependência que têm de Deus, e dotá-los de uma opinião de sua autossuficiência.

(2) Veja a maneira como esta tentação foi resistida e vencida.

(l) Cristo se recusou a acatá-la. Ele não ordenou que as pedras se transformassem em pão. Não porque não pudesse fazê-lo. O seu poder, pouco tempo depois disto, realizaria algo que era equivalente a transformar pedras em pão, mas Ele não o fez agora. E por que não o fez

  1. A primeira vista, a coisa parece ser suficientemente justificável, e a verdade é que, quanto mais plausível uma tentação seja, e quanto mais aparência do bem exista nela, mais perigosa ela será. Esta questão trazia uma disputa, mas Cristo estava ciente da “serpente que havia na relva”, e não fez nada, em primeiro lugar, que parecesse questionar a verdade da voz que Ele tinha ouvido do céu, ou que o colocasse numa nova tentação que já estava definida. Em segundo lugar, Ele não fez nada que parecesse falta de confiança nos cuidados do seu Pai para com Ele, ou que o limitasse a uma maneira particular de cuidar dele. Em terceiro lugar, Ele não fez nada que parecesse que estava cuidando de si mesmo e sendo o seu próprio provedor. Nem, em quarto lugar, que parecesse agradar a Satanás, fazendo algo de acordo com a sua sugestão. Alguns teriam dito que dar ao diabo o que lhe compete é um bom conselho; mas para aqueles que confiam em Deus, considerar o que o diabo diz é mais do que lhe compete; é como consultar o deus de Ecrom, quando existe um Deus em Israel.

[2] Ele estava preparado para responder à tentação (v. 4). Ele respondeu, dizendo: “está escrito”. Deve-se observar que Cristo respondeu e frustrou todas as tentações de Satanás com este “Está escrito”. Ele mesmo é a Palavra eterna, e poderia ter realizado a vontade de Deus sem ter de recorrer aos escritos de Moisés; mas Ele honrou as Escrituras, e, para nos dar um exemplo, apelou ao que estava escrito na lei, e diz isto a Satanás, supondo que ele sabe suficientemente bem o que está ali escrito. É possível que aqueles que são filhos do diabo possam saber muito bem o que está escrito no livro de Deus. Os demônios creem e estremecem. Devemos adotar este método quando, em qualquer ocasião, formos tentados a pecar; devem os resistir e rejeitar a tentação com “está escrito”. A Palavra de Deus é a espada do Espírito, a única arma ofensiva de todo o arsenal cristão (Efésios 6.17); e em nossos conflitos espirituais, podemos dizer sobre ela como Davi falou sobre a espada de Golias: “Não existe espada melhor do que essa” (1 Samuel 21.9, ver são NTLH).

Esta resposta, como as outras, é extraída do livro de Deuteronômio, que significa a segunda lei, e na qual há muito pouco cerimonial. Os sacrifícios e as purificações dos levitas não puderam afastar Satanás, embora fossem de instituição divina, e muito menos a água benta e o sinal da cruz, que são de invenção humana: mas os preceitos morais e as promessas evangélicas, mesclados com a fé, estes são poderosos, em Deus, para a derrota de Satanás. Aqui há uma citação de Deuteronômio 8.3, onde a razão pela qual Deus alimentava os israelitas com maná é o fato de que Ele os ensinava que o homem não pode viver somente de pão. Isto Cristo aplica ao seu próprio caso. Israel era o filho de Deus, que Ele libertou do Egito (Oseias 11.1), e também Cristo era Filho de Deus (cap. 2.15). Israel estava, na ocasião, em um deserto. Cristo também estava em um deserto agora, talvez fosse o mesmo deserto. Agora, em primeiro lugar, o diabo teria feito Cristo questionar a sua filiação, porque estava em dificuldades. Não, diz Ele, Israel era filho de Deus, e um filho a quem Ele muito amava e cujos hábitos Ele tolerava (Atos 13.18); e apesar disto, Ele os conduziu às dificuldades, e então (Deuteronômio 8.5), “como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor, teu Deus”. Cristo, sendo o Filho, aprendeu a obediência. Em segundo lugar, o diabo o teria feito deixar de confira no amor e nos cuida dos do seu Pai. “Não”, diz Ele, “isto seria fazer o que Israel fez, quando estava em necessidade, ou seja, questionar: ‘Está o Senhor no meio de nós’, e: ‘Poderá Deus… preparar-nos uma mesa no deserto? Ele poderá dar-nos pão?”‘ Em terceiro lugar, o diabo teria levado Cristo, quando começou a sentir fome, a imediatamente procurar alimento; ao passo que Deus, com seus objetivos sábios e santos, fez Israel sofrer a fome antes de lhes dar alimento. Ele os humilhou e os colocou à prova. Deus quer que os seus filhos, quando em necessidade, não apenas confiem nele, mas que esperem nele. E m quarto lugar, o diabo teria feito Cristo se alimentar com pão. “Não”, diz Cristo, “que necessidade há disso? Já ficou determinado há muito tempo, e foi provado incontestavelmente, que o homem pode viver sem pão, pois Israel, no deserto, viveu quarenta anos somente com o maná”. E verdade, Deus, em sua providência, pode normalmente sustentar os homens com o pão produzido na terra (Jó 28.5); mas Ele pode, se assim o desejar, fazer uso de outros meios para conservar vivos os homens. Qualquer palavra saída da boca de Deus, qualquer coisa que Deus ordene e indique para este fim, será um sustento para o homem, tão bom quanto o pão, e irá sustentá-lo também. Pois podemos ter pão e não ser alimentados, se Deus nos negar a sua bênção (Ageu 1.6,9; Miquéias 6.14) ; pois embora o pão seja a base da vida, a bênção de Deus é a base do pão, de modo que podemos precisar de pão e, ainda assim sermos alimentados de alguma outra maneira. Deus sustentou Moisés e Elias sem pão, e ao próprio Cristo, durante quarenta dias. Ele sustentou Israel com o pão do céu, o alimento dos anjos. Elias, com o pão milagrosamente enviado por corvos, e em outra ocasião, com a refeição da viúva, milagrosamente multiplicada. Portanto, Cristo não precisava transformar pedras em pães, mas sim confiar que Deus o manteria vivo de alguma outra maneira, agora que Ele sentia fome, da mesma maneira como Ele o tinha feito durante quarenta dias, antes que Ele sentisse fome. Assim como na nossa grande abundância não devemos pensar que vivemos sem Deus, da mesma maneira, nas nossas grandes dificuldades, nós devemos aprender a confiar em Deus. E quando a figueira não der frutos, e os campos não produzirem alimento, quando todos os meios normais de auxilio e ajuda deixarem de existir, ainda assim devemos nos alegrar no Senhor. Então, não devemos pensar em fazer o que quisermos, contrariamente às suas ordens, mas humildemente orar pelo que Ele considera adequado nos dar, e sermos gratos pelo pão do nosso sustento, ainda que seja pouco. Devemos aprender, com Cristo aqui, a confiar em Deus, e não em nós mesmos, e a não enveredarmos por nenhum caminho irregular para o nosso sustento, quando as nossas necessidades forem extremamente urgentes (SaImos 37.3). De uma maneira ou de outra, o Senhor proverá. Ê melhor viver modestamente, com os frutos da bondade de Deus, do que viver com abundância dos produtos do nosso próprio pecado.

  1. O diabo tentou Jesus a presumir sobre o poder e a proteção do seu Pai. Veja que adversário incansável é o diabo! Se ele fracassa em um ataque, ele tenta outro.

Neste segundo ataque, podemos observar:

(1) Qual foi a tentação, e como foi conduzida. Em geral, encontrando Cristo tão confiante no cuidado que o seu Pai tem com Ele, em termos de nutrição, o diabo tenta levá-lo a confiar nestes cuidados em termos de segurança. Observe que nós corremos o risco de perder o nosso rumo, tanto à direita como à esquerda, e, portanto, precisamos prestar atenção para que, quando evitarmos um extremo, não sejamos levados, pelos truques de Satanás, a correr para o outro; para que, superando a nossa abundância, não caiamos na cobiça. Nenhum extremo é mais perigoso do que os do desespero e da arrogância, especialmente nas questões das nossas almas. Alguns que obtiveram uma convicção de que Cristo é capaz de salvá-los de seus pecados, e está disposto a fazer isto, são tentados a confiar que Ele os salvará dos seus pecados. Assim, quando as pessoas começam a se tornar zelosas pela religião, Satanás as leva ao fanatismo e a atitudes desenfreadas.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] Como ele abriu caminho para ela. Ele levou a Cristo, não pela força, contra a sua vontade, mas o levou a Jerusalém, indo com Ele. Se Cristo foi pelo chão, e depois subiu as escadas até o topo do Templo, ou se foi pelo ar, não se sabe; mas Ele foi colocado sobre um pináculo, ou torre espiral. Sobre o santuário (dizem alguns), sobre as ameias ou seteiras (dizem outros), sobre as asas do Templo. Agora, observe, em primeiro lugar, o quão submisso Cristo estava ao plano de Deus Pai, sujeitando-se a ser levado assim, para permitir que Satanás realizasse o seu trabalho procurando derrotá-lo. A paciência de Cristo aqui, como também posteriormente, nos seus sofrimentos e na sua morte, é mais maravilhosa que o poder de Satanás ou os seus truques; pois nem ele nem seus truques poderiam ter qualquer poder sobre Cristo, exceto o que lhe tinha sido concedido do céu. Como é consolador que Cristo, ao permitir que este poder de Satanás lutasse contra si mesmo, não o permita, de igual maneira, sobre nós, mas o restrinja, pois Ele conhece a nossa estrutura! Em segundo lugar o quão sutil estava o diabo, na escolha da ocasião para as suas tentações. Pretendendo solicitar a Cristo uma ostentação do seu próprio poder, e uma atitude inútil de vanglória sobre a providência divina, ele o coloca no alto de um lugar público em Jerusalém, uma cidade muito habitada, e a alegria da terra inteira; no Templo, uma das maravilhas do mundo, continuamente olhada com admiração por muitos. Ali, Jesus poderia se fazer admirável, e ser notado por todos, e provar ser o Filho de Deus; não como Ele tinha sido convidado na tentação anterior, na obscuridade de um deserto, mas diante de multidões, no alto do lugar mais eminente.

Observe:

  1. Que Jerusalém aqui é chamada de Cidade Santa; pois ela o era, em nome e em profissão de fé, e havia nela uma semente sagrada, que era o seu conteúdo. Observe que não há no mundo uma cidade tão santa para nos isentar e nos proteger do diabo e de suas tentações. O primeiro Adão foi tentado no jardim sagrado, o segundo, na Cidade Santa. Portanto, não devemos, em nenhum lugar, aliviar a nossa vigilância. Não, a Cidade Santa é o lugar onde o diabo, com grande vantagem e êxito, tenta os homens ao orgulho e à arrogância; mas, bendito seja Deus, na Jerusalém celestial, naquela cidade santa, nenhuma impureza entrar á. Ali estaremos, para sempre, Livres da tentação.
  2. Que ele o colocou sobre o pináculo do Tempo, que (conforme Josefo descreve Antiq., liv. 15, cap. 14) era tão alto que poderia produzir vertigens à cabeça de um homem que do seu cume olhasse para baixo.

Note que os pináculos dos templos são lugares de tentação. Quer dizer:

(1) Os lugares altos o são; eles são lugares instáveis; o progresso no mundo torna o homem um alvo fácil para onde Satanás dirige os seus dardos. Deus traz os homens ao chão, para que eles possam se erguer; o diabo os leva para o alto, para poder lançá-los ao chão. Portanto, aqueles que prestam atenção à queda, devem prestar atenção à subida.

(2) Os lugares altos na igreja são, de uma maneira especial, perigosos. Aqueles que se sobressaem em dons, que estão em posições eminentes, que conquistaram grande reputação, precisam se conservar humildes, pois Satanás com certeza os fará seus alvos, os encherá de orgulho para que possam cair na condenação do diabo. Aqueles que estão no alto devem se preocupar em perseverar, e permanecer firmes.

[2] A maneira como ele fez a motivação: ‘”Se tu és o Filho de Deus’, prove isto perante o mundo, e prove a si mesmo, ‘lança-te daqui abaixo”‘. “Então”, em primeiro lugar você será admirado, como se estivesse sob a proteção especial do céu. Quando eles virem que você não se feriu numa queda de uma altura como esta, eles dirão” (corno os bárbaros disseram sobre Paulo) ” que você é um Deus”. Diz a tradição que Simão Magno quis provar desta mesma maneira que era um deus, mas as suas pretensões não foram provadas, pois ele caiu e se feriu terrivelmente. “Não”, em segundo lugar, “você será recebido como tendo vindo com urna missão especial do céu. Toda Jerusalém irá ver e reconhecer não somente que você é mais do que um homem, mas que você é aquele Mensageiro, aquele Anjo da Aliança, que de repente viria ao Templo (Malaquias 3.1) e dele desceria às ruas da cidade santa; e assim o trabalho de convencer os judeus seria reduzido e realizado em pouco tempo”.

Note que o diabo disse: “Lança-te daqui abaixo”. O diabo não podia lançá-lo, embora não fosse necessário muito para fazê-lo, do topo de uma torre espiral. Observe que o poder de Satanás é um poder limitado; consequentemente, ele fará as suas investidas, mas não poderá fazer tudo o que quiser. Ainda assim, se o diabo o tivesse lançado do topo da torre, não teria conseguido

o seu intento; poderia haver até mesmo sofrimento, apenas, e não pecado. Lembre-se, qualquer prejuízo ou dano real que seja feito a nós, será nossa própria obra; o diabo somente pode nos persuadir, ele não pode nos obrigar. Ele somente pode dizer: “Lança-te daqui abaixo”. Ele não pode nos lançar. “Cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, e não forçado, mas atraído. Portanto, não firamos a nós mesmos, e, bendito seja Deus, ninguém mais conseguirá nos ferir (Provérbios 9.12).

[3] A maneira como ele fundamentou o seu convite com uma passagem das Escrituras. “Por que está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito”. Mas Saul também está incluído entre os profetas? E Satanás tão conhecedor das Escrituras, a ponto de ser capaz de citá-las tão prontamente. Aparentemente, sim. Observe que é possível que um homem tenha a sua cabeça cheia de noções das Escrituras, e a sua boca cheia de expressões das Escrituras, ao passo que o seu coração está cheio de inimizade reinante contra Deus e toda a divindade. O conhecimento que os demônios têm das Escrituras aumenta tanto a sua disposição para a maldade como para o tormento. O diabo jamais falou com mais vexame e irritação sobre si mesmo do que quando disse a Cristo: “Bem sei quem és”. O diabo iria persuadir Cristo a lançar-se para baixo, esperando que Ele pudesse ser o seu próprio assassino, e este seria o final dele e da sua missão – que Satanás via com olhos invejosos. Par a incentivá-lo a fazer isto, ele lhe diz que não haveria perigo, que os bons anjos o protegeriam, pois esta era a promessa (Salmos 91. 11): “aos seus anjos dará ordem a teu respeito”. Nesta citação:

Em primeiro lugar, havia uma coisa correta. É verdade, existe esta promessa de ministério dos anjos, para a proteção dos santos. O diabo sabe disto por experiência, pois ele descobre que os seus esforços contra os santos são infrutíferos, e ele se irrita com isto, como fez no caso de Jó, de quem ele fala com tanta sensatez (Jó 1.10). Ele também estava certo ao aplicar isto a Cristo, pois a Ele pertencem, básica e eminentemente, todas as promessas de proteção dos santos, e a estes, por meio dele. Aquela promessa, de que nenhum dos seus ossos se quebraria (SaImos 34.20), se cumpriu em Cristo (João 19.36). Os anjos guardam os santos por amor a Cristo (Apocalipse 7.5,11).

Em segundo lugar, havia muita coisa errada. E talvez o diabo tivesse um ódio particular contra esta promessa, e a tivesse distorcido, porque ela frequentemente o atrapalhava, e frustrava os seus ardilosos desígnios contra os santos. Veja aqui:

  1. A maneira como ele a citou mal, e isto foi ruim. A promessa é: “Eles te guardarão”; mas como? “Em todos os teus caminhos”; de nenhuma outra maneira; se sairmos do nosso caminho, do caminho do nosso dever, perdemos a promessa e nos colocamos fora da proteção de Deus. Estas palavras eram contrárias ao tentador, e por isto ele, ardilosamente, a excluiu da sua citação. Se Cristo se lançasse para baixo, Ele teria saído do seu caminho, pois Ele não tinha ordens de se expor desta maneira. É bom que nós, em todas as ocasiões, consultemos as próprias Escrituras, e não confiemos nas sugestões, para que elas não nos sejam impostas por aqueles que mutilam e deformam a Palavra de Deus. Nós devemos fazer como os nobres de Bereia, que liam diariamente as Escrituras.
  2. A maneira como ele aplicou mal a citação, e isto foi pior. As Escrituras são mal-usadas quando a questão é ser condescendente com o pecado, e quando os homens, consequentemente, a corrompem no caso da sua própria tentação, eles o fazem para a sua própria destruição (2 Pedro 3.16). Esta promessa é firme, e é boa; mas o diabo fez um mau uso dela, quando a usou como um incentivo para confiar nos cuidados divinos. Observe que não é novidade que alguns tentem transformar a graça de Deus em brincadeira, nem que os homens se incentivem a pecar depois que descobrem a boa vontade de Deus com relação aos pecadores. Mas nós “permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante”? Vamos nos lançar par a baixo, para que os anjos possam nos segurar? De maneira nenhuma.

(2) A maneira como Cristo venceu esta tentação. Ele resistiu a ela, e a venceu, assim como tinha feito com a primeira, com a expressão “está escrito”. O mau uso que o diabo faz das Escrituras não impediu que Cristo as usas­ se bem, mas Ele aqui insiste (Deuteronômio 6.16): “Não tentareis o Senhor, vosso Deus”. O significado disto não é: “Portanto, vocês não devem me tentar”, mas sim: “Portanto, Eu não devo tentar o meu Pai’. Na passagem citada, a referência está no plural: “Não tentarás”. Aqui, está no singular: “Não tentareis”. Observe que somos suscetíveis a conseguir o bem pela Palavra de Deus, quando ouvimos e recebemos promessas gerais como dirigidas a nós em particular. Satanás disse: “Está escrito”; Cristo diz: “Está escrito”. Isto não significa que uma passagem das Escrituras contradiga a outra. Deus é um, e a sua palavra é única, e Ele é uma única mente, mas aquela é uma promessa, isto é, um preceito, e, portanto, há que se explicar e aplicar estas coisas; pois as Escrituras são os melhores intérprete s das próprias Escrituras; e aqueles que profetizam, que expõem as Escrituras, devem fazê-lo de acordo com a proporção da sua fé (Romanos 12.6), e de modo coerente com a santidade prática.

Se Cristo se lançasse para baixo, isto seria tentar a Deus:

[1] Pois estaria exigindo uma confirmação daquilo que já tinha sido bem confirmado. Cristo estava bastante satisfeito com o fato de Deus ser o seu Pai, e cuidar dele, e dar aos seus anjos uma missão a respeito dele. Por tanto, fazer uma nova experiência seria tentá-lo, como os fariseus tentaram a Cristo, quando, tendo tantos sinais na terra, exigiram um sinal do céu. Isto seria limitar o Santo de Israel.

[2] Pois estaria exigindo uma proteção especial para Ele, ao fazer algo que Ele não tinha sido chamado para fazer: Se nós esperarmos que, por Deus ter prometido não nos abandonar, Ele deve nos acompanhar mesmo se sairmos da nossa obrigação; se esperarmos que, por ter prometido satisfazer as nossas necessidades, por isto Ele deve nos mimar e nos conceder os nossos caprichos; se esperarmos que, por ter Ele prometido nos proteger, nós podemos voluntariamente nos expor aos perigos e esperar o fim desejado, sem o uso dos fins indicados, isto é arrogância, isto é tentar a Deus. E o fato de Ele ser o Senhor nosso Deus agrava o pecado; é um abuso do privilégio que desfrutamos, de tê-lo como nosso Deus. Ele já nos incentivou a confiar nele, mas seremos extremamente ingratos, se o tentamos; isto é contrário ao nosso dever para com Ele, corno nosso Deus. Isto é afrontar aquele a quem nós devemos honrar. Observe que não devemos prometer a nós mesmos nada além daquilo que Deus nos prometeu.

3.O diabo tentou Jesus à mais obscura e horrenda idolatria, com a oferta dos reinos do mundo e a sua glória. E aqui podemos observar:

(1) A maneira como o diabo dá este incentivo ao nosso Salvador (vv. 8,9). A pior tentação ficou reservada para o final. Observe que algumas vezes o último encontro dos santos é com os filhos de Anaque, e o último ataque é o mais amargo. Portanto, qualquer que seja a tentação que nos sobrevenha, ainda assim devemos nos preparar para o pior, devemos estar armados para todos os ataques com a armadura da justiça na mão direita e na esquerda.

Nesta tentação, podemos observar:

[1] O que ele mostrou a Cristo – “todos os reinos do mundo”. Para fazer isto, ele o levou a um monte muito alto. Esperando ser o vencedor, como Balaque com Balaão, ele mudou o seu território. O pináculo do Templo não é suficientemente alto; o príncipe das potestades do ar deve levá-lo ainda mais alto nos seus territórios. Alguns pensam que este alto monte estava do outro lado do Jordão, porque é ali que encontram os Cristo pouco depois da tentação (João 1.28,29). Talvez fosse o monte Pisga, onde Moisés, em comunhão com Deus, contemplou todos os reinos de Canaã. Até aqui, o bendito Jesus teve ao seu lado uma grande esperança, como se o diabo pudesse lhe mostrar mais sobre o mundo do que Ele já conhecia, Ele que o tinha criado e o governava. Daquele lugar, Ele poderia contemplar a localização de alguns dos reinos próximos à Judéia, embora não a glória destes reinos; mas sem dúvida havia uma trapaça e uma ilusão de Satanás nisto. É provável que aquilo que ele mostrou a Cristo não passasse de uma paisagem, de uma representação em uma nuvem, do modo como o grande enganador podia facilmente juntar, apresentar, em cores adequadas e vivas, as glórias e as magníficas aparências dos príncipes, suas roupas e coroas, seus séquitos, sua bagagem e seus guarda-costas; a pompa dos tronos, e das cortes, e dos palácios luxuosos, os suntuosos edifícios nas cidades, os jardins e os campos próximos, com vários exemplos de riqueza, prazer e satisfação, que pudessem despertar a imaginação e excitar a admiração e o afeto. Assim foi esta exibição, e o fato de levá-lo até um monte alto tinha o único objetivo de ajudar e disfarçar o engano, ao qual o bendito Jesus não se deixou submeter, mas enxergou a realidade que estava por trás da trapaça, só permitindo que Satanás o fizesse à sua maneira para que a sua vitória sobre o maligno pudesse ser ainda mais exemplar. Consequentemente, observe, a respeito das tentações de Satanás, que, em primeiro lugar, elas vêm aos olhos, que estão cegos à s coisas que deviam ver, e maravilhados pelas tolices de que deveriam se afastar. O primeiro pecado começou através dos olhos (Genesis 3.6). Portanto, precisamos fazer um concerto com os nossos olhos, e orar para que Deus os afaste da contemplação às tolices. E m segundo lugar, as tentações normalmente nascem no mundo, e nas coisas que nele há. A concupiscência d a carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida são os pontos de onde o demônio produz a maioria dos seus argumentos. Em terceiro lugar, isto é um grande engano que o diabo coloca sobre as nossas pobres almas, nas suas tentações. Ele engana, e assim, destrói. Ele impõe sobre os homens as sombras e as esconde rápidas; mostra o mundo e a sua glória, e esconde dos olhos dos homens o pecado, a tristeza e a morte que mancham o orgulho de toda esta glória, as preocupações as calamidades que aparecem com as grandes posses, e os espinhos com que as próprias coroas são adornadas. Em quarto lugar, a glória do mundo é a tentação mais sedutora para os inconscientes e imprudentes, e aquela infligida com mais frequência a os homens. Os filhos de Labão se ressentem da glória de Jacó; o orgulho pela vida é a cilada mais perigosa.

[2] O que ele disse a Cristo (v. 9): “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. Veja:

Em primeiro lugar, como foi vã esta promessa. “Tudo isto te darei”. O diabo parece ter certeza de que nas tentações anteriores ele tinha, parcialmente, atingido o seu objetivo, e provado que Cristo não era o Filho de Deus, porque Ele não tinha lhe dado as evidências que ele exigia; assim, aqui ele considera Cristo como um mero homem. Em outras palavras, “Venha”, diz ele, “parece que Deus, cujo Filho você pensava ser, está lhe abandonando, e priva você de alimento como um sinal de que Ele não é o seu Pai. Mas se você for governado por mim, eu vou cuidar melhor de você; considerem e como o seu pai, e peça a minha bênção, e tudo isto eu lhe darei”. Satanás faz dos homens presas fáceis, quando consegue persuadi-los a pensar que foram abandonados por Deus. A falácia desta promessa está em: “Tudo isto te darei”. E o que é” tudo isto”? Não era nada além de um mapa, um quadro, uma m era fantasia, que não tinha nada de real ou sólido, e isto ele daria a Cristo: um prêmio considerável! Mas assim são as ofertas de Satanás. Multidões deixam de ver o que é real, vendo o que não é. As iscas do diabo são todas simulações, elas são espetáculos e sombras com os quais ele engana as pessoas, ou melhor, elas se enganam. As nações da terra tinham sido, há muito tempo, prometidas ao Messias; se Ele era o Filho de Deus, elas pertenciam a Ele. Satanás a gora finge ser um bom anjo, provavelmente um daqueles que tinham sido colocados sobre os reinos, e finge ter recebido a missão de entregar posses a Jesus, de acordo com uma promessa. Lembre-se, nós devemos tomar cuidado para não receber até mesmo o que Deus prometeu, pelas mãos do diabo; nós fazemos isto quando precipitamos o cumprimento das promessas, agarrando-nos a elas de uma maneira pecaminosa.

Em segundo lugar, como era vil esta condição: “Se, prostrado, me adorares”. Toda a adoração que os pagãos faziam aos seus deuses se dirigia ao diabo (Deuteronômio 32.17), que, portanto, é chamado de deus deste século (2 C o 4.4; P 1 C o 10.20). E, satisfeito, ele atrairia Cristo aos seus interesses, e o persuadiria, estabelecendo um Professor, para pregar a idolatria dos gentios e para introduzi-las outra vez no meio dos judeus, e então as nações da terra correriam para ele. Que tentação seria mais abominável, P mais obscura? Observe que o melhor dos santos pode o s e r tentado ao pior dos pecados, especialmente quando g está sob o poder da melancolia; como, por exemplo, ser E atraído ao ateísmo, à blasfêmia, ao assassinato, à auto­destruição e a outras coisas. Esta é a sua aflição. Mas então quanto não houver consentimento, nem aprovação, não há pecado por parte dele; Cristo foi tentado a adorar Satanás, mas resistiu.

(2) Veja como Cristo evitou o golpe, frustrou o ataque e emergiu como um vencedor. Ele rejeitou a proposta:

[1] Com repulsa e ódio: “Vai-te, Satanás”. As duas tentações anteriores tinham algum a coisa atraente, algo que admitiria uma consideração, mas esta era tão grosseira a ponto de não admitir negociação. Ela pareceu abominável à primeira vista, e, portanto, é imediatamente rejeitada. Se o melhor amigo que tivermos no mundo nos sugerir algum a coisa como esta: “Vamos e sirvam os a outros deuses”, ele não deve ser ouvido com piedade (Deuteronômio 13.6,8). Algumas tentações têm a sua maldade escrita na testa, são conhecidas de antemão; não devemos sequer discutir sobre elas, mas rejeitá-las imediatamente. “Vai-te, Satanás”. E m outras palavras: “Leve isto embora daqui eu não suporto pensar nisso!”. Enquanto Satanás tentou a Cristo para que causasse mal a si mesmo, lançando-se para baixo, embora Ele não cedesse, Ele ouviu a proposta; mas agora, que na tentação se impõe claramente a Deus, Ele não consegue suportá-la. “Vai-te, Satanás”. Observe que esta é uma indignação justa, que se ergue contra a proposta d de qualquer coisa que se sobreponha à honra de Deus, e c atinja a sua majestade. Não, não importa qual seja a coisa abominável que saibamos com certeza que o Senhor é odeia, nós devemos abominá-la. Que Deus não permita que tenhamos algum a coisa a ver com ela. Observe que é bom ser categórico ao resistir à tentação, e fechar os ouvidos aos encantos e enganos de Satanás. e

[2] com um argumento extraído das Escrituras. Observe que, para fortalecer as nossas resoluções contra o pecado, é bom vermos quantas razões existem para estas resoluções. O argumento é muito adequado e exato p ao propósito, extraído de Deuteronômio 6.13 e 10.20. “Ao n Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás”. Cristo não discute se ele, o diabo, era um anjo de luz, como ele fingia ser, ou não; mas mesmo que fosse, ainda assim não t devia ser adorado, pois esta é uma honra devida somente a Deus. Observe que é bom darmos à tentação respostas tão completas e tão breves quanto possível, para não deixar lugar para objeções. O nosso Salvador, neste caso, tem o auxílio da lei fundamental, o que é indispensável e universalmente obrigatório. A adoração religiosa é devida somente a Deus, e não deve ser oferecida a nenhuma outra criatura. E um a flor na coroa que não pode ser separada, um ramo da glória de Deus que Ele não dará a outrem. Se o seu próprio Filho não fosse Deus, igual a Ele e um só com Ele, Ele não exigiria que todos os homens honrassem ao Filho, como honram ao Pai. Cristo cita esta lei a respeito da adoração religiosa, e o faz aplicando-a a si mesmo. E m primeiro lugar, para mostrar que no seu estado de humilhação Ele mesmo estava sujeito a esta lei: embora, como Deus, fosse adorado, ainda assim, como Homem, Ele adorava a Deus Pai, tanto publicamente como em particular. Ele nos obriga a nada além do que Ele primeiramente se obrigou a fazer. Assim, lhe convinha cumprir toda a justiça. E m segundo lugar, para mostrar que a lei da adoração religiosa é de obrigação eterna: em bora Ele anulasse e alterasse muitas instituições da adoração, ainda assim Ele veio ratificar e confirmar e fazer vigorar sobre nós a lei fundamental da natureza, de que som ente Deus deve ser adorado.

V – Temos aqui o desfecho e o resultado deste combate (v. 11). Embora os filhos de Deus possam passar por muitas e grandes tentações, ainda assim Deus não irá submetê-los a se r tentados acima das forças que cada um deles tem, ou que Ele lhe dará (1 Coríntios 10.13). Eles só estarão em dificuldades durante uma época, em meio aos tipos mais variados de tentação.

Agora, o resultado foi glorioso, e para a honra de Cristo; pois:

3.O diabo ficou frustrado e abandonou o campo de batalha; “então, o diabo o deixou”, forçado a fazer isto pelo poder que acompanhava aquelas palavras de ordem: “Vai-te, Satanás”. Ele fez uma retirada vergonhosa e desonrosa, e retirou-se em desgraça; e quanto mais ousadas tinham sido as suas tentativas, mas mortificante foi a frustração que recebeu. No entanto, a tentativa na qual ele fracassou foi ousada. Quando ele tinha feito a pior tentativa, tinha tentado a Cristo com todos os reinos do mundo e a sua glória, e descobriu que Ele não se deixava influenciar por aquela isca, que ele não venceria com aquela tentação, com a qual tinha derrubado tantos milhares de filhos dos homens, então ele deixa o Senhor; é quando ele o considera como mais do que um homem. Como isto não influenciou Jesus, ele desiste de influenciá-lo e começa a concluir que Ele é o Filho de Deus, e que é inútil continuar a tentá-lo. Se resistirmos ao diabo, ele se afastará de nós; ele desistirá, se nós conservarmos os nossos fundamentos. Quando o diabo deixou o nosso Salvador, ele tinha sido justamente derrotado; a sua cabeça estava rompida pelo esforço que tinha feito para ferir o calcanhar de Cristo. Ele o deixou porque ele não tinha nada nele, nada a que agarrar-se; ele viu que não tinha sentido e desistiu. O diabo, embora seja um inimigo de todos os santos, é um inimigo derrotado. O Capitão da nossa salvação já o derrotou e desarmou; nós não temos nada a fazer, exceto possuir e manter a vitória.

4.Os santos anjos vieram e serviram ao nosso Senhor.

Visto que chegaram os anjos e o serviram”. Eles vieram sob uma aparência visível, como o diabo tinha feito nas tentações. Enquanto o diabo estava desferindo seus ataques sobre o nosso Salvador, os anjos mantiveram-se à distância, e foram suspensos o seu auxílio e o seu serviço imediatos, para que ficasse a parente que Jesus tinha derrotado a Satanás com suas próprias forças, e para que a sua vitória fosse ainda mais exemplar. Também para que posteriormente, quando Miguel fizer uso dos seus anjos para luto e seus anjos, fique aparente que não é porque Jesus precise deles, ou porque não conseguiria realizar o seu trabalho sem eles, mas porque Ele se alegra em honrá-los, tanto quanto em usá-los. Um dos anjos poderia ter lhe trazido comida, mas havia muitos que o serviam, para dar testemunho do respeito que tinham por Ele, e da disposição e prontidão deles para receber as suas ordens. Note isto! É importante observar que:

(1) Assim como existe um mundo de espíritos malignos e mal-intencionados que lutam contra Cristo e a sua igreja – contra todos os crentes fiéis também existe um mundo de anjos santos e benditos, engajados e usados a favor dos cristãos. A respeito da nossa luta contra os demônios, podemos ter uma abundância de consolo devido aos anjos que pelejam contra estes.

(2) As vitórias de Cristo são os triunfos dos anjos. Os anjos vieram comemorar com Cristo o seu sucesso, alegrar-se com Ele e dar a Ele a glória que deve ser dada ao seu nome; pois isto foi cantado com v oz alta no céu, quando o grande dragão foi expulso (Apocalipse 12.9,10): “Agora chegada está a salvação, e a força”.

(3) Os anjos ministraram ao Senhor Jesus não apenas alimento, mas qualquer coisa de que Ele necessitou depois deste esforço tão grande. Veja com o os exemplos da condescendência e da humilhação de Cristo estão equilibrados com os sinais da sua glória. Como quando Ele foi crucificado em fraqueza, e ainda assim viveu pelo poder de Deus; como quando em fraqueza Ele foi tentado, passou fome e cansaço, e ainda assim pelo seu poder divino Ele ordenou o serviço dos anjos. Assim, o Filho do Homem comeu o alimento trazido pelos anjos e, como Elias, foi alimentado por um anjo no deserto (1 Reis 19.4,7). Observe que embora Deus possa permitir que o seu povo passe necessidades e dificuldades, ainda assim Ele tomará cuidados efetivos para o seu sustento, preferirá enviar anjos para alimentá-los a vê-los perecer. “Confia no Senhor e… verdadeiramente, será alimentado” (SaImos 37.3).

Cristo foi auxiliado depois da tentação:

[1] para que tivesse a coragem de prosseguir em sua missão, para que pudesse ver os poderes do céu ao seu lado quando visse os poderes do inferno contra Ele.

[2] para nosso incentivo, a fim de confiarmos nele; pois Ele soube, por experiência, o que é sofrer sendo tentado, e como esta situação é difícil. Assim, Ele soube o que é ser ajudado, depois de ser tentado, e como isto é reconfortante. Portanto, podem os esperar não apenas que Ele se solidarize com o seu povo, quando tentado, mas que Ele ofereça um alívio razoável a cada um, como o nosso grande Melquisedeque, que saiu ao encontro de Abraão quando este retornava da batalha, e como os anjos ministraram a ele ali.

Finalmente, Cristo, tendo sido, desta maneira, distinguido e feito grande no mundo invisível, por meio da voz do Pai, da descida do Espírito, da sua vitória sobre os demônios, e do seu domínio sobre os anjos, foi inquestionavelmente qualificado para aparecer no mundo visível como o Mediador entre Deus e o homem. “Considerai, pois, quão grande era este”!

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Amor e sexo em tempos de internet

AMOR E SEXO EM TEMPOS DE INTERNET

Sites eróticos, páginas que prometem a oportunidade de encontrar o “par perfeito”, fóruns destinados aos mais inusitados fetiches, serviços on-line para pessoas interessadas em relações extraconjugais – o anonimato e a variedade de estímulos proporcionados pela rede permitem experimentar novas formas de se relacionar.

Na década de 70, um grupo de universitários ficou confinado por cerca de uma hora dentro de uma sala completamente escura no Swarthmore College, na Pensilvânia. Eram 50 homens e mulheres com idade entre 18 e 25 anos que não se conheciam. Sabiam apenas que participavam de um estudo de psicologia e que, principalmente, não seriam apresentados uns aos outros. O psicólogo Kenneth Gergen instalou um gravador no local e depois entrevistou cada participante sobre o que ocorreu. Segundo ele, poucos minutos depois do início do experimento, os voluntários começaram a se movimentar pela sala e a conversar em voz baixa com uma ou outra pessoa, abandonando ou prolongando o contato de acordo com seu interesse.

A maioria confessou que sentiu curiosidade, ansiedade e excitação sexual durante aqueles minutos. Metade deles abraçou alguém e uns poucos chegaram a trocar beijos, o que não aconteceu quando o psicólogo repetiu o experimento com outro grupo, mas com as luzes acesas.

“Imagine uma câmara escura muito maior que a de Gergen, capaz de comportar milhões de pessoas que acreditam estar no anonimato. Essa pode ser a internet”, compara o neurocientista Ogi Ogas, doutor do Departamento de Sistemas Cognitivos e Neurais da Universidade de Boston e um dos autores do maior estudo já feito sobre sexualidade. Com o neurocientista Sai Gaddam, Ogas mapeou mais de 400 milhões de consultas feitas em cinco idiomas nos sites de busca Google, Yahoo! e Bing entre julho de 2009 e julho de 2010 – 55 milhões delas relacionadas a sexo, o equivalente a 13% das buscas. Segundo os pesquisadores, isso corresponde a 2 milhões de pessoas. Os resultados, divulgados no livro A billion wicked thoughts (“Um bilhão de pensamentos pervertidos”, sem edição em português, Dutton, 2011), mostram que, apesar da variedade oferecida pela rede, 90% das buscas estão concentradas em apenas cinco tipos de material pornográfico.

Os neurocientistas analisam alguns dos dados da perspectiva da psicologia evolutiva. Por exemplo, a grande procura por vídeos e fotografias de mulheres mais jovens (13,5% das buscas continham palavras referentes à juventude) por usuários do sexo masculino é resquício, segundo eles, da atração ancestral por parceiras capazes de gerar filhos saudáveis. No entanto, o ponto de vista evolucionista não explica alguns conteúdos populares na rede, como os designados pela sigla MILF, que se refere à fantasia de fazer sexo com mulheres da idade da própria mãe, e pelo termo cuckhold – simulação na qual um homem é forçado a assistir à sua mulher fazendo sexo com outros -, o que mostra que o desejo sexual não é regido apenas por fatores biológicos.

INVENTÁRIO DA SEXUALIDADE

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (1PQ-USP), o anonimato proporcionado pela rede permite dar vazão a algumas fantasias de forma tranquila, isto é, sem expor o desejo à possível rejeição ou ao julgamento do outro. Segundo a psicóloga Rosa Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI/ PUC-SP), o espaço virtual funciona como um laboratório de comportamentos, no qual projetamos aspectos criativos e sombrios de nós mesmos. “Na frente do computador, o internauta está sozinho e, ao mesmo tempo, ‘em relação’. O ‘outro’ está suficientemente distanciado para permitir que seu eu se expresse com maior liberdade e de modo mais protegido”, diz.

Antes do estudo de Ogas e Gaddam, o maior “banco de dados” sobre interesses sexuais foi o formado por informações colhidas pelo zoólogo americano Alfred Kinsey nos anos 40. Ele entrevistou 18 mil americanos e constatou que homossexualidade e masturbação feminina não eram tão raras como se imaginava – segundo o pesquisador, 37% dos homens e 13% das mulheres haviam tido relações homossexuais que resultaram em orgasmo. Suas conclusões se tornaram popularmente conhecidas como “relatório Kinsey” e ainda são citadas como uma espécie de inventário da sexualidade, apesar de o zoólogo haver reunido dados de uma população muito específica – todos os entrevistados eram brancos, de classe média e tinham menos de 35 anos.

Mais de meio século depois é difícil estimar a proporção de usuários da rede que procura conteúdo erótico. Mas a amostra de Ogas e Gaddam pode ser significativa, considerando que, no período da pesquisa, 13% das buscas totais na web eram associadas ao tema, e o filtro virtual CYBERsitter bloqueava 2,5 milhões de páginas com material pornográfico. Segundo os dois pesquisadores, o site adulto Livejasmin.com, no qual usuários interagem ao vivo por meio de webcam, recebe sozinho cerca de 32 milhões de visitantes por mês, o que equivale a 2,5% do total de usuários da rede.

Segundo Rosa, ainda estamos aprendendo a lidar com as oportunidades que a rede nos oferece. Ela pode funcionar como via de autoconhecimento, na qual facetas da sexualidade se tornam mais visíveis e perceptíveis. Alguns aspectos da pesquisa de Ogas e Gaddam chamam a atenção, como a diferença entre o tipo de conteúdo procurado por homens e mulheres e a relação de ambos com o sexo virtual.

Ao cruzarem a busca por conteúdo relacionado a sexo com o histórico virtual dos usuários e cadastros de visitas a sites adultos, os dois pesquisadores puderam criar hipóteses sobre o sexo e a orientação dos autores das consultas. Eles constataram que a pornografia visual é de interesse principalmente masculino. No entanto, cada vez mais mulheres usam a rede para satisfazer sua curiosidade e alimentar algumas fantasias. Elas são as principais visitantes de sites de contos e romances eróticos.

“Há alguns anos o simples pensamento de ser surpreendida alugando um filme erótico impedia uma mulher de buscar esse tipo de conteúdo. Hoje ela pode satisfazer sua curiosidade teclando e clicando, segura com a ideia do anonimato”, escreve Ogas. Um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de New Brunswick, no Canadá, mostra que, se por um lado homens consomem mais pornografia, as mulheres fazem sexo virtual – isto é, interagem eroticamente com uma ou mais pessoas por meio da rede – tanto quanto eles. A pesquisadora Krystelle Shaughnessy entrevistou 217 adultos jovens. Os resultados apontam que 83% dos homens já assistiram a vídeos ou viram fotos de sexo explícito on-line, contra 31% das mulheres. No entanto, em média, voluntários de ambos os sexos fazem sexo virtual de duas a três vezes por mês. Há outro estudo em andamento na instituição, sobre o tipo de parceiro que as pessoas procuram para o sexo on-line. Os resultados não foram divulgados, mas os autores constataram que, ao contrário da ideia que se tem de sexo virtual (a de dois estranhos que provavelmente nunca se encontrarão ao vivo), a interação intencional entre usuários do mesmo círculo social é algo muito comum.

SOLIDÃO E LAÇOS FRÁGEIS

Acessar a internet com propósito sexual parece ter virado rotina em países do Ocidente e do Oriente, entre ambos os sexos. “É difícil imaginar outra mudança tão impactante no campo da sexualidade. Ao visitar um site adulto é possível ver em 30 segundos uma infinidade de corpos nus e obter todo tipo de estímulo sem ter de interagir com ninguém”, analisa Ogas.

Segundo Saadeh, o uso frequente de material pornográfico envolve um ciclo de busca constante por estímulos. “Há casos em que a pessoa deixa de sentir prazer e satisfação com o sexo ‘natural’, e o hábito começa a prejudicar o sono e o desempenho no trabalho por causa das horas investidas em procurar sexo na rede”, explica o psiquiatra, descrevendo sintomas da compulsão por consumir pornografia na internet.

O uso excessivo da rede, não apenas com fins sexuais, parece afetar as relações sociais e afetivas. Um levantamento feito pelo si te de relacionamentos americano OK Cupid mostra que usuários com conta ativa na rede Twitter têm namoros e casamentos em média dois meses mais curtos. Os resultados foram baseados no histórico amoroso e na média de tempo passado na rede social por 800 mil usuários. A hipótese é que a vida social na web demanda tempo e atenção, o que interfere nos relacionamentos “reais”. Talvez o sexo virtual seja atraente porque pode proporcionar prazer imediato, sem o risco da frustração. “A satisfação afetiva e sexual é uma ‘batalha’ diária, que depende do desejo e da disponibilidade do outro. Ela leva tempo e exige intimidade para ser conquistada”, diz Saadeh.

REGRA 34: FANTASIAS ON-LINE

“Se uma coisa existe, há pornografia sobre ela. Sem exceções.” Referida como “regra 34 da internet”, a frase faz parte de uma espécie de lista de conduta para usuários da plataforma de imagens 4chan, a maior comunidade anônima da web, com cerca de 12 milhões de membros. Um território “livre”, no qual pode ser postado todo tipo de conteúdo. Os neuro­cientistas Ogi Ogas e Sai Gaddam decidiram verificar o alcance da regra e analisaram a busca de palavras relacionadas a sexo em inglês, português, italiano, hindi, japonês e russo. Algumas das preferências que identificaram:

Ser traído é uma das fantasias sexuais mais populares: conteúdos de cuckhold porn (simulações em que homens são forçados a assistir à sua mulher fazendo sexo com outro) compreendem 3,4% das buscas.

Homens preferem o corpo das jovens (13,5% das pesquisas fazem menção à juventude), mas há uma grande procura por vídeos de sexo com mulheres idosas – 4,3% das consultas continham a sigla MILF, que se refere ao fetiche de fazer sexo com mulheres que parecem ter a idade da própria mãe.

Usuários do sexo masculino buscam por vídeos e fotografias que evidenciem pênis de tamanho acima da média. As cenas de sexo grupal são muito clicadas, principalmente aquelas em que há mais homens que mulheres.

A palavra “gay” está entre as dez mais pesquisadas.

Animações japonesas de sexo explícito, conhecidas como hentai, estão entre os vídeos mais acessados.

Homens heterossexuais buscam mais por filmes pornográficos amadores, segundo os autores por preferirem cenas de orgasmos verdadeiros. Uma pesquisa anterior, do Center for Behavioral Neuroscience, já havia comprovado que, ao assistirem a filmes pornôs, homens focam mais o olhar na face da atriz na tentativa de verificar o que lhe causa mais prazer.

Um terço dos usuários cadastrados para receber o boletim informativo da revista Today’s Christian Woman (“Mulheres cristãs de hoje”) também procura por conteúdo erótico.

A procura por partes específicas do corpo varia entre as culturas. Há preferência geral por seios, pés e pênis “grandes”. Na Índia, por exemplo, há maior curiosidade por barrigas. Na maioria dos países latinos, principalmente no Brasil, por nádegas. No Japão, pela região chamada zettai ryouiki, a parte da coxa que fica exposta quando a mulher usa saia curta e meias três-quartos – um sem-número de produções hentai retrata esse fetiche.

COMPROMISSO E TRAIÇÃO: CONCEITOS LÍQUIDOS

Mais de 400 mil brasileiros estão cadastrados no site Ohhtel, uma rede social que reúne interessados em manter relacionamentos extraconjugais. Homens pagam R$ 60 para enviar e-mails para as mulheres, que usam a página gratuitamente. Segundo uma das administradoras do site, Laís Ranna, 66% dos usuários são do sexo masculino, com idade média de 40 anos. A das usuárias é de 33 anos. Os pretendentes podem trocar mensagens com a intenção de avaliar se um encontro real vale a pena.

Páginas desse tipo mostram que a rede oferece múltiplas concepções de traição e comprometimento. A rede social Facebook, por exemplo, é considerada uma das principais causas de divórcio entre os americanos atualmente, segundo pesquisa da empresa de antivírus Norton. Na mesma medida, sites destinados a pessoas interessadas em um relacionamento amoroso ganham cada vez mais adeptos: cerca de 5% dos recém-casados americanos se conheceram pelo site de relacionamentos eHarmony, que tem mais de 33 milhões de inscritos espalhados por 191 países. Pagando entre R$ 25 e R$ 60 mensais, o usuário tem acesso a um “sistema de compatibilidade” que sugere pretendentes com gostos, valores e crenças similares aos seus. Em um clique, é possível ver fotografias de uma pessoa, saber algumas de suas preferências e convidá-la para uma conversa – uma forma de conhecer e “flertar” que tem se tornado cada vez mais comum. Segundo pesquisa do Oxford Internet lnstitute divulgada em 2011, o número de usuários desse tipo de serviço aumentou 500% em todo o mundo nos últimos dez anos. Entre os brasileiros solteiros que têm acesso à rede, 65% já visitaram essas páginas.

Dúvidas sobre relacionamentos iniciados e desfeitos na rede e compulsão por pornografia virtual chegam com frequência à caixa de e-mails do Núcleo de Pesquisas da Psicologia da Informática (NPPI) da PUC-SP.

O laboratório desenvolve estudos sobre o impacto da tecnologia nas relações humanas e oferece serviço de orientação on-line – são recebidos em média dez e-mails de usuários por semana, segundo a coordenadora do núcleo, Rosa Farah. “Trocamos e-mails breves, focados no problema. Em alguns casos encaminhamos para a ajuda presencial, mas nem todas as pessoas que nos procuram moram em cidades onde é fácil encontrai atendimento”, diz. Interessados podem contatar os psicólogos do NPPI pelo site www.pucsp.br/nppi.

FERNANDA TEIXEIRA RIBEIRO – é jornalista e subeditora da Revista Mente e Cérebro.

GESTÃO E CARREIRA

Aprenda com a crise

APRENDA COM A CRISE

A obrigação de ter que fazer mais com menos nos incentiva a desenvolver a resiliência e a inteligência emocional.

Com o cenário de desaceleração econômica, as empresas tiveram que readequar a gestão para torná-la mais eficiente. Tanto que as palavras de ordem são fazer mais com menos – inclusive com menos recursos humanos. Com isso, quem está empregado precisa lidar com mais tarefas e com mais pressão por resultados. Ou seja, tem que assobiar, chupar cana e dançar conforme a música. Imagino que você deva estar se identificando com essa realidade e louco para que eu diga como pode sair bem dela. Então vamos lá. O necessário é organização e inteligência emocional. Se você ainda não gerencia bem as tarefas, não controla o uso do seu tempo e vive abalado emocionalmente por se sentir sempre um passo atrás do que precisaria estar, é hora de virar esse jogo. E, nesse ponto, a crise é uma grande oportunidade para se desenvolver e ir além do que se espera de você. Quem já está lidando bem com esses fatores, deve continuar se aperfeiçoando e tornando ­se muito produtivo e resiliente. O segredo para desenvolver a resiliência é o autoconhecimento. É fundamental que você identifique o que te mobiliza. Se tiver clareza sobre seu propósito de vida e de carreira, ficará mais fácil lidar com as dificuldades. Avalie também o que gera ansiedade, assim pode tentar evitar ou aprender a controlar determinadas situações e emoções. Mas, como é impossível eliminar 100% o estresse, é fundamental encontrar válvulas de escape. Aí vale qualquer coisa que goste de fazer: atividades físicas, hobbies ou sair com os amigos. Tudo isso para fazer mais do que a empresa espera de você, para que a companhia entenda que você faz diferença na batalha diária de entregar mais com menos. E, se a liderança perceber que você se saiu bem agora, no meio do turbilhão, certamente vai recompensá-lo no futuro. Para isso, se envolva nos projetos de melhoria e busque inovações – sem deixar, é claro, de desempenhar suas funções do dia a dia. Mostre atitude de dono, assumindo o desafio ele fazer o negócio superar a crise e crescer, com a mesma garra e determinação que o faria o seu fundador.

SOFIA ESTEVES – é fundadora e presidente do Conselho de Administração do Grupo OMRH, professora e pesquisadora de gestão de pessoas

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 13-17

 O Batismo de Jesus

O nosso Senhor Jesus, desde a sua infância até agora, quando estava com quase trinta anos de idade, tinha estado escondido na Galileia, como se estivesse enterrado vivo. Mas agora, depois de uma longa e escura noite, eis que o Sol da justiça se levanta em glória. A plenitude dos tempos era chegada para que Cristo pudesse assumir o seu trabalho profético, e Ele decide fazê-lo, não em Jerusalém (embora seja provável que Ele tivesse estado ali nas três festas anuais, como todas as outras pessoas), mas ali, onde João estava batizando; pois Ele procurou aqueles que esperavam o consolo de Israel, os únicos para os quais Ele seria bem-vindo. João Batista era seis meses mais velho que o nosso Salvador, e supõe-se que tenha começado a pregar e batizar cerca de seis meses antes da manifestação de Cristo; até então ele se dedicava a preparar o caminho do Senhor, na região próxima ao rio Jordão. E muito mais se fez para isto nesses seis meses do que tinha sido feito em muitos séculos antes. A vinda de Cristo, da Galileia ao Jordão, para ser batizado, nos ensina a não nos escondermos da dor e do trabalho árduo, para podermos ter a oportunidade de nos aproximarmos de Deus, ao seu serviço. Devemos estar dispostos a nos excedermos na comunhão com Deus, e não a sentirmos falta dela. Para encontrar, é preciso procurar.

Na história do batismo de Cristo, podemos observar:

 I – Com que dificuldade João foi persuadido a fazê-lo (vv. 14,15). Foi um exemplo da grande humildade de Cristo o fato de Ele se oferecer para ser batizado por João; que aquele que não conheceu pecado se submetes­se ao batismo do arrependimento. Observe que assim que Cristo começou a pregar, Ele pregou humildade, pregou-a segundo o seu exemplo, pregou-a a todos, especialmente aos jovens ministros. Cristo estava destinado às maiores honras, mas no seu primeiro passo Ele se humilha desta maneira. Observe que aqueles que se destinam a subir mais alto, devem começar mais baixo. “Diante da honra vai a humildade”. Esta era uma grande demonstração de respeito por João, pois Cristo veio até ele; e foi uma retribuição pelo ser viço que ele tinha prestado ao Senhor, avisando da sua chegada. Observe que Deus honrará aqueles que o honram. Aqui, temos:

1.A objeção que João fez contra batizar Jesus (v. 14). João objetou, da mesma maneira como Pedro o fez, quando Cristo foi lavar seus pés (João 13.6,8). Note que a condescendência graciosa de Cristo é tão surpreendente, que parece inacreditável, à primeira vista, para os crentes mais vigorosos; tão profunda e misteriosa, que mesmo aqueles que conhecem bem o seu modo de pensar não conseguem descobrir o significado dela, mas, por razões de falta de esclarecimento, colocam objeções contra a vontade de Cristo. A modéstia de João o leva a pensar que esta é uma honra excessivamente elevada para ele receber, e ele assim se expressa ao Senhor, da mesma maneira como a sua mãe tinha feito com a mãe de Cristo (Lucas 1.43): “Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?” João tinha conquistado um nome, e era nacionalmente respeitado; ainda assim, veja como ele ainda é humilde! Observe que Deus tem grandes honras reservadas para aqueles cujo espírito continua humilde quando a sua reputação cresce.

(1) João acha que é necessário que ele seja batizado por Cristo. “Eu careço de ser batizado por ti”, com o Espírito Santo e com fogo, pois este era o batismo de Cristo (v.11).

[l] Embora João estivesse cheio do Espírito Santo desde o útero (Lucas 1.15), ainda assim ele reconhece que tem a necessidade de ser batizado com aquele batismo. Note que aqueles que têm uma grande comunhão com o Espírito de Deus, ainda assim, neste estado imperfeito, percebem que precisam de mais; e par a que tenham mais precisam pedir a Cristo.

[2] João tem a necessidade de ser batizado, embora ele fosse o maior homem já nascido de uma mulher; mas, tendo nascido de uma mulher, ele está contaminado, como os outros da semente de Adão estão, e sabe que precisa de purificação. Observe que as almas mais puras são mais sensíveis à sua própria impureza residual, e procuram ansiosamente a purificação espiritual.

[3] Ele sente necessidade de ser batizado por Cristo, aquele que pode fazer por nós o que ninguém mais pode; aquilo que deve ser feito para nós, caso contrário seremos arruinados. Observe que os melhores e mais santos homens têm necessidade de Cristo, e quanto melhores eles são, mais percebem esta necessidade.

[4] Isto foi dito diante da multidão, que tinha uma grande veneração por João, e que estava pronta a aceitá-lo como o Messias; mas ele publicamente reconhece que tinha necessidade de ser batizado par Cristo. Note que não é nenhum menosprezo, aos maiores homens, reconhecer que estão perdidos, sem Cristo e a sua graça.

[5] João era o precursor de Cristo, e ainda assim reconhece que tinha a necessidade de ser batizado por Ele. Observe que mesmo aqueles que nasceram antes de Cristo neste mundo dependem dele, recebem dele e têm os olhos nele.

[6] Embora João estivesse tratando das almas dos outros, observe com quanto sentimento ele fala do caso da sua própria alma: “E u careço de ser batizado por ti”. Note que os ministros, que pregam aos outros e que batizam os outros, se preocupam em pregar para si mesmos, e serem, eles mesmos, batizados com o Espírito Santo. “Tem cuidado de ti mesmo e… te salvarás” (1 Timóteo 4.16).

(2), Portanto, ele acha que é completam ente absurdo e ilógico que Cristo seja batizado por ele. “Vens tu a mim?” O santo Jesus, que está separado dos pecadores, vem par a ser batizado por um pecador, como um pecador, e entre os pecadores? Como isto é possível? Como podemos descrever isto? Lembre-se que a vinda de Cristo até nós, pode ser também espantosa.

2.A rejeição dessa objeção (v. 1 5). Jesus disse: “Deixa por agora”. Cristo aceitou a sua humildade, mas não a sua recusa; Ele queria fazer isso; e é adequado que Cristo siga o seu método, embora não possamos compreendê-lo, nem apresentar uma razão para ele. Observe:

 (1) Como Cristo insistiu nisto. “Isto deve ser assim, por ora”. Ele não nega que João tivesse necessidade de ser batizado por Ele, mas ainda assim Ele será agora batizado por João. Que seja assim, por agora. Observe que tudo está bem, na sua ocasião. Mas por que agora’? Por que hoje?

[1] Cristo estava naquele momento em um estado de humilhação; Ele estava vazio, e não tinha uma reputação. Ele não apenas era encontrado como homem, mas à semelhança da carne pecadora, e, portanto, “agora”, Ele deveria ser batizado por João. Como se Ele precisasse ser lavado, embora fosse perfeitamente puro; e assim Ele se fez pecado por nós, embora não conhecesse o pecado.

[2] O batismo de João agora adquire reputação, é aquele pelo qual Deus está agora realizando o seu trabalho; esta é a presente relação, e, portanto, Jesus será agora batizado com água, mas o seu batismo com o Espírito Santo está reservado para mais tarde, não muito depois destes dias (Atos 1.5). O batismo de João tem o seu dia, e, portanto, deve ser honrado, e aqueles que o procuram devem ser incentivados. Aqueles que são os maiores destinatários de dons e graças devem, ainda, por sua vez, dar o seu testemunho aos rituais instituídos, comparecendo humilde e diligentemente a eles, para poderem dar um bom exemplo aos demais. Nós precisamos receber o que vemos que pertence a Deus, e enquanto vemos que Ele o está concedendo. João agora estava crescendo, e, portanto, isto deveria ser assim naquele momento; dentro de pouco tempo, ele irá decair, e então as coisas serão diferentes.

[3] Isto deve ser assim agora, porque agora é o momento da manifestação de Cristo em público, e esta é uma boa oportunidade para isto (veja João 1.31,34). Assim Ele foi manifestado a Israel, e houve maravilhas do céu como sinais, naquele seu ato, que era de completa condescendência e humilhação pessoal.

(2) A razão que Ele dá para isso: “Assim nos convém cumprir toda a justiça”. Observe:

[1] Havia uma adequação em tudo o que Cristo fez por nós. Havia graça (Hebreus 2.10; 7.26); e nós devemos estudar para fazer não somente aquilo que nos é conveniente, mas também aquilo que é digno de nós; não somente aquilo que é indispensavelmente necessário, mas aquilo que é agradável e bom.

[2] O nosso Senhor Jesus viu isto como algo perfeita mente digno dele, para cumprir toda a justiça, isto é (como o Dr. Whitby o explica), para possuir toda a instituição divina, e para mostrar a sua disposição em estar de acordo com todos os preceitos da justiça de Deus. Assim, Ele justifica a Deus Pai, aprovando a sua sabedoria, ao enviar João para preparar o seu caminho, por meio do batismo do arrependimento. Desse modo, é digno estimularmos e incentivarmos tudo o que for bom, tanto por padrão como por preceito. Cristo frequentemente mencionou João e o seu batismo com honra; e o que é melhor, Ele mesmo foi batizado. Assim, Jesus começou primeiro a agir, e depois a ensinar; e os seus ministros devem seguir o mesmo método. Portanto, Cristo cumpriu a justiça da lei cerimonial, que consistia de várias lavagens. Dessa forma, Ele recomendou, no Evangelho, a ordenança do batismo para a sua igreja, honrou este batismo, e mostrou que virtude Ele lhe destinava. Foi conveniente a Cristo submeter-se à lavagem com água de João, porque isto era um mandamento divino; mas foi conveniente a Ele opor-se à lavagem com água dos fariseus, porque isto era uma invenção e imposição humanas; e Ele justificou os seus discípulos que se recusavam a realizá-la. Com a vontade de Cristo, e a sua razão para isto, João ficou completamente satisfeito, e então ele fez o que devia. A mesma modéstia que o fez, a princípio, declinar da honra que Cristo lhe oferecia, agora o levou a, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre Ele (Isaias 11.2; 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do realizar o serviço que Cristo lhe impunha. Observe que – Espírito Santo.

[2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e nenhuma desculpa de humildade deve fazer-nos recusar qualquer dever.

 

II – Com que solenidade o Céu se alegrou em honrar o batismo de Cristo com uma exibição especial de glória (vv. 16,17). “Sendo Jesus batizado, saiu logo da água”. Os outros que eram batizados permaneciam para confessar os pecados (v. 6) , mas Cristo, não tendo nenhum pecado a confessar, saiu imediatamente da água; é isto o que lemos, mas não exatamente; pois é apo toit hydalos da água, da margem do rio, ao qual ele desceu para lavar-se na água, isto é, para lavar a sua cabeça ou o seu rosto (João 13 .9); pois não há menção de Cristo tirando ou recolocando as suas roupas, o que não teria sido omitido, se Ele tivesse sido batizado nu. Ele se levantou imediatamente, como alguém que inicia o seu trabalho com a determinação e a alegria mais completas. Ele não podia perder tempo. Ele se endireitou e se levantou assim que o batismo foi realizado!

Quando Ele estava saindo da água, e todo o grupo colocou os olhos sobre Ele:

1.Os céus se abriram sobre Ele, como para descobrir alguma coisa acima e além do firmamento estrelado, pelo menos para Ele. Isto aconteceu:

(1) Para incentivá-lo a prosseguir em sua empreitada, com a perspectiva da glória e da alegria que se apresentava diante dele. O céu estará aberto para recebê-lo, quando Ele tiver concluído a obra que agora está começando.

(2) Para nos incentivar a recebê-lo, e a nos sujeitar a Ele. Observe que em Jesus Cristo, e por meio dele, os céus estão abertos para os filhos dos homens. O pecado trancou o céu, interrompeu todas as relações amistosas entre Deus e o homem; mas agora Cristo abriu o Reino dos céus a todos os crentes. A luz e o amor divinos são derramados sobre os filhos dos homens, e nós temos a ousadia de entrar no Santo dos Santos. Nós temos recibos da misericórdia de Deus, nós retribuímos com nosso dever a Deus e tudo por meio de Jesus Cristo, que é a escada que tem o pé na terra e o topo no céu. Somente através dele é que podemos ter um relacionamento confortável com Deus, ou qualquer esperança de chegar, por fim, ao céu. Os céus se abriram quando Cristo foi batizado, para nos ensinar que quando comparecemos, como devemos fazer, aos rituais de Deus, nós podemos esperar a comunhão com Ele e a comunicação por parte dele.

2.Ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre Ele, ou pousando sobre Ele. Cristo viu (Marcos1.10) e João viu (João 1.33,34), e é provável que todos os presentes também tenham visto, pois esta devia ser a sua primeira manifestação pública. Observe:

(1) Ele viu o Espírito de Deus, que desceu e pousou sobre Ele. No início do mundo, o Espírito Santo se movia sobre a face das águas (Genesis 1.2), flutuando como uma ave sobre o ninho. Aqui, no começo deste novo mundo, Cristo, como Deus, não precisava receber o Espírito Santo, mas tinha sido previsto que o Espírito do Senhor repousaria sobre ele (Isaias11.2, 61.1), e aconteceu isto aqui; pois:

[1] Ele devia ser um Profeta, e os profetas sempre falavam pelo Espírito de Deus, que descia sobre eles. Cristo devia realizar a obra profética, não pela sua natureza divina (diz o Dr. Whitby), mas pela inspiração do “Espírito Santo.

{2] Ele devia ser a Cabeça da igreja; e o Espírito desceu sobre Ele, para ser, por seu intermédio, transmitido a todos os crentes, com os seus dons, as suas graças, e o seu consolo. A unção sobre a cabeça desceu até às bordas das vestes; Cristo recebeu dons para os homens, para que Ele os pudesse dar aos homens.

 (2) O Espírito desceu sobre Ele como uma pomba; se esta era uma pomba real, e viva, ou, como era normal em visões, a representação ou a semelhança de uma pomba, não se sabe. Se é necessária uma forma corpórea (Lucas 3.22), não poderia ser a de um homem, pois o ser visto como homem era peculiar à Segunda Pessoa: nenhuma forma, portanto, era mais adequada do que a forma de uma das aves do céu (que agora estava aberto), e entre todas as aves, nenhuma era tão significativa quanto a pomba.

{1} O Espírito de Cristo é um Espírito que pode ser tipificado por uma pomba; não corno uma pomba enganada, sem entendimento (Oséias 7.11), mas como uma pomba inocente, sem amargura e sem ódio. O Espírito desceu, não sob a forma de uma águia, que, embora seja uma ave real, é uma ave predatória, mas sob a forma de uma pomba, que é a mais inofensiva das criaturas. Assim é o Espírito de Cristo: Ele não luta nem grita; assim os cristãos devem ser, inofensivos como pombas. A pomba é notável por seus olhos; nós descobrimos que tanto os olhos de Cristo (Cantares 5.12) como os olhos da igreja (Cantares 1.15; 4.1) são comparados aos olhos das pombas, pois têm o mesmo espírito. A pomba geme muito (Isaias 38.14). Cristo chorava; e as almas penitentes são comparadas às pombas dos vales.

[2] A pomba era a única ave que era oferecida em sacrifício (Levítico 1.14), e Cristo, pelo Espírito, o Espírito eterno, se ofereceu, imaculado, a Deus.

[3] As notícias do fim do dilúvio de Noé foram trazidas por uma pomba, que tinha um ramo de oliveira no bico; na ocasião adequada, portanto, as alegres notícias da paz feita com Deus são trazidas pelo Espírito, como uma pomba. Isto fala da boa vontade de Deus em relação aos homens; que os seus pensamentos sobre nós são pensamentos de bem, e não de mal. Através da expressão: “a voz da rola ouve-se em nossa terra” (Cantares 2.12), a paráfrase em aramaico dá a entender que esta é a voz do Espírito Santo. O fato de que Deus está em Cristo, reconciliando consigo o mundo, é uma mensagem de alegria, que chega até nós sobre as asas de uma pomba.

3.Para explicar e completar esta solenidade, veio uma voz do céu, que, temos razões para pensar, foi ouvida por todos os que estavam presentes. O Espírito Santo se manifestou à semelhança de uma pomba, mas Deus, o Pai, por uma voz; pois quando a lei foi entregue, não se viu semelhança, somente se ouviu uma voz (Deuteronômio 4.12). E este Evangelho veio assim, e realmente é um Evangelho, a melhor boa-nova que já veio do céu à terra; pois ela fala clara e plenamente sobre a graça de Deus para com Cristo, e também para conosco nele.

(1) Veja como o nosso Senhor Jesus pertence a Deus: “Este é o meu Filho amado”. Observe:

[1] A relação que Eles tinham; Ele é o meu Filho. Jesus Cristo é o Filho de Deus, por geração eterna, como foi gerado do Pai antes de toda a criação, ou seja, “dos mundos” (Colossenses 1.15; Hebreus 1.3), e por concepção sobrenatural; portanto, Ele foi chamado de Filho de Deus, porque foi concebido pelo poder do Espírito Santo (Lucas 1.35). Mas isto não é tudo. Ele é o Filho de Deus por designação especial para o trabalho de Redentor do mundo. Ele foi santificado, selado, e embalado para esta missão, e sempre esteve de pleno acordo com o Pai para o desempenho dela (Provérbios 8.30), indicado para ela. “Lhe darei o lugar de primogênito” (Salmos 89.27).

[2] O afeto que o Pai sentia por Ele: “Este é o meu Filho amado”; o seu Filho amado, o Filho do seu amor (Colossenses 1.13). Ele tinha estado no seu seio por toda a eternidade (João 1.18), sempre tinha sido a sua alegria (Provérbios 8.30), mas, particularmente como mediador, e ao assumir a obra da salvação do homem, Ele era o seu Filho amado. “Ele é o meu Eleito. em quem se compraz a minha alma” (veja Isaias 42.1). Por ter consentido no concerto da redenção, e se alegrado por realizar esta vontade de Deus, o Pai o amou (João 10.17; 3.35). Observem, então e maravilhem-se: que tipo de amor o Pai nos concedeu, para nos entregar aquele que era o Filho do seu amor para sofrer e morrer por aqueles que eram a geração da sua ira; portanto, Deus Pai o amou, porque Ele deu a sua vida pelas ovelhas! Agora nós sabemos que Deus Pai nos amou, porque Ele não poupou o seu próprio Filho, o seu único Filho, o Isaque que Ele amava, mas, ao invés disso, o entregou para ser um sacrifício pelos nossos pecados.

(2) Veja aqui corno Ele está disposto a nos tornar pertencentes a Ele, em Cristo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Ele se compraz com todos os que estão nele, e estão unidos a Ele pela fé. Até agora, Deus tinha estado descontente com os filhos dos homens, mas agora a sua ira foi afastada e Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Que todo o mundo saiba que este é o Pacificador, o Ancião de dias, que colocou a sua mão sobre nós, e que não há como ir a Deus Pai senão por Ele, como Mediador (João 14.6). Nele, nossos sacrifícios espirituais são aceitáveis, pois é dele altar que santifica todas as ofertas (1 Pedro 2.5). Sem Cristo, Deus é um fogo consumidor; mas, em Cristo, Ele um Pai reconciliado. Este é o resumo de todo o Evangelho; é uma mensagem fiel e merecedora de toda a aceitação, a de que Deus declarou, por meio de uma voz do céu, que Jesus Cristo é o seu Filho amado, em quem Ele se compraz, com o que nós devemos, pela fé, alegremente estar de acordo e dizer que Ele é o nosso amado Salvador, em quem nos comprazemos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

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TURBINANDO SEU CÉREBRO

Medicamentos podem ajudá-lo a obter o melhor de você mesmo? Especialistas discutem riscos e vantagens do uso de remédios por pessoas saudáveis para diminuir a necessidade de sono, favorecer a memória, o rendimento intelectual e o estado de ânimo.

 É o dia do casamento da melhor a miga de Maria. Ela ajudou a preparar cuidadosamente todos os detalhes da festa e será a madrinha da noiva. Mas justamente nessa manhã, Maria e seu namorado têm uma grande discussão. A briga é tão intensa que lhe parece impossível ir mais tarde à festa pela qual esperou ansiosamente. Mas também pode estragar uma data tão importante para sua amiga querida. O que fazer?

Muitas pessoas, em uma situação semelhante, provavelmente afogariam a angústia em alguns copos de champanhe. Mas nesse caso isso é impensável, pois Maria precisa estar lúcida para ajudar na organização do evento. Vamos supor então que seu primo, que acompanhara todo o drama matutino, sugira um remédio: uma pílula que ele próprio toma para controlar a depressão. O comprimido tem efeito “milagroso” e, além disso, ele leu há pouco tempo que também melhora o estado de espírito de pessoas saudáveis.

Para evitar desilusões avisamos logo: a pílula milagrosa aqui descrita não existe. E é questionável se os antidepressivos comuns realmente favoreça o estado psíquico de pessoas saudáveis. E se têm esse efeito, certamente não é instantâneo. Substâncias como o ecstasy, por sua vez, que elevam o ânimo de forma imediata, podem causar dependência e graves efeitos colaterais. Mas suponha que cientistas realmente desenvolvessem um preparado que estimulasse no mínimo tanto quanto o champanhe sem serem acompanhados dos efeitos negativos causados pela embriaguez e pela ressaca. Uma substância assim seria uma bênção ou uma maldição? Especialistas alertam para possíveis riscos e alguns questionam até mesmo se esse comportamento é “correto”. Mas haveria algo de errado em recorrer a fármacos para favorecer o rendimento no trabalho e no s estudos, diminuir a necessidade de sono, melhorar a memória e a capacidade intelectual e, ainda, o humor?

Cada vez mais a mídia apresenta casos de estudantes que tomam estimulantes para estudar para provas ou profissionais que enfrentam a pressão no trabalho com medicamentos normalmente usados para o tratamento de Alzheimer ou da pressão alta (beta bloqueadores). Com isso, buscam melhorar a capacidade de concentração, reduzir a tensão e a ansiedade. Mesmo que quase não haja números confiáveis a esse respeito, podemos ter a impressão de que vivemos um momento eticamente preocupante. “Doping cerebral” é um termo chave, e a associação com o embuste que ocorre nos esportes antecipa o julgamento negativo.

Propomos, porém, considerar que os objetivos desses “dopings cerebrais” parecem bastante louváveis: iniciativas para melhorar o próprio desempenho intelectual ou favorecer a forma de relacionar-se consigo mesmo e com os outros são vistas, com razão, de forma positiva. Quem procura ampliar seu potencial por meio de treinamento mental (cultivando o hábito da leitura e aprendendo línguas, por exemplo), prática de exercícios ou meditação normalmente é valorizado por isso.

Mesmo aqueles que tentam influenciar positivamente as pequenas variações de humor e o desempenho diário com café, chocolate, vitaminas, comprimidos de ginkgo biloba ou pelo consumo moderado de álcool certamente não estão agindo de forma imoral.

Para evitar equívocos ou olhares preconceituosos, optamos por utilizar a denominação neuro aprimoramento (NA), do inglês neuroenhancement. Alguns autores indicam com essa expressão medidas puramente preventivas contra doenças neurológicas ou psiquiátricas, além de estratégias tradicionais para favorecer o desempenho como ingerir café para espantar o sono ou treinar a memória fazendo palavras cruzadas. Aqui, porém, nos referimos ao NA para falar da melhora do desempenho cognitivo ou do estado psíquico por meio de dispositivos neurotécnicos (como chips de memória ou marca-passos cerebrais) e, principalmente, de fármacos – sempre sem nenhum objetivo terapêutico ou preventivo.

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RISCO DE DEPENDÊNCIA

Mais uma observação referente ao exemplo do início: se Maria passasse a tomar as “pílulas da felicidade” oferecidas pelo primo a cada briga com o namorado para fugir da clareza profunda, mas com certeza dolorosa, de seus problemas de relacionamento, seu comportamento pareceria muito mais problemático. Se fizesse isso em uma ocasião específica, porém, a situação pareceria mais aceitável. Para um julgamento ético do NA farmacêutico, portanto, é importante considerar a intensidade e regularidade com que esse recurso é utilizado.

Além disso, vale questionar os motivos impulsionadores e as intenções concretas de quem adere ao neuroaprimoramento. Por fim cabe levar em conta se uma pessoa optou por utilizá-lo para si, de forma autônoma, ou se a decisão foi tomada por outros, como no caso de crianças, ou mesmo se houve influência do médico. O ponto de partida de nossas reflexões é o direito de cada um ser capaz de fazer escolhas e dispor de seu corpo e sua psique. Sendo assim, não é a liberdade de usar PNAs que precisa ser justificada, mas sim o tolhimento dessa liberdade. Há, porém, uma questão que se impõe: o NA é benéfico ou prejudicial a uma vida bem-sucedida?

Quando se apresentam objeções ao uso de drogas para turbinar o cérebro costuma ser mencionada a “antinaturalidade” desse recurso ou os riscos de intervir na “natureza humana”. Este, porém, é um argumento fraco. A mera artificialidade não pode ser vista como problema se aceitamos o uso de meios correspondentes na medicina sem nenhum questionamento. E no que diz respeito às intenções, elas consistem principalmente em obter melhoras que nos parecem insuspeitas quando realizadas de outras formas, não químicas.

Mesmo em cenários futuristas, nos quais realmente falássemos da superação da natureza humana, teríamos primeiramente de explicar por que essa seria intocável – afinal, somos bem menos cautelosos quando se trata de alterar a natureza em nosso interesse. No entanto, é fato que intervenções na complicada e ainda pouco compreendida dinâmica dos seres vivos, especialmente do próprio homem, só podem ocorrer com extremo cuidado. A metáfora da “sabedoria evolucionária” é uma admonição pragmática e legítima, principalmente no que diz respeito ao cérebro humano.

Outra objeção comum contra o neuroaprimoramento se refere ao seu grau de intervenção neurobiológica que, em comparação com o impacto de treinamentos cognitivos ou da meditação, por exemplo, é considerado inferior: pílulas para processos metabólicos neuronais; conversas e argumentos para o espírito. Mas a premissa funcional-dualista dessa visão não é sustentável atualmente. Muitos fatos científicos e filosóficos indicam que medicamentos e outros fatores externos deixam marcas no “espaço da racionalidade”, assim como a simples reflexão também se manifesta constantemente de forma neurológica.

Sabe-se, por exemplo, que a psicoterapia faz com que sejam desenvolvidas ou fortalecidas as redes neurais. Não é possível, portanto, estabelecer hierarquias unívocas.

Também é comum afirmar que psicofármacos para neuroaprimoramento (PNAs) estão associados principalmente ao seu uso regular e por longo prazo. Isso pode estar inicialmente relacionado ao risco de uma dependência física que se manifestaria, por exemplo, na medida em que fosse necessário tomar doses cada vez maiores e que, após a suspensão da substância, ocorressem síndromes de abstinência. Se os PNAs tivessem esse potencial aditivo, este seria um bom motivo contra o seu uso, já que o aumento da dose quase sempre é proporcional ao risco de efeitos desagradáveis. Mais difícil de avaliar é o temor de que turbinar quimicamente o cérebro leve à dependência emocional e psíquica, já que não está totalmente claro em que consiste e quando exatamente se dá. Ela se fundamenta na ideia de que a pessoa deseja um objeto de certo modo irracional e sente extremo desconforto quando não tem acesso a ele. Esse risco é normalmente explicado, no caso do NA, com o exemplo de um estudante que, após algumas notas excelentes obtidas sob influência de pílulas, desenvolve enorme medo do fracasso apenas ao cogitar que terá de enfrentar a próxima prova sem a ajuda de fármacos.

Muitos seriam contra essa dependência de um preparado para neuroaprimoramento. No entanto, a objeção ao uso de PNAs tem menor peso que o temor da dependência física, pois é quase impossível levarmos uma vida totalmente livre de dependências psíquicas. Sabidamente, o desejo pelo objeto de um amor romântico também assume, às vezes, traços extremamente irracionais. Os “dependentes”, não raro, perdem até mesmo a coragem de enfrentar a vida quando a pessoa amada morre ou termina o relacionamento. Algo similar ocorre com várias novidades tecnológicas, como celulares ou internet, que fazem com que as pessoas fiquem verdadeiramente “capturadas”, muitas vezes após uma resistência inicial, e não possam mais imaginar a vida sem elas. Porém, ninguém sequer cogita a proibição dessas inovações.

Antes de mais nada, é indispensável que as pessoas avaliem se as vantagens associadas ao uso de psicofármacos valem possíveis desvantagens. Provavelmente, seu efeito social será, em algum momento, semelhante à atual “dependência da internet”, que segundo alguns especialistas se caracteriza como um distúrbio psíquico. Ou seja, assim como no caso da informática, a maioria faria uso moderado e prático das possibilidades do neuro­aprimoramento, já uma minoria desenvolveria um padrão de consumo patológico. Assim como no caso da internet, seria então mais sensato oferecer terapia aos necessitados do que proibir o acesso aos PNAs.

Vários críticos também cogitam, com razão, que o neuroaprimoramento farmacêutico possa levar a uma pressão ainda maior por resultados e prejudicar aqueles que rejeitarem o uso desse meio por qualquer motivo. Essa preocupação será ainda mais plausível quando o uso de PNAs se disseminar. Mas mesmo hoje, provavelmente, não é pelo puro prazer de experimentar coisas novas que gente saudável recorre a psicofármacos sem que os seus efeitos e segurança tenham sido comprovados. Essas pessoas possivelmente já devem estar sob pressão tão grande por resultados que experimentam estimulantes ou as chamadas “drogas da felicidade” sem refletir muito sobre os perigos. Isso é alarmante e ninguém pode querer que a pressão social devida à concorrência já tão alta se acirre ainda mais pela disseminação do neuroaprimoramento. Uma vida constantemente voltada para o desempenho e eficiência seria ainda mais desumana e segregadora.

Pílulas com a intenção de possibilitar que as pessoas trabalhem ininterruptamente, superando seus concorrentes, podem ser uma armadilha. Se o ganho de eficiência é sempre seguido de carga de trabalho crescente, então o indivíduo não ganha nada no final das contas – pelo contrário. Mas a imagem de uma possível futura sociedade do neuroaprimoramento seria incompleta, quase enganosa, se considerássemos apenas os questionáveis motivos para o seu uso e deixássemos de lado o potencial desse recurso de estimular a alegria de viver e a empatia. Se esses meios ajudassem a lidar melhor com as demandas de desempenho e, assim, a ter mais liberdade, tornando-nos mais sensíveis à música e outras formas de arte, oferecendo facilidade e prazer em aprender, então seria difícil nos queixarmos das mudanças pessoais e sociais associadas a essas transformações. Mesmo no âmbito competitivo, seja na ciência ou na economia ou qualquer outra área, a elevação das competências cognitivas e emocionais poderia melhorar a vida de muitas pessoas – e quem sabe significar avanços no combate a doenças degenerativas e câncer.

A obrigatoriedade de aprender e se esforçar para aqueles que querem ser bem-sucedidos dentro da competição social já faz parte do estilo de vida ocidental. Por isso mesmo não é tão simples rechaçar os temores de que o indivíduo, exposto à pressão coerciva cada vez maior, se veja obrigado a recorrer ao neuraprimoramento farmacêutico até contra sua própria vontade. Para muitos, o principal motivo para o uso de PNAs poderia ser a competição por vantagens na escola, nas provas finais ou no trabalho – mesmo que esses benefícios fossem nivelados, caso em algum momento todos tomassem as pílulas. O fato de termos de nos adaptar frequentemente a novidades diárias já foi bastante aceito. Certamente existe diferença em nos vermos obrigados a adquirir uma carta de motorista ou conhecimentos em computação e concordar com uma intervenção farmacológica no próprio cérebro e, assim, provavelmente, na própria personalidade.

Na maioria das vezes sequer nos damos conta do longo caminho “biográfico” que percorremos até chegar às nossas metas, talvez porque esse processo ocorra em etapas: fazemos terapia, aprendemos uma infinidade de coisas, alteramos comportamentos, descobrimos “jeitos” de estudar, trabalhar, expor ideias durante reuniões ou aulas. Trata-se de uma adequação da personalidade (e do cérebro) que se dá lentamente e com poucos efeitos colaterais. A recorrência a psicofármacos, no entanto, parece pular várias etapas. A mudança causada pelo NA é experimentada como uma variação de personalidade relativamente abrupta. Por esse motivo, as pessoas afetadas podem achar essa alteração muito mais negativa do que as obtidas por aqueles que a atingem pelos caminhos tradicionais.

Um aspecto decisivo para a tomada de qualquer decisão, neste caso, é sabermos se o grau de risco ainda pode ser avaliado como “socialmente tolerável”. O tráfego de carros, por exemplo, com suas inúmeras vítimas, também gera um ” risco permitido”, apesar de, mesmo para pessoas que se comportam com cautela, as consequências prejudiciais não poderem ser excluídas – aliás, segundo as estatísticas, são até mesmo muito prováveis. Não é possível formular com certeza quais prejuízos devem ser considerados como socialmente adequados e, portanto, admissíveis.

Muitas vezes, teme-se que a disseminação do neuroaprimoramento possa causar ou acirrar injustiças sociais: drogas para melhorar capacidades cognitivas ofereceriam vantagens competitivas na vida social de seus usuários, mas certamente seriam muito caras. Portanto, apenas pessoas relativamente abastadas – que de qualquer forma já são privilegiadas – teriam condições de adquirir os custosos PNAs. A desigualdade entre as chances de sucesso para diferentes grupos sociais se ampliaria ainda mais. Será que isso fere os princípios básicos de uma distribuição social justa?

Possivelmente não. A desigualdade de condições, porém, já é uma realidade. Pesquisas mostram que crianças com pais afetuosos lidam melhor com frustrações – o que é uma vantagem inegável para construir uma vida feliz. Além disso, ter a oportunidade de alimentar-se bem desde a infância, frequentar boas escolas, diversificar interesses, exercitar a criatividade, praticar es portes, viajar e aprender línguas e música também é um privilégio – e não fruto de merecimento, mas continuação da situação privilegiada dos pais. Essas vantagens iniciais também modificam (de forma muito similar aos psicofármacos) o cérebro daqueles que têm acesso a elas, embora obviamente não sejam determinantes.

Pressupondo que o neuroaprimoramento farmacêutico se tornasse uma prática socialmente aceita ou até mesmo desejada, quem deveria então controlar o acesso aos PNAs e esclarecer os potenciais usuários sobre benefícios e riscos do uso? Hoje, quem recorre a esse recurso providencia os preparados de efeito preponderantemente questionável, ao que tudo indica, no mercado negro, ilegalmente nas farmácias e, muitas vezes, com a ajuda de médicos.

A tarefa desses profissionais consiste primariamente em curar, evitar ou diminuir efeitos de distúrbios físicos e psicológicos. Até há poucos anos, só muito raramente eram procurados para que ajudassem pessoas saudáveis a melhorar ainda mais seu estado de saúde – esta demanda ainda é muito recente. Por isso, parece compreensível incluir a busca por neuroaprimoramento na categoria de diagnóstico e terapia. Um executivo que quer ampliar sua capacidade de se manter atento pode logo ser interpretado como alguém com “dificuldade de concentração”, e seu desejo por um estimulante, classificado como sinal de leve depressão, para assim justificar o “auxílio” medicamentoso.

Essa expansão excessiva dos diagnósticos e indicações não é desejável já que, com isso, pratica-se tacitamente o neuroaprimoramento “sob prescrição”. Além disso, o NA assim disfarçado não pode ser considerado na coleta de dados epidemiológicos que possam ser acessados para uma avaliação científica, beneficiando outras pessoas. Mas, acima de tudo, bloqueia-se a visão pessoal, assim como a pública, de que essas práticas consistem em aprimoramentos que devem ser avaliados em vista de seus objetivos e consequências – diferentemente da terapia e da prevenção de doenças.

Mas o que se poderia objetar contra a permissão para que médicos acompanhassem abertamente o uso de PNAs, supondo que eles fossem socialmente aceitos? Será que o aprimoramento vai contra a ética da medicina porque não tem nenhuma relação com “cura”? Pode-se argumentar contra essa afirmação que os médicos já assumiram, por bons motivos e com aprovação social, há muito tempo, atividades fora de suas responsabilidades básicas, como, por exemplo, a prescrição de métodos anticoncepcionais e realização de cirurgias plásticas exclusivamente estéticas. Nesta altura, seria hipocrisia dizer que essas intervenções não estão associadas, de forma global, à saúde física e psíquica do paciente.

O modelo ideal para chegar à medicação adequada – obviamente nem sempre possível – é aquele que permitiria que médicos e psicólogos avaliassem em conjunto a pessoa interessada em melhorar seu desempenho. Assim, o paciente tiraria benefícios dos conhecimentos médicos relativos a possíveis riscos, interações medicamentosas e o acompanhamento psicológico favoreceria a compreensão de motivações nem sempre óbvias para a busca desse recurso, ajudando o interessado a lidar melhor com as transformações em sua vida, de forma crítica e cuidadosa. Se realmente o uso de PNAs for abertamente adotado nos próximos anos – como acreditamos que venha a ser-, é importante que profissionais da saúde se especializem no tema para utilizar seus conhecimentos, já que a prática obscura do neuroaprimoramento não é interesse de ninguém.

Todos os preparados cujos potenciais de aprimoramento estão sendo atualmente testados por cientistas tinham originalmente um fim terapêutico. Do ponto de vista farmacológico, no entanto, é de suma importância determinar se a intervenção deve corrigir um sistema danificado ou favorecer algum aspecto que já funciona normalmente. Enquanto a opinião pública sobre o “doping cerebral” ainda for marcada pela rejeição – latente ou aberta -, porém, nenhuma empresa farmacêutica poderá admitir uma estratégia de pesquisa como essa.

Por outro lado, apesar da preocupação com sua imagem, certamente o setor farmacêutico não vai perder de vista os potenciais de vendas de substâncias de reforço cognitivo e emocional para pessoas saudáveis. Em vez disso, faz sentido temer que empresas e médicos sirvam cada vez mais a esse mercado de forma indireta ao estabelecer padrões sempre mais altos de saúde mental e psíquica de forma que já considerem, em vista dos menores desvios, a necessidade de tratamento. Ou seja: o que há alguns anos era considerado normal transforma-se atualmente em patológico.

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PRESCRIÇÃO OBRIGATÓRIA

Se o ponto de vista defendido por nós, de que o NA farmacêutico não deve ser rejeitado em princípio, se impusesse, as empresas farmacêuticas não teriam mais de realizar o desenvolvimento desses preparados sob o disfarce terapêutico e seria possível haver regulamentos apropriados, de acordo com a legislação vigente em cada país. Seria principalmente sensato definir padrões mais altos de segurança e efetividade para os PNAs do que os das pesquisas farmacológicas terapêuticas, pois se trata “apenas” de aprimoramentos do desempenho e do estado mental e não da salvação, cura ou amenização de sintomas (casos em que as pessoas admitem maiores efeitos colaterais e buscam detectar até mesmo as menores esperanças).

Mesmo com altos padrões para o teste de inocuidade de preparados de neuroaprimoramento, nem todos os efeitos indesejáveis já poderiam ser determinados ou excluídos com absoluta certeza antes da sua liberação. De forma análoga ao regulamento existente para medicamentos, deveria haver também para os PNAs um procedimento de protocolo obrigatório complementar que coletasse indícios de efeitos indesejáveis após a introdução no mercado. Para que esse procedimento funcionasse de forma confiável, médicos e psicólogos teria m de registrar todas as queixas associadas ao consumo de um psicofármaco e repassá-las de forma padronizada para um centro de vigilância farmacológica. Por esse motivo, após a sua liberação, os PNAs devem ser submetidos à prescrição médica obrigatória pelo menos durante alguns anos.

Somos da opinião de que não há nenhuma objeção convincente contra um aprimoramento farmacêutico do cérebro ou do psiquismo. Pelo contrário: consideramos o neuroaprimoramento farmacêutico a continuidade de uma busca intelectual de “automelhoramento” inerente ao ser humano. No entanto, atualmente devemos nos preocupar com o fato de ainda não existir em discussão nenhum resultado de pesquisas suficientemente confiável sobre a efetividade e a segurança dos psicofármacos a longo prazo. A comprovação de que um preparado causa rendimento adicional digno de ser mencionado é responsabilidade da empresa farmacêutica que vende o produto. As consequências físicas, psíquicas e socioculturais de longo prazo, por sua vez, são de interesse da sociedade. Por isso, estudos a esse respeito deveriam ser amplamente divulgados. Além disso, devem ser apoiados projetos de pesquisa que forneçam dados sobre a frequência com que determinadas substâncias já são usadas para fins de neuroaprimoramento e quais são os seus padrões de consumo. Só assim será possível avaliar corretamente o significado social do NA. Um estudo sistemático pressupõe que, antes de mais nada, o NA seja tirado do “lado escuro” da sociedade – e discutido por profissionais e estudantes da área de saúde mental.

Enquanto o NA farmacêutico não puder ser identificado como uma opção de procedimento física e psíquicamente inofensivo, aqueles que são contra o aprimoramento devem ser protegidos para que não caiam em desvantagem social devido à sua recusa. E principalmente psicanalistas, psicólogos e médicos já não podem se furtar a essa reflexão.

Existem, no entanto, perguntas que só podem ser feitas a si mesmo: Quais são meus motivos para usar (ou não) esses produtos? Os benefícios valem o risco de sofrer efeitos colaterais indesejáveis? Estou disposto a, além das possíveis bem-vindas alterações da personalidade (maior sensibilidade e agilidade cognitiva), aceitar também consequências indesejadas que dificilmente podem ser previstas, pois são determinadas não apenas por fatores farmacológicos e individuais? Principalmente: quero atrelar o meu bem-estar e bom desempenho (ainda que parcialmente) à disponibilidade de um dispendioso preparado? O que o meu meio social pensa desse recurso? Terei de desrespeitar regras para conseguir as substâncias? Nenhum desses pontos de vista pode ser decisivo sozinho, mas todos juntos certamente ajudam a avaliar se as vantagens superam os inconvenientes – ou não.

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Perguntas mais frequentes sobre substâncias para neuroaprimoramento

Atualmente há vários medicamentos já usados para favorecer habilidades cognitivas e humor, embora sua efetividade e segurança sejam pouco esclarecidas. Veja algumas perguntas – e respostas – sobre o tema:

Existem drogas especificas para melhorar o desempenho mental?

Ainda não há PNAs realmente efetivos. Apenas o modaftnil parece ser uma exceção que consegue compensar, a curto prazo, a falta de sono aguda. Os preparados em estudo não têm nenhum efeito colateral grave quando pessoas saudáveis os tomam uma única vez ou durante poucos dias seguidos. O que sabemos com certeza é que existe uma falta alar mante de pesquisas objetivas sobre os efeitos do neuroaprimoramento.

O modafinil é “adequado para a manutenção do estado de vigília?

Após um único episódio de privação de sono, o modafinil compensa a perda de atenção, memória e concentração provocada pelo cansaço. Depois de várias situações desse tipo, porém, a atenção só é mantida com uso em maior quantidade, mas o desempenho cognitivo fica reduzido Estudos nos quais o modafinil foi utilizado sem privação prévia de sono apresentam resultados contraditórios e, no máximo, efeitos reduzidos sobre o desempenho. Em alguns casos ocorreu uma supervalorização das próprias capacidades cognitivas, segundo avaliação dos voluntários.

Antidepressivos levam a melhora do estado de humor de pessoas saudáveis?

Não há alterações imediatas, e estudos sobre efeitos a longo prazo são inexistentes. Apenas em algumas pessoas os antidepressivos levam a uma melhora das competências sociais e emocionais.

É possível incrementar o desempenho cognitivo de pessoas saudáveis com o metílfemdato (ritalina, por exemplo)?

Contrariando afirmações divulgadas pela mídia e muitas expectativas, não há nenhuma prova definitiva desse efeito, nem com o uso prolongado. Mesmo após a privação de sono, a ritalina não melhora objetivamente as condições de aprendizagem. Indícios esparsos, porém, apontam para uma melhora da memória de trabalho (capacidade de guardar informações imediatas, como números de telefones usados com frequência). Subjetivamente, porém, os usuários tendem a avaliar seu desempenho intelectual como muito melhor.

Anfetaminas ajudam a aumentar a atenção?

Há casos em que existe essa possibilidade, mas devido ao seu potencial aditivo e aos graves efeitos colaterais, estimulantes não são adequados como preparados de neuroaprimoramento.

Os medicamentos antidemência favorecem o desempenho da memória em pessoas saudáveis?

Dados existentes sobre os efeitos dos medicamentos utilizados para tratar Alzheimer são insuficientes. Somente o donepezil foi estudado. Provavelmente a memória de pessoas saudáveis melhora com o uso regular durante um longo período de tempo, mas não há comprovação.

THORSTEN GALERT é bacharel em filosofia e química, pesquisador da Academia Europeia para o Estudo das Consequências de Desenvolvimentos Técnico-científicos em Bad Neuenahr-Ahrweiler, onde coordena o grupo do projeto Potenciais e riscos do aprimoramento farmacêutico de características psíquicas, do qual participam todos os autores deste artigo.

CHRISTOPH BUBLITZ é jurista, professor da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade de Hamburgo.

ISABELLA HEUSER é doutora em psiquiatria, professora e diretora da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

REINHARD MERKEL é jurista e filósofo, professor de direito penal e filosofia do direito da Universidade de Hamburgo.

DIMITRIS REPANTIS é doutor em medicina geral, professor da Clínica e Ambulatório Universitário de Psiquiatria e Psicoterapia do Hospital Universitário Charité, de Berlim.

BETTINA SCHÕNE-SEIFERT é médica e bacharel em filosofia, professora de ética médica da Universidade de Münster e membro do Conselho de Ética da Alemanha.

DAVINIA TALBOT, médica anestesiologista e bacharel em filosofia, trabalha na Universidade de Münster e na Clínica St. Barbara em Hamm-Heessen.

GESTÃO E CARREIRA

Estudar para melhorar

ESTUDAR PARA MUDAR

Como identificar qual tipo de formação é a mais adequada para cada plano de transição de carreira.

Nascido em Divinópolis (MG), André Gustavo Gontijo Penha, de 36 anos, formou-se em engenharia da computação pela Unicamp e tinha o emprego dos sonhos de muitos jovens: criava jogos de videogame. A profissão lúdica o ajudo u a montar sua primeira empresa, a OverPlay, que mais tarde seria comprada pela TecToy Digital. “Mesmo com um bom desempenho profissional, eu sentia que faltava alguma coisa e que precisava exercer um papel mais importante na sociedade”, diz André. Com dificuldades para entender que rumos queria seguir, ele decidiu apostar na educação como ponte e depois de pesquisar vários cursos se preparou para fazer um MBA fora do país. “Queria aprender e estar em contato com pessoas inspiradoras”, afirma.

Por cerca de um ano ele prestou provas, arrumou a papelada e guardou dinheiro para ir para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. O local é berço de empresas como Nike, Instagram, HP e Google e o fez pensar de forma mais inovadora. “Lá eu aprendi que é normal não saber que rumos seguir e que mais pessoas tinham meu sentimento. O ambiente me estimulou a buscar novas ideias”, diz. Durante os dois anos que ficou em Stanford, André conheceu Gabriel Braga, que viria a se torna r seu sócio. “Ele tinha uma energia parecida com a minha e começamos a pensar em um negócio que pudesse ajudar pessoas de alguma forma. Queríamos resolver algum problema”, diz. Os dois estudantes de Stanford encontravam-se constante­ mente e em um desses cafés listaram quais eram os maiores problemas que já tinham vivenciado no dia a dia. “Foi então que notamos que nunca era fácil alugar um imóvel. A partir daí, com apoio de todo o conteúdo absorvido em Stanford, criamos a Quinto Andar, em 2012”, diz André. A em­ presa, que dispensa a figura do fiador e tem a proposta de desburocratizar o processo de locação, cresceu em média 25% ao mês nos últimos 12 meses. “Em 2016 seremos dez vezes maiores que em 2015. O MBA foi fundamental para auxiliar nessa mudança de carreira”, diz André.

Assim como André foi do mundo dos videogames para o segmento de locação de imóveis, a necessidade de mudar de rumos está presente na vida de muitos profissionais. Pode ser por insatisfação pessoal, em busca de uma remuneração melhor e até mesmo por necessidade de atualização. Mas, na hora da guinada, é fato que a educação torna a transição mais tranquila e segura. O importante é decidir que tipo de curso e conteúdo combina mais com o seu momento. Segundo Alexandre Benedetti, diretor da Talenses, consultoria de recrutamento de São Paulo, é preciso colocar as opções na mesa antes de escolher o caminho. “Nada deve ser feito por impulso. Fazer uma pós-graduação ou um MBA só porque está há muito tempo sem estudar pode não fazer sentido para a carreira”, afirma.

GUINADA DRÁSTICA

Há algumas opções que devem ser levadas em conta antes de decidir que tipo de formação buscar. Por exemplo, quando a mudança ele carreira prevê urna reviravolta radical, fazer uma outra graduação pode ser a única solução. “Imagine um administrador ele empresas que resolve que tudo o que mais quer é ser veterinário. Não há outra forma, a não ser voltar para a faculdade e cursar uma nova graduação”, diz Alexandre. Além disso, uma nova graduação pode ser indispensável quando o profissional precisa ele um registro da profissão (corno CRM, Crea e OAB) para ganhar mais espaço. “Por exemplo, um profissional de marketing que atua na área jurídica e precisa de registro na OAB para alavancar a carreira só tem a graduação como opção”, a firma. Porém, dedicar -se quatro ou mais anos a um novo curso só é indicado nesses casos extremos.

CONHECIMENTO TÉCNICO

Aqueles que buscam uma transição que demande competência técnica devem apostar em uma pós-graduação. “O papel desse formato de ensino é aprofunda r o nível de conhecimento em uma determinada vertente, como um generalista de engenharia que quer se especializar em privatizações”, diz Alexandre. O conselho aqui é primeiro fazer uma reflexão de aonde se deseja chegar para depois traçar a rota a ser percorrida. Antes de investir tempo e dinheiro em um curso de pós-graduação, é necessário pensar no campo de atuação que almeja, entender se há demanda e se a rotina se enquadra em suas expectativas.

Uma das vantagens desse formato é a diversidade do público, afinal não é preciso ter experiência para fazer pós e ao mesmo tempo não há limitações de idade – o que amplia o leque de opções. Mas um ponto importante é fazer um filtro de instituições. Segundo o Ministério da Educação, há cerca de 4 000 cursos de pós-graduação no país, volume que cresceu 23% nos últimos três anos. Conversar com ex-alunos e pesquisar sobre a instituição são conselhos mandatórios antes de escolher a pós-graduação.

Em casos em que a guinada da carreira é proposta pela empresa ou a oportunidade de mudança é imediata, os cursos de extensão podem ser uma boa saída. Isso porque a duração dessa modalidade é menor – e consequentemente gera respostas mais rápidas com um investimento mais acessível. Muita s vezes, os cursos oferecidos em plataformas on-line podem servir corno porta de entrada para essa modalidade de educação.

A bancária Alice Ramos Motta, de 29 anos, de São José dos Campos (SP), é urna adepta dos cursos livres. Para ela, eles são fundamentais para introduzir assuntos diferentes. “Penso nos cursos como ensino de emergência. Sempre que me deparo com uma situação diferente no trabalho ou com uma oportunidade de aprendizado recorro aos cursos livres”, diz. “Mas acredito que eles não são suficientes para sustentar urna guinada de carreira. Acho que são um meio de testar se aquela empreitada dará certo e se vale a pena se aprofundar no assunto”, diz. Quando o conhecimento a ser adquirido requer mais tempo de dedicação, a pós-graduação se faz necessária em um segundo momento para complementar as competências exigidas.

APOSTANDO ALTO

Há ainda a opção dos MBAs. A sigla em inglês remete a um mestrado em administração de negócios e a modalidade é indicada para profissionais que buscam uma visão mais generalista. Segundo Tiago Mitraud, diretor executivo da Fundação Estudar, instituição fundada pelos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira e que fornece bolsas de estudos, essa é a opção que deve ser analisada com mais cautela. “Houve uma banalização dos MBAs oferecidos no Brasil e muitas instituições acabaram distorcendo a essência desse formato”, afirma. “É difícil encontrar cursos no Brasil que sigam a proposta inicial dessa modalidade, e os interessados acabam buscando instituições fora do país”, diz Thiago. Há um perfil mais definido de quem se enquadra nesse tipo de ensino. “Essa opção é voltada para profissionais jovens, de até 30 anos, que buscam ampliar a visão de negócios e ter uma carreira mais generalista. Os processos seletivos são rígidos e demandam fluência em inglês e realizações importantes na carreira”, diz Thiago. Há uma tendência de profissionais optando por fazer cursos que não demandam dedicação integral para não dispender tempo longe do em prego. “Alguns avaliam que dois anos fora do mercado de trabalho podem colocar a carreira em risco”, diz Thiago. Uma opção para fugir desse perigo é apostar na educação executiva, que exige menos tempo de atenção e também segue a linha generalista.

De fato, a demanda por profissionais com MBA no exterior caiu. Com a restrição econômica, as multinacionais, que eram as principais contratantes desse perfil de profissional, passaram a incentivar mais o desenvolvimento interno de talentos. “Não tenho dúvida de que fazer um MBA fora do Brasil é um grande atrativo, mas é preciso saber se faz sentido para a carreira e estar disposto a arriscar”, afirma o executivo. Flavia Deutsch, de 32 anos, resolveu ousar e optou pelo formato para mudar o rumo de sua carreira. Nascida em São Paulo, ela se formou em administração pela Fundação Getúlio Vargas, em 2005, e sempre trabalhou no mercado financeiro. Seu primeiro estágio foi no J.P Morgan e ela também tem passagens por Merrill Lynch e Citibank. “O mercado financeiro foi uma escola. Absorvi tudo o que podia e superei a rotina desgastante, mas não era ali que eu queria ficar”, diz.

Em 2010, Flavia decidiu se candidatar para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Conheci pessoas inspiradoras e refleti muito sobre o sentido do trabalho”, diz. Ela voltou ao Brasil em 2012 sem emprego, sem renda e com uma dívida de 20 anos na bagagem. “Minha família me chamou de maluca, mas não me arrependo”, diz. O objetivo dela era atuar em uma empresa inovadora, por isso passou cerca de três meses gaimpando startups até se deparar com a Acesso, empresa de cartões pré-pagos que incentiva e facilita a entrada da população desbancarizada na economia. “Hoje atuo na área ele marketing e produtos e, por mais que pareça clichê, sinto que faço a diferença”, afirma.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 7-12

 

A Pregação de João Batista

A doutrina que João pregava era a do arrependimento, considerando que era chegado o Reino dos céus; aqui nós temos o uso desta doutrina. A sua aplicação é uma vida de pregação, e esta era a pregação de João.

Observe:

1.A quem ele a aplicava; aos fariseus e aos saduceus que vinham ao seu batismo (v. 7). Aos outros, ele pensava que era suficiente dizer: ”Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus”; mas quando ele viu estes fariseus e saduceus se aproximando, achou que era necessário explicar-se, e ser mais específico. Estas eram duas das três seitas destacadas entre os judeus daquela época, a terceira era a dos essênios, sobre os quais nada lemos nos Evangelhos, pois eles se afastavam e evitavam se envolver em questões públicas. Os fariseus eram zelosos pelas cerimônias, pelo poder da sinagoga e pelas tradições dos anciãos; os saduceus estavam no extremo oposto, e eram ligeiramente melhores que os deístas, negando a existência de espíritos e de um estado futuro. E estranho que eles viessem ao batismo de João, mas a sua curiosidade os trouxe para ouvir; e alguns deles, provavelmente, se submeteram ao batismo, mas certamente a maioria deles não o fez, pois Cristo diz (Lucas 7.29,30) que “todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele”. Observe que muitos vinham para os rituais e não eram influenciados por eles. Para estes, aqui João se dirige com toda a devoção, e o que ele disse a eles, o disse à multidão (Lucas 3.7), pois o que ele dissesse seria aplicável a todos eles.

2.Qual era a aplicação. Era clara e familiar, e dirigida às suas consciências. Ele fala como alguém que vem não para pregar diante deles, mas para pregar a eles. Embora a sua educação fosse reservada, ele não era acanhado quando aparecia em público, nem temia a presença dos homens, pois estava cheio do Espírito Santo e de poder.

 

I – Aqui está uma mensagem de condenação e de despertamento. Ele começa de maneira áspera, não os chama de rabinos, não se dirige a eles por seus títulos, e tampouco lhes dedica os aplausos aos quais eles estão acostumados.

1.O título que lhes atribui é “raça de víboras”. Cristo lhes atribuiu o mesmo título (12.34; 23.33). Eles eram como víboras; embora de aparência enganosa, eram venenosos, e cheios de maldade e inimizade a tudo o que fosse bom; era uma raça de víboras, a semente e a descendência de outros que tinham tido o mesmo espírito; isto já nascia com eles. Eles se vangloriavam disso, de serem a descendência de Abraão; mas João Batista mostrou-lhes que eles eram a semente da serpente (compare Genesis 3.15); a semente do pai deles, o diabo (João 8.44). Constituíam um grupo mau, todos semelhantes; embora inimigos entre si, ainda se uniam em maldades. Observe que uma geração malvada é uma geração de Víboras, e eles precisavam saber disso; é necessário que os ministros de Cristo sejam ousados ao mostrar aos pecadores o verdadeiro caráter deles.

2.O alerta que João dá é o seguinte: “Quem vos ensinou a fugir da ira futura?” Isto dá a entender que eles estavam se arriscando à ira futura; e o caso deles era quase tão desesperado, e seus corações estavam tão endurecidos pelo pecado (os fariseus, pela sua exibição de religião, e os saduceus, pelos seus argumentos contra a religião), que era necessário algo muito próximo a um milagre para realizar alguma coisa que trouxesse esperança entre eles. “O que os traz aqui? Quem iria imaginar vê-los aqui? Que medo incutiram em vocês, para que vocês procurem o Reino dos céus?” Observe:

(1) Existe uma ira futura; além da ira presente, cujos pequenos frascos são derramados agora. Existe a ira futura, o que está acumulado para o futuro.

(2) É do maior interesse de cada um de nós fugir dessa ira.

(3) É pela misericórdia divina que nós somos advertidos claramente para fugir dessa ira. Pense: Quem nos advertiu? Deus nos advertiu, Ele que não se alegra com a nossa ruína. Ele nos adverte pela palavra escrita, pelos ministros, pela consciência.

(4) Estas advertências, às vezes, assustam aqueles que parecem ter estado muito endurecidos na sua segurança e boa opinião sobre si mesmos.

 

II – Aqui há uma mensagem de exortação e orientação (v. 8). “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento”. Portanto, como vocês foram advertidos a fugir da ira futura, deixem que o temor ao Senhor vos conduza a uma vida santa. Ou, portanto, como vocês professaram arrependimento, e ouviram a doutrina, e passaram pelo batismo do arrependimento, mostrem que são verdadeiros penitentes. O arrependimento nasce no coração. Ele está ali, como uma raiz; mas em vão fingiremos possuí-la, se não produzirmos os frutos dele, em urna transformação universal, abandonando todo o pecado e nos apegando ao que é bom. Estes são frutos dignos do arrependimento. Observe que aquele que afirma que lamenta os seus pecados, mas continua persistindo neles, não é digno de ser chamado de penitente, nem de ter os privilégios dos penitentes. Aquele que professa arrependimento, como o fazem todos os que são batizados, deve agir como um ser penitente e nunca fazer qualquer coisa imprópria a um pecador penitente. É conveniente que os penitentes sejam humildes aos seus próprios olhos, que sejam gratos à menor graça, pacientes sob as maiores dificuldades, que estejam alertas contra todas as manifestações do pecado e às suas investidas, que sejam abundantes no cumprimento de todos os seus deveres, e que sejam caridosos ao julgar os outros.

 

III – Aqui há uma mensagem de recomendação para que não confiem nos seus privilégios externos, pois esta atitude pode retardar estes chamados ao arrependimento (v. 9). “Não presumais de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão”. Observe que há muita coisa que os corações carnais são aptos a dizer a si mesmos, deixando de lado o poder persuasivo da Palavra de Deus (que é repleta de autoridade). Os ministros devem procurar prever estas atitudes, para que possam tratá-las no tempo certo; os pensamentos vãos que se alojam naqueles que são chamados a lavar os seus corações (Jeremias 4.14). “Não finjam, não sejam presunçosos, dizendo estas coisas dentro de si mesmos. Não pensem que isto poderá salvá-los; o refúgio não está na arrogância”. Alguns interpretam esta passagem da seguinte maneira: “Não sintam prazer dizendo isto; não se embalem para dormir com isto, nem se elogiem no paraíso de um tolo”. Observe que Deus percebe aquilo que nós dizemos dentro de nós, o que não ousamos proferir em voz alta, e conhece todos os falsos descansos da alma e as falácias com as quais ela se engana. Mas ela não os revelará, para que o engano não seja apontado. Muitos escondem a mentira que os destrói na sua mão direita, e a ocultam sob a língua, porque têm vergonha de possuí-la. Estas pessoas trabalham para satisfazer os interesses do diabo, sob a orientação do diabo. Agora, João lhes mostra:

1.Qual era a sua desculpa: “Temos por pai a Abraão”; nós não somos pecadores gentios; é adequado, realmente, que os gentios sejam chamados a arrepender-se, mas nós somos judeus, uma nação santa, um povo especial, o que representa isto para nós? Observe que a mensagem não traz nenhum benefício, se nós não a assumirmos corno dirigida e pertencente a nós. Portanto, não pensem que por serem filhos de Abraão:

(1) Vocês não precisam se arrepender; vocês não têm nada de que se arrepender. A sua relação com Abraão e o seu interesse no concerto feito com ele é o que os denomina de santos, a ponto de não haver oportunidade de que vocês mudem de ideia ou de rumo.

(2) Que vocês estão suficientemente bem, embora não se arrependam. Não pensem que isto irá evitar o seu julgamento e protegê-los da ir a futura. Que Deus irá tolerar a sua impenitência, porque vocês são a semente de Abraão. Observe que é presunção vã pensar que as nossas boas relações irão nos salvar, embora nós mesmos não sejamos bons. Embora sejamos descendentes de antepassados religiosos, tenhamos sido abençoados com uma educação religiosa, tenhamos uma família na qual o temor a Deus é absoluto e tenhamos bons amigos que nos aconselham e oram por nós, de que maneira tudo isto poderá nos beneficiar, se não nos arrependermos e vivermos uma vida de arrependimento? Nós temos Abraão como nosso pai, e, portanto, temos direito aos privilégios do concerto realizado com ele sendo sua semente, nós somos filhos da igreja, o templo do Senhor (Jeremias 7.4). Observe que muitos, repousando nas honras e nas vantagens da sua filiação visível à igreja, não conseguem alcançar o céu.

2.Como era tola e infundada esta desculpa; eles pensavam que, sendo semente de Abraão, eram o único povo que Deus tinha no mundo e, portanto, se eles fossem rejeitados, Deus não teria uma igreja; mas João lhes mostra a tolice desta arrogância: “Eu vos digo (não importa o que dizeis em si mesmos) que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”. Ele estava batizando no Jordão, em Betânia (João 1.28), o lugar da passagem, onde os filhos de Israel atravessaram o rio; e ali estavam as doze pedras, uma para cada tribo, que Josué erigiu como um memorial (Josué 4.20). Não é improvável que ele apontasse para estas pedras, que Deus poderia fazer com que fossem mais do que uma representação das doze tribos de Israel. Ou talvez ele estivesse se referindo a Isaías 51.1, onde Abraão é chamado de rocha da qual todos tinham sido cortados. Aquele Deus, que trouxe Isaque daquela rocha, pode, se necessário, fazer a mesma coisa em um outro contexto, pois para Ele nada é impossível. Alguns opinam que ele apontou para os soldados pagãos que estavam presentes, dizendo aos judeus que Deus iria erigir uma igreja para si mesmo em meio aos gentios, e conceder a bênção de Abraão sobre ela. Assim, quando os nossos primeiros pais caíram, Deus poderia tê-los deixado perecer, e das pedras teria criado outro Adão e outra Eva. Ou podemos interpretar da seguinte maneira: ”As próprias pedras serão consideradas semente de Abraão, em lugar de pecador es endurecidos, secos, e infrutíferos como vocês”. Observe que da mesma maneira como isto está diminuindo a confiança dos filhos de Sião, também está incentivando as esperanças dos filhos de Sião de que, aconteça o que acontecer com a geração atual, Deus nunca ficará sem um a igreja neste mundo; se os judeus forem arrancados, os gentios serão enxertados (cap. 21.43; Romanos 11.12 etc.).

 

 

IV – Existe uma mensagem de terror para os fariseus, os saduceus e outros judeus descuidados e seguros, que não conhecem os sinais dos tempos, nem o dia da sua visitação (v. 10). “Agora olhem à sua volta, agora que o Reino de Deus está prestes a se manifestar, a ponto de podermos senti-lo”.

1.”Como é rígido e curto o seu julgamento. ‘Agora, está posto o machado’ diante de vocês, está junto “à raiz das árvores, e agora vocês dependem do seu bom comportamento, e estarão assim por um curto período de tempo; agora vocês estão marcados para a ruína, e não podem evitar, a não ser por meio de um arrependimento rápido e sincero. Agora vocês precisam esperar que Deus faça com vocês um trabalho mais rápido, pelos seus julgamentos, do que fez antes, e isto terá início na casa de Deus. onde Deus dá mais meios, Ele concede menos tempo”. “Eis que venho sem demora”. Naquele momento, eles estavam diante do seu último julgamento: era agora ou nunca.

2.“Como será doloroso o seu destino, se vocês não melhorarem”. Então, vem a declaração – como machado junto à raiz – para mostrar que Deus é sincero na declaração de que toda árvore, ainda que alta em dons e honras, mas verde nas profissões de fé e nos desempenhos externos, se não der bons frutos – os frutos obtidos pelo arrependimento – será cortada, repudiada como um a árvore na vinha de Deus que é indigna de ter o seu espaço ali, e será lançada no fogo da ira de Deus, que é o melhor lugar para as árvores infrutíferas. Para que mais elas servem? Se não servem para dar frutos, servem como combustível. Provavelmente, isto se refere à destruição de Jerusalém pelos romanos, o que não foi, como o foram outros julgamentos, como o podar dos galhos ou o derrubar de uma árvore, deixando a raiz para brotar novamente, mas seria a extirpação completa final e irrevogável destas pessoas, na qual pereceriam todos os que continuassem impenitentes. Agora Deus traria o desfecho final, e a ira que cairia sobre eles seria completa.

 

V – Uma mensagem de orientação a respeito de Jesus Cristo, em quem toda a pregação de João Batista estava centrada. Os ministros de Cristo pregam, não a si mesmos, mas a Ele. Aqui temos:

1.A dignidade e a superioridade de Cristo acima de João. Veja de que maneira humilde ele fala de si mesmo para poder engrandecer a Cristo (v. 11): “Eu, em verdade, vos batizo com água”, e isto é o máximo que eu posso fazer. Observe que os sacramentos não obtêm a sua eficácia de quem o s administra; estas pessoas somente podem aplicar o sinal; é prerrogativa de Cristo dar significado às coisas (1 Coríntios 3.6; 2 Reis 4.31). “Mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu”. Embora João tivesse muito poder, pois ele veio no espírito e poder de Elias, Cristo tinha mais; embora João fosse verdadeiramente grande, grande aos olhos do Senhor (nenhuma pessoa nascida de uma mulher o superou), ainda assim ele se julga indigno de estar no mero lugar de auxiliar de Cristo: “Não sou digno de levar as suas sandálias”. Ele vê:

 (1) O quão poderoso Cristo é, em comparação consigo mesmo. Observe que é um grande consolo para os ministros fiéis pensar que Jesus Cristo é mais poderoso do que eles, que Ele pode fazer as coisas para eles, e por eles, o que eles não podem fazer; a sua força se aperfeiçoa na fraqueza dos ministros.

(2) Quão inferior ele é, em comparação com Cristo, sentindo-se indigno de levar as suas sandálias! Observe que aqueles que Deus honra são, por esta razão, muito humildes e inferiores aos seus próprios olhos; desejam ser humilhados para que Cristo possa ser enaltecido; desejam ser qualquer coisa, ou nada, para que Cristo possa ser tudo

2. O modo e a intenção da manifestação de Cristo, que eles agora deviam esperar. Quando foi profetizado que João seria enviado como o precursor de Cristo (Malaquias 3.1,2), imediatamente a seguir está escrito que “virá o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto… e assentar-se-á… e purificará” (v. 3). E depois da vinda de Elias, “aquele dia vem ardendo como forno” (Malaquias 4.1), que é ao que João Batista parece referir-se aqui. Cristo virá para fazer uma distinção:

(1) Pela obra poderosa da sua graça: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”. Observe:

[1] É prerrogativa de Cristo batizar com o Espírito Santo. Isto Ele fez concedendo os dons extraordinários do Espírito, desde os dias dos apóstolos, aos quais o próprio Cristo aplica estas palavras de João (Atos 1.5). Isto Ele faz na graça e no consolo do Espírito, concedendo-os àqueles que lhe pedem (Lucas 11.13; João 7.38,39; veja Atos 11.16).

[2] aqueles que são batizados com o Espírito Santo, são batizados como que com o fogo. Os sete espíritos de Deus aparecem como sete lâmpadas de fogo (Apocalipse 4.5). O fogo ilumina? Também o Espírito é um Espírito que ilumina. O fogo aquece? E os corações não queimam dentro deles? O fogo consome? E o Espírito de julgamento, como um Espírito que arde, não consome as impurezas das corrupções dos pecadores? O fogo torna tudo o que alcança semelhante a si? E se move para o alto? Também o Espírito torna a alma santa como Ele mesmo o é, e tende a se dirigir para o céu. Cristo diz: “Vim lançar fogo na terra” (Lucas 12.49).

(2) Pela determinação final do seu julgamento (v. 12): “Em sua mão tem a pá”. A sua capacidade de distinguir, pela sabedoria eterna do Pai, que vê tudo como verdadeiramente é, e a sua autoridade de distinguir, como a Pessoa à qual todos os julgamentos se submetem, é a pá que está na sua mão (Jeremias 15.7). Agora, Ele se assenta e purifica. Observe aqui:

 [l] A igreja visível é a eira de Cristo: ”Ah! Malhada minha, e trigo da minha eira!” (Isaias 21.10). O Templo, um tipo da igreja, foi construído sobre uma eira.

[2] Nesta eira, há uma mistura de trigo e palha. Os verdadeiros crentes são como o trigo, importantes, úteis e valiosos; os hipócritas são como a palha, leves e vazios, inúteis e sem valor, e levados pelos ventos; agora, eles estão misturados, os bons e os maus, sob a mesma profissão exterior de fé, e na mesma comunhão visível.

[3] Virá, porém, o dia em que a eira será purificada, e o trigo e a palha serão separados. Alguma coisa desse tipo sempre é feita neste mundo, quando Deus chama o seu povo da Babilônia (Apocalipse 18.4). Mas é o dia do Juízo Final que será o grande dia da colheita, da distinção, que de maneira inequívoca irá determinar o resultado das doutrinas, das obras (1 Coríntios 3.13), e das atitudes das pessoas (cap. 25.32,33). Os santos e os pecadores serão separados para sempre.

[4] O céu é o celeiro onde Jesus Cristo em breve irá reunir todo o seu trigo, e nem um grão sequer dele será perdido; Ele o reunirá como os frutos da colheita. A ceifadeira da morte será usada para reuni-los ao seu povo. No céu, os santos serão reunidos, e não mais ficarão espalhados; estarão seguros, e não mais expostos; separados dos vizinhos corruptos e dos desejos corruptos interiores, e não haverá mais palha entre eles. Eles não somente são reunidos no celeiro (cap. 13.30), mas no silo, onde são completamente purificados.

[5] O inferno é o fogo inextinguível, que irá queimar a palha, o que certamente será a punição eterna dos hipócritas e descrentes. Dessa forma, aqui estão a vida e a morte, o bem e o mal, dispostos diante de nós; de acordo com a maneira que estiverem no campo, estaremos então na eira.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Suicídio

SUICÍDIO

Suicídio: Um homicídio de si mesmo

Este artigo tende em vislumbrar o suicídio na sua dimensão social. Desse modo, portanto, preconizando acerca de suas informações basilares como: a etimologia da palavra, a epidemiologia, os motivadores e os métodos utilizados; ademais, as compreensões distintas por parte de teóricos, as contribuições do Sociólogo Émile Durkheim, ressaltando também os três tipos de suicídios por ele propostos, e a influência que o social exerce para o seu desencadeamen

1.INTRODUÇÃO

Percebe-se que a morte é um fenômeno inerente à existência de todas as espécies. No entanto, há contrastes em sua compreensão pelas culturas, isso, portanto, é nitidamente perceptível quando é suscitada pelo ato suicida: na cultura ocidental, por exemplo, a morte desencadeada pelo ato suicida é compreendida como uma denúncia de desordem psíquica e/ou social, sendo inclusive enclausurada pelos meios de comunicação em massa; na cultura oriental, entretanto, comumente, é compreendida como um fato normal e de decisão peculiar do indivíduo que se encontra à procura de algum propósito.

No tocante aos estudos sobre o suicídio, torna-se relevante salientar que o mesmo é analisado por exímios intelectuais. Portanto, ao aprofundar-se no tema deve-se ter cautela e discernimento, pois a magnitude de pressupostos que há ao seu respeito no acervo científico é congruente às considerações contraditórias, assim, não se atentando aos contrastes poder-se-á hesitar em compreendê-lo de maneira equivocada.

Seguindo a linha de raciocínio do sociólogo Émile Durkheim (1969 APUD ANGERAMI, 1986), ao proferir que “O suicídio é a trágica denúncia de uma crise coletiva”, este artigo enfoca em analisar o suicídio em sua dimensão social, pois é nítido que a sociedade, no limiar do século XXI, encontra-se submetida aos padrões impostos pelo sistema capitalista, tornando-se, portanto, uma máquina de consumo que funciona a todo o vapor. No entanto, não se restringindo senão em consumir bens materiais, mas também as relações sociais como afirma Bauman (2008) ao referir-se aos relacionamentos da contemporaneidade como “relações puras”, ou seja, relacionamentos efêmeros, sem amor e amizade desenvolvidos e regidos somente pela utilidade e pela satisfação.

Por último, é relevante ressaltar que para o desenvolvimento deste artigo fora necessário embasar-se em referenciais teóricos de exímios intelectuais que dedicam-se em analisar o suicídio; foram utilizadas pesquisas, apostilas e artigos científicos como base para o desenvolvimento dos temas; e que todos os textos utilizados foram elucidados na referência final como fonte de pretensas pesquisas pelo leitor.

2. SUICÍDIO

O suicídio, segundo Kovács (1992 APUD CAMUS), pode ser considerado o único problema filosófico verdadeiramente sério, isso, porque cogitar sobre a vida, se ela vale à pena ou não ser vivida, é de incumbência fundamental da filosofia.

Para alguns teóricos e exímios intelectuais, o ato suicida é compreendido como um homicídio, um homicídio de si mesmo, onde o indivíduo, então, exerce o papel de protagonista e o de produtor: é assassino e assassinado (MENNINGER, 1965 APUD KOVÁCS, 1992).

No tocante à compreensão do ato suicida, torna-se relevante salientar que determinados teóricos e intelectuais analisam-no sob prismas distintos: há os que o compreendem senão em uma dimensão individual, ou seja, concepção de que somente o indivíduo determina a sua morte; e há aqueles que o compreendem em uma dimensão social e individual, ou seja, concepção de que a sociedade é quem induz o indivíduo a suicidar-se. Desse modo, portanto, em uma dimensão restrita, individual, compreende-se o ato suicida como uma auto eliminação consciente, voluntária e intencional; em uma dimensão abrangente, social, compreende-se como um ato suscitado por processos autodestrutivos inconscientes, lentos e crônicos (LEVY, 1979 APUD KOVÁCS, 1992).

Em síntese, indiferente dos contrastes existentes em suas compreensões, o que se pode saber com exatidão acerca do suicídio é que este fenômeno é demasiado complexo para poder compreendê-lo e identificá-lo com precisão, pois não está categoricamente relacionado aos acontecimentos recentes, mas, pode, como comumente dados elucidam, estar relacionado a épocas passadas da vida do indivíduo (LEVY,1979 KOVÁCS,1992 apud).

2.1 ETIMOLOGIA DA PALAVRA SUICÍDIO

No acervo etimológico, a palavra suicídio apresenta distintos significantes. No entanto Levy (1979 APUD KOVÁCS, 1992), de maneira coesa e com fundamentação teórica, postula que a terminologia suicídio é oriunda da junção de duas palavras: sui e caedes. A primeira que significa si mesmo; a segunda que significa ação de matar. Tornando-se, portanto, ação de matar a si mesmo. É relevante ressaltar que a palavra suicídio foi inserida no dicionário da língua francesa no ano de 1778.

2.2 EPIDEMIOLOGIA

Na contemporaneidade, nos Estados Unidos, o suicídio é considerado a oitava causa global de morte ulterior às doenças cardíacas, cancerígenas, cerebrovasculares, pneumonia, influenza, diabete, relacionadas aos fatores pulmonares crônicos e aos acidentes. Além disso, indícios elucidam também que o homem comete quatro vezes mais o ato suicida em relação à mulher, porém o segundo tem, por sua vez, maior probabilidade de tentá-lo (KAPLAN & SADOCK, 2007).

Kastenbaum (1983 APUD Kovács, 1992) disponibiliza informações ainda mais precisas ao proferir que existem relações entre o ato suicida e a idade, pois indícios demonstram que a taxa de suicídio em indivíduos idosos é mais elevada: justifica-se devido aos acontecimentos extremamente desvitalizantes, ou seja, isolamento social, desemprego, aflições econômicas e perda de pessoas queridas; proferindo também que o índice de suicídio em homens é desencadeado devido ao maior nível de intolerância; que em países como, por exemplo, Hungria e Japão os suicídios são relacionados às práticas educativas e às repressões emocionais; e que a taxa de suicídio demonstra-se mais elevada em pessoas que vivem sozinhas.

No tocante ao Brasil, dados elucidam que a profissão mais vulnerável ao suicídio é a Medicina: justifica-se pelo fato de que esta é uma profissão na qual os profissionais trabalham sob pressão e por estarem mais próximos às drogas; que, em média, 5.000 adolescentes suicidam-se no país por ano, afirmando que o suicídio em jovens é desencadeado devido às suas famílias nucleares: justifica-se porque apresentam maior nível de separação entre os pais, alcoolismo, envolvimento com ocorrências policiais e a justiça, fatores relacionados à susceptibilidade, rejeições e uma menor capacidade de suportar as frustrações (CARSSOLA, 1984 APUD KOVÁCS, 1992).

3.MOTIVADORES E MÉTODOS UTILIZADOS

Segundo Kaplan e Sadock (2007), o ato suicida pode ser motivado por distintos fatores como, por exemplo, pela ocupação e profissão do indivíduo; pela condição socioeconômica; pela idade, como salientado anteriormente na epidemiologia; pela raça; e pelo uso de drogas. Além do mais, o ato suicida pode ser desencadeado devido à pertença aos subgrupos minoritários, pois são vulneráveis às situações de tensão; e pelo estado civil, pessoas solteiras são mais vulneráveis (KALINA E KAVADLOFF, 1983 APUD KOVÁCS, 1992).

Por conseguinte, segundo Angerami (1986), os indivíduos que tentam o ato suicida não categoricamente anseiam em desaparecerem, ou definitivamente morrerem, mas, sim, procuram por algo além como, por exemplo, o paraíso e a reencarnação. Ademais, complementa proferindo que, comumente, pacientes revelam em seus discursos que tentaram suicidarem-se porque buscavam muito mais do que morrerem, mas por ser a única alternativa cabível que acharam para as suas vidas, tornando nítido que a busca ao suicídio é a tentativa de solucionar determinados conflitos existências. Desse modo, portanto, conclui que a morte surge como sequência e não como uma busca deliberada, assim, torna-se extremamente difícil identificar se os indivíduos ao tentarem suicidarem-se buscam realmente à morte.

No tocante aos métodos utilizados. Kaplan e Sadock (2007) postulam que entre os indivíduos do gênero masculino e feminino existem algumas distinções em relação ao método utilizado ao ato suicida: os homens, comumente, realizam o ato suicida utilizando métodos mais agressivos como, por exemplo, armas de fogo, enforcamentos e/ou saltos livres de lugares íngremes; as mulheres, comumente, utilizam métodos menos agressivos, não que os sejam, como, por exemplo, hiperdosagem de substâncias psicoativas e/ou veneno. Torna-se relevante salientar que a utilização de armas de fogo como método ao ato suicida em indivíduos do gênero feminino vem aumentando significativamente.

4. CONTRIBUIÇÕES DO SOCIÓLOGO ÉMILE DURKHEIM (1858 – 1917)

Nascido em Épinal no ano de 1858, especificamente no dia 15 de abril. Para Émile Durkheim, a sociedade é como um corpo biológico, desse modo, deve ser analisado de maneira perspicaz para que depois se possa analisar a sua anatomia e descobrir as causas e as curas de suas doenças (DURKHEIM APUD MEKSENAS).

O exímio sociólogo foi quem primeiramente compreendeu o suicídio de maneira sistêmica, abordando questões que em épocas vindouras seriam nomeadas de interacionais, postulando ser um ato desencadeado e relacionado às crises no contexto social. Nessa linha de raciocínio, chegou à conclusão de que o indivíduo e a sociedade formam um binômio indivisível, tornando-se, portanto, um macro nesta temática (DURKHEIM, 1969 APUD ANGERAMI, 1986). Ademais, é considerado um dos pais da Sociologia, tendo sido fundador da escola francesa, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica. Sendo relevante ressaltar também que é considerado, na contemporaneidade, um dos mais proeminentes teóricos do conceito da coesão social.

Segundo Durkheim (1971 APUD KOVÁCS, 1992), em uma de suas obras (O suicídio, 1897), o suicídio é um ato influenciado pelo social e a cultura, nessa perspectiva, portanto, categoriza-o em três tipos. São eles:

  • Suicídio egoísta: este tipo de suicídio refere-se à vontade pessoal do indivíduo e é resultado de uma individualização exacerbada. É suscitado devido à falta de laços firmes a algum tipo de grupo social. Sendo relevante ressaltar que pode ser mitigado, ou menos ocorrente, em sociedades interacionistas onde há mais vínculos afetivos.

O ato neste tipo de suicídio é justificado pelos indivíduos por estarem inseridos em uma sociedade ativista e, portanto, sentem-se desesperados, sem razões significantes para continuarem a viverem e a única solução plausível que consideram é dar fim à vida (DURKHEIM, 1971 APUD KOVÁCS, 1992);

  • Suicídio altruísta: este tipo de suicídio refere-se à intensa integração do indivíduo em grupos sociais. Motivos externos como a desonra podem levar à condenação. É, portanto, perceptível o suicídio altruísta em formas de ritos martírios e sacrifícios.
    Como exemplificação tem-se kamikazes japoneses, os mulçumanos e casos no exército, devido à intensa disciplina (DURKHEIM, 1971 APUD KOVÁCS, 1992).

É importante ressaltar que as taxas deste tipo de suicídio são mais elevadas em países ricos, pois os pobres conseguem lidar melhor com as situações (CABRAL, 2013);

  • Suicídio anômico: este tipo de suicídio refere-se à situação anomia social, ou seja, quando à sociedade está desprovida de regras, assim, gerando intensa frustração se a normalidade anterior não for mantida.

Como exemplificação deste tipo de suicídio tem-se, por exemplo, as crises econômicas, onde há um desajustamento integral das regras normais da sociedade, então, determinados indivíduos ficam em condições inferiores a que ocupavam anteriormente (CABRAL, 2013).

Ademais, seguindo a linha de raciocínio de que o ato suicida é induzido pelo social e a cultura, Durkheim atem-se em compreender qual era a visão e as influências que as religiões exerciam para tal. Desse modo, portanto, será contextualizado, a seguir, para a melhor compreensão.

(Pessini, 1999; Bathia, 2002 APUD Moreira e Lotufo, 2004) As religiões, comumente, repudiam e castigam de maneira veemente a interrupção da vida. Objetivam em considerá-la como um sagrado dom de Deus que, por sua vez, o homem não desfruta de nenhum direito de interrompê-la voluntariamente.

Os autores complementam proferindo que as religiões como, por exemplo, o Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo e o Hinduísmo mesmo com algumas considerações variadas são contra o ato suicida. Portanto, torna-se relevante ressaltar também que até mesmo o Budismo não ruminando acerca da existência de Deus repudia veemente o ato suicida.

O sociólogo Francês Émile Durkheim fora muito perspicaz quanto ao estudo das relações entre o suicídio e as religiões. Comparando as taxas de suicídio em distintos países, considerando primordialmente a religião predominante em cada um deles. Os resultados denunciaram que, em média, há uma probabilidade de 50% a mais de ocorrência do ato suicida em países onde a religião predominante é a do protestantismo do que em países que professam as doutrinas do catolicismo (DURKHEIM, 1966 APUD MOREIRA E LOTUFO, 2004).

Mesmo que as Religiões, comumente, repudiem o ato suicida, é pernicioso analisar a taxa de suicídio avaliando somente pelo viés religioso, pois os indivíduos podem afirmar que professam os dogmas de alguma determinada religião, porém não ser legítima a afirmação. Portanto, existem métodos de avaliar o nível de religiosidade do indivíduo como, por exemplo, analisando a frequência das atividades de seu grupo de pertença religioso (KOENIG, 2000 APUD MOREIRA E LOTUFO, 2004).

As denominações Religiosas, por sua vez, contribuem para que o ato suicida não seja realizado, pois fazem com que os indivíduos se interajam constantemente, sentindo-os importantes. Funcionam como uma rede de apoio (Moreira e Lotufo, 2004). Nesta perspectiva, portanto, o sociólogo Durkheim salienta que as crenças e as práticas são as dimensões integradoras das religiões. Quanto mais numerosas e fortes forem elas, maior será a integração das pessoas à vida do grupo e menor será a probabilidade de suicídio. A participação do indivíduo no grupo dá à vida maior sentido, provê significado através da devoção aos outros, fornece uma ideologia, distraindo as pessoas de problemas pessoais que poderiam, em outras circunstâncias, liberar tendências suicidas (DURKHEIM,1966 APUD MOREIRA E LOTUFO, 2004). Concluindo-se, portanto, que as religiões são um significante fator mitigador dos atos suicidas.

5.A INFLUÊNCIA DO SOCIAL

Percebe-se que na contemporaneidade o homem moderno do Ocidente compreende o suicídio como um comportamento que denuncia algum acontecimento, pormenor uma insatisfação, do contexto onde está inserido, sendo considerado a sua ação de maneira mais autônoma. Entretanto, em épocas antecedentes o suicídio era compreendido e até repudiado pelas culturas (KALINA E KOVADLOFF, 1983 APUD KOVÁCS, 1992).

Desse modo, portanto, complementa Kalina e Kovadloff (1983 APUD ANGERAMI, 1986) proferindo que em sociedades antigas as comunidades preocupavam-se mais com o comportamento individual dos cidadãos, entretanto em sociedades contemporâneas é perceptível que a preocupação ao regimento coletivo é eminente. Os indivíduos são obrigados a seguirem os padrões impostos, restando-lhes apenas duas saídas. São elas:

  • O suicídio coletivo: que é socialmente legitimado, onde enquadra vícios alienações e submissão ideológica;
  • O suicídio pessoal: que refere-se às questões extremistas políticos, que encontram-se inflamados na modernidade.

Ademais, o autor complementa preconizando que na sociedade moderna, muitos comportamentos, e não somente os suicídios, estão assumindo caráter de normalidade. O homem moderno está acompanhando as tendências destrutivas. Portanto o suicídio é um fenômeno que não deve ser analisado e compreendido de maneira individual, pois desqualifica as possibilidades de compreensão da realidade. Por conseguinte, presume-se que em uma época onde já efetivou-se a legitimação cultural das condutas autodestrutivas, a função da sociedade é guiar os indivíduos a estas condutas de maneira sutil e astuta, pois ao adaptarem-se, irão obedecer, obedecendo-a nada será alterado senão a favor dos interesses do poder político e econômico. No entanto o processo de guia aos indivíduos, comumente, comete falhas e estes suicidam-se e fracassam as expectativas da sociedade.

Por fim, mesmo que o suicídio seja analisado senão como um ato individual, apresentando comportamentos de isolamento do contexto social e baixa autoestima, percebe-se que a sociedade contribui significativamente para o seu desencadeamento. Não somente do suicídio, mas também de outras patologias e a despersonificação dos indivíduos (KALINA E KOVADLOFF, 1983 APUD ANGERAMI, 1986).

6. A INCLUSÃO

Infelizmente, em relação à cultura oriental, as pessoas da cultura ocidental têm uma concepção simplória acerca dos fenômenos. Isso, portanto, torna-se nítido como, por exemplo, quando se refere à morte, e ainda mais quando é suscitada pelo ato suicida: a cultura oriental realiza o suicídio e o compreende como uma maneira de honrar ou buscar a um determinado propósito; a cultura ocidental, entretanto, o compreende como uma denúncia ou uma insatisfação do meio onde o indivíduo está inserido. Desse modo, portanto, percebe-se que preconizar acerca do suicídio é uma tarefa árdua, pois o campo de estudo é abrangente e ao mesmo tempo prenhe de contrastes.

Devido à realidade da sociedade onde coabitamos, não se poderia sucumbir à concepção que analisa e considera o suicídio senão como uma ação individual. Isso, porque as relações íntimas estão cada vez menos duradouras, ou pelo menos as que necessitam de afeto e atenção. Sendo assim, presume-se que o suicídio seja uma denúncia dessa realidade que a cada dia, de maneira silenciosa, abarca as relações.

Enfim, é perceptível que este artigo não se desempenhou em abordar determinadas questões, que talvez sejam de primordial instância, mas fora realizado de maneira atenciosa para elucidar que o ser humano não deve ser compreendido somente em uma concepção individual, sendo assim, deve-se compreendê-lo conforme sua realidade, época, cultura e sociedade onde esteja inserido.
Devemos atentarmo-nos à realidade, pois talvez seja ela a única que nos revela, mesmo que seja de maneira abrupta, qual o caminho estamos trilhando na história.

REFERÊNCIAS

ARGERAMI, Valdemar Augusto. Suicídio: uma alternativa à vida, uma visão clínica existencial. – São Paulo: Traço Ed.: 1986.
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias; tradução: Carlos Alberto Medeiros. –Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: 2008.
CABRAL, João Francisco P. Sobre o suicídio na sociologia de Émile Durkheim. Colaborador Brasil Escola, Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU, Mestrado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. 2013.
KAPLAN & SADOCK. Compêndio de Psiquiatria Ciência do comportamento e psiquiatria clínica.: Tradução: Claudia Dornelles … [et al.]. –Porto Alegre: Artmed, 2007.
KOVÁCS, Maria Júlia. Morte e desenvolvimento humano. – São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
MEKSENAS, Paulo. Aprendendo sociologia: A paixão de conhecer a vida. – Edições Loyola 6° edição.
MOREIRA, AM; LOTUFO, FN. Religião e Comportamento suicida. 2004.

Jonathas Rafael*

Aluno do Curso de graduação em Psicologia da Instituição FACED – Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Divinópolis.

GESTÃO E CARREIRA

Preparando os jovens

PREPARANDO OS JOVENS

Projeto ensina os alunos apensar em uma carreira sem uma fronteira de espaço, tempo ou formação.

Vivemos o que os especialistas chamam de mundo Vuca, sigla para as palavras, em inglês, volátil, incerto, complexo e ambíguo. Corporações e pessoas são cada vez mais pressionadas por maior produtividade e menor custo, e são constantemente ameaçadas por novas concorrentes e tecnologias, que podem pôr fim a negócios e empregos que até então eram considerados estáveis. Nesse cenário, como preparar quem está entrando no mercado de trabalho? É esse o desafio que Tania Casado, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), quer resolver no Escritório de Desenvolvimento de Carreiras, inaugurado em março. A seguir, Tania explica como funciona o projeto.

Por que o Escritório de Carreiras foi criado?

Baseamo-nos no conceito de que a carreira depende do indivíduo. Nessa linha, quanto mais autoconhecimento tiver, mais o jovem saberá o que é melhor para si. Fazemos essa reflexão pensando que as trilhas profissionais mudaram e a formação é só o ponto de partida. A gente precisa pensar em alternativas. O pessoal mais jovem terá desde já de começar sua trajetória sabendo se reinventar. Pensando nisso, eu dei a ideia para o pró-reitor de graduação, o professor Antônio Carlos Hernandes. Disse que era um absurdo a Universidade de São Paulo não ter uma área com tal propósito. Na USP, cada unidade tem sua seção de estágios, que faz a ponte entre as empresas e os alunos. Mas o Escritório é um espaço para a reflexão do jovem – sobre as suas potencialidades e as suas possibilidades de encaminhamento profissional.

Como funciona o Escritório?

Falamos no Escritório sobre o modelo conceitual de carreiras sem fronteiras, ou seja: pensar no caminho fora de qualquer restrição, sem fronteira de espaço, de tempo ou, inclusive, de formação. O modelo teórico que usamos para resolver essas carreiras sem fronteiras é a “carreira inteligente”. É uma concepção do teórico Michael Arthur, professor da Boston University e também coordenador do curso de carreiras pela Fundação Instituto de Ad- ministração (FIA-USP), baseada em três pilares. O primeiro seria o knowing-how, de saber como trabalhamos. Essa é a bagagem de conhecimento. A universidade fornece isso, mas o conhecimento sozinho não resolve. Vem então o segundo pilar, do knowing-why, por que trabalhamos. Aí entra o autoconhecimento: pensar sobre seus valores, motivações e o que é importante para você. Essa é uma das partes que o Escritório quer prover. O terceiro ponto se- ria o knowing-whom, que é sua rede de contatos: com quem você trabalha e com quem aprende. Para conseguir trafegar hoje pelo mercado, você precisa trabalhar esses três conceitos. E é isso o que o Escritório irá ensinar.

Como esses conceitos são repassados aos alunos?

Fazemos orientações individuais. Temos 31 alunos no Escritório, sendo 30 do último ano de graduação e um de pós-graduação da FEA, de cursos como administração, contabilidade, economia e até veterinária, química e engenharia. Eles são orientados por ex-alunos da FEA ou da FIA que atuam como voluntários e oferecem em média de seis a oito sessões de coaching. Também fazemos atividades coletivas nas Oficinas de Carreiras, que podem durar de quatro a oito horas. Eu supervisiono esses voluntários, que estão divididos em subgrupos: um prepara o material didático, outro cuida de palestras específicas, outro faz as oficinas, e outro grupo realiza o planejamento estratégico do Escritório.

Quem são os voluntários e como funciona seu trabalho?

São ex-alunos da FEA, que fizeram mestrado ou doutorado comigo na área de carreira, ou ex-alunos da FIA. Quando falei que iria abrir o Escritório, fiz um primeiro convite pedindo voluntários e 26 profissionais aceitaram. Eles trabalham de graça, mas ganham conhecimento e continuam seu processo de aprendizagem. Depois dessa primeira chamada, recebi solicitações espontâneas de gente que eu não conhecia. De todas as partes da universidade, comecei a ouvir colegas dizendo: “Nós temos um problema em comum, vamos nos ajudar”. Hoje, temos 30 voluntários.

Esse é o primeiro Escritório de Carreiras da América Latina?

No Sul, há uma iniciativa semelhante, antiga, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Mas somos os pioneiros por conta do alcance. Nosso público-alvo, os 60 000 alunos de graduação da USP. Na 1ª Oficina de Carreiras, que realizamos em abril, participaram 84 alunos, de 46 cursos diferentes. Inspiramo-nos em iniciativas que existem no exterior, especialmente em três: no escritório da Sloan School of Management, da Escola de Negócios do MIT; nos da Harvard, tanto dos cursos de direito, literatura e psicologia quanto dos de negócios, da Harvard Business School; e também no escritório da Universidade de Boston. Uma vez por ano, levo meus alunos para os Estados Unidos e visitamos essas universidades.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 3: 1-6

João Batista

Aqui temos um relato da pregação e do batismo de João, que foram o amanhecer do dia do Evangelho. Observe:

I – A ocasião em que ele apareceu. “Naqueles dias” (v. 1), ou depois daqueles dias, muito tempo depois do que foi registrado no capítulo anterior, que deixou o menino Jesus na sua infância. “Naqueles dias”, na ocasião indicada pelo Pai para o início do Evangelho, quando a plenitude dos tempos era chegada, um período que era frequentemente mencionado dessa maneira no Antigo Testamento. Naqueles dias. Agora, tinha se iniciado a última das semanas de Daniel, ou melhor, a última metade da semana, quando o Messias iria confirmar o concerto com muitos (Daniel 9.27). As manifestações de Cristo ocorrem todas no seu devido tempo. Coisas gloriosas tinham sido ditas, tanto sobre João Batista como sobre Jesus, por ocasião dos seus nascimentos, e antes deles, o que teria dado oportunidade para se esperar algumas extraordinárias manifestações da presença e do poder divino com eles, quando eram ainda muito jovens; mas as coisas aconteceram de maneira muito diferente. Com exceção do debate entre Cristo e os doutores, quando tinha doze anos de idade, nada parece notável a respeito de nenhum deles, até completarem aproximadamente trinta anos. Nada é registrado sobre a infância e a juventude deles, mas a maior parte das suas vidas é envolta em trevas e obscuridade: estas crianças pouco diferem, na sua aparência, de outras crianças, da mesma maneira como o herdeiro, enquanto ainda é pequeno, não é nada diferente de um servo, embora ele seja senhor de tudo. E isto queria dizer que:

1.Mesmo quando Deus está agindo como o Deus de Israel, o Salvador, Ele é verdadeiramente um Deus que se oculta (Isaias 45.15). “O Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Genesis 28.16). “O meu amado… está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas” (Cantares 2.9).

2.A nossa fé deve principalmente ter Cristo em vista, o seu ministério e as suas obras, pois existe uma demonstração do seu poder; mas na sua pessoa está o esconderijo do seu poder. Todo o tempo, Cristo foi Deus-homem; mas nós não sabemos o que Ele fez ou disse, até Ele aparecer como um profeta, e então o ouvimos.

3.Os jovens, embora bastante qualificados, não devem se sentir entusiasmados a se apresentar no ministério público, mas devem ser humildes e modestos, rápidos para ouvir e lentos para falar. Mateus não nos fala nada sobre a concepção e o nascimento de João Batista, que é relatada com detalhes por Lucas. Mateus encontra João Batista já adulto, como se tivesse caído das nuvens para pregar no deserto. Pois durante mais de trezentos anos Israel ficou sem profetas; aquelas luzes havia muito tempo se apagaram, para que ele pudesse ser o mais desejado, aquele que seria o maior profeta. Depois de Malaquias não houve profeta, nem algum pretendente ao cargo, até João Batista, a quem, portanto, o profeta Malaquias aponta mais diretamente do que qualquer dos profetas do Antigo Testamento tinha feito (Malaquias 3.1): “Eis que eu envio o meu anjo”.

 

II – O lugar onde Ele se manifestou pela primeira vez: “No deserto da Judéia”. Não se tratava de um deserto inabitado, mas de uma parte do país não tão povoada, nem tão próxima a campos e a vinhedos, como eram outras partes; era um deserto que continha seis cidades e suas aldeias, com seus nomes (Josué 15.61,62). Nessas cidades e aldeias, João pregou, pois naquelas redondezas ele tinha vivido até então, tendo nascido em Hebrom; as cenas da sua atividade têm início ali, onde ele tinha passado muito tempo em contemplação, e mesmo quando se apresentou a Israel, ele mostrou o quanto gostava do isolamento, até o ponto em que isto estivesse de acordo com o seu ministério. A palavra do Senhor encontrou João ali, em um deserto. Observe que nenhum lugar é tão remoto a ponto de nos impossibilitar as visitas da graça divina; não, normalmente a relação mais doce que os santos têm com o Céu acontece quando eles se afastam dos ruídos deste mundo. Foi nesse deserto de Judá que Davi escreveu o Salmo 63, que tanto fala da doce comunhão que ele tinha com Deus (0seias 2.14). Foi num deserto que a lei foi entregue ao povo; e assim como o do Antigo Testamento, também o Israel do Novo Testamento foi fundado primeiramente no deserto, e ali Deus o orientou e instruiu (Deuteronômio 32.10). João Batista era um sacerdote da ordem de Arão, mas nós o encontramos pregando em um deserto, e nunca servindo no Templo; porém Cristo, que não era um filho de Arão, é frequentemente encontrado no templo, e sentado ali como uma pessoa de autoridade; assim foi predito (Malaquias 3.1): “Virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais”, e não o mensageiro que devia preparar o seu caminho. Isto sugere que o sacerdócio de Cristo devia substituir o de Arão, e conduzi-lo ao deserto.

O início do Evangelho em um deserto traz consolo aos desertos do mundo gentio. Agora as profecias devem ser cumpridas: “Plantarei no deserto o cedro” (Isaias 41.18,19). “O deserto se tornará em campo fértil” (Isaias 32.15). “O deserto e os lugares secos se alegrarão com isso” (Isaias 35.1,2). A Septuaginta fala dos “desertos do Jordão”, o mesmo deserto onde João pregava. Na igreja romana, existem aqueles que se denominam eremitas, e fingem seguir a Jesus, mas “se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais” (cap. 24.26). Havia “aquele… que fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil” (Atos 21.3 8).

III – A sua pregação. Este foi o seu trabalho. Ele não veio lutando, nem disputando, mas pregando (v. 1). Pois por meio da aparente insensatez é que o reino de Cristo deve ser estabelecido.

1.A doutrina que ele pregava era a do arrependimento (v. 2): ”Arrependei-vos”. Ele pregava isto na Judeia, entre aqueles que eram chamados de judeus, e fez uma declaração de fé, pois até mesmo eles precisavam de arrependimento. Ele pregava o arrependimento, não em Jerusalém, mas no deserto da Judéia, entre as pessoas simples; pois mesmo aqueles que se julgam livres da tentação, e, portanto, das vaidades e dos vícios da cidade, não podem lavar as suas mãos na inocência, mas devem fazê-lo em arrependimento. O trabalho de João Batista era chamar os homens para que se arrependessem dos seus pecados: “Admitam uma segunda ideia, para corrigir os erros da primeira, como uma reflexão posterior. Ponderem sobre os seus métodos, mudem o modo de pensar; vocês pensaram de maneira errada; pensem novamente, e pensem certo”. Observe que os verdadeiros penitentes têm outros pensamentos sobre Deus e Cristo, sobre o pecado e a santidade, e sobre este mundo e o outro, pensamentos que são diferentes dos que tinham antes, e são influenciados por eles. A mudança de modo de pensar produz uma mudança de caminho. Aqueles que realmente lamentam o que fizeram mal, terão o cuidado de não fazê-lo novamente. Este arrependimento é uma obrigação necessária, em obediência ao mandamento de Deus (Atos 17.30); e uma preparação e qualificação necessárias para os consolos do Evangelho de Cristo. Se o coração do homem tivesse continuado justo e incólume, as consolações divinas poderiam ter sido recebidas sem esta dolorosa operação anterior; mas, como o coração era pecaminoso, ele primeiramente precisava sofrer aflições antes de poder ter tranquilidade, precisava trabalhar antes de poder descansar. A dor deve ser procurada, caso contrário, não poderá ser curada. “Eu firo e eu saro”.

2.O argumento que ele usava para reforçar o seu chamado era: “porque é chegado o Reino dos céus”. Os profetas do Antigo Testamento chamavam as pessoas ao arrependimento, para obter e garantir as misericórdias temporais sobre a nação, e para evitar e remover o julgamento temporal sobre a nação. Mas agora, embora o dever recomendado seja o mesmo, o motivo é novo, e puramente evangélico. Agora os homens são considerados na sua capacidade pessoal, e não tanto como naquela época, de uma maneira social e política. Arrependam-se agora, “pois é chegado o Reino dos céus”: a revelação que o Evangelho faz do concerto da graça, da abertura do Reino dos céus a todos os crentes, pela morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ê um reino no qual Cristo é o Soberano, e nós devemos ser os súditos leais e dispostos deste reino. Ê um reino dos céus, e não deste mundo, um reino espiritual; a sua origem é o céu, o seu destino é o céu. João pregava que este reino era chegado; naquele tempo, estava à porta; para nós, já chegou, pelo derramamento do Espírito e pela plena exposição das riquezas do Evangelho da graça. Assim sendo:

(1) Este é um grande incentivo para que nós nos arrependamos. Não há nada como a consideração da divina graça para partir o coração, tanto por meio do pecado como por causa dele. Isto é o arrependimento evangélico, que flui a partir de uma visão de Cristo, de uma sensação do seu amor, e das esperanças de perdão por meio dele. A bondade é conquistar; a bondade ofendida ou maltratada traz a humilhação e a comoção. Que infeliz eu era, por pecar contra tal graça, contra a lei e o amor de um reino como este!

(2) É um grande incentivo para nos arrependermos. “Arrependam-se, pois os seus pecados serão perdoados depois do seu arrependimento. Voltem-se a Deus em obediência, e Ele, por meio de Cristo, trará cada um de vocês ao caminho da misericórdia”. A proclamação do perdão descobre e atrai o malfeitor que antes fugia e se esquivava. Dessa maneira, somos atraídos com as cordas do homem e com os laços de amor.

 

IV – A profecia que se cumpriu nele (v. 3). Era dele que se falava no início daquela passagem da profecia de Isaías, que é principalmente evangélica, e que aponta para a época e a graça do Evangelho (veja Isaias,4). Aqui, se fala de João Batista como:

1.A voz daquele que clama no deserto. João era esta voz (João 1.23): “Eu sou a voz do que clama no deserto”, e isto é tudo, Deus é quem fala, quem dá a conhecer o que está em sua mente por meio de João, assim como um homem o faz com a sua própria voz. A palavra de Deus deve ser recebida como tal (1 Tessalonicenses 2.13); o que é Paulo, e o que é Apolo, a não ser a voz! João é chamado de “a voz” daquele que está gritando, que está assustando e despertando. Cristo é chamado de “a Palavra”, que, sendo distinta e eloquente, é mais instrutiva. João, sendo a voz, despertava os homens, e então Cristo, sendo a Palavra, os ensinava. Como vemos em Apocalipse 14 .2,3: ”A voz de muitas águas e como a voz de um grande trovão; e uma voz de harpistas, que tocavam com a sua harpa. E cantavam um como cântico novo”. Alguns observam que, embora a mãe de Sansão não devesse beber nada forte, ainda assim ele foi designado para ser um homem forte; da mesma maneira, o pai de João Batista ficou mudo, e João Batista foi designado para ser a voz do que clama. Quando a voz do que clama é gerada por um pai mudo, isto mostra a excelência do poder de Deus, e não dos homens.

2.Como alguém cujo trabalho era preparar o caminho do Senhor, e endireitar as veredas para Ele; isto foi dito dele antes de seu nascimento, que ele deixaria um povo preparado para o Senhor (Lucas 1.17), trabalhando como o arauto e o precursor de Cristo. Ele era alguém íntimo com a natureza do reino de Cristo, pois ele não veio com as roupas ostentosas de um arauto em armadura, mas com a roupa simples de um eremita. Soldados eram enviados à frente dos grandes homens, para limpar a passagem; assim, João Batista preparou o caminho do Senhor.

(1) Ele fez isto pessoalmente entre os homens daquela geração. Na nação judaica, naquela época, tudo estava seguindo um rumo errado; havia uma enorme falta de religiosidade, os órgãos vitais da religião estavam corrompidos e eram devorados pelas tradições e imposições dos anciãos. Os escribas e os fariseus, isto é, os maiores hipócritas do mundo, tinham as chaves do conhecimento e a chave do governo no seu cinturão. Em geral, as pessoas eram extremamente orgulhosas dos seus privilégios, confiantes da sua justificação pela sua própria justiça, insensíveis ao pecado; e, embora agora sob as mais humildes circunstâncias, tendo sido transformados em uma província do Império Romano, ainda assim não eram humildes; eles tinham o mesmo temperamento que tinham na época de Malaquias, eram insolentes e arrogantes e estavam sempre prontos para contradizer a Palavra de Deus; assim, João foi enviado para nivelar estas montanhas, para derrubar a alta opinião que eles tinham de si mesmos, e para mostrar a eles os seus pecados, para que a doutrina de Cristo pudesse ser mais aceitável e eficaz.

(2) A sua doutrina de arrependimento e humilhação é ainda tão necessária quanto era naquela ocasião, para preparar o caminho do Senhor. Observe, há muita coisa a ser feita para abrir caminho para Cristo em uma alma, para curvar o coração para a recepção do Filho de Davi (2 Samuel 19.14); e nada é mais necessário, para isto, que a descoberta do pecado, e uma convicção da insuficiência da sua própria justiça. O que não convém permanecerá, até que seja tirado do caminho. Os preconceitos precisam ser removidos; a atitude de pensar em si mesmo com excessiva importância precisa ser rompida, e assim os pensamentos serão levados cativos à obediência de Cristo. Portões de bronze precisam ser rompidos, e barras de ferro precisam ser separadas, antes que as portas eternas se abram para que o Rei da glória possa entrar. O caminho do pecado e de Satanás é um caminho deformado; para preparar um caminho para Cristo, as veredas precisam ser endireitadas (Hebreus 12 .13).

 

V – A roupa com a qual ele aparecia, a sua imagem, e o seu modo de vida (v. 4). Os judeus, que esperavam o Messias como um príncipe temporal, pensavam que o seu precursor viria com grande pompa e esplendor, que os seus acompanhantes seriam impressionantes e joviais; mas foi exatamente o contrário. Ele será grande aos olhos do Senhor, mas insignificante aos olhos do mundo; e, como o próprio Cristo, sem aparência ou formosura; para declarar em breve que a glória do reino de Cristo deveria ser espiritual. Os súditos deste reino seriam comumente pobres e desprezados (em sua condição natural, ou teriam se tornado assim por causa do reino). Eles obtêm as suas honras, os seus prazeres, e as suas riquezas de um outro mundo.

1.As suas roupas eram simples. Este mesmo João tinha a sua roupa feita de pelos de camelo, e um cinto de couro ao redor de seus lombos; ele não se vestia com roupas compridas, como os escribas, nem macias, corno os fariseus, mas com as roupas de um homem do campo; pois ele vivia no campo, e adaptava os seus hábitos ao lugar onde morava. Observe que é bom que nos acomodemos ao lugar e às condições nos quais Deus, na sua providência, nos colocou. João apareceu com estas roupas:

(1) Para mostrar que, como Jacó, ele era um homem simples, mortificado para este mundo, para os prazeres e as satisfações que este propiciava. Vejam um verdadeiro israelita! Aqueles que são humildes de coração o mostram com uma negligência e uma indiferença santas na sua aparência; e não vestem roupas que os enfeitem, nem avaliam os demais pelas suas vestes.

(2) Para mostrar que ele era um profeta, pois os profetas usavam roupas ásperas, como homens mortificados (Zacarias 13.4) ; e, especialmente, para mostrar que ele era o Elias prometido; pois observações especiais são feitas sobre Elias, de que ele era um homem vestido de pelos (alguns julgam que isto se refere às roupas de pelos que ele usava) e com os lombos cingidos de um cinto de couro (2 Reis 1.8). João Batista em nada parece inferior a ele, em sua mortificação; portanto, este era aquele Elias que havia de vir.

(3) Para mostrar que ele era um homem determinado; seu cinto não era elegante, como os que se usavam na época, mas era resistente, era um cinto de couro; e bem-aventurado é este servo, pois o seu Senhor, quando vier, encontrará cingidos os seus lombos (Lucas 12.35; 1 Pedro 1.13).

2.A sua dieta era simples; a sua refeição consistia de gafanhotos e mel silvestre; não como se ele nunca comesse qualquer outra coisa; mas isto era o que ele comia frequentemente, e assim fazia muitas refeições, quando se retirava para lugares solitários, e continuava ali por muito tempo, para meditar. Os gafanhotos eram um tipo de inseto voador, muito bom como alimento, e permitido, por ser puro (Levíticos 11.22); eles não precisavam de muito tempero, e eram de digestão leve e fácil. Por isto, quando se fala das enfermidades e da velhice (com a sua consequente falta de forças), costuma-se utilizar a expressão “quando o gafanhoto for um peso” (Eclesiastes 12.5). O mel silvestre era aquele mel abundante em Canaã (1 Samuel 14.26). Ele era colhido imediatamente, quando caía sobre o orvalho, ou era encontrado em cavidades de árvores e rochas, onde as abelhas os fabricavam em colmeias sob o cuidado e a inspeção dos homens. Isto indica que João comia com moderação, e, na realidade, podemos concluir que ele comia pouco: um homem teria que passar muito tempo comendo para saciar a fome com gafanhotos e mel silvestre. João Batista veio sem comer e sem beber (cap. 11.18), e estava desprovido da curiosidade, da formalidade, e da familiaridade com que as outras pessoas o faziam. Ele estava tão completamente absorvido pelas coisas espirituais, que mal podia encontrar tempo para fazer uma refeição. Agora:

(1) Isto estava de acordo com a doutrina do arrependimento que ele pregava, e com os frutos do arrependimento que ele mencionava. Observe que aqueles que conclamam outros a se lamentarem pelo pecado, e a mortificá-lo, devem viver uma vida sóbria, uma vida de contrição, de mortificação e lamento pela situação do mundo. Assim, João Batista demonstrava quão profundamente sentia a maldade do tempo e do local onde vivia, o que tornava a pregação do arrependimento extremamente necessária; cada dia era, para ele, um dia de jejum.

(2) Este comportamento estava de acordo com o seu oficio como precursor de Cristo. Através dessa prática, João demonstrava que conhecia o Reino dos céus, e que experimentava o seu poder. Observe que aqueles que conhecem os prazeres espirituais divinos não podem ter outra atitude a não ser olhar para os deleites e ornamentos dos sentidos com urna santa indiferença – pois eles conhecem algo muito melhor. Exemplificando esta atitude para as outras pessoas, ele estava preparando o caminho para Cristo. Observe que a convicção da vaidade do mundo e de todas as coisas que nele há é o melhor preparativo para a recepção do Reino de Deus no coração. Bem-aventurados são os pobres de espírito.

 

VI – As pessoas que o procuravam e o seguiam em grandes grupos (v. 5): “Ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia”. Grandes multidões vinham ter com ele, provenientes da cidade, e de todas as partes do país; de todos os tipos, homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, fariseus e publicanos ; eles o procuravam, assim que ficavam sabendo da sua pregação do Reino dos céus, para poderem ouvir aquilo de que tanto falavam. Agora:

1.Era uma grande honra para João o fato de que tantas pessoas o procurassem, e com tanto respeito. Observe que frequentemente aqueles que mais são honrados são os que menos se importam com a honra. Aqueles que vivem uma vida de mortificação, que são humildes e que se auto negam, e que morrem para o mundo, motivam respeito; e os homens têm uma consideração e uma reverência secreta por eles, mais do que eles poderiam vir a imaginar.

2.Isto dava a João uma excelente oportunidade de fazer o bem, e era uma evidência de que Deus estava com ele. Agora as pessoas começavam a se agrupar e a “empregar força para entrar” no Reino dos céus (Lucas 16.16); e que visão maravilhosa era esta (“como vindo do próprio seio da alva, será o orvalho da tua mocidade”; SaImos 110.3), ver a rede lançada onde havia tantos peixes.

3.Isto era uma prova de que esta era uma época de grandes expectativas; geralmente se pensava que ”logo se havia de manifestar o Reino de Deus” (Lucas 19.11) e, portanto, quando João se apresentasse a Israel, vivesse e pregasse à sua maneira, tão completamente diferente dos escribas e dos fariseus, eles estariam prontos para dizer que ele seria o Cristo (Lucas 3.15); e isto provocava esta confluência de pessoas para junto dele.

4.Aqueles que se beneficiassem do ministério de João precisariam ir com ele ao deserto, e compartilhar a sua reprovação. Observe aqueles que realmente desejam o leite verdadeiro da Palavra: se este não lhes for trazido, irão à sua procura. E aqueles que aprendessem a doutrina do arrependimento precisariam sair da confusão deste mundo e se aquietar.

5.Aparentemente, dos muitos que vinham ao batismo de João, apenas uns poucos aderiam a ele; observe a fria recepção que Cristo teve na Judéia e nas redondezas de Jerusalém. Observe que pode haver uma multidão de ouvintes entusiasmados, mesmo onde haja apenas alguns poucos crentes verdadeiros. A curiosidade e a aparente novidade e variedade podem levar muitos a comparecerem à boa pregação e serem influenciados por ela durante algum tempo, sem, no entanto, se sujeitarem ao poder dela (Ezequiel 33.31,32).

 

VII – O rito, ou a cerimônia, com que ele aceitava discípulos (v. 6). Aqueles que recebiam a sua doutrina, e se sujeitavam à sua disciplina, eram batizados por ele no Jordão, desta forma professando o seu arrependimento e a sua fé de que era chegado o reino do Messias.

1.Eles davam testemunho do seu arrependimento, ao confessar os seus pecados; uma confissão geral, é provável, que faziam a João de que eram pecadores, de que estavam contaminados pelos seus pecados, e de que precisavam de purificação. Mas a Deus, eles faziam uma confissão de seus pecados particulares, pois Ele é a parte ofendida. Os judeus eram ensinados a se justificarem; mas João os ensina a se acusarem, e a não se limitarem, como costumavam fazer, na confissão feita por todo o Israel, uma vez por ano, no dia da expiação, mas a fazer em, cada um, um reconhecimento particular do mal em seu próprio coração. Observe que urna confissão penitente do pecado é necessária para obter a paz e o perdão; e somente quem a faz estará preparado para receber a Jesus Cristo como sua Justiça – estes são trazidos à sua própria culpa com tristeza e vergonha ( 1 João 1.9).

2.Os benefícios do Reino dos céus, que agora es tão disponíveis, eram concedidos a eles pelo batismo. João Batista os lavava com água, como um símbolo de que Deus os estava limpando de todas as suas iniquidades. Era usual, entre os judeus, batizar aqueles que eles aceitavam como prosélitos à sua religião, especialmente aqueles que eram somente prosélitos de porta, que não eram circuncidados, como eram os prosélitos da justiça. Alguns acreditam que é provável que pessoas eminentes do judaísmo, que eram os líderes, admitissem alunos e discípulos por meio do batismo. A pergunta de Cristo, a respeito do batismo de João Batista: “O batismo de João era do céu ou dos homens?”, dava a entender que existiam os batismos dos homens, que não eram uma missão divina, e com este uso João Batista estava de acordo, mas o seu batismo era do céu, e pelas suas características era diferente de todos os outros. Este era o batismo do arrependimento (Atos 19.4). Todo Israel foi batizado em Moisés (1 Coríntios 10.2). A lei cerimonial consistia de submergir na água, ou batizar-se (Hebreus 9.10), mas o batismo de João se refere à lei corretiva, a lei do arrependimento e da fé. Ele batizava as pessoas no Jordão, aquele rio que ficou famoso pela passagem de Israel por ele, e pela cura de Naamã; mas é provável que João não batizasse neste rio no início, mas que depois, quando as pessoas que vinham ao seu batismo eram em maior número, ele tenha passado a usar este rio. Por meio do batismo, ele os exortava a levar uma vida santa, de acordo com a profissão de fé que estavam assumindo. Observe que a confissão dos pecados sempre deve estar acompanhada de determinações santas, com a força da divina graça, par a nunca mais retornar ao pecado.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Preconceito contra si mesmo

PRECONCEITOS CONTRA SI MESMO

Quando nos sentimos discriminados, somos dominados pela angústia, a mente divaga e sofremos de um esgotamento momentâneo da memória que prejudica a capacidade intelectual. O mais curioso é que as ideias preconcebidas que nos fazem tanto mal, são mantidas por nossas próprias crenças.

O astrônomo americano Neil Degrasse Tyson obteve seu doutorado em astrofísica na Universidade Colúmbia em 1991. Algo em torno de 4 mil astrofísicos viviam no país naquela época.

Tyson elevou o total de afro-americanos entre eles a parcos sete membros. Em discurso de formatura, ele falou abertamente sobre os desafios que enfrentava: ” Na percepção da sociedade, meus fracassos acadêmicos são esperados e minhas conquistas atribuídas a outros”, disse Tyson. “Passar a maior parte da minha vida combatendo essas atitudes representa um imposto emocional que equivale a uma forma de castração intelectual. É um encargo que não desejo para meus inimigos.”

As palavras de Tyson abordam uma verdade desconfortável: estereótipos negativos impõem uma sobrecarga intelectual para muitas pessoas que acreditam ser vistas pelos outros como inferiores. Em muitas situações – escola, trabalho, esportes -, essas pessoas receiam fracassar e, assim, reforçar estereótipos depreciativos. Jovens atletas brancos temem não ter desempenho tão bom quanto seus colegas negros, por exemplo, e mulheres em aulas de matemática avançada têm medo de receber notas inferiores às dos homens. Essa ansiedade – o tal “imposto emocional” ao qual Tyson se refere é conhecida como ameaça dos estereótipos. Centenas de estudos confirmaram que o fenômeno contribui para o fracasso: as pessoas ficam confinadas a um círculo vicioso em que os baixos resultados aumentam a preocupação, o que prejudica ainda mais o desempenho.

Nos últimos anos, psicólogos ampliaram muito o conhecimento sobre como preconceitos não só sobre os outros, mas também em relação a si mesmo, afetam as pessoas, por que isso acontece e, mais importante, como evitar essa situação. Embora atualmente alguns pesquisadores questionem se alguns estudos laboratoriais refletem com fidelidade a ansiedade no mundo real, destacando que esse seria apenas um dos muitos fatores que contribuem para a desigualdade social e acadêmica, outros cientistas argumentam que esse é um dos fatores que podem ser facilmente mudados – o que tornaria melhor a vida das pessoas. Em estudos realizados em escolas, intervenções relativamente simples – como exercícios de redação para aumentar a autoestima, concluídos em menos de uma hora – produziram efeitos espetaculares e de longa duração, diminuindo a disparidade de resultados e eliminando a ameaça dos estereótipos.

IDENTIFICANDO O RISCO

Foi em 1995 que os psicólogos Claude Steele, da Universidade Stanford, e Joshua Aronson, na época trabalhando na mesma instituição, cunharam o termo ameaça dos estereótipos. Assim como acontece atualmente, há quase duas décadas estudantes negros americanos obtinham, na média, notas piores que seus colegas e mostravam maior probabilidade de abandonar os estudos antes dos brancos em todos os níveis de ensino. As várias explicações para essa desigualdade incluíam a ideia perniciosa (e preconceituosa) de que os estudantes negros eram, de forma inata, menos inteligentes. Steele e Aronson não estavam convencidos disso. Eles argumentavam que a própria existência desse estereótipo negativo poderia prejudicar o desempenho dos estudantes negros.

Numa experiência agora clássica eles apresentaram a mais de 100 universitários um teste frustrante. Os voluntários foram divididos em dois grupos. No primeiro, no qual os pesquisadores disseram que o exame não mediria habilidades intelectuais, participantes negros e brancos – com pontuação comparável num dos mais utilizados exames de admissão à faculdade, o SAT (originalmente chamado Scholastic Aptitude Test) – se saíram igualmente bem. Na outra equipe, onde Steele e Aronson informaram aos jovens que o teste iria avaliar sua capacidade intelectual, a pontuação dos alunos negros caiu, mas a dos brancos não. O simples pedido para que os estudantes registrassem sua etnia antecipadamente teve o mesmo efeito.

O estudo foi inovador. Steele e Aronson mostraram que testes padronizados estão longe de serem de fato padronizados: quando apresentados de forma que evoquem a ameaça dos estereótipos, mesmo que sutilmente, colocam muitas pessoas automaticamente em desvantagem. “Houve muito ceticismo no início, mas isso está diminuindo com o tempo. No começo, mesmo eu não acreditava no quanto esses efeitos eram fortes; eu pensava que mais alguém precisava replicar o experimento”, conta Aronson.

Muitos pesquisadores o fizeram. Até agora, centenas de estudos descobriram evidências da ameaça dos estereótipos nos mais variados tipos de grupos. Ela aflige estudantes de origem mais pobre em testes acadêmicos e homens em tarefas de sensibilidade social. Estudantes brancos sofrem diante de colegas asiáticos em testes de matemática e frente a colegas negros em esportes. Em muitos desses estudos, os mais hábeis enfrentam os maiores reveses. Os que cultivam maior expectativa de sucesso têm mais probabilidade de se aborrecer com um estereótipo negativo e grande probabilidade de apresentar desempenho inferior como resultado.

O grau exato de existência da ameaça dos estereótipos no mundo real continua incerto, provavelmente porque os estudos relevantes enfrentam os mesmos problemas que rondam boa parte dos experimentos de psicologia social. A maioria foi realizada com poucos estudantes universitários – o que aumenta as probabilidades de acasos estatísticos – e nem todos os estudos demonstraram um efeito intenso. Alguns críticos também ressaltam que experimentos são, com frequência, um fraco substituto do mundo real. Paul Sackett, da Universidade de Minnesota, argumenta que, fora do laboratório, a ameaça dos estereótipos pode ser menos comum e mais facilmente superada. Recentemente, Gijsbert Stoet, então na Universidade de Leeds, Inglaterra, e David C. Geary, da Universidade de Missouri-Columbia, examinaram cada estudo sobre ameaça dos estereótipos entre mulheres que realizavam testes de matemática.

A pesquisadora Ann Marie Ryan, da Universidade do Estado de Michigan, identificou algumas razões plausíveis para essas conclusões inconsistentes. Em 2008, ela e a psicóloga Hanna-Hanh Nguyen, então na Universidade do Estado da Califórnia em Long Beach, compararam os resultados de 76 diferentes estudos sobre a ameaça dos estereótipos em estudantes de ensino médio e universitários. Descobriram que no laboratório os cientistas são capazes de detectar a ameaça apenas sob determinadas condições, como quando pedem que voluntários resolvam um teste especialmente difícil, ou em ocasiões em que trabalham com pessoas que se identificam fortemente com seu grupo social.

O QUE É IMPORTANTE?

Na última década, psicólogos deixaram de apenas mostrar que a ameaça dos estereótipos existe e detiveram em entender como ela funciona. Pesquisadores demonstraram que a ameaça opera da mesma forma em diferentes grupos de pessoas. A ansiedade chega, a motivação cai e as expectativas ficam mais baixas. Avançando nessas descobertas, a psicóloga Toni Schmader, da Universidade da Colúmbia Britânica, sugeriu que a ameaça ataca algo fundamental. O alvo mais óbvio seria a memória operacional – habilidades cognitivas que nos permitem reter e manipular temporariamente a informação. Esse conjunto de habilidades é finito e a ameaça dos estereótipos pode esgotá-lo. É possível que as pessoas se tornem psicologicamente exauridas ao se preocupar com os preconceitos alheios e tentando provar que os outros estão errados. Para testar esta ideia, a cientista deu a 75 voluntários um teste difícil: eles tinham de memorizar uma lista de palavras enquanto resolviam equações matemáticas. Ela disse a alguns participantes que avaliaria sua capacidade de memória e que homens e mulheres podem ter diferenças inatas de habilidades. As mulheres, informadas sobre a suposta discrepância, guardaram menos palavras, enquanto os homens não tiveram esses problemas.

O esgotamento da memória operacional cria vários bloqueios ao sucesso. As pessoas tendem a repensar ações que, de outra forma, seriam automáticas e se tornam mais sensíveis a sugestões que possam indicar discriminação. Uma expressão ambígua pode ser equivocadamente entendida como escárnio, e mesmo a ansiedade pode se tornar um sinal de fracasso iminente. A mente divaga e o autocontrole enfraquece. Quando Toni Schmader interrompeu mulheres no meio de um teste de matemática e perguntou o que elas estavam pensando, as que estavam sob a ameaça do estereótipo mostraram probabilidade maior de estarem devaneando.

Mais recentemente, pesquisadores passaram do estudo da ameaça dos estereótipos nos laboratórios para escolas e salas de palestras reais, onde tentaram dissipar ou evitar a ameaça totalmente. “Vejo três linhas de pesquisa: a primeira foi para identificar o fenômeno e até onde ele vai; a segunda olhou para quem experimenta o efeito e seus mecanismos; a terceira traduz esses resultados em intervenções”, diz a cientista. O doutor em psicologia Geoffrey Cohen, também de Stanford, conseguiu resultados particularmente impressionantes. Seu método é de uma simplicidade desconcertante: ele pede que as pessoas considerem o que é importante para elas (popularidade ou habilidade musical, por exemplo) e escrevam por que isso é importante. O exercício de 15 minutos age como uma vacina mental que aumenta a autoconfiança dos estudantes, ajudando-os a combater qualquer futura ameaça dos estereótipos.

Em 2003 Cohen visitou escolas de ensino médio na Califórnia e aplicou seu exercício num experimento controlado de forma aleatória – o teste consagrado em medicina que checa se uma intervenção funciona comparando-a com um placebo. Cohen administrou seu exercício a estudantes do sétimo ano: metade escreveu sobre seus próprios valores e os demais sobre coisas não importantes para eles. O teste foi o duplo-cego, o que significa que nem Cohen nem os estudantes sabiam a que grupo estavam integrados.

No fim do trimestre, estudantes negros que concluíram o exercício reduziram em 40% a defasagem acadêmica entre eles e seus colegas brancos. Melhor ainda, os alunos mais fracos da classe foram os que mais se beneficiaram. Nos dois anos seguintes os mesmos estudantes realizaram duas ou três versões de reforço do exercício original. Apenas 5% dos que tinham notas mais baixas que escreveram sobre seus valores precisaram de aulas de reforço ou repetiram de ano, em comparação com 18% do grupo de controle. Finalmente, as médias de notas dos estudantes negros subiram 0,25 ponto e as dos que exibiam pior desempenho aumentaram 0,40 ponto.

Umas poucas frações de pontos aqui e ali podem não parecer um grande avanço, mas mesmo pequenas mudanças no grau de confiança – positivas ou negativas – têm efeito cumulativo. Crianças que vão mal desde cedo podem rapidamente perder autoconfiança ou a atenção de um professor; em contrapartida, sinais de um progresso modesto podem motivar um avanço muito maior. Ao intervir no início, assegura Cohen, os educadores podem tornar ciclos viciosos em virtuosos.

A tarefa proposta por Cohen é tão simples que Ann Marie Ryan e outros pesquisadores não ficaram inteiramente convencidos dos seus resultados. Desde então o teste tem sido replicado inúmeras vezes. Nos últimos cinco anos o exercício foi usado para “mudar a sorte” de estudantes negros em três escolas de nível médio e para praticamente eliminar a desigualdade entre os gêneros numa classe de física de nível universitário.

Cohen, porém, tem buscado novos meios de ajudar estudantes. Ele colaborou com Greg Walton, também de Stanford, para abordar um isolamento induzido com frequência pela ameaça dos estereótipos. Muitos componentes de grupos minoritários temem que seus colegas acadêmicos não os aceitem. Walton combateu essas preocupações com estudos e citações de estudantes mais velhos, mostrando que esses sentimentos são comuns a todos, independentemente de etnia, e que eles desaparecem com o tempo. “Isso faz com que os jovens reformulem suas próprias experiências por meio das lentes dessa mensagem e não pela da etnia”, considera Walton. Walton e Cohen testaram seu exercício de uma hora de duração com estudantes universitários no primeiro trimestre. Três anos depois, quando os estudantes se graduaram, a disparidade de resultados entre negros e brancos havia caído pela metade. Os jovens negros estavam mais felizes e saudáveis que seus colegas que não participaram do exercício de Walton e nos últimos três anos eles haviam adoecido menos que os colegas do grupo de controle. Walton reconhece que um exercício tão simples pode parecer trivial, mas, para quem está preocupado se será aceito, saber que suas angústias são partilhadas e temporárias é muito significativo Cohen e Walton trabalham atualmente na ampliação de intervenções simples e baratas. Os dois – assim como Carol Dweck e Dave Paunesku -, também de Stanford, criaram o Project for Education Research That Scales (PERTS), que permite administração rápida de intervenções on-line, combinando programas e avaliando resultados. Esse esforço está na aposta de que desfazer o efeito estereótipo não é panaceia contra a desigualdade ou uma solução definitiva e muito menos única para uma questão psíquica e pessoal tão complexa. Cohen, por exemplo, testou seu exercício de redação apenas em escolas com etnias mistas e admite que não está seguro se funcionaria em outros contextos. Mas o que é animador é a perspectiva de avançar no enfrentamento de situações que trazem sofrimento a tanta gente.

Trabalhos recentes sobre o fenômeno do estereótipo oferecem esperança realista de aliviar o problema e subverter crenças arraigadas. Ao diminuir a ameaça, os pesquisadores mostram que nossos próprios preconceitos não têm fundamento. As desigualdades de desempenho entre estudantes negros e brancos ou entre cientistas homens e mulheres não indicam diferenças de capacidade, mas refletem preconceitos que se pode mudar.

OUTROS JEITOS DE VER A BELEZA

Pense em uma propaganda de um produto, um carro, por exemplo, e tente descrever a primeira imagem que vem à cabeça – há por acaso mulheres magras e altas, dentro dos padrões de beleza atualmente tão valorizados (e inacessíveis), junto à máquina? Agora busque evocar alguma peça publicitária de veículos adaptados para deficientes. “Se se lembrar de alguma, vai perceber que há somente o carro na imagem. Um anúncio totalmente focado no produto, não no público para o qual é voltado. Apesar de haver cerca de 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, eles ainda não são vistos pelo mercado como consumidores, como parte da economia e da sociedade”, diz a fotógrafa Kica de Castro, criadora de uma agência de modelos exclusiva para deficientes físicos. Atualmente são 81 homens e mulheres agenciados, a maioria com passagem por cursos de moda e teatro, com algum tipo de deficiência, como paralisia cerebral, paraplegia, membros amputados e nanismo.

A seleção para fazer parte do casting é por meio de entrevistas e avaliação do preparo profissional do

candidato a modelo – o que não significa que pessoas sem formação voltada para esse mercado, mas com aptidão natural, apesar de mais raras, não possam ser escolhidas. Se o candidato é aprovado na entrevista, a própria agência arca com os custos do material fotográfico, o book, que servirá como amostra. Mais tarde, se chamado para algum trabalho, o modelo paga uma porcentagem à agência, que fica em São Paulo. “No início as pessoas disseram que o projeto não daria certo, mas houve aceitação. Ainda não há tantas oportunidades no Brasil, mas no exterior sim”, diz Kica, que começou a fotografar pessoas com deficiência há quase uma década, quando trabalhava em um centro de reabilitação fazendo fotos nas quatro posições globais (frente, costa e laterais) para prontuários e fichas médicas. As fotografias de moda foram uma maneira de se aproximar dos fotografados e ajudá-los a relaxar. Segundo Kica, as pessoas chegavam cabisbaixas, ficavam seminuas, e era evidente a baixa autoestima delas nesse momento.

“Depois de uma conversa com uma amiga psicóloga, comprei várias quinquilharias na rua 25 de Março (centro de comércio popular em São Paulo) e passei a dizer, antes das fotos, que estava fazendo um trabalho para um editorial de moda e os convidava para se enfeitar e participar. Eram uns poucos minutos que os ajudavam a fazer as fotos médicas com mais satisfação”, diz Kica, que pouco depois começou a fazer books particulares a pedido dos fotografados, tipo de trabalho que ainda continua a fazer. Nenhuma das fotos é tratada com programas de edição de imagem, como o Photoshop, que geralmente é usado para retocar “imperfeições” das modelos como, aliás, também acontece em outros trabalhos fotográficos.

NO FIM, TODOS SAEM PREJUDICADOS

A psicologia caracteriza o preconceito como a presença, profundamente arraigada na memória, de associações negativas vinculadas a pessoas de culturas estrangeiras. Estudos realizados em muitos países evidenciam que todo ser humano nutre várias reservas e age em consonância com elas. Nesse contexto, a violência praticada contra estrangeiros, que em muitos casos culmina com assassinatos, é apenas a ponta do iceberg. Como mostra um teste idealizado pelos psicólogos sociais Andreas Klink e Ulrich Wagner, das universidades alemãs Jena e Marburg, respectivamente, o comportamento discriminatório se manifesta principalmente em situações cotidianas.

Com a ajuda de uma estudante de psicologia, os pesquisadores propuseram a seguinte situação: na calçada, a jovem pergunta qual o caminho até a estação rodoviária. A maioria dos transeuntes ofereceu informações à moça e só uns poucos mal-educados ou apressados a ignoraram. Um pouco mais tarde, ela retornou ao local para fazer a mesma pergunta, mas com uma diferença: a garota vestia roupas orientais e um véu na cabeça. Resultado: o número de pessoas que ignoraram a suposta estrangeira mais que duplicou.

Em outro experimento, os dois psicólogos solicitaram a pessoas com nomes estrangeiros que respondessem a anúncios imobiliários e de emprego. A proposta da dupla era observar se haveria algum sinal de repúdio por parte dos funcionários que analisavam os currículos e as propostas para alugar imóveis. E de fato houve: estrangeiros eram preteridos. A causa, evidente, era uma só: preconceito.

Os estereótipos, entretanto, não dificultam a vida apenas de pessoas e grupos estigmatiza­ dos. Os psicólogos sociais americanos Robert A. Baron e Donn Byrne observam que pessoas com atitudes preconceituosas tendem a se sentir extremamente expostas a conflitos e enfrentam medos muitas vezes exagerados e desnecessários. Sentem constante temor, por exemplo, de ser atacadas ou molestadas por pessoas supostamente hostis, de classe social ou cor de pele diferente da sua. Ou seja, essa postura redunda em considerável prejuízo para a qualidade de vida dos preconceituosos.

 

ED YONG é jornalista especializado em ciência.

GESTÃO E CARREIRA

Como gerenciar a sobrecarga no trabalho

COMO GERENCIAR A SOBRECARGA DE TRABALHO

Aprenda a se organizar para dar conta de todas as atividades e evitar que o excesso de tarefas prejudique sua saúde física e emocional.

Criada em 2008, a agência de marketing online Mint vinha em uma trajetória de crescimento até o fim do ano passado. Entretanto, em 2017, após receber o aporte de uma holding e chegar a contar com um time de 60 pessoas, a empresa começou a sentir os efeitos negativos da crise econômica. “Tivemos alguns desentendimentos com o grupo de investidores e desfizemos a parceria, muitos clientes renegociaram ou diminuíram contratos e chegamos à conclusão de que seria preciso rever a estrutura”, diz Victor Macedo, de 34 anos, fundador da agência. A empresa deixou o escritório de dois andares que ocupava em São Paulo, mudou-se para um coworking e demitiu mais da metade da equipe. No auge do processo de reestruturação, Victor teve crises de gastrite e chegou a passar 12 horas no trabalho. “Também tive que ir para dentro da operação, acumular funções de planejamento, social media e até atendimento”, afirma. Para enfrentar o momento difícil, o profissional formado em marketing passou a cuidar melhor da saúde e reviu alguns processos na empresa para melhorar a produtividade. “Pratico atividades físicas e controlo meus horários para não ficar muito tempo no escritório”, diz.

Assim como Victor, muitos profissionais estão sofrendo com times enxutos e com a sobrecarga de trabalho. De acordo com uma pesquisa do site Vagas.com, divulgada em agosto e feita com 2690 pessoas, 56% dos trabalhadores brasileiros estão acumulando funções antes realizadas por outras pessoas. Reflexo das tentativas de sobreviver em meio ao período ruim da economia, a diminuição de equipes aliada com o medo crescente de desemprego cria um cenário de estresse dentro das empresas. “Existe uma expectativa de que, se esses trabalhadores ficaram, são mais eficientes. Isso dobra a cobrança sobre profissional”, afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, diretora da International Stress Managernent Association, de Porto Alegre.

E se engana quem pensa que isso, assim como o período ruim da economia, vai ser uma fase passageira. A tendência, segundo especialistas, é de que as equipes menores permaneçam também após a retomada do crescimento. “Vemos a implementação de tecnologias novas para fazer mais com menos, e isso não vai ser deixado de lado depois da crise. Possivelmente serão contratados novos postos, mas as companhias estão percebendo que, com revisão de processos e diminuição da burocracia, é possível aumentar a produtividade dos funcionários”, afirma Caroline Cadorin, gerente-geral da Hays, empresa de recrutamento de São Paulo.

Antes que você entre em desespero, é preciso dizer que, embora as empresas não voltem a ter equipes tão grandes, o período mais crítico vai dar uma trégua. “Quando não havia crise, existia a possibilidade ele ter equipes maiores. Isso era bom porque não sobrecarregava as pessoas. Não vamos voltar a esse cenário, porém o volume alto de demissões deve cair e diminuir o esgotamento dos profissionais”, diz Rudney Júnior, sócio-diretor da BR Talent, empresa ele seleção de São Paulo.

Produtividade na veia

Enquanto isso não acontece, para quem fica a palavra produtividade nunca foi tão demandada. Nem tão difícil de alcançar. “O Brasil já tinha um problema de produtividade anterior ao período de recessão devido a fatores como atraso no acesso às tecnologias, burocracia e falta ele desenvolvimento dessas competências”, diz Flora Victoria, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) de São Paulo. De acordo com dados da consultoria internacional Conference Board, a produtividade do trabalhador brasileiro equivale a 25% ela produtividade do americano, por exemplo.

Para lidar com isso, é preciso se organizar, definir bem quais são os objetivos e melhorar os processos que estão consumindo a energia. E a boa e velha agenda com lista de coisas a fazer ajuda a dar o pontapé inicial. “Logo cedo ou no final do dia anterior faça uma lista elas coisas que você tem que resolver e inclua intervalos para possíveis emergências”, afirma Caroline da Hays.

É o que faz o publicitário Felipe Schepers, de 30 anos, diretor de operações da Opinion Box, empresa de pesquisa online de Belo Horizonte. “Coloco no meu Google Agenda todos os eventos e atividades, desde consultas ao médico até reuniões, e checo diariamente. No fim do dia, eu tento liberar pendências e criar folgas”, afirma. Além disso, ele programa tarefas que sabe que são recorrentes, como e-mails para clientes. “Deixo em rascunho e, quando chego ao trabalho, apenas disparo”, afirma. Foi essa organização que fez com que Felipe conseguisse tocar praticamente sozinho a Opinion Box. “Fui convidado para ser o diretor de operações desse projeto. No começo, trabalhava 14 horas”, diz. Por conseguir suportar longas jornadas com poucas horas de sono, hoje em dia Felipe ainda passa 12 horas trabalhando, mas por causa da organização consegue conciliar a rotina com o filho recém-nascido. “Saio do trabalho às 19h e até às 20h30 me dedico ao meu filho”, afirma.

Prioridades definidas

É preciso tomar cuidado para não ficar preso em meio aos chamados incêndios e perder a visão de projetos de longo prazo. Por isso, definir prioridades é essencial. “Muitas atividades consomem tempo e não são compatíveis com as nossas metas mais importantes. Quando chegar uma demanda, analise e entenda se ela é urgente, importante ou irrelevante. Se for urgente e importante, priorize; se for apenas importante, planeje a execução para mais tarde; e, se não for nenhuma das duas, é irrelevante”, afirma Mônica Barroso, coach e professora da The School of Life ele São Paulo.

Foi desse jeito que a publicitária Camila Nakagawa, de 28 anos, conseguiu dar conta de dois times nos últimos meses. Desde o começo do ano, ela é diretora de marketing e novos negócios na agência de publicidade digital ID, porém há alguns meses passou a tocar um projeto no qual alguns executivos da agência ficam alocados dentro dos clientes. Com isso, passou a se dividir entre os escritórios da ID e da Onofre Agora, e-commerce da rede de farmácias. “No começo eu tentei abraçar o mundo e dar conta de tudo, e até foi bom para imergir e entender essa nova realidade. Chegava a ficar mais horas no escritório e, principalmente, a intensidade de trabalho era muito grande. Por isso, comecei a ver que precisava definir onde eu poderia estar”, afirma. Um dos exemplos que gosta de citar são os e-mails. “Conversei com meus times e chegamos a um acordo. Existem coisas que eles podem tocar sozinhos e eu não preciso estar presente, como ser copiada em todos os e-mails ou saber de cada etapa. Se eles se sentem inseguros ou é algo importante, daí, sim, eu passo a ser envolvida”, diz. Para manter o ritmo, Camila também organizou o tempo que passa no escritório. “Evito fazer aqueles almoços-reuniões que duram horas, por exemplo. Além disso, estipulei atividades fora do trabalho que me obrigam a me organizar melhor e a não ficar até mais tarde, como as minhas aulas de tênis e francês”, afirma.

Negociação constante

Mesmo os profissionais mais disciplinados podem perceber que não vão conseguir cumprir prazos e metas devido ao excesso de tarefas de que precisam dar conta. Para evitar situações ruins no trabalho é preciso ter uma boa comunicação com gestores e equipes e capacidade ele negociação. “Isso é algo que exige coragem porque os profissionais têm que assumir essa dificuldade. Num momento de crise, em que as pessoas estão com medo de perder o emprego, a grande maioria fica receoso de mostrar essa vulnerabilidade”, afirma Mônica.

Entretanto, se você for coerente e apresentar fatos, como a existência de outras tarefas mais urgentes, essa conversa fica mais fácil. “Na maioria das vezes os chefes acham que as pessoas são desorganizadas ou estão fazendo corpo mole. Você precisa mostrar argumentos de que aquela meta é impossível de ser cumprida naquele prazo e que escolhas terão que ser feitas”, afirma Nicodemos Borges, coach e psicólogo clinico, de São Paulo.

Mesmo que seja chato dizer para o chefe que não vai dar conta das atividades, tomar essa atitude é melhor do que deixar de entregar o que foi combinado. “Se for avisado com antecedência, o gestor consegue agir, esticando prazos ou envolvendo mais pessoas no projeto. Se o profissional deixar para avisar de última hora, isso prejudica a imagem dele”, afirma Nicodemos. Caso você seja um líder, é nessa hora que é preciso exercitar a competência de saber delegar funções. “As pessoas precisam quebrar o mito de que sabem de tudo e de que são super-heróis que não precisam de ajuda. A grande sabedoria é aprender a identificar suas potencialidades e delegar aquelas tarefas em que você não é tão bom. Se não fizerem isso, sobretudo os líderes vão ficar sobrecarregadas”, afirma Mônica.

Quando vira doença

 Mesmo com essas estratégias, nem todo mundo consegue dar conta de todas as funções que caem no colo, e a sobrecarga de atividades pode desencadear sérios problemas de saúde, que, no limite, levam à morte. No Japão, por exemplo, há um termo para quem falece por conta do trabalho: “karoshi”, que significa, literalmente, morrer de trabalhar. Lá, 10 000 pessoas morrem ao ano devido ao excesso de trabalho. Claro que isso é um extremo. Mas é preciso ficar atento aos sintomas do excesso de trabalho. “O primeiro deles é a ansiedade, que vira uma bola de neve. A concentração diminui, os resultados caem e a pressão para não errar aumenta, o que retroalimenta a ansiedade”, afirma Ana Maria Rossi.

Segundo urna pesquisa da International Stress Management Association feita com 1 000 profissionais brasileiros, o número de trabalhadores com doenças como ansiedade e síndrome do pânico aumentou de 8% para 13% entre 2013 e 2015. E pulou de 47% para 53% a quantidade de pessoas que usam bebidas alcoólicas para se anestesiar do estresse do trabalho. Outras 57% se automedicam. Trabalhar demais, aliado à pressão crescente sobre as equipes, pode ser a pontado como uma das causas desses comportamentos destrutivos. “Após longas jornadas, você precisa de tempo para se recompor, senão o corpo fica no saldo negativo e começam a ser cobrados juros, como doenças físicas e emocionais”, diz Mario Louzã, psicólogo, de São Paulo. Esse foi o caso da advogada Patrícia Menes, de 31 anos, que até 2015 trabalhava na área de ações trabalhistas e previdenciárias de uma multinacional de auditoria. Mesmo tendo conversado com os gestores pedindo aumento na equipe, Patrícia era a única pessoa da divisão e chegava a trabalhar 18 horas diárias, incluindo os finais de semana, quando viajava para visitar clientes. “Em uma das viagens, machuquei o pé e mesmo assim tive que trabalhar. Não era raro virar noites. Eu só ficava pelo salário”, afirma. No meio do ano passado, ela percebeu que a rotina, que já tinha dez anos, estava cobrando um preço alto. “Comecei a ter quadros de depressão extremos, sentia muita raiva. Também tive problemas no meu casamento e passei dias sem levantar da cama, sem ter vontade ele ir trabalhar”, afirma. Ao perceber que havia chegado ao limite, Patrícia procurou ajuda. Após um mês ele internação e do diagnóstico de síndrome de borderline, originada pelo estresse, ela decidiu que não voltaria ao antigo emprego. A síndrome é um transtorno de personalidade que causa oscilações   de humor e comportamentos impulsivos, muitas vezes confundida com o transtorno bipolar ou    com a esquizofrenia. “Tinha medo de que as crises voltassem. Prestei o concurso da OAB (Organização dos Advogados do Brasil), que até então não tinha conseguido por falta de tempo para estudar, e resolvi abrir meu próprio escritório de advocacia”, diz. Mesmo em tratamento, Patrícia se sente muito mais feliz. “Eu consigo fazer meus horários respeitar meus limites. Não me sinto tão sugada com antigamente”, conclui.

Copo meio cheio

De tempos em tempos surgem alguns mantras corporativos e, assim com produtividade, resiliência é uma das palavras mais repetidas em momento limítrofes. “Pessoas que são resilientes conseguem achar novos significados para situações difíceis Por exemplo, enxergam excesso de trabalho com a oportunidade de aprender coisas novas ou de atuar em áreas diferente e, assim, se munem emocionalmente para enfrentar essa situação”, afirma Flora, da Sociedade Brasileira de Coaching.

Um dos casos mais célebres quando abordamos resiliência é o do psiquiatra judeu Viktor Frank! sobrevivente de um campo de concentração nazista e que relatou suas experiências no livro Em Busca de Sentido, lançado em 1946. A partir desse episódio o autor desenvolveu a tese da Logoterapia em que defende que quando o ser humano está convicto do porquê dos acontecimentos, consegue resistir até aos momentos de maior sofrimento. O problema é que, sem te um sentido ou propósito a sensação de esgotamento aumenta. “Muitas pessoas trabalham bastante, mas não conseguem lidar bem com essa rotina desgastante. Às vezes vem um incômodo e um estresse, mas não sabemos identificar a origem dele. Quando isso acontece, preciso rever se estamos alinhados com o propósito da empresa e da nossa função”, diz Mônica, da The School of Life.

A psicóloga Ana Maria Rossi diz que até mesmo a síndrome de burnout, comumente associada ao excesso de trabalho, também tem mais raízes na insatisfação do que propriamente com o volume de atividades. “Geralmente quem desenvolve o burnout se sente desvalorizado, acha que está sendo tratado injustamente ou tem a sensação de que precisa desenvolver uma função que vai contra os seus valores. Como, por exemplo, um vendedor que precisa mentir para atingir as suas metas”, afirma.

De acordo com uma pesquisa exclusiva feita pela Fundação Estudar para a VOCÊS/A e que ouviu 256 pessoas, embora 40,6% elos respondentes não trocassem de emprego somente devido ao acúmulo de funções, 62% deles fariam uma movimentação caso a opção lhes desse a chance de realizar o seu propósito. “Quem enxerga mais significado no trabalho consegue passar por situações difíceis com mais facilidade porque existe um objetivo para continuar ali. E isso pode ter a ver com funções de impacto social ou metas totalmente individuais, como crescimento ou salário”, diz Ana Maria Spaggiari, coordenadora da área de carreiras da Fundação Estudar.

Claro que nem todo mundo que para de se identificar com um trabalho pode deixar o emprego, mas é possível fazer mudanças pequenas. “Você pode trocar de área, de chefe ou de função dentro de uma mesma empresa. Muitas pessoas fazem rupturas drásticas sem se planejar e acabam se arrependendo. O essencial é fazer esse questionamento”, afirma. Com organização, negociação e autoconhecimento é possível encontrar alternativas para sobreviver a esse período de cansaço e sobrecarga generalizados. Vale lembrar que, em alguns momentos, é preciso pagar esse pedágio e atravessar uma fase mais turbulenta para descobrir seus limites e fortalezas e avançar rumo a uma vida (pessoal e profissional) mais equilibrada e feliz.

SEM PERDER TEMPO

Estratégias para diminuir a procrastinação de tarefas

Do latim procrastinatus (“pro”, que quer dizer à frente e “crastinatus”, amanhã), a procrastinação é o ato de deixar para depois. “Às vezes achamos que um projeto é muito grande e não vamos dar conta, por isso vamos adiando, adiando, até que percebemos que perdemos quase todo o prazo”, diz Mônica Barroso, da The School of Life. Veja como enfrentar o problema.

Divida um grande objetivo em pequenas metas – Assim a resolução fica mais próxima e viável.

Organize as suas distrações – Ter tempo livre é fundamental, inclusive no dia a dia de trabalho, mas reserve apenas um horário específico do dia para olhar jornais e atualizar as redes sociais.

Diminua a autoconfiança – Muita gente faz uma estimativa errada da quantidade de horas que vai precisar para dar conta de uma determinada tarefa. Por isso, mesmo que algumas demandas aparentam ser facilmente resolvidas, melhor se organizar para contar com um prazo maior, incluindo imprevistos.

Identifique o que está travando você –  Há uma associação da procrastinação com a preguiça, mas não é bem assim. Entenda se você está adiando por medo, insatisfação ou até mesmo pela forma como a tarefa lhe foi pedida.

EXCESSO DE CARGA

Quatro sinais de que o grande volume de trabalho está prejudicando o seu desempenho.

DESMOTIVAÇÃO

Não há mais motivação para ir ao trabalho ou para exercer suas atividades. É a chamada “síndrome da segunda-feira”, em que só de penar em ir trabalhar surgem tontura ou dores de cabeça.

PROCRASTINAÇÃO

Conscientemente, o profissional vai deixando de entregar tarefas que sabe que são importantes e, em determinado momento, acaba se desesperando.

CONFLITOS

A pessoa se torna mais intolerante com pequenos problemas no trabalho, se incomoda com assuntos sem sentido e vai criando uma cisma hostil entre os colegas.

ADOECIMENTO

Surgem doenças psicossomáticas, que não possuem causas clínicas. Podem começar com simples dores de cabeça e evoluir para quadros mais sérios.

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2: 19-23

A Volta do Egito

Cristo retorna do Egito para a terra de Israel. O Egito poderia servir, por algum tempo, como um lugar de breve residência, ou de abrigo, mas não para uma longa permanência. Cristo havia sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, portanto para elas Ele devia retornar. Observe:

I – O que abriu caminho para seu retorno foi a morte de Herodes, que aconteceu pouco depois do assassinato dos infantes. Segundo alguns, ainda não havia se passado mais que três meses. Tal expedito acontecimento fora obra da vingança divina! Observe que Herodes devia morrer. O dia dos tiranos orgulhosos, terrores dos poderosos e opressores dos justos na terra dos vivos, deve chegar e no abismo devem ser lançados. “Quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal” (Isaias 51.12,13), considerando especialmente que na morte não só sua inveja como seu ódio irão perecer (Eclesiastes 9.6) e que irão cessar de perturbar (Jó 3.1 7) e serão punidos. De todos os pecados, a culpa pelo sangue dos inocentes é a que mais rapidamente irá saturar a medida. É um terrível relato aquele feito por Josefo sobre a morte desse mesmo Herodes (Antiq. Jud., liv. 17, caps. 6 e 7), dizendo que ele foi tomado por uma doença que o queimava por dentro com uma inexprimível tortura; que tinha uma insaciável avidez pela carne, apresentando cólicas, gota e inchaço. Sua doença era acompanhada por um intolerável mau cheiro, a ponto de ninguém poder se aproximar dele. Tão irascível e impaciente estava que se tornara um tormento para si mesmo e um terror para todos os que o atendiam. Sua inata crueldade, estando assim exacerbada, o tornava mais bárbaro que nunca, tendo ordenado a morte do seu próprio filho. Ele mandou prender muitos nobres e pessoas de boa família e ordenou que fossem executados logo depois da sua morte. Mas essa ordem não foi cumprida. Observe que espécie de homens eram os inimigos e perseguidores de Cristo e dos seus seguidores! Aqueles poucos que se opuseram ao cristianismo haviam primeiramente renunciado à própria humanidade, como Nero e Domiciano.

II – As ordens emanadas dos céus relativas ao seu retorno, e a obediência de José (vv. 19 -21). Deus

havia enviado José ao Egito e lá ele permaneceu até que aquele que o havia levado ordenasse a sua volta. Observe que em todos os nossos movimentos será bom que o nosso caminho seja claro, e que Deus esteja caminhando à nossa frente. Não devemos seguir um caminho ou outro sem receber ordens. Essas ordens foram enviadas a José por um anjo. Observe que se mantivermos a nossa comunhão com Deus, ela também será mantida por parte dele em qualquer lugar que possamos estar. Nenhum lugar pode impedir as bondosas visitas de Deus. Os anjos vieram a José no Egito, a Ezequiel na Babilônia e a João em Patmos. Portanto:

1.O anjo informou sobre a morte de Herodes e dos seus cúmplices: “Já estão mortos os que procuravam a morte do menino”. Eles haviam morrido, mas o pequenino estava vivo. Os santos que são perseguidos muitas vezes vivem tempo suficiente para pisar sobre o túmulo dos seus perseguidores. Foi assim que o Rei da Igreja venceu a tempestade, e é assim que muitos na igreja têm resistido. “Já estão mortos”, isto é, Herodes e seu filho Antípatre. Embora entre eles houvesse um sentimento mútuo de ciúme, provavelmente estavam de acordo em procurar a destruição desse novo Rei. Se primeiramente Herodes mandou matar Antípatre e depois ele mesmo encontrou a morte, as coisas naquela região ficaram limpas; o Senhor é conhecido pelos castigos que aplica quando um iníquo instrumento é empregado para a ruína dos outros.

2.O Senhor ordenou a José o que devia fazer. Devia voltar para a terra de Israel, e sem demora. Sem pleitear a tolerável e boa situação que gozava no Egito, nem alegando os inconvenientes da jornada, especialmente se, como se supõe, estavam no início do inverno – ocasião em que Herodes havia morrido – a obediência veio em primeiro lugar. O povo de Deus segue as suas ordens em qualquer direção que Ele os possa levar, ou abrigar. Se olharmos para o mundo apenas como o nosso Egito, lugar da nossa escravidão e exílio, e para o céu apenas como a nossa Canaã, nosso lar e nosso repouso, deve­ remos prontamente levantar e partir quando formos chamados, como fez José quando saiu do Egito.

 

III – As novas ordens que recebeu de Deus, qual caminho devia seguir e onde se fixar na terra de Israel (vv. 22,23). Deus poderia ter-lhe dado essas instruções junto com aquelas que recebera anteriormente, mas Ele revela gradualmente seu pensamento ao povo, para mantê-lo sempre esperando por Ele, aguardando receber mais notícias. José recebeu essas ordens num sonho, provavelmente da mesma maneira corno havia recebido as ordens anteriores, através da intervenção de um anjo. Deus poderia ter revelado a sua vontade a José através do menino Jesus, mas a nossa opinião é que Ele não tomaria conhecimento desses movimentos, nem daria um sinal sobre qualquer coisa que ocorresse, certamente porque em todas as coisas seria conveniente agir como os seus irmãos; sendo uma criança, Ele agiu e se comportou como uma criança, colocando um véu sobre o seu infinito conhecimento e poder. Entendemos que, como uma criança, Ele tenha crescido em sabedoria.

Portanto, as ordens transmitidas a essa santa e real família foram:

1.De que não deveria se estabelecer na Judéia (v. 22). José poderia pensar que Jesus, tendo nascido em Belém, deveria ser criado lá; no entanto, estava prudentemente temeroso pela pequena criança, pois ficara sabendo que Arquelau reinava no lugar de Herodes, não sobre todo o reino, como seu pai, mas somente sobre a Judéia, sendo que as outras províncias estavam em outras mãos. Observe que sucessão de inimigos havia para lutar contra Cristo e a sua Igreja! Se um deles se retirasse do contexto, outro surgiria imediatamente para dar continuidade à inimizade que vinha desde a antiguidade. Portanto, por essa razão, José não devia levar o pequeno infante para a Judéia. Observe que Deus não lança os seus filhos aos limites do perigo, exceto se tal atitude for para a própria glória do Senhor ou para provação deles; pois são preciosas à vista do Senhor a vida e a morte dos seus santos; para Ele, o sangue deles é precioso.

2.Que deviam se estabelecer na Galileia (vv. 22). Nessa ocasião, reinava na Galileia um homem tranquilo e brando chamado Filipe. A providência de Deus geralmente assim ordena, que ao seu povo não falte um abrigo tranquilo do tumulto e da tempestade; quando um clima se torna demasiadamente quente e abrasador, um outro se mantém fresco e temperado. A Galileia estava localizada mais ao norte, e Samaria, entre ela e a Judéia. Para lá foram enviados, isto é, par a Nazaré, cidade situada sobre uma colina, no centro da região de Zebulom.

Lá vivia a mãe do nosso Senhor quando concebeu o ser santo e provavelmente era também a residência de José (Lucas 1.26, 27). Lá tinham muitos conhecidos e estariam entre parentes. Era o lugar mais apropriado para ficar. Lá eles continuaram a viver e lá nosso Salvador foi chamado Jesus de Nazaré, nome que para os judeus representava um obstáculo, pois, diziam eles, poderia “vir alguma coisa boa de Nazaré?”

Nisso, dizem que se cumpriu o que havia sido dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”. O que podemos considerar é:

(1) Que era um homem de honra e dignidade, embora esse nome significasse primeiramente apenas alguém de Nazaré. Existe uma alusão ou mistério ao falar disso, pois significa falar o que Cristo seria:

[1] O Homem, o Rebento, mencionado em Isaías 11.1. A palavra aqui é Netzar, que significa rebento, ou a cidade de Nazaré. Ao receber o mesmo nome da cidade, Ele é declarado como sendo esse Rebento.

[2] Menciona que Ele seria o grande nazireu; os nazireus legais formavam um tipo e uma figura (especialmente Sansão, Juízes 8.õ). José é chamado de nazireu entre os seus irmãos (Genesis 49.26) e há uma referência àquilo que tinha sido prescrito em relação aos nazireus em Números 6.2, e em outras passagens. Não que Cristo fosse, estritamente falando, um nazireu, pois bebia vinho e tocava no corpo daqueles que haviam morrido. Mas era eminentemente assim, singularmente santo. Por solene indicação e designação, havia sido escolhido para honrar a Deus Pai na obra da nossa redenção, da mesma maneira que Sansão havia sido escolhido para salvar Israel. Trata-se de um nome que nos dá todo motivo para conhecê-lo e nos alegrarmos. Ou: (

2) Que era um nome digno de reprovação e desprezo. Ser chamado de Nazareno era o mesmo que ser chamado de um ser desprezível, de um homem do qual nada de bom alguém poderia esperar e que não merecia nenhum respeito. O diabo primeiro ligou este nome a Cr isto, para torná-lo desprezível e criar no povo um preconceito contra Ele. E esse nome ficou como um apelido para Ele e seus seguidores. Porém, embora isso não tivesse sido particularmente previsto por nenhum profeta, era geralmente comentado por eles que Cristo seria desprezado e rejeitado pelos homens (Isaias 53.2,3). Seria um verme, não um homem (Salmos 22), e seria um estranho para os seus irmãos. Não deixemos que, em nome da religião, qualquer nome possa parecer suficientemente vergonhoso para nós, tendo em vista que o nosso próprio Mestre foi chamado de Nazareno.

O mal nãoé o posto do bem

O MAL NÃO É O OPOSTO DO BEM

Há uma assimetria entre o primeiro, considerado tão grande e onipresente, e o segundo, aparentemente frágil e raro. Vale lembrar que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

 Apalavras “ética” e “moral” têm a mesma origem etimológica. Ethos, em grego, e amor, em latim querem dizer a mesma coisa: hábito, prática recorrente. Esta significação consta das primeiras linhas de dez

Em relação à fruta maçã, a palavra ética guarda uma diferença. Enquanto a maçã que comemos é materialidade de fruta e também é signo, a palavra ética, como qualquer outra palavra, é apenas signo. Seu uso é exclusivamente semiótico. Isto é, tão somente indicativo de outras coisas, externas às suas letras, de seus significados.em cada dez manuais de ética. E para o senso comum, ética e moral sempre foram usadas indistintamente. E, mesmo entre os iniciados, muitos não têm interesse em estabelecer diferença entre as noções. Mas, apesar de tanta proximidade, para a maioria dos autores essas duas palavras querem dizer coisas muito diferentes. Antes de apresentar esta diferença, cumpre um alerta. É preciso lembrar que palavras como “ética” e “moral” são signos. E como qualquer signo, são materialidades que remetem a significados que lhes são exteriores. Mesmo as coisas do mundo, que não são palavras, também podem ser entendidas na sua estrita materialidade ou enquanto signo, indicativo de outras coisas. Uma maçã, por exemplo, é uma fruta. Não há dúvida. Mas indica também alimento, saúde, pecado, erotismo, dieta e muito mais.

Pelo fato de ambas remeterem a uma exterioridade – a fruta maçã a pecado e a palavra ética ao valor da conduta -, dizemos que todo signo é ideológico. Seu uso, portanto, não é neutro. Isto é, atende aos interesses daqueles que deles se servem. Porque significar as coisas do mundo é forma privilegiada de manifestar o que se pretende. Seja enquanto agente social singular, seja enquanto membro de um grupo, classe etc.

Quando relacionamos qualquer coisa a algum significado, pretendemos que essa coisa queira dizer para os demais o mesmo que quer dizer para nós. Que todos compartilhem do sentido que a ela estamos atribuindo. A má notícia é que, na vida em sociedade, nossos interesses podem ser excludentes dos de outros. Outros, aliás, que também se servem dos signos. Que também lhes atribuem os sentidos que lhes são convenientes, alinhados com pretensões específicas.

Por isso, ante interesses contraditórios, haverá luta pela definição do sentido legítimo, do bom sentido. Considerado óbvio. Porque nomear não é só dar nome a coisas e a ideias abstratas. É impor certa visão e divisão do mundo que convém a quem nomeia. No caso da ética, o troféu é precioso. Afinal, a todos interessa, em algum momento da vida, participar da disputa sobre o que se deve e o que não se deve fazer.

Na particularidade de sua trajetória, todo homem vive situações que se convertem em problemas morais. Para resolvê-los, analisa as possibilidades, pondera os efeitos das possíveis condutas, formula juízos e acaba decidindo. Afinal, é preciso viver. Assim, para deliberar sobre delação de um colega e amigo que lesa o patrimônio da empresa, por exemplo, você pensaria muito. Avaliaria as consequências, tanto do silêncio quanto da delação. Conversaria com outros colegas. E, finalmente, optaria por entregá-lo ao superior hierárquico. Caso encerrado. Questão moral resolvida.

Mas quando pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda a sua particularidade, possam valer para qualquer situação semelhante, para qualquer caso, passamos da prática para uma teoria da prática, do pessoal para o impessoal, do particular para o genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. Desta forma, propõe-se que a ética seja uma teoria – ou uma ciência – da moral. Ou, esta última, objeto da primeira. Por isso, os códigos de exercício profissional bem como os desta ou daquela organização não são denominados código s de moral, mas de ética. Porque pretendem valer para qualquer um que atue nestes espaços.

Uma vez entendida e aceita esta diferença, consagrada nos manuais autorizados, sempre é possível destacar aproximações. De um lado porque uma ética que ignorasse os dilemas morais de viventes de carne e osso seria um simples arranjo lógico de máximas e princípios. Inversamente, por mais específicas e particulares que possam ser as situações que vivemos no mundo, sempre haverá que se considerar – socializados que somos – princípios éticos objetivados em cultura, em saberes práticos, em disposições. Mas aqui cabem algumas precisões conceituais.

Ética é ao mesmo tempo reflexão sobre a vida e vida pensada. Ao mesmo tempo princípio e ação. Norma e deliberação. Decisão e vida decidida. Para Aristóteles, o objeto da ética é a práxis. Para Kant, a vontade. Segundo ambos, é a ação submetida à razão. Sócrates já nos advertia que uma vida impensada, não examinada por quem a vive, não pode valer a pena ser vivida. Em contrapartida, toda ação que não estiver imbricada num processo deliberativo está excluída do campo da moral.

Muitos questionam nossa liberdade. Afinal, se tudo no universo vive regido por causalidades materiais, e a pera cai da pereira sem nunca poder se opor, por que seríamos diferentes? O que permitiria que fôssemos autores de nós mesmos, semideuses, criadores da nossa própria trajetória? Não deveríamos ser o mero resultado de vetores causais que nos determinariam absolutamente? O que nos facultaria transcender à inexorabilidade da matéria, de suas relações e fluxos?

O assunto vai longe. Aqui basta deixar claro que não há ética entre animais ou peras. Trata­ se de uma prerrogativa exclusivamente humana – justamente porque supomos que no nosso caso a vida é diferente. Que temos uma grande participação na sua definição. E que, para isso, refletimos e deliberamos. Que se fôssemos o mero resultado mecânico de uma combinação de variáveis, não faria sentido discutir sobre a melhor vida a viver, dado que seria a única, a necessária, a inexorável.

Se a liberdade, como condição da moral, enfrenta argumentos relativos ao próprio corpo, sua energia vital, seus desejos, suas paixões e também as relações com o mundo, parecem às vezes nos constranger. Afinal, estamos cercados de limites. A impressão exagerada de estar sendo vigiado a cada passo pode ser sintoma de patologia psíquica. Em certa medida, porém, indica lucidez e senso de realidade face a um mundo cada vez menos moral.

O objeto da ética não é tanto a ação, mas tudo o que possa guiá-la. Norteá-la, se for para o Norte. Orientá-la, para o Oriente, com suas regras, normas e máximas. Em suma, a ética se dispõe ao estudo de certo tipo de ação humana, normatizável pela razão, uma ética que doravante denominaremos ato moral. E que não se entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento, como em algumas psicologias e sociologias – mas como princípios seguidos livremente pelo agente.

Por causa desta interdependência entre a razão prática e a conduta, a estrutura do ato moral é complexa. Constituída por elementos subjetivos e objetivos, diria um jurista. Tais como motivação para agir, consciência dos fins visados, valores morais, consciência dos meios mais adequados para alcançá-los e materialização dos resultados.

Todo ato moral tem uma motivação. E muitas podem ser as motivações para qualquer ato. Assim, não aceitar um cargo público em um governo local sabidamente corrupto pode ter muitas motivações, como paixão por certos princípios, pela própria notoriedade ou imagem impoluta, pelo altíssimo salário que já se recebe na iniciativa privada ou pelo primo que vai assumir no lugar. Nestes casos, o sujeito tem plena consciência dos motivos de suas ações. E esta motivação consciente integra o ato moral – é sua condição.

Mas nem sempre temos essa consciência das nossas motivações. A competência para perceber os próprios afetos é muito rudimentar. A ponta de um iceberg. Uma garrafa vazia no oceano. Assim, muitas vezes, agimos em plena melancolia, por ciúme, por excitação ou ira sem nos darmos conta disso. E estas ações encontram-se, por isso, excluídas do campo da moral. Não podem ser objeto de aprovação, desaprovação ou responsabilidade. Serão levadas em conta em outras esferas, jurídica e psicanalítica, por exemplo. Afinal, alguém precisa proteger a sociedade e tentar lidar com nossos demônios.

APENAS UMA VIDA

Devido a essas nossas motivações, percebidas ou não, várias possibilidades de vida futura passam pela nossa cabeça. São os fins do ato moral. Não sei se me caso ou se compro uma bicicleta, sugere o gracejo do indeciso. Pois é. Todo ato moral implica a consciência de um fim. Um ponto de chegada. Ainda que provisório. Este fim é sempre uma antecipação mental da vida a ser vivida depois. Uma antecipação ideal. Uma ideia, portanto.

Só não se pode confundir motivação com finalidade. Uma tem certamente a ver com a outra, mas não são a mesma coisa. Motivação é energia vital, oscilação de potência, afeto, o que sentimos. O fim é planejamento, projeto, o que pensamos. Se não ficou claro, tentemos com outras palavras. Motivação é tesão. Excitação. Ganho setorizado de potência, nem sempre consciente. Fim é fantasia, imaginação, sempre consciente. De mulher com topografia generosa, em trajes mínimos, clamando pela sua aproximação física. Ou ainda, para que não me acusem de machista, de homem malhado em academia, exposto ao sol em sunga sumária.

Nem a motivação nem o fim esgotam o ato moral. Porque moral é práxis. É preciso decidir, além de antecipar. E agora você já tem todos os ingredientes para entender o que é vontade, o que significa ato voluntário. Trata-se da antecipação mental da vida, o fim, seguida da decisão de viver essa experiência.

Há uma distância entre o fim e a decisão, até porque várias vidas podem passar pela sua cabeça. São muitas as antecipações possíveis. Muitos os fins que podemos perseguir, bem como os meios para alcançá-los. E a vontade, o ato voluntário, implica a identificação do melhor para que haja decisão. Diante de várias vidas cogitadas, é preciso jogar no lixo a maioria. Porque uma só será vivida. A entendida como melhor. E essa identificação pressupõe a adoção de um critério. De um valor moral. Valores morais são critérios existenciais, a partir dos quais os fins serão valorados.

Sobre valor moral, nunca houve unanimidade. Grosso modo, há duas formas muito diferentes de concebê-lo: de um lado, a dos herdeiros de Platão, por muitos chamados hoje de objetivistas. De outro, a de seus opositores, subjetivistas ou relativistas. Muita nomenclatura para pouco entendimento. Vamos dar um jeito nisso. Se eu lhe perguntar sobre o valor didático desse meu texto, talvez você rapidamente ofereça uma resposta. “Está bem meia­ boca”, poderia dizer. O que foi preciso para que você chegasse a esta conclusão?

Muitos estão convencidos de que o valor do meu texto, como de tudo mais, é objetivo. O que isto quer dizer? Que é identificado a partir de um critério único. Critério que já está definido e que se impõe a nós. A todos nós, de forma absoluta, portanto. Assim, para muitos, como Marcel Conche, filósofo contemporâneo e excelente professor, o sofrimento de uma criança é o mal absoluto. Inaceitável em qualquer situação. Tanto como meio – para alguma coisa melhor – quanto como fim. Diferente da dor durante um tratamento odontológico, que revela um mal relativo, aceitável como meio para uma boca melhor.

Para esta concepção, o valor não depende de nada. Nem da época, o começo do século 21, nem do lugar, nem das eventuais oscilações de humor de cada um de nós. Este critério único é ideal. Uma ideia desencarnada. Um texto perfeito em si mesmo. Que não corresponde a nenhum dos que já lemos. Mas que serve de referência na hora de identificar o valor de todos eles.

Assim, como no caso do texto, haverá ideias e critérios objetivos para valorar qualquer coisa inscrita no mundo da vida, como o valor estético de uma obra musical ou literária. Ou o valor moral de um fim cogitado num certo instante. E o conhecimento destes critérios é condição de uma boa decisão moral. Ao menos segundo a perspectiva objetivista. Ou do objetivismo axiológico, para os mais pedantes, defendido por autores idealistas do nosso tempo como Max Scheler e Nicolai Hartmann.

Mas, e se não houver este gabarito absoluto para a melhor das vidas a viver? Para a boa aula? O bom romance? Ou para nada? Neste caso, tudo estaria na nossa mão. Dependeria do nosso apreço do momento. Valor inscrito no fluxo da existência. Sem referência fora dela. Sem nada nem ninguém acima, onde amarrar. Vida linkada na vida. E o todo flutuando à deriva. Os valores agora seriam relativos. A vida estaria ao sabor dos encontros com o mundo, dos afetos de Espinosa, das alegrias e tristezas, dos prazeres e das dores. Neste caso, seria bom tudo que alegra, enquanto alegra, na intensidade que alegra. E ruim o que entristece.

E agora, o que fazemos com o nosso texto? Qual o seu valor? Ora, o valor do texto estaria à mercê de tudo isto. Seria relativo, portanto. Fossem outros os leitores, o texto teria certamente outro valor. Aliás, como vocês são muitos, haverá os que se alegram mais com as coisas que digo. Para estes, o texto será melhor. Há os que já não veem a hora de terminar. Para estes, é certamente pior. Perspectiva subjetivista, portanto, ou subjetivismo axiológico, defendido em nossa época por R. B. Perry, I. Richards, Stevenon, entre outros.

CRISTALINO E ONIPRESENTE

Subjetivismo, com uma ressalva. Que esse sujeito, todo-poderoso definidor dos valores do mundo, seja entendido como o resultado, sempre provisório, de um interminável processo de socialização, num mundo social concreto, inserido histórica e geograficamente. Porque ele vive neste mundo. E está em relação ininterrupta com ele. Na impermanência dele e do mundo. Relação objetivada em encontros que vão esculpindo seu corpo e o transformando, predispondo a afetos futuros, ensinando a se alegrar com o que é alegrável. Com meios e fins morais legítimos e autorizados pela civilização. Com os troféus reconhecidos. Canalizando as energias vitais na direção do que vale a pena perseguir para que busquemos o bem e evitemos o mal. Pedra de toque de toda ética.

E quando o tema é ética, a reflexão sobre o mal se impõe. O impulso primeiro é defini-lo como o contrário do bem. Pouco enriquecedor, quando não sabemos com clareza o que vem a ser este último. Acredito até que definir o mal pelo bem é regredir em entendimento por estar convencido de que conhecemos muito melhor o mal do que o bem.

Apresento aqui uma ideia que sempre me encantou. Inspirada na leitura da obra Pensamentos, de Pascal, no século 18, um dos pesos pesados da filosofia cristã. Trata-se da assimetria entre o bem o mal. Esse último seria gigante, cristalino e onipresente. Enquanto o bem, suspeito, frágil e raro. Perspectiva que contrasta com minhas aulas de religião, nos distantes tempos do colégio jesuíta, em São Paulo, onde fiz toda a minha formação pré-universitária. Nelas, o bem e o mal eram apresentados como alternativas equivalentes. Opções equidistantes para mim.

O paralelo didático recomendado é com a assimetria, proposta por Karl Popper, entre o verdadeiro e o falso. Esse último parece estar em todas as partes. Enquanto o verdadeiro encontra-se sempre sob suspeita. Isto desde as reflexões propostas por David Hume sobre a indução. Como passar do fato à lei? Como a observação empírica de uma infinidade de fatos poderia autorizar uma lei universal? A rigor, não autoriza. O exemplo é conhecido.

Como verificar a veracidade da proposição: todos os cisnes são brancos? Por mais cisnes que tenhamos visto, mil, por exemplo, todos claros, nada garante que o milésimo primeiro seja também branco. A proposição é, portanto, inverificável. Bastaria encontrar um único cisne negro para que fosse falsa. Como a água ferver a 100 graus Celsius. Você faz a água ferver mil vezes a essa temperatura, mas nada pode nos garantir que na milésima primeira o mesmo aconteça. A assimetria é evidente. Toda assertiva tende, de certa forma, à falsidade. Está a sua espera. Condição da sua cientificidade.

O mesmo se passa com o bem e o mal. Quando julgamos que alguém agiu bem, logo nos damos conta da fragilidade de nosso juízo. A boa ação parece sempre suspeita. O bem é sempre duvidoso. Assim, dar algum trocado a um pobre pode corresponder a inúmeras motivações egoístas: aliviar algum peso de consciência, parecer generoso a terceiros, ser merecedor de alguma recompensa transcendente etc.

Em contrapartida, alguém que rouba de pobres – como no desvio de verbas públicas de programas de assistência emergencial a vitimados por alguma catástrofe natural – este age mal. Indiscutivelmente. Porque o mal se presta menos a dúvidas. É mais transparente. Cristalino. Daí a proposta de Pascal: o que eu conheço é o mal e o falso. O seu exemplo de que a castidade é um bem se prestaria a muita discussão. Não fosse pelo bem-estar que algumas aproximações físicas proporcionam, pelo fato de que a humanidade não se reproduziria. Desapareceria, portanto. Em contrapartida, o estupro é mal. Sem muita discussão.

Esta assimetria está presente nos mais diversos males. Na sua Teodiceia Da justiça de Deus, Leibniz nos propõe três tipos de mal: o metafísico (a imperfeição de não ser Deus), o físico (o sofrimento) e o moral (o pecado, a canalhice). Interessam-nos aqui o físico e o moral. O mal físico se traduz no ódio pelo mundo que provoca tristeza. Nada disso se confunde com o mal moral que é deliberação racional inadequada sobre a própria conduta. A mesma distância separa o amor do bem moral, da virtude. Amor é sentimento decorrente dos encontros com o mundo, sensação que se impõe. O amor é tudo de bom. Ame e faça o que quiser, propõe Agostinho.

Em contrapartida, virtude é amor falsificado. Parece, mas não é. É imitação de amor. Como se amor houvesse. Assim, generosidade é virtude. Deliberação moral de dar, que supre a falta de amor. Respeito é virtude. Prêmio de consolação, racionalmente escolhido, para ocupar o lugar de um amor que já se foi. Gratidão é virtude. Foi tudo que sobrou. Valeu. Valeu pelos momentos de amor compartilhados e já pretéritos. Gratidão para quando o amor acaba com dignidade.

Mas a verdade é que não amamos muito. Não amamos muita gente. Façamos a conta: filhos pequenos, filhos grandes quando não se tornaram delinquentes, cônjuges nos primeiros tempos da relação, pais quando não tiranizaram muito, alguns amigos talvez. Se espremermos, umas dez pessoas. No caso de alguém particularmente amoroso, quem sabe o dobro. Admitamos: falta muita gente. E as relações com as pessoas não podem contar com o amor. Nem esperar que você as ame. Por isso, a moral é tão importante. Deliberação autônoma. Que pressupõe alguma soberania da razão. Justamente para quando não há amor. Um sucedâneo dele. Já que não ama, delibere e faça como se amasse. Um amor prático para lmmanuel Kant. Se amássemos mais, careceríamos de menos moral.

Mas quando o mal é físico, a assimetria é mais que evidente, hiper-real. Porque o amor é escasso. E o ódio, abundante. Inesgotável. Assimetria afetiva. Excesso de mal. Mediocridade de bem. Afinal, um riso nunca compensará um choro. Um momento de tranquilidade nunca compensará um de depressão. E uma criança brincando feliz nunca compensará outra, em choque pela morte dos pais. Enquanto os orgasmos são efêmeros, em conta-gotas, contamos todas as dores aos baldes.

E não pretendemos aqui nenhuma negação da vida. Afinal, todo vivente continuará lutando pela própria potência, buscando gozar o mais possível e sofrer o menos possível. Princípio freudiano do prazer já presente em Michel de Montaigne (séc. 16). Trata-se de estender a alegria e diminuir – tanto quanto pudermos – a tristeza. Mas todo este esforço tem limites. Porque gozar sem entrave esbarra sempre na existência do outro. Questão moral por excelência. Questão relevante, quando o amor rareia.

No texto A religião nos limites da simples razão Kant começa por constatar que o mundo é mau. E que o homem é mau, jogando luzes sobre a assimetria entre o bem e o mal moral. Há quem não concorde e considere o mundo maravilhoso, quem garanta que os bons são maioria. No que me diz respeito, tendo a concordar com Kant neste ponto.

Em O homem é mau por natureza, Kant investiga a origem do mal moral. O homem teria consciência do seu dever, da lei moral, e, na hora de agir, daria um jeito de se afastar dela. Quando isto lhe conviesse. Haveria no homem uma inclinação natural ao mal. Desejado livremente. Mal radical inato na natureza humana. Para quem não está entendendo, sugere Kant, basta olhar em volta. Basta ligar a televisão. A televisão aqui ficou por minha conta, mas quanto à evidência do mal que dispensaria maiores elucubrações, está no texto, desse jeito mesmo: é só olhar em volta.

A primeira suposição, comentada por Kant, sobre a tal origem do mal moral, é a de que o homem seria mau por sua sensibilidade. Entenda­ se sensibilidade por seus afetos, inclinações corporais, instintos, pulsões. Poderiam estas ser a causa do mal moral? Teria o corpo apetites que levariam o homem a agir de forma moralmente inaceitável? Estaria nas vísceras a inclinação natural para o mal? No caso de um indivíduo que lança mão de uma arma de fogo e dispara contra toda a sua família, ou de outro que viola uma criança, agiriam simplesmente por raiva e apetite erótico?

Não, responde Kant. Porque se assim fosse, o mal moral seria ódio. E não é. Como também não é amor. Se o homem fosse simplesmente regido pelos instintos, seria bestial. Não transcenderia a mais estrita animalidade. Os animais, esses não têm moral. Falta-lhes, para tanto, justamente a condição de autonomia deliberativa. Um lobo, um javali ou um polvo não são maus. São o que são – estão fora da moral. E o homem não se confunde com eles.

NEM ANIMAL NEM DEMÔNIO

Bem, já que a origem do mal não está nos apetites, onde mais poderia estar? Na razão talvez? Na instância de liberativa? Adviria o mal de uma perversão da consciência moral? De um vício da razão prática? De uma vontade absolutamente maligna? Optaria o homem pelo mal, na hora de agir, por uma característica intrínseca ao próprio pensamento?

Também não, dirá Kant. Porque se assim fosse, não poderia haver consciência do mal. Mal que estaria no homem. Que lhe seria intrínseco. Não haveria, em relação ao mal, nenhum recuo. Distanciamento. Condição da consciência. O homem, neste caso, seria o próprio demônio. Que faz o mal pelo mal. Mal como motivação. Mal como fim. Mal como decisão. O que também não é o caso. Segundo Kant o homem sempre faria o mal visando algum tipo de bem ou vantagem para si próprio.

Parece que Kant, tão preocupado com o rigor de suas abstrações, não tinha tempo para acompanhar a atualidade policial do seu tempo. Chacotas à parte, sempre se poderá propor a Kant a mesma recomendação, a de olharem volta. Será que nenhuma das atrocidades que diariamente são cometidas não configurariam o tal mal pelo mal? Em defesa do autor, sempre se poderá argumentar que sádicos e perversos agem mal porque têm algum prazer nisto. Se assim não fosse, seriam demônios, na categorização kantiana.

Bem, podemos concluir que o homem não é animal nem demônio. Mas se a origem do mal não está na sensibilidade, coisa de corpo e de animal, nem na razão prática, coisa de alma e de demônio, onde poderia estar? Aqui está o pulo do gato da teoria kantiana sobre o mal. A sua origem estaria no encontro dos dois. Encontro da sensibilidade, apetites e pulsões com a consciência moral, com a razão prática. E qual seria o problema nesse encontro entre o que sentimos e o que pensamos? O mal estaria na inversão da hierarquia legítima entre ambos. Numa defasagem entre o que deveria acontecer e o que acaba acontecendo.

Comecemos pelo que deveria acontecer. Sempre segundo Kant, qual seria a relação hierárquica legítima entre a consciência moral e os apetites do corpo? A prevalência da prime ira, é claro. Senão não seria Kant. De tal maneira que os últimos devem ser satisfeitos dentro dos limites e das condições definidos pela primeira. Em outras palavras, a satisfação deve ser buscada de acordo com a lei moral. Se preferirem, a busca da felicidade deve estar subjugada ao dever.

Passemos, agora, ao que acaba acontecendo. A inversão desta hierarquia legítima. Isto é, na adequação indevida das normas aos apetites. No alinhamento do dever aos interesses do momento. Na lei como trampolim para a felicidade. Quando só deveríamos aceitar o gozo e a felicidade na medida em que estivessem conforme a lei moral, o que fazemos é respeitar esta última nos limites e nas condições que nos permitam gozar e buscar o mais eficazmente possível a felicidade.

Perceba que nesta reflexão kantiana, a busca da felicidade pode ser o próprio mal. Aqui a felicidade não é o bem supremo. Está longe de ser o máximo. Não deve ser entendida como tudo de bom. Não representa o maior dos troféus. E jamais poderia reinar como referencial maior na hora de pensar a vida boa e muito menos a melhor forma de conviver.

E aqui o leitor conclui. No período em que o homem acreditava fazer parte de uma engenhoca ordenada, a vida boa dependia da harmonia entre o vivente e o todo. Neste momento, a felicidade era bem supremo. Todos os esforços deveriam para ela convergir. A partir do instante em que o homem colocou em xeque a existência de um todo ordenado, comparável a um organismo vivo, a reflexão sobre a vida boa exige algum tipo de entendimento entre nós. O alinhamento agora é contrato. É pacto. A confiança é no comportamento do outro. A felicidade de cada um perdeu prestígio. A convivência tornou-se soberana.

CLÓVIS DE BARROS FILHO é professor livre-docente de ética da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Graduado em direito, filosofia e jornalismo, mestre em ciência política, doutor em comunicação.

GESTÃO E CARREIRA

As dimensões da integridade

AS DIMENSÕES DA INTEGRIDADE

Basta dar uma olhada nos jornais para nos depararmos com condutas eticamente questionáveis no mundo dos negócios. Não há setor que fuja dessa realidade. E a notícia pode ter origem em qualquer país, inclusive naqueles que tomamos por exemplares. Porém, seria um erro pensar que a ética é uma questão individual. O ser humano vive e atua em sociedade. Portanto, não podemos deixar de considerar o impacto das nossas decisões nos outros nem a influência dos outros em cada um de nós. O que podemos fazer a respeito disso? A melhor maneira de evitar condutas imorais não é tanto uma questão de marcar os limites do não ético, mas sim fomentar um comportamento íntegro. A integridade se compõe de três dimensões:

INTEGRIDADE NO QUE PENSAMOS.

Chamamos de oportunista alguém que não se mantém fiel a uns valores e que atua segundo as vantagens de cada ocasião. Tendo, e mantendo, uns princípios e valores morais, asseguramos um entorno de liberdade – tanto do ponto de vista individual, porque evita que percamos de vista o que consideramos importante, quanto do ponto de vista social, porque nos liberam da arbitrariedade de quem ostenta o poder em cada momento. Quando não nos deixamos guiar pela força da razão, acabamos sucumbindo à razão da força.

INTEGRIDADE NO QUE DIZEMOS.

Uma condição necessária à integridade é a veracidade. Dificilmente diremos que alguém é íntegro se não diz as coisas como são ou se expressa coisas diferentes das que pensa. A falta de veracidade prejudica profundamente a confiança, algo que se deve ter muito presente na comunicação interna e externa da empresa. De toda forma, a veracidade não significa que todos devam saber tudo. Há ocasiões em que a integridade obriga a calar, por exemplo, como acontece com o “sigilo profissional”.

INTEGRIDADE NO QUE FAZEMOS.

Uma pessoa íntegra cumpre o que anuncia, sem fissuras entre suas palavras e seus atos. É o oposto do fingimento, que consiste em dizer uma coisa e fazer outra, tanto por uma vontade débil como por uma intenção viciada (prometeu-se algo que não se pensava cumprir). Um aspecto da integridade é a coerência entre o que pensamos e o que fazemos. Há uma contínua retroalimentação entre essas duas ordens, de tal forma que, como disse o filósofo Gabriel Marcel, “se não vive como pensa, acaba pensando como vive”.

 

JOAN FONTRODONA – Professor de ética nos negócios e diretor acadêmico do Center for Business in Society, e Pablo Sanz, assistente de pesquisa no Departamento de Ética nos Negócios, ambos do Iese Business School, da Espanha

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2:16-18

 A Matança dos Inocentes

Vemos aqui:

I – O ressentimento de Herodes pela partida dos magos. Ele havia esperado longamente pelo retorno deles; achava que, embora fossem demorar, não o decepcionariam e que iria esmagar o seu rival na sua primeira aparição. Mas ficou sabendo que eles haviam partido por outros caminhos e isso aumentou o seu ciúme e o levou a suspeitar que estavam agindo segundo os interesses desse novo Rei. Isso o deixou excessivamente irado, e também desesperado e insultado por acreditar que havia sido enganado. Observe que a inveterada corrupção se avoluma nos poderosos pelas obstruções que encontram ao seu pecaminoso empreendimento.

 

II – Apesar do acontecido, seu artifício político era eliminar aquele que nascera como Rei dos judeus. Se não tinha condições de alcançá-lo através de uma execução particular, ele não tinha dúvidas de envolvê-lo num golpe generalizado que, como a espada da guerra, iria devorar uns e outros. Essa seria uma obra decisiva; desse modo, aqueles que tinham o propósito de destruir a sua própria iniquidade deveriam não deixar de destruir todas as suas iniquidades. Herodes era um idumeu e dentro dele havia nascido e se desenvolvido uma inimizade contra Israel. Doegue era um edomita que, por causa de Davi, tinha sacrificado todos os sacerdotes do Senhor. Era estranho que Herodes pudesse encontrar pessoas tão desumanas e capazes de serem usadas para realizar um trabalho tão sangrento e bárbaro. Mas às mãos iníquas nunca faltam ferramentas iníquas com as quais possam trabalhar. Os infantes sempre haviam gozado de uma proteção especial, não só das leis humanas, como também da própria natureza humana. No entanto, foram sacrificados à ira desse tirano, sob o qual, assim como também sob Nero, a inocência nada representava quando se tratava de sua segurança. Herodes havia sido, durante todo o seu reinado, um homem sanguinário. Não fazia muito tempo que ele mandar a destruir todo o Sinédrio, isto é, o grupo de juízes judeus. Mas o sangue, para o sanguinário, é como a bebida para o beberrão: “Quanto mais bebem, mais sedentos ficam”. Herodes tinha cerca de setenta anos de idade, de modo que essa criança, com menos de dois anos de vida, provavelmente nunca iria lhe causar qualquer perturbação. Ele também não era muito apega do aos próprios filhos, ou tinha preferência por eles, pois havia anteriormente mandado matar dois deles, Alexandre e Aristóbulo, e depois a seu filho Antípatre, apenas cinco dias antes de morrer. Ele fez isso apenas para satisfazer à sua cruel ambição e orgulho. “Tudo que caía em sua rede era peixe”.

Observe as grandes medidas que ele tomou:

1.Quanto à idade, mandou matar todos que tivessem dois anos ou menos. É provável que nessa época o bendito Jesus tivesse menos de um ano, no entanto Herodes incluiu todos que tivessem até dois anos para ter a certeza de que a sua presa não escaparia. Esse tirano não se preocupava com quantas cabeças pudessem rolar, mesmo de inocentes, desde que não escapasse aquele que ele cria ser o culpado.

2.Quanto ao lugar, mandou matar todos os meninos, não só em Belém, mas também os que viviam nos arredores, e em todas as comunidades daquela região. Isto era ser “demasiadamente ímpio” (Eclesiastes 7.1 7). O ódio, quando nasce de uma ira descontrolada, e é armado de um poder ilegítimo, transporta muitas vezes o homem aos mais absurdos e injustos estágios da crueldade. Deus não estava sendo injusto quando permitiu que isso acontecesse; toda vida está penhorada à sua justiça desde que começa. Quando o pecado foi introduzido pela desobediência do homem, a morte veio com ele. Nada devemos supor além dessa culpa geral; não devemos supor que essas crianças fossem sofrer tais coisas por serem os maiores pecadores que existiam em Israel. Os julgamentos de Deus são profundos. A enfermidade e a morte das crianças são reflexos do pecado de Adão e Eva. No entanto, devemos considerar a morte desses infantes sob um outro aspecto; ela representou o seu martírio. Como começou cedo a perseguição contra Cristo e o seu reino! Você pensa que Ele veio para trazer paz à terra? Não, mas uma espada, urna espada igual a essa (cap. 10.34,35). Aqui foi introduzido um testemunho passivo do Senhor Jesus. Da mesma forma que, quando ainda no ventre materno, Ele foi reconhecido pelo salto de alegria de outra criança em um outro ventre, quando dele se aproximou, também agora, quando tinha apenas dois anos, Ele teve outras testemunhas contemporâneas, com idade próxima à sua. Elas derramaram seu sangue por Ele e, mais tarde, Ele mesmo derramou seu sangue por elas. Essa era a infantaria do nobre exército dos mártires. Se essas crianças foram então batizadas com sangue, embora o delas próprias, dentro da Igreja triunfante, poderíamos dizer que com o que receberam no céu elas foram plenamente recompensadas pelo que perderam na terra. Da boca desses infantes, Deus recebe o perfeito louvor; doutro modo, o Supremo não permitiria tal aflição.

A tradição da igreja grega diz que o número de crianças mortas chegou a 14.000, mas isso é um grande absurdo. Acredito que mesmo nas cidades mais populosas do mundo, se tivesse sido registrado semanalmente o número de crianças nas cidades do sexo masculino, não encontraríamos muitas com menos de dois anos, quanto mais numa cidade que nem chegava a ser a quarta parte disso. Mas este é um exemplo da vaidade da tradição. É estranho que esta história não tenha sido incluída nos relatos de Josefo, que escreveu algum tempo depois de Mateus. É provável que Josefo não tenha registrado algumas informações para não favorecer ou reforçar a história do cristianismo, pois ele era um judeu muito zeloso. De qualquer modo, se esse fato não tivesse sido verdadeiro e muito bem documentado, ele o teria contestado. Macróbio, um outro escritor pagão, nos diz que César Augusto, ao saber que entre as crianças menores de dois anos assassinadas por ordem de Herodes estava o seu próprio filho, escarneceu dele dizendo que era melhor ser o porco de Herodes do que seu filho. A tradição do país proibia que alguém matasse um porco, mas nada impedia que matasse seu próprio filho. Alguns acreditam que ele tinha um filho pequeno num berçário em Belém; outros pensam que, por engano, os dois acontecimentos foram confundidos, o assassinato dos infantes e o do seu filho Antípatre. Mas o fato de a igreja de Roma colocar os Santos Inocentes, como são chamados, no seu calendário e consagrar a eles um dia em sua memória, é fazer como seus predecessores que construíram as tumbas dos profetas, pois essa igreja muitas vezes justificou os seus bárbaros massacres, às vezes até mesmo sobrepujando aquele que foi cometido por Herodes.

Alguns chegam a observar um outro desígnio da Providência no assassinato das crianças. Parece que em todas as profecias do Antigo Testamento, Belém era o lugar e esse era o tempo do nascimento do Messias. Portanto, se todas as crianças de Belém nascidas nessa época foram assassinadas, com exceção de Jesus, que escapou, somente Ele podia reivindicar ser o Messias. Herodes acreditava ter frustrado todas as profecias do Antigo Testamento, e derrotado as indicações da estrela e a piedade dos magos, livrando o país desse novo Rei. Tendo queimado a colmeia, concluiu que havia matado a abelha rainha. Mas do céu Deus o ridicularizou e menos prezou. Quaisquer que sejam os ardilosos e cruéis artificias do coração dos homens, os desígnios do Senhor permanecem imutáveis.

 

III – O cumprimento das Escrituras (vv. 1 7,18). Então a profecia se cumpriu (Jeremias 31.15) e uma voz foi ouvida em Ramá. Observe e adore a plenitude das Escrituras! Essa profecia havia se cumprido na época de Jeremias, quando Nebuzaradã, depois de ter destruído Jerusalém, levou todos os prisioneiros para Ramá (Jeremias 40.1), onde fez com eles o que bem entendeu, com a espada ou o cativeiro. Então, o apelo de Ramá foi ouvido até Belém (pois essas duas cidades, uma na região de Judá e a outra na de Benjamim, não eram distantes); agora a profecia cumpriu-se novamente na grande tristeza pela morte desses infantes. A Escritura havia se cumprido:

1.No lugar da lamentação. O pranto foi ouvido desde Belém até Ramá, pois a crueldade de Herodes havia se estendido desde toda a costa de Belém até a região de Benjamim, e entre os filhos de Raquel. Alguns acreditam que as terras em volta de Belém eram chamadas de Raquel, por ter sido o lugar onde ela morreu e foi sepultada. O sepulcro de Raquel estava junto a Belém (Genesis 35.16,19). Compare com 1 Samuel 10.2. O coração de Raquel estava sobre os seus filhos, como estava sobre o seu filho naquele trabalho de parto que a levou à morte e a quem ela deu o nome. -de Benoni, que significa filho do meu sofrimento. Essas mães eram como Raquel, moravam perto do seu túmulo e muitas delas eram suas descendentes. Portanto, seus lamentos foram elegantemente representados no pranto de Raquel.

2.Na intensidade dessa manhã. Aconteceu uma lamentação e um pranto, um grande pranto; porém, este era demasiadamente pequeno para refletir o sentimento causado por essa exacerbada calamidade. Houve um grande clamor no Egito, quando os primogênitos foram mortos, e o mesmo aconteceu aqui, quando novamente os primogênitos foram mortos, por quem sentimos uma particular ternura. Ali teve lugar uma representação do mundo em que vivemos. Podemos ouvi-la nos lamentos, no pranto e na tristeza, vemos nas lágrimas dos oprimidos, alguns por uma razão, outros por outra. Nossos caminhos atravessam um vale de lágrimas. Essa dor era tão grande que as pessoas não queriam ser confortadas. Elas se endureceram em meio a tamanha dor, e desejavam se lamentar profundamente. Bendito seja Deus, não existe nenhum motivo para tristeza nesse mundo – não, nem aquela provocada pelo próprio pecado – que justifique a atitude de recusarmos o conforto! Eles não queriam ser consolados porque as crianças não estavam mais na terra dos vivos, não estavam mais nos braços de suas mães. Como realmente não estavam mais ali, haveria alguma desculpa pela tristeza, porém não poderiam perder as esperanças; pois sabemos que não estavam perdidas – tinham apenas partido precocemente. Se nos esquecermos disso, perderemos o fundamento do nosso conforto (1 Tessalonicenses 4.13). Alguns entendem essa dor dos belemitas como um castigo por terem desdenhado a Cristo. Aqueles que não se regozijaram com o nascimento do Filho de Deus foram justamente levados a chorar a morte dos seus próprios filhos, pois haviam apenas se admirado pelas notícias trazidas pelos pastores, mas não as receberam de boa vontade.

A citação dessa profecia pode servir para eliminar a objeção que alguns poderiam fazer contra Cristo, em razão dessa triste providência. “Pode o Messias, que deve ser o Consolo de Israel, ser apresentado com toda essa lamentação?” Sim, pois assim havia sido profetizado, e as Escrituras devem ser cumpridas. Além disso, se examinarmos melhor essa profecia, iremos descobrir que esse amargo lamento em Ramá representava apenas o prólogo de uma grande alegria, pois está escrito: “Teu trabalho será recompensado e existe esperança no fim”. Ou seja, quanto piores forem as coisas, mais rapidamente elas serão reparadas. Para eles, havia nascido uma criança, plenamente suficiente para reparar as perdas que sofreram.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O poder dos hormônios

 

O PODER DOS HORMÔNIOS

 O estrogênio não influi apenas na sexualidade feminina. Tem efeitos também em diversas capacidades cognitivas – tanto no homem quanto na mulher.

De forma quase imediata, a palavra estrogênio evoca sexo e provoca associações quase sempre direcionadas à mulher. Esse hormônio sexual deve sua grande notoriedade à participação decisiva na condução de todos os processos do corpo feminino necessários à reprodução. Controla o ciclo menstrual, exerce influência no amadurecimento do óvulo a ser fecundado, dispara a ovulação e prepara o útero para a implantação do embrião. Sem o estrogênio, produzido em grande parte nos ovários – e existente, aliás, em variações muito semelhantes, razão pela qual se fala também em “estrogênios”, no plural -, vida nenhuma se desenvolveria no ventre materno. Na puberdade, seus níveis crescentes arredondam as formas femininas, trazendo a maturidade sexual. Em suma: é ele que faz das mulheres, mulheres. Não por acaso, o estrogênio é tido como o hormônio tipicamente feminino, e isso fez com que especialistas acreditassem durante muito tempo que sua atuação se restringia aos órgãos fundamentais para a reprodução. Mas posteriormente se verificou a existência de um complicado circuito regulatório por trás do controle dos níveis de estrogênio. Por um lado, mensageiros químicos do hipotálamo e da hipófise influem na produção hormonal dos ovários; por outro, o próprio estrogênio atua também sobre essas duas estruturas cerebrais (veja quadro na pág. 8). Assim sendo, ficou claro que nosso órgão do pensamento – ou ao menos partes dele – é sensível ao hormônio sexual.

Hoje, porém, os pesquisadores sabem que os estrogênios exercem sobre o cérebro influência muito maior que o mero controle da produção do hormônio sexual. Eles contribuem em diversas capacidades cognitivas, tais como o aprendizado e a construção da memória; controlam quais estratégias de comportamento ou de resolução de problemas vamos adotar; e também regulam nossa vida emocional. Vários estudos indicam que as células nervosas de algumas regiões cerebrais precisam dos estrogênios para entrar e permanecer em funcionamento. De resto, isso vale também para os homens, em cujo cérebro o mais importante hormônio sexual masculino – a testosterona – é transformado em estrogênio.

As primeiras indicações de que o estrogênio auxilia o trabalho cerebral provêm do início da década de 70, quando pesquisadores descobriram em células nervosas do cérebro de ratos moléculas de proteína que só se ligam ao hormônio sexual feminino. Por intermédio desses receptores o mensageiro químico transmite informações para as células nervosas. Receptores de estrogênio, porém, possuem não apenas neurônios transmissores de sinais, mas também outras células cerebrais, como as micróglias, importantes para a defesa imunológica, e as macróglias, que atuam como células de apoio e nutrição. É provável que o estrogênio cumpra tarefas distintas nos diferentes tipos de células, mas essas funções ainda não foram explicadas. Experiências com animais comprovam que o hormônio reprime a reação natural de defesa das micróglias contra estímulos inflamatórios. Isso pode ser muito útil, por exemplo, nos casos de esclerose múltipla ou da doença de Alzheimer, já que nessas duas enfermidades proteínas anômalas se depositam nos neurônios provocando um estado inflamatório que danifica e, em última instância, destrói as células nervosas.

Nas macróglias, o hormônio sexual cumpre função clara­ mente trófica. Isso significa que ele estimula o metabolismo dessas células. Sob influência do estrogênio, as macróglias multiplicam a produção dos hormônios do crescimento, que, por sua vez, põem à disposição dos neurônios todas as substâncias de que necessitam para um funcionamento otimizado. Não apenas experiências com animais, mas também a observação de seres humanos indica que os estrogênios oferecem proteção contra algumas doenças neurodegenerativas, ou ao menos retardam seu avanço. Muito provavelmente, eles exercem esse efeito protetor não nos neurônios em si, mas sobretudo por intermédio dos receptores nas células gliais.

Segundo descoberta recente, o estrogênio é capaz também de amenizar as consequências de um derrame cerebral. Sob o comando de Phyllis White, pesquisadores da Universidade da Califórnia removeram os ovários de camundongos, limitando a produção natural de estrogênio. A seguir, dividiram os roedores em dois grupos, um dos quais recebeu estrogênios em baixa dosagem. Uma semana depois, bloquearam brevemente o fluxo de sangue em determinada artéria do cérebro, desencadeando um derrame. Então, passados poucos dias, compararam os vestígios do experimento deixados no cérebro.

Nos camundongos submetidos à “terapia de reposição hormonal”, os danos foram visivelmente menores. Segundo Phyllis, o estrogênio torna mais lento o avanço das lesões nas células induzidas pelo derrame. “Mais neurônios sobre­ vivem, sobretudo no córtex cerebral.” Em especial durante a fase final de um derrame, muitas células cerebrais sucumbem à chamada morte celular programada, mediante a qual o corpo se livra até de células pouco danificadas. O estrogênio parece limitar esse processo, também conhecido como apoptose. E mais: exerce um efeito positivo sobre o crescimento de novos neurônios.

O hormônio sexual transformou-se em tema discutidíssimo nas neurociências não só graças a essa atuação neuro protetora. Interesse científico semelhante desperta a observação de que o estrogênio influencia diversas esferas cognitivas, como aprendizado, memória e comportamento. Afinal, independentemente de estereótipos e clichês, não há como ignorar a “pequena diferença” entre os sexos no tocante à prevalência de certos talentos específicos em homens e mulheres. Hormônios sexuais dão aí sua contribuição, e disso existe comprovação bastante convincente: nas mulheres, determinadas capacidades cognitivas se alteram de acordo com o nível do hormônio.

Não faz muito tempo, Onor Güntürkün, biopsicólogo do Instituto de Neurobiologia Cognitiva da Universidade do Ruhr, Alemanha, começou a investigar como voluntárias se saíam nos chamados testes de rotação mental em momentos diversos de seu ciclo menstrual. A tarefa a cumprir nesse teste é girar na mente uma figura geométrica. Ele avalia, portanto, nossa capacidade de visualização espacial. E, vejam só: durante a menstruação, quando os hormônios sexuais se encontram nos níveis mais baixos, as mulheres se saíram tão bem quanto os voluntários do grupo de controle. Ao final do ciclo, porém, quando os níveis de estrogênio sobem, o desempenho delas caiu sensivelmente. Mas melhorou em outro teste realizado paralelamente, no qual o objetivo era encontrar palavras apropriadas. Os resultados comprovam que as habilidades espaciovisuais das mulheres não são, em essência, inferiores às dos homens: o que ocorre com elas é, antes, uma oscilação mais forte do nível de estrogênio no cérebro, deslocando a ênfase de um talento para outro.

Também os ratos exibem certos comporta­ mentos específicos de cada sexo. Como nos humanos, o nível de estrogênio parece desempenhar aí algum papel. Nos ratos, salta aos olhos sobre­ tudo que machos e fêmeas não demonstrem o mesmo grau de interesse por um novo ambiente. Postos em território desconhecido, e em companhia de três objetos diferentes – uma garrafa, um tubo e uma bola, por exemplo -, as fêmeas põem-se no primeiro dia a examinar seu entorno de forma muito mais intensa que os machos.

Com o tempo, seu ímpeto investigativo decresce, mas torna a despertar de imediato se há um rearranjo dos objetos na gaiola. Isso, porém, acontece apenas com as fêmeas prontas para conceber, com baixos níveis de estrogênio. Somente elas inspecionam o ambiente modificado com curiosidade contínua. Os companheiros revelam de fato algum breve interesse, mas seu ímpeto investigativo torna a ceder com rapidez. Contudo, se as fêmeas não estão em fase de concepção, apresentando níveis altos de estrogênio, o novo arranjo do ambiente lhes é totalmente indiferente. Essa espécie de “balizamento hormonal do comportamento” faz todo o sentido. Provavelmente, fêmeas prontas para conceber tendem, na época da ovulação, a proceder a uma extensa investigação de se u entorno porque assim aumentam suas chances de encontrar um macho disposto ao acasalamento. Mesmo depois do parto, os níveis de estrogênio permanecem baixos, mas o ímpeto investigativo da mãe prossegue, o que lhe facilita proteger o rebento de eventuais perigos e prover-lhe comida suficiente.

Estudos como esse não deixam dúvida quanto à conexão entre os níveis de estrogênio e de desempenho de determinadas funções cognitivas, uma relação capaz de explicar certas diferenças entre os sexos. Pesquisas realizadas com o auxílio da ressonância magnética funcional mostram ainda que, já de antemão, homens e mulheres não utilizam as mesmas regiões cerebrais no cumprimento de algumas tarefas. Conforme se verificou em experiências com voluntários de ambos os sexos, quando se trata, por exemplo, de encontrar a saída deum labirinto virtual, ativam-se nas mulheres regiões nos lobos parietal e frontal direitos do córtex, ao passo que, nos homens, são neurônios do hipocampo que se agitam. Apesar disso, tanto homens como mulheres muitas vezes encontram a solução com a mesma rapidez. Seus cérebros, portanto, têm igual desempenho, embora adotem caminhos diversos.

A fim de descobrir como os estrogênios in­ fluem nessa complexa interação, pesquisadores passaram a investigar que regiões cerebrais possuem, afinal, células nervosas com acoplamentos compatíveis. A concentração de receptores de estrogênio é particularmente alta no hipotálamo e na chamada área pré-óptica. Era de esperar, uma vez que o hipotálamo integra o circuito regulador da síntese de estrogênio e, por meio de mensageiros químicos próprios, estimula a produção de hormônios sexuais. Quanto à área pré-óptica, ela parece participar no balizamento do comportamento reprodutor, ao menos nos animais. A hipótese é admissível, já que se trata de um hormônio sexual. Mas ocorre que também no hipocampo, e no córtex pré-frontal se encontram receptores de estrogênio em abundância. E essas são regiões vinculadas a funções intelectuais mais elevadas, tais como o aprendizado, a memória e o pensamento abstrato.

Experiências com camundongos e com ratos que tiveram os ovários removidos visando a diminuição do nível natural de estrogênio demonstraram que, após a remoção, os animais passaram a se sair muito pior em diversas tarefas de aprendizado e em testes de memória. Doses do hormônio, porém, anularam esse efeito negativo. Portanto, deve haver alguma ligação entre o estrogênio e a atividade no hipocampo, um centro de aprendizado.

Com o intuito de esclarecer essa conexão, a neurobióloga Catherine Woolley, da Universidade Rockefeller, em Nova York, passou a pesquisar as sinapses das células nervosas. É nesses pontos de contato que acontece a transmissão da informação entre os neurônios, e eles se situam nos chamados espinhos dendríticos – pequenos apêndices dos dendritos. Quanto mais ligações sinápticas existirem numa rede neuronal, melhor a transmissão. E, na linguagem do cérebro, aprender alguma coisa nada mais é que estabelecer novas sinapses e intensificar as conexões já existentes.

No hipocampo, os neurônios cultivam um gosto particular pelo contato: uma única célula nervosa pode estar em contato sináptico com até 20 mil outras. Quando estamos em processo de aprendizado, esse número comprovadamente aumenta. Como descobriu há alguns anos o grupo comandado por Catherine, com o auxílio de seções do cérebro com coloração especial, o estrogênio estimula a formação de novos es­ pinhos dendríticos em determinados neurônios do hipocampo. Em 2001, Catherine e seu colega Bruce McEwen demonstraram que os espinhos adicionais não apenas fortalecem as conexões já existentes como também estabelecem novos contatos com outras células nervosas. Estudos equivalentes foram efetuados com fêmeas adultas de rato. O resultado ressalta acima de tudo como o cérebro permanece maleável mesmo na idade adulta. É à enorme plasticidade desse órgão que devemos o fato de uma antiga crença felizmente não corresponder à realidade: a de não ser possível aprender na velhice. É possível sim.

Os resultados da pesquisa também despertaram a esperança de, com o estrogênio, podermos desenvolver um novo medicamento contra a doença de Alzheimer, por exemplo, que causa a morte dos espinhos dendríticos no hipocampo. Em consequência disso, vai desaparecendo o poder da memória, que já não aceita novos dados. E outras capacidades cognitivas sofrem perdas crescentes, como a de orientação e visualização espacial. Considerando-se que o estrogênio dá suporte à formação de novas conexões sinápticas, esse hormônio talvez detenha a demência, ou desacelere seu avanço.

Mas as ambições de alguns cientistas vão mais longe, alimentadas pela observação de que, em todos nós, o número de espinhos dendríticos no hipocampo diminui com o tempo, assim como nosso desempenho intelectual decresce com a idade. Daí a ideia de empregar o estrogênio como o chamado cognitive enhancer – ou seja, como remédio para a melhora direcionada da memória e da capacidade de aprendizado.

Bruce McEwen, neuroendocrinologista da Universidade Rockefeller, pesquisa os mecanismos por meio dos quais o hormônio sexual feminino estimula, no plano molecular, o crescimento dos espinhos dendríticos nos neurônios do hipocampo. Para ele, está claro que esse mensageiro químico fortalece as funções de aprendizado e memória normais. “Mesmo sem a presença do estrogênio, há ainda um sem-número de ligações sinápticas no hipocampo. Nossos trabalhos mostram, porém, que, sem o hormônio, essas redes não operam com seu melhor rendimento no armazenamento e na evocação de determinados conteúdos de memória.”

O pesquisador defende uma espécie de terapia de reposição hormonal para o cérebro, da qual se beneficiariam sobretudo mulheres de mais idade. A razão para tanto é que, com a menopausa, os ovários praticamente param de sintetizar estrogênio. Sintomas como as ondas de calor e também os problemas psíquicos de que tantas mulheres sofrem durante essa fase parecem ter vínculo causal com a relativa escassez do hormônio-isso porque, em geral, as queixas diminuem com a aplicação de estrogênio.

Nesse meio tempo, também o desempenho cognitivo de mulheres na menopausa já foi objeto de diversos testes. Os resultados são contraditórios. Em muitos estudos, o estrogênio melhora a capacidade de aprendizado, mas somente em relação a tarefas que demandem a utilização da memória verbal.

É para essa atuação seletiva que nos chama a atenção a psicóloga Donna Korol, da Universidade de Illinois. Ela se dispôs a investigar se, em ratos jovens que tiveram os ovários removidos, doses de estrogênio exerciam influência sobre determinadas estratégias de resolução de problemas. Com esse objetivo, aplicou dois testes aparentemente semelhantes, cujas soluções, porém, demandam do cérebro a ativação de redes neuronais distintas. Em essência, os ratos tinham de aprender a encontrar comida num labirinto. No teste A, a comida fica sempre no mesmo lugar, mas altera-se o ponto a partir do qual os ratos dão início à busca. Os animais que receberam estrogênio apreenderam o princípio do teste com muito mais rapidez do que os companheiros privados do hormônio.

Mas esses últimos foram muito superiores no teste B, em que o ponto de partida também é alterado, mas o rato sempre encontra sua comida, bastando para tanto que ele vire à direita no primeiro corredor. De acordo com Donna, o fato de os animais com deficiência de estrogênio terem aprendido a cumprir a tarefa com mais rapidez contradiz a noção de que o hormônio prestaria ajuda generalizada ao órgão do pensamento. “Se o estrogênio melhora nossa capacidade geral de aprendizado, então os resultados dos dois testes teriam de ser iguais.” Na opinião da psicóloga, o nível do hormônio sexual determina, antes, a estratégia cognitiva com o auxílio da qual o cérebro se lança à solução de um problema. “O estrogênio de fato favorece algumas formas de aprendizado, mas inibe outras.” E, mais importante: “Sem esse mensageiro químico, o cérebro trabalha de modo diferente, mas continua trabalhando bem”.

Os estudos de Donna Korol lançam nova luz sobre o declínio da capacidade cognitiva que muitas mulheres sentem após a chegada da menopausa. Em seu livro Animal researchand human hea/th, Don na defende a tese de que o nível decrescente de estrogênio pura e simplesmente altera o modo como o cérebro trabalha – direcionando-o para pontos que são fortes sobretudo nos homens, como a capacidade de orientação espacial. “Depois da menopausa, as mulheres poderiam melhorar seu desempenho em muitas tarefas se encarassem a coisa toda de maneira diferente”, explica. “Mas percebem as alterações provocadas pelo declínio hormonal como piora.”

Descobrir e fazer uso de novas forças decerto não é fácil, e Donna Korol ainda não ofereceu comprovação definitiva de sua teoria. Ainda assim, seus resultados parciais ensejam algumas dúvidas quanto à ideia de que, depois da menopausa, o cérebro feminino se beneficiaria como um todo de uma espécie de terapia de reposição de estrogênio. Certo, porém, é que o estrogênio pode faze r muito mais que dar às mulheres aparência diferente da masculina. Por meio de receptores em regiões cerebrais como o hipocampo, o mais importante hormônio sexual feminino contribui para muitas “pequenas diferenças” no modo de pensar e nos talentos específicos de homens e mulheres. Mas enquanto os efeitos do estrogênio sobre o cérebro não forem conhecidos com exatidão, é necessário conter a euforia. Ou não servem de advertência as acaloradas discussões da atualidade a respeito da ampliação do risco de câncer em decorrência de terapias de reposição hormonal?

 

 

ULRICH KRAFT – é médico e colaborador da revista GehirnflGeist.

GESTÃO E CARREIRA

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A JUNIORIZAÇÃO DO RH

Profissionais cada vez mais jovens ingressam na área de recursos humanos. Mas a falta de experiência pode afetar as boas práticas de gestão de pessoas e o negócio da companhia.

 Há algum tempo, a pouca idade deixou de ser um impeditivo para um profissional assumir cargos de gerência, diretoria e até presidência. Segundo uma pesquisa da consulto- ria Hay Group, de 2014, feita com 105 empresas com faturamento acima de 50 milhões de reais, um em cada dez CEOs tinha menos de 40 anos de vida. Mas, se antes a procura pelos mais jovens se dava porque faltava gente para preencher as vagas em aberto, com a crise e a necessidade de reduzir custos, o motivo se tornou outro: os salários mais baixos. Um exemplo disso é que na contramão do crescente desemprego entre os profissionais com carteira assinada, de acordo com a Catho, as oportunidades para os estagiários aumentaram em 36%, em 2015. O fenômeno da juniorização da mão de obra, já vivida por outras áreas, também chegou ao departamento de recursos humanos. Em 2015, das companhias listadas entre as 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar (pesquisa que é realizada há 20 anos pela revista VOCÊ S/A, em parceria com a Fundação Instituto de Administração), apenas 23% do time de RH tinha mais de 40 anos. “A tecnologia fez com que alguns processos demandassem profissionais mais executores. Aliado a isso, veio a necessidade de enxugar orçamentos. Diminuíram-se os cargos seniores e aumentaram os analistas”, diz José Augusto Minarelli, presidente da consultoria de gestão Lens & Minarelli. Um dos riscos é de a área de recursos humanos perder o status estratégico que levou anos para construir — e voltar a ser cada vez mais operacional.

DESPREPARO GERA DESAMPARO

A juniorização da mão de obra acontece de forma mais acelerada em alguns negócios, como os de tecnologia e serviços. “Em setores mais ágeis isso já acontecia, por- que essas empresas tinham uma cultura de mais rapidez e menos profundidade. Entretanto, a crise vem fazendo com que ramos mais tradicionais, como a indústria, também passem por isso”, afirma Vicky Bloch, coach e consultora empresarial. O varejo é um dos segmentos que passavam por uma mudança de perfil dos funcionários e que teve de acelerar a troca por conta da crise, que reduziu o consumo dos brasileiros. Carolina Bussadori, de 35 anos, assumiu a gerência de RH das 182 lojas de roupas da TNG em outubro do ano passado. Não só ela, mas todo o seu time é jovem, sendo que a profissional mais velha tem apenas 26 anos de idade. A juventude, embora ajude o negócio, traz as suas dificuldades. “Às vezes é preciso agir como mãe, estabelecer regras e colocar prazos. Explicar o porquê e dar feedback também é fundamental”, diz Carolina. Além da maior demanda da sua equipe, a executiva sente na pele o peso dos anos de vida a menos. “Li- dar direto com o CEO possibilita uma redução dos processos burocráticos, mas muitas vezes faz com que eu me sinta solitária na hora de tomar decisões”, afirma. A sensação de abandono é comum a outros profissionais com menos experiência. “Os executivos jovens ficam perdidos, sem amparo. Muitas vezes, perdem as perspectivas profissionais e só encontram as respostas para os seus dilemas em serviços fora da empresa, como consultorias de carreira”, diz Simone Madrid, presidente da People Executive, empresa de busca de executivos.

INEXPERIÊNCIA OU IMATURIDADE?

Além da falta de bagagem profissional, há quem defenda que os jovens de atualmente são ainda mais imaturos do que os do passado. Alguns psicólogos americanos afirmam que a adolescência hoje em dia vai até os 25 anos — e não mais até os 18. Isso por- que a neurociência tem defendido a ideia de que a maturidade emocional só atinge seu máximo depois que o córtex pré-frontal esteja totalmente desenvolvido. Assim, não é exagero afirmar que as organizações estão, literalmente, contratando adolescentes. “Falta-lhes maturidade comportamental para olhar para o negócio como um todo. Eles são mais ansiosos, ouvem menos e às vezes ficam presos apagando incêndios, sem construir estratégias de longo prazo”, diz Simone. Minarelli, que sente essas deficiências toda vez que precisa negociar com uma empresa, sabe que não se pode culpar os jovens, uma vez que “realizações e repertório são fruto de um processo natural que requer experiência”, algo que só adquirimos ao longo da vida. O problema é que encher a área de recursos humanos com profissionais inexperientes representa um risco não só para o próprio RH como também para o negócio. “As organizações podem se deparar com atrasos e trabalhos superficiais, entre outras falhas”, afirma Minarelli.

Foi o que aconteceu na distribuidora de combustível Alesat. Lá, o quadro de funcionários total tem um percentual significativo de jovens, com 73% sendo pessoas com menos de 30 anos. Na área de RH esse número salta para 88%. Dos 65 profissionais que trabalham no departamento, 54 deles não chegaram a três décadas de vida. A pouca idade logo teve reflexos. Os jovens se mostravam superconectados, e o que poderia ser um benefício se tornou algo prejudicial. Segundo Vladimir Barros, gerente de recursos humanos da empresa, eles atrasavam as tarefas e tinham dificuldade para se concentrar nas atividades do trabalho. “O gestor teve que assumir um papel mais próximo e orientar o jovem a usar menos as redes sociais, por exemplo”, diz Barros. Os jovens da Alesat também não aceitavam os retornos negativos, se mostravam insatisfeitos nas avaliações de performance e contrariados com as orientações para mudar comportamentos. “Fizemos diversos treinamentos com os gestores e os trainees para melhorar a forma como davam e recebiam feedback”, afirma Barros. A solução acabou ajudando em outro ponto: a rotatividade dos jovens. De três anos para cá, a retenção dos funcionários que ingressam pelo programa de trainee chegou a quase 100%.

TALENTOS PERDIDOS

Outro risco de ter uma equipe com poucas rugas é o de per- der bons e talentosos profissionais, simplesmente por eles não aguentarem a pressão. Isso acontece especialmente quando são promovidos. “Eles podem ficar taxados de incompetentes, mas na verdade não tiveram tempo de se preparar”, afirma Rafael Souto, da consultoria Produtive. A insegurança dos mais jovens foi algo com que Julia Fernandes, diretora de recursos humanos do Citibank, teve que lidar. Ao assumir a liderança de gestão de pessoas do banco, em 2014, a executiva trocou metade dos superintendentes de RH, que antes possuíam mais de 40 anos, por profissionais na faixa dos 30 anos. Com o tempo, percebeu que os novatos estavam mais tímidos e que tinham receio de expor a opinião para alguns colegas – que até pouco tempo atrás eram seus chefes. A solução foi apelar para o coaching, realizado pela própria Julia, semanalmente. “Eu quero que eles proponham soluções, as- sumam responsabilidades. É um risco calculado”, afirma a executiva. Mesmo assim, ela mantém pelo menos um profissional mais experiente como braço direito.

A melhor decisão é manter esse mix de gerações. Assim, o líder de RH irá conseguir o equilíbrio entre a inovação e o entusiasmo dos jovens aliado ao conhecimento e à maturidade dos mais experientes.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2:13-15

A Fuga para o Egito

Temos aqui a fuga de Cristo para o Egito, a fim de escapar da crueldade de Herodes, resultado das indagações dos magos a seu respeito. Antes disso, a obscuridade em que se encontrava havia sido a sua proteção. Foi apenas uma pequena homenagem (com parada à que deveria ter sido oferecida) aquela que foi prestada a Cristo na sua infância; mas, mesmo assim, ao invés de ser reverenciado pelo seu povo, tal homenagem serviu, antes, para expô-lo.

Agora observe:

I – A ordem dada a José em relação a essa fuga (,·.13). José não conhecia os perigos aos quais a criança estava exposta, nem como fugir. Mas, através de um anjo, Deus explicou num sonho o que ele deseja fazer, da mesma maneira como havia feito anteriormente, no capítulo 1, versículo 20. José, antes de seu comprometimento com Cristo, não tinha tido tanta vontade de conversar com os anjos como agora. Note que aqueles que estão espiritualmente relacionados com Cristo pela fé têm uma comunhão e um relacionamento com o céu – algo que, anteriormente, lhes era totalmente estranho.

1.Aqui José é informado sobre a natureza do seu perigo: Herodes iria procurar os infantes para destrui-los. Note bem, Deus conhece todos os propósitos e projetos cruéis dos inimigos da sua Igreja. “Conheço… o teu furor contra mim”, disse Deus a Senaqueribe (Isaias 37.28). Jesus era ainda muito jovem quando foi envolvido pelo sofrimento! Geralmente, mesmo aqueles cuja maturidade é perturbada por perigos e fadigas tiveram urna infância tranquila e agradável. Mas não foi isso que aconteceu com nosso bendito Jesus: sua infância e seus sofrimentos começaram ao mesmo tempo. Ele nasceu como um homem seriamente esforçado, assim como Jeremias (Jeremias 15.10), que foi santificado antes de sair do ventre (Jeremias 1.5). Tanto Cristo, que é a cabeça, como a Igreja, que é o seu corpo, estão de acordo em dizer: “Muitas vezes eles me afligiram, desde a minha juventude”. A crueldade do Faraó impõe-se sobre os filhos dos hebreus, e um grande dragão vermelho está pronto para devorar o menino assim que nascer (Apocalipse 12.4).

2.Ele foi informado sobre o que devia fazer para escapar ao perigo. Tornar o pequeno infante e fugir para o Egito. Assim, muito cedo Cristo nos dá um exemplo das suas próprias leis (cap. 10.23). “Quando for perseguido numa cidade, fuja para outra”. Aquele que veio para morrer por nós, embora sua hora ainda não tivesse chegado, fugiu para salvar sua vida. A preservação da vida, por ser um ramo da lei da natureza, é parte eminente da lei de Deus. Fugir, mas por que o Egito? O Egito era conhecido pela sua infamante idolatria, tirania e inimizade com o povo de Deus: havia sido o berço da escravidão de Israel e particularmente cruel para com seus filhos. No Egito, assim como em Ramá, Raquel havia chorado pelos seus filhos; no entanto, essa nação havia sido indicada para ser um lugar de refúgio e apoio do menino Jesus. Veja que Deus, quando assim deseja, pode fazer com que o pior lugar do mundo possa ser vir aos melhores propósitos, pois a terra pertence ao Senhor e Ele faz com ela o que bem entende. Às vezes, a terra ajuda a mulher (Apocalipse 12.16). Deus, que fez de Moabe o refúgio dos seus proscritos, transformou o Egito num refugio para o seu Filho. Podemos considerar isso:

2.Como prova de fé para José e Maria. Eles poderiam ser tentados a pensar: “Se essa criança é o Filho de Deus, como nos foi dito, será que não teria outra forma de se proteger contra um homem que é um verme, a não ser através de uma fuga inglória e ignóbil como essa? Será que não poderia convocar legiões de anjos para serem seus guarda-costas, ou de querubins com espadas flamejantes, a fim de conservar sua árvore da vida? Não poderia atingir mortalmente a Herodes, ou secar a mão que se estende contra ele, e assim nos poupar o trabalho dessa viagem?” Havia pouco tinham sido informados de que seu filho seria a glória do povo de Israel; a terra de Israel iria tão cedo se tornar demasiado perigosa para Ele? Mas sabemos que eles não fizeram nenhuma dessas objeções; quando sua fé foi testada, ela se mostrou firme. Eles acreditavam que esse era o Filho de Deus e, embora não vissem nenhum milagre previamente forjado para a preservação da sua vida, foram levados a empregar os meios mais comuns para alcançá-la. José havia recebido a grande honra de ser o marido da abençoada virgem, mas essa honra exigia muita atenção, assim como acontece com todas as honras desse mundo. José precisava tornar o pequeno infante e carregá-lo para o Egito. Agora percebemos as providências de Deus para com essa criança e sua mãe ao nomear José para ser seu parente próximo. Agora o ouro que os magos haviam trazido iria ser de grande utilidade para o sustento deles. Deus prevê as dificuldades do seu povo e, de antemão, procura atendê-las. Deus anunciou que seus cuidados e sua orientação iriam continuar quando disse: “Foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga”. Dessa forma, Ele manterá o seu povo numa permanente dependência dele. Como um exemplo da humilhação do nosso Senhor Jesus. Assim como não havia lugar na hospedaria de Belém, também não havia para Ele nenhum lugar tranquilo na terra da Judéia. Dessa forma, Ele foi banido da terra de Canaã para que nós, que pelo pecado fomos banidos da Canaã celestial, pudéssemos a ela retornar. Se nós, e nossos filhos, nos encontrarmos alguma vez em dificuldades, devemos nos lembrar das dificuldades enfrentadas por Cristo na sua infância, e assim enfrentarmos as Como sinal do desagrado de Deus para com os judeus, que pouco se importaram com Ele. É justo que Deus abandone aqueles que o desprezam. Temos aqui também a realidade dos seus favores para com os gentios, a quem os apóstolos iriam levar o Evangelho depois de as boas novas terem sido rejeitadas pelos judeus. Se o Egito recebeu Jesus quando foi forçado a fugir da Judéia, não vai levar muito tempo par a que seja dito: ” Bendito seja o Egito, me u povo” (Isaias 19.25).

II – A obediência de José a essa ordem (v. 1 4). A viagem iria ser cheia de perigos e dificuldades, tanto para o pequenino ser como para sua mãe: tinham poucos recursos e provavelmente iriam enfrentar uma fria acolhida no Egito. No entanto, José não desobedeceu à visão celestial, não fez qualquer objeção nem prolongou sua desobediência. Assim que recebeu a ordem, levantou-se imediatamente e partiu durante a noite, segundo parece, ainda naquela mesma noite. Observe que aqueles que desejam provar sua obediência devem fazê-lo rapidamente. José partiu, da mesma maneira que seu pai Abraão, debaixo de uma implícita dependência de Deus, sem saber para onde ia (Hebreus 11.8). José e sua esposa, mesmo dispondo de muito pouco, nada tinham com que se preocupar durante a jornada. Toda abundância dificulta qualquer fuga. Se as pessoas ricas têm uma vantagem em relação aos pobres por causa das suas riquezas, os pobres têm vantagem sobre os ricos quando são chamados a se separar daquilo que possuem. José “tornou o menino e sua mãe”. Alguns observam que o nome da criança é mencionado antes, como sendo a pessoa principal, e Maria é chamada não de esposa de José, mas, com grande dignidade, de mãe daquela criança. Es se não foi o primeiro José a ser levado de Canaã para o Egito à procura de um abrigo contra a ira dos seus irmãos; esse José deveria ter uma boa acolhida nessa nação, em nome do José que o precedeu.

Se pudermos dar crédito à tradição, de terem ido a um templo quando da sua entrada no Egito, todas as imagens dos seus deuses foram derrubadas por um poder invisível e caíram ao chão, como Dagom perante a arca, de acordo com essa profecia: “Eis que o Senhor. .. virá ao Egito; e os ídolos do Egito serão movidos perante a sua face” (Isaias 19.1). Eles permaneceram no Egito até a morte de Herodes, que, segundo alguns, levou sete anos, segundo outros, menos ainda. Lá eles se mantiveram longe do Templo, dos seus serviços e estavam no meio dos idólatras. Mas Deus os havia enviado a esse lugar, e mostraria misericórdia a esse sacrifício. Embora estivessem longe do Templo do Senhor, tinham ao seu lado o Senhor do Templo. Pode ser que os justos sejam forçados a suspender rituais ordenados pelas leis de Deus, estando entre iníquos; porém jamais devem se entregar ao pecado. Uma situação como essa não pode ser outra coisa senão um a causa de tristeza para os justos.

 

III – O cumprimento das Escrituras como está em Oséias 11.1: “Do Egito chamei o meu filho”. De todos os evangelistas, Mateus é o que mais se preocupou com o cumprimento das Escrituras na pessoa de Cristo. Seu Evangelho foi publicado primeiramente entre os judeus e isso iria lhe acrescentar muito mais força e importância. Essas palavras do profeta provavelmente se referiam à libertação de Israel do Egito, como propriedade e primogênito de Deus (Êxodo 4.22 ). Mas aqui, o Egito foi aplicado corno uma analogia a Cristo, a Cabeça da Igreja. Observe que nas Escrituras existem copiosas realizações, muito bem ordenadas em todas as coisas. Deus está, diariamente, cumprindo as Escrituras. Elas não devem ter uma interpretação particular, mas receber um entendimento amplo. “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho”. Aquele que lê essas palavras deve, nos seus pensamentos, não só olhar para trás, mas também para o futuro. “O que foi, isso é o que há de ser” (Eclesiastes 1.9). Isto nos é anunciado apenas pela forma da expressão, pois não está dito: Eu o chamei, mas: Chamei meu filho do Egito. Veja bem, não era nenhuma novidade que os filhos de Deus estivessem no Egito, uma terra estranha, numa casa de escravidão, mas de lá eles seriam resgatados. Eles poderiam se esconder no Egito, mas lá eles não ficariam. Todos os eleitos de Deus, sendo por natureza filhos da ira, nascem num Egito espiritual e, na sua conversão, são efetivamente resgatados. Alguém poderia objetar contra Cristo, que Ele esteve no Egito. O Sol da Justiça deverá se levantar da terra das trevas’ Isso não está nos mostrando uma coisa estranha; Israel foi resgatado do Egito, para ser levado às mais elevadas honras. E a mesma coisa volta a ocorrer de novo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O ciclo das pequenas maldades

O CICLO DAS PEQUENAS MALDADES

Sucessões de atitudes egoístas se formam mais facilmente do que sequências de gentilezas; estudo revelou que quando nos sentimos prejudicados, tendemos a nos vingar em outras pessoas, ainda que não tenham sido responsáveis por nosso desconforto.

 Não é raro ouvir casos de pessoas comuns que decidem criar correntes do bem. Uma vez vi acontecer na estrada: um motorista decidiu pagar o pedágio para o próximo da fila, que fez o mesmo com o de trás e assim por diante. Bom de ver. Recentemente, na véspera de Natal, mais de mil clientes de uma loja Starbucks, em Connecticut, concordaram em pagar a conta de outro. A atitude inspirou muita gente, que decidiu repetir a dose em lavanderias, lanchonetes e lava-rápidos em várias cidades dos Estados Unidos. Há boas razões para acreditar que esses atos de bondade casuais sejam com uns, a ponto de chamar a atenção de pesquisadores que buscam entender os mecanismos pelos quais a generosidade nos torna mais felizes e saudáveis.

No entanto, qualquer um que tenha experimentado a gentileza de estranhos provavelmente também já se sentiu ultrajado por outros tantos, seja por um motorista que não respeitou o trânsito ou um mal-educado que cortou a fila no banco. Infelizmente, a pesquisa que conduzi sugere que temos maior propensão a criar ciclos de ganância do que círculos de ações que nos movem para estender a mão ao próximo.

Duvida? Muito bem, imagine a seguinte situação: você é informado de que alguém recebeu US$ 6 e deverá lhe dar uma parte, mantendo o resto para si. Mas, na hora de verificar o envelope com a quantia, percebe que não lhe deixaram nada. Nem um centavo sequer. Pense como se sentiria e que palavras usaria para descrever essa pessoa.

Agora, considere que foi você quem recebeu US$ 6 e deve doar uma parte para um terceiro, guardando o restante para si. Quanto colocaria no envelope? Com isso em mente, imagine outro cenário. E se o participante anterior tivesse ofertado a quantia total? Ou entregue metade para cada um? Como isso afetaria seu comportamento?

Eu e meus colegas, os psicólogos Kurt Gray, da Universidade da Carolina do Norte, Chapei Hill, e Adrian F. Ward, da Universidade do Colorado em Boulder, submetemos centenas de voluntários a uma das três situações (que denominamos ganância, generosidade ou justiça) e os resultados não foram muito animadores. Mas, antes, vamos à boa notícia. Como descrevemos em um artigo científico que deve ser publicado ainda este ano, descobrimos que os participantes que se sentiram tratados com justiça foram mais propensos a agir da mesma forma com outros. Aqueles que receberam metade da quantia passaram 50% para a frente em sua vez de escolher. Porém, os voluntários que ganharam o valor integral não retribuíram com a mesma generosidade: em média, estavam dispostos a doar apenas metade, o que revela que tendemos a nos comportar apenas de maneira equitativa.

A má notícia é que aqueles que foram afetados pela ganância do outro foram mais propensos a “pagar na mesma moeda”, ofertando ao próximo pouco mais de US$ l, em média. Ou seja: comportamentos egoístas parecem nos marcar mais do que atitudes generosas.

INTERROMPENDO A REPETIÇÃO

Algo interessante a respeito das correntes que beneficiam desconhecidos é que, do ponto de vista da ciência, parece não haver boas razões para compensar alguém dessa maneira. Afinal, não há intenções prévias em relação ao destinatário da boa ação nem indicações de que haverá oportunidade de conhecê-lo no futuro. Mas, certamente, faz sentido “dar o troco”: se não recebemos nada de uma pessoa e, em seguida, tendo a chance de dividir US$ 6 com ela decidimos não doar nenhum centavo, talvez a ensine a ser mais gentil conosco no futuro. No entanto, descontar em alguém o erro de outro (como muitos fizeram em nossa pesquisa) parece ser injusto e ilógico.

Nossa hipótese era de que somos pro­ pensos a agir com ganância porque emoções negativas tendem a exercer mais influência sobre nós do que as positivas. Para termos certeza, submetemos um novo grupo de participantes a um experimento similar, mas em vez de dinheiro deveriam compartilhar tarefas agradáveis (fazer associação de palavras divertidas) ou monótonas (circular vogais em trechos densos, no idioma italiano).  Um desconhecido distribuiu as atividades. Alguns receberam tarefas estimulantes, outros foram encarregados de atividades pouco interessantes e um terceiro grupo deveria realizar as duas incumbências. Imediatamente depois, os participantes preencheram um questionário que avaliava seu estado emocional. Em seguida, puderam atribuir outro conjunto de atividades (no mesmo sentido) para outra pessoa.

Os resultados revelaram que tendemos a lesar o próximo como uma maneira de lidar com emoções negativas por termos nos sentido prejudicados anteriormente. Se não podemos dar o troco ao responsável, fazemos outra pessoa qualquer “pagar” por nosso desconforto.

Obviamente isso não quer dizer que não podemos propagar boas ações. O exemplo da loja Starbucks revela que é possível criar notáveis correntes de generosidade, mas somente em certas condições: a sensação de grupalidade (ou pertencimento) é uma delas. O sociólogo Robb Willer e seus colegas Francis). Flynn e Sonya Zak, da Universidade Stanford, realizaram uma pesquisa sobre o que chamaram de Freecycle (ciclo gratuito, em tradução livre), um site onde as pessoas posta m itens (desde produtos baratos, como material de escritório, até objetos caros, como carros) que desejam doar e receber. A principal característica da plataforma virtual é que tudo deve ser doado, sem remuneração ou reciprocidade. Não é possível ganhar dinheiro ou doar algo para receber outra coisa. Os pesquisadores entrevistaram 805 usuários em relação ao serviço. Eles também responderam perguntas que avaliavam o grau de identificação que tinham com a comunidade Freecycle. Os resultados mostraram que aqueles com forte senso de solidariedade eram mais propensos a contribuir com a rede. O sentimento de pertencer a um grupo altruísta (relacionado à própria identidade) influenciou o comportamento.

Mas, no cotidiano, é inegável que nem sempre interagimos com pessoas que compartilham as mesmas ideias. Nesses casos, infelizmente, parece ser mais comum ter de lidar com falta de generosidade alheia – e, claro, a nossa própria. Nesse sentido, pesquisas no campo no qual temos trabalhado ajuda a nos lembrar de que podemos escolher: não precisamos ser o próximo elo de uma cadeia perpétua de negatividade quando os outros nos tratam mal. E felizmente, há saídas para o comportamento reativo que nos priva de autonomia. Descobrimos, por exemplo, que focar em algo positivo, mesmo que seja em uma simples cena divertida de desenho animado, por exemplo, pode aliviar a sensação de dano e, consequentemente, nos encorajar a não passar o mal-estar adiante.

Então, da próxima vez que alguém cortar sua frente no trânsito, faça a experiência: cante sua música favorita em alto em bom som. É bem provável que isso ajude a interromper ciclos de atitudes egoístas – e você descubra que pode fugir dos hábitos e fazer algo diferente.

MICHAEL I. NORTON é professor associado de administração de empresas da Harvard Business School e coautor de Happy money: The science of smarter spending (Simon & Schuster, 2013).

GESTÃO E CARREIRA

Passing the Torch

O DESAFIO DA SUCESSÃO

Ter um substituto interno para as posições-chaves do negócio é prioridade para seis em cada dez líderes de recursos humanos. Apesar disso, metade das companhias acaba contratando de fora quando algum executivo deixa o cargo.

Quatro de cada dez empresas não têm nenhum executivo para assumir de imediato a liderança do negócio, caso algo aconteça com o atual presidente. E pouco mais de 30% contam com um único nome na manga como alternativa ao principal líder. Isso é o que revela o relatório CEO Succession Planning, preparado pela consultoria de busca executiva Heidrick & Struggles, em parceria com o Centro de Governança Corporativa da Universidade de Stanford. Segundo o documento, o déficit não se concentra exclusivamente no topo da pirâmide, uma vez que apenas 8% das companhias possuem um banco forte de candidatos para até dois níveis abaixo do C-level (CFO, CIO, CEO).

Não à toa, as corporações levam em média 90 dias para indicar um novo chefe quando o atual deixa a cadeira. Segundo um estudo da consultoria Korn Ferry, metade das companhias acaba precisando recorrer ao mercado para encontrar um nome.

Essa operação é arriscada. Um profissional de fora leva duas vezes mais tempo para ser produtivo em relação a quem já faz parte da equipe. E companhias com líderes externos têm a metade do lucro e da receita daquelas que contam com sucessores internos preparados. “Muitas vezes, um dirigente que vem de fora irá estressar a cultura corporativa e mudar a estratégia definida”, diz Rosa Bernhoeft, diretora da Alba Consultoria, especializada em desenvolvimento da liderança. Segundo ela, há fortes indícios de que líderes com 15 anos de casa possuam 70% mais chance de êxito nas transações.

Por conta desses dados, ter um substituto interno para as posições-chaves do negócio é prioridade para seis em cada dez líderes de recursos humanos (CHRO); e isso ganhou mais importância nos últimos cinco anos, de acordo com 63% dos CHROs entrevistados pela consultoria de benchmark global CEB. Mesmo assim, cerca de 40% dos executivos de RH e 35% dos de negócios afirmam que eliminar o atual processo não mudaria em nada a qualidade dos sucessores. O relatório da CEB mostra que, de um grupo de dez líderes, menos de três foram pré-identificados em um mapeamento desse tipo. Ao que parece, os programas de sucessão não estão funcionando.

TAPA-BURACO

Um dos problemas dos planos de sucessão é que eles são vistos como um tapa-buraco para as posições que ficam vagas. São tidos mais como uma saída de emergência do que como algo importante para a sustentabilidade dos negócios. Essa foi uma das conclusões dos membros do Institute of Executive Development e do Rock Center of Corporate Governance, da universidade americana Stanford, ao entrevistar executivos e diretores de 20 companhias sobre seus sucessores e as práticas de desenvolvimento de liderança.

A maioria dos programas funciona assim: a corporação tem um vice-presidente de finanças, por exemplo, e escolhe três ou quatro pessoas dentro daquele departamento que podem, eventualmente, assumir o posto principal; passa anos treinando os candidatos e deseja que estejam prontos quando a hora chegar. “Mas o mundo hoje não é assim tão ordenado e um plano de sucessão dessa forma não serve mais”, diz Rodrigo McCall, diretor para América Latina da CEB. Para começar, as carreiras estão dinâmicas. Segundo McCall, um terço dos líderes ocupam hoje funções que não existiam no passado, como diretoria de sustentabilidade ou de mídias sociais. No outro extremo, 3% dos cargos de chefia são eliminados ano a ano por perderem a relevância. Como um processo de sucessão iria funcionar nesse cenário?

Isso exigiria do CHRO um exercício constante de olhar para o futuro, entender quais serão as tarefas importantes e os gestores necessários daqui a alguns anos; e voltar ao passado para identificar o quadro atual e preparar as pessoas para assumirem cargos que ainda não existem.

A recomendação é conectar a sucessão à estratégia corporativa — algo raro de ver. Glaucy Bocci, diretora de gestão de talentos para América Latina da Willis Towers Watson, cita uma companhia cujo objetivo era colocar brasileiros liderando as operações no exterior, durante sua internacionalização. Quando chegou a hora de assumirem os cargos, 70% dos potenciais líderes avisaram que não queriam trocar de país. Para seguir com a meta, a corporação teve de buscar gente do mercado. “É um caso típico de desconexão com os pilares estratégicos e com o olhar para o futuro”, diz.

Quem quiser ter um plano de sucessão que faça sentido deve começar por aí.

CHEFE? NÃO, OBRIGADO

Outro ponto delicado é que a em- presa parte do princípio de que todo funcionário quer ser chefe — dificilmente alguém abriria mão do posto e dos benefícios. Mas a realidade não é essa. Uma pesquisa da Korn Ferry revela que um terço dos profissionais que estão sendo preparados para ser CEO não quer o trabalho.

Monica Longo, vice-presidente de recursos humanos para América Latina da Nivea, passou por isso recentemente. Em maio, um colaborador cotado como sucessor revelou que não estava disposto a pagar o preço. “Ele disse que o próximo passo era muito pesado, que queria ficar onde estava”, diz Monica. E não foi a primeira vez que ouviu essa frase de um potencial líder.

Ser chefe atualmente é complicado. Esses empregados precisam estar preparados para mudanças bruscas nas responsabilidades.

Precisam gerenciar equipes cada vez mais dispersas, com tarefas mais complexas. Precisam falar com mais gente para decidir algo e aprovar. E, não raro, devem acumular funções. “Ao líder cabe a decisão solitária que impacta toda a organização, as pessoas e a sociedade. E, muitas vezes, ele não terá certeza dessas decisões— ninguém tem hoje”, afirma Maximiliano Bavaresco, presidente da consultoria de gestão Sonne. Para ele, dizer que o papel do líder é “inspirar pessoas” é criar uma visão diminuta do cargo.

E, quanto mais alta a posição, mais intensa sua “agenda política”, como explica Joel Dutra, professor da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas em gestão de pessoas do país. “No nível estratégico, significa que a pessoa fica exposta socialmente. E não só ela, mas sua família. Ela tem de se relacionar com stakeholders e estar disponível para jantares e eventos. Nem sempre o profissional tem estômago para isso”, afirma Dutra.

Também é comum que as organizações considerem sucessores os que apresentam alto potencial e alto desempenho. Mas, segundo a Gallup, não há indícios de que esses profissionais serão bons chefes. A consultoria americana analisou o que funciona e o que não funciona nos planos de sucessão, com base em 40 anos de pesquisa sobre organizações e executivos de sucesso. Descobriu que líderes excepcionais tiveram carreira instável nas primeiras posições, com desempenho nem linear nem consistentemente bom. Ao contrário, a maioria viveu grandes fracassos.

Por carência de uma boa avaliação de desempenho, a maior parte das corporações simples- mente vai promovendo os funcionários. Quando o RH olha a lista de candidatos à liderança, tem 30 nomes pré-selecionados. Quando precisa, não tem ninguém. Para Mariana Abbud, líder de gestão de talentos da Korn Ferry, é necessário fazer as perguntas certas. “Além de receber o título, a mesa maior e de sentar perto da janela, o que vem junto com a liderança? Qual a capacidade de mudança desse profissional? Como ele está construindo o diferente? Qual sua habilidade para monitorar, delegar e inspirar? Qual a disposição para enfrentar desafios maiores?” Aos poucos, a lista de candidatos à sucessão vai se refinando.

Chefe to fora

RH ATRASADO

Nove de cada dez executivos de recursos humanos ainda perguntam se deveriam ou não contar aos empregados se eles são potenciais sucessores. Das 112 companhias no Brasil analisadas pela Willis Towers Watson, em 2013, 72% não abriam essas informações. Apenas 4% comunicavam para todos os níveis da liderança. No cenário atual, o CHRO deveria estar preocupado com temas mais importantes — como o acompanhamento e as métricas do programa. Joel Dutra, da Universidade de São Paulo, realizou uma pesquisa entre 2010 e 2014 nas melhores empresas para se trabalhar do país, segundo o ranking da VOCÊ S/A. Em 2010, das 150 melhores, 115 afirmavam ter um processo de sucessão estruturado. Em 2014, o número se repetiu. Dessas, Joel fez um recorde para analisar as companhias nacionais. Das 25, apenas 15 abriram os dados. E nenhuma delas mostrou ter conhecimento do que acontecia com as pessoas predestinadas. “Todo ano, elas faziam reuniões de comitê de sucessão, mas faltava um acompanhamento estruturado”, diz Dutra. Em uma, apenas um terço dos sucessores permanecia na organização 24 meses após te- rem sido indicados no programa. Dois terços tinham saído, sendo metade demitida. A empresa desconhecia a informação.

A falta de maturidade no assunto faz ainda com que posições desnecessárias sejam consideradas no planejamento sucessório. Para Glaucy, da Willis Towers Watson, a corporação deveria considerar crucial a detenção do capital intelectual — “É aí que está o risco para o negócio”, diz.

Nessa linha, um líder de RH dificilmente deveria ser visto como crítico, “tanto pela natureza do cargo quanto pela abundância de profissionais no mercado”. Acontece que muitas instituições automaticamente apontam como crucial todos os postos a partir de certo nível — simplesmente para evitar uma discussão política.

Isso adiciona complexidade e custo ao processo. Considerando o tempo despendido com atividades formais e informais de sucessão, a CEB estima que uma corporação com 200 líderes e cinco gestores de RH gaste 37 120 horas por ano tratando sobre o tema — um custo de tempo estimado em 4 milhões de dólares.

NA AGENDA DO BOARD

Não dá para tratar de sucessão apenas como um programa de gestão de pessoas. Aliás, não se deve tratá-lo nem como um “planejamento”, mas como uma gestão. A diferença está no resultado. “No planejamento, você planeja, planeja, planeja e traz a pessoa de fora”, diz Mariana Abbud, da Korn Ferry. A gestão faz com que os profissionais sejam questionados, provocados, para que, quando a empresa precisar, estejam prontos para assumir — seja lá o que for. A sucessão deve ser abordada como pilar estratégico, e constar na agenda do conselho executivo. De acordo com Rosa Bernhoeft, da Alba, algumas (poucas) companhias não só estão adicionando o tema na pauta do board como definem metas e indicadores, e os atrelam à remuneração dos conselheiros. Na fabricante de eletrodomésticos Whirlpool e na empresa de cosméticos Nivea os conselheiros acompanham de perto o tema sucessão. Na primeira, o assunto é encarado como algo a ser construído, não apenas um programa de RH. Na segunda, a nova meta foi comunicada recentemente: 90% dos presidentes de unidades e vice-presidentes precisam vir de dentro de casa.

Os candidatos não devem apenas garantir a continuidade dos negócios (preencher vagas dos que saem), mas também a “opcionalidade”, um conceito da CEB para a capacidade dos talentos de evoluir à medida que surgem novas posições de liderança ou mudanças dentro das funções. Atualmente, apenas 30% das corporações contam com um banco de profissionais preparado para a opcionalidade. “As empresas com essa abordagem têm o dobro do crescimento da receita e acabam contratando menos fora”, diz Rodrigo McCall. A consultoria de benchmark recomenda ainda que a sucessão siga os princípios de um portfólio de investimento financeiro, considerando definição de metas, seleção de investimentos, diversificação de ativos e reequilíbrio do portfólio.

Fazer o planejamento orientado às mudanças é o primeiro ponto nesse conceito. Aqui, a corporação avalia as necessidades de liderança que a levarão a atingir as metas estratégicas. A companhia química Dow vem desenvolvendo um treinamento para que seus novos líderes estejam conectados com o futuro. O programa chega ao Brasil no segundo semestre e deve ensinar a 250 líderes sobre o mundo Vuca (sigla em inglês para as palavras volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade) e como suas disrupturas estão transformando o mercado, criando tendências e impactando os negócios.

TODOS SÃO TALENTOS

Seguindo a visão de portfólio, outra recomendação é expandir a seleção dos potenciais sucessores. O costume de enxergar apenas 10% como talentos, identificados prematuramente como futuros líderes, dentro de cada silo organizacional, fica para trás. A melhor abordagem é selecionar candidatos em toda a organização — com mais transparência. Não se trata de uma questão de número, mas sim de selecionar pessoas e lhes dar experiências. Esse é o desafio da farmacêutica Roche. Há três anos, a empresa começou a divulgar em um sistema todas as oportunidades abertas mundialmente e permitiu que qualquer funcionário se candidatasse, sem avisar o chefe. Hoje, a Hoje, a Roche chega a postar até

vagas temporárias, de um ano ou três meses. “Nem sempre existe a possibilidade de ascensão, mas damos oportunidades de experiências profissionais”, diz Denise Horato, diretora de recursos humanos. Com isso, a companhia dividiu a responsabilidade de carreira com seus quase 1 500 empregados. “Quando há um mapa de sucessão, a organização tem o poder decisório de quem sentará ou não em uma cadeira. De três anos para cá, nós democratizamos esse processo.” Em vez de ter três ou quatro pessoas apontadas para as posições, agora a Roche conhece profissionais que nem cogitaria. Como mesmo os cargos de diretoria são anunciados no sistema, e candidatos de qualquer parte do mundo podem se inscrever, a Roche teve de amadurecer o processo de seleção e feedback — um aprendizado importante para o RH.

A porcentagem de vagas preenchidas internamente saiu da casa dos 20% e chegou aos 44%. Só em 2015, 21 pessoas foram transferi- das para posições internacionais. Cinco diretores, de 11, e o general manager da Roche Farma Brasil vieram de dentro da empresa. Agora a preocupação de Denise é preparar profissionais de funções inferiores, como analistas e coordenadores, para estarem prontos para cargos acima.

Além de expandir, é importante diversificar. A proposta aqui é ter um banco de candidatos aptos a encarar qualquer situação futura. Assim, a companhia teria líderes capazes de navegar tanto em tempos de crise quanto em mares de bonança, num cenário local ou internacional, num negócio em expansão ou em retração. A Whirlpool se vale do job rotation para desenvolver essa característica nos seus empregados.

Lá, quando os executivos discutem talentos, observam comportamentos e competências necessárias para chegar a determinadas funções. “Isso passa por expor a pessoa, tirá-la da zona de conforto, levar a conhecer coisas novas, estudar continuamente, construir relacionamentos internos”, afirma Andrea Clemente, atual diretora de RH da Whirlpool e um exemplo do programa. Ela entrou na empresa há 13 anos pela área de logística, passou pelo comercial e há cinco anos está em recursos humanos. A operação no Brasil é referência mundial nessa movimentação e foi responsável por tirar 9 829 pessoas de sua zona de conforto no ano passado.

Essa visão, associada ao programa de formação de liderança e da construção da sucessão, permitiu que a Whirlpool invertesse os números. Dez anos atrás, apenas 30% dos executivos sêniores eram formados dentro de casa e 70%, contratados fora. Hoje, de 70% a 80% da vice-presidência, da diretoria e dos gestores seniores são, como diz o mercado, “prata da casa”. De 20% a 30% apenas vieram do mercado.

Todos são talentos

REEQUILÍBRIO DE FUNÇÕES

Depois de expandir e diversificar, chegou a hora de reequilibrar os talentos. Ou seja, reavaliar os atuais líderes de acordo com a estratégia corporativa e as mudanças previstas.

Nos últimos anos, a Whirlpool e a Dow tentam deixar claro as atitudes que esperam dos gestores, pensando em um mundo instável. Na Whirlpool, passaram a integrar a lista comportamentos como mudar com velocidade, ser franco e transparente; na Dow entraram o líder inspirador e inovador. Na Roche, que há anos segue sete princípios da liderança, Denise considera que nada disso adianta se o profissional não fizer uma auto avaliação para descobrir se tem, “genuinamente”, interesse pelas pessoas. “Se o indivíduo não quer ser um líder assim, não adianta o board indicá-lo como sucessor”, afirma. Depois de identificar os futuros líderes, vem outra parte difícil: convencê-los a permanecer na corporação. Segundo da CEB, 55% dos candidatos à sucessão abandonam a empresa em até cinco anos.

Na Nivea, uma década atrás as saídas voluntárias giravam em torno dos 30%. Os funcionários iam embora quando já se consideravam prontos para dar o próximo passo, e o próximo passo nunca acontecia. “A pessoa dominava a tarefa, mas não era promovida, e ela ia para o mercado”, lembra Monica, vice-presidente de RH. De lá para cá, a empresa alemã melhorou as conversas sobre talentos e carreira — passou inclusive a contar quem são os predestinados a líderes; mapeou os recursos internos e as necessidades da corporação. Hoje, a subsidiária brasileira gera entre 28% e 35% de movimentações internas ou promoções ao ano. A cada dois ou três anos, o profissional recebe novas responsabilidades. Com isso, a saída voluntária em 2015 caiu para 12%.

A retenção dos talentos, acredita Rosa, da Alba Consultoria, passa por um fortalecimento do indivíduo e de sua autoconfiança, autoconhecimento, autoestima e auto direcionamento — e pela percepção de que as oportunidades na organização estão alinhadas com seus objetivos.

O futuro é uma caixa de surpresas. Para vencer o desafio da sucessão, o importante é ter pessoas preparadas para assumir posições de alta complexidade, aptas a enfrentar desafios maiores do que estão acostumadas, e dispostas a pagar o preço. Quando a organização pensa assim, não importa o cenário, ela sempre terá funcionários em prontidão para garantir a sustentabilidade do negócio.

Reequilibrio de funções

 

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2:9-12

Os Magos Adoram a Cristo

Vemos aqui a humilde visita feita por essa comitiva ao recém-nascido Rei dos Judeus, e as honras que lhe foram prestadas. Eles foram de Jerusalém para Belém, resolvidos a procurar até encontrar. Mas é muito estranho o fato de terem ido sozinhos, de não terem sido acompanhados por alguma pessoa da corte, da sinagoga, ou da cidade, mesmo que não agissem desta forma pela sua consciência, mas como prova de sua amabilidade para com eles. Ou mesmo poderiam estar tomados pela curiosidade de conhecer esse novo príncipe. Como a rainha do Sul, também esses magos do Oriente irão se levantar para julgar os homens dessa geração e condená-los, pois tinham vindo de um país distante para adorar a Cristo, enquanto os judeus, seus conterrâneos não deram sequer um passo e não foram até à cidade próxima para lhe dar boas-vindas. Os magos devem ter ficado desanimados ao encontrar aquele a quem procuravam, ao vê-lo tão negligenciado em sua própria terra natal. Será que deviam ir tão longe para honrar o Rei dos Judeus, provocando os próprios judeus a lançar seu desprezo sobre Ele e sobre nós? Mas eles mantiveram sua decisão. Observe que devemos continuar a servir a Cristo, mesmo se estivermos sozinhos; a despeito do que os outros façam, devemos servir ao Senhor. Se eles não forem para o céu conosco, não devemos ir para o inferno com eles.

Agora:

I – Veja como eles encontraram Cristo através da mesma estrela que haviam visto no seu próprio país (vv. 9,10). Observe:

1.Como foram bondosamente guiados por Deus. Na primeira aparição da estrela, ficaram sabendo onde poderiam indagar sobre esse Rei, mas ela então desapareceu, e a eles restou apenas adotar os métodos habituais para levar adiante a sua procura. Observe que não se deve esperar receber qualquer ajuda extraordinária quando temos à mão os meios habituais. Bem, eles haviam perseguido esse objetivo até onde podiam, haviam feito a viagem a Belém, mas Belém é uma cidade populosa. Onde iriam encontrá-lo, quando lá chegassem? Agora estavam perdidos, não sabiam mais o que fazer, mas sua fé não tinha acabado, acreditavam que Deus, que os havia levado até lá com sua palavra, não os abandonaria, e isso Ele não fez. Observe que a estrela que haviam visto no Oriente estava à sua frente. Não esqueça, se formos até o máximo que pudermos no caminho do dever, Deus irá nos dirigir e nos capacitar a fazer aquilo que sozinhos não podemos fazer. Continue a praticar e o Senhor estará contigo. Vigilantibus, non do rm i enti ­ bus, succurit lex – A lei oferece segurança, não aos indolentes, mas aos ativos. A estrela os havia abandonado por muito tempo, mas agora havia retornado. Aqueles que seguem a Deus no escuro verão que a luz foi semeada e está reservada para eles. Israel havia sido guiado por um a coluna de fogo até à terra prometida, e os magos, por uma estrela até à Semente prometida, pois ela é a própria luz, a brilhante Estrela da Manhã (Apocalipse 22.16). Deus preferiu criar uma coisa nova a deixar que aqueles que o buscam com fé e diligência se percam. Essa es trela era um sinal da presença de Deus ao seu lado, porque Ele é a luz que caminha à frente do seu povo como um Guia. Veja bem, se com fé conseguirmos ver Deus em todos os nossos caminhos, estaremos seguindo sob sua direção; Ele nos guiará com seus olhos (SaImos 32.8). Ele disse aos magos: Essa é a estrada, caminhem por ela. Há uma estrela da alva que aparece no coração daqueles que perguntam por Cristo (2 Pedro 1.19).

2.Observe com que alegria eles seguiram a direção de Deus (v. 10). Ao ver a estrela, eles ficaram tomados de indizível alegria. Agora podia m ver que não haviam se enganado e não tinham feito essa viagem em vão. A realização da vontade é uma árvore de vida. Tinham agora certeza de que Deus estava ao seu lado; os sinais da sua presença e do seu favor enchem de indizível alegria a alma daqueles que sabem como lhe dar o devido valor. Agora podiam rir dos judeus de Jerusalém que, provavelmente, haviam rido deles por causa da sua insensata viagem. Os guardas não podem dar à esposa notícias do seu amado, no entanto não faz muito que ele passou por eles, e logo irá encontrá-lo (Cantares 3.3). Não podemos esperar muito do homem, nem pouco de Deus. Que grande alegria tomou conta desses magos quando avistaram a estrela. Ninguém conhece melhor que aqueles que, depois de uma longa e melancólica noite de tentação e abandono, sob o poder do espírito da servidão, recebem, por fim, o espírito da adoção, testemunhando que são filhos de Deus. Esta é a luz que nasce em meio às trevas; é a vida que surge entre os mortos. Agora tinham razão para esperar por uma rápida visão do Cristo, do Sol da Justiça, pois haviam visto a Estrela da Manhã. Devemos nos alegrar com todas as coisas que nos mostram o caminho para Cristo. Essa estrela foi enviada para receber os magos e conduzi-los à câmara do Rei; foram apresentados pelo seu mestre de cerimônias para receber sua audiência. Deus cumpre a sua promessa de ir ao encontro daqueles que estão dispostos a se alegrar e a praticar a justiça (Isaias 64.5), e que cumprem os seus preceitos. Alegre-se o coração daqueles que buscam ao Senhor (Salmos 105.3). Note que, às vezes, Deus se compraz em favorecer os novos convertidos com sinais do seu amor, para encorajá-los, devido às dificuldades que encontram quando estão procurando andar nos seus caminhos.

 

II – Veja como se dirigiram a Ele ao encontrá-lo (v. 11). Podemos bem imaginar a expectativa de encontrar esse infante real que, embora desprezado pela nação, havia sido reverenciado em casa. E como ficaram desapontados ao descobrir que uma choupana era o seu palácio, e que sua pobre mãe era todo o séquito que possuía! Seria esse o Salvador do mundo? Seria esse o Rei dos Judeus, o Príncipe dos reis da terra? Sim, era Ele mesmo, aquele que embora fosse rico, em nosso nome havia se tornado pobre. Entretanto, esses magos eram bastante sábios e puderam ver através desse véu e perceber nesse desprezado infante a glória do Filho Unigênito do Pai. Portanto, não se sentiram decepcionados ou enganados na sua pesquisa e, tendo encontrado o Rei que procuravam, lhe ofertaram primeiro a sua pessoa, e depois as suas dádivas.

1.Eles se apresentaram a Ele; prostraram-se e o adoraram. Não ficamos sabendo se dedicaram tantas honras a Herodes, embora ele estivesse ocupando o apogeu da grandeza real. Porém, a esse infante foram dadas todas essas honras, não só como rei (nesse caso, teriam feito o mesmo a Herodes), mas como um Deus. Observe que todos que encontram Cristo se prostram perante Ele, o adoram e se submetem a Ele. Ele é o nosso Senhor e devemos adorá-lo. Essa é a sabedoria dos mais sábios dos homens. Com isso, mostram seu conhecimento de Cristo, o conhecimento de si mesmos e seus verdadeiros interesses, se forem fiéis e humildes adoradores do Senhor Jesus.

2.Eles apresentaram a Ele as suas ofertas. Nas nações orientais, as pessoas oferecem presentes quando prestam homenagem aos seus reis; essa é a mencionada submissão dos reis de Sabá a Cristo (SI 72.10). Eles trarão presentes e oferecerão dádivas (veja Isaias 60.6). Veja que, em relação a nós mesmos, devemos oferecer tudo que temos a Jesus Cristo e, se formos sinceros ao nos submetermos a Ele, estaremos dispostos a nos separar daquilo que nos é mais caro e mais valioso para oferecer a Ele e por Ele. As nossas dádivas nem seriam aceitas, se primeiro não oferecêssemos a nós mesmos como sacrifícios vivos. Deus respeitou Abel e as suas ofertas. As dádivas que os magos ofereceram eram ouro, incenso e mirra; ofertas que pode riam ser transformadas em dinheiro. A Providência havia enviado esse oportuno alívio para José e Maria em sua presente condição de pobreza. Essas dádivas eram produtos do seu próprio país. Devemos honrar a Deus com as dádivas que dele recebemos. Alguns acreditam que havia algum significado nesses presentes. Eles ofereceram ouro, reconhecendo que o infante era um rei e assim era digno de receber tributos: a “César as coisas que são de César”. O incenso, reconhecendo-o como Deus, pois eles honravam a Deus com a fumaça do incenso. E a mirra porque era um homem, e como tal deveria morrer; pois a mirra era usada para embalsamar os corpos mortos.

III – Veja como o deixaram depois de terem prestado suas homenagens (v.12). Herodes havia recomendado que trouxessem notícias das descobertas que fizessem e é provável que assim acontecesse, caso não tivessem recebido ordens ao contrário, pois não suspeitavam ser usados como ferramentas de um iníquo desígnio. Aqueles que se comportam bem e com sinceridade são facilmente levados a acreditar que os outros também o são e ignoram a verdadeira maldade do mundo; mas o Senhor sabe como libertar os justos da tentação. Não sabemos se os magos haviam prometido voltar para Herodes e, caso tivessem, isso deve ser visto com a devida ressalva, isto é, se Deus permitisse. Mas Deus não lhes permitiu, impedindo a maldade que Herodes havia destinado ao menino Jesus e a aflição que os magos teriam sentido pelo fato de terem sido um involuntário acessório dessa maldade. Eles foram prevenidos por Deus, por intermédio de “divina revelação”. Alguns acreditam que haviam pedido uma orientação a Deus, e que esta foi a resposta. Veja que, se pedirem conselhos a Deus, aqueles que agem cautelosamente e têm medo do pecado e das suas ciladas, serão levados para o caminho do bem. Os magos foram aconselhados a não voltar para Herodes, nem para Jerusalém. Aquele povo seria indigno de ter notícias a respeito de Cristo, pois tiveram a oportunidade de vê-lo com os seus próprios olhos, e não o quiseram. Assim, os magos partiram para o seu próprio país, percorrendo caminhos diferentes a fim de levar as notícias aos seus irmãos. No entanto, é estranho que nunca mais ouvimos falar deles, e que nem eles ou os seus tenham depois visitado o infante no Templo, aquele que haviam adorado no berço. Entretanto, a orientação que receberam de Deus para o seu retorno seria uma confirmação adicional da sua fé nessa criança, como sendo o Senhor do céu.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Você é normal

VOCÊ É NORMAL?

O DSM, Manual de Diagnósticos da associação americana de Psiquiatria, tem papel importante na definição das doenças psíquicas. Em sua quinta versão, a publicação ainda provoca grandes discussões. Críticos dizem que a cada nova edição o limite entre a sanidade e a doença se tornam mais confusos.

 Era uma vez uma doença mental chamada melancolia. Alguns também a denominavam de “depressão endógena”, pois acreditavam que surgia por motivos imperscrutáveis, enquanto a depressão “normal” era deflagrada geralmente por golpes do destino, fatos externos. William James (1842-1910), um dos fundadores da psicologia moderna, considerava a melancolia um “sofrimento da alma totalmente desconhecido da vida saudável”. Sentimentos de culpa e desesperança caracterizavam a patologia, assim como um medo exacerbado da ruína iminente.

Mas, desde 1980, a melancolia não existe mais. Na terceira edição da publicação americana de diagnósticos DSM (Diagnosticand Statistical Manual of Mental Disorders, em português

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), as duas formas de depressão passaram a ser resumidas em uma. Considerado por psiquiatras do mundo todo como um referencial dos transtornos psíquicos, o DSM também influencia, em sua classificação, o índice de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), válido no Brasil, o CID, do inglês lnternational statistical classification of diseases).

Antes de a melancolia ser banida do catálogo dos tormentos da psique, importantes psiquiatras discutiram a questão durante anos. Afinal, venceu a facção que via nela apenas uma sutil variante da depressão – não claramente diferenciável de suas outras manifestações. Isso, porém, é contestado ainda hoje por grupos de especialistas proeminentes. Um dos líderes dessa batalha é o professor de psiquiatria Gordon Parker, da universidade australiana New South Wales. ” Somos a favor de que a melancolia seja incluída no DSM-5 como uma síndrome afetiva específica, e como tal, identificada e tratada.”

A quinta versão do manual, publicada em 2013, foi um verdadeiro acontecimento internacional não só no campo da saúde, mas também no da economia. Todos os grupos que queriam ver uma patologia ou problema psíquico ganhar ênfase tentaram fazer com que fossem inseridos no DSM. O tema é delicado se pensarmos que, além de levar em conta questões éticas e ideológicas, é importante ter em mente que a inclusão de novas doenças pode interessar principalmente à indústria farmacêutica – setor que movimenta cerca de US$ 30 bilhões anualmente, só no Brasil.

Por outro lado, o mais importante argumento dos defensores da melancolia, por exemplo, é que sua eliminação restringiu a abordagem psicoterápica, comprovadamente eficaz em muitos casos. Hoje, quase todas as depressões são tratadas com os mesmos medicamentos-padrão, como a fluoxetina (nome comercial americano do Prozac) ou outras drogas do tipo do inibidor seletivo de recaptação de serotonina (SSRI). O argumento é que estes não são tão eficazes no caso de melancolia quanto antigos antidepressivos, os tricíclicos. Especialistas podem discutir eternamente se isso é verdade ou não. De qualquer forma, a melancolia não conseguiu entrar no rascunho do DSM de fevereiro de 2010. Es se caso deixa claro que há muita coisa em jogo. A elaboração do manual não é tarefa fácil para aqueles que querem organizar tudo indubitavelmente em índices classificatórios. Em 1996, quando Steven Hyman se tornou diretor do órgão de pesquisa americano responsável pela avaliação de doenças psíquicas, o National lnstitute ofMental Health (NIMH), ele ainda considerava os conflitos em torno dos diagnósticos do DSM um tema árido, “mais adequado para escolásticos medievais”. No

entanto, quando viu que inúmeros requerimentos enviados para o instituto se baseavam nos diagnósticos do DSM, ele mudou de opinião. O próprio Hyman debateu em um dos grêmios que prepararam o DSM-5.

Ao todo, 13 grupos de trabalho ocupam-se de diversas categorias de doenças psíquicas, como ansiedades, psicoses e dependência de drogas. Os 162 membros dessa equipe foram apoiados por mais de 300 outros especialistas do mundo todo. No início, os envolvidos tinham grandes planos. Defendiam que os diagnósticos deveriam se basear não apenas naquilo que os próprios futuros pacientes declaram ou no comportamento deles. Deveria haver, como no caso de doenças física, também características objetivamente perceptíveis –  os chamados biomarcadores, como peculiaridades na atividade cerebral, valores hormonais ou variantes genéticas determinadas.

Apesar de inúmeros estudos terem demonstrado diferenças estatísticas entre pessoas saudáveis e psiquicamente doentes, essas pesquisas ainda não contribuem para diagnósticos medianamente certeiros. “A identificação dos desvios neuronais exatos que fundamentam os transtornos psíquicos se contrapôs obstinadamente a todos os esforços dos pesquisadores”, diz Hyman. Só restou um apelo pouco entusiasmado aos grupos de trabalho do DSM-5 para terem em vista, paralelamente a outros aspectos, também fatores bioquímicos ou neurofisiológicos.

Segundo o periódico British Medical journal, 56% dos membros do grupo de trabalho receberam dinheiro da indústria farmacêutica. Consequentemente, eles poderiam tender a concordar com um grande número de transtornos com cujo tratamento os patrocinadores ganhariam mais tarde. De qualquer forma, o ganho adicional permitido a um membro atualmente está limitado a US$ 10 mil por ano.

CAIXA DE PANDORA?

Professor emérito de psiquiatria, Allen Frances tem se destacado como grande crítico do DSM-5. Ele respondeu pela versão anterior, DSM-IV, publicada em 1994. (Até então, as edições tinham números romanos, agora eles estão sendo substituídos por arábicos, pois assim revisões simples podem ser numeradas com códigos 5.1 ou 5.2, como softwares.) Frances publicou artigos como “Abrir a caixa de Pandora: as 19 piores sugestões para o DSM-5”.

Seus sucessores retrucam: “Se eu tivesse sido o coordenador do DSM-IV, também acharia que qualquer um que quisesse melhorar meu trabalho estaria tentando cumprir um objetivo alto demais”, diz o psiquiatra William T. Carpenter. Os líderes da nova versão do manual, David Kupfer e Darrel Regier, aliás, lembram discretamente que Frances ganha com as publicações do DSM-IV até que o DSM-5 seja publicado.

Sem se abalar, Frances alerta contra o que chama de “inflação das patologias”: “Todo grupo de trabalho tende a esticar os limites dos transtornos em sua área”. Afinal, nenhuma pessoa que precisa de ajuda deveria ser ignorada. Ele critica, por exemplo, que a sugestão para o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP). ” Dezenas de milhões de pessoas que comerem um a vez por semana de forma compulsiva durante três meses serão repentinamente estigmatizadas como doentes psiquiátricos e receberão medicamentos com efeito ainda não comprovado, o que é grave”, afirma.

O problema, no entanto, é mais complicado do que a polêmica leva a supor. O transtorno da compulsão alimentar periódica já está no DSM­ IV de Frances, mesmo que apenas no anexo, como exemplo de um transtorno alimentar “sem outra especificação”. “Mesmo assim, o TCAP é de longe o transtorno alimentar mais frequente na população de maneira geral”, diz Martina de Zwaan, presidente da Sociedade Alemã de Transtornos Alimentares.

Esses diagnósticos restantes levam à classificação “não especifica”, do inglês not otherwise specified (NOS). Eles são considerados um dos pontos fracos do DSM atual, pois os terapeutas os utilizam com frequência não apenas no caso de transtornos alimentares. “Se 40% dos hospitais derem alta às pessoas com diagnóstico NOS, teremos um problema”, constata o vice-chefe do DS M-5, Regier. Diagnósticos não especificados são feitos quando está claro que o paciente tem um problema que se associa a determinado transtorno, mas não preenche os critérios do diagnóstico. Poderíamos também dizer: nesses casos os critérios para o diagnóstico não correspondem exatamente aos problemas do paciente. Mas essa situação agora deve mudar para os transtornos alimentares, mesmo que com isso mais pessoas se tornem pacientes.

Segundo a primeira versão do DSM-5, para que haja diagnóstico de transtorno de compulsão alimentar periódica é necessário que a pessoa apresente descontrole em relação à comida em apenas metade dos dias da semana, durante um período ainda mais curto do que o estipulado anteriormente. Pelo menos no papel, ao que tudo indica, futuramente um número ainda maior de mulheres vai, oficialmente, sofrer de bulimia e anorexia, já que os critérios previstos deixam margem mais ampla para o diagnóstico. A constatação de anorexia, por exemplo, não leva mais em conta a suspensão da menstruação. Com isso, o número dos transtornos alimentares “sem outra especificação” vai diminuir, já que muitas pessoas diagnosticadas até agora com essa classificação simplesmente se enquadravam nos casos menos graves de bulimia e anorexia.

Assim como nos casos de transtorno alimentar, várias discussões giram em torno da mesma questão: no futuro muito mais pessoas serão diagnosticadas com algum problema psiquiátrico sem razão. Já “super diagnosticado”, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) também terá os critérios ampliados e, além disso, serão acrescentados alguns novos quadros do transtorno. Crianças com comportamento peculiar no futuro também serão candidatas ao transtorno de regulação emocional com variações de humor. Médicos observam que os pequenos que sofrem do distúrbio se irritam mais facilmente por coisas banais, mais que o “normal” em sua idade, e frequentemente se mostram tristes. Anteriormente, essas crianças muitas vezes recebiam o diagnóstico de “bipolar”, antigo transtorno maníaco-depressivo. Para muitos especialistas, esse diagnóstico se tornou banal, um verdadeiro fenômeno de massa que pode ser considerado uma espécie de dano colateral do DSM-IV. Frances duvida que o novo diagnóstico possa mudar muita coisa nesse ponto. Em sua opinião, a nova versão é “tão mal escrita que vai criar novos monstros”.

Naturalmente, Frances também é contra a introdução do “transtorno hipersexual”, pois os estupradores poderiam usá-lo como desculpa para seus crimes. No entanto, uma vida sexual agitada não basta para o diagnóstico, é preciso que o paciente sofra com suas várias fantasias e atos sexuais ou os utilize como meio para combater o estresse ou o mau humor.

A sugestão de “oficialização” de uma “síndrome de psicose atenuada”, que poderia vir a se transformar em esquizofrenia, também não é aceita de forma unânime. Ainda assim, os encarregados de elaborar o DSM não incluíram, nem de longe, todos os distúrbios – supostos ou reais – que estão em voga no momento.

Alguns estudos mostram que muitos médicos não se atêm ao uso fiel dos diagnósticos que especialistas finalmente decidiram após longas discussões. Em muitos casos, é provável que as diretrizes do DSM-5 só sejam realmente adotadas em consultórios de profissionais que tiveram sua formação baseada nelas. No entanto, muita gente certamente já está trabalhando no DSM-6 ou DSM-7 atualmente.

 

 JOCHEN PAULUS é psicólogo e jornalista cientifico.

GESTÃO E CARREIRA

Escaoand da rotina

ESCAPANDO DA ROTINA

A última novidade na área de treinamentos corporativos são os jogos de fuga. Não resta dúvidas de que são divertidos. Mas é preciso tomar alguns cuidados para que também sejam eficientes.

 De tempos em tempos, surgem alguns modismos na área de treinamentos corporativos. Uma das últimas novidades são os jogos de fuga, em que um grupo precisa desvendar um mistério ou solucionar um problema para conseguir escapar de um ambiente temático. Para ter uma ideia do sucesso desse filão, só na capital paulista já há dez estabelecimentos com essa proposta. Inaugurada em abril, uma das mais novas casas é o Escape Hotel. O local oferece três opções de jogos – Cena do Crime, Loira do Banheiro e O Templo. Além de uma opção de entretenimento, espaços como esses vêm sendo usados por algumas companhias para recrutamento e treinamento dos funcionários. “A atividade fortalece o trabalho em equipe, a criatividade e a entrega de resultados sob pressão, já que há uma contagem regressiva e o grupo deve completar a missão em uma hora”, diz Patrícia Estéfano, proprietária do Escape Hotel, que conta com salas de monitoramento de onde os profissionais de RH podem acompanhar as imagens dos ambientes onde acontecem os jogos. Se solicitado, o espaço também oferece o serviço de debriefing, feito por uma consultoria parceira, que, após a atividade, faz a amarração entre o que aconteceu durante a brincadeira e os conteúdos que a empresa pretendia trabalhar. Esse cuidado, aliás, é crucial para que a ação não seja inócua – quem participa deve ver um paralelo claro entre o jogo, seu trabalho e os objetivos que a empresa quer alcançar. Senão a atividade fica fadada a ser substituída pela moda da próxima estação.

ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 2: 1-8

Os Magos do Oriente 

Foi um sinal da humilhação imposta ao Senhor Jesus o fato de, embora ser o Desejado de todas as nações, sua vinda ao mundo ter sido pouco comentada, passando quase despercebida, e que seu nascimento tenha sido ignorado e desconsiderado. Ele havia se tornado um ser anônimo e desconhecido. Se o Filho de Deus devia vir ao mundo, poderíamos, com toda razão, esperar que fosse recebido com o maior cerimonial possível, que coroas e cetros se colocassem imediatamente aos seus pés e que os soberanos e os poderosos príncipes do mundo se tornassem seus humildes servos; um Messias assim era o que os judeus esperavam, mas não foi isso que aconteceu. Ele veio ao mundo e o mundo não o conheceu, isto é, Ele veio para o seu povo, mas o seu povo não o recebeu. Por ter se incumbido de satisfazer a justiça do Pai pelas ofensas e pela desonra contra Ele praticadas através dos pecados do homem, Ele assim o fez anulando-se e privando-se de todas as honras que, sem dúvida, deveriam ser concedidas a uma Divindade encarnada. No entanto, por ocasião do seu nascimento, assim como sucedeu mais tarde, raios de glória brilharam nos momentos mais importantes da sua humilhação. Embora seu poder se mantivesse oculto, raios brilhantes saíam das suas mãos (Habacuque 3.4), suficientes para condenar o mundo, especialmente os judeus, pela estupidez que demonstraram.

Depois do seu nascimento, os primeiros a tomar conhecimento de Cristo foram os pastores (Lucas 2.15ss.) que viram e ouviram coisas gloriosas a seu respeito e as transmitiram a todo mundo, para a admiração de todos os ouvintes (vv. 17,18). Em seguida, Simeão e Ana falam sobre Ele, pela inspiração do Espírito, a todos que estavam dispostos a prestar atenção às suas palavras (Lucas 2). No entanto, alguém poderia pensar que estas mensagens deveriam ter sido atendidas pelos homens da Judéia e pelos habitantes de Jerusalém que, com braços abertos, receberiam o tão longamente esperado Messias. Porém, por mais estranho que pareça, durante quase dois anos Ele permaneceu em Belém sem receber qualquer atenção até a chegada dos magos. Na verdade, nada iria despertar aqueles que estavam resolvidos a ser indiferentes. Ó, que incrível estupidez a desses judeus! E também dos muitos que ostentam o nome de cristãos! Observe:

 

I – Quando foi realizada esta pesquisa a respeito de Cristo. Foi nos dias do rei Herodes. Esse rei Herodes era um idumeu, nomeado rei da Judéia por Augusto e Antônio, os principais chefes do estado romano daquela época. Era um homem falso e cruel e, no entanto, havia sido agraciado com o título de Herodes, o Grande. Cristo nasceu no 35º ano do seu reinado e isto foi registrado para mostrar que o cetro havia se apartado de Judá e o legislador dentre seus pés. Portanto, havia chegado a hora da vinda de Siló e para ele se congregariam todos os povos. Observe esses magos em Gênesis 49.10.

 

II – Quem e o que eram esses magos; aqui eles são chamados de “magos”. Alguns consideravam o nome no bom sentido; entre os persas, os magos representavam seus filósofos e seus sacerdotes. O povo não aceitaria ninguém para ser rei se não tivesse antes estudado entre os magos; mas outros pensavam que eles lidavam com artes espúrias. No original, esta palavra (mago) foi usada para Simão, o mágico (Atos 8.9,11), e também para Elimas, o feiticeiro (Atos 13.6,8). Também, nas Escritura, ela é empregada com um outro sentido, como um primeiro exemplo e presságio da vitória de Cristo sobre o diabo, quando aqueles que haviam sido seus adeptos se tornaram adoradores do menino Jesus, logo que os troféus da sua vitória sobre os poderes das trevas foram erguidos. Bem, quaisquer coisas que tenham sido antes, agora os magos se tomaram verdadeiros sábios quando decidiram indagar sobre Cristo.

De uma coisa temos certeza

8. De que eram gentios e não pertenciam à nação de Israel. Os judeus não se importavam com Cristo, porém esses gentios decidiram perguntar por Ele. Muitas vezes aqueles que estão mais próximos aos meios estão mais longe do fim (veja cap. 8.11,12). A homenagem prestada a Cristo por esses gentios representava um feliz presságio e também um exemplo daquilo que iria acontecer quando Cristo trouxesse para perto de si aqueles que estavam distantes.

9. De que eram sábios. Eles lidavam com artes; artes curiosas. Os bons sábios devem ser bons cristãos que completam seu aprendizado quando aprendem sobre Cristo.

10. De que eram homens do Oriente, notáveis por suas profecias (Isaias 2.6). A Arábia é chamada de terra do Oriente, ou oriental (Genesis 25.6), e os árabes são chamados de homens do Oriente (Juízes 6.3). Os presentes que trouxeram eram produtos do seu país. Os árabes haviam prestado homenagem a Davi e Salomão como exemplos de Cristo. Jetro e Jó eram desse país. Tudo que podemos dizer sobre eles é que as tradições da igreja romana são de pouco valor, ao afirmarem que eles eram em número de três (embora um dos antigos diga que eram quatorze), que eram reis e que se encontram enterrados em Colen, daí a razão de serem chamados de os três reis de Colen. Não desejamos ir além do que está escrito.

 

III O que os levou a fazer essa pesquisa. Quando ainda estavam no seu país oriental, eles viram uma estrela extraordinária, como nunca haviam visto antes, que entenderam ser a indicação de que uma pessoa extraordinária havia nascido na Judéia, sobre cujas terras ela parecia pairar, como se tivesse a natureza de um cometa, ou melhor, de um meteoro, nas regiões mais baixas da atmosfera. Isso era tão diferente de qualquer outra coisa habitual, que foram levados a concluir que ela também devia significar uma coisa incomum. Veja que as extraordinárias aparições de Deus às criaturas devem nos levar a indagar sobre o seu espírito e a sua intenção. Cristo era a antecipação dos sinais celestiais. Seu nascimento foi comunicado aos pastores judeus através de um anjo, e aos filósofos gentios, por uma estrela; e a ambos Deus falou na sua própria língua e da forma que eles estavam mais familiarizados. Alguns pensam que a luz que os pastores viram brilhando em volta de si, na noite seguinte ao nascimento de Cristo, foi a mesma vista pelos magos, que viviam num lugar distante, com a aparência de uma estrela. Mas isso não pode ser facilmente admitido porque a estrela que viram no Oriente foi a mesma que tornaram a ver muito depois, e que os levou até a casa onde Cristo se encontrava deitado na manjedoura. Tratava-se de uma luz colocada no céu com o propósito de os guiar até Cristo. Os idólatras adoravam as estrelas como sendo os exércitos dos céus, especialmente as nações do Oriente, onde os planetas tinham o nome dos seus deuses e ídolos. Sabemos de uma estrela que era particularmente venerada (Amos 5.26) – Desse modo, as estrelas que antes haviam sido mal-usadas passaram a ter urna correta finalidade, guiar os homens a Cristo; os deuses dos pagãos haviam se tornado seus servos. Alguns pensam que essa estrela os levou a pensar na profecia de Balaão, isto é, que uma estrela procederia de Jacó, indicando um cetro que iria se levantar de Israel (veja Números 24.17). Balaão tinha vindo das montanhas do Oriente e era um dos seus sábios. Outros atribuem a pesquisa deles à expectativa geral acolhida naquela época, nessas regiões, de que algum grande príncipe iria aparecer. Tácito, na sua história (liv. 5), observa isso. Pluribus persuasio inerat, antiquis sacerdotum literís contineri, eo ipso tempore fore, ut valesceret oriens, profecti ­ que Judaea rerum potirentur – Existia, na mente de todos, uma convicção de que alguns escritos antigos dos sacerdotes continham uma profecia de que mais ou menos nessa época um poder do Oriente iria prevalecer e que as pessoas provenientes da Judéia iriam alcançar o domínio. Também Suetônio, na vida de Vespasiano, fala sobre isso. De forma que esse extraordinário fenômeno foi interpretado como a indicação desse rei. Podemos imaginar a divina impressão que se estabeleceu em suas mentes, permitindo-lhes interpretar essa estrela como um sinal enviado pelos céus sobre o nascimento de Cristo.

 

IV – Como deram seguimento a essa pesquisa. Eles haviam vindo do Oriente até Jerusalém para aprofundar suas indagações sobre esse príncipe. Onde iriam pesquisar sobre o Rei dos Judeus a não ser em Jerusalém, a cidade-mãe, para onde sobem as tribos, as tribos do Senhor? Eles poderiam ter respondido: “Se tal príncipe viesse a nascer, logo ficaríamos sabend