O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

EXPONDO A PALAVRA

Este capítulo trata da pregação. Eu começo a escrevê-lo cônscio da necessidade de fazer três colocações preliminares. A primeira é pessoal. Esse negócio de um pregador atrever-se a pregar a outros pregadores sobre o que é pregar tem algo de fundamentalmente anômalo. Dez anos atrás, escrevi algo similar na Introdução do meu livro Eu Creio em Pregação. Eu não mudei de ideia de lá para cá. Afinal, o que é que eu sei que vocês não saibam? Todos nós temos pregado, lido e ouvido sermões ad nauseam. Eu certamente não sou nenhum especialista no assunto. Ainda hoje, ao subir ao púlpito, muitas vezes eu sou in­vadido por uma sensação de frustração quanto à minha comunicação. Raramente (se é que isso acontece) eu desço do púlpito sem sentir a necessidade de confessar meu relativo fracasso e de orar por graça para fazer melhor na próxima vez. Assim, eu espero que isto nos coloque no mesmo nível. Todos nós temos a nossa luta neste privi­legiado, mas problemático ministério.

Minha segunda colocação é social. Ela tem a ver com a total desilusão quanto à pregação.  Não seria ela um anacronismo, um meio de comunicação obsoleto, uma arte morta, “uma relíquia sagrada, um negócio estranho, de pele esbranquiçada e ossos secos, enclausurado em um relicário de carinhosa memória, ainda incrustado com as joias da glória do passado?” Quem quer ouvir sermões hoje em dia? As pessoas estão dopadas pela televisão, hostis à autoridade, cansadas de tantas palavras. Quando começa o ser­mão, elas ficam logo impacientes, inquietas e entediadas. Nós não podemos pressupor que as pessoas queiram nos ouvir; temos   de lutar para conseguir sua atenção.

Em terceiro lugar, e falando em termos pastorais, apesar dos problemas já admitidos, nós precisamos perseverar. Afinal, a saúde da igreja depende disso. Se é verdade, como Jesus falou, endossando Deuteronômio, que “não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”, isso é igualmente verdade com relação às igrejas. As igrejas vivem, crescem e florescem pela Palavra de Deus; sem ela, as igrejas murcham e morrem. Os bancos da igreja dificilmente vão além do púlpito; os bancos são geralmente um reflexo do púlpito. E isto que nos ensina a história. “Não é verdade”, perguntou o Dr. Martyn Lloyd-Jones, “que os períodos e as eras decadentes na história da Igreja sempre foram aqueles em que a pregação declinou?” Eu tenho certeza de que ele estava certo. De fato, nós podemos ver isso ilustrado no mundo de hoje. Embora nos alegremos com as estatísticas de crescimento da igreja, temos de admitir, para nossa vergonha, que este é geralmente um crescimento sem profundidade. Existe muita superficiali­dade em toda parte. E eu mesmo, pelo que tenho observado, estou convencido de que o baixo nível de vida cristã é resultado, mais do que outra coisa, do baixo nível de pregação cristã. É verdade que quem renova a igreja é o Espírito Santo, mas a espada do Espírito é a Palavra de Deus. A meu ver, nada é mais importante para a vida e crescimento, saúde e aprofundamento da igreja contempo­rânea do que resgatar uma pregação séria da Bíblia.

Vou tentar explicar por que é necessária uma pregação bíblica. Comecemos com uma definição muito franca, de vinte e cinco palavras:

Pregar é expor o texto inspirado com tanta fidelidade e sensibilidade que a voz de Deus é ouvida e o povo de Deus lhe obedece.

Esta definição de pregação contém seis implicações: duas convicções acerca do texto bíblico, duas obrigações quanto à exposição deste e duas expectativas resultantes da pre­gação.

DUAS CONVICÇÕES

A primeira convicção acerca do texto bíblico é que ele é um texto inspirado. “Pregar é expor o texto inspirado.” Ter um alto conceito do texto bíblico como algo diferente de qualquer outro texto, singular em sua origem, natureza e autoridade, é indispensável para uma pregação autêntica. Nada é tão destrutivo para a pregação quanto o ceticismo acerca da Escritura. Sem tentar defender esta declaração, eu espero que você me acompanhe na análise de três palavras que andam juntas em nossa doutrina da Escritura: “re­velação”, “inspiração” e “providência”.

Revelação” descreve a iniciativa que Deus tomou ao manifestar-se ou revelar-se. Esta é uma palavra humilhante. Ela pressupõe que Deus, em suas infinitas perfeições, encontra-se completamente além do alcance de nossas mentes finitas. Nossa mente não pode penetrar a mente divina. Assim como os céus são muito mais altos do que a terra, assim nós não temos a mínima capacidade de ler os seus pensamentos. Consequentemente, nós nada saberíamos acerca de Deus se ele não tivesse optado por se fazer conhecido de nós. Sem a revelação, nós não seríamos cristãos coisa alguma; seríamos “atenienses”, e todos os altares do mundo carregariam a inscrição “Ao Deus desconheci­do”. Mas nós acreditamos que Deus se revelou, não apenas na glória e ordem do universo criado, mas supremamente em Jesus Cristo, sua Palavra encarnada, e também na Palavra escrita, que é portadora de um amplo e variegado testemunho dele.

“Inspiração” descreve o meio que Deus escolheu para se revelar, ou seja, falando aos autores bíblicos e através deles. Como já vimos, não foi um processo de “ditado”, o que os teria reduzido ao papel de máquinas, mas um proces­so dinâmico, que os tratou como pessoas em plena posse de suas faculdades mentais. Muitos dos autores bíblicos eram historiadores e muito da Escritura é história. Para isso eles se engajaram em pesquisa e fizeram uso de diários, registros e arquivos. Eram também teólogos, cada um com uma ênfase doutrinária diferente, e escritores, cada um com seu gênero literário, estilo e vocabulário próprios. Estes fenômenos de pesquisa histórica, interesse teológico e composição literária não são nem incompatíveis com o processo de inspiração, nem suprimidos por ele. Deus falou por intermédio deles de tal maneira que as palavras enun­ciadas eram, ao mesmo tempo, tanto dele como deles. E nisso que consiste a dupla autoria da Escritura, em que já refletimos no capítulo 10.

A terceira palavra é “providência”. Trata-se da amorosa providência e provisão de Deus, através da qual ele cuidou atentamente para que as palavras que ele havia dito fossem primeiro escritas, formando o que nós chamamos de “Es­critura”, e depois preservadas através dos séculos, ficando ao alcance de todas as pessoas, em todos os lugares e em todos os tempos, para salvação e enriquecimento destas.

A Escritura é, pois, “a palavra de Deus escrita”, sua auto revelação escrita e falada, o produto de sua revelação, inspiração e providência. Esta primeira convicção é indis­pensável para os pregadores. Se Deus não tivesse falado, nós não ousaríamos falar, pois nada teríamos a dizer a não ser as nossas meras especulações. Mas, já que Deus falou, nós também devemos falar, comunicando aos outros o que ele comunicou nas Escrituras. Na verdade, nós nos recu­samos a ficar calados! Como disse Amos, “Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?”. Ou, quem não passará adiante a sua Palavra? Paulo, semelhantemente, escreveu, citando palavras do Salmo 116: “Eu cri, por isso é que falei.” Ou seja: nós falamos porque cremos que Deus falou.

Eu tenho pena do pregador que sobe ao púlpito sem nenhuma Bíblia nas mãos, ou com uma Bíblia que mais parece um trapo do que a Palavra de Deus. Ele não pode expor a Escritura, pois não tem nenhuma Escritura para expor. Não pode falar, pois não tem nada digno de ser dito. Mas quando se sobe ao púlpito com a convicção de que Deus falou, de que ele fez com que se escrevesse aquilo que ele falou e de que nós temos em nossas mãos esse texto ins­pirado… Aí, sim! Nossa cabeça começa a girar e nosso coração dispara, nosso sangue começa a fluir e nossos olhos a brilhar com a pura glória de ter a Palavra de Deus em nossas mãos e em nossos lábios!

Nossa segunda convicção é a de que o texto inspirado é também um texto parcialmente oculto. Se pregar é “expor o texto inspirado”, então este deve estar parcialmente oculta… Caso contrário, não haveria necessidade de abri-lo! E de repente eu me imagino vendo vocês, seus “galos de briga” protestantes, levantarem se indignados: “O que você quer dizer com essa história de ‘Escritura parcial­mente oculta’? Você não acredita, junto com os reformadores do século XVI, na ‘perspicuidade’ da Escritura (que uma das qualidades dela é ser clara e transparente)? Não podem até mesmo pessoas simples e sem formação entendê-la por si mesmas? Não é o Espírito Santo o ensinador, que nos foi dado por Deus?!” Sim, de fato; muito obrigado por suas perguntas. A todas elas eu posso responder com um res­sonante “sim”. Mas aquilo que vocês estão dizendo, e com toda razão, também precisa ser explicado.

A insistência dos Reformadores na perspicuidade ou clareza da Escritura tinha a ver com a sua mensagem central, isto é, o evangelho da salvação através da fé em Cristo crucificado. Na Bíblia, isto é tão claro como o dia. Mas eles não sustentavam que tudo o que está na Escritura é igualmente óbvio. E como é que poderiam fazê-lo, se Pedro escreveu que algumas coisas nas cartas de Paulo são “difí­ceis de entender”? Se um apóstolo nem sempre entendeu outro apóstolo, seria no mínimo falta de modéstia da nos­sa parte afirmar que não encontramos problema algum! Consequentemente, a igreja necessita de “pastores e mes­tres” para expor ou revelar as Escrituras, e o Cristo que ascendeu aos céus ainda concede estes dons à sua igreja.

A história do eunuco etíope ilustra muito bem essa neces­sidade de mestres humanos. Ao vê-lo sentado em sua car­ruagem, lendo Isaías 53, Filipe lhe perguntou: “Compreen­des o que vens lendo?” Será que o eunuco teria replicado: “É claro que eu compreendo! Você não acredita na perspi­cuidade das Escrituras?” Mas o que ele disse foi: “Como poderei entender, se alguém não me explicar?” Calvino, muito acertadamente, tece comentários sobre a humildade do etíope, contrastando a sua atitude com a daqueles que, enfatuados e confiantes em suas próprias capacidades, são orgulhosos demais para se submeterem ao ensino.

Eis aqui, pois, a base bíblica para a exposição bíblica. Ela consiste de duas convicções fundamentais: que, nas Escrituras, Deus nos deu um texto que é inspirado (tem origem e autoridade divinas) e que é, de certa forma, oculto (difícil de compreender). Portanto, em adição ao texto, ele concede à igreja mestres capazes de “expor” o texto, explicá-lo e aplicá-lo à vida das pessoas.

DUAS OBRIGAÇÕES

Minha definição de pregação vai de duas convicções acerca do texto bíblico para duas obrigações ao expô-lo. “Pregar é expor o texto inspirado com… fidelidade e sensibilidade…” A principal razão por que o texto bíblico é parcialmente oculto e difícil de compreender é que existe um vasto e pro­fundo abismo cultural entre o mundo antigo em que Deus pronunciou sua Palavra e o mundo moderno em que nós a ouvimos. E essa lacuna cultural, de que nos ocupamos no último capítulo, que também determina a tarefa do expositor bíblico e coloca diante de nós duas grandes obrigações, ou seja, fidelidade à Palavra antiga e sensibi­lidade para com o mundo moderno.

Primeiro temos o chamado à fidelidade. Nós precisamos aceitar a disciplina da exegese, isto é, permitir que o nosso pensamento volte até o mundo dos autores bíblicos, revivendo a sua história, geografia, cultura e linguagem. Esta tarefa tem sido, desde há muito tempo, agraciada com o nome de “exegese histórico-gramatical”. Negligenciar esta disciplina, ou realizá-la de coração dividido ou de maneira displicente, é indesculpável, pois isso denota desdém pela forma escolhida por Deus para falar. Com esse mesmo cuidado diligente, consciente e meticuloso nós deveríamos examinar a nós mesmos e expor para os outros as próprias palavras do Deus vivo!

Além disso, a pior asneira que poderíamos cometer é voltar os nossos pensamentos do século XX para a mente dos autores bíblicos (o que é “exegese”), manipular o que eles escreveram a fim de adaptá-lo àquilo que nós queremos que eles digam, e então reivindicar o seu patrocínio para as nossas opiniões.

Calvino, séculos à frente do seu tempo, compreendeu muito bem este princípio. “A primeira tarefa de um intér­prete”, escreveu ele, “é deixar que o autor diga o que ele está realmente dizendo, em vez de atribuir-lhe o que se pensa que ele deveria dizer.” E, uns trezentos anos mais tarde, Charles Simeon de Cambridge enunciou o mesmo princípio em uma carta ao seu editor: “Meu empenho consiste em extrair da Escritura o que ali se encontra, e não enfiar nela o que eu acho que deveria estar lá”. Hoje nós precisamos urgentemente tanto de integridade quanto de coragem para agir de acordo com esta regra básica: dar aos autores bíblicos o direito de dizer o que eles realmente dizem, por mais retrógrado que possa ser o seu ensino.

Em segundo lugar, a pregação bíblica exige sensibilidade para com o mundo moderno. Embora Deus tenha falado ao mundo antigo em suas próprias linguagens e culturas, sua intenção é que sua Palavra se estenda a todo mundo. Isto significa que o expositor é mais do que um exegeta. O exegeta explica o significado original do texto; o expo­sitor vai mais além, aplicando-a ao mundo contemporâneo. Portanto, temos de nos esforçar para compreender esse mundo que muda tão rapidamente e no qual Deus nos chamou a viver; a captar os principais movimentos de pensamento que o têm moldado; a escutar as muitas vozes discordantes, suas indagações, seus protestos e seus gritos de dor; e a sentir uma parcela da sua desorientação e desespero. Afinal de contas, isto faz parte de nossa sen­sibilidade cristã.

Eis aqui, portanto, as duas obrigações que, para os expositores bíblicos, decorrem do seu chamado para pregar: fidelidade (à Palavra) e sensibilidade (ao mundo). Não nos cabe, nem falsificar a Palavra, a fim de assegurar uma pretensa relevância, nem ignorar o mundo, a fim de ga­rantir uma falsa fidelidade. Nenhuma dessas obrigações pode ser cumprida às custas da outra. O que faz um pre­gador autêntico é a combinação entre fidelidade e sensi­bilidade. Mas, por ser difícil, isso é igualmente raro. O problema dos pregadores conservadores é que eles são bíblicos. mas não são contemporâneos. Já o defeito carac­terístico dos pregadores liberais é eles são contemporâneos, mas não são bíblicos. São muito poucos os pregadores que conseguem ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Na prática, quando estudamos um texto, necessitamos fazer-nos duas perguntas distintas, e fazê-las na ordem certa. A primeira é: “O que significou o texto?”; e a segunda: “O que ele diz?” Ao colocarmos estas duas questões, nossa preocupação começa com o significado original do texto, quando ele foi primeiro enunciado ou escrito, e depois muda para sua mensagem atual, como ela fala às pessoas hoje. Nós não devemos nem confundir estas duas questões, nem colocá-las na ordem errada, nem perguntar uma delas e ignorar a outra.

A primeira questão — “O que significou o texto?” — poderia também ser dita em outras palavras — “O que ele realmente significa?”—, já que o significado verdadeiro de um texto não muda. Ele continua significando hoje o que significou ao ser escrito. Em seu conhecido livro Validade na Interpretação, Dr. E. D. Hirsch, ex-professor de inglês na Universidade de Virgínia, reafirma a “crença razoável de que um texto significa o que o seu autor quis dizer”. Ele reclama quanto ao “banimento do autor” em textos literários, bíblicos e legais. O resultado disso é puro subjetivismo. Em círculos legais, por exemplo, “o signi­ficado de uma lei é aquilo que os juízes atuais dizem ser o seu significado”; na exegese bultmaniana, “o significado da Bíblia é uma nova revelação para cada geração que se sucede”; e em teoria literária um texto é “o que ele significa para nós hoje”. De fato, hoje em dia, em certos departa­mentos de literatura universitários, afirma-se que “um texto é infinitamente interpretável”, pois ele “significa” diferentes coisas para diferentes pessoas. Mas isto é empregar erroneamente as palavras “significar” e “signi­ficado”. O professor Hirsch insiste em dizer que só quem pode determinar o significado de um texto é o próprio autor, e que “banir o autor original como o fator determinante do significado”…. “é rejeitar o único princípio normativo que forçosamente poderia conferir validade a uma inter­pretação”. Assim, o “significado” de um texto é aquilo que o autor quis dizer com ele — e é, portanto, permanente; já a sua “significância” reside na forma como ele atinge as pessoas e se relaciona com diferentes contextos — e é, portanto, variável. Existe toda a diferença do mundo entre a declaração de Bultmann “o texto significa o que ele significa para mim” e a de E. D. Hirsch, “um texto significa o que o autor quis dizer.”

Assim, o significado de um texto deve ser buscado e encontrado nas próprias palavras, nas palavras do autor, e não nos pensamentos e sentimentos do leitor. Como disse o professor David Wells, endossando a ênfase de B. B. Warfieldi “O significado não se encontra acima do texto, por detrás dele ou além dele, ou mesmo no intérprete. O significado se encontra no texto. É a linguagem do texto que determina o que Deus quer que ele signifique para nós.” Isto porque “as palavras têm significados… Em nenhuma linguagem o significado fica flutuando por aí, independente das palavras usadas… A menos que as palavras e seu significado sejam reconectadas em prática hermenêutica, qualquer acesso que tivermos à revelação não passará de um sentido místico.”

A segunda questão que temos de perguntar ao texto é: “O que ele diz?” Isto é, após discernir o seu sentido original (que é estabelecido por seu autor), nós precisamos refletir sobre a sua mensagem contemporânea (como ele se aplica às pessoas hoje). É aqui que entra a sensibilidade espiritual. Nós precisamos desenvolver uma familiaridade com o mundo moderno: suas pressuposições e preocupações, sua mentalidade e seu espírito, sua cultura volátil e seus padrões decadentes, seus valores, objetivos, dúvidas, temores, so­frimentos e esperanças, e, não por último, sua obsessão com o ego, com o amor e a morte. Só então teremos condições de discernir como a Palavra imutável fala ao mundo em mutação. Nada tem sido de tanta ajuda para mim neste sentido quanto o grupo de jovens profissionais que tem se reunido comigo em Londres a cada seis semanas, aproximadamente, durante os últimos vinte anos. É um grupo de leitura. No final de cada sessão, nós combinamos que livro vamos ler ou qual filme iremos assistir antes de nos reunirmos de novo. Nós escolhemos principalmente livros e filmes que expressem uma perspectiva não-cristã.

Daí, então, nós nos perguntamos: (1) Quais são as prin­cipais questões que se levantam aqui para os cristãos? (2) Como é que o evangelho se relaciona com pessoas que pensam e vivem dessa maneira? Em outras palavras, nós usamos aqui a nossa segunda pergunta feita ao texto bíblico:  “O que ele diz?”

Se compreendermos o sentido original de um texto, mas deixarmos de lidar com a sua mensagem contemporânea, estaremos fazendo o simples papel de antiquários, desvin­culados das realidades presentes do mundo moderno. Se, por outro lado, começarmos com a mensagem atual do texto, sem primeiro nos submetermos à disciplina de des­cobrir o seu significado original, estaremos nos rendendo ao existencialismo, desvinculando-nos das realidades pas­sadas da revelação. Ao invés disso, necessitamos fazer as duas perguntas, primeiro, sendo fiéis em trabalhar no significado do texto, e, depois, sendo sensíveis em discernir a sua mensagem para hoje. Além do mais, não existem atalhos para isso. Só nos resta o trabalho duro do estudo, procurar familiarizar-nos, tanto com as Escrituras em sua totalidade, como com o mundo moderno em toda a sua variedade.

Na verdade, esta é mais uma faceta da disciplina de ouvir com sensibilidade, ou “ouvir duas vezes”, à medida que ouvimos com humildade a Escritura e com ouvidos críticos a modernidade, a fim de relacionarmos uma com a outra. Ouvir assim é um exercício preliminar indispen­sável para a pregação. Em 18 de Novembro de 1991, o dia em que Terry Waite foi libertado depois de quase nove anos como refém no Líbano, foram pedidos comentários de diversos outros ex-reféns cuja libertação ele mesmo havia negociado. Um deles era Jean Waddell, que havia servido como missionária no Irã. “Ele é um ótimo comunicador”, disse ela; “ele ouve.”

DUAS EXPECTATIVAS

Depois das duas convicções acerca da Escritura e das duas obrigações ao expô-la, seguem-se, como consequência, duas expectativas. Se de fato expusermos o texto inspirado com fidelidade e sensibilidade, o que podemos esperar que acon­teça?

Primeiro, esperamos que se ouça a voz de Deus. Esta expectativa brota da nossa convicção de que o Deus que falou no passado também fala no presente através daquilo que ele falou.

Só que hoje essa expectativa de que Deus fale ao mundo moderno através de sua velha Palavra está vivendo um momento difícil. Como disse o Dr. Langmead Casserley, um acadêmico da Igreja Episcopal Americana, “nós inven­tamos um jeito de ler a Palavra de Deus sem que nos venha nenhuma palavra de Deus”. Quando chega a hora do sermão, as pessoas juntam as mãos e fecham os olhos em uma bela demonstração de piedade, e se recostam no banco para o cochilinho de sempre. Além do mais, o próprio pregador coopera para isso, com aquele seu jeito e a voz sonolenta.

Como é diferente quando tanto o pregador como as pessoas estão na expectativa de que Deus fale! O clima é totalmente outro e tudo fica elétrico. As pessoas trazem suas Bíblias para a igreja e, ao abri-las, sentam-se na beirinha do banco, aguardando, ansiosas, para ver o que o Senhor Deus tem para dizer-lhes. E uma reprise da cena vivida na casa do centurião Cornélio quando o apóstolo Pedro chegou. Cornélio lhe disse: “Agora… estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor.” Por que uma con­gregação cristã não pode vivenciar hoje esse mesmo nível de expectativa?

O próprio pregador pode estimular uma atitude assim. Como? Ele se prepara com cuidado, de tal forma que esteja evidentemente esperando que Deus lhe dê uma mensagem. Ora sinceramente antes de sair de casa para ir à igreja, e ora novamente no púlpito antes de pregar, pedindo que Deus fale ao seu povo. Lê e expõe o seu texto com grande seriedade de propósito, sentindo profundamente aquilo sobre o que está falando. E então, quando ele termina e ora uma vez mais, há um silêncio e uma solenidade na presença do Deus que acabou de falar.

Nossa segunda expectativa é a de que o povo de Deus lhe obedeça. A Palavra de Deus exige sempre uma resposta de obediência. Nós não devemos ser ouvintes esquecidos, mas praticantes obedientes da Palavra de Deus. Por todo o Antigo Testamento ouve-se o lamento divino: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!”. Deus continuou enviando ao povo os seus mensageiros. “Eles, porém, zombavam dos mensageiros, desprezavam as palavras de Deus e mofavam dos seus profetas até que subiu a ira do Senhor contra o seu povo, e não houve remédio algum.”

Como, pois, as pessoas deveriam reagir? Que tipo de obediência se requer? Nossa resposta é que a natureza da reação esperada é determinada pelo conteúdo da palavra exposta. O que nós fazemos em resposta à Palavra de Deus depende do que ele diz a nós por intermédio dela. Vejamos alguns exemplos. Se no texto exposto e através dele Deus fala acerca de si mesmo e de sua gloriosa grandeza, nós reagimos humilhando-nos diante dele em adoração. Se, pelo contrário, ele fala acerca de nós, nossa desobediência, inconstância, rebelião e culpa, então nós respondemos em penitência e confissão. Se ele fala acerca de Jesus Cristo, que morreu para levar os nossos pecados e ressuscitou da morte para provar isso, nós respondemos em fé, apossando-nos desse Salvador enviado do céu. Se ele fala de suas promessas, nós nos determinamos a herdá-las; se sobre os seus mandamentos, propomo-nos a guardá-los. Se Deus nos fala acerca do mundo, com sua tremenda necessidade material e espiritual, então nasce dentro de nós a sua compaixão, tanto para pregar o evangelho como para servir ao necessitado. Se, por outro lado, através de sua Palavra Deus nos fala sobre o futuro, a vinda de Cristo e a glória por vir, então nossa esperança se acende e nós resolvemos ser santos e viver ocupados até que ele venha.

O pregador que penetrou profundamente no seu texto, que selecionou e desenvolveu o seu tema predominante e que foi, ele mesmo, movido pela sua mensagem, há de trabalhar firmemente em sua conclusão, dando às pessoas a chance de reagir ao texto, geralmente em oração silen­ciosa, permitindo que o Espírito Santo conduza cada pessoa a uma obediência apropriada.

É esta, pois, a definição de pregação que eu me arrisco a dar a vocês. Ela contém duas convicções (o texto bíblico é um texto inspirado que ainda precisa ser desvendado), duas obrigações (nós precisamos expô-la com fidelidade ao próprio texto e sensibilidade para com o contexto moderno) e duas expectativas (através da exposição e aplicação da Palavra escrita Deus mesmo irá falar, e seu povo irá ouvir sua voz e responder a ele em obediência).

É enorme o privilégio de ser um expositor bíblico, isto é, o privilégio de subir ao púlpito com a Palavra de Deus em nossas mãos e em nossa mente, com o Espírito de Deus em nosso coração e com o povo de Deus diante de nossos olhos, aguardando com expectativa que a voz de Deus seja ouvida e obedecida.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Um lugar para chamar de seu

UM LUGAR PARA CHAMAR DE SEU

Não importa se a pessoa usa apenas um laptop ou o seu celular para trabalhar; nem mesmo se permanece na maior parte do tempo no prédio de uma grande corporação, numa mesa alugada por hora ou numa pequena sala dentro do próprio apartamento. O mais relevante é que esse espaço tenha, ainda que momentaneamente, a “cara” do profissional que o ocupa.

O espaço de trabalho já não é mais o mesmo. Cada vez mais pessoas desempenham suas funções de casa e é muito frequente entrar em cafés das grandes cidades e ver as mesas ocupadas por homens e mulheres com os olhos grudados nas telas de seus computadores ou em reuniões profissionais. Apesar disso, milhões de pessoas – algo em torno de 15% da população dos países desenvolvidos – trabalham em uma mesa, com ou sem a divisória que as separe dos outros colegas. Obviamente a produtividade não está unicamente relacionada com espaço físico, mas nos últimos anos psicólogos sociais e ocupacionais começaram a acumular evidências de que as características desses ambientes onde se passa tantas horas por dia – ainda que façam home office – afetam o desempenho de maneira surpreendente. O tamanho da mesa, a proximidade da luz natural, a qualidade do ar que respiramos e a privacidade (ou a falta dela) influem no conforto, na satisfação com a rotina e no resultado do trabalho.

Em nossas experiências, descobrimos, por exemplo, que quando os empregadores bem-intencionados penduravam reproduções de obras de arte nas paredes e colocavam vasos de plantas para decorar o ambiente, seus esforços se mostravam vãos. Curiosamente, esses recursos podem ser tão desmotivadores quanto os ambientes estéreis, que geram o mesmo nível de insatisfação. Os profissionais costumam apresentar melhor desempenho quando são estimulados a decorar seu ambiente com objetos que escolheram, como plantas, enfeites, fotografias ou outras peças e imagens significativas – é importante que a pessoa se identifique com seu espaço e se aproprie dele. O projeto de um escritório, portanto, não deve ser determinado apenas por questões práticas, como ter cadeiras que não causem dor nas costas (o que é fundamental, claro). Mas os empregadores raramente consideram desdobramentos psicológicos do ambiente no desempenho, grau de satisfação, comprometimento e iniciativa dos empregados, deixando de lado um dado significativo: o local de trabalho pode contribuir para tornar as pessoas mais felizes – e aumentar o lucro dos empresários.

A proliferação de novos empreendimentos de mídia digital tentando atrair trabalhadores especializados popularizou uma opção ao sistema de escritório aberto. Junto com as máquinas de café chegaram aos ambientes de trabalho elementos visuais vis tosos, tanques com peixes tropicais, plantas e chamativas obras de arte. A ideia era fazer os profissionais se sentirem valorizados, ganhar a sua lealdade e incentivá-los a cumprir horas extras. Em Mountain View, Califórnia, no “campus” do Google (essa palavra já indica o distanciamento da dinâmica tradicional de um local de trabalho) e também em empresas de jogos virtuais e agências interativas de propaganda, os funcionários têm liberdade para encher seus escritórios com peças vintage, bonequinhas Hello Kitty, objetos feitos com Lego ou qualquer coisa bonita, engraçada ou significativa. Os empregados chegam a competir para ver quem consegue criar o espaço mais atraente.

Há a possibilidade, porém, de que os escritórios incrementados aumentem o bem-estar e a produtividade dos empregados, mas nem sempre provoquem mudanças positivas profundas. Cientistas da Universidade de Amsterdã substituíram os escritórios tradicionais por espaços projetados para funções específicas (uma cabine para tarefas que demandassem concentração e “uma sala de estar” para a interação social entre colegas). Apesar desses adicionais criativos, após seis meses foi constatado que a produtividade diminuiu ligeiramente. Por que isso aconteceu?

Recentemente fizemos dois experimentos para estudar o efeito do ambiente de escritório sobre a produtividade. Conduzimos um estudo em um laboratório de psicologia e outro com trabalhadores em um escritório comercial de Londres. Nas duas experiências pedimos aos participantes que fizessem uma hora de trabalho com tarefas rotineiras (verificando documentos e criando memorandos, por exemplo) em um dos quatro tipos de espaço de trabalho.

O escritório “básico” era um espaço com aparência limpa, apenas com objetos necessários como uma mesa e uma cadeira giratória, além de lápis e papel. O ambiente “incrementado” tinha esses suprimentos básicos, mas foi decorado com plantas e peças de arte, como pinturas grandes e coloridas. No escritório ” particular”, os voluntários receberam as mesmas plantas e obras de arte que estavam no escritório incrementado, mas tiveram a liberdade de arrumá-las do modo como quisesse m ou mesmo de não usá-las. Finalmente, no espaço “retomado”, os participantes tiveram a oportunidade de decorá-lo, porém, ao terminarem, o pesquisador o redecorou para que ficasse igual ao ” incrementado”.

Este último cenário pode aparentemente não ter relevância na vida real, mas, na verdade, é surpreendente como esse tipo de interferência se torna um incômodo. Recentemente, entrevistamos um gerente de tecnologia da informação (TI) em um banco importante de Sydney, Austrália, cujo projeto e decoração tinham sido mudados 36 vezes nos últimos quatro anos. “Eu me sinto como um peão no tabuleiro de xadrez, e todos ao meu redor pensam o mesmo. É uma das principais coisas sobre as quais conversamos no escritório: o que vão inventar da próxima vez. Essa situação não é nada divertida, aliás, é bem estressante”, declarou

Nossos estudos, publicados em junho na Journal of Experimental Psychology: Applied, mostram que a produtividade do trabalhador aumenta quando sua autonomia é valorizada. As pessoas em um escritório incrementado trabalharam 15% mais rapidamente e com menos erros em comparação àquelas que estavam no escritório básico e reportaram menos queixas relacionadas à saúde. “As pinturas e as plantas realmente alegraram o local” foi uma observação típica em relação ao escritório incrementado. Um participante avaliou, referindo-se ao escritório básico: “Parecia um cenário, sem nada fora do lugar; não dava para relaxar num lugar daqueles”. A produtividade e o bem-es­tar aumentaram ainda mais – cerca de 30% – no ambiente customizado pelos participantes. “Foi demais; adorei. Que escritório maravilhoso”, disse um dos voluntários. No entanto, quando as escolhas pessoais foram ignoradas, seu desempenho e bem-estar caíram para os mesmos níveis demonstrados no escritório básico. “Eu me senti sabotado”, declarou um dos empregados do escritório “retomado”. “Gastei um tempão ar­ rumando a sala para nada… Sinceramente? Tive vontade de bater em quem mexeu no ‘meu espaço’ “, afirmou outro funcionário.

VIGILÃNCIA, SUFOCO E TOSSE

Outros fatores além do projeto e das armadilhas de um local de trabalho, como a acústica, podem afetar o desempenho profissional. Um estudo realizado pela Universidade de Turku, na Finlândia, avaliou como os funcionários se saíram em tarefas cognitivas em ambientes variados com relação a sons. A equipe descobriu que, quando os trabalha­ dores ouviam sons irrelevantes de fala por perto (imagine um rádio ligado na mesa do colega ao lado), o desempenho em tarefas de compreensão de leitura e memorização de números declinava, assim como o conforto dos participantes. Os pesquisadores especulam que o ruído pode perturbar a memória, além de estimular o estresse; por isso recomendam paredes altas entre as estações de trabalho e uso de materiais que absorvam o som.

Mostrar aos empregados como manipular os ambientes de trabalho em benefício próprio tem vantagens distintas. Em uma pesquisa do Liberty Mutual Research lnstitute for Safety, em Hopkinton, Massachusetts, foram avaliados os efeitos de oferecer um curso de treinamento em ergonomia aos funcionários fornecer cadeiras de escritório altamente ajustáveis. Aqueles que receberam o treinamento e a cadeira não apenas correram menos riscos de problemas com músculos e ossos, como se sentiram melhor na situação do trabalho em geral.

Na verdade, oferecer ou negar controle sobre as condições de trabalho dos funcionários tem implicações significativas para seu bem-estar e costuma deflagrar a chama­ da “síndrome do prédio doente”, com sintomas como irritação nos olhos, nariz, garganta e pele, fadiga, náusea, dores de cabeça e tonturas. A patologia geralmente é atribuída a propriedades físicas do local de trabalho, como problemas de ventilação, aquecimento ou sistemas de ar-condicionado. Mas uma grande pesquisa da Universidade de Copenhague desafiou esse conceito. Os cientistas descobriram que as reclamações são duas vezes mais comuns entre profissionais que estão em posições inferiores e, portanto, exercem pouco controle sobre seus ambientes.

A relação entre a falta de autonomia em relação ao próprio espaço e a síndrome do edifício doente é verdadeira até em ambientes sofisticados, “favoráveis ao funcionário”, como a de uma agência de turismo no Rei no Unido, estudada pelo pesquisador Chris Baldry, professor de administração da Universidade de Stirling, na Escócia. Aparentemente, o lugar parecia promissor: áreas com cores fortes eram enfeitadas com palmeiras. Mas um espaço no estilo Panaopticon, o chamado Controle da Missão, permitia que os gerentes monitorassem clandestinamente os funcionários. Estes, por sua vez, reclamavam constantemente da sensação de sufocação e da tosse seca.

A impressão de estar sendo vigiado também está ligada à produtividade. Cientistas da Universidade de Chung­Ang, em Seul, pesquisaram quase 400 trabalhadores e descobriram relação entre o controle percebido pelos funcionários em seus locais de trabalho e sua capacidade de concentração. Nesse estudo, o “controle” foi definido, parcialmente, como ter a possibilidade de mexer na mobília dentro do ambiente profissional e individualizar os enfeites, da mesma forma como nosso escritório incrementado. As respostas da pesquisa indicam que, quando as pessoas sentiam que tinham poder de decisão sobre os aspectos físicos de sua área de trabalho, os efeitos negativos do barulho e de outros fatores de distração eram reduzidos. O fato é que quando nos sentimos desconfortáveis ficamos menos envolvidos com as atividades. Mas, se trabalhamos em espaços aos quais nos sentimos conectados, ficamos mais felizes e produtivos – e até mesmo mais saudáveis. Ou seja: felicidade nos torna mais comprometidos e criativos. Pena que alguns patrões ainda não saibam disso…

ALEXANDER HASLAM é professor de psicologia social da Universidade de Exeter, na Inglaterra.

CRAIG KNIGHT é pesquisador, doutor em psicologia e diretor do Center for Pychological Research into ldentity and Space Management, em Exeter.

GESTÃO E CARREIRA

Procuram-se conselheiros

PROCURAM-SE CONSELHEIROS

 Recentemente, um headhunter me pediu indicações de profissionais de recursos humanos para atuar no conselho de administração de uma grande empresa. Ele precisava levar três nomes para a companhia que buscava um profissional externo e com conhecimento aprofundado de gestão de pessoas para compor o board.

Fiquei feliz em ajudá-lo. Afinal, é uma oportunidade nova e excelente para executivos de RH. Mas, depois de um tempo, fiquei preocupada: em minhas referências e meus contatos, encontrei pouquíssimos nomes capazes de preencher os requisitos.

Ao mesmo tempo que os profissionais de RH desejam se inserir nos conselhos, poucos têm se preparado para isso – o que reforça o preconceito de serem mais operacionais e menos estratégicos.

É preciso se preparar para assumir nos conselhos de administração. Estudar, entender como funciona a governança corporativa, fazer um networking específico, participar de eventos em que são discutidas questões de goverança, ler muito a respeito. Não basta acreditar que está capacitado apenas porque você participa das reuniões com o board de sua organização.

Vejo executivos de nossa área deixarem esse assunto para quando estão perto da aposentadoria. Mas isso é um erro: não é preciso ter cabelos brancos para ser conselheiro. Empresas menores ou   startups buscam gente em uma fase anterior à aposentadoria para agregar a seus boards.

Claro que conheço profissionais competentes e que acredito que fariam um excelente papel como conselheiros, mas é difícil as corporações aceitarem quem não tem experiência. Temos de desenvolver o olhar estratégico que um conselho administrativo demanda. É fundamental compreender qual seria sua função, com a experiência em gestão de pessoas, dentro de um board, além de entender como essa posição se distingue do cargo executivo.

Reclamamos de não sermos convidados para o baile, mas, quando surge o convite, não estamos

preparados: não temos roupa, não sabemos dançar nem nos comportar. Isso não pode acontecer!

Temos de estar prontos para ampliar a carreira para novos horizontes. Se os executivos de

 recurso humanos fizerem direito a lição de casa, terão tudo para se tomar grandes vozes dentro dos conselhos administrativos e contribuir imensamente para melhorar a governança das organizacões.

Vicky Bloch – Psicóloga, sócia da Vicky Bloch Associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

TRANSPONDO A PALAVRA

Sempre que nós pegamos a Bíblia e a lemos, mesmo em uma versão moderna como a Bíblia na Linguagem de Hoje, sabemos que estamos voltando dois milênios na história — ou, no caso do Antigo Testamento, até mais. Nós nos transportamos no tempo, para antes da revolução da informática e da revolução eletrônica, até que finalmen­te nos encontramos num estranho mundo que deixou de existir há muito tempo. Ê por isso que a Bíblia nos dá uma sensação esquisita, arcaica, parece obsoleta e com cheiro de mofo. Aí nos sentimos tentados a perguntar, impacien­tes: “Mas o que é que esse livro velho tem a ver comigo?” O nosso senso de incongruência ao lermos a Bíblia e a consequente dificuldade que sempre experimentamos ao recebermos dela uma comunicação significativa, devem-se, antes de tudo, não à passagem do tempo em si mesmo (do primeiro século para o século XX), nem à mera distância (do Oriente Médio para o Ocidente), mas às diferenças culturais causadas pela distância no tempo e no espaço. Na verdade, estamos nos confrontando com dois proble­mas distintos, mas complementares. O primeiro é o pro­blema do nosso próprio aprisionamento cultural e o segun­do é o problema do condicionamento cultural dos autores bíblicos. Ou seja, tanto os escritores como os leitores da Escritura são criaturas culturais, produtos (e, portanto, até certo ponto, prisioneiros) das culturas específicas em que foram criados. O resultado é que em toda a nossa leitura da Bíblia dá-se uma colisão de culturas entre o mundo bíblico e o mundo moderno. Tanto o fato de Deus falar como o fato de nós ouvirmos são condicionados pela cultura. Isto afeta claramente a nossa interpretação da Escritura; no decorrer da nossa discussão teremos de perguntar se isto afeta também a autoridade da Escritura.

A QUESTÃO DA HERMENÊUTICA

A hermenêutica bíblica, isto é, a arte ou ciência de inter­pretar a Escritura, tem se tornado, nestas últimas décadas, uma das principais preocupações dos estudiosos. Na ver­dade, todo cristão que lê a Bíblia acaba de confrontando com a questão de como entendê-la corretamente.

O problema surge com as extremas particularidades cul­turais do texto antigo e do intérprete moderno. Cada um tem um “horizonte” diferente, uma perspectiva ou um ponto de vista limitado, e o que se faz necessário é aquilo que Hans-Georg Gadamer chamou de “fusão de horizon­tes”. “A compreensão ocorre”, escreve Dr. Tony Thiselton em seu clássico e abrangente estudo Os Dois Horizontes, “quando dois conjuntos de horizontes são colocados em relação um com o outro, a saber, o horizonte do texto e o do intérprete.”

Neste processo, a primeira tarefa do intérprete foi cha­mada por Gadamer de “distanciamento”. Isto é, nós pre­cisamos reconhecer “a identidade do passado”, desligar-nos do texto e dar espaço para a sua própria integridade histórica, sem nos intrometermos nele nem decidirmos prematuramente como ele se aplica a nós. Uma exegese cuidadosa do texto tem que estudá-lo em seus próprios termos linguísticos e culturais.

Mas isso é apenas o começo. Se antes nós precisamos manter distância do texto, num segundo momento nós temos que tentar penetrar nele.  “É preciso haver um envolvimento presente com o texto”, escreve Thiselton, “como também um distanciamento crítico dele”. Mas, como o intérprete também pertence a um contexto preciso e específico, embora diferente do do texto, isto não é fácil. É preciso um alto nível de imaginação, de empatia, se se quiser penetrar nesse estranho mundo. “Exegese histórica é essencial, mas não é suficiente. Nós precisamos distanciamento e também abertura para o texto, e os dois irão progredindo até a fusão dos horizontes.”

Isto leva a uma ativa interação ou dialética entre texto e intérprete. Por mais que nos esforcemos para nos dis­tanciar do texto, é difícil deixar de trazer para ele nossas pressuposições e nossa própria agenda de problemas e questões. Pode ser que a Escritura proveja algumas res­postas para estes. Mas, já que ela tem a sua própria agenda, pode ser que não. Pelo contrário, é provável que ela nos desafie a irmos embora e a reformularmos as nossas questões, ou até a substituí-las por outras melhores. Então nós retornamos com a nossa nova agenda, e assim o diálogo entre nós continua. Isso faz parte daquilo que se chama “o círculo hermenêutico”, embora certos estudiosos euro­peus e latino-americanos prefiram a expressão “espiral hermenêutica”, pois o movimento é progressivo e ascen­dente.

Durante a década de 60 alguns académicos alemães, espe­cialmente Ernst Fuchs e Gerherd Ebeling, ex-alunos de Bultmann, foram mais adiante e desenvolveram uma “nova hermenêutica”. Rejeitando a objetividade por considerá-la impossível e baseados em que nós não podemos fugir à nossa própria particularidade e penetrar na do autor bíblico, eles enfatizaram a necessidade de se permitir que o próprio texto fale. Segundo a sua teoria da linguagem, o propósito do texto não é tanto transmitir “conceitos” como provocar um “evento” (um “evento-linguagem”), em que os papéis do texto e do intérprete são invertidos e o intérprete ouve ao invés de falar. Parece claro que esses pós-bultmannianos foram longe demais. Negando que o texto bíblico tenha um significado objetivo, acessível, eles caíram em uma descon­trolada subjetividade. O que o texto dizia para eles poderia não ter relação alguma com aquilo que ele realmente significava.

Há, no entanto, um valor intrínseco no que esses estu­diosos tentam encontrar. Eles levam a sério o abismo cultural entre o passado e o presente. Reconhecem a par­ticularidade histórica independente, tanto do texto como do intérprete, e procuram desenvolver uma dialética entre os dois. A antiga hermenêutica colocava em nossas mãos um conjunto de leis universais de interpretação, que nós aplicávamos ao texto; a preocupação da nova hermenêutica é permitir que o texto aplique sua mensagem a nós. A velha hermenêutica concentrava-se no texto como objeto; nós nos debruçávamos sobre ele, estudávamos, pesquisávamos, aplicávamos a ele as nossas regras e quase assumíamos o controle sobre ele. A nova hermenêutica, por sua vez, concentra-se no texto como sujeito; ele está acima de nós e nós nos colocamos humildemente “sob ele”, como diziam os Reformadores. Ele fala conosco, nos confronta, nos desafia e transforma.

Eis aqui, pois, o perigo de uma nova polarização entre o “velho” e o “novo”. Tanto um como o outro, sozinho, fica perigosamente desequilibrado. Afinal, o texto tanto é objeto como sujeito. Nós falamos a ele e ele fala a nós. Mas, à medida que se desenvolvem estes dois processos, nós precisamos insistir em que o objeto e o sujeito são o mesmo texto e têm o mesmo significado.

Voltemos agora aos dois problemas culturais, conside­rando cada um deles isoladamente.

NOSSO PRÓPRIO APRISIONAMENTO CULTURAL

Todo e qualquer ser humano que já existiu sempre foi uma criatura cultural. Cultura é um termo conveniente com o qual se denota o complexo de crenças, valores, costumes e tradições que cada geração recebe de seu predecessor e transmite a seu sucessor, e que une uma sociedade. Todos nós bebemos, juntamente com o leite da nossa mãe, a nossa herança cultural. O nosso jeito de pensar, julgar, agir, falar, vestir, comer, trabalhar e brincar — todas essas coisas são, em larga escala, determinadas pela nossa cultura, e nós geralmente nem nos apercebemos de quanto da nossa for­mação cultural nos mantém escravizados.

Daí o grande valor de viajar, pois então nós aprendemos a ouvir a nós mesmos através dos ouvidos de outra cultura e enxergamos a nós mesmos através dos olhos de outra cultura. Eu me lembro muito bem da minha primeira visita aos Estados Unidos, há cerca de trinta e cinco anos. Depois da minha primeira conferência em solo americano, uma senhora me disse: “Gosto do seu sotaque britânico!” Sotaque, eu?! É claro que ela tinha um sotaque americano, mas eu, que falava o inglês da Rainha da Inglaterra?! O meu jeito de falar era o padrão; o dela é que era um desvio, uma deturpação… E então, não muito tempo depois, eu me vi em Manila; e um garotinho filipino, que não devia ter mais que oito anos, aproximou-se de mim, inclinou a cabeça para um lado, olhou para o meu rosto e comentou descaradamente: “Você fala tão engraçado!” Ele estava certo. E eu também. Mas, então, você também está certo, assim como todo mundo.

Nossa cultura abrange não somente os pontos de vista e os valores, padrões e costumes gerais da nossa sociedade, mas também aqueles que se aplicam ao sexo, idade e classe social de cada um de nós. Tudo isso afeta a maneira como nós lemos a Bíblia. Por exemplo: como é que eu, sendo ho­mem, posso ler as Escrituras da mesma maneira que uma mulher que traz em seu corpo as feridas do chauvinismo machista? Ou como é que eu, um homem idoso, posso ouvir das Escrituras o mesmo que os jovens ouvem quando a leem? Ou então, como é que eu, membro de uma sociedade afluente, posso realmente ouvir o que a Escritura diz acerca dos pobres?

Homens e mulheres, jovens e velhos, negros e brancos, africanos e asiáticos, capitalistas e socialistas, assalaria­dos e não assalariados, classe-média e classe trabalhadora, todos nós lemos a Bíblia de maneiras diferentes. Nossos óculos têm lentes culturais. E não só difícil, como quase impossível, lermos a Bíblia com objetividade e abertura genuínas, assim como é difícil para Deus conseguir pene­trar as nossas defesas culturais e dizer-nos o que ele quer dizer. Pelo contrário, quando nós vamos ler a Bíblia, chegamos com nossa própria agenda, nossos preconceitos, indagações, preocupações, interesses e convicções; e, a menos que sejamos extremamente cautelosos, acabamos impondo-os ao texto bíblico. Podemos até orar sinceramen­te antes de ler: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei”; mas a mesma falta de comunicação pode ainda persistir. Afinal de contas, até essa oração introdutória, embora seja extraída dos Salmos, é suspeita, pois ela já pressupõe o tipo de mensagem que nós queremos ouvir:

“Senhor, por favor, eu quero enxergar alguma ‘coisa ma­ravilhosa’ na tua palavra.”

Mas pode ser que ele responda:

“O que é que faz você pensar que eu só tenho ‘coisas ma­ravilhosas’ para lhe mostrar? Para falar a verdade, eu tenho é algumas ‘coisas perturbadoras’ para lhe mostrar hoje. Você está pronto para recebê-las?”

“Oh, não, Senhor, por favor, não”, nós gaguejamos em resposta. “Eu só me aproximo das Escrituras para ser confortado. Eu realmente não quero ser desafiado nem per­turbado.”

Em outras palavras, nós nos aproximamos da Bíblia com a nossa agenda formulada unilateralmente, nossas expec­tativas pré-estabelecidas, com a cabeça feita, descrevendo de antemão o que queremos que Deus nos diga. E então, ao invés de ouvirmos o trovejar de sua voz, tudo o que recebemos são os ecos suaves de nosso próprio preconceito cultural. E Deus nos diz, tal como disse aos seus servos através de Isaías: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver. Quem é cego, como o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio?”

Daí o registro deveras desanimador que nós temos acerca da infidelidade da igreja. Raramente, na longa história da igreja, ela esteve sensivelmente sintonizada com a Palavra de Deus. O mais comum é ela ser exatamente o que foi proibida de ser, ou seja, conformista. Ela tem se deixado influenciar mais pelo mundo do que pela Palavra. Ao invés de desafiar o status quo com os valores do Reino de Deus, ela tem sido condescendente com ele. Em vez de resistir aos abusos do secularismo, tem se rendido a eles. Ao invés de rejeitar o sistema de valores e o estilo de vida do mundo, ela os tem assimilado. A igreja tem se acomodado à cultura predominante, embarcando em todos os trens da moda predominante e cantarolando todas as cantigas que estão em voga. Sempre que a igreja faz isso, ela lê a Escritura através dos olhos do mundo e racionaliza a sua própria infidelidade.

Será que estou sendo injusto? Eu acho que não. Vejamos alguns exemplos do passado. Afinal, a história da igreja está cheia de manchas negras culturais.

Eu me pergunto, por exemplo: como é que a consciência cristã não só aprovou como se deixou fascinar por aquelas terríveis cruzadas medievais, considerando-as uma forma de missão que glorificaria a Cristo, de tal forma que ca­valeiros cristãos europeus, envoltos em brilhantes arma­duras, partiam em cavalgada a fim de recuperar pela força os lugares sagrados do Islã? Isto foi uma terrível asneira que os muçulmanos nunca esqueceram, e muito menos perdoaram, e que continua impedindo a evangelização do mundo muçulmano, especialmente no Oriente Médio. Ou como se explica o emprego da tortura em nome de Jesus Cristo a fim de combater a heresia e impor a ortodoxia, de forma que os mais variados instrumentos de tortura eram aplicados a algum miserável dissidente até que ele capitulasse? Isso quase poderia ser caracterizado como “evangelização pela tortura”… e isso em nome do Príncipe da Paz! E como é que, embora os franciscanos tenham organizado missões no século XIII e os jesuítas no século XVI, as igrejas protestantes estavam tão embevecidas consigo mesmas que literalmente não desenvolveram missão alguma até a época dos pietistas, dois séculos depois da Reforma? E mesmo aí, lá pelos fins do século XVIII, quando William Carey propôs uma missão para a Índia, recebeu como resposta a complacente ironia: “Sente-se, meu jovem; quando Deus quiser converter os pagãos, ele o fará sem a sua ajuda ou a minha.” Será que esse crítico nunca leu a Grande Comissão?

E mais: como se explica que, no Ocidente dito cristão, as cruéis degradações da escravidão e do tráfico de escravos não foram abolidas senão 1800 anos depois de Cristo? Ou como é que o preconceito racial e a poluição do meio ambiente foram amplamente reconhecidos como os males que são somente depois da Segunda Guerra Mundial?

Eis aí a relação de algumas das piores nódoas que têm manchado o testemunho da igreja através dos séculos. Ne­nhuma delas pode ser defendida com base nas Escrituras, se bem que dissimuladas tentativas tenham sido feitas neste sentido. Todos estes fatos resultam sobretudo de uma leitura errónea das Escrituras ou da falta de disposição para submeter-se à sua autoridade. Os filhos de Deus se deixaram cegar pela tradição. Eles tinham outras agendas: não estavam a fim de dar ouvidos a Deus.

Mas, e a nossa própria cegueira contemporânea? E com­parativamente fácil criticar os nossos antecessores pela cegueira deles; muito mais difícil, porém, é ter consciência da nossa. O que será que a posteridade há de ver como as principais manchas negras do cristianismo no final do século XX? Eu não posso dizer com muita certeza, é claro, pois eu mesmo participo dessa miopia. Mas suspeito que a resposta tenha relação com duas áreas principais. Pri­meiro, nós, os cristãos que vivemos na afluência do Atlân­tico Norte, parece que ainda não sentimos suficientemente a injustiça da contínua desigualdade económica Norte-Sul, que foi forçosamente trazida à atenção do mundo pelos dois Relatórios da Comissão Brandt, Norte-Sul (1980) e Crise Comum (1983). À parte das questões macroeconómicas do comércio e desenvolvimento, nós não parecemos ter per­mitido que tal situação afetasse o nosso estilo de vida. Enquanto um bilhão de pessoas são destituídas de recursos, não tendo como prover as necessidades básicas de sobre­vivência, e enquanto cerca de 10.000 pessoas morrem de fome a cada dia, sem contar as que vivem em condições de miséria, será que a voz de protesto dos cristãos não deveria ser mais alta e mais estridente? E por que não simplificar o nosso estilo de vida económico — não porque achemos que isto iria resolver o problema, mas porque, pessoalmente, isso nos deixaria mais capacitados a com­partilhar mais e a expressar de maneira mais apropriada o nosso senso de solidariedade e compaixão para com os pobres?

Uma segunda mancha negra, pelo menos dos cristãos evangelicais, me parece ser a nossa comparativa falha em condenar como sendo imoral e indefensável todo armamen­to indiscriminado, tanto o uso de armas atómicas, sejam químicas ou biológicas — já que elas, por sua própria natureza, matam indiscriminadamente — como o uso indiscriminado de armas convencionais. Nós certamente deveríamos estar denunciando isto como sendo incompa­tível com a teoria da “guerra justa”, e muito menos ainda com o pacifismo cristão. Foi lá por 1965 que a Igreja Católica Romana condenou tais armas como sendo “um crime contra Deus e contra o próprio ser humano”. Seguiram-se pronunciamentos ecumênicos, declarando a guerra indiscriminada como sendo “crescentemente ofensiva à consciência cristã”. Mas a voz dos evangélicos, com hon­rosas exceções, tem permanecido irresponsavelmente muda.

O primeiro passo para se resgatar a nossa integridade cristã é o humilde reconhecimento de que a nossa cultura nos cega, ensurdece e dopa. Nós nem vemos o que deveríamos ver na Escritura, nem ouvimos a Palavra de Deus como deveríamos, nem sentimos a ira de Deus contra o mal. Precisamos deixar que a Palavra de Deus nos confronte, perturbando a nossa segurança, minando a nossa compla­cência, impregnando os nossos protetores padrões de pensamento e de comportamento e destruindo a nossa resis­tência.

Para Deus não é impossível fazer isso. Uma vez que nos apercebamos de quão forte pode ser a barreira da nossa cultura para a comunicação entre Deus e nós, aí estaremos alertas para o problema. Só então começaremos a clamar a ele para que abra os nossos olhos, desentupa os nossos ouvidos e golpeie a nossa consciência adormecida até que ela desperte e, assim, nós vejamos, ouçamos e sintamos o que (através de sua Palavra) Deus vinha nos dizendo o tempo todo.

O CONDICIONAMENTO CULTURAL DA BÍBLIA

Não são apenas os leitores da Bíblia que são produtos de uma determinada cultura; os autores bíblicos também o eram. E Deus levou isso em consideração quando quis comunicar-se com o seu povo. Ou seja, ao falar, ele não usou a sua própria língua (se é que ele fala alguma língua), nem se expressou em termos de sua própria cultura celestial, pois tal comunicação teria sido ininteligível para os seres humanos aqui na terra. Deus tampouco gritou, lá do imenso céu azul, máximas descontextualizadas. Pelo contrário, ele se humilhou e expressou-se na língua do seu povo (hebraico clássico, aramaico e grego comum), e dentro das culturas do antigo Oriente Médio (o Antigo Testamento), do judaísmo palestino (os Evangelhos) e do Império Ro­mano helenizado (o resto do Novo Testamento). Nada da Palavra de Deus foi dito em um vazio cultural; cada palavra de Deus se expressou em um contexto cultural.

Está certo que os contextos culturais em que a Bíblia foi escrita são geralmente estranhos a nós. Mas nós não deveríamos nos ressentir disso, alegando que nos causa problemas. Pelo contrário, deveríamos nos regozijar na condescendência de Deus, que desceu ao nosso nível a fim de revelar-se em termos linguística e culturalmente apro­priados. Esta verdade se aplica, tanto à encarnação de seu Filho, que assumiu carne humana, como à inspiração de sua Palavra, que foi falada em linguagem humana.

Mas nós nos deparamos com mais uma questão: como pode uma revelação divina dada em termos culturais tran­sitórios ter validade permanente? Como pode uma re­velação dirigida a uma situação cultural específica ter uma aplicação universal? Será que o condicionamento cultural da Escritura não limita sua relevância para nós, e até mesmo sua autoridade sobre nós? Não deveríamos dizer com David Edwards: “Eu admito que uma boa parte da Bíblia… é culturalmente condicionada e, portanto, desatualizada”? Seria lógica sua dedução?

Como resposta a David Edwards, eu diria que concordo que a Bíblia seja um livro culturalmente condicionado (como de fato o é todo e qualquer um dos livros que já foram escritos, inclusive os dele e os meus!), mas discordo que, por isso, ela seja necessariamente desatualizada. Mas, então, como nós lidamos com o elemento cultural da Es­critura?

O princípio, tal como eu o vejo, pode se manifestar em uma ilustração cotidiana. Não é difícil para nós distinguir entre uma pessoa e a roupa que ela usa. Muitos de nós temos em casa vários conjuntos de roupas. As vezes nos vestimos a rigor, quando vamos a um casamento ou a uma festa, ou então com trajes típicos do lugar onde moramos. Outras vezes usamos roupas mais sóbrias, como quando vamos a um funeral. Há ocasiões em que nos vestimos com trajes exóticos, quando representamos ou quando vamos a uma festa à fantasia. Mas temos também nossas roupas de trabalho, roupas de lazer e nossos trajes noturnos. Em outras palavras, nosso guarda-roupa é bem variado. Mas a pessoa que está por baixo das roupas continua sendo a mesma. A roupa muda, mas a pessoa, não.

Agora, assim como nós fazemos distinção entre as pessoas e suas roupas, assim também precisamos distinguir entre a essência da revelação de Deus (o que ele está ensinando, prometendo ou ordenando) e a roupagem cultural em que ela foi dada originalmente. Qualquer que tenha sido o contexto cultural e temporal, a mensagem essencial tem validade permanente e universal. A aplicação cultural pode mudar; mas a revelação, não.

Portanto, como deveríamos reagir ao nos depararmos com uma passagem bíblica cujo ensinamento é, obviamen­te, revestido de uma roupagem cultural antiga (já que ela tem relação com costumes sociais que, ou são obsoletos, ou pelo menos são alheios à nossa cultura)? Existem três opções.

A primeira possibilidade é a rejeição total. “Já que a cultura está desatualizada”, poderíamos dizer a nós mes­mos, “o ensino aqui é irrelevante. Não tem nada a ver comigo. Eu posso muito bem pegar uma tesoura, cortar esta pas­sagem da minha Bíblia e jogá-la fora.” Eu não recomendo esta reação!

A segunda possibilidade, contrária a esta, é um literalismo rígido e sem imaginação. O literalista diz: “Já que este texto é parte da Palavra de Deus, ele deve ser preservado e seguido exatamente como está, sem nenhuma modifica­ção. Tanto a substância como a sua expressão cultural têm a mesma autoridade. Descartar qualquer uma das duas seria brincar com a Palavra de Deus e pecar por incipiente liberalismo.” Esta reação eu também não recomendo.

Existe uma terceira opção, mais sensata, que eu chamo de transposição cultural. Agora o procedimento é identi­ficar a revelação essencial do texto (o que Deus está dizendo aqui), separá-la da forma cultural em que Deus decidiu dá-la, e então revesti-la de termos culturais modernos apro­priados. Uma boa palavra para esta prática é “transposi­ção”, pois este é um termo familiar em se tratando de contextos musicais. Transpor uma peça musical é colocá-la em um tom diferente daquele em que foi escrita origi­nalmente. Transpor um texto bíblico é colocá-lo em uma cultura diferente daquela em que foi originalmente dada. Na transposição musical, a melodia e a harmonização continuam as mesmas; somente o tom que é diferente. Na transposição bíblica, a verdade da revelação permanece a mesma; só o que muda é a expressão cultural.

Missionários transculturais são uma boa ilustração da necessidade de transposição transcultural, embora eles tenham de lutar com a dialética entre três culturas. Sua tarefa é tomar a essência do evangelho, que primeiro foi revelado em contextos culturais da Bíblia e que eles mesmos receberam em sua própria cultura, e transpô-la para a cultura do povo para quem eles vão pregar, mas sem deturpar a mensagem ou torná-la incompreensível. Pelo menos é assim na teoria. Na prática, os missionários muitas vezes levam consigo aquilo que, no Congresso de Lausanne em 1974, o Dr. René Padilla chamou de “cris­tianismo cultural”. Em outras palavras, eles exportam, junto com o evangelho, a sua própria herança cultural.

Eu me lembro do choque que senti em minha primeira visita à Africa Ocidental e suas igrejas. Lá eu vi torres góticas erguendo-se acima das folhas das palmeiras e des­toando completamente destas, e bispos africanos suando profusamente no calor tropical porque estavam usando vestes clericais da Europa medieval. Ouvi hinos com me­lodias ocidentais sendo cantados ao som de instrumentos ocidentais, e pastores africanos dirigindo cultos no inglês de trezentos anos atrás! Naturalmente, é fácil criticar. E, se nós estivéssemos no lugar dos primeiros missionários, muito provavelmente teríamos cometido o mesmo equívo­co. No entanto, essa imposição das formas culturais oci­dentais foi uma grande tolice. O que se precisa, ao invés disso, é aquilo que, na Índia, Stanley Jones chamou de “naturalização do evangelho”, isto é, a sua transposição para formas culturais autóctones.

Olhando novamente para as três opções mencionadas, talvez poderíamos dizer que a “rejeição total” é como jogar fora o bebê junto com a água do banho; que o “literalismo rígido” é ficar com o bebê e a água do banho, juntos, ao passo que a “transposição transcultural” é ficar com o bebê e trocar a água do banho.

EXEMPLOS DE TRANSPOSIÇÃO CULTURAL

A Bíblia se preocupa tanto com a doutrina como com a ética, a fé e o comportamento, e em ambas as áreas é necessário haver transposição cultural.

Consideremos primeiro o ensinamento teológico e dou­trinário da Bíblia. Parece óbvio que precisamos aprender a distinguir entre a verdade que está sendo afirmada e os termos culturais em que ela é apresentada; entre signifi­cado (a revelação) e meios (sua comunicação). É nesta conexão que temos de encarar o desafio colocado por Bultmann em seu programa de “desmitologização”. Seu raciocínio pode, sem muita modificação, ser reduzido a três pontos, relacionados respectivamente com os autores bíblicos, com os seus leitores modernos e com os comu­nicadores teológicos. Primeiro: o contexto intelectual dos autores bíblicos era pré-científico e, portanto, “mítico”. Por exemplo, eles visualizavam o céu acima e o inferno abaixo, em um universo de três andares; assim, imagina­vam Jesus literalmente “descendo ao inferno” e “subindo aos céus”. Segundo: se aos homens e mulheres do mundo científico moderno se apresentar hoje o evangelho (kerygma) expresso em termos dessa cosmologia obsoleta, eles sim­plesmente o refutarão como inacreditável. Terceiro: a tarefa dos teólogos é, portanto, despir a Bíblia dos seus elementos míticos, ou “desmitologizar o kerygma”, pois o propósito do mito não é falar de eventos históricos, mas da realidade transcendental.

É melhor entrarmos logo em acordo quanto ao espírito do segundo ponto apresentado. Nossa preocupação prioritária é como comunicar o kerygma às pessoas mo­dernas de tal forma que ele seja digno de crédito. Para tanto, temos de proclamar a verdade bíblica, mas não necessa­riamente usando termos bíblicos. Nós podemos (e devemos) transpor a verdade revelada para um idioma moderno.

Quanto ao primeiro ponto de Bultmann, no entanto, eu mesmo não estou convencido de que os autores bíblicos foram tão literais quanto ele supõe. Para dizer a verdade, eles usaram o imaginário do universo em três níveis porque ele fazia parte do seu contexto intelectual. Mas será que eles estavam realmente afirmando isso? Eu acho que não. Vejamos, por exemplo, o Salmo 75. Ali se diz que, quando a terra vacilar, Deus “firmará as suas colunas” (v. 3). Portanto, vemos aqui a terra (o andar do meio) sustentada por colunas. Mas no mesmo salmo o salmista adverte que Deus tem em sua mão “um cálice, cujo vinho espuma, cheio de mistura” e que ele o dará aos ímpios para que bebam “até às escórias” (v. 8). Agora, ninguém (e muito menos o salmista) acreditava literalmente que Deus vive com um cálice de vinho na mão. Se, pois, este é um exemplo de dramática imagem poética, não seria gratuito insistir que as “colunas da terra” devam ser entendidas literalmente?

Os autores do Antigo Testamento afirmaram o controle soberano de Deus sobre o mundo ao dizerem que ele man­tinha firmes os pilares da terra, sem que com isso esti­vessem se comprometendo com uma “cosmologia dos três níveis”. Eles afirmaram o poder de Deus sobre o mal referindo-se ao fato de que ele destruiria o “dragão” ou “monstro”, o “Leviatã”, ou “crocodilo”, sem com isso se comprometerem com o mito babilónico da criação. Afirmaram ainda a revelação geral de Deus por intermédio da natureza ao dizerem que o sol “percorre o seu caminho de uma extremidade a outra dos céus”, sem com isso se comprometerem com um universo pré-copernicano. Estas formas de pensamento e de discurso, quer sejam chamadas de “imaginário”, “poesia” ou “mito”, eram comuns no antigo Oriente Médio. Os escritores do Antigo Testamento costumavam usá-las para transmitir verdades acerca de Deus como Criador e Senhor, sem que com isso afirmassem a verdade literal das imagens ou da mitologia que estavam usando.

Isto nos leva ao terceiro ponto de Bultmann. Nós até poderíamos concordar com a necessidade, até certo ponto, de “desmitologizar”, se o que se quer dizer com isso é a necessidade de transpor a verdade de um conjunto de imagens para outro, como acabamos de ver. Mas Bultmann vai muito mais além disso, especialmente em se tratando do Novo Testamento. Ele tenta reconstruir o kerygma (espe­cialmente a morte, a ressurreição e a parousia de Jesus) diluindo estes eventos históricos em um “significado” que não é histórico. Assim, conforme Bultmann, quando os apóstolos diziam que “Cristo morreu por nossos pecados”, eles não estavam se referindo a nenhum sacrifício literal de “carregar os pecados”, mas sim afirmando o amor de Deus e a nossa própria experiência existencial de ser crucificados com Cristo. Ao afirmarem que “ele ressusci­tou”, não estavam se referindo a um evento, mas a uma experiência, a saber, que ele ressuscitou em sua própria fé renovada. E, ao dizerem que ele virá novamente para julgar, não estavam se referindo a um evento futuro, mas a um desafio presente para se tomar uma decisão respon­sável por Cristo hoje.

A questão-chave, entretanto, é se as afirmações de que Cristo morreu, ressuscitou e voltará eram deliberadamente maneiras míticas de referir-se a algo além de eventos históricos, ou se foram acontecimentos reais que eram, eles mesmos, parte do kerygma que estava sendo proclamado. A interpretação natural do kerygma apostólico é que os apóstolos pretendiam proclamar eventos da carreira de Jesus que tanto eram historicamente verdadeiros como teologicamente significativos.

É, portanto, legítimo distinguir entre o significado e o meio, entre o que está sendo afirmado e como a afirmação é feita, entre a revelação da verdade e a sua comunicação. Mas também é essencial perguntar se as palavras e as ima­gens utilizadas são literais ou míticas. A derrota do Leviatã é um mito; a morte, a ressurreição e a vinda de Jesus fazem parte da história. A intenção do autor geralmente nos ajuda a saber qual deles é o quê.

Vejamos agora três exemplos de transposição cultural no campo ético. Começarei com um exemplo bem simples, a fim de que possamos captar de fato o princípio e sua aplicação, a saber, o lava-pés. Depois que Jesus lavou os pés dos doze no cenáculo e voltou ao seu lugar, ele disse: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” Nos dias de Jesus, lavar os pés era uma prática cultural comum. Se fôssemos convidados para uma refeição na casa de um amigo, teríamos de caminhar descalços ou de sandálias através de ruas empoeiradas; por isso, ao chegarmos, um escravo iria lavar os nossos pés. Hoje, porém, pelo menos no Ocidente, a cultura inteira mudou. Quando vamos visitar um amigo, vamos de carro ou de transporte público. Ao chegarmos, certamente não haverá escravo algum para nos encontrar e nos lavar os pés. Em vez disso, nosso anfitrião provavelmente nos perguntará: “Você quer lavar as mãos?” Portanto, como é que devemos lidar com um texto em que se recomenda lavar os pés uns dos outros? Consideremos três opções. Vamos assumir o caminho da rejeição total, baseados no fato de que em nossa cultura já não se costuma lavar os pés? Não. Vamos obedecer literalmente a ordem de Jesus e sair por aí pedindo às pessoas que tirem os sapatos e as meias para que lhes lavemos os pés? Não. Embora os menonitas, como também algumas igrejas africanas e asiáticas, tenham um ritual do lava-pés como parte do seu culto de comunhão, parece claro que a alusão de Jesus era a um costume social e não a uma cerimônia religiosa.

Resta-nos, pois, a terceira opção de transposição cultu­ral. Nós perguntamos o que Jesus queria, qual era a es­sência da sua instrução. A resposta não está muito longe. Ele estava ensinando que, se nós amamos uns aos outros, devemos servir uns aos outros; e nenhum serviço poderá ser vil, sujo ou humilhante demais para nós. Se, pois, não pudermos lavar os pés das pessoas, iremos alegremente lustrar os seus sapatos, lavar a louça ou mesmo limpar os banheiros. Nada é capaz de rebaixar-nos ou ferir a nossa dignidade. Qualquer que seja o trabalho que, em nossa cultura, seja considerado desagradável ou de baixo nível, este será um privilégio para nós, se for um gesto de amor.

Um segundo exemplo da necessidade de transposição cultural tem a ver com comer carnes sacrificadas a ídolos. A questão era se os seguidores de Jesus podiam comer a carne de animais que, antes de serem postos à venda no açougue, haviam sido oferecidos em um sacrifício de ido­latria. Os novos convertidos, recém-resgatados da idola­tria pagã, tinham problemas de consciência quanto a fazer isso. Será que comer as carnes sacrificadas aos ídolos não iria contaminá-los e comprometê-los? Para Paulo, era óbvio que não. Os ídolos não eram nada, dizia ele. Havia somente um Deus, o Pai, e apenas um Senhor, Jesus Cristo. Portanto, ele não via razão alguma para não comer essas carnes. Sua consciência era “forte”, isto é, bem formada. Mas aí, havia os crentes “fracos”, que convinha considerar. A “fraqueza” deles não residia em sua vontade, mas em sua consciência, que era subeducada e, portanto, superescrupulosa. Se Paulo fosse comer carnes sacrificadas na presença deles, eles poderiam ser encorajados a seguir o seu exemplo, contrariando aquilo que julgavam ser correto e desonrando assim a sua própria consciência. Portanto, em consideração aos cristãos fracos, Paulo se abstinha de comer essas carnes.

Ler acerca desta controvérsia tão intensa no Novo Tes­tamento parece muito estranho em nosso contexto, pelo menos no Ocidente. Não existem em nossa cultura templos pagãos onde animais sejam sacrificados a ídolos, como também não existem mercados ou açougues onde corre­ríamos o risco de comprar comida usada em cultos de idolatria. Mas, mesmo assim, permanecem dois princípios, que foram estabelecidos por Paulo e que são relevantes para os cristãos em todas as culturas hoje. A primeira é que a consciência é sagrada. Para falar a verdade, ela precisa ser educada; mas, mesmo quando ela é fraca, não deve ser violada. O “escrúpulo ético”, não apenas em relação ao serviço militar, mas também em outras situações, é per­mitido naqueles países que tiveram uma influência cristã. Segundo, o amor limita a liberdade. Paulo tinha liberdade de consciência para comer, mas privou-se dessa liberdade por amor e consideração àqueles que ficariam ofendidos se ele o fizesse. Estes dois princípios podem se aplicar em muitos contextos culturais hoje.

Meu terceiro exemplo é o mais controvertido. Refere-se à posição e ao papel das mulheres. Livros inteiros têm sido escritos sobre este assunto; o máximo que eu posso fazer aqui é analisar até onde a transposição cultural pode ser adequada e útil nesta área. Nós conhecemos as proibições de Paulo, de que uma mulher não pode “ensinar” nem “exercer autoridade sobre o marido”, como também as suas ordens para que as mulheres usem véu e se conservem caladas na igreja. A questão que se levanta com estes textos é a seguinte: será que todas estas instruções têm validade permanente ou universal? Ou elas contêm alguns elementos culturais que nos permitiriam um pouco de flexibilidade na interpretação e que podem necessitar de transposição para a nossa própria cultura? Antes de res­ponder a estas perguntas, eu preciso fazer duas afirmações e, depois, mais duas perguntas.

A primeira afirmação é que os sexos são iguais. Isto é ensinado em Gênesis 1.26-28. Homens e mulheres são igualmente portadores da imagem divina e coparticipantes no domínio da terra. Além disso, se eles são iguais por criação, mais iguais ainda (se é que isto é possível) eles são por redenção. Afinal, em Jesus Cristo “não pode haver … nem homem nem mulher”. Isto é: nós somos absolu­tamente iguais em valor, dignidade e relação com Deus. A segunda afirmação é que os sexos se complementam. Isto é ensinado em Gênesis 2.18-24. Igualdade não significa identidade. Nem implica necessariamente em completa intercambiabilidade de papéis. Além disso, dentro dessa complementariedade, Paulo afirmou o princípio da lideran­ça masculina, a partir dos fatos da criação descritos em Gênesis 2, a saber, que a mulher foi feita depois do homem, a partir deste e para ele. E ele evidentemente não via conflito algum entre isto e gálatas 3.28. Eu mesmo não me sinto em condições de discordar do apóstolo Paulo, nem tenho a liberdade de descartar este seu ensino por considerá-lo rabínico, cultural ou mesmo errôneo. Pelo contrário, ele está fundamentado na criação, e o que a criação estabeleceu nenhuma cultura pode destruir.

Das duas afirmações eu passo às duas perguntas. Pri­meiro, o que significa “ser cabeça”? Eu acho que não encontraremos a resposta na etimologia da palavra grega kephale, “cabeça”, nem no uso desta no grego secular, em que ela algumas vezes pode significar “origem”. O signi­ficado de uma palavra na Escritura é menos determinado por sua origem ou pelo seu uso em algum outro lugar do que por seu uso no contexto bíblico. Sendo assim, Efésios 5.21-32 vem em nosso auxílio, já que ali Paulo usa “cabeça” para transmitir a ideia de responsabilidade, ao invés de autoridade. Ele argumenta que o papel de “cabeça” do marido (e, portanto, a liderança masculina em geral) deve ter como modelo o fato de Cristo ser “o cabeça” da igreja (o que o levou a entregar-se a si mesmo por ela), como também a nossa relação para com o nosso próprio corpo (que nos leva a nutri-lo e a cuidar dele). Em ambos os casos, “ser cabeça” implica sacrifício e serviço. É o “ser cabeça” do cuidado e não do controle. Seu propósito não é inibir, e muito menos esmagar, mas, sim, facilitar, criar condições de amor e segurança em que as mulheres sejam livres para ser elas mesmas e desenvolver-se a si mesmas.

Segundo: como é que se aplica o “ser cabeça”? Será proibindo a ordenação ou outras formas de ministério? Em 1 Coríntios 11 Paulo exige que as mulheres usem véu em cultos públicos e refere-se ao véu como um símbolo de autoridade, o que na verdade era naqueles dias. E ainda é em algumas culturas —mas não no Ocidente. Usar chapéu na igreja é um bom exemplo de má transposição. Com efeito, quando as mulheres usam chapéu, em alguns lugares do Ocidente, isto simboliza muito mais liberação do que sub­missão! E o que dizer das exigências quanto ao silêncio?

Eu, particularmente, creio que os comentaristas não observaram bem que Paulo estabelece um duplo contraste ao escrever: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o marido; esteja, porém, em silên­cio.” O primeiro contraste é entre autoridade e submissão; este parece ser permanente, por ser criacional. O segundo contraste é entre ensino e silêncio. Não seria o caso de que, no primeiro século, o silêncio era, assim como o véu, um símbolo cultural de submissão à liderança masculina, o que não teria mais, necessariamente, ligação com os dias de hoje? A situação certamente mudou, e muito. Em muitas culturas, hoje, as mulheres recebem tanta educação quanto os homens. E, hoje, o ensino, agora que o cânone do Novo Testamento já foi encerrado, é uma profissão muito menos autoritária. Assim, suponhamos que uma mulher tivesse de ensinar a homens sob a autoridade da Escritura (não reivindicando uma autoridade própria), em espírito de humildade e mansidão (não se arrogando ares de impor­tante) e como membro de uma equipe pastoral encabeçada por um homem. Será que estas três condições a capacita­riam a ensinar a homens, sem com isso estar exercendo sobre eles uma autoridade inadequada e sem infringir o princípio da liderança masculina? Seria isto um exemplo legítimo de transposição cultural?

Às minhas próprias indagações, eu responderia, neste momento: “Sim, acho que sim.” Eu sei que para certas pessoas isto pode não passar de uma teoria irrelevante, já que em diversas denominações e em muitas partes do mundo a ordenação de mulheres já é uma realidade. Mas pelo menos espero que esteja claro o que eu venho tentando fazer, que é identificar e preservar a essência da revelação de Deus (neste caso, a relação criacional dos sexos) e, ao mesmo tempo, procurar identificar símbolos culturais apropriados para expressá-la neste século XX.

Eu concluo este capítulo — aliás, um tanto longo — com duas palavras de reafirmação sobre a prática da transpo­sição cultural.

Primeiro, só se pode fazer uma transposição cultural quando o texto bíblico contém dois níveis de discurso: primeiro, um ensino doutrinário ou ético, e, segundo sua expressão social ou cultural; primeiro (por exemplo) o mandamento do amor e de servir um ao outro, e, segundo o “lava-pés”. É impossível fazer uma transposição cultural quando existe apenas um nível de discurso; ela não pode ser usada para justificar uma rejeição daquilo que a Es­critura ensina, proíbe ou ordena.

Tomemos como exemplo a tentativa de justificar parce­rias homossexuais alegando que as proibições bíblicas são culturalmente condicionadas. O raciocínio desenvolvido por alguns pensadores liberais vai mais ou menos assim: “Nós reconhecemos que certas modalidades de comporta­mento homossexual foram proibidas por Moisés no Antigo Testamento e por Paulo no Novo. Mas eles estavam se referindo a práticas particulares a sua cultura — em Levítico, ao ritual da prostituição, que fazia parte da antiga religião da fertilidade dos cananeus; e, nas cartas de Paulo, ao comportamento sexual promíscuo, juntamente com a corrupção de menores. Eles não estavam se referindo a relacionamentos de amor, fidelidade e ternura entre dois homens adultos ou entre duas mulheres adultas. Além disso, Moisés e Paulo tinham uma compreensão muito limitada acerca da psicossexualidade humana; nós sabe­mos muito mais do que eles. Portanto, já que as proibições bíblicas referiam-se a tabus culturalmente específicos, elas são irrelevantes para nós, hoje, e não podem ser usadas para proibir uma parceria homossexual comprometida que equivale a um matrimónio heterossexual.”

Mas este é um raciocínio ilusório, que deve ser firme­mente rejeitado. O fato é que as proibições bíblicas con­cernentes à conduta homossexual não tinham uma razão cultural, mas criacional. Elas nasceram da definição bí­blica do matrimónio e foram pessoalmente endossadas por Jesus Cristo: “Por isso deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á a sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne.” Em outras palavras, o único tipo de matrimónio ou parceria sexual visualizado na Escritura é a monogamia heterossexual, que é também o único contexto dado por Deus para a experiência de ser “uma só carne”. Assim, o que limita a relação sexual ao casamento hete­rossexual e que a proíbe em qualquer outro relacionamento não é a cultura, mas a criação. Nenhuma tentativa de transposição cultural seria legítima aqui.

Em segundo lugar, transposição cultural não é uma concessão ao liberalismo. Ela não é uma maneira cómoda e respeitável de se escapar de passagens complicadas da Escritura, declarando serem elas culturalmente relativas. Não é uma maneira sofisticada de rejeitar a autoridade da Bíblia. Não. Quando nós optamos pela rejeição total, cer­tamente não podemos obedecer à Palavra de Deus. Se, em vez disso, abraçarmos a posição de um literalismo rígido, nossa obediência se tornará mecânica e artificial. Somente transpondo o ensinamento da Escritura para uma roupa­gem cultural moderna é que a nossa obediência passa a ser contemporânea. O propósito da transposição cultural é a obediência significativa e não a desobediência.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Psicoterapia corporal

PSICOTERAPIAS CORPORAIS

Com o intuito de ajudar a lidar com os conflitos psíquicos e apaziguar o sofrimento emocional, várias abordagens psicológicas recorrem a intervenções somáticas, usando técnicas especificas como leitura corporal, toques, exercícios de respiração e expressão. O trabalho do austríaco Wilhelm Reich, que começou sua carreira como um integrante da psicanálise, trouxe grande contribuição para essa área clínica.

Psicoterapia corporal é o nome que se popularizou para designar um conjunto de práticas psicoterapêuticas que tendem a incluir entre suas atividades a observação do corpo, os trabalhos com a respiração, os exercícios expressivos, os toques e as massagens, entre outros. Como a maior parte das escolas de psicoterapia se baseia fundamentalmente no intercâmbio verbal, na fala, a criação de um nome específico para esse tipo de abordagem é bastante apropriada. No entanto, a visão usual de que essa abordagem psicoterápica trabalhe exclusivamente com o corpo, desprezando a fala, não é verdadeira.

Uma analogia que pode ajudar a compreender essa forma psicoterapêutica é com a do piano: as teclas brancas representariam o trabalho verbal, a linguagem e a elaboração simbólica; já as pretas seriam os diversos recursos de intervenção corporal. O psicoterapeuta, portanto, comporia sua música usando as teclas brancas e pretas, conforme a necessidade de cada caso.

Há várias escolas de psicoterapia que utilizam intervenções somáticas, cada uma com suas especificidades, mas sem dúvida o autor mais importante nesse campo foi o austríaco Wilhelm Reich (1897-1957). Ele encantou-se com a psicanálise na época em que cursava medicina em Viena e veio a se tornar um psicanalista ativo, especialmente entre 1920 e 1934, tendo escrito artigos e livros sobre técnica terapêutica. Esse período marcou seu pensamento, e a psicoterapia corporal criada por ele contém muitos elementos em comum com as ideias de Freud.

O primeiro desses elementos tem a ver com o conceito de inconsciente, a parte da mente humana não acessível à consciência. Os transtornos psíquicos, as escolhas da vida amorosa e profissional, o gostar e o não gostar de determinada situação ou pessoa, tudo isso seria influenciado pelos conteúdos inconscientes. O processo de análise deve propiciar meios de trazer à luz da consciência aquilo que antes estava fora dela.

Entretanto, os pacientes, mobilizados por fatores inconscientes, com frequência dificultam esse processo de análise, opondo-se a ele de forma declarada ou dissimulada. É o que se denomina resistência – segundo elemento da psicanálise que teve grande influência na obra de Reich. Isso ocorre, por exemplo, quando nas sessões as pessoas chegam atrasadas ou faltam, ficam em silêncio ou não conseguem associar livremente, bem como não revelam sentimentos considerados negativos (como medo e desconfiança) em relação ao tratamento.

É algo muito curioso, pois o sujeito investe tempo e dinheiro para se cuidar, mas não colabora, aumentando o custo do processo e retardando-o. É como se fôssemos tratar de uma cárie e não abríssemos a boca, resultando que o dentista só pudesse trabalhar de fato durante alguns poucos minutos a cada sessão. Por isso, cabe ao psicoterapeuta estar atento para as diversas formas de resistência e procurar lidar com elas de maneira adequada.

A importância da sexualidade para a vida mental, um dos pilares do pensamento freudiano, foi outro elemento que influenciou Reich, para quem a entrega no encontro sexual satisfatório, orgástico, fundamental para a saúde, caminhava junto com a entrega às demais atividades da vida.

A questão da transferência analítica também se tornou parte da visão reichiana. Esse conceito retrata o fato observado na clínica de que o analisando “transfere” para o analista os sentimentos oriundos de suas relações infantis, sem se dar conta disso. Dessa forma, em diferentes momentos, podem surgir, por exemplo, tanta adoração pelo terapeuta quanto medo ou ressentimento no que se refere a ele – dinâmicas emocionais que pouco têm a ver com a sua relação atual com o analista. Isso tem grande importância para o tratamento, pois esses acontecimentos – se adequadamente trabalhados – possibilitam significativa via de acesso ao material inconsciente.

Reich chamou a atenção para um tipo especial de resistência, até então pouco estudada: do caráter ou caracterológica, oriunda do próprio jeito de ser do indivíduo. Para ele, a falha dos analistas em perceber esse fato tinha como consequência, em muitos casos, o fracasso do tratamento. Para lidar com isso, Reich criou uma série de orientações técnicas, que denominou Análise do caráter. Na sua visão, o conjunto dessas resistências caracterológicas acabava constituindo uma blindagem (Panzer, no original alemão) que defendia o ego da influência externa e das irrupções emocionais e manifestações pulsionais oriundas do próprio organismo. Isso resultaria numa verdadeira armadura ou couraça.

Deve-se chamar a atenção para o fato de que a técnica de análise do caráter não constitui uma ruptura com a psicanálise, muito pelo contrário. Na edição original de Análise do caráter (1933) – que abrange os 12 primeiros capítulos da edição atual -, Reich mostra-se um psicanalista que escreve para seus pares, expondo sua contribuição ao campo da técnica psicanalítica. Ele pretendia com isso proporcionar à psicanálise recursos para lidar com essa questão do caráter, ampliando assim seus horizontes técnicos e teóricos.

Seguem então, de forma resumida, algumas diretrizes fundamentais da técnica de análise do caráter. Veremos que ela implica algum as alterações em relação ao enfoque freudiano clássico.

Reich propôs prestar atenção às resistências latentes, ou seja, àquelas que não se manifestam de maneira declarada, e sim de forma indireta ou camuflada, ou mesmo ficam ocultas.

Por exemplo, o analisando pode esconder sentimentos de vergonha, medo, dúvida, ironia, desprezo, ceticismo ou desconfiança em relação à pessoa do analista. Apesar de encobertos, eles exercem um efeito danoso no tratamento na medida em que impedem a entrega do indivíduo ao processo. Desse modo, a pessoa fica como que “blindada”, ”encouraçada” e imune aos esforços do analista.

Reich aponta alguns quadros típicos de comportamento do analisando em psicoterapia nos quais é muito provável encontrar resistência oculta: (1) os que são sempre confiantes, contentes e trazem recorrentemente material abundante, sem nunca mostrar sentimentos negativos em relação ao terapeuta; (2) aqueles cujos afetos estão paralisados, que apresentam uma dissociação entre ideias e emoções; (3) os que se mostram sempre convencionais e corretos, bem-educados e formalmente corteses; (4) aqueles que se apresentam com falta de autenticidade de sentimentos, entre eles os que compulsivamente “representam” e sabem que estão enganando o analista, com “riso interior” diante de tudo e todos.

Como fazer para descobrir algo que está oculto? Aí entra uma segunda diretriz, que é prestar atenção à forma de agir. Na psicanálise tradicional, a ênfase recai na chamada “escuta analítica”, na atenção ao que o paciente fala. Já a análise do caráter enfoca também como ele fala, de que forma se comporta, de que modo olha ou se posiciona. Ou seja, passa a ter importância também o que poderíamos chamar de “olhar analítico”. É preciso ver os gestos, a aparência, as posturas. O corpo concreto volta à cena e precisa ser observado. Desabrocha um campo de estudos hoje denominado leitura corporal, como veremos adiante.

Prestando atenção à forma (e não apenas ao conteúdo), torna-se possível evidenciar as resistências que derivam do jeito de ser da pessoa, dos modos crônicos de agir, pensar e sentir que constituem aquilo que chamamos de caráter. Esse é o caminho mais direto para explicitar a resistência oculta, normalmente representada por alguns traços de caráter formados nos primeiros anos de vida.

Outro tópico em que esse tipo de análise aponta para um afastamento em relação à ortodoxia psicanalítica diz respeito à neutralidade analítica, ou seja, à visão de que o analista não deve privilegiar ou destacar qualquer aspecto das comunicações do analisando. Reich afirmava que tal atitude, diante de uma resistência caracterológica, pode ria levar o tratamento a um beco sem saída. Para ele, a regra de associação livre de ideias seria aplicável apenas quando não houvesse resistência importante dificultando o processo analítico. Quando esta estivesse presente, o analista deveria abandonar sua disposição habitual, substituindo-a por uma postura mais ativa até superar as resistências ao processo.

Reich propôs sua atitude mais diretiva como uma tática restrita a casos de resistência caracterológica, vendo-a como algo temporário. Ou seja, superada a resistência original, a proposta voltaria a ser de não dirigir o curso do tratamento e deixar o material analítico brotar espontaneamente. Como ele escreveu no livro Análise do caráter. “No período de resistência, recai sobre o analista a difícil tarefa de dirigir o andamento da análise. O paciente só tem comando nas fases livres de resistência”.

Apesar disso, infelizmente, ainda se encontram psicoterapeutas de orientação reichiana que, de forma mais realista do que o rei, entendem o processo terapêutico como algo a ser dirigido o tempo todo pelo analista quanto ao que dizer, fazer ou priorizar. A nosso ver, esse seria um desvio da técnica da análise do caráter.

Segundo Reich, cabe ao analista procurar discernir que traço de caráter constitui a resistência principal ao processo e proceder de maneira sistemática e consistente até dissolvê-la. Por análise sistemática, ele entende a atenção que deve ser dada à estratificação da neurose em camadas, partindo da mais superficial (e mais recentemente formada) em direção às mais profundas e antigas.

Um a análise consistente das resistências se faz quando o analista concentra seu foco no trabalho no traço de caráter definido como elemento essencial, não se deixando desviar dele por outras vicissitudes que surjam no decorrer do processo analítico.

Em suma, Reich propõe, portanto, um papel mais diretivo do analista ou psicoterapeuta, que escolhe priorizar a interpretação da resistência, que vai em busca das resistências ocultas que não fazem parte do material trazido pelo analisando, que dedica atenção a como o indivíduo fala e age, que prioriza uma camada da neurose em detrimento de outra (análise sistemática) e uma das formas de resistência entre as diversas que se apresentam no decorrer do processo (análise consistente).

INTERVENÇÕES N O CORPO

Em 1934, Reich deixa de fazer parte do movimento psicanalítico. O desenvolvimento de suas concepções o leva progressiva­ mente a criar uma forma de tratamento que inclui intervenções corporais. Exercícios, trabalhos com a respiração, toques físicos vão sendo agregados ao que ele tinha aprendido como psicanalista.

A base teórica dessa nova abordagem é a noção de que o corpo (em especial a musculatura) teria papel essencial no funcionamento psíquico. Freud havia suposto que o inconsciente dinâmico seria gerado por mecanismos de defesa do ego, dentre os quais destacou o recalque (traduzido por alguns como “repressão”). Segundo Reich, a rigidez (hipertonia) muscular seria o correlato som ático desse mecanismo. Essa concepção o levou a propor maneiras de modificar o tônus muscular como um recurso terapêutico de influência sobre o aparelho psíquico, facilitando o acesso ao material inconsciente. Ou seja, por meio de exercícios e toques corporais pode­ riam ser evocadas memórias e expressões emocionais, com grande proveito para o processo analítico.

Em um trabalho publicado originalmente em 1935, Contato psíquico e corrente vegetativa, e depois incorporado como capítulo 13 da nova edição de seu livro Análise do caráter, Reich afirma: “A dissolução de um espasmo muscular não só libera a energia vegetativa, mas, além disso e principalmente, reproduz a lembrança da situação de infância na qual ocorreu a repressão do instinto. Pode-se dizer que toda rigidez muscular contém a história e o significado de sua origem”.

Por que essa importância atribuída à musculatura? Do mesmo modo que a criança aprende a controlar as excreções tensionando os músculos dos esfíncteres, ela passa a empregar esse modelo para impedir manifestações de agressão, choro, sexualidade ou medo, por exemplo.

Quando essa forma se instala de modo crônico, a pessoa como que amortece o impulso original e chega a deixar de sentir aquilo que a incomodava.

Isso a deixaria “confortavelmente anestesiada”, como dizia uma antiga letra de música do Pink Floyd. Reich denominou Vegetoterapia Caracteroanalítica a forma de tratamento criada nessa época. Vegetoterapia porque o objetivo seria influenciar o sistema nervoso autônomo (ou vegetativo) por meio do trabalho sobre a musculatura. Caracteroanalítica em razão da intervenção corporal ser vista, então, como um aspecto paralelo e complementar à análise das resistências. A couraça do caráter que inicialmente, na década de 20, era uma metáfora para designar um mecanismo psíquico passou a ser vista como algo ancorado materialmente no corpo, em especial nas tensões musculares crônicas.

A partir dessa visão, foram se desenvolvendo diversas formas de intervenção corporal que visavam obter um efeito psíquico (a eliminação do recalque). Entre outras possibilidades, surgiu o trabalho com toque e relaxamento, bem como intervenções sobre a respiração e a criação de exercícios expressivos.

Foi aí que nasceu de fato a psicoterapia corporal. Com a análise do caráter, Reich já havia dado um passo em direção ao corpo, na medida em que atribuiu grande importância ao que era visto. Agora, o corpo passou não só a ser olhado, mas também tocado, mobilizado e incentivado a expressar­ se. À associação livre de ideias acrescentou-se a associação livre de movimentos. O analista propõe atividades e exercícios e é autorizado a tocar o paciente. É importante notar que a forma de psicoterapia elaborada por Reich sofreu influências de autores do campo da psicanálise, como o húngaro Sándor Ferenczi (1873-1933), que, com sua proposta de uma “técnica ativa”, deve ser considerado precursor nessa área.

Nos anos 30 houve um afastamento progressivo de Reich com relação à psicanálise, e a fundamentação teórica do trabalho reichiano deslocou-se, sobretudo, para a biologia. A capacidade de autor regulação e o grau de vitalidade do organismo, por exemplo, são elementos cuja importância se destaca nas suas novas formulações. Segundo ele, era importante evitar que a neurose se perpetuasse à custa de uma desvitalização do organismo.

Desse modo, além de trazer à consciência elementos inconscientes, propõe outra meta terapêutica de cunho essencial, como explica em texto de 1949, publica do em Análise do caráter. “Este é o nosso grande dever: capacitar o animal humano a aceitar a natureza que existe dentro de si, parar de fugir dela, e passar a desfrutar daquilo que agora tanto o atemoriza”. Ou seja, o objetivo do tratamento seria não apenas tornar consciente o que é inconsciente, mas também recuperar a vitalidade perdida ou bloqueada, deixar a sabedor ia espontânea da natureza (autor regulação) acontecer.

Esse aspecto tem grande importância na técnica, na medida em que se desenvolvem dispositivos voltados para essa finalidade.

No final dos anos 30, Reich foi ampliando seus trabalhos também para o campo da física, por meio de estudos experimentais, e passou a voltar seu interesse para algo que o mobilizou desde o início de sua trajetória científica: a pesquisa de uma energia básica, algo que, ao seu modo, lembra a libido freudiana. Tal linha de investigação o levou à conclusão de que existiria uma energia primordial, batizada com o nome de orgone, e ao estudo das propriedades e usos dessa energia. Em sua visão, essa energia primordial seria tanto biológica quanto cósmica.

Ao diminuir suas ações no campo curativo e ampliar as de meta preventiva, Reich criou em 1949, nos Estados Unidos, o Centro Orgonômico de Pesquisa sobre a Infância e, no ano seguinte, elaborou mais um de seus projetos permeados pela aliança entre teoria e prática, Crianças do Futuro, que visava somar esforços para prevenir o encouraçamento infantil. No mesmo país construiu os chamados acumuladores de orgone, também conhecidos como “caixas de orgone”, e desenvolveu trabalhos voltados, entre outros fins, para o auxílio na terapêutica de pacientes acometidos de câncer. Por esse emprego medicinal dos acumuladores, Reich passou a ser investigado pela FDA (Food and Drug Administration). Na sequência dos eventos, acabou preso por desacato à autoridade, sobretudo por não reconhecer a competência da corte para julgá-lo nas questões que envolviam aspectos científicos. Tudo isso se deu sob cobertura intensa da mídia e teve grande repercussão social. Seu trabalho passou a ser perseguido, incluindo a proibição de livros que nada tinham a ver com a energia orgone.

Muitas pessoas se surpreendem ao saber que nos Estados Unidos, nessa época, com toda a aparência de liberdade, os livros de Reich foram queimados por ordem judicial. Até mesmo os escritos sobre análise do caráter, educação e antropologia foram condenados à fogueira. Certamente contribuiu para esse ataque o clima social de intolerância ao diferente, sob os ecos do macarthismo e marcado pela Guerra Fria, que pautaram esse período.

Depois de passar cerca de nove meses na prisão, Reich morreu no dia 3 de novembro de 1957, de ataque cardíaco. Em linhas gerais, essa parte de sua produção científica, a ergonomia, ainda não recebeu a devida atenção da comunidade científica.

A psicoterapia corporal se expandiu a partir do fim da década de 50, principalmente por meio dos neorreichianos. Tal fato ocorreu no caldo cultural da época, em direção a uma maior liberdade sexual e contra a tradição autoritária patriarcal. Nesse movimento social, Reich era um teórico frequentemente citado, sobretudo por causa de sua obra sobre psicologia social, antropologia e política. Seu trabalho passou a ser valorizado em muitos segmentos sociais ligados à contracultura, influenciando a arte e os meios de comunicação. Isso possivelmente facilitou a difusão de abordagens terapêuticas inspiradas em sua obra, algumas das quais apresentaremos aqui de forma breve. O critério de escolha foi a importância da presença (em número de psicoterapeutas, instituições de formação e livros publicados em português) delas no Brasil. A ordem de apresentação segue em linhas gerais a cronologia de seu surgimento.

ANÁLISE BIOENERGÉTICA

O americano Alexander Lowen (1910-2008) foi paciente de psicoterapia e aluno de Reich entre os anos 1940 e 1952, tendo trabalha­ do como terapeuta reichiano na década de 40. Graduou-se em educação física e depois em medicina, que cursou na Europa. Ao voltar aos Estados Unidos em 1952 procurou retomar o contato com Reich, mas as coisas estavam diferentes. Lowen não conseguiu identificar-se com os orgonoterapeutas próximos a Reich, os quais, segundo ele, haviam assumido uma atitude quase fanática de fidelidade ao mestre e por causa disso não aceitavam nenhuma forma de questionamento ou avanço que pusesse em risco a ortodoxia. Apesar de ainda considerar-se um terapeuta reichiano, Lowen afastou-se do grupo e passou a introduzir modificações na técnica tradicional e a criar novas possibilidades de intervenção.

Em 1953, associou-se ao grego John Pierrakos (1921-2001), também terapeuta reichiano, e ambos desenvolveram uma série de técnicas e propostas, constituindo um embrião do que seria a análise bioenergética. Houve uma retomada da importância dos fundamentos psicanalíticos, sendo a análise do caráter colocada como centro da compreensão clínica e formulada uma tipologia com base nela.

Em 1956 foi criado o Instituto de Análise Bioenergética de Nova York. Em 1958 Lowen publicou O corpo em terapia, seu primeiro livro sobre o tema. Nele expõe os resultados da abordagem que criara, inovando em diversos aspectos técnicos e teóricos. Entre as novas técnicas estão o grounding e o trabalho respiratório sobre um banquinho (stool, especialmente desenvolvido para tal.

Grounding é um termo de difícil tradução. Muitas vezes aparece como “enraizamento”; entretanto é mais comum que o encontremos sem tradução nos textos da área. De início, designava alguns tipos de postura que buscavam atingir determina­ dos objetivos: aumentar a percepção dos membros inferiores e do contato com o chão, se apoiar com mais solidez e confiança nas pernas e pés, melhorar o contato com a própria sexualidade, desbloquear as tensões (couraças musculares) dos membros inferiores e pelve, facilitar o livre fluxo energético no corpo, desbloquear a respiração, vitalizar o organismo, incentivar a independência. Nesse processo, é muito importante que se consiga produzir uma vibração da musculatura dos membros inferiores, sinal de que a tensão está cedendo e a energia pode circular.

O trabalho com o grounding não foi apenas um acréscimo fortuito à técnica. Essa abordagem priorizou a atividade com o paciente em pé, enfatizando o contato dos pés com o chão (entendido como caminho para o contato com a realidade externa e interna). Dessa forma, houve uma reorientação do foco psicoterápico, caminhando numa direção bastante diferente da proposta por Reich, que priorizava o trabalho com o paciente deitado.

O conceito de grounding encontrou grande aceitação entre os profissionais da área, e sua abrangência tem crescido bastante, sendo muito mais que mero exercício. Fala-se hoje em grounding de olhar, grounding do bebê no colo da mãe quando ocorre uma maternagem suficientemente boa, grounding na família e na cultura.

A análise bioenergética é a escola com maior número de adeptos e de instituições de formação no continente americano, incluindo o Brasil.

Na Europa podemos destacar a contribuição do filólogo norueguês Ola Raknes (1887-1975), que foi discípulo de Reich na década de 30 e continuou acompanhando o desenvolvimento das ideias do mestre até o fim. O psicoterapeuta reichiano não trouxe nenhuma grande inovação teórica ou técnica, mas acabou tendo papel destacado na história do movimento, por meio de sua influência sobre alguns nomes importantes que depois criaram abordagens de grande repercussão. Ele foi psicoterapeuta e professor de Cerda Boyesen (psicologia biodinâmica), de David Boadella (biossíntese) e de Federico Navarro (vegetoterapia caracteroanalítica).

PSICOLOGIA BIODINÂMICA

Paciente e discípula de Raknes a partir de 1947, a norueguesa Cerda Boyesen (1922- 2005) resolveu cursar fisioterapia depois de formar-se psicóloga, pois achava que devia conhecer melhor o corpo humano. Sob a influência da fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen (1906-2001), começou a trabalhar com massagem. Mais tarde, fez uma síntese dessa técnica com o que havia aprendido com Raknes, além de ter sofrido forte influência da psicologia humanista na abordagem clínica. Disso resultou a criação da Psicologia Biodinâmica no fim da década de 60. Ao enfatizar o trabalho a partir do impulso interior, criou um enfoque que se afasta da ênfase no papel diretivo do psicoterapeuta, característico de boa parte das demais abordagens inspiradas em Reich.

A psicologia biodinâmica dá grande importância ao trabalho de associação livre de ideias e de movimentos. Na associação de ideias, pedimos ao analisando que diga tudo o que lhe vem à mente sem censura, mesmo que seja sem importância, absurdo, ridículo ou incômodo. Do mesmo modo, no âmbito somático, pedimos a ele que deixe qualquer movimento surgir, mesmo que não faça sentido ou não estejam claras a intenção e a direção dele. Deve-se respirar e ir ampliando o gesto ou som que aparecem e se deixar levar por eles.

Gerda enfatizou o papel das vísceras, indo além das concepções de Reich volta ­ das para a compreensão e a intervenção sobre a musculatura. Segundo ela, além da couraça muscular existiria uma visceral (referente ao tubo gastrointestinal) e outra tissular (relativa ao tecido subcutâneo).

Destacou a importância de um setting (ambiente psicoterapêutico) acolhedor que promovesse o “derretimento” das couraças. Propôs fazer “amizade” com a resistência, que ela entende como algo que foi a melhor solução possível numa determinada época da vida. Não à toa, o analisando reluta em abandonar tal postura, sentida como uma proteção, pois inconscientemente permanece fixado ao período em que ocorreu o problema.

A defesa seria como uma muleta: se a chutarmos, o indivíduo cairá no chão. Se mostrarmos carinhosamente que ele não precisa mais dela e o ajudarmos a fortalecer as pernas, ele ganhará confiança e, aos poucos, deixa de lado, por conta própria, aquele apoio que antes parecia tão essencial. Essa pode ser uma boa metáfora da atitude de fazer amizade com a resistência. Na psicoterapia biodinâmica dá-se destaque ao perigo de formação daquilo que Gerda chamou de couraça secundária, que seria consequente a um trabalho terapêutico invasivo, que não respeita o ritmo e as possibilidades de assimilação do indivíduo. São os casos em que o processo de tratamento redunda em mais defesas e na acentuação da neurose em vez de levar a uma melhora e um abrandamento da couraça. Isso pode ocorrer em qualquer forma de psicoterapia.

Para dar um exemplo fora da área da psicoterapia corporal, em alguns casos o setting psicanalítico pode ter esse efeito: acontece muitas vezes de um analisando dizer algo como:

“Eu fui anos atrás me consultar com uma analista, ela me colocou deitado e disse que era para eu falar o que viesse à mente. Eu não tinha nada a dizer e fiquei quieto, parado. Ela também não disse nada, e eu saí mais angustiado do que quando entrei lá. Na sessão seguinte, a mesma coisa. Aquela situação era muito aflitiva, e eu perguntei se era assim mesmo; ela confirmou. Parei o tratamento e fiquei achando que esse negócio de terapia não é para mim. Não queria nem ouvir falar em voltar a procurar ajuda nesse sentido, apesar do meu sofrimento. Só vim aqui porque me disseram que o seu sistema de trabalho é diferente”.

Assim, na primeira entrevista esse analisando trazia não só a couraça desenvolvida contra os desencontros, frustrações e vicissitudes da vida, mas portava também uma “couraça” de desconfiança e medo diante da terapia, que demandou um trabalho para ser dissolvida antes que se procedesse ao cuidado com a sua neurose e a couraça propriamente dita.

Cerda formulou ainda teorias e técnicas importantes para o trabalho com questões que remetem a conflitos e deficiências ocorridos no primeiro ano de vida. Essa orientação está em consonância com temas elaborados pelo psicanalista inglês Donald W. Winnicott (1896-1971), como a questão do holding, da mãe suficientemente boa e do falso self.  Pode-se dizer que Cerda teria tido um papel no que tange à herança reichiana que guarda certas semelhanças com aquele desempenhado pela psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960) diante da orientação freudiana, ou seja, a incorporação à técnica e à teoria de elementos relativos ao primeiro ano de vida.

A psicologia biodinâmica é a escola de psicoterapia corporal que mais valoriza o trabalho com toque. Foram desenvolvidas diversas técnicas específicas e uma compreensão da massagem como uma forma de diálogo somático de grande importância na comunicação não verbal entre o psicoterapeuta e seus analisandos.

CRIAÇÃO DA BIOSSÍNTESE

Outro paciente e discípulo de Raknes é o inglês David Boadella, criador da Biossíntese. No início colaborador de Cerda Boyesen, desenvolveu posteriormente uma proposta própria na qual buscou integrar diversas abordagens, procurando aproveitar elementos variados para compor uma orientação mais abrangente.

Sua escola também valoriza o trabalho a partir do impulso interno, propondo um papel menos diretivo do psicoterapeuta. Tomando a capacidade de ressonância, empatia e contato humano como essenciais, o psicoterapeuta acompanha o indivíduo em um processo que dá forma a um desenvolvimento pessoal único.

Segundo Boadella, em seu livro Correntes da vida, “no processo de transformação de padrões de sentimentos e expressões que estão bloqueados, o elemento mais importante é a receptividade viva de outro ser humano (….) a ressonância somática das mãos, da voz e da presença do terapeuta é o campo organizacional no qual ocorre o processo formativo de reintegração do corpo, da mente e do espírito”.

O autor desenvolveu inúmeros conceitos e técnicas próprias. Na biossíntese merece destaque a compreensão dos processos psíquicos e som áticos humanos baseada nas três camadas germinativas primárias do embrião humano. Nos estágios iniciais da vida embrionária o embrião é constituído por três camadas de células diferentes, a mais externa (o ectoderma), a mais interna (o endoderma), e a intermediária (o mesoderma). Cada uma delas gera, ao longo do desenvolvimento, tecidos e órgãos distintos.

O endoderma dá origem ao revestimento interno do tubo intestinal, pulmões, fígado, pâncreas e diversas outras vísceras. Já o mesoderma forma os músculos lisos e estriados, ossos, articulações, tecido conjuntivo, sangue, vasos sanguíneos. O ectoderma, por sua vez, origina o sistema nervoso, a pele e os órgãos dos sentidos. Na visão da biossíntese, denominada embriologia funcional, num organismo saudável há um funcionamento integrado dos fluxos do movimento (mesoderma), da percepção e pensamento (ectoderma) e da vida emocional (endoderma). Esse equilíbrio pode ser perdido ao longo da vida, e o objetivo da terapia seria então tentar restaurar a integração das três camadas.

Com tal finalidade, diversas vertentes de trabalho se complementam:

  1. O centering, que consiste na liberação dos bloqueios respiratórios e emocionais. O foco estaria no endoderma, tratando de questões ligadas à geração de energia, ao metabolismo e às emoções.
  2. O grounding, que seria a atenção ao tônus muscular e à postura. O objetivo é o estabelecimento de uma boa relação entre os movimentos voluntários, semi­voluntários e involuntários. Para isso, é importante que os músculos estejam com tônus adequado e não em hipertonia (rigidez) ou em hipotonia (flacidez). Nota-se aqui a influência das propostas da análise bioenergética.
  3. O facing, que corresponde ao cuidado com o vínculo e a organização da experiência por meio da comunicação verbal e do contato ocular. Os desequilíbrios priorizados nesse âmbito são os relativos à sensibilidade: a hipersensibilidade e a hipossensibilidade são consideradas questões a serem tratadas por meio da integração entre sentimento, linguagem e percepção.

Cabe também pontuar que Boadella atribui grande importância às raízes intrauterinas dos problemas emocionais. De acordo com o seu entendimento, o que ocorre com o ser humano, desde a fecundação e ao longo de todo o desenvolvimento embrionário e fetal, pode deixar marcas na sua estrutura emocional. Segundo ele, se o ambiente uterino for sentido pelo embrião como não receptivo no momento da nidação, quando o ovo fecundado se enraíza no útero materno, ao chegar à vida adulta o sujeito poderá ser afetado por fantasias ou pesadelos, como o de estar sendo tragado por areia movediça.

Outro aspecto enfatizado por esse autor é o contato com a essência. Partindo da visão de que em nossa cultura é cada vez mais comum haver pessoas que perderam o vínculo com uma parte essencial de si, ele propõe a ideia de grounding interior (innergrounding}, conceito que aponta para a necessidade de retomar esse contato e para as maneiras de alcançar esse objetivo.

Um tema para o qual Boadella traz contribuições originais é o da bioespiritualidade, em que a via para a alma passaria pelo corpo. O termo procura marcar a diferença com relação a certas formas de espiritualidade que priorizam o espírito em detrimento do organismo, ou seja, que veem na negação corporal o caminho mais direto para encontrar a alma. Para a bioespiritualidade, porém, alguns dos elementos somáticos que permitiriam um desenvolvimento espiritual seriam respirar plenamente, estar em contato com as próprias sensações e sentimentos, poder expressar livremente os impulsos na ação.

A VEGETOTERAPIA DE NAVARRO

O médico italiano Federico Navarro (1924-2002), também paciente e discípulo de Ola Raknes, criou a escola denominada Vegetoterapia Caracteroanalítica, o mesmo nome usado por Reich para designar sua proposta de psicoterapia corporal na década de 30. A abordagem de Navarro surgiu nos anos 70 quando, a pedido de Raknes, teria procurado sistematizar o trabalho clínico de Reich, organizando procedimentos técnicos e contribuindo para as correspondentes fundamentações teóricas.

Seu enfoque, embasado nas teorias reichianas, respeita a divisão da couraça muscular em sete segmentos: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico. A partir de movimentos expressivos predeterminados e fixos (actings), trabalha os segmentos de modo organizado: cada um só será abordado depois de ter sido concluída a atividade com o anterior. Assim, o tratamento caminha do ocular ao pélvico.

Numa sessão típica dessa abordagem (com duração de 90 minutos), o paciente é convidado a realizar determinado acting por 15 minutos ou mais. Em seguida, ocorre uma conversa em que se explora verbalmente o que aconteceu durante o exercício: sensações, sentimentos, memórias e outras possibilidades. Depois é proposto que o paciente realize outro acting, seguido de mais uma rodada de elaboração verbal, e assim por diante.

Existem diversos actings para lidar com os bloqueios, e eles são propostos numa ordem determinada. Alguns exemplos são: no nível ocular, observar com os dois olhos a luz de uma lanterna, a uma distância de aproximadamente 25 cm, durante 15 minutos; no oral, manter a boca aberta durante 15 minutos; no cervical, fazer uma rotação da cabeça, alternadamente para a direita e a esquerda, dizendo “não” ao virá-la para cada um dos lados; no torácico, levantar os braços com os punhos cerrados e bater no colchão enquanto pronuncia a palavra “eu”, repetindo esse movimento continuamente.

Navarro, em seu livro Metodologia da vegetoterapia caracteroanalítica, ressalta que “não se trata de ‘exercícios de ginástica’, mas de uma proposta capaz de recuperar, por meio de movimentos musculares específicos – simples, intencionais, ativos – determinadas funções neuropsicológicas ligadas à esfera emocional”.

OUTRAS ESCOLAS

Professor de análise bioenergética, o americano Stanley Keleman, formado inicialmente em quiropraxia, trilhou um percurso próprio a partir de 1971, sob influência das ideias do psicólogo austríaco Alfred Adler (1870-1937), criador da Psicologia do Indivíduo, do psicoterapeuta suíço Medard Boss (1903-1990), mentor da daseinsanalyse, baseada na fenomenologia existencial de Heidegger, e do professor Karlfried von Durkheim, do Centro para Estudos Religiosos, na Alemanha, com quem estudou psicologia do sagrado. Também teve contato com psicólogos humanistas como Carl Rogers e Frits Perls e trabalhou por 15 anos com o mitólogo americano Joseph Campbell (1904-1987), realizando seminários sobre corpo e mitologia.

Keleman criou um método próprio, no qual enfatiza o trabalho com a propriocepção (capacidade de “sentir” o estado interno do corpo) e a questão da forma. Em síntese, a orientação procura levar o paciente a perceber o seu padrão corporal e a desenvolver novas formas de estar no mundo.

Apesar de esse autor não se considerar reichiano ou neorreichiano, muitos o tomam como tal, dada a semelhança de suas concepções e maneiras de intervenção com aquelas utilizadas nas demais abordagens influenciadas por Reich. Muitas dessas escolas neorreichianas incluem o ensino dos elementos kelemanianos (como o método dos cinco passos e ossomagramas) em seus cursos de formação de psicoterapeutas.

O grego John Pierrakos, que participou com Lowen da criação da análise bioenergética, desenvolveu posteriormente a energética da essência (Core Energetics). Muito influenciada por sua esposa, Eva Pierrakos, essa abordagem enfatiza o campo energético (também chamado de aura) e a abertura para a espiritualidade como uma dimensão essencial do humano. O conceito de bioenergia nela utilizado tem forte ligação com concepções hinduístas, tais como a existência de centros de energia (os chamados chakras), que devem ser trabalhados e balanceados como parte do tratamento. Além da influência de Freud e Reich, Pierrakos incorpora também em sua fundamentação ideias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) quanto à relação entre psicologia e espiritualidade.

Existiriam três níveis de consciência: o primeiro refere-se à essência ou ” Eu superior”, que inclui a capacidade para o amor; o segundo, ou “Eu inferior”, comporta os sentimentos negativos e as qualidades distorcidas; e o terceiro é a máscara, aquilo que o indivíduo apresenta para o mundo externo, que serve para ocultar e proteger os elementos dos níveis anteriores.

já Paul Boyesen, filho de Cerda Boyesen, desenvolveu nos anos 80 a Análise Psico-orgâica a partir de elementos da psicologia biodinâmica (como a massagem). Dando grande importância ao trabalho analítico a partir das comunicações verbais e das imagens produzidas pelo paciente, enfatiza também as questões relacionais ligadas à transferência e contra-transferência. Procura sempre conectar o verbal com a experiência corporal.

Nessa abordagem são desenvolvidos modelos conceituais próprios, como o círculo psico-orgânico, uma espécie de estrutura dinâmica que permite analisar a psique humana, assim como a relação entre duas pessoas. Está organiza do sobre a forma de nove pontos: necessidade, acumulação, identidade, força, capacidade, conceito, expressão, sentimento e orgonomia. Comporta dois lados, um ascendente (o fluxo, a carga, o eu) e outro descendente (o defluxo, a descarga, o mundo).

Dá destaque ao “verbar”, que é a fala que traz consigo a potencialidade da ação, do movimento. Busca uma retomada do contato perdido com o corpo, a vitalidade e a criatividade, de modo que o sujeito possa resgatar a confiança nos próprios sentimentos e sensações.

No Brasil um dos continuadores do trabalho de Reich na área de psicoterapia é o psiquiatra e escritor Roberto Freire (1927-2008). Ele elaborou a soma, proposta que procura integrar ao enfoque reichiano uma visão política anarquista e a capoeira.

Esses dois autores brasileiros, ao contrário da grande maioria dos autores estrangeiros anteriormente apresentados, não limitaram seus escritos e sua atenção ao terreno da psicoterapia. Suas perspectivas enfatizam também os aspectos socioculturais, destacando a necessidade de uma liberalização dos costumes, especialmente no terreno da sexualidade, como essencial para a criação de uma sociedade mais justa e fraterna. O psicólogo Ângelo Gaiarsa também teve participação importante na divulgação das psicoterapias corporais. Ele baseia seu pensamento em conexões com a psicofisiologia da motricidade e a biomecânica, dando pouca atenção aos aspectos energéticos e orgonômicos da teoria reichiana.

Merece ainda destaque a contribuição do húngaro radicado no Brasil Pethõ $andor, criador de uma nova forma de psicoterapia corporal, que, apesar de incorporar elementos reichianos, tem sua fundamentação principal nas ideias de Jung.

Outra herança vinculada à tradição reichiana é o grupo de movimento. Trata-se de uma denominação genérica empregada para designar os trabalhos grupais em que se realizam práticas corporais inspiradas em procedimentos das diversas formas de psicoterapia corporal. Nesse tipo de atividade frequentemente são incorporadas técnicas oriundas de outras abordagens com o corpo, como ioga, artes marciais, danças diversas, trabalhos posturais, eutonia etc. Os grupos de movimento podem ser complementares à psicoterapia ou feitos de maneira independente, como forma de autoconhecimento, facilitadores da expressão emocional e, em sentido geral, como atividade que contribui para o desenvolvimento pessoal.

Nos últimos anos, seus benefícios, quando utilizados nas áreas da clínica ou da educação, têm sido comprovados em investigações efetuadas em cursos de pós-graduação. Como exemplo, ver a dissertação de mestrado Sensibilização e conscientização corporal do professor: influência em seus saberes e suas práticas pedagógicas, defendida em 2003 por Márcia Helena Ferreira Moysés, na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia.

LEITURA CORPORAL

Leitura corporal é o nome que se cunhou, no âmbito da psicoterapia, para designar o campo de estudos e práticas que trata da utilização de outros elementos além do que é expresso pelo conteúdo das palavras do analisando. Podemos considerar Freud como um dos primeiros a explorar o potencial terapêutico desse tipo de abordagem: em um comentário, sobre o chamado caso Dora, ele diz que “quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode convencer-se de que nenhum mortal pode guardar um segredo. Se os seus lábios permanecem silenciosos, ele conversa com a ponta dos dedos; a revelação transpira dele por todos os poros”.

Enquanto a psicanálise, sobretudo na vertente lacaniana, privilegiou a “escuta analítica”, Reich colocou como elemento central de sua análise do caráter a observação dos aspectos não verbais, como o tom de voz, a movimentação do paciente, as posturas adotadas por ele, a expressão do olhar e a mímica facial. Na expressão feliz de Gaiarsa, toda conversa comporta letra (ideias enunciadas), música (tom de voz e outros ruídos que a acompanham) e dança (movimentação corporal que ocorre junto).

Reich explorou bastante o uso desses elementos, sendo pioneiro na utilização clínica daquilo que hoje se pesquisa sob o nome de comunicação não verbal – tema que constitui vasto e fascinante campo de estudos científicos. Nesse domínio, a primeira distinção deve ser feita entre aquilo que é crônico e o que é reação do momento. Características de longa duração permitem saber como a pessoa é, qual o seu “jeitão” (o caráter, na concepção reichiana), aquilo que ficou configurado como forma estereotipa da de agir em função de eventos ocorridos ao longo da história do sujeito, especialmente na infância. Cada traço de caráter seria a cicatriz de um desencontro, a resultante de um conflito e de uma maneira de resolvê-lo que ficou cristalizada como forma típica de reação. É isso que permite à pessoa “ler” a história de vida de alguém por meio da observação da expressão facial, das posturas e dos gestos habituais.

Ao lado da percepção de como a pessoa é existe a análise de como a pessoa está. O psicoterapeuta treinado consegue perceber reações que às vezes duram apenas frações de segundo, mas são bastante significativas. Muitas vezes, em nossos cursos, ao filmar a interação entre as pessoas vemos que a repressão da raiva, por exemplo, não ocorre de forma instantânea, mas quase instantaneamente.

É possível detectar a configuração da expressão facial raivosa que logo em seguida é substituída por outra, que disfarça aquele sentimento. O próprio indivíduo que expressou o sentimento muitas vezes pode não ter consciência clara disso, mas, quando questionado, e após um momento de consulta interior, confirmará o que foi percebido pelo observador ou ficou registrado na filmagem.

A leitura corporal revela muito sobre o que ocorre no interior de uma pessoa. Pode-se até dizer que em muitos casos o inconsciente é visível. Quando as coisas fluem bem na interação entre pessoas, vemos que as posturas e os ritmos dos participantes são congruentes e harmônicos; já na presença de conflitos ocorre o contrário. Desse modo, observando uma dupla ou grupo a distância, o observador treinado pode avaliar se o que ocorre é conversa harmoniosa, paquera, discussão, se alguém está sendo excluído etc. Isso muitas vezes é tão óbvio que pode ser evidente mesmo para a pessoa menos atenta: por exemplo, se você sintonizar um canal de TV ao fim de uma partida de futebol, basta olhar a postura dos atletas saindo de campo para saber quem venceu e quem perdeu.

O modo de ser da pessoa fica evidente quando se observa a forma de andar. Ou seja, a maneira de levar a vida é também um jeito de levar o corpo a se deslocar no espaço, segundo o conceito reichiano de “unidade funcional soma-psique”. Isso pode ser comprovado por qualquer um ao realizar o “exercício do sombra”. Muito utilizado nos cursos de formação em psicoterapia corporal e no treinamento de atores, consiste em caminhar atrás de uma pessoa, imitando seu andar, o jeito de pisar, o ritmo, o balanço, até conseguir se locomover como uma cópia ou sombra dela. É fascinante o quanto se pode aprender sobre como é essa pessoa, de que modo ela pensa, como está sentindo a vida nesse momento.

Esse princípio de obter informações imitando o indivíduo foi proposto por Reich como ferramenta clínica de grande valor. De acordo com ele, no livro Análise do caráter, “os movimentos expressivos do paciente provocam involuntariamente uma imitação no nosso próprio organismo. Imitando esses movimentos, ‘sentimos’ e compreendemos a expressão em nós mesmos e, consequentemente, no paciente”. Assim, muitas vezes é possível obter uma compreensão mais profunda do que ocorre a eles ao assumirmos, como psicoterapeutas, a mesma postura, expressão facial e gestualidade que apresentam em dada sessão.

A percepção da variação do tônus muscular nas diversas regiões do corpo, das alterações da cor da pele, da harmonia ou desarmonia dos gestos, posturas e expressões, tudo isso fornece indicações importantes e úteis. A mímica facial, em especial, é muito reveladora. Ê bastante frequente haver grande diferença entre as metades esquerda e direita do rosto, que revelam aspectos diferentes e não raro conflitantes da personalidade de alguém.

A distância entre os participantes de um diálogo também traz informações importantes. Quando esta é muito grande, tende a remeter ao esfriamento da interação – muitas confidências só são viabilizadas dentro do calor de certa proximidade. Por outro lado, estar perto demais de alguém pode ser inibidor e invasivo, dificultando ou mesmo inviabilizando a relação terapêutica. Para complicar, isso não se dá da mesma forma para as pessoas e pode variar inclusive para a mesma pessoa em diferentes momentos. Assim, percebe-se a necessidade de um setting flexível, que possa se modificar conforme o caso.

O ângulo entre analisando e psicoterapeuta também influi no que acontece. Ficar frente a frente induz à relação mais direta, mas também pode facilitar o “enfrentamento”, ou seja, o conflito, por meio de projeções e transferências. Um ângulo de 90° é mais neutro, sendo mais adequado e prudente em certas ocasiões. Sentar-se ao lado tem a conotação óbvia (mas nem por isso menos efetiva) de “estou ao seu lado” nessa situação. A posição analítica (sentar-se fora do campo de visão do analisando) é ainda outra possibilidade muitas vezes usada, especialmente nos casos em que o indivíduo tende a ficar monitorando a expressão do psicoterapeuta para ver como ele reage ao que é dito. A falta de contato visual facilita o mergulho do sujeito em si próprio, em seus conteúdos. Mas poderá ter um efeito inibidor se o importante for o desenvolvimento do contato interpessoal. Como resultado, a posição psicanalítica tradicional é uma das possibilidades dentro do setting da psicoterapia corporal. Mas existem outras, e a escolha é feita sempre levando em conta o que é melhor em cada situação.

Obviamente, o uso clínico desse material percebido pelo psicoterapeuta requer grande dose de cuidado. Muitas vezes é bastante difícil para o analisando tomar contato com esse tipo de informação: afinal de contas, ele em geral faz (de modo inconsciente) enorme esforço para manter tudo isso fora do alcance da consciência. Se, de repente, chega alguém revelando algum aspecto que seu aparelho psíquico tem dificuldade de tolerar, isso provavelmente gerará resistência. Portanto, em análise, a comunicação verbal de algo só deve ser efetuada no momento adequado do processo terapêutico. Além disso, é necessário adotar uma postura ética ligada a esse saber. Um dos piores usos que se pode fazer dessa forma de conhecimento é levá-lo para fora do contexto psicoterápico, como para se exibir em festas ou ainda por mero sadismo e gosto de humilhar o próximo.

PONTO DE TOQUE

O contato corporal, se utilizado criteriosamente, pode trazer muitos ganhos no contexto de um tratamento analítico. É um bom recurso, por exemplo, para trabalhar questões que envolvam confiança e possibilidade de entrega. Do ponto de vista reichiano, a massagem pode exercer ação terapêutica sobre alterações do tônus muscular, com consequente efeito psíquico. Pode ainda colaborar para a vitalização do organismo, além de incentivar a auto­ percepção. Não é incomum que o paciente comente após uma sessão de massagem algo como: “Puxa, eu tinha esquecido que tinha corpo!”. A experiência de que pode ser prazeroso ter um corpo, morar nele, ajuda a lidar com aspectos esquizoides que tentam se afastar da realidade encarnada da existência. É mais prazeroso viver quando se tem uma sensação harmoniosa e relaxada do corpo, e tal propriocepção motiva a busca por recursos terapêuticos que visem minimizar as limitações decorrentes de nossas couraças.

Questões do primeiro ano de vida, relativas ao cuidado materno não suficientemente bom, podem ser acessadas e trabalhadas por esse meio. O toque e a massagem podem facilitar a vivência de estados regredidos, os quais possibilitam o contato com conteúdos inconscientes traumáticos. Esse tipo de trabalho pode colaborar para a reparação de carências primitivas. Além disso, tende a propiciar ao paciente a segurança necessária para entregar-se ao contato com aspectos menos integrados de si mesmo, passo necessário para o desenvolvimento do processo de amadurecimento. Os elementos aqui listados podem ser vistos em conexão com propostas deriva­ das do pensamento de Winnicott. Segundo ele, em seu artigo A capacidade para estar só, de 1958, “para o paciente que não teve um início de vida suficientemente bom, o analista é a primeira pessoa em toda sua vida a suprir certos aspectos essenciais do ambiente”. Ou seja, o analista seria não apenas alguém que contribuirá para a percepção de aspectos inconscientes, mas também aquele que propiciará condições para a formação de estruturas psíquicas essenciais que não foram desenvolvidas no início da vida por deficiências do ambiente. A importância para a vida psíquica dos acontecimentos do primeiro ano de vida tem sido sistematicamente referendada em muitos estudos. Essa é uma época em que os registros sensoriais e motores predominam, dado que não existe ainda o domínio da linguagem por parte da criança.

Reich sustentava que o acesso a tais conteúdos pode ser facilitado quando o psicoterapeuta dispõe de recursos técnicos para entrar diretamente em contato com esses registros corporais. Essa forma de atuação clínica seria muito mais completa e eficaz que aquela na qual tudo deve ser traduzido em palavras.

O toque e a massagem podem ser utilizados também com o objetivo de gerar efeito ansiolítico, que é facilitador do equilíbrio psíquico. Assim sendo, configuram recursos valiosos no manejo de estados confusionais leves, que se seguem a mobilizações emocionais. Usando o contato físico como recurso coadjuvante, uma conversa pode, por exemplo, ser acompanhada por um toque no peito, o que facilita a percepção dos sentimentos presentes nessa região, contribuindo para o aprofunda­ mento dos conteúdos emocionais envolvi­ dos no tema.

Ou ainda, sabendo que as tensões no pescoço muitas vezes estão relacionadas a um a falta de contato com as percepções oriundas do tronco, membros e vísceras, o terapeuta poderá levar o paciente que fala enquanto está deitado a se beneficiar da massagem no local da hipertonia. Com isso, suas associações e memórias tendem a revelar material analítico potencialmente mais aprofundado, isso em comparação ao que seria manifestado se sua rigidez muscular fosse deixada intacta.

Nesse domínio do contato corporal é necessário apontar, ao lado das múltiplas indicações, a presença de contraindicações importantes. Em geral se evita o contato físico em condições de transferência negativa ou erótica. Obviamente, casos em que o paciente se sinta invadido ou constrangido com o toque também constituem ocasiões em que ele deve ser evitado. O que se deve notar é que existe uma concepção teórica a sustentar esse tipo de intervenção. O psicoterapeuta se orienta a partir de um conhecimento que lhe indica quando, como, onde e a quem tocar.

Muitos psicoterapeutas de outras abordagens têm ressalvas quanto à questão do contato físico com os analisandos. Dizem que isso propiciaria uma erotização do campo intersubjetivo que atrapalharia o tratamento. Em primeiro lugar, se tomarmos essas palavras ao pé da letra, os consultórios médicos e de fisioterapia, onde os indivíduos são tocados de forma rotineira, não se distinguiriam muito dos bordéis. É claro que isso não é o que acontece, e os profissionais desses ramos sabem (idealmente) como lidar com situações constrangedoras decorrentes do contato físico. Do mesmo modo, um psicoterapeuta corporal tem a sua ética e recebe treinamento que visa garantir a condução do trabalho sem ser invasivo nem causar mal às pessoas que atende. De outra parte, nada garante que processos de aproximação sexual não possam ocorrer por meio de recursos de contato a distância, potencialmente geradores de muita intimidade, como a fala e o olhar.

Freud rompeu com a tradição médica milenar de tocar e examinar fisicamente o paciente. Houve, entretanto, um período inicial em que o contato corporal era uma possibilidade. Por exemplo, em certos casos ele tocava a testa de seus pacientes para facilitar a evocação dos conteúdos recalcados. É interessante notar que, nos primórdios do tratamento analítico, Freud fazia também outros tipos de “trabalho corporal”. Em 1895, em carta a seu amigo Wilhelm Fliess (1858-1928), ele descreve o tratamento da sra. K: “No caso dela, inventei uma terapia estranha, de minha própria autoria: procuro áreas sensíveis, pressiono­as e, desse modo, provoco acessos de tremor que a aliviam. (….) quando pressiono um ponto de sua cavidade axilar, ela afirma senti-lo ao longo de todo o braço, até os dedos”. Essa poderia muito bem ser a descrição de uma sessão de psicoterapia corporal neorreichiana dos dias de hoje.

INTERVENÇÕES VARIADAS

Na psicoterapia corporal, além da expressão verbal, as pessoas são convidadas a liberar a expressividade do próprio corpo. Pequenos movimentos localizados são em geral manifestações inibidas de agitações no mar do inconsciente. Quando se consegue que isso venha à tona, abrem-se canais de comunicação do indivíduo consigo mesmo que são de grande valor. Por exemplo, ao sujeito que sente tensão nas costas, pede-se que preste atenção ao local e veja se há algum a coisa que seu corpo queira expressar. Disso pode surgir um impulso de raiva nos braços e mãos, como se quisesse torcer o pescoço de alguém. Damos a ele uma toalha e pedimos que deixe vir o movimento expressivo. Ao longo desse processo, normalmente surgem na consciência memórias relativas a situações infantis ou atuais, a conflitos e pessoas que motivaram essa raiva, elementos antes inconscientes.

Em outros casos, pode acontecer de o paciente se encolher e expressar choro. Ou, ainda, expressar movimentos sensuais que haviam sido reprimidos há muito tempo. Do mesmo modo, essas manifestações corporais em geral são acompanhadas de memórias, sentimentos, imagens, insights e outros elementos que servem como ponto de partida e podem dar bons frutos ao longo de uma elaboração do material que veio à tona.

Na esfera dos movimentos expressivos existem inúmeros exercícios desenhados com propósitos variados. Entre muitas outras possibilidades estão: aumentar a vitalização do organismo, afrouxar a hipertonia muscular, ampliar a consciência corporal, ajudar o indivíduo a apoiar-se nas próprias pernas ou a encontrar seu eixo {trabalhando a coluna vertebral), tonificando áreas de musculatura flácida e facilitando a expressão de sentimentos agressivos.

Outra forma de favorecer o contato com conteúdos emocionais e psíquicos mexendo no corpo é o trabalho com a respiração. Uma das grandes contribuições de Reich foi perceber que o recalque e outros mecanismos de defesa psíquicos estão intimamente conectados ao bloqueio respiratório. Quando se afrouxam as tensões no diafragma e em outros músculos respiratórios, vemos que isso frequentemente tem como consequência o aparecimento de conteúdos antes inconscientes, em geral com grande carga emocional, facilitando assim o surgimento de ” material analítico”. Em processos psicoterápicos em que eles estão “travados” ou ” empacados”, tal recurso pode ser de enorme importância.

Assim sendo, uma dimensão importante da técnica é o uso de formas variadas de intervenção que permitam ao analisando respirar de modo mais livre e pleno. Exercícios específicos, relaxamento, massagens e outras formas de trabalho que contribuam para isso são considerados como recursos valiosos para o tratamento.

Hoje em dia esse é um saber de domínio público. Quando uma pessoa está nervosa ou estressada, é comum alguém dizer ” respire fundo e relaxe” como forma de ajudar a modificar tal estado. Porém, poucos sabem da importância de Reich na difusão desse tipo de conhecimento na cultura ocidental moderna. Seu papel pioneiro deve ser lembrado, dado que ele foi um dos primeiros a destacar a importância do uso de intervenções corporais no tratamento dos transtornos psíquicos.

Outro enfoque muito utilizado em psicoterapia corporal é o que visa o enriquecimento da auto percepção. Uma das formas mais comuns de bloqueio emocional se dá por meio da perda do contato consigo mesmo, tal fato ocorrendo quando a consciência do próprio corpo é neutralizada ou anestesiada. Esse efeito é obtido nos casos em que a pessoa não tem consciência de suas sensações corporais.

Quando a atenção é trazida de volta às sensações oriundas da pele, do sistema locomotor e das vísceras, isso automaticamente leva à conscientização de conteúdos antes inconscientes, o que facilita os insights e constitui um passo importantíssimo na direção da apropriação de si mesmo.

Nota-se que isso está em sintonia com concepções das neurociências atuais como as ideias do neurocientista português António Damásio relativas ao papel da percepção do que ele chama de paisagem corporal na geração da consciência e dos sentimentos.

Um dos equívocos mais frequentes em relação à psicoterapia corporal é acreditar que nela se descartam as comunicações verbais, e que o processo se desenvolve apenas por meio de trabalhos corporais variados. Essa leitura errônea expressa um entendimento fundado na cisão entre mente e corpo, algo predominante na nossa tradição cultural. já a visão reichiana afirma que o ser humano apresenta mente e corpo como aspectos indivisíveis da mesma realidade. Em outras palavras, o trabalho é feito com a pessoa como um todo, com atenção simultânea aos aspectos somáticos e psíquicos. É claro que em certos tratamentos o verbal acaba sendo priorizado, pois é por aí que as coisas fluem. Em outros casos, predominam as intervenções corporais – por exemplo, em pacientes que dizem algo como “eu já fiz muitas terapias verbais, já falei muito sobre meus problemas e vim aqui porque quero algo diferente”.

Na maioria dos atendimentos, entretanto (e, claro, dependendo do estilo de cada psicoterapeuta), as duas dimensões são exploradas de maneira integrada. Por exemplo, uma massagem faz vir à consciência a figura da mãe cuidando do irmão, e, ao se conversar sobre tal imagem, adquire-se o entendimento de certas nuances do triângulo mãe-paciente-irmão. O verbalizado pode levar a explorar um exercício expressivo, algo como encolher-se fisicamente, significando recolher-se par dentro de si e para longe do conflito. Desencadeia-se, então, uma nova rodada de conversa, muito interessante e carregada de emoção, enquanto o paciente mantém a posição encolhida. Tal posição facilita percepção de outros conteúdos, antes não tão claros, e que, provavelmente, seria de difícil percepção sem o realce proporcionado pela alteração postural.

ANÉIS DA COURAÇA

O conceito de anéis da couraça firmou-se como um dos mais conhecidos do grande público. Mesmo quem sabe pouco sobre as propostas de Reich muito provavelmente já ouviu falar dos tais anéis. Segundo ele, no livro Análise do caráter “a couraça está disposta em segmentos, quero dizer que ela funciona de maneira circular, na frente, dos dois lados, atrás, isto é, como um anel”. Tais anéis em número de sete, situam-se perpendicularmente à coluna vertebral do corpo humano: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico.

Para o autor, a estrutura segmentada revelaria o mesmo arranjo básico já existente em animais primitivos, como os anelídeos (minhocas, vermes). O esquema elaborado por Reich explica sua concepção.

De acordo com Reich, como a maior concentração de bioenergia está na pelve e no baixo-ventre, se a bioenergia liberada nessas regiões encontra bloqueios musculares ainda não trabalhados, pode ocasionar sintomas psíquicos e distúrbios psicossomáticos. Por esse motivo, Reich determinou que a atividade clínica com os segmentos deveria proceder da cabeça em direção à pelve. Desse modo, o processo se inicia no segmento ocular, prosseguindo até que esse nível esteja desbloqueado. Depois se passa para o segmento oral, e assim por diante.

REICH E OS REICHIANOS

Numa apreciação global, constata-se que Reich não publicou um amplo detalhamento técnico a respeito da forma de psicoterapia que criou na década de 30. Assim sendo, o fato de muitos seguidores de Reich terem desenvolvido abordagens que diferiam da original parece ter sido inevitável em certa medida, já que o mestre abriu caminhos e foi inovador, mas nos legou apenas um arcabouço geral do que seria essa nova orientação de tratamento. Assim, no Brasil e no mundo, o desenvolvimento de escolas que inovaram em relação ao enfoque original é uma realidade.

Como é difícil explicar ao público leigo a diferença entre as várias tendências, é comum a denominação geral de psicoterapia reichiana, nome que engloba as diversas correntes que se inspiraram na obra de Reich. Muitas vezes isso facilita ao interlocutor que nos situe em uma classificação, porém pode ser que o psicoterapeuta “reichiano” que você conhece seja na verdade neorreichiano ou pós-reichiano.

Importa, então, tentar situar quais seriam esses diversos grupos. Existiriam os orgonoterapeutas, que trabalham basicamente nos moldes do que Reich fez a partir da década de 40. já os neorreichianos são os que incorporam a linha mestra do trabalho original, mas acrescentaram visão própria, novas técnicas e/ou formulações teóricas diferentes. Praticamente todos os neorreichianos usam como fundamento o que Reich denominou vegetoterapia caracteroanalítica, ou seja, a forma de trabalho efetuada, aproximadamente, na década de 30. As formulações posteriores, abrangidas pelo termo “orgonoterapia”, recebem destaque muito menor. Outra diferença importante é que nenhuma das escolas neorreichianas segue o modelo proposto por Reich de trabalhar isoladamente cada anel da couraça.

Pós-reichiano é uma denominação utilizada apenas pela escola de Vegetoterapia Caracteroanalítica de Federico Navarro, aparentemente querendo marcar que a proposta não é exatamente como a de Reich, mas, ao mesmo tempo, não se iguala à dos neorreichianos, no sentido de que não mudou tanto, e que seu modo de pensar e fazer a clínica é ainda bastante fiel às ideias do mestre. Por exemplo, essa escola mantém como fundamento da clínica o trabalho progressivo sobre os segmentos da couraça, se bem que com modificações em relação à proposta original.

No caso da bioenergia, há muita discussão a respeito dela. Alguns afirmam que essa noção não passa de uma crença sem valor científico. Essa restrição parece ser, do nosso ponto de vista, o principal obstáculo quando se busca o reconhecimento social das psicoterapias corporais de inspiração reichiana. Enfatizando tal aspecto, os críticos tendem a desqualificar qualquer forma de abordagem analítica ou psicoterápica que se vincule ao pensamento de Reich.

Encontramos, no campo da psicoterapia corporal, tanto profissionais que acreditam nas concepções orgonômicas de Reich quanto os que não concordam com ela, porém utilizam o conceito como forma de descrever fenômenos que ainda não podem ser compreendidos a partir de um referencial que esteja em maior sintonia com a ciência atual. Isso ocorre devido ao grande valor descritivo desse conceito em relação a acontecimentos da clínica.

Na psicoterapia, na massagem e na terapia corporal é comum dizermos: “ela estava com pouca energia”; “realizei o toque com a intenção de mobilizar a energia dele”; “tinha uma energia de raiva no ar”; “depois de desbloquear a tensão a energia fluiu”. Mas fica a dúvida: será que existe mesmo uma bioenergia, algo que pode ser medido e quantificado e tem realidade concreta? Ou será apenas uma metáfora útil para a clínica, mas que não fala de algo realmente existente?

Assim sendo, na esfera da psicoterapia corporal, a adoção ou não de uma perspectiva fundada na existência de energia concreta acaba por implicar pouca diferença, pois, na prática, os procedimentos e os resultados continuam a ser os mesmos, independentemente do grau de aceitação que se tenha da visão energética reichiana.

É interessante notar que os reichianos não estão sozinhos nesse tipo de enfoque. Entre os que acreditam na existência de alguma forma de bioenergia estão os que praticam muitas formas tradicionais de cura e tratamento como a homeopatia, a acupuntura e outras. Não nos esqueçamos também de que para o próprio Freud a libido seria energia biológica, hipótese que, segundo ele, algum dia, por meio dos avanços científicos, seria comprovada. Isso sem falar do campo filosófico, domínio no qual, por exemplo, está o argumento do francês Henri Bergson (1859-1941) de que a vida seria governada por uma força vital criativa, o élan vital. Ou seja, a construção de uma fundamentação energética sobre a vida e o adoecer humano se faz presente em muitas abordagens diferentes.

Além disso, diversas religiões e tradições espirituais também incorporam a noção de alguma forma de força vital. Especialmente as vertentes orientais – como o hinduísmo, taoísmo e outras – atribuem grande importância em suas concepções a um princípio energético fundamental.

NO BRASIL

O movimento reichiano teve sua inserção no Brasil nas décadas de 60 e 70. Assim sendo, sua entrada no país ocorreu no bojo de uma revolução de costumes em curso, a contracultura, que apontava para a liberação sexual, a contestação ao autoritarismo e a crítica à falta de espontaneidade e de vitalidade das maneiras conservadoras de ser. Assim como outras formas de psicoterapia mais ativas, como o psicodrama e a gestalterapia, a reichiana criticava a psicanálise em sua teoria e em suas técnicas. As novas abordagens seriam mais eficazes, revolucionárias e estariam vinculadas a um amplo projeto de transformação pessoal e social. A ênfase recaía na expressão emocional, e falava-se muito em desestruturação, em ter coragem de se soltar e se reinventar. A adaptação ao status quo era o que de pior poderia acontecer a alguém, e, para muitos, a “loucura” era vista como um estado superior.

Com o passar do tempo, apesar de muitos efeitos terapêuticos positivos para grande parte das pessoas atendidas sob esse enfoque, foi-se percebendo que existiam pacientes cujos problema demandavam formas diferentes de cuidado. Além disso, a necessidade de atualização, reflexão e problematização das abordagens utilizadas levou cada vez mais os profissionais da área ao contato com a pesquisa, mestrados e doutorados em programas de pós-graduação.

Naquele primeiro período, a tônica estava na ruptura com a herança freudiana. Hoje, a maior

parte dos psicoterapeutas corporais brasileiros se posiciona de modo diferente. A teoria psicanalítica, em suas diversas vertentes, é vista como um fundamento importante para o entendimento dos processos psíquico s e da psicopatologia. No aspecto técnico, o reconhecimento dos problemas causados por um setting pouco rigoroso tem conduzido à valorização de normas mais estritas e mais semelhantes ao que é preconizado na postura psicanalítica. Desse modo, a atual psicoterapia de inspiração reichiana é muito diferente daquele modelo antigo, mas para boa parte do público e da mídia parece ter ficado a imagem anterior, com toda a carga de preconceito que lhe pertence.

Entretanto, apesar dos problemas contidos na postura inicial, não se pode entendê-la como um equívoco. Ela fez parte de um período histórico em que ocorreu uma efetiva liberalização nos costumes, especificamente quanto à sexualidade e à ampliação do que se aceitava como             “normal”. Desse modo, as correntes teóricas modernizadoras, entre as quais podemos contar o campo reichiano, tiveram papel importante nessa transformação.

Por fim, cabe afirmar que a psicoterapia corporal de inspiração reichiana se encontra bem viva nos dias de hoje.

Milhares de psicoterapeutas no Brasil e no mundo dedicam-se a esse tipo de abordagem, com dezenas de instituições formadoras, além de inúmeras teses, artigos, livros e congressos que atestam a vitalidade desse campo de atividade.

CRONOLOGIA

1897 – Nasce Wilhelm Reich, em Dobrzanica, em 24 de março no Império Austro-Húngaro.

1918 – Ingressa na Faculdade de Medicina na Universidade de Viena. Interessa-se pelas ideias do filósofo Henri Bergson (1859-1941).

1919 – Coordena o Seminário de Sexologia, atividade organizada pelos estudantes de medicina, dentre eles Otto Fenichel (1898-1946). Efetua o seu primeiro contato com Freud.

1920 –  Ainda estudante, é admitido como membro da Sociedade Psicanalítica de Viena. Inicia sua prática como psicanalista.

1922 – Forma-se médico e atende como psicanalista no Ambulatorium de Viena (clínica psicanalítica voltada para o atendimento da população de baixa renda), onde ocupa os cargos de Primeiro Assistente Clínico (de 1922 a 1928) e Vice-Diretor (de1928 a 1930).

19 24 – Torna-se Diretor do Seminário de Técnica Psicanalítica de Viena, cargo no qual ficará até 1930.

Recebe a primeira carta de Freud, de um total de 10 missivas. O tema da técnica é o principal assunto focalizado nessas missivas.

1925 – Lança o livro O caráter impulsivo, escrito que inaugura a sua visão globalizante das defesas neuróticas.

1927 – Inicia a publicação de artigos científicos sobre a técnica da análise do caráter, linha de trabalho que, posteriormente, vai influenciar a Psicologia do Ego norte-americana. Publica o livro A função do orgasmo: psicopatologia e sociologia da vida sexual. Aproxima-se do Partido Comunista Austríaco. Começa a enfrentar resistências às suas ideias na Associação Psicanalítica de Viena. Nesse período, o da década de 1920, é apoiado por Freud.

1928 – Lidera a fundação da Sociedade Socialista para o Aconselhamento e a investigação Sexual, entidade que criou, em Viena, seis Clínicas de Aconselhamento e Orientação Sexual para Trabalhadores.

1929 – Publica Materialismo dialético e psicanálise, uma articulação original entre o pensamento freudiano e o marxismo, inaugurando um campo que ficou conhecido como freudo-marxismo. Viaja para Moscou, conhece os centros de educação coletiva e estabelece contato com a pedagoga e psicanalista Vera Schmidt (1889-1937).

1930 – Muda-se para Berlim e ingressa no Partido Comunista Alemão.

1933 – Lança Análise do caráter, livro que congrega sua proposta para a técnica psicanalítica. Publica Psicologia de massas do fascismo, cujas teses culminarão na sua expulsão do Partido Comunista. Com a ascensão de Hitler ao poder, Reich retorna a Viena, mas não será acolhido.

1934 – Já sem o apoio de Freud, é expulso da IPA, sobretudo por sua militância política. Publica artigos com pseudônimos na Revista para Psicologia Política e Economia Sexual, da qual será editor até 1938.

Depois de breves períodos na Suécia e Dinamarca, passa a residir na Noruega. Começa a incrementar o enfoque psicorporal nos atendimentos clínicos. Com críticas à orientação burocrática do Partido Comunista Alemão, publica O que é consciência de classe? um escrito de psicologia política.

1936 – No terreno da discussão dos padrões culturais sobre sexualidade, lança o livro A revolução sexual, uma ampliação de um escrito original de 1930.

1939 – Muda-se para Nova York. Ministra aulas na New School for Social Research.

1940 – Desenvolve o trabalho sobre a teoria da energia orgone, produzindo acumuladores de orgone.

1942 – Compra uma fazenda em Maine, onde hoje está sediado o Museu Wilhelm Reich. Inicia a publicação do Jornal Internacional de Economia Sexual e Pesquisa em Orgone. Publica A função do orgasmo, escrito em que expõe a progressiva construção de suas ideias.

1945 – Lança outra edição de A revolução sexual e a segunda edição de Análise do caráter, versão acrescida do trabalho Contato psíquico e corrente vegetativa.

1946 – Publica uma segunda edição de Psicologia de massas do fascismo, versão que pouco conta com o referencial marxista da edição original de 1933.

1948 – Lança Escuta, Zé Ninguém! um trabalho sustentado na tese de que o ajustamento social não pode ser utilizado como critério de normalidade psicológica. Publica A biopatia do câncer, livro dedicado ao entendimento dessa enfermidade de um ponto de vista da orgonomia.

1949 – Publica a terceira edição ampliada de Análise do caráter, que passa a conter também os artigos

A peste emocional, A linguagem expressiva da vida e A cisão esquizofrênica. Buscando ampliar o trabalho preventivo nos campos da saúde e da educação, funda o Centro Orgonômico de Pesquisas da Infância, entidade responsável pelo projeto Crianças do Futuro.

1954 – A FDA abre um processo judicial contra Reich.

É decretada a proibição da circulação dos acumuladores de orgone e de livros e revistas sobre o assunto.

1956 – Reich e um de seus assistentes são condenados à prisão em 7 de maio por violarem o decreto judicial.

Em 23 de agosto, a FDA supervisiona a incineração de toneladas de seus livros e escritos. É fundado o Instituto de Análise Bioenergética de Nova York.

1957 – Por desrespeito ao tribunal, Reich é preso em 11 de março. Em 3 de novembro, na penitenciária de Lewisburg, Pensilvânia, morre aos 60 anos de ataque cardíaco.

1958 –  Alexander Lowen (1910-2008) publica seu primeiro livro, O corpo em terapia, marco em suas pesquisas em análise bioenergética.

1969 – Cerda Boyesen (1922-2005) muda-se para Londres e desenvolve as primeiras formulações sobre psicologia biodinâmica.

1970 – David Boadella, criador da biossíntese, funda a revista Energia e Caráter, dedicada à psicoterapia corporal neorreichiana.

1971 – Stanley Keleman funda o Center for Energetic Studies.

1972 – A publicação de O anti-Édipo, de Cilles Deleuze e Félix Cuattari, promove um reinteresse sobre a obra de Reich no círculo intelectual francês.

1983 – John Pierrakos (1921-2001) funda o primeiro centro de Core Energetics.

1985 – Gerda Boyesen publica Entre psique e soma, texto de referência para a abordagem biodinâmica. Boadella lança Correntes da vida e Keleman, Anatomia emocional.

1987 – Sai a público o livro Somatopsicodinâmica, do médico italiano Federico Navarro (1924-2002).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS AUTORES:

PAULO ALBERTINI – é professor associado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Autor/organizador de Na psicanálise de Wilhelm Reich (Zagodoni, 2016), Jung e Reich: articulando conceitos e práticas (Guanabara Koogan, 2009), Reich em diálogo com Freud: estudos sobre psicoterapia, educação e cultura (Casa do Psicólogo, 2005), Reich: história das Ideias e formulações para a educação {Ágora, 1994).

 

RICARDO AMARAL REGO – é médico, doutor em psicologia, analista biodinâmico e analista bioenergético. Ê professor e diretor do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica. Fundador da Revista Reichiana. Autor de Deixa vir… Elementos clínicos de Psicologia Biodinâmica (Axis Mundi, 2014), e coautor de Grupos de movimento (Cadernos Reichianos – Instituto Sedes Sapientiae, 1994), Reich em diálogo com Freud: estudo sabre psicoterapia, educação e cultura (Casa do psicólogo, 200S), Lacaneando (Wak, 2009) e O Toque em psicoterapia. Massagem biodinâmica (KBR, 2014).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GESTÃO E CARREIRA

A Pessoa certa

A PESSOA CERTA NO LUGAR CERTO NA HORA CERTA

Não basta demitir quando a crise começa, tampouco contratar quando ela termina. Cada funcionário que sai ou entra na empresa altera a dinâmica do grupo – não necessariamente para melhor. Para tratar do problema, executivos começam a planejar melhor a força de trabalho

Em centenas de empresas Brasil afora, presidentes, vice-presidentes e diretores passaram a dar prioridade ao processo de planejamento estratégico da força de trabalho. O primeiro motivo: há uma recessão em curso. O segundo e mais importante: a recessão vai acabar. A economia brasileira encolheu mais de 7% nos últimos dois anos, o maior tombo em um século. Diante da queda do faturamento, os empresários não tiveram outra opção senão demitir – ao todo, 13,2 milhões de trabalhadores perderam o emprego ao longo de 2016 e 2017.

Contudo, setores como a indústria começaram a dar sinais de reação, alimentando a expectativa de que o país possa sair da crise ainda no primeiro semestre. Na média, economistas ouvidos pelo Banco Central projetam um crescimento de 2,1 em 2018. “De uma coisa podemos ter absoluta certeza”, afirma Christian Orglmeister, diretor executivo da consultoria de negócios Boston Consulting Group (BCG), “as organizações vão voltar a crescer”.

Cortar e admitir com o objetivo de ajustar a folha de pagamentos e faturamento é um fluxo que pode deixar sequelas nas empresas. Para uma organização bem administrada, o desafio é assegurar que, ao longo dos ciclos de demissões e contratações, a máquina ccorporativa tenha sempre as pessoas certas nos lugares certos – nem a mais, nem a menos, e todas devidamente motivadas para produzir mais e melhor.

Isso é uma façanha que só é possível com bom planejamento da força de trabalho, estratégia à qual os executivos de recursos humanos geralmente se referem pela expressão em inglês, workforce planning (WP).

Toda instituição, até a mais desorganizada, faz algum tipo de WP. “Qualquer profissional que esteja num cargo de chefia está constantemente pensando em workforce planning, mesmo que use outras palavras”, diz Leni Hidalgo, professora de gestão estratégica na escola de negócios Insper. Todo o tempo, gestores avaliam se não valeria a pena trocar um funcionário mais experiente e caro pelo jovem promissor do concorrente, se não seria o caso de reduzir a equipe de marketing e reforçar o time de vendas ou, quem sabe, promover uma mudança de comando na área de produção.

Na maioria das vezes, esse planejamento é feito de maneira meramente intuitiva. Num negócio pequeno, pode funcionar. Num grande é pouco provável. Por isso, cada vez mais presidentes, vice-presidentes e diretores de grandes corporações buscam métodos e consultorias especializadas que os ajudem a definir uma estratégia para a força de trabalho.

Apenas no ano passado o número de projetos de WP triplicou entre os clientes do BCG. E, na maioria das vezes, o foco está no longo prazo. “Mais da metade de nosso trabalho com workforce planning tem sido feita não exatamente para a empresa passar pela crise, mas, sim, para ajudá-la a crescer saudável e depressa quando a recessão acabar”, diz Orglmeister.

CABEÇA DE ESTRATEGISTA

Leni, do Insper, lembra que a recessão aumenta a oferta de mão de obra, de modo que os salários tendem a cair. Com o fim da crise, muitos trabalhadores contratados a preço de banana passam a ser assediados por concorrentes dispostos a oferecer mais, o que pode pôr em risco a estratégia da companhia que se aproveitou da situação para reduzir o custo de sua folha de pagamentos. “Quando o período ruim acaba, a empresa emerge diferente – talvez um pouco melhor, talvez um pouco pior – e num mercado em que surgiram novos concorrentes, havendo uma disputa por bons profissionais”, afirma a professora. É um momento crítico na história de qualquer empreendimento.

Contudo, fazer o planejamento da mão de obra exige pensar em coisas além do entra e sai de gente. A questão envolve a distribuição do trabalho. De acordo com um recente artigo publicado na Harvard Business Review, até 35% das contribuições de valor agregado numa empresa vêm de apenas 3% a 5% dos funcionários – aqueles com maior capacidade e disposição para ajudar do que a média. O problema é que, depois de um tempo, esses profissionais que todo mundo gostaria de ter acabam sobrecarregados e perdem o diferencial.

Num período mais duro, frequentemente as companhias optam por cortar os empregados considerados de baixo desempenho e daí surgem duas questões. Primeiro, 86% das empresas não confiam no próprio sistema de avaliação – significa que podem estar dispensando gente que não deveriam. Segundo, ao ficar apenas com os melhores, eles correm o risco de acentuar essa assimetria na distribuição de tarefas.

PEÇAS DO TABULEIRO

Algumas metodologias podem auxiliar o executivo de recursos humanos nesse quebra-cabeça. O Grupo Fleury, por exemplo, adotou a lean manufacturing (método desenvolvido pela Toyota no Japão para processos industriais) em seus laboratórios de análises clínicas.

Em 2015, quando os negócios ainda cresciam, mas estava claro que a economia brasileira pioraria no ano seguinte, o Fleury decidiu rever o planejamento de sua mão de obra procurando ajustar a oferta à demanda por serviços. Para isso, contratou uma consultoria especializada em lean manufacturing com o propósito de montar um método de execução tão enxuto quanto possível.

Profissionais do laboratório e da consultoria reviram os métodos e as tarefas de interação com o cliente, da disposição dos móveis à sequência de empregados com as quais o paciente tem que conversar para tirar uma amostra de sangue ou fazer um raio X. “Medimos até a distância percorrida pelo funcionário para realizar determinado atendimento”, afirma Eduardo Marques, diretor de pessoas. Os dados obtidos na revisão de cada etapa foram processados num sistema de computador. Por fim, em 2016, o conceito de lean foi aplicado ao planejamento da força de trabalho das dez maiores unidades do laboratório, o que resultou num ganho de produtividade de30% nesses locais. Em plena crise, o Fleury aumentou seu faturamento em pouco mais de 10% no ano passado. Em 2018, a ideia é replicar o projeto em mais 40 endereços.

O laboratório aplicou o lean Manufacturing em três áreas: atendimento ao cliente; departamento técnico, onde se incluem os laboratórios, e call center. Trata-se de setores com tarefas bem estabelecidas, onde a lista de decisões que um funcionário precisa tomar e relativamente limitada, como numa fábrica de automóveis.

Quando avança para a área corporativa, onde predomina o trabalho intelectual e cooperativo, a tarefa fica mais complexa. E é exatamente esse o perfil que predomina num mundo do trabalho moderno.

De acordo com Rob Cross, professor na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, e um dos autores do artigo da Harvard Business Review, o tempo gasto por gestores e empregados em atividades colaborativas cresceu 50% ou mais nas últimas duas décadas e, em muitas companhias, mais de três quartos do dia de trabalho de um funcionário é gasto com outros colegas. Obviamente, qualquer peça que se mexa numa engrenagem que funciona mais da metade do tempo junto afeta o funcionamento da máquina.

Como se faz workforce planning nesse cenário?

 

TEORIAS MATEMÁTICAS

Para Maximiliano Tozzini Bavaresco, diretor da Sonne, consultoria especializada em planejamento estratégico, o processo de WP pode ser altamente complexo e profundamente influenciado pela cultura corporativa. A oferta de material sobre o tema é fraca, de modo que, para o consultor, para montar um bom plano para a força de trabalho, “os gestores não têm escolha senão pegar um trechinho de teoria aqui, outro trechinho acolá, e trabalhar com uma colcha de retalhos teórica”.

Um dos conceitos com o qual o líder de recursos humanos pode fundamentar melhor seu planejamento é a chamada teoria dos arranjos estáveis”, que rendeu aos americanos Alvin Roth e Lloyd Shapley o Nobel de Economia de 2012. O trabalho dos dois é baseado num algoritmo criado em 1962 pelo professor Shapley, juntamente com o matemático e economista David Gale, capaz de oferecer a cada solteiro de determinado grupo o melhor cônjuge ­ de modo que nenhum homem ou mulher desejaria romper com seu par para se relacionar com outro pretendente do grupo – um arranjo estável, portanto. Roth e Shapley receberam o Prêmio Nobel ao aplicar esse conceito em problemas cotidianos, como fazer a melhor combinação entre órgãos doados a pacientes.

Segundo Marilda Sotomayor, professora na Universidade de São Paulo que trabalhou com Gale e foi coautora de Alvim Roth, o algoritmo de Galle-Shapley tem sido usado com sucesso por instituições do mundo inteiro, de hospitais (para escolher médicos) a universidades (para selecionar alunos de pós-graduação). passando por conjuntos habitacionais (para escolher proprietários e inquilinos).

 

JOGO LIMPO

Para o algoritmo de Gale-Shapley funcionar é preciso que empresas e candidatos saibam tudo um do outro –  e sobre si mesmos. E, mais do que autoconhecimento, é preciso deixar clara suas intenções. Para isso, uma ótima comunicação entre as partes é fundamental

A concessionária de energia elétrica Elektro serve de exemplo sobre como ampliar e compartilhar o conhecimento sobre vagas e processos, de modo que a empresa possa alocar seus recursos da melhor maneira possível. O objetivo da companhia é ter, para cada vaga, a pessoa de senioridade ideal – nem mais júnior, nem mais sênior.

Para isso, os profissionais de um departamento levantam informações sobre outro, a fim de evitar “uma visão contaminada da própria área”, como diz Fabrícia Abreu, diretora de sustentabilidade e de relações humanas. “Um estranho consegue perceber os problemas facilmente. Ele vê que certa função está sendo realizada por duas ou mais pessoas, ou por alguém inexperiente ou excessivamente sênior, ou que certo indivíduo, embora dê conta do trabalho, está sobrecarregado”. Ao mesmo tempo, o funcionário auditor aprende sobre as demais áreas da companhia. “Ver os problemas de outro setor muitas vezes ajuda o gestor a enxergar os próprios problemas”, afirma a executiva.

O modelo parece funcionar. “Um dos sinais de que estamos fazendo isso corretamente é que os profissionais dão conta do serviço, e sem que a corporação gaste demais com horas extras. Eu quero o número ótimo de funcionários, mas dentro do horário regularmentar”, afirma Fabrícia. Se houver discrepância, a concessionária primeiro remaneja empregados internamente e só depois demite ou contrata no mercado. Para manter a serenidade do time com todas essas movimentações, Fabrícia investe pesado na comunicação interna.  “A probabilidade de que iniciativas assim sejam mal compreendidas é alta, especialmente em tempos de crise. É fácil vê-las como uma caça às bruxas”, afirma a executiva.

Com esse método, ela garante que a empresa consegue um ótimo diagnóstico de sua estrutura organizacional – essencial em tempos instáveis. Se não tivéssemos um bom processo de workforce planning em curso, acho que a crise teria nos atingido mais”.

RELAÇÕES DURADOURAS

se o objetivo de Gale-Shapley era formar “casamentos duradouros, no Brasil poucas empresas podem se orgulhar tanto da estabilidade de suas relações como o Bradesco. O segundo maior banco privado do país não apenas trabalha com um rigoroso processo de seleção, no qual busca identificar indivíduos com o perfil mais compatível com a cultura corporativa, como também assegura a longevidade dessa união com treinamentos e desenvolvimento constante.

Com quase 100000 funcionários, a instituição busca ajustar os processos de capacitação aos planos estratégicos do negócio. O objetivo não é apenas formar profissionais com as competências técnicas adequadas, mas também ter pessoas engajadas. Para isso, o empregado precisa se sentir livre para voar – em outras palavras, precisa de uma boa lista de vagas com as quais poderia “se casar”. No Bradesco, o profissional tem, à disposição um cardápio de opções para seu futuro dentro do banco, de modo que ele pode eleger a que mais combine com sua personalidade e ambição. “Fazemos um grande esforço para que, ao escolher uma das alternativas, ele sinta que está aprendendo e crescendo. Mas montamos o cardápio de tal maneira que, qualquer que seja sua escolha, ele será útil para o Bradesco”, afirma Glaucimar Peticov, diretora do departamento de RH da instituição.

É um método trabalhoso. Toda semana, há 3 600 funcionários fazendo algum tipo de curso, estudando algo que será útil para ele assim que voltar à sua tarefa e que, ao mesmo tempo, vai deixa-lo preparado para o futuro tal como o Bradesco imagina. “É uma engrenagem imensa, que não sossega um minuto sequer, mas vale a pena, porque nosso negócio é não perder pessoal”, diz a executiva de RH; É um método caro, mas o banco não abre mão dele. Em 2018, o Bradesco gastará 146 milhões de reais com formação de sua mão de obra, o mesmo montante de 2017.

No banco Bradesco, 97% dos quase 100 000 funcionários começaram como escriturários (o cargo mais baixo na hierarquia) – e isso vale para o presidente, para todos os membros do conselho e para a maioria dos gestores. Glaucimar menciona departamentos do banco nos quais há quatro gerações de profissionais: gente com 35 anos de banco sentado ao lado de gente com cinco anos de instituição. “O tempo de empresa fica maior se o trabalhador vê que existe uma trilha a ser feita, se nota exemplos de gente que seguiu carreira, gente que está contente, que está produzindo resultados. Esse é talvez o maior benefício de um planejamento de mão de obra bem realizado e constantemente ajustado.

Manter um time estável pode ser útil para o negócio. Uma equipe de psicólogos da Carnegie Mellon, do Massachusetts Institute of Technology e da Union College concluiu em2008 que algumas normas podem elevar a inteligência coletiva de um grupo – enquanto outras podem prejudicar uma equipe, mesmo que, individualmente, todos os membros sejam brilhantes. Eles identificaram dois comportamentos que se repetiam em todas as boas equipes. Primeiro, os indivíduos falavam aproximadamente na mesma quantidade (fenômeno que chamaram de “igualdade na distribuição do turno de conversação”). Segundo, as pessoas tinham alta sensibilidade para intuir como os outros se sentiam, com base em tom de voz, expressões e outras sugestões não verbais.

 

ESTÁVEL POR POUCO TEMPO

Se, na teoria, um arranjo estável não tem prazo de validade, na vida real ele permanece estável por pequeno período – talvez alguns meses, enquanto as conjunturas mudarem pouco.

O executivo de recursos humanos pode ver isso assim: quando aas circunstâncias se alteram, é como se a personalidade das vagas e dos candidatos tivesse modificado, de modo que um arranjo estável de repente fique cheio de pares bloqueantes, isto é, de casamentos amargos. Como consequência, a empresa tem de realizar o algoritmo do casamento entre vagas e candidatos com bastante frequência.

Na farmacêutica GlaxoSmithKline (GSK), Tatiana Melamed, diretora de RH, diz que existe um jeito de se manter a par das transformações: “Faça uma parceria forte com a área de finanças”. “Todos os planos da corporação para o futuro passam pelo diretor financeiro”, afirma. Ele dá subsídios ao presidente e aos gestores em geral, de modo que está sempre bem informado. Além disso, segundo Tatiana, é uma área que entende a verdade: um plano estratégico só pode ser bem executado se os funcionários puderem executá-lo bem. Planos não andam com as próprias pernas, pois não tem pernas. Planos precisam de gente. “Graças à parceria com o financeiro, o detalhamento de nosso workforce planning é minuncioso. Temos ações até 2020 e revimos tudo duas vezes por ano”, diz Tatiana, que chegou a estudar estatística quando era mais jovem e pretende retomar o tema neste ano.

Por mais que a construção de um bom time passe pelas relações interpessoais e envolva até a quantidade de palavras trocadas entre as pessoas, todo líder de recursos humanos já aprendeu uma coisa: que não importa qual seja a empresa, nem seu presidente, a conversa com números é sempre mais bem aceita. Pensando nisso, quando a recessão acabar as companhias devem estar preparadas – com as pessoas certas nos lugares certos – ao custo adequado.

TEORIA DOS ARRANJOS ESTÁVEIS

O objetivo é formar união duradoura com elementos de conjuntos distintos: por exemplo, o das vagas (V) e o dos candidatos (C). Caso haja cinco vagas e cinco candidatos aptos a uma delas, o RH pode formar até 120 arranjos. Assim, {VIC5, V2C3, V3C1, V4C4, V5C2} é um arranjo; {V1C2, V2C1, V3C4, V4C5, V5C3} é outro. Algumas dessas uniões são estáveis, o que significa que o empregado ficará na companhia por muitos anos. Outras são instáveis. No caso do primeiro arranjo, a vaga V1 talvez fosse mais indicada ao candidato C3 – e o candidato C3 está louco para assumir tal oportunidade. Se for assim, V1C5 é um “par bloqueante”, que pode comprometer a estabilidade do arranjo. Para formar um casamento estável, o RH lista os aspirantes dos quais gostou mais, do mais querido ao menos querido. Os concorrentes fazem o mesmo em relação às vagas. O algoritmo Gale-Shapley propõe o laço entre vagas e candidatos de acordo com as preferências. Ele sempre produz o melhor arranjo estável possível, mesmo que o número de vagas seja diferente do de candidatos.

 

O PODER ATRAPALHA

Funcionários talentosos funcionam bem principalmente se têm poder e equipe. Mas, se a empresa demite pessoas que fazem o trabalho operacional corre risco de ficar só com profissionais poderosos – e grupos assim funcionam mal.

PODER MÉDIO DOS MEMBROS DE UM GRUPO BAIXO MÉDIO ALTO
PROPABILIDADE DE IMPASSE NO GRUPO 12% 20% 59%
PROPABILIDADE DE CONCORDÂNCIA NO GRUPO 88% 80% 41%

 

DICAS ÚTEIS

Questões que não podem faltar num bom processo de WP

FAÇA

1 – Quem põe a pessoa certa no lugar certo, mas sem considerar o futuro, não exatamente está fazendo o planejamento da força de trabalho, mas sim, capacity para fazer WP, o RH deve responder: como a empresa vai usar o funcionário daqui a uns anos?

 2 – No processo de workforce planning, considere parceiros e fornecedores. Pode não fazer sentido ter certas competências dentro da empresa, mas também não faz sentido desistir de desenvolvê-las só porque estão nos fornecedores.

NÃO FAÇA

1- Não monte o processo de workforce planning com base nas avaliações de desempenho, pois 98% dos gestores não estão contentes com o processo de avaliação da companhia na qual trabalham, e 86% das próprias empresas estão insatisfeitas.

2 – Não caia na tentação de aderir a modismos de gestão. Cada organização tem uma cultura única e é pouco provável que um modismo a deixe melhor. Por exemplo: dizem que o WP deve emanar da estratégia corporativa, mas, se o RH não tem acesso à estratégia, não significa que não haja nada que possa fazer.    

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

RESPONDENDO À PALAVRA

O conceito de revelação divina e de nossa necessidade de submeter-nos a ela é, ao mesmo tempo, altamente razoável e praticamente saudável. E razoável por­que reconhece que o Deus infinito está muito além de suas criaturas finitas e que nós nunca o teríamos encontrado se ele não tivesse tomado a iniciativa de fazer-se conhecido. E é saudável porque a submissão à auto revelação de Deus em Cristo e no pleno testemunho bíblico de Cristo, longe de inibir a saúde e o crescimento da igreja, é na verdade indispensável a estes. Minha tese neste capítulo é que a Palavra de Deus, quando recebida e respondida, tem um papel central na fé e na vida do povo de Deus. Vou dar cinco exemplos.

DISCIPULADO MADURO

Primeiro, a submissão à autoridade da Escritura é o cami­nho para um discipulado maduro. Eu não estou dizendo que é impossível ser discípulo de Jesus sem que se tenha uma alta concepção da Escritura, pois isto evidentemente não é o caso. Existem verdadeiros seguidores de Jesus Cristo que não são “evangélicos”, cuja confiança na Escritura é muito pouca ou mesmo mínima e que acreditam muito mais nas tradições do passado e nos ensinamentos presentes da igreja, ou mesmo em suas próprias ideias ou experiência. Eu não tenho o mínimo desejo de negar a autenticidade de sua fé cristã. Arrisco-me, porém, a dizer que o seu discipulado acabará sendo muito mais pobre em virtude de sua atitude para com a Bíblia. É impossível um discipulado cristão maduro, completo e equilibrado sem que os discípulos se submetam à autoridade ensinadora do seu Senhor tal como mediada através da Escritura. Afinal, o que é discipulado?  É um estilo de vida multifacetado, um amálgama de diversos ingredientes. Ele abrange principalmente adoração, fé, obediência e esperan­ça. Todo cristão é chamado a adorar a Deus, a confiar nele, a obedecer-lhe e a olhar com firme esperança para o futuro. Mas cada um destes é uma resposta à revelação e é seria­mente deficiente caso não haja uma revelação confiável e objetiva de Deus.

1.Adoração. Todo cristão é um adorador. Tanto em público como na vida privada, nós reconhecemos que de­vemos adorar o Deus Todo-poderoso. Mas como podemos adorar a Deus sem sabermos quem ele é e que tipo de adoração lhe agrada? Sem esse conhecimento, é quase certo que nossos esforços de adoração acabam se transformando em idolatria. No melhor dos casos, nós iríamos simples­mente imitar aquele famoso altar que Paulo encontrou em Atenas e no qual estava escrito “Ao deus desconhecido”. Mas os cristãos não são atenienses agnósticos; nós deve­mos amar o Senhor nosso Deus com todo o nosso enten­dimento e adorá-lo “em espírito e em verdade”.

Então, o que significa adorar a Deus? E “gloriar-se no seu santo nome”, ou seja, adorar com regozijo aquele que ele é em seu caráter revelado. Antes, porém, de podermos nos gloriar no nome de Deus, precisamos conhecê-lo. Daí a necessidade de lermos e praticarmos a Palavra de Deus em culto público e de meditarmos na Bíblia em devoção privada. Estas coisas não interferem na adoração; pelo contrário, são o fundamento necessário para tal. Antes de termos qualquer liberdade de falar com Deus, ele tem de falar conosco. Ele deve revelar-se a nós antes que possamos apresentar-lhe aquilo que somos em adoração que lhe agrada. O culto a Deus é sempre uma resposta à Palavra de Deus. A Escritura dirige e enriquece maravilhosamente a nossa adoração.

2.Fé. Se todo cristão é um adorador, todo cristão é também um crente. Na verdade, a vida cristã é uma vida de fé. “Onde está a vossa fé?”, perguntou Jesus aos doze quando eles ficaram com medo, e os exortou: “Tende fé em Deus”. Mas, o que é fé? Também é uma resposta à revelação de Deus. Nós não podemos confiar em um Deus que não conhecemos, assim como não podemos adorar um Deus desconhecido. Consideremos o Salmo 9.10: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam.” Se adorar é “gloriar-se” em Deus por quem ele é (seu “nome”), então fé é “confiar” nele por causa de quem ele é. Assim, fé não é, nem ingenuidade, nem credulidade. Ela nem é ilógica nem é irracional. Pelo contrário, fé é uma confiança razoável. Ela se baseia no conhecimento: o conhecimento do nome de Deus. Sua razoabilidade nasce da confiança do Deus em quem se está confiando. Confiar em Deus nunca pode deixar de ser razoável, pois ninguém há que seja mais digno de confiança do que ele.

A fé vai crescendo, portanto, à medida que refletimos no caráter de Deus (que nunca mente) e na aliança de Deus (que se comprometeu com o seu povo). Mas como podemos descobrir seu caráter e sua aliança? Somente pela Bíblia, na qual estão reveladas estas duas verdades geminadas. Assim, quanto mais meditarmos na auto revelação de Deus através da Escritura, tanto mais madura ficará a nossa fé, enquanto que, sem a Escritura, a nossa fé acabará fraca e doentia.

3.Obediência. Jesus chama os seus discípulos para uma vida de obediência, como também de adoração e fé.

Mas como podemos obedecer-lhe, a menos que conheça­mos a sua vontade e os seus mandamentos? Sem tal co­nhecimento é impossível obedecer. “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” E, mais uma vez, “Aquele que tem os meus mandamentos [isto é, que os conhece e os entesoura em sua mente e memória] e os guarda, esse é o que me ama.”

Uma vez mais, portanto, vemos que a Bíblia é indispen­sável para um discipulado maduro. É nela que aprendemos os mandamentos de Cristo e assim tomamos os primeiros passos necessários para compreender e fazer a sua vontade.

4.Esperança. A esperança cristã é uma expectativa con­fiante com relação ao futuro. Nenhum cristão pode ser cínico ou pessimista. Na verdade, nós não acreditamos que algum dia os seres humanos conseguirão construir uma Utopia na terra. Mas, embora não tenhamos muita fé na realização humana, nós temos grande confiança nos propósitos e no poder de Deus. Temos certeza de que o erro e o mal não terão a última palavra. Pelo contrário, a verdade e a justiça acabarão triunfando, pois Jesus Cristo há de regressar em poder e glória, os mortos ressuscitarão, a morte será destruída e o universo se libertará da corrupção e será coberto de glória.

Mas como podemos estar certos destas coisas? Não existe nenhuma base evidente para tal confiança. O mal floresce. Os ímpios são bem-sucedidos em sua maldade. Os problemas do mundo parecem indissolúveis. E a nuvem de co­gumelo da explosão nuclear ainda tolda o horizonte. Não haveria mais razão para desespero do que para esperança? Sim, pode ser… a não ser pela Bíblia! É a Bíblia que desperta, orienta e nutre a esperança. E a esperança cristã é com­pletamente diferente do otimismo secular. E uma confiança em Deus, que nasce das promessas de Deus. “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar,” exorta o autor de Hebreus aos seus leitores. Por quê? “Pois quem fez a promessa é fiel.” O próprio Jesus disse que viria de novo. “Então verão o Filho do homem vir nas nuvens, com grande poder e glória… E vereis o Filho do homem… vindo com as nuvens do céu”. São promessas como esta que estimu­lam nossa esperança. E “guardando a sua promessa “que nós esperamos por um novo mundo, “em que habita justiça”.

Aqui estão, pois, os quatro ingredientes do discipulado cristão: adoração, fé, obediência e esperança. Todos eles seriam irracionais sem uma base objetiva na revelação de Deus, para a qual eles são uma resposta. A adoração é uma resposta à revelação do nome de Deus; a fé, à revelação do seu caráter e aliança; a obediência, à revelação da sua vontade e mandamentos; e a esperança, à revelação do seu propósito e suas promessas. E o nome, a aliança, os mandamentos e as promessas de Deus são todos encontra­dos na Escritura. E por isso que a Bíblia é fundamental para o crescimento cristão, e por isso é que a submissão à sua autoridade é o caminho para um discipulado maduro.

INTEGRIDADE INTELECTUAL

Em segundo lugar, a submissão à autoridade bíblica é o caminho para a integridade intelectual.

Muita gente iria negar imediatamente esta declaração e até afirmar o contrário. As pessoas não conseguem entender como é que os cristãos — aparentemente tão inteligentes, em pleno final do século XX — podem ser tão obtusos a ponto de acreditar na inspiração e na autoridade da Bíblia. Acham insustentável um compromisso com a verdade e a fidelidade da Escritura. Assim, aqueles dentre nós que insistem em permanecer fiéis à Escritura eles acusam de falta de integridade intelectual. Dizem que somos obtusos, esquizofrênicos, suicidas intelectuais e vítimas de outras patologias igualmente repugnantes. Diante dessas acusações, porém, nós nos declaramos inocentes, insistindo no fato de que a nossa convicção acerca das Escrituras nasce da própria integridade que os nossos críticos dizem nos faltar.

“Integridade” é a qualidade de uma pessoa integrada. Um cristão integrado está em paz (e não em guerra) consigo mesmo. Ao invés de vivermos uma dicotomia entre as nossas diversas crenças, ou entre a nossa fé e o nosso comportamento, o que nos deixaria intimamente divididos, o que existe é uma harmonia interior. Nós somos “uma peça única”, inteiros, integrais. Qual é o segredo dessa integração?

Não existe princípio cristão mais integrador do que a afirmação que vimos no capítulo 5, “Jesus Cristo é Se­nhor”. No discipulado integrado, é igualmente essencial que confessemos o seu senhorio com os nossos lábios e que o entronizemos como Senhor em nossos corações. Nós aceitamos o leve fardo de sua autoridade disciplinadora. Procuramos “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”. E quando Jesus é Senhor daquilo que nós cremos, das nossas opiniões, ambições, padrões e valores, Senhor do nosso estilo de vida, então nós somos cristãos integrados, já que a nossa vida é marcada pela “integri­dade”. Só quando ele é Senhor é que nós nos tornamos completos.

Mas o próprio Jesus, nosso Senhor, submeteu-se às Escrituras do Antigo Testamento. Em sua conduta ética, na compreensão de sua missão e em seus debates públicos com os líderes religiosos de sua época, sua preocupação primordial era ser fiel à Escritura. “O que diz a Escritu­ra?”, perguntava ele. Esta era sempre a sua apelação final. Além do mais, ele deixou clara sua expectativa de que, quanto a isso, os seus discípulos seguissem o seu exemplo. E também providenciou para que as Escrituras do Novo Testamento fossem escritas, ao escolher, chamar, equipar e comissionar os seus apóstolos para serem os mestres da igreja, esperando que a igreja se submetesse a eles. “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim”, disse ele. Portanto, a submissão à Escritura por parte dos discípulos cristãos é parte e parcela de nossa submissão a Jesus como Senhor. Afinal, o discípulo não está acima de seu mestre. Portanto, nós não podemos acomodar-nos a uma submissão seletiva. Seria inerentemente ilógico, por exemplo, concordar com a doutrina de Jesus sobre Deus, mas discordar da sua visão sobre a Palavra de Deus. De jeito nenhum: submissão seletiva não é submissão autêntica.

Isto nos dá a orientação necessária para lidarmos com os problemas encontrados na Bíblia, pois, ao afirmar a inspiração e a autoridade da Escritura, eu não estou negando que haja problemas. Existem problemas textuais, literá­rios, históricos, científicos, filosóficos, culturais, teológi­cos e morais. Os fenômenos observáveis da Escritura (que nós vemos indutivamente) às vezes parecem conflitar com a nossa doutrina da Escritura (que nós defendemos dedutivamente, inferindo-a da atitude e dos ensinos de Jesus). Assim, o que deveríamos fazer com os problemas? Como tratá-los com integridade?

Precisamos lembrar que toda doutrina cristã traz à tona algum problema, inclusive as doutrinas centrais de Deus (seu ser, criação, soberania, providência e justiça), de Jesus Cristo (sua pessoa única em duas naturezas, sua obra de expiação, sua ressurreição corporal, seu reino presente e sua volta futura) e do Espírito Santo (sua atuação na igreja e no mundo). Ou, então, consideremos o amor de Deus. E uma doutrina cristã fundamental. Todos os cristãos, sem exceção (católicos romanos, ortodoxos, reformados, luteranos, episcopais, independentes, pentecostais…), acre­ditam que Deus é amor; se eles o negassem, não seriam cristãos. Mas os problemas que cercam esta convicção são enormes: a origem e a propagação do mal, o sofrimento dos inocentes, os “silêncios” de Deus e os “atos” de Deus, a vastidão do universo e a aparente insignificância de cada ser humano.

Suponhamos que alguém venha procurar-nos com um problema ou um conflito pessoal (talvez o nascimento de um filho deficiente, um desastre natural ou uma morte trágica) e nos desafie: “Por que isso tinha de acontecer comigo? Como pode Deus ser amor, se ele permite isso?” Como é que iremos reagir? Dizer que, para preservar nossa integridade intelectual, é melhor deixarmos de acreditar no amor de Deus até que o nosso problema esteja resolvido? Espero que não. Nem vamos varrer o problema para de­baixo do tapete e tentar esquecê-lo. Pelo contrário, além da questão de como deveríamos responder pastoralmente ao nosso inquiridor, nós lutamos com o problema em nossa própria mente e coração. Nós pensamos nele com muita consciência, lemos acerca do assunto, conversamos e oramos sobre ele. E, durante este processo, o problema vai se esclarecendo. Mesmo assim, algo da perplexidade perma­nece. E depois, o que acontece? O caminho para a integri­dade intelectual, a meu ver, é determinar-nos a não abrir mão da nossa convicção quanto ao amor de Deus, apesar das dificuldades que permanecem — em última instância, por uma única razão: que o próprio Senhor Jesus ensinou e demonstrou esse amor. Primeiro e antes de tudo, foi por causa de Jesus que nós chegamos a crer no amor de Deus, e é pela mesma razão que deveríamos continuar a fazê-lo.

O mesmo acontece com os problemas concernentes à Bíblia. Nós temos que aprender a encará-los assim como encaramos os problemas relativos a outras doutrinas cristãs. Se alguém vem para nós com um problema bíblico (uma discrepância, por exemplo, entre teologia e ciência, ou entre dois relatos dos Evangelhos, ou um dilema moral), o que deveríamos fazer? Não podemos (movidos por uma integridade equivocada) deixar de confiar na verdade da Escritura até que tenhamos resolvido o problema. Nem podemos colocar o problema numa prateleira (adiando indefinidamente o seu desafio) nem empurrá-lo para de­baixo do tapete (ocultando-o permanentemente, até de nós mesmos). Ao invés disso, deveríamos lutar conscientemen­te com o problema em pensamento, discussão e oração. A medida que o fizermos, algumas dificuldades irão se acla­rando, seja total ou parcialmente. Mas então, a despeito daquilo que ainda permanece, nós deveríamos conservar a nossa confiança na Escritura, baseados no fato de que o próprio Jesus a ensinou e demonstrou.

Se um crítico me dissesse: “Se você enfrenta os proble­mas acreditando que a Bíblia é a Palavra de Deus, então você é um ignorante!”, eu hoje devolveria o cumprimento dizendo: “Está bem, se esta é a sua opinião…, Mas, neste caso, você é um ignorante, se enfrenta os problemas acre­ditando no amor de Deus.” Mas a verdade é que acreditar em uma doutrina cristã a despeito de seus problemas, por reconhecimento ao senhorio de Jesus Cristo, não é igno­rância (preferir as trevas à luz), mas fé (confiar naquele que disse que ele era a luz do mundo). Aliás, é mais do que fé: é a sensata integridade intelectual de confessar Jesus como Senhor.

PROGRESSO ECUMÊNICO

Em terceiro lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para o progresso ecuménico, ou seja, o meio de assegurar uma aproximação satisfatória entre as igrejas.

Agora eu me dou conta de que talvez alguns dos meus leitores não tenham o mínimo desejo de levar adiante o ecumenismo. Pode ser que você (pura suposição minha) suspeite de tudo o que seja movimento ecumênico, inclusive o Concílio Mundial de Igrejas, que nasceu a partir dele. Você percebe (se bem que sempre é enganoso generalizar) a tendência deste para a indiferença doutrinária, o seu esforço para reinterpretar a missão cristã em termos de ação sócio-política, como também a sua inclinação para o sincretismo e o universalismo em face dos desafios de outras religiões. Na verdade, eu entendo os seus escrúpulos — aliás, eu mesmo compartilho deles. Existe no ecumenismo moderno muita coisa que nos desconcerta e nos deixa angustiados. Não se pode aceitar sem críticas tudo o que vem de Genebra. No entanto, também me incomoda essa condenação generalizada por parte de um grande contin­gente evangélico com relação às atividades ecumênicas. Para mim é óbvio que nós não podemos simplesmente ignorar toda a ala não evangélica do cristianismo, como se ela não existisse; ou então, já que ela de fato existe, considerar os seus adeptos como não cristãos e concluir que nada temos a ver com eles. Aliás, o nosso Senhor Jesus orou para que seu povo viesse a ser um, a fim de que o mundo cresse, e seu apóstolo Paulo exorta-nos a “esforçar-nos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”.

É claro que existe um lugar para discordâncias entre nós quanto à forma que deveria assumir a unidade cristã. Mas por que não podemos admitir que essa competição entre diferentes igrejas não tem razão de ser e que a unidade visível da igreja, de alguma forma, é um alvo a ser alcan­çado? Reagindo a uma carta de Thomas Cranmer, Arce­bispo de Cantuária, em 1552, Calvino escreveu o seguinte:

Sem dúvida, uma das maiores desgraças do nosso século é o fato de as igrejas estarem assim separadas umas das outras… e que a santa comunhão dos membros de Cristo, que muitos professam com a boca, seja buscada com sinceridade apenas por uns poucos… Segue-se daí que, estando os membros assim dispersos, o corpo da igreja fica sangrando. Isto me afeta tão profundamente que, se alguém achasse que valeria alguma coisa, eu não hesitaria em atravessar dez mares para isso, caso ne­cessário… De fato, se homens letrados tentassem chegar a um acordo sólido e cuidadosamente elaborado de conformidade com o que manda a Escritura, um acordo pelo qual as igrejas separadas devessem unir-se umas às outras, acho que de minha parte eu não pouparia qualquer esforço ou perigo.

A carta de Calvino a Cranmer é significativa, não só pelo fim que ela tinha em vista (unir igrejas separadas), mas também pelos meios que ela propunha (um acordo baseado na Escritura). Afinal, a unidade que o próprio Cristo deseja para sua igreja é certamente uma unidade baseada na verdade. Sua oração registrada em João 17 une claramente as duas coisas, como veremos no capítulo 16. Além disso, se a igreja está construída sobre o fundamento dos após­tolos e dos profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo, ela certamente não irá crescer em tamanho ou estabilidade negligenciando, e muito menos solapando, o seu alicerce. E nisto o Concílio Mundial de Igrejas está de acordo, pelo menos em sua posição oficial. Sua declarada definição da “unidade que buscamos” (1961) fala sobre “uma só comunhão plenamente comprometida, mantendo uma só fé apostólica, anunciando um único evangelho, partindo um só pão” e desfrutando uma vida comunitária de oração, testemunho e serviço.

Naturalmente, essa “uma só fé apostólica” chegou até nós através do Novo Testamento, e não se poderia nem deveria considerar nenhuma união de igrejas que se des­viasse desta regra. De maneira particular, um dos maiores obstáculos para a unidade tem sido a falha em distinguir entre Escritura e tradição. Jesus mesmo estabeleceu uma distinção bem clara entre a Escritura escrita e a tradição oral dos anciãos, subordinando esta àquela; e foi ainda mais longe, a ponto de rejeitar a tradição por ser “preceitos de homens”, a fim de que a Escritura, sendo a Palavra de Deus, tivesse a supremacia. Esta mesma distinção precisa ser feita hoje. Mesmo assim os planos de unidade da igreja têm falhado. Uma demonstração disso é a tendência, por exem­plo, das igrejas anglicanas e episcopais de insistir em uma visão bem particular quanto ao “episcopado histórico”, que elas consideram uma questão inegociável. Pode-se até en­tender as razões históricas para isso, e eu mesmo gostaria de defender um sistema episcopal de governo como um ideal de pastorado coerente com a Escritura e que conduziria à saúde da igreja. Mas não se pode insistir nisso como indispensável, pois é um assunto que tem a ver com a tradição da igreja, e não uma exigência da Escritura.

Se nós pelo menos pudéssemos concordar que a Escritura é “a Palavra escrita de Deus”, que ela é suprema em sua autoridade sobre todas as tradições humanas, por mais veneráveis que sejam, e que deveríamos deixar que ela re­formasse e renovasse a igreja, isto seria um salto imediato nas relações ecumênicas. Segundo a Palavra de Deus, para haver re-união é indispensável que haja uma reforma.

EVANGELIZAÇÃO EFICAZ

Em quarto lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para uma evangelização fiel e eficaz. Até aqui, enquanto considerávamos o discipulado pessoal, a integridade e as relações entre as igrejas, o meu argumento foi doméstico e eclesiástico. Mas o mundo que nos cerca vive em grande confusão e trevas. Será que a igreja tem alguma luz para essas trevas, alguma palavra de esperança para esse atônito mundo moderno?

Uma das tragédias da igreja contemporânea é que, justo quando o mundo parece estar pronto para ouvir, muitas vezes a igreja parece ter pouco ou nada a dizer. Afinal de contas, ela mesma está confusa; ao invés de trazer alguma contribuição positiva, ela participa da confusão reinante. A igreja sente-se insegura; não tem certeza de sua identidade, de sua missão nem de sua mensagem. Fica aí gaguejando e balbuciando, quando deveria estar procla­mando o evangelho com toda intrepidez. Com efeito, a principal razão para a igreja estar perdendo a sua influên­cia no Ocidente é que a sua fé está diminuindo.

É impossível redescobrir a evangelização, a não ser que se redescubram as boas novas do evangelho. Afinal, evangelizar, na sua definição mais simples, é “compartilhar o evangelho”. Portanto, é impossível haver evangelização bíblica sem evangelho bíblico. Muitas igrejas através do mundo vêm considerando os anos 90 como uma “década da evangelização”. Isto é muito bom. Mas nós nunca iremos concordar quanto ao que significa “evangelizar” se nos recusarmos a debater o conteúdo do “evangelho”. Evangelização só pode ser definida em termos de evangelho.

Nós precisamos admitir que testemunho cristão é essen­cialmente testemunhar de Cristo, e que o único Cristo autêntico que existe é o Cristo testemunhado pelos após­tolos. Afinal, os apóstolos foram as testemunhas originais, as testemunhas oculares; nosso testemunho, por mais vital que seja, continua sendo secundário em relação ao deles. Nós não temos autoridade alguma para alterar o evangelho deles. Pelo contrário, somos chamados para preservá-lo como mordomos, proclamá-lo como arautos e defendê-lo como advogados.

Em seu livro sobre evangelização intitulado Ide e Fazei Discípulos, David Read, que durante muitos anos foi pastor da Igreja Presbiteriana da Avenida Madison, em Nova York, escreveu: “Aqueles dentre nós que gostam de visitar outros países conhecem bem aquele solene momento quando, na fronteira, nos deparamos com um oficial da alfândega que… nos encara com olhos de aço e pergunta: ‘Algo a declarar?’ Eu ainda não tive a coragem de responder: ‘Sim. Como ministro do evangelho, é meu dever declarar que Jesus Cristo é o seu Senhor e Salvador’.” Assim, David Read intitula o seu capítulo final “O Ponto Crucial: Você tem algo a decla­rar?” O que faz da “maioria de nós… evangelistas relutan­tes”, escreve ele, é a falta de convicção acerca do evangelho. E eu concordo. Acho que a igreja nunca levará a sério a sua tarefa evangelística, a não ser que primeiro ela recupere a sua confiança na verdade, relevância e poder do evangelho, e comece ela mesma a entusiasmar-se por ele. Para isso, no entanto, ela terá que retornar à Bíblia, onde o evangelho foi revelado.

HUMILDADE PESSOAL

Em quinto lugar, a submissão à autoridade da Escritura é o caminho para a humildade cristã pessoal. Não há coisa mais detestável em alguém que diz seguir a Cristo do que a arrogância, e nada é mais apropriado ou atrai mais do que a humildade. E um elemento essencial na humildade cristã é a disposição para ouvir e receber a Palavra de Deus. Talvez a maior de todas as nossas necessidades é assumir outra vez o nosso lugar humildemente, calmamente e pa­cientemente aos pés de Jesus Cristo, para ouvir atentamen­te a sua Palavra, acreditar e obedecer. Aliás, nós não temos direito algum de desacreditá-lo ou desobedecê-lo.

A questão definitiva que se coloca diante de nós e de toda a igreja é se Jesus Cristo é Senhor (como nós dizemos que ele é) ou não. A pergunta é se Cristo é o Senhor da igreja (para ensiná-la e ordenar-lhe o que fazer) ou se é a igreja que é o senhor de Cristo (para alterar e manipular o seu ensino). Na atual crise de autoridade no mundo, e de perda de autoridade na igreja, meu apelo é que regressemos a uma humilde submissão à Escritura como Palavra de Deus e que o façamos a partir de uma humilde submissão a Jesus Cristo como Senhor, o qual se submeteu, ele mesmo, à Escritura, com toda humildade, em sua própria fé, vida, missão e ensinamento.

Ao fazê-lo, encontraremos o caminho para o discipulado maduro e para a integridade intelectual, o caminho para unir as igrejas e evangelizar o mundo e o caminho para demonstrar uma humildade apropriada diante do nosso Senhor Jesus Cristo. E isso que eu chamo de “salubridade” de submeter-se à autoridade da Escritura.

GESTÃO E CARREIRA

diversidade

DIVERSIDADE – QUANDO O DIFERENTE É IGUAL

 As ruas estão cheias de homens, mulheres, brancos, negros, homossexuais, trans.

Trazer essa multiplicidade para dentro da empresa aumenta em até 35% seus rendimentos.

 Em 2012, uma cabeleireira transexual usou o banheiro feminino para clientes do supermercado Carrefour, em São Paulo. Uma mulher não gostou e reclamou. O gerente da loja ligou para a matriz para perguntar como agir – e ninguém soube responder. “Aquela era uma situação nova, mas precisávamos lidar com isso”, diz Sylvia Leão, vice-presidente de gestão de gente do Carrefour Brasil. Um ano depois, a rede varejista criou o Comitê de Valorização da Diversidade e procurou entidades e consultorias específicas para elaborar, a muitas mãos, uma cartilha de orientação para os funcionários. O documento viralizou nas redes sociais e a empresa se viu, de um dia para o outro, recebendo muitos currículos de trans.

Como muitos dos candidatos não tinham qualificação, o Carrefour criou um treinamento com turmas específicas para transexuais. Da primeira classe, no ano passado, 17 foram contratados. A meta para 2018 é formar 200 profissionais em São Paulo, Recife, Manaus e Belo Horizonte, e manter no quadro 30% deles.

A companhia é uma das poucas que entendem a diversidade como algo além da participação feminina no mercado de trabalho. Isso inclui raça, gênero, orientação sexual, geração, crença, mentalidade – todo e qualquer tipo e estilo de gente. Por isso, além do tradicional objetivo de aumentar 50% o número de mulheres na liderança, o Carrefour tem metas ousadas também para a inclusão de pessoas com deficiência e de variadas etnias e credos. “Procuramos trabalhar de maneira transversal, falando sobre a necessidade de aceitar indivíduos de diferentes religiões, estilos e idades”, diz Sylvia.

A razão para tal investimento – além, é claro, da oportunidade de fazer parte do grupo de organizações “politicamente corretas” – é estratégica. “Quanto mais diversos, mais conseguimos inovar”, afirma Sylvia. De fato, recentes estudos comprovam que a multiplicidade impacta positivamente no resultado dos negócios.

O relatório Diversidade Importa, da tradicional consultoria de negócios McKinsey, indica que maior variedade de gênero eleva em 15% a possibilidade de a companhia obter melhor retorno financeiro, enquanto a heterogeneidade étnica expande para 35% essa oportunidade. Não é à toa que, segundo outro estudo (da consultoria americana CEB), sete em cada dez empresas na América Latina planejam expandir as práticas de diversidade e inclusão em seus quadros nos próximos três anos. Das que pretendem investir nessa toada, um terço está sendo pressionada por seus clientes e acionistas.

VIÉS CONSCIENTE

Mas, apesar das vantagens e da pressão, apenas 33% dos executivos de RH relatam ter alguma estratégia ligada ao tema, de acordo com dados da CEB. O resultado é um quadro executivo padronizado, que nada reflete a realidade das ruas. Mesmo entre as 150 melhores empresas para você Trabalhar, consideradas referência em gestão de pessoas, falta uma equiparação entre a sociedade e a mão de obra. Segundo o levantamento da VOCÊ S/A, em parceria com a FIA, enquanto 51% da população brasileira era negra ou parda em 2016, esse grupo não passava de um terço nas organizações participantes da pesquisa.

Para Gláucia Alves, especialista em gestão da inovação na Universidade Federal da Bahia e uma das autoras do artigo Relação entre diversidade, criatividade e competitividade em organizações brasileiras, a única maneira de reverter essa situação é treinar os gestores. São eles, principalmente os que ocupam o topo da hierarquia, que devem vencer preconceitos inconscientes, neutralizar valores e aceitar, de fato, o diferente.

Mais do que receber, o gestor deve compreender o diferente. “Não adianta contratar pessoas distintas e esperar que elas trabalhem e produzam da mesma forma”, diz Karina Ude, diretora de recursos humanos da empresa de agronegócios Syngenta. Em 2014, a companhia instituiu o Comitê da Diversidade e Inclusão e, a partir de então, revisou seus treinamentos para que abordassem a inclusão. “Desenvolvemos cursos para todos os níveis de liderança para falar de preconceito, mostrar o que as organizações ganham com a diversidade e qual a conexão entre o tema e os objetivos estratégicos da companhia”, afirma. A Syngenta acabou de contratar uma consultoria para medir os dados de diversidade e calcular o impacto disso na produtividade das equipes e no retorno financeiro do negócio.

GRUPOS AFINS

O surgimento de áreas específicas para cuidar de diversidade e inclusão é um indicador, mesmo que pequeno, de que o tema avança nas corporações. Segundo o estudo da CEB, das companhias que possuem práticas sobre diversidade, 65% mantêm uma pessoa ou função dedicada ao assunto. Contudo, segundo a especialista da UFBA, “é preciso ter um departamento que gerencie a diversidade na prática e não fique apenas ‘teorizando’, dizendo que ela faz parte da realidade da empresa”.

A consultoria PwC, por exemplo, criou uma gerência específica com foco em seis pilares: raça e etnia, orientação sexual, diferentes gerações, pessoas com deficiência, gênero e diferentes pensamentos – sendo os três últimos definidos como prioritários. Por enquanto, o departamento contratou deficientes visuais, treinados por uma entidade, para fazer massagem em seus funcionários em nove escritórios. A empresa ainda tem o objetivo de alcançar 20% de mulheres como sócias até 2020 (hoje são 8%).

Conseguem um resultado melhor as companhias com grupos de afinidade, como é o caso da GE, que fabrica de motores de aviões a equipamentos de ressonância magnética, e da P&G, dona das marcas Gillette, Ariel e Pampers. Na P&G, o grupo Gayble, dos profissionais LGBT é um dos mais fortes dentro da organização. Eles se auto gerenciam e marcam encontros periódicos, nos quais discutem questões ligadas ao trabalho, além de organizar palestras sobre como incluir esse público e ser um aliado dele. “Eu participo, mas porque sou aliada, não como executiva de gestão de pessoas”, diz Juliana Clemente, diretora de RH da P&G no Brasil. Foi esse grupo que ajudou a empresa a lidar com seu primeiro caso de transgênero. “Acredito que foi a atuação desse grupo que fez com que esse profissional sentisse liberdade para falar sobre a mudança de gênero”, diz Juliana.

Já na GE, que tem uma política antidiscriminação desde 1936. O grupo de afinidade mais antigo foi criado em 1997, por mulheres. Ana Lúcia Caltabiano, diretora de recursos humanos para a América Latina, espera que a próxima associação seja de funcionários com mais de 50 anos. A iniciativa deve ser dos empregados. “Nós só ajudamos nos primeiros passos ou caso o grupo sinta necessidade de algum treinamento específico”, diz. Para a executiva, a receita para tirar a diversidade do papel é encontrar pessoas apaixonadas pela causa e um líder com credibilidade que abrace a ideia. “Cabe ao RH construir um ambiente seguro e acolhedor para que o profissional possa dar o melhor de si mesmo”, afirma.

EXPECTATIVA X REALIDADE

A White Martins, que atua na fabricação de gases industriais, começou a olhar para a questão da diversidade em 2010, quando treinou todos os líderes, inclusive o presidente, sobre o assunto. Agora, o foco é a contratação e o desenvolvimento de negros. Hoje, 30% do quadro de empregados é composto de afrodescendentes. Mas, para Cristina Fernandes, diretora de talentos e comunicação da companhia, isso não é o bastante. A fim de atingir o objetivo, a White Martins contratou duas consultorias especializadas, a EmpregueAfro e a EducAfro, para fornecer aulas de inglês e treinamentos técnicos e comportamentais, além de coaching e mentoring, para 100 funcionários e 25 estagiários. Entre homens e mulheres negros. A companhia também abriu dez vagas extras de estágio para empregar jovens indicados por essas consultorias.

O gerente de administração financeira da White Martins, Marcos Coutinho, de 48 anos, é um desses profissionais. Ele entrou na empresa com 20 anos de idade. Órfão de pai e mãe desde os 8 anos, enfrentou o preconceito racial e social. Morador da Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, ele foi a primeira pessoa da família a concluir o ensino superior e, nesses 28 anos de corporação, conquistou nove promoções até chegar ao cargo atual. “É preciso ter resiliência, mas sempre tive apoio aqui dentro”, afirma Coutinho.

A jornada é longa, mas replicar a diversidade da população dentro dos muros corporativos faz a diferença.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ALIMENTOS QUE AJUDAM A PENSAR

Refrigerantes no café da manhã costumam prejudicar a capacidade cognitiva; a ingestão de ovos e salada no almoço favorece a memória; chia e castanhas previnem Alzheimer. Já os produtos industrializados podem afetar o humor, nos tornando mais ansiosos e agressivos

Alimentos que ajudam a pensar

Alimentos que ajudam a pensar.2

Provavelmente quando você escolhe o que vai comer não imagina que sua decisão vai influenciar sua capacidade de concentração, a maneira como capta e fixa informações ou mesmo sua disposição para aprender. Descobertas científicas recentes mostram, porém, que aquilo que ingerimos pode influir na maneira como raciocinamos e nos relacionamos com o mundo, já que o cérebro é o órgão mais exigente do corpo – e tem algumas necessidades dietéticas específicas. Não é de estranhar, portanto, que mantê-lo adequadamente alimentado favoreça mecanismos cognitivos e mnemônicos. Uma providência que pode contribuir, logo cedo, para a acuidade do desempenho intelectual é tomar café da manhã.

Pesquisa desenvolvida pela doutora em nutrição Barbara Stewart-Knox, professora da Universidade de Ulster, no Reino Unido, mostrou que crianças que tomavam o café da manhã com bebidas gasosas e petiscos açucarados tinham desempenho similar ao de pessoas com 70 anos em testes de memória e atenção. A pesquisadora constatou que a ingestão de torradas aumentava as pontuações numa variedade de testes cognitivos, mas quando os exercícios ficaram mais complexos, os pequenos voluntários que tomaram o café da manhã com cereais com alto teor de proteínas obtiveram melhores resultados.

A despeito da polêmica que o consumo de ovos já despertou há alguns anos, estudos mais recentes têm indicado que omelete, feita praticamente sem gordura, acompanha­ da de salada pode ser uma escolha bastante inteligente para o almoço. O ovo é rico em colina, substância usada pelo organismo para produzir o neurotransmissor acetilcolina. Cientistas da Universidade de Boston constataram que, quando administrado em adultos jovens, o fármaco escopolamina, que bloqueia os receptores de acetilcolina no cérebro, reduz significativamente a capacidade de memorização de pares de palavras. Baixos níveis do neurotransmissor também estão associados à doença de Alzheimer. Alguns estudos sugerem que o aumento da ingestão de alimentos ricos em acetilcolina pode diminuir o ritmo da perda de memória relacionada à idade.

As saladas são fundamentais para o bom funcionamento do cérebro, já que o órgão produz grande quantidade de energia – além de muitos radicais livres. Por serem antio­xidantes, as vitaminas C e E atuam como neuro-protetores. Além disso, a ingestão de verduras e legumes crus ricos em vitaminas e betacaroteno ajuda a manter os neurônios em bom estado. A vitamina 812 e o ácido fólico melhoram a memória. O biólogo Dwight Tapp e colegas da Universidade da Califórnia, em lrvine, comprovaram que uma dieta rica em antioxidantes melhorava as aptidões cognitivas de 39 beagles adultos. Ou seja: comprovaram que é possível ensinar novos truques a um cachorro velho. Mas isso não vale apenas para cães: humanos também podem se beneficiar de regimes alimentares que combatem o “enferrujamento” cerebral.

Para completar o almoço, um iogurte é boa opção. O alimento contém o aminoácido tirosina, necessário para a produção de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, envolvidos em processos de regulação do humor e da capacidade de concentração. Estudos realizados pelas Forças Armadas americanas revelam que sofremos uma redução dos estoques de tirosina quando estamos sob tensão e que a suplementação pode melhorar o estado de alerta e a cognição.

Para manter os níveis de glicose em alta, convém fazer um lanche no meio da tarde. Só tenha o cuidado de evitar as comidas calóricas com baixo valor nutritivo e, particularmente, guloseimas altamente processadas, como bolos, massas doces e salgadas e biscoitos, que contêm ácidos graxos trans. Elas não apenas provocam acúmulo de quilos indesejáveis. Dados da Sociedade de Neurociência já divulgaram que ratos e camundongos criados com junk food para roedores tiveram dificuldade de encontrar saída em labirintos e levaram mais tempo para lembrar soluções de problemas que já tinham resolvido. Quando esses animais receberam uma droga para reduzir os níveis de triglicérides, seu desempenho nas tarefas de memorização melhorou. Com seres humanos os efeitos desse tipo de alimento não parecem ser muito diferentes.

Cérebros são constituídos por cerca de 60% de lipídios; mas, se gorduras trans entupirem o sistema, o que é necessário comer para mantê-lo bem lubrificado? Acumulam-se as evidências a favor dos ácidos graxos ômega-3, em particular o ácido docosaexaenoico, ou DHA. Em outras palavras, nossas avós tinham razão: comer peixe faz bem. A substância, também encontrada em castanhas, não apenas alimenta e lubrifica sistemas cerebrais em desenvolvimento, como também parece ajudar a protelar a instalação de quadros de demência. Estudos já revela m que camundongos mais velhos de uma linhagem geneticamente alterada para desenvolver a doença de Alzheimer tiveram 70% menos placas amiloides associadas à doença quando alimentados com dieta rica em DHA.

Há poucas semanas, um estudo desenvolvido pelo Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou que, além das propriedades nutritivas, o consumo da semente de chia ou de seu óleo também ajuda na prevenção de câncer e de Alzheimer. É a primeira vez que a ciência comprova o poder antioxidante desse alimento e seu potencial para prevenir o envelhecimento precoce das células. Logo, colocar a semente no suco, na salada ou mesmo naquele iogurte da sobremesa parece ser uma ótima ideia. Cientistas recomendam o consumo de duas colheres de sopa por dia.

GULOSEIMAS QUE DESPERTAM IRRITAÇÃO

O consumo excessivo de alimentos industrializados, como biscoitos e comida congelada, pode nos tornar mais ansiosos e agressivos. Um estudo com 1.018 homens e mulheres jovens publicado na PLoS ONE mostra que a gordura trans (ou hidrogenada), presente nesses produtos, influi no comportamento das pessoas. Esse efeito ocorre por causa do prejuízo à metabolização do DHA (ácido graxo do tipo ômega-3) que, segundo estudos anteriores, tem efeito calmante e antidepressivo.

Os voluntários que participaram do estudo preencheram questionários sobre seus hábitos alimentares e passaram por avaliações psicológicas para medição de seus níveis de impaciência, propensão à irritação e tendência à agressividade. “Ácidos graxos trans foram mais indicativos de comportamento violento que alguns fatores de risco tradicionais, como baixo nível educacional ou uso de drogas”, diz a fisiologista Beatrice Golomb, professora da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, autora do estudo.

Ela observa que a relação entre agressividade e dieta rica em gordura trans se aplica a ambos os sexos e a diferentes etnias e classe sociais, mas ressalta que, embora a correlação exista, seria precipitado afirmar que a gordura trans seja causa de comportamentos violentos. “É possível que pessoas naturalmente agressivas tendam a comer menos alimentos saudáveis”, cogita a cientista.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

PERMANECENDO NA PALAVRA

Um tema constante nos autores do Novo Testamento é que o povo de Deus deve ser firme. Por um lado, devemos resistir às pressões morais e intelectuais do nosso mundo contemporâneo, recusando-nos a ser molda­dos pelos padrões da época. Não podemos nos permitir tropeçar, escorregar e cair na lama da relatividade, ou ser arrancados do nosso ancoradouro e ser levados pela cor­renteza. Por outro lado — e este é o aspecto positivo — somos exortados a perseverar na verdade que recebemos, apegando-nos a ela como um abrigo seguro na tempestade e a ficar firmes em seu fundamento.

Vejamos alguns exemplos desse tipo de exortação, dados por três dos maiores contribuidores do Novo Testamento.

Paulo: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

Hebreus: “Importa que nos apeguemos, com mais fir­meza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos.”

João: “Permaneça em vós o que ouvistes desde o prin­cípio.” “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem assim o Pai, como o Filho.”

O que há de comum nestas citações é o reconhecimento de que certas verdades haviam sido “ensinadas” ou “trans­mitidas” pelos apóstolos e, portanto, tinham sido “ouvidas” ou “recebidas” pela igreja. Agora esse corpo de doutrina era um depósito sagrado a ser guardado. Ele tinha uma qualidade normativa: a igreja deveria permanecer nessa doutrina e apegar-se a ela, não se afastando dela nem indo além dela, de forma a contradizê-la.

Parte da recomendação final de Paulo a Timóteo elabora este tema. Mas, para compreendermos as suas implicações, precisamos ter o texto diante de nós. Ele se encontra em 2 Timóteo 3.1 – 4.8.

Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, impla­cáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes inimigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de pie­dade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes.

Pois entre estes se encontram os que penetram sor­rateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias pai­xões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles.

Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, per­severança, as minhas perseguições e os meus sofrimen­tos, os quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra — que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão per­seguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados.

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a edu­cação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério.

Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

FIRMES NA PALAVRA

A exortação de Paulo a Timóteo foi dada dentro do contexto da sociedade em que ele vivia (3.1-13). Ela não era, de manei­ra alguma, favorável ao evangelho. Este, por sua vez, não podia ser reformulado a fim de acomodar-se às ideias e padrões daquela. Pelo contrário, Paulo estava plenamente consciente de que havia entre a Palavra e o mundo uma incompatibilidade radical. “Sabe, porém, isto”, escreveu ele:  “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis.”

É importante salientar que ao falar em “últimos dias” o apóstolo não estava aludindo a uma época futura que viria logo antes da volta de Cristo. No versículo 5 ele diz a Timóteo que “fuja” das pessoas que ele estava descrevendo. Como Timóteo poderia evitá-las, se elas ainda não tivessem sequer nascido?… Na perspectiva do Novo Testamento, os “últimos dias” começaram com Jesus Cristo. Foi ele quem os introduziu. Os últimos dias são, pois, estes dias, os dias em que Timóteo viveu e em que nós também vi­vemos, ou seja, todo o período entre a primeira e a segunda vindas de Cristo. E quais são as características dos últimos dias? Três delas parecem destacar-se na descrição de Paulo.

A primeira é amor mal direcionado. É impressionante ver que, das dezenove marcas distintivas que o apóstolo menciona (vs. 2-4), seis têm a ver com amor: “…os homens serão egoístas [amantes de si mesmos], avarentos [amantes do dinheiro], …desafeiçoados [sem amor], …inimigos do bem [não amantes do bem], …antes amigos dos prazeres que amigos de Deus.” A expressão “desafeiçoados” deve ser entendida como “sem verdadeiro amor”. Afinal de contas, as pessoas em vista não são completamente desprovidas de amor: elas amam a si mesmas, amam o dinheiro e amam os prazeres. O eu, o dinheiro e os prazeres são objetos inadequados do amor humano. Eles podem até virar idola­tria, quando tiram de Deus o lugar que lhe é devido como Aquele que deve ser amado com todo o nosso ser. Hoje em dia, porém, o amor mal direcionado está em toda parte. O egoísmo, a avareza e o hedonismo predominam, enquan­to que o primeiro e o segundo mandamentos, de amar a Deus e amar o nosso próximo, são negligenciados. Além disso, quando o amor das pessoas está voltado para o objeto errado, todos os seus relacionamentos ficam errados. Elas se tornam “avarentas, jactanciosas, arrogantes, blasfemadoras, desobedientes, … ingratas, … implacáveis, caluniadoras… cruéis” (vs. 2 e 3).

A segunda característica de nossos tempos pode ser chamada de religião vazia. Nossos contemporâneos são descritos como “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (v. 5). Pode parecer estranho que uma pessoa egoísta possa ser também religiosa. Mas acontece. Na verdade, é possível que a religião, cujo propósito é expressar adoração a Deus, seja pervertida e transformada em um meio de alimentação do ego. O nome certo para essa distorção doentia   é hipocrisia, atitude que Jesus atacou veementemente. Tal religião se evidencia em “forma” sem “poder”, demonstração exterior sem realidade interior. É igualmente inimiga do evangelho, pois um cristão nominal torna as pessoas resistentes ao verdadeiro cristianismo. Terceiro, os últimos dias se caracterizam pelo   culto a uma mente aberta. Paulo descreve aqui pessoas que “apren­dem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade” (v. 7). Elas ficam sentadas em cima do muro e recusam-se a descer, seja para um lado, seja para o outro. Seu lema é a tolerância. Determinadas a evitar o sofrimento de chegar a conclusões definitivas, elas fazem da “mente aberta” o seu   amuleto. Não suportam aquilo   que C. S. Lewis chama de “o tirano apogeu da revelação”, dando muito maior preferência ao crepúsculo do livre pensamen­to. Elas subestimam a distinção que Allan Bloom estabe­leceu recentemente entre dois tipos de “abertura”:  “a abertura da indiferença… e a abertura que nos convida a ir em busca de conhecimento e convicção”. Este último é um dos aspectos da virtude cristã da humildade: o re­conhecimento de que a nossa compreensão é temporária e incompleta e de que precisamos estar sempre tentando aumentá-la. O primeiro tipo de abertura, por sua vez, além de ser um insulto à verdade, é também pessoalmente arriscado. Como disse um bispo americano, ele nos expõe ao perigo de termos a mente tão aberta que o nosso cérebro acaba caindo!

Eis aqui, pois, três características do nosso tempo que as Escrituras criticam firmemente e nos aconselham evitar.

Nós devemos amar a Deus e ao nosso próximo e não desviar o nosso amor para nós mesmos, para o dinheiro ou para o prazer. Devemos valorizar a realidade e o poder da religião acima de suas expressões exteriores. E devemos submeter-nos humildemente à revelação de Deus e não cultivar um agnosticismo aguado e barato, sem exigências.

Assim, Paulo exorta Timóteo a ser diferente do mundo que o cerca. Depois de descrever essas inclinações peca­minosas, Paulo escreve duas vezes su de, ou “Tu, porém” (vs. 10 e 14). Com estas palavras o apóstolo introduz duas admoestações a Timóteo: que ele resista ao espírito do mundo e que fique firme contra este. A primeira exortação enfoca o que Timóteo já conhece acerca de Paulo (vs. 10 a 13): seu “ensino, procedimento, propósito”, como tam­bém sua “fé, longanimidade, amor, perseverança, …perse­guições, …sofrimentos”. Timóteo havia visto com seus próprios olhos o ministério de Paulo, inclusive a oposição e a perseguição que ele tivera de suportar em Antioquia, Icônio e Listra (v. 11). Pois o fato é que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perse­guidos” (v. 12), já que “os homens perversos e impostores” que rejeitam o evangelho “irão de mal a pior” (v. 13).

Assim o apóstolo coloca em contraposição os baixos padrões do mundo e o seu próprio ensino e conduta. Os dois estavam em inconciliável antagonismo um com o outro. Daí a perseguição que ele tivera de suportar. Quanto a Timóteo, se era para ficar firme, do lado de Paulo e contra o mundo, ele, sem dúvida alguma, iria sofrer também.

PERMANECENDO NA PALAVRA

A menção que Paulo faz aos “homens perversos e impos­tores”, “enganando e sendo enganados” e que iriam “de mal a pior” (v. 13) leva-o ao segundo “Tu, porém”. Agora, ao invés de simplesmente olhar para trás e remontar ao seu ensino, conduta e sofrimentos passados, dos quais Timóteo já tinha conhecimento, ele olha também para o futuro: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste” (v.14). Estes “mestres” de quem Timóteo havia aprendido são provavelmente, primeiro, sua mãe e sua avó, que na in­fância lhe haviam ensinado o Antigo Testamento (v. 15, cf. 1.5), e, depois, o apóstolo, cujo “ensino” (v. 10) Timóteo conhecia e que chegou até nós preservado no Novo Tes­tamento. Assim, Paulo coloca em contraste dois grupos de ensinadores: de um lado, os impostores e enganadores do versículo 13; e, do outro lado, a mãe de Timóteo e o seu mentor (o próprio apóstolo), que lhe haviam ensinado as Escrituras.

Nós mesmos, que vivemos no final do século XX, pre­cisamos atentar para a mesma exortação. Não podemos ser como varas sopradas pelo vento. Não vamos nos curvar diante das tendências predominantes na sociedade, com sua avareza e materialismo, seu relativismo, sua rejeição de todo e qualquer padrão absoluto de verdade e de bondade. Pelo contrário, devemos continuar fiéis à Escritura do Antigo e do Novo Testamento. Mas, por quê? O que é a Escritura, para ocupar um lugar tão importante em nossas vidas? O apóstolo segue adiante e passa a destacar três dos seus aspectos fundamentais.

Primeiro, as Escrituras são capazes de tornar-nos sábios para a salvação (versículo 15, NVI). Seu propósito primor­dial é prático. Mais do que um livro-texto, a Bíblia é um manual, um guia, mais um livro de salvação do que um livro de ciência. Não estamos dizendo com isso que os relatos bíblicos e os científicos do mundo são conflitantes, mas que eles se complementam. E tem mais: o propósito de Deus na Escritura não é revelar fatos que podem ser descobertos pelo método científico da observação e da ex­periência, mas, sim, revelar verdades que estão além do escopo da ciência, e particularmente o caminho da salvação de Deus através de Cristo.

É por isso que Jesus Cristo mesmo é o centro da revelação bíblica, já que ela dá testemunho dele. Como disse J.-J. von Allmen, “o centro da Escritura (que a resume e a torna viva) ou a mensagem central da Escritura (… que a explica e justifica) …é Jesus Cristo. Ler a Bíblia sem encontrá-lo é lê-la erradamente, e pregar a Bíblia sem proclamá-lo é pregá-la falsamente.” É porque a Escritura nos instrui para a salvação que ela nos instrui acerca de Cristo, através de quem nós recebemos a salvação pela fé. Além disso, a razão de amarmos a Bíblia é que ela nos fala de Cristo. Ela é a representação de Deus, o retrato de Cristo que Deus nos deu.

Segundo, a Escritura é inspirada por Deus. A expressão mais conhecida da ERAB consiste de três palavras — “inspirada por Deus” — que equivalem à expressão grega theopneustos. Isto indica que a Escritura é a Palavra de Deus, falada por Deus ou soprada pela própria boca de Deus. A combinação implícita de boca, sopro e palavra nos mostra que o modelo de inspiração que se tenciona aqui é o da fala humana. Afinal, falar é comunicar de uma mente para outra mente. Nós geralmente guardamos para nós mesmos o que está “em nossa mente”. Mas quando falamos, reves­timos os pensamentos de nossas mentes com as palavras da nossa boca.

Observe-se também que o texto diz “Toda Escritura é inspirada por Deus” (versículo 16, ERAB). A ERC, por sua vez, traduz esta sentença da seguinte forma: “Toda a Escritura divinamente inspirada por Deus é proveitosa…”. Esta é, com quase toda certeza, uma tradução incorreta, pois, se “toda Escritura inspirada… é proveitosa”, isso implica em que deve haver outras Escrituras que não são inspiradas e, portanto, não são proveitosas. Mas, em primei­ro lugar, o conceito de “Escritura não inspirada” é uma contradição de termos, pois a palavra “escritura” simples­mente significa “escrito inspirado”. Em segundo lugar, a ERC omite, sem suficiente fundamento, a palavrinha kai, que significa “e” ou “também”. Isto mostra que Paulo não está fazendo uma declaração (“Toda a Escritura divina­mente inspirada é proveitosa”), mas duas declarações (“Toda a Escritura é inspirada e proveitosa”). Com efeito, ela nos é útil e proveitosa justamente por ser inspirada por Deus.

No entanto, nós não devemos deturpar a verdade da inspiração. Quando Deus falou, ele não falou para o espaço. Nem escreveu documentos que deixou por aí para serem descobertos, como Joseph Smith (fundador da Igreja Mórmon) reivindica com relação a suas placas de ouro. Deus tampouco ditou a Escritura para secretários que não tiveram nisso qualquer participação, como os muçulmanos acreditam que Alá ditou o Alcorão a Maomé em árabe. De maneira alguma. Ao falar em processo de inspiração, nós estamos dizendo que os autores humanos, mesmo enquanto Deus falava para eles e através deles, estavam eles mesmos ativamente engajados na pesquisa histórica, reflexão teo­lógica e composição literária. Afinal, muito da Escritura é narrativa histórica e cada autor tem sua própria ênfase específica e seu próprio estilo literário. A inspiração divina não dispensou a cooperação humana nem deixou de fora as contribuições peculiares a cada autor.   Assim, “inspi­rado por Deus” não é a única avaliação que a Escritura faz de si mesma, uma vez que a boca de Deus não foi a única boca envolvida em sua elaboração. A mesma Escritura que diz “a boca do Senhor o disse” diz também que Deus falou “por boca dos seus santos profetas”. Mas, então, a Escritura saiu da boca de quem: de Deus ou dos profetas? A única resposta que encontramos na Bíblia é “de ambos”. Na verdade, Deus falou por intermédio de autores humanos de tal maneira que suas palavras eram simultaneamente palavras deles, e as palavras deles eram simultaneamente as dele. E isso que significa   a dupla autoria da Bíblia. A Escritura é igualmente Palavra de Deus e palavras dos seres humanos. Ou melhor, ela é a Palavra de Deus através das palavras dos seres humanos.

É essencial que se mantenham juntas as duas autorias. Alguns teólogos, tanto antigos como modernos, católicos e protestantes, têm se referido às duas naturezas de Cristo como se isto fosse uma analogia. O paralelo, se bem que não seja exato, é esclarecedor. Ao tratar da pessoa de Cristo (que tanto é Deus quanto humano), nós não devemos, nem afirmar a sua divindade, negando assim a sua humanidade, nem afirmar a sua humanidade, negando, portanto, a sua divindade, mas, sim, afirmar tanto uma quanto a outra, recusando-nos a deixar que qualquer uma delas contradiga a outra. De semelhante modo, na nossa doutrina da Es­critura nós não devemos, nem afirmar que ela é a Palavra de Deus, negando assim que ela seja palavras de seres humanos (o que seria fundamentalismo), nem afirmar que ela é palavras de seres humanos, de maneira a negar que ela seja a Palavra de Deus (o que seria liberalismo), mas, sim, afirmar os dois de igual maneira, recusando-nos a permitir que uma coisa contradiga a outra. Assim, por um lado, Deus falou, determinando o que ele queria dizer, mas sem abafar a personalidade dos autores humanos. Por outro lado, os seres humanos falaram, usando livremente suas faculdades, mas sem distorcer a verdade que Deus estava falando através deles. Não temos o direito de declarar que essa combinação é impossível. Dizer isso, escreveu Dr. J. I. Packer, seria indicar uma falsa doutrina de Deus —neste caso, particularmen­te de sua providência. … Pois isso pressupõe que Deus e homem encontram-se em um relacionamento tal, um com o outro, que é impossível que ambos sejam livres agentes na mesma ação. Se o homem age livremente (i.e., voluntária e espontaneamente), Deus não o faz, e vice-versa. As duas liberdades são mutuamente excludentes. Mas as afinidades desta ideia são com o Deísmo, e não com o teísmo cristão… O único jeito de acabar com esse raciocínio enganoso é compreendendo a ideia bíblica da operação convergente de Deus em, com e através do livre funcionamento da própria mente humana.

A maneira como nós entendemos a Escritura afeta a maneira como nós a lemos. A sua dupla autoria, espe­cialmente, requer de nós uma dupla abordagem. Já que a Escritura é a Palavra de Deus, nós deveríamos lê-la dife­rentemente de qualquer outro livro — sobre os nossos joelhos, com humildade, reverência e oração, pedindo ao Espírito Santo que nos ilumine. Mas, uma vez que a Escritura é também palavras dos seres humanos, nós deveríamos lê-la como lemos qualquer outro livro, usando a nossa mente, pensando, ponderando e refletindo, considerando atenta­mente suas características literárias, históricas, culturais e linguísticas. Esta combinação de humilde reverência com reflexão crítica é mais do que importante: ela é indispen­sável.

Terceiro, a Escritura é útil (vs. 16-17). Ela pode fazer muito mais do que instruir-nos para a salvação (v. 15):   é também “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (v. 16). Em outras palavras, ela é proveitosa, tanto para a doutrina (ensinar a verdade e corrigir o erro) como para a ética (repreender o pecado e orientar para uma vida correta), levando-nos assim adiante na fé cristã e no comportamento cristão, até que nos tornemos homens e mulheres de Deus, “perfeitmente habilitados para toda boa obra” (v. 17). Assim (como veremos mais demoradamente no próximo capítulo) a Bíblia tem um papel essencial a desempenhar em nosso cresci­mento até atingirmos a maturidade em Cristo. Em contraposição aos enganos dos “homens perversos e im­postores”, Timóteo deveria continuar na Palavra de Deus, tanto nas Escrituras do Antigo Testamento como nos ensinos do apóstolo.

Graças a Deus pela Bíblia! Deus não nos deixou tateando às cegas na escuridão, mas deu-nos uma luz para indicar o caminho. Ele não nos abandonou debatendo-nos em mares revoltos; a Escritura é uma rocha na qual encontrar chão e firmeza. Nossa resolução deveria ser estudá-la, crer nela e obedecê-la.

PREGANDO A PALAVRA

Nem Timóteo nem ninguém mais tem o direito de mono­polizar as Escrituras. Afinal, a Escritura não é propriedade privada de ninguém: ela é propriedade pública. Ela foi dada por Deus e pertence a todos. Sua Palavra foi anunciada a fim de ser passada adiante. Assim o apóstolo, consciente da presença de Deus e do futuro aparecimento de Cristo para nos julgar (4.1), dá a Timóteo este encargo: “Prega a palavra” (v. 2). Ele deve proclamá-la como um arauto ou como uma sentinela em praça pública. E deve fazê-lo com ousadia, urgência e relevância, corrigindo, repreen­dendo e encorajando de acordo com o estado e a necessi­dade das pessoas, e “com toda a longanimidade e doutrina” (v. 2).

Isto se faz ainda mais necessário, acrescentou Paulo, porque está chegando o tempo em que as pessoas “não suportarão a sã doutrina”. Mas estas, acometidas de um estranho estado patológico chamado “coceira nos ouvi­dos”, irão dar ouvidos a ensinadores que dizem o que elas querem ouvir, ao invés de anunciar-lhes a verdade que Deus quer lhes dizer (vs. 3-4). Mas a indisposição de alguns para dar ouvidos à Palavra de Deus não é razão para nós dei­xarmos de anunciá-la! Pelo contrário, Timóteo deve per­severar, ser sóbrio, suportar as aflições e cumprir fielmente o seu ministério, tanto como evangelista quanto como mestre (v. 5).

Uma das maiores necessidades da igreja contemporânea é que se exponha a Bíblia conscientemente no púlpito (veremos isso mais adiante, no capítulo 13). Existe, por toda parte, uma grande ignorância, até mesmo quanto aos rudimentos da fé. Muitos cristãos são instáveis e imaturos. E a principal razão para este triste estado de coisas é a escassez de pregadores bíblicos equilibrados, radicais e responsáveis. O púlpito não é lugar de discutir as nossas próprias opiniões, mas, sim, de expor a Palavra de Deus.

O clímax da exortação do apóstolo encontra-se nos versículos 6 a 8. Em uma carta anterior, escrita cerca de dois anos antes, ele se descrevera como “o velho”. Agora ele escreve que chegou a hora de sua partida. De fato, sua vida já começou a ser “oferecida por libação” (v. 6). Relembrando sua carreira apostólica, ele pode dizer que combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (v. 7). Ele nada tem a lamentar. Provavelmente está encarcerado nos subterrâneos da Prisão Mamertina em Roma, da qual não espera mais sair. Já com os olhos da imaginação ele vê o lampejo da espada do executor e, mais além desta, “a coroa da justiça” que, no último dia, Jesus, o reto Juiz, dará tanto a ele como “a todos quantos amam a sua vinda” (v. 8). Ele sente que o seu ministério está chegando ao fim, o que o move a exortar Timóteo a que fique firme na Palavra, permaneça nela e passe-a adiante.

Espero que não me julguem pessoal demais se eu disser que sinto e compreendo a intensidade das palavras de Paulo — se bem que, obviamente, eu não tenha a presunção de comparar-me a ele. Mas eu escrevo estas palavras ao mesmo tempo em que acabo de comemorar meus setenta anos de vida. Com esta idade, não espero viver muito mais tempo. Cada novo dia é um bônus que recebo com gratidão das mãos de Deus.

E assim eu fico me perguntando: onde estão os “timóteos” da próxima geração? Onde estão os jovens homens e mu­lheres evangélicos que estão determinados, pela graça de Deus, a ficar firmes na Palavra, recusando-se a deixar-se levar pelos ventos prevalecentes do espírito deste mundo; que estão decididos a permanecer na Escritura e a viver por ela, relacionando a Palavra com o mundo e obedecendo a ela; e que assumiram o compromisso de passá-la adiante, dedicando-se ao ministério de expor a Bíblia com toda consciência?

GESTÃO E CARREIRA

O RH saiu do sério

O RH SAIU DO SÉRIO

Perguntar em uma entrevista de empregos quantas vacas existem no Canadá ou quanto pesa uma girafa pode trazer informações valiosas sobre um candidato – desde que a empresa saiba o que fazer com a resposta.

“Você foi encolhido ao tamanho de uma moeda de 5 centavos e jogado dentro de um liquidificador. Sua massa foi reduzida de maneira que sua densidade é a mesma de sempre. As lâminas entrarão em movimento em 60 segundos. O que você faz?” Essa questão, aplicada durante uma entrevista de emprego no Google, nos Estados Unidos, virou um exemplo de como as empresas têm procurado reinventar na última década seus processos seletivos com o objetivo de avaliar mais do que competências técnicas dos candidatos.

São desafios em que a exatidão da resposta final quase nunca importa – o que vale é o caminho percorrido até lá. “Perguntas que fogem do comum são ferramentas que ajudam a avaliar aspectos como criatividade, raciocínio lógico e reação a uma situação inesperada”, afirma Patrícia Tourinho, gerente executiva de recursos humanos da consultoria de recrutamento Michael Page. Mas é preciso saber quando, como e por que usar a técnica para não transformá-la em mais um modismo corporativo de ares descolados e efeito nulo.

O PROPÓSITO

A pedido de VOCÊ RH, o Love Mondays, site brasileiro no qual os profissionais avaliam seus atuais e ex-empregadores, identificou as perguntas mais inusitadas realizadas em processos seletivos no país. Entre os destaques estão as que pedem um número impossível de ser calculado com precisão no momento da entrevista, como “Quantos lanches o McDonald’s vende por dia no Brasil?”

Em casos como esse, o RH pode avaliar de que forma o respondente estrutura a resolução do desafio. “É possível observar se o entrevistado é capaz de dividir um grande problema em partes menores e usar o bom senso para chegar a saídas coerentes”, diz Luciana Caletti, cofundadora e CEO do Love Monday, que já adotou em alguns processos a questão “Quantos posts são publicados por dia no Facebook?” Segundo Luciana, um caminho adequado para decifrar o enigma seria partir do número da população mundial e estimar a porcentagem de pessoas com acesso `a internet e a parcela desse grupo que participa da rede social. “Depois, dá para se basear em quantos posts o próprio profissional, os amigos e os parentes costumam fazer por dia e calcular uma média individual, que deverá ser multiplicada pelo número estimado de usuários do Facebook”, afirma.

É de esperar que candidatos escolados nos métodos de seleção, daqueles que chegam prontos para discorrer sobre seus maiores defeitos, logo incorporem ao repertório essas estruturas coesas de raciocínio. “Tem gente que se prepara durante meses para esse tipo de entrevista”, afirma Luciana. Mas nem sempre uma questão que beira o bizarro pretende fazer aflorar a capacidade lógica de quem está do outro lado da mesa. “Já aconteceu de perguntarmos ‘quanto pesa uma girafa’ e o candidato responder simplesmente que não fazia ideia, demonstrando inconscientemente, que prefere permanecer na zona de conforto”, afirma Viviane Cândido, especialista em RH do Vagas, site de oportunidades de emprego.

Raciocínio, disposição para assumir riscos, capacidade de inovar. Uma questão singular deve carregar nas entrelinhas um propósito claro que investigue no outro as competências que a companhia busca. “Para determinadas posições, como finanças e engenharia, o pensamento lógico complexo é mais requisitado. Para outras, esses desafios podem não fazer sentido”, afirma Guilherme Malfi, gerente especialista em gestão de pessoas Talenses, consultoria de recrutamento para executivos. Nesses casos, seria mais adequado apostar nas case interviews, que propõe uma situação estranha, mas vinculada à realidade da empresa. Por exemplo, perguntar “nossa empresa teria lucro investindo em uma operação no Chile?” caso a vaga seja para um cargo de gestão de mercado. A gigante industrial GE prefere usar essa forma mais aderente ao dia a dia. “As perguntas diferentes são aplicadas na resolução de casos ou em grupos de avaliação, quando o candidato deve mostrar de que forma chegou à solução de um problema e compartilhar seu mapa mental lógico. Assim, conseguiremos observar como ele elegeu prioridades, como elencou as soluções e quais opções descartou”, afirma Nicolle Wallentin, diretora de aquisição de talentos da GE para a América Latina. “A profundidade que esperamos na resposta depende do nível de experiência do entrevistado”.

A CONTRAPARTIDA

Na TMF Group Brasil, multinacional fornecedora de serviços de back office, desafios irreverentes são aplicados em algumas entrevistas e para cargos estratégicos. “São posições que exigem mais habilidades multidisciplinares do que as vagas para funções de analista ou especialista”, diz Sonia Reitermann, diretora de RH. Uma das questões já propostas pela empresa é: “Quantos cabeleireiros existem em São Paulo?”. Além de observar se o candidato é capaz de fazer estimativas com base na população da cidade e no percentual de homens e mulheres na região, a companhia coloca à prova não só a habilidade de comunicação como também a desenvoltura e o jogo de cintura do participante.

O recrutamento que permite ao entrevistado se mostrar mais – e ao RH escapar do gesso – pode fornecer alguns recursos para a triagem de mentes brilhantes.  “Mas, se a seleção valoriza pessoas altamente criativas e autônomas e a empresa não oferece um ambiente em que elas possam sair do trivial e ter liberdade para atuar, em pouco tempo os funcionários ficarão frustrados”, diz Viviane Cândido, do Vagas. E aí o processo inovador vai se mostrar mais um daqueles velhos geradores de perda de tempo e dinheiro. Porque profissionais acima da média têm expectativas acima da média.

É preciso saber o que fazer com um talento que, além de extremamente preparado, reflete de forma fenomenal sobre quantas vacas existem no Canadá

NA MEDIDA

Para funcionar, a inclusão de desafios de lógica e criatividade no recrutamento deve seguir alguns preceitos:

1 –  Planeje esses desafios para etapas mais avançadas do processo, quando as habilidades técnicas e as competências básicas do candidato já foram identificadas.

2 –  Deixe o entrevistado à vontade. Estar na condição de avaliado já o coloca sob pressão.

3 –  Tenha clareza sobre o que a empresa pretende avaliar durante a resposta e veja se as qualidades testadas realmente serão aplicadas posteriormente no desempenho da função.

FONTES: Patrícia Tourinho, da Michael Page, Luciana Caletti, da Love Mondays, Viviane Cândido, do Vagas.Com., Guilherme Malfi, da Talenses, e Sonia Reitermann, da TMF Group

PSICOLOGIA ANALÍTICA

altruistas

BOQUIABERTOS E ALTRUÍSTAS

 Cultivar a sensibilidade a cenas cotidianas, como beleza de uma paisagem ou gestos de bondade alheia, aumenta nosso grau de satisfação geral

 Palavras como “maravilhoso” ou “incrível” se tornaram adjetivos comuns, muitas vezes destituídas da magnitude que impressões realmente superlativas nos despertam. O fascínio genuíno representa uma profunda emoção: um suspiro ao olhar um céu surpreendentemente estrelado, os arrepios ao ouvir uma melodia tocante ou a sensação de “coração rasgado” ao ver uma multidão segurando velas no alto, em meio à escuridão. Essas experiências podem nos fazer pessoas melhores? Um artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology sugere que sim.

“Há muito tempo os filósofos dizem que o misto de respeito e admiração une as pessoas e queríamos entender melhor esse sentimento”, diz o psicólogo Paul Piff, professor assistente de psicologia e comportamento social da Universidade da Califórnia em Irvine, principal autor do estudo. Ele começou a investigar o tema no laboratório do psicólogo Dacher Keltner, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo Piff, a pesquisa mostra que essa sensação pode ajudar a nos tornarmos menos egocêntricos e mais sintonizados com as necessidades do grupo.

No primeiro de cinco estudos, os pesquisadores constataram, com a ajuda de uma pesquisa nacional representativa, que as pessoas que relataram experimentar esse sentimento com maior frequência eram de fato mais generosas. No experimento, os cientistas observaram que, depois de terem recebido algumas rifas e terem a oportunidade de ceder outras, esses indivíduos tinham a tendência de doar maior quantidade.

Os pesquisadores realizaram outros quatro experimentos em que induziram essa sensação em alguns participantes e outras emoções como orgulho ou diversões em outros. Para isso, lançaram mão de cenas em vídeo da natureza de tirar o fôlego ou convidaram os voluntários a observar imponentes árvores de eucalipto ao ar livre.

Em todos os casos, aqueles que se sentiram maravilhados se compor taram de uma forma que os psicólogos chamam de “pró-social”: foram mais úteis e tom aram decisões mais éticas. Os participantes que observavam as árvores, por exemplo, pegaram mais vezes canetas derrubadas “acidentalmente” por um pesquisador disfarçado do que aqueles que olhavam para um edifício.

Segundo os autores, ao nos sentirmos uma pequena parte de algo maior, a admiração desloca nossa atenção de nossas próprias necessidades para as de um bem maior.

Alguns pesquisadores especulam que a reverência pode ter evoluído em resposta a um líder poderoso. A manutenção de hierarquias sociais e a garantia de participação grupal podem aumentar as chances de sobrevivência.

Não é surpresa que alguns estudos sugerem que o fascínio pode favorecer a devoção. “Podemos pensar que a religião é uma instituição cultural que ritualiza o encantamento por meio da arquitetura e da música”, diz Piff. O psicólogo costuma fazer uma sugestão interessante: que as pessoas mantenham um “diário de contemplação” por duas semanas e diariamente registrem tudo o que evoca essa sensação – um pôr do sol, as penas de um pássaro, o gesto de bondade de outra pessoa, por exemplo. Ele afirma que mudar o foco em direção a algo grande pode nos levar a colocar os problemas em perspectiva, além de ajudar a nos abrirmos para o mundo.

ADMIRAÇÃO FAZ BEM À SAÚDE

A sensação pode estar relacionada com níveis mais baixos de molécula ligada a processos inflamatórios

Emoções negativas têm sido associadas com altos níveis de estresse, de doenças cardíacas e até uma vida mais curta. As pesquisas sugerem que infecções podem ser responsáveis por essa relação, pelo menos em parte. As moléculas envolvidas nesse processo são essenciais para a resposta do corpo a inflamações e lesões, mas níveis elevados em longo prazo têm sido associa dos com diversos problemas, desde diabetes à depressão.

Poucos estudos avaliaram o efeito de emoções positivas sobre a saúde. Com isso em mente, uma equipe liderada pela psicóloga Jennifer Stellar, da Universidade de Toronto, que também começo u a estudar a sensação de fascínio no laboratório de Keltner, da Universidade da Califórnia em Berkeley, realizo u duas pesquisas para investigar a ligação. Na primeira, 94 estudantes responderam a um questionário para determinar quantas vezes haviam vivenciado determinados sentimentos durante o mês anterior.

Depois, os cientistas colheram uma amostra de saliva para avaliar os níveis de uma molécula que estimula a inflamação chamada interleucina-6 (IL-6). Eles observaram que os sentimentos mais agradáveis foram associados com níveis mais baixos de I L-6.

No segundo experimento, 105 alunos preencheram formulários online desenvolvidos para avaliar a tendência a experimentar várias sensações positivas específicas. Mais tarde, eles visitaram o laboratório para fornecer amostras de saliva. A alegria, o contentamento, o orgulho e a admiração foram associados com menor quantidade da molécula, mas esse último sentimento foi o único capaz de predizer significativamente os níveis de IL-6 por meio de um teste estatístico rigoroso.

Os resultados não provam que sentir fascínio por algo realmente provoque mudanças na quantidade da molécula. De fato, os autores advertem que provavelmente é uma relação de mão dupla: ter uma vida mais saudável e menos estressante pode permitir experimentar esse sentimento mais frequentemente. Eles mostram que a admiração está associada com a curiosidade e o desejo de explorar, que contrastam com a retirada social que a muitas vezes acompanha doenças ou lesões. “Sabemos que as emoções agradáveis são importantes para o bem-estar, mas nossos resultados sugerem que também interferem na saúde do corpo”, diz Stellar.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PRIMEIRO FRUTO DO ESPÍRITO

Neste capítulo eu o convido a refletir sobre um texto bíblico que se tornou muito significativo para mim. Todos os dias, já faz talvez uns vinte anos, eu o cito para mim mesmo em minhas devoções matinais e oro para que ele se cumpra em minha vida. Quando me perguntam qual é o meu texto predileto, eu geralmente cito este. Parece-me que ele contém verdades que são de extrema importância para todo o povo de Deus. Aqui está ele:

Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.

Destes dois versículos podemos extrair cinco afirmações acerca do amor.

 

Amor, alegria e paz

A primeira verdade é que o amor é a suprema graça cristã: “o fruto do Espírito é amor”. Na verdade Paulo menciona um conjunto de nove qualidades que, juntas, ele chama de “fruto” do Espírito; o amor, porém, tem o lugar de honra. Hoje em dia nós ouvimos falar muito acerca do Espírito Santo (ele já não é mais a pessoa “negligenciada” da trindade) e muita gente diz ter experimentado manifestações espetaculares do seu poder. No entanto, o primeiro fruto da sua presença em nós não é o poder, mas o amor.

E salutar perguntarmos a nós mesmos: qual é a principal marca distintiva de um cristão? Qual é o símbolo que comprova a autenticidade dos filhos de Deus? A resposta varia de pessoa para pessoa.

Uns dizem que o que distingue o cristão verdadeiro é a verdade, a ortodoxia, a convicção certa, a fidelidade às doutrinas da Escritura, aos Credos, e às Confissões da Reforma. E está certo. A verdade é sagrada. A sã doutrina é vital para a saúde da igreja. Nós somos exortados a “combater o bom combate da fé”, a “guardar o depósito” da religião revelada, a “permanecer firmes e guardar as tradições que nos foram ensinadas”, e a “batalhar diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Nunca devemos esquecer estas solenes advertências. Entretanto, “Ainda que… conheça todos os mistérios e toda a ciência… se não tiver amor, nada serei”. Além disso, “o saber ensoberbece, mas o amor edifica”. Portanto, o amor é maior do que o conhecimento.

Outros insistem em dizer que o que distingue um discípulo de verdade é a/e. “Concluímos, pois, que o homem é justifica­do pela fé, independentemente das obras da lei.” Como disse Lutero, a justificação pela fé é “o principal artigo de toda a doutrina cristã” que “produz cristãos de verdade”. E Cranmer acrescentou a contrapartida negativa: “Esta (se. doutrina), quem quer que a negue não pode ser considerado um verdadeiro cristão”. Ou, citando uma declaração evangélica moderna, a justificação pela fé é “o coração e o cerne, o paradigma e a essência de toda a economia da graça salvadora de Deus”. Eu concordo. Sola fide, “somente pela fé”, que foi a bandeira da Reforma, deve ser também a nossa bandeira. Apesar disso, “ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei”. O grande apóstolo da fé deixa claro que o amor é maior do que a fé.

Um terceiro grupo enfatiza que a marca distintiva do cristão é a experiência religiosa — geralmente uma espécie de experiência viva e específica que eles acreditam deva se reproduzir em todo mundo. E este grupo também tem razão — até certo ponto. E essencial ter um relacionamento íntimo e pessoal com Deus através de Jesus Cristo. O testemunho do Espírito em nós é real. Na verdade existe essa “alegria indizível e cheia de glória”, e, comparadas à “sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor”, todas as outras coisas são de fato uma perda. No entanto, “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos” e “ainda que eu tenha o dom de profetizar” (reivindicando, assim, uma comunicação direta com Deus), “se não tiver amor, nada serei”. Assim, o amor é maior do que a experiência.

Um quarto e último grupo — por sinal, gente de natureza muito prática — enfatiza o serviço, especialmente o serviço aos pobres, como sendo a marca distintiva do povo de Deus. Mais uma vez, está certíssimo! Sem boas obras, a fé é morta. Se o próprio Jesus colocou-se ao lado dos pobres, seus discípulos também devem fazê-lo. Se vemos pessoas em necessidade e temos condições de ajudá-las, mas não nos apiedamos delas, como é que podemos dizer que o amor de Deus está em nós? Graças a Deus pela ênfase cada vez maior na sua “opção preferencial” ou interesse prioritário pelos pobres. Contudo, “ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado” (quem sabe em um gesto heroico de sacrifício), “se não tiver amor, nada disso me aproveitará”. Assim, o amor é maior do que o serviço.

Resumindo, o conhecimento é vital, a fé é indispensável, a experiência religiosa é necessária e o serviço é essencial; Paulo, contudo, dá precedência ao amor. O amor é a coisa mais importante do mundo, pois “Deus é amor” no mais íntimo do seu ser. Pai, Filho e Espirito estão eternamente unidos um ao outro em amor que se doa pelo outro. Portanto, aquele que é amor e que derramou o seu amor sobre nós convida-nos a devolver esse amor, amando a ele e também uns aos outros. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” O amor é a marca principal, o selo de excelência, o símbolo supremo que distingue o povo de Deus. Nada pode desarraigá-lo nem substituí-lo. O amor está acima de tudo.

Em segundo lugar, o amor traz alegria e paz, pois “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz”. A sequência, aqui, é deveras significativa.

Os seres humanos sempre viveram em busca de alegria e paz, se bem que geralmente se empregue a palavra “feli­cidade”, mais secular. Thomas Jefferson, antes de tornar-se o terceiro Presidente dos Estados Unidos, tinha tanta convicção de que “a busca da felicidade” era um direito humano inalienável, que ele a incluiu na Declaração da Independência, chamando-a de “uma verdade auto evidente”.

Os cristãos, porém, sentem-se na obrigação de acrescentar que quem procura a felicidade nunca a encontrará. A alegria e a paz são bênçãos extremamente ilusórias. A felicidade é um fogo-fátuo, um fantasma. Mesmo quando nós estendemos a mão para agarrá-la, ela se desvanece no ar. Acontece que a alegria e a paz não são alvos que se possam perseguir; elas são subprodutos do amor. Elas nos são concedidas por Deus, não quando nós as buscamos, mas quando buscamos a ele e aos outros em amor.

Urge que testifiquemos dessa verdade ao mundo contemporâneo, em que a “auto realização” é o desejo supremo e o “movimento do potencial humano” continua a conquistar espaço. Em seu perspicaz livro A Psicologia como Religião, cujo subtítulo é O Culto à Auto adoração, Dr. Paul Vitz, da Universidade de Nova York, começa analisando os quatro principais “teóricos do ego” da sua década: Erich Fromm (que argumentava que o vício é indiferente ao ego das pessoas e que a virtude consiste na autoafirmação), Carl Rogers (cuja terapia concentrada no cliente objetivava ajudá-lo a tornar-se uma pessoa autónoma e integrada através da “autoestima” incondicional), Abraham Maslow (que enfatizava a “auto realização” criativa) e Rollo May (que, influenciado pelo existen­cialismo, enfatizava a decisão e o comprometimento como o caminho para ser alguém). Estes quatro escritores, que atingiram o seu ápice nos anos setenta, eram todos humanistas seculares confessos. Eles acreditavam nos seres humanos, não em Deus. Foram muito divulgados e sua ênfase básica na autoestima e na auto realização parece ter-se infiltrado em quase todos os segmentos da sociedade. Dr. David Wells comenta que “em meados da década de oitenta, um total de 87,5% de tudo o que se publicou nos Estados Unidos estava a serviço dos interesses e apetites do movimento do eu”.

Existe, na verdade, uma autoafirmação que é certa e saudável e que se constitui em equilíbrio para a abnegação para a qual Jesus conclamou seus discípulos. No entanto, ela não é a afirmação desqualificada e acrítica do eu, pois é fortemente caracterizada pelo reconhecimento de nossa própria pecaminosidade. Os cristãos só podem afirmar aqueles aspectos do eu que derivam do fato de termos sido criados à imagem de Deus (por exemplo, nossa racionalidade, responsabilidade moral e capacidade para amar); ao mesmo tempo, eles negam (ou seja, rejeitam e repudiam) todo e qualquer aspecto do eu que derive da queda e da nossa própria condição de seres caídos (por exemplo, nosso egoísmo, avareza, malícia, hipocrisia e orgulho). Estas formas cristãs de autoafirmação e abnegação estão muito longe de ser expressões de uma preocupação com nós mesmos, e muito menos um endeusamento próprio. Pelo contrário, o seu alvo não é o eu, mas sim, Deus. Elas fazem parte da nossa adoração a Deus como nosso Criador e Juiz.

Certos autores cristãos, porém, tentam argumentar que o próprio cristianismo consiste de autoestima; que nós necessitamos deixar de preocupar-nos com pecado, culpa, juízo e expiação; que, ao invés disso, deveríamos apresentar a salvação como a descoberta do eu; e que é isso que Jesus queria dizer quando endossou o segundo mandamento, indicando com isso que deveríamos amar a nós mesmos assim como amamos o nosso próximo. Mas na realidade não é bem assim. Amor próprio, na Escritura, é sinônimo de pecado e não o caminho para a liberdade. Além disso, amor-agape significa o sacrifício de alguém em favor de outros. Por sua própria natureza, ele não pode ser voltado para si mesmo. Como podemos sacrificar a nós mesmos a fim de servir a nós mesmos? E impossível. A própria ideia não tem o mínimo sentido. O caminho de Jesus é o oposto, como já vimos no capítulo 2, sobre “A Verdadeira Liberdade”. Ele nos ensinou o grande paradoxo de que só quando perdemos a nós mesmos é que nos encontramos, só quando morremos para nós mesmos é que aprendemos a viver e só servindo aos outros é que ficamos livres. Ou, voltando a Paulo em Gálatas, somente quando amamos é que vêm a alegria e a paz. A busca autoconsciente da felicidade acaba sempre em fracasso. Mas quando nos esquecemos de nós mesmos em serviço de amor abnegado, então a alegria e a paz inundam a nossa vida em forma de bênçãos abundantes e   inesperadas.

 

Amor em ação

Em terceiro lugar, o amor se manifesta em ação. Se o amor é o primeiro fruto do Espírito, seguindo-se a alegria e a paz, a seguir vêm “paciência, benignidade, bondade”. Amor não é só romance, e muito menos sensualidade. Tampouco é puro sentimento ou emoção. Pode parecer abstrato, mas o amor gera atitudes positivas e ações concretas, a saber, “paciência”, “benignidade” e “bondade”. Creio que foi Dostoievsky quem escreveu que “amor em ação é muito mais terrível do que amor em sonhos”. Afinal, o amor está sempre buscando o verdadeiro bem-estar dos outros, qualquer que seja o custo pessoal.

“Paciência”(makrothymia) é uma qualidade negativa. Geralmente se traduz como “longanimidade”, pois isso denota paciência com as pessoas, mais do que com as circunstâncias. Implica em suportar com paciência quem é exigente conosco ou quem nos provoca. E não esquecer a “paciência infinita” de Cristo para conosco.

“Benignidade” (chrestotes) e “bondade” (agathosyne) são ambas qualidades positivas. A primeira é benevolência, generosidade de pensamento, desejar o bem para outras pessoas, enquanto que a segunda é beneficência, generosidade expressa em atos, fazer de fato o bem que desejamos para essas pessoas.

Estas três graças cristãs constituem-se, portanto, em uma sequência progressiva. A paciência suporta a malícia dos outros e recusa-se a retaliar. A benignidade transforma tolerância em benevolência, não desejando o mal aos outros, mas, sim, desejando-lhes o bem. E a bondade transforma o desejo em fato, tomando a iniciativa de servir as pessoas em ação.

Todas as três qualidades são características e ma­nifestações do amor. Pois, como escreve o apóstolo em outro lugar, “o amor é paciente (makrothymei), o amor é benigno (chresteuetai)”, e nós devemos “servir uns aos outros em amor”. De pouco vale fazermos nobres protestos de amor pela raça humana; precisamos é nos envolver com pessoas reais, em situações reais. E aí que se testará de fato a “paciência, benignidade e bondade” do amor.

Em quarto lugar, o amor é equilibrado pelo domínio próprio, pois “o fruto do Espírito é… fidelidade, mansidão, domínio próprio”. Estas três qualidades parecem ser diferentes nuances da arte de controlar a nós mesmos. “Fidelidade” é confiabilidade ou integridade em áreas tais como guardar nossas promessas e cumprir o que nos foi confiado. “Mansidão” vem de “prautes”, que geralmente se traduz como mansidão ou humildade. Mas não é um tipo de mansidão complacente, sem força moral, sem princípios. Na verdade, significa ser gentil, humilde e atencioso em relação a outras pessoas; mas para tanto nós precisamos aprender a domesticar as nossas forças e fortalecer as nossas energias. A terceira palavra, “domínio próprio”, é egkrateia, “que expressa o poder ou senhorio que a pessoa tem, seja sobre si mesma, seja sobre alguma coisa”. Inclui disciplinar os nossos instintos, controlar o nosso temperamento e nossa língua e refrear as nossas paixões. Mas por que eu escrevi acima que o amor é “equilibrado” pelo domínio próprio? Porque o amor é abnegado, e abnegação e domínio próprio complementam-se mutuamente. Afinal, como podemos doar-nos em altruísmo e abnegação se não aprendemos a nos controlar? O nosso eu, antes de ser oferecido em serviço de outros, precisa ser dominado. Portanto, é profundamente significativo que o fruto do Espírito, em suas nove manifestações, comece com amor (abnegação) e termine com domínio próprio.

 

O amor é o fruto do Espírito

A quinta verdade que surge deste grande texto é que o amor sobre o qual vimos pensando (supremo, fonte de alegria e paz, manifesto em ação e controlado pelo domínio próprio) é o fruto do Espírito, isto é, a consequência natural da obra sobrenatural do Espírito Santo em nós.

Nesse contexto Paulo está fazendo um contraste entre “a carne” e “o Espírito”, entre “as obras da carne” e “o fruto do Espírito”. Agora nós precisamos fazer uma pausa para estabelecer algumas definições. Ao falar em “carne”, ele não está se referindo ao tecido de pele e músculos que cobre o nosso esqueleto ósseo, nem ao corpo humano (um equívoco que as pessoas fazem quando falam de glutonaria e imoralidade sexual como “pecados da carne”), mas, sim, à nossa natureza herdada, caída e corrupta, com sua propensão para o mal, seus desejos corruptos e suas exigências egoístas.

Ao falar em “Espírito”, Paulo não está se referindo ao fôlego que anima o nosso corpo, nem ao lado espiritual dos seres humanos em contraste com o material, mas ao próprio Espírito Santo, que se integra a nossa personalidade quando nos arrependemos e confiamos em Jesus, e cuja presença em nós é a marca da identidade cristã e o segredo da santidade cristã.

Eis aqui, pois, os dois protagonistas da luta descrita por Paulo. De um lado está “a carne”, nossa natureza caída c egocêntrica, e do outro lado está “o Espírito”, o Espírito de Deus que habita pessoalmente em nós. Paulo nos diz três verdades acerca do conflito entre estas duas forças.

Primeiro, os desejos da carne e do Espírito são desejos ativos. “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si.” Ou (BLH): “Porque o que a nossa natureza humana deseja é contra o que o Espírito quer, e o que o Espírito quer é contra o que a natureza humana deseja. Os dois são inimigos”. Portanto, tanto a carne como o Espírito têm desejos, os quais são vivos, ativos, fortes e vigorosos. A razão para se ressaltar isso é que, através da história da igreja, grupos perfeccionistas têm ensinado que depois do novo nascimento a nossa natureza caída fica inerte e inativa, ou até mesmo morta. Mas não é isso o que diz a Escritura. O mandamento para que não satisfaçamos os desejos da carne e a declaração de que “o que o Espírito quer é contra o que a natureza humana deseja” não teriam qualquer sentido, nenhum dos dois, se a nossa natureza caída já não tivesse mais desejos. Não, a vida cristã é cheia de incessantes conflitos com o mundo, com a carne e com o diabo.

Em segundo lugar, os desejos da carne e os do Espírito são desejos opostos entre si. Existe entre eles um violento antagonismo. “A carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro.” Como diz J. B. Lightfoot em seu comentário aos Gálatas, “entre o Espírito e a carne não há afinidade alguma; existe um conflito mortal e interminável”. Além disso, os desejos opostos da carne e do espírito manifestam-se no contraste entre “as obras da carne” e o “fruto do Espírito”. Os primeiros são desagradáveis e Paulo menciona quinze deles. Eles parecem encaixar-se em quatro categorias: pecados sexuais (imoralidade e licen­ciosidade), pecados religiosos (idolatria e feitiçaria, sendo esta última o intento secreto de roubar o poder divino ou demoníaco através da mágica), pecados sociais (oito deles, inclusive a malícia, os ciúmes, a ira, as discórdias e a ambição egoísta) e pecados pessoais (bebedices e orgias). E uma lista repugnante de atividades através das quais as pessoas se declaram contra Deus e contra os outros.

As nove manifestações do fruto do Espírito, que nós já consideramos, apresentam um belo contraste. De fato, seria difícil imaginar um contraste maior. Aqui se encontra piedade ao invés de impiedade, alegria e paz autênticas em lugar de busca de prazer pecaminoso, benignidade e bondade ao invés de malícia e inveja, e domínio próprio em vez de autoindulgência.

Terceiro, Paulo enfatiza que os desejos da carne e os do Espírito são desejos controláveis. É possível, escreve ele, o Espírito ganhar ascendência sobre a carne e subjugá-la, o amor triunfar sobre o egoísmo e a bondade vencer o mal. Como? O segredo está em assumirmos a atitude correta, tanto para com a carne como para com o Espírito.

Nossa atitude para com a nossa natureza caída deveria ser de implacável repúdio, pois “os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” Isto é, nós pegamos essa coisa má, repugnante e enganosa chamada “carne” e a pregamos na cruz. Este foi o nosso arrependimento inicial. A crucificação é um símbolo dramático para a nossa incondicional rejeição de todo mal conhecido. A crucificação não produz uma morte rápida ou fácil; ela é uma execução que se caracteriza por um sofrimento extremamente demorado. Contudo, é decisiva; não há como escapar dela.

Nossa atitude em relação ao Espírito, por sua vez, deve ser de entrega incondicional. Paulo usa diversas expressões para isso: nós devemos “viver no Espírito”, ser “guiados pelo Espírito” e “andar no Espírito”. Ou seja, temos de permitir que ele exerça sobre nós sua legítima soberania, e então seguir suas justas orientações.

Assim, ambos os processos — repudiar a carne e render-se ao Espírito — precisam repetir-se diariamente, por mais decisivo que tenha sido originalmente o nosso repúdio e mais completa a nossa rendição. Em palavras de Jesus, temos que “tomar a nossa cruz dia a dia” e segui-lo. Precisamos também ser “cheios [enchidos] do Espírito”, à medida que lhe confiamos diariamente a nossa V personalidade. Tanto o nosso repúdio como a nossa entrega são igualmente manifestos em hábitos de vida disciplinados. Quem “semeia para o Espírito” é que colhe o fruto do Espírito. E “semear para o Espírito” significa cultivar as coisas do Espírito- por exemplo, empregando com sabedoria o Dia do Senhor, sendo disciplinados na nossa vida de oração e leitura diária da Bíblia, participando regularmente dos cultos e da Ceia do Senhor, desenvolvendo amizades cristãs e envolvendo-nos no serviço cristão. Há, na maneira de Deus lidar conosco, tanto no campo material como no campo moral, um princípio que é inflexível: nós colhemos aquilo que semeamos. A lei é imutável. E nunca será diferente, pois “de Deus não se zomba”. Portanto, não fiquemos surpresos se não colhermos o fruto do Espírito, quando o tempo todo estamos semeando para a carne. Ou porventura pensamos que poderíamos trapacear ou enganar a Deus?

Mudando a metáfora, lembro-me de ter lido, anos atrás, sobre alguém que, visitando as montanhas ao sul da Califórnia, encontrou um velho camponês cujos dois cães viviam sempre brigando. O visitante perguntou-lhe qual dos cães geralmente ganhava. O camponês mascou seu tabaco em silêncio durante alguns instantes e então respondeu: “Aquele que eu dou mais comida.” Assim é conosco: a nossa nova natureza só ganhará a vitória sobre a velha natureza se nós alimentarmos a nova e deixarmos a outra morrer de fome.

Só existe uma pessoa, em toda a história do mundo, em quem o fruto do Espírito conseguiu amadurecer até atingir a perfeição. Essa pessoa é Jesus de Nazaré. De fato, o fruto do Espírito descrito por Paulo pode ser considerado um retrato de Jesus Cristo, pois ele amou como ninguém jamais amou, a ponto de entregar a sua vida pelos seus inimigos. Ele falou sobre a “minha alegria” e também sobre a “minha paz”. Foi extremamente paciente com seus obtusos apóstolos. Foi sempre bondoso e cheio de boas obras. Além disso, foi imutavelmente confiável e sempre gentil – de fato, ele era “manso e humilde de coração”. E tinha tanto domínio próprio que “quando ultrajado, não revidava com ultraje”.

Certa vez o Dr. Kenneth Moynagh, que trabalhou muitos anos como médico missionário em Matana, Burundi, resumiu da seguinte forma o fruto do Espírito, com sua ênfase no amor:

Alegria é amor exultante e a paz é amor que descansa; Paciência é amor que suporta todo teste e qualquer provação. Benignidade, amor que se rende, mas que sabe reagir ao pecado E bondade é amor em ação, evidência de que há Cristo em mim. Fé são olhos de amor que se abrem para o Cristo vivente enxergar; Mansidão é amor que não luta, mas se humilha diante da cruz. Temperança é amor que resiste, mas se rende ao controle de Cristo, Porque Cristo é amor em pessoa e amor é ter Cristo em meu ser.

Além disso, se o fruto do Espírito é ser semelhante a Cristo, ser semelhante a Cristo é o propósito de Deus para todo o seu povo. E seu propósito eterno, pois aqueles que Deus “de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”. Depois, é seu propósito histórico, pois nós “somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem”. E, terceiro, é seu propósito escatológico. Pois, mesmo que “ainda não se manifestou o que havemos de ser”, nós “sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é.”

A única maneira de compreender os desapontamentos e frustrações da vida, a solidão, o sofrimento e a dor, é vê-los como parte da disciplina do nosso amoroso Pai em seu propósito de fazer-nos como Cristo.

Às vezes me perguntam — por exemplo, em uma entrevista de jornal, rádio ou televisão — se, em minha idade, ainda me resta alguma ambição. Agora eu sempre respondo: “Sim, a minha suprema ambição (que, espero, será a mesma até eu morrer) é tornar-me um pouquinho mais igual a Cristo.”

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PENSAMENTO ELETRONICO

PENSAMENTO ELETRÔNICO

Novos programas altamente sofisticados se inspiram em redes neurais humanas; pesquisadores questionam se algum dia as máquinas realmente serão capazes de raciocinar.

Quanto tempo você leva para somar 3.456.732 mais 2.245.678? Dez segundos? Nada mau – para um humano. Um computador médio, hoje, pode realizar o cálculo em 0,000000018 segundo. E quanto à sua memória? Você consegue lembrar uma lista de compra de sete itens? Talvez 20? Isso não se compara aos 125 milhões que o computador memoriza.

Por outro lado, computadores têm problemas com rostos, que nós, humanos, reconhecemos imediatamente. As máquinas não possuem criatividade para ideias inovadoras nem sentimentos ou lembranças afetivas da juventude. No entanto, avanços tecnológicos recentes estão diminuindo a diferença entre o cérebro humano e os circuitos. Na Universidade Stanford, bioengenheiros estão reproduzindo complicado processamento paralelo das redes neurais em microchips. No Instituto de Neurociências em La Jolla, Califórnia, pesquisadores construíram um robô, o Darwin VII, com uma câmera e um conjunto de mandíbulas de metal para poder interagir com o ambiente e aprender, como fazem os animais jovens. O cérebro de ratos e macacos serviu de modelo para fazer o sistema operacional do robô.

Esses projetos levantam uma questão natural: se o processamento de computadores, com o tempo, será capaz de imitar as redes neurais da Natureza, poderá o frio silício algum dia “pensar” de verdade? E como iremos julgar se ele o faz ou não? Há mais de 50 anos o matemático e filósofo britânico Alan Turing (1912-1954) inventou uma estratégia engenhosa para lidar com essa questão. A busca por essa possibilidade ensinou bastante à ciência sobre como projetar uma inteligência artificial, ao mesmo tempo que tornou mais clara a cognição humana.

Então, o que é exatamente essa capacidade elusiva que chamamos de “raciocínio”? As pessoas com frequência usam a palavra para descrever processos que envolvem consciência, entendimento e criatividade; termos que não se aplicam aos computadores – atualmente vistos como meros seguidores de instruções fornecidas por sua programação.

Em 1950, quando os microchips de silício ainda não existiam, Turing percebeu que, conforme os computadores ficassem mais espertos, a questão da inteligência artificial iria acabar surgindo. No artigo “Máquinas computacionais e inteligência”, Turing substituiu a pergunta “As máquinas podem pensar?” por “Pode uma máquina – um computador – passar no jogo da imitação?”. Isto é, pode dialogar de forma tão natural a ponto de fazer com que uma pessoa pense que seu interlocutor é humano?

Turing tirou essa ideia de um jogo no qual um dos participantes chamado de entrevistador, precisa determinar, fazendo uma série de perguntas, se uma pessoa em outra sala é homem ou mulher. Turing substituiu a pessoa na outra sala por um computador. Para passar no teste de Turing, a máquina precisaria responder qualquer pergunta do entrevistador com a competência linguística e a sofisticação de um ser humano. Ao final de seu artigo, o matemático previu que em 50 anos – ou seja, hoje – seríamos capazes de construir computadores tão bons na imitação que um entrevistador médio teria apenas 70% de chances de identificar se estava falando com um pessoa ou com uma máquina.

Até agora a previsão não se realizou. Nenhum computador pode, na verdade, passar no teste d Turing. Então, por que algo que é tão fácil para pessoas é um obstáculo tão difícil para máquinas. Para passar no teste, as máquinas teriam de demonstrar tantos tipos de competências quanto um ser humano médio possui. Mas computadores têm o que chamamos de design restrito. Sua programação permite que realize m um trabalho específico, e eles têm a base de conhecimento relevante apena para aquela tarefa. Para passar no teste de Turing o computador também precisa ter um excelente domínio da linguagem, com todas as suas peculiaridades e estranhezas. Para isso, é crucial levar e conta o contexto no qual as frases são ditas. Mas os computadores não conseguem reconhecê-lo com facilidade. A palavra ”banco”, por exemplo, pode significar um “assento” ou uma “instituição financeira” dependendo da situação em que é usada. O que torna o contexto tão importante é o fato de ele fornecer um conhecimento prévio. Como, por exemplo, se quem está fazendo a pergunta é um adulto ou uma criança, um especialista ou um leigo. Isso é útil porque reduz a quantidade de potência computacional necessária. A lógica não é suficiente para responder de forma correta questões como “Onde está o nariz de Sue, quando Sue está na casa dela?”. É preciso saber que o nariz costuma estar grudado no rosto do dono. Dizer ao computador para responder com “na casa” é insuficiente para tal pergunta. O computador pode usar a fórmula para responder do mesmo modo a pergunta “Onde está a mochila de Sue quando Sue está na casa dela?”. A resposta apropriada nesse caso seria “não sei”. A situação ficaria ainda mais complicada se Sue tivesse passado por uma cirurgia no nariz recentemente. Aqui, a resposta correta seria outra pergunta: “De que parte do nariz de Sue você está falando?”. Tentar desenvolver um software que considere cada possibilidade rapidamente leva ao que os cientistas da computação chamam de “explosão combinatória”.

O teste de Turing não deixa de ter seus críticos, no entanto. O filósofo Ned Block, da Universidade de Nova York, defende que esse jogo apenas avalia se um computador se comporta ou não de maneira idêntica a um ser humano (estamos falando apenas do comportamento verbal e cognitivo, claro). Imagine que seja possível programar um computador com todas as conversas de certa duração finita. Quando o entrevistador faz uma pergunta Q, o computador procura a conversa na qual Q ocorreu e então digita a resposta que se seguiu, A. Diante da pergunta seguinte, P, o computador procura então pela sequência, Q, A, P e digita a resposta que se seguiu nessa conversa, B. Tal computador, Block diz, teria a inteligência de uma torradeira, mas seria capaz de passar no teste de Turing.

Uma resposta ao desafio de Block é que esse problema também se aplica aos seres humanos. Deixando de lado as características físicas, toda a evidência que temos para dizer se um ser humano é capaz de pensar é o comportamento que seu pensa­ mento produz. E isso significa que nunca sabemos de fato se o nosso interlocutor está tendo uma conversa no real sentido do termo. Os filósofos chamam isso de problema das “outras mentes”.

CARACTERES CHINESES

Uma linha semelhante de discussão – o “argumento da sala chinesa” – foi desenvolvida pelo filósofo John Searle, da Universidade da Califórnia Berkeley, para mostrar que um computador pode passar no teste de Turing sem nem sequer entender o significado de qualquer das palavras que ele usa. Para ilustrar, Searle pede que imaginemos um programa para simular o entendimento da língua chinesa.

Agora suponha que você é um processador dentro do computador, trancado em uma sala (o gabinete do computador) cheia de cestos que contêm símbolos chineses (caracteres que irão aparecer na tela). Você não sabe chinês, mas recebeu um livro (software) que lhe diz como manipular os símbolos. As regras do livro não dizem o que os símbolos significam, no entanto. Quando os caracteres chineses são enviados para a sala (entrada de dados), seu trabalho é passar símbolos de volta para fora da sala (saída de dados). Para essa tarefa, você tem um conjunto extra de regras, que correspondem ao programa de simulação projetado para passar no teste de Turing. Sem que você saiba, os símbolos que entram na sala são perguntas, e aqueles que você envia para fora são respostas que perfeitamente imitam as que um falante de chinês pode dar; então, de fora da sala vai parecer que você entende chinês. Tal computador passaria no teste de Turing, mas não iria pensar de verdade.

Os computadores poderão algum dia entender o que os símbolos significam? O cientista da computação Stevan Harnad, da Universidade de Southampton, Inglaterra, acredita que sim, mas, como as pessoas, as máquinas antes de mais nada teriam de captar abstrações seu contexto, aprendendo como elas se relacionam com o mundo real externo. Aprendemos o significado de palavras por meio da ligação causal entre nós e o objeto que o símbolo representa. Entendemos a palavra “árvore” porque tivemos experiências com árvores. Harnad acredita que, para um computador compreender o significado dos símbolos que manipula, ele precisa ser equipado com um aparato sensório – uma câmera, por exemplo – de forma que possa realmente ver os objetos representados pelos símbolos. Um projeto como o pequeno Darwin VII é um passo nessa direção.

Nesse espírito, Harnad propõe uma avaliação revisada, a qual chama de teste de Turing robótico. Para merecer o rótulo de “pensante “, uma máquina deve passar no teste de Turing e estar ligada ao mundo externo. Esse acréscimo captura uma das próprias observações do matemático britânico: uma máquina deve poder “vagar pelo interior” de forma a ser capaz de “ter a chance de descobrir coisas por si mesma”. O equipamento sensório imaginado por Harnad pode proporcionar a um cientista da computação uma forma de fornecer ao computador o contexto e o conhecimento prévio necessários para passar no teste de Turing. Em vez de exigir que todos os dados relevantes sejam inseridos por força bruta, o robô aprende o que precisa saber interagindo com seu próprio ambiente.

A dúvida que fica é se o acesso sensório ao mundo externo irá, por fim, suprir um computador com entendimento verdadeiro. Mas antes que possamos responder essa questão, precisamos esperar até que uma máquina realmente passe no teste robótico sugerido por Harnad. Enquanto isso, o modelo de inteligência proposto por Turing continua a proporcionar uma importante estratégia de pesquisa para a IA.  De acordo com o filósofo James H. Moor, da Faculdade de Dartmouth, a principal força do teste é a visão que ele oferece – a de “construir uma inteligência sofisticada geral que aprende”. Isso estabelece uma meta valiosa para IAs não importando se a máquina que passa no teste de Turing é capaz de pensar como nós, com entendimento e consciência.

O CÉREBRO POR TRÁS DAS MÁQUINAS

Criado por vários amigos da família, Alan Turing (1912-1954) era uma criança brilhante e solitário. Seu intelecto independente não se encaixava nas expectativas dos professores; ele estava nos últimos lugares da classe em várias disciplinas. Compreende-se, então, que o adulto Turing tenha criado uma forma de reconhecer Inteligência – do tipo artificial – com o teste que leva o seu nome. De acordo com ele, um computador pode “pensar” se puder enganar um ser humano, levando-o a acreditar que sua conversa escrita é produzida por uma pessoa, não por uma máquina.

Quando tinha 23 anos, impressionou os colegas na Universidade de Cambridge inventando a caracterização matemática de uma máquina que iria se tornar uma das contribuições mais importantes da história da computação. A teórica máquina de Turing pode computar respostas para um problema matemático baseado num programa. Ela consiste em um dispositivo de entrada de dados, um conjunto de estados internos que correspondem a um programa e a um dispositivo de saída. Qualquer computador moderno, em essência, é uma máquina de Turing.

Sua invenção também o qualificou de maneira única para trabalhar em outra charada. Em 1938 o governo britânico o contratou para ajudar a decifrar o código da máquina Enigma alemã, que codificava mensagens secretas. Turing ajudou a desenvolver um aparelho que realmente decifrou os códigos do Enigma e, mais tarde, também aqueles da marinha alemã. A Bomba, como foi apropriadamente chamado o decodificador, era baseada em parte no conceito da máquina de Turing.

O matemat1co teve de fazer um juramento de sigilo sobre seu trabalho para o governo, um fator que pode tê-lo isolado ainda mais. Talvez a pressão resultante tenha se acrescentado ao stress que Turing sofreu quando foi julgado com homossexual e forçado a suportar injeções de estrogênio como forma de terapia. Ele se suicidou em 1954, aos 41 anos O acontecimento foi imprevisto até para aqueles que o conheciam bem. Turing sempre deu a impressão aos amigos de que estava satisfeito com a vida. Ele deixou o mundo sem nenhuma explicação nem pedido de ajuda; apenas uma maçã meio comida misturada com cianeto encontrada ao lado da cama provava ocorrido. Sua morte inesperada ilustra que os seres humanos podem ser enganados de muitas formas – felicidade também pode ser imitada de maneira bem-sucedida.

YVONNE RALLEY – Professora-assistente do departamento de filosofia da Faculdade Felician, em Lodi, Nova Jersey.

 

GESTÃO E CARREIRA

feedback na avaliação

AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO – COMO DAR FEEDBACK

 O feedback se tornou uma importante ferramenta no processo de avaliação de desempenho, mas a maioria dos líderes precisa aprender a ter essa conversa com o funcionário.

 Abrir o jogo sobre o desempenho do outro nunca foi tarefa fácil no mundo corporativo. Menos de 20% das empresas na América Latina acreditam que os gerentes saibam dar feedback, como indica uma pesquisa da consultoria americana CEB. O problema aumenta à medida que a área de RH enxerga nesse bate-papo uma ferramenta importante para melhorar o processo de avaliação dos funcionários. A conversa constrangedora, que antes acontecia uma vez por ano, passa a ocorrer com mais frequência – às vezes, toda hora.

Dependendo do perfil do gestor, as palavras são escolhidas meticulosamente para evitar uma indisposição com o empregado; dependendo, são pesadas e criam um mal-estar. O equilíbrio é tênue. Se a mensagem for dura demais, o trabalhador se sentirá injustiçado e se desmotivará. Se for superficial, poderá não ser compreendida pelo receptor. “A grande frustração de um profissional é ser desligado ou ter um diálogo final sem entender os motivos”, diz Henrique Vailati, diretor de recursos humanos da Roche Diagnóstica. Como, então, ensinar os líderes a dar um bom feedback?

ENTENDA O CÉREBRO

O ser humano segue nas suas relações sociais o princípio básico de sobrevivência: minimizar as ameaças e maximizar as recompensas. Se numa conversa a pessoa identifica subjetivamente traços de punição ou agressão, a resposta imediata do cérebro é se proteger – fugir. Palavras como deadline (Literalmente, “Linha mortal”) ou “bater a meta” reforçam essa percepção. E isso afeta a capacidade cognitiva do indivíduo. Alguém que se sente ameaçado por um chefe é mais propenso a cometer erros e menos a solucionar problemas. Para tornar esse mecanismo compreensível no mundo corporativo, o neurocientista David Rock, presidente do Neuro Leadership Institute, desenvolveu em 2008 um modelo de gestão conhecido por Scarf (sigla em inglês para status, certeza, autonomia, relacionamento e equidade). Segundo ele, cada vez que um desses cinco domínios da experiência social são enaltecidos ou postos em risco, a pessoa se sente feliz, recompensada ou temerosa e inútil. “Se o líder entende esse funcionamento do cérebro, consegue estimular a confiança e o comprometimento”, diz Vera Martins, fundadora da Assertiva Educação Corporativa e autora dos Livros Seja Assertivo! e O Emocional Inteligente.

USE FATOS E NÚMEROS

O funcionário precisa saber sob qual caso específico o gestor quer discutir, com detalhes de quando e como isso aconteceu. “O chefe deve citar o comportamento e a entrega naquela situação e separar o pessoal do profissional”, diz Guilherme Miziara, professor nas Fundação Getúlio Vargas e no ibmec. A melhor forma de fazer isso é dizendo: “Eu não estou contra você, e sim contra o que aconteceu”. Os líderes da Roche Diagnóstica, fornecedora de produtos laboratoriais, são orientados a levar na conversa com o subordinado fatos e dados fornecidos por colegas daquele profissional. Outro ponto importante é que o diálogo seja focado em fatos recentes.

FALE COM SINCERIDADE

Segundo Henrique Vailati, diretor de RH da Roche Diagnóstica, um dos compromissos definidos para os líderes é: “Eu ouço com atenção, digo a verdade e explico o porquê”. Para ele, é importante que o diálogo seja “genuíno, imparcial e explicativo”. Nada de feedback positivo ou negativo – o gestor precisa indicar oportunidades de melhorias num bate-papo direto. “Ele deve explicar por que o funcionário está indo bem ou não, dentro dos parâmetros esperados”, diz Vailati. O fato de o brasileiro ser reconhecidamente um povo relacional (que faz tudo para evitar conflitos pessoais) não deve ser visto como um empecilho para uma conversa profunda. “Quando o chefe já construiu uma boa relação, ele tem liberdade para dar um ‘toque’”, diz Vera.

CITE AS CONSEQUÊNCIAS

Às vezes, o indivíduo não tem consciência dos impactos causados por suas atitudes, e o bom feedback poderia ajudá-lo. O professor Guilherme Miziara, da FGV, lembra que a dinâmica das relações interpessoais é marcada por quatro áreas de exposição: a aberta (aquilo que todo mundo sabe sobre nós), a oculta (o que apenas nós conhecemos), a desconhecida (ninguém, nem nós mesmos, reconhece), e a cega (o que os outros enxergam sobre nós e nós mesmos desconhecemos). “As avaliações 360 graus fazem a pessoa tomar conhecimento desses pontos cegos e entender porque, por exemplo, enquanto ela se acha objetiva, seus pares a enxergam como agressiva, e o que ela pode fazer para melhorar isso”, afirma. Nesse ponto, também é importante que o gestor faça mea culpa. Como é ele quem conduz os processos e toma as decisões, no fim das contas, a responsabilidade por um resultado ruim é sua.

DOSE OS COMENTÁRIOS

Elogiar ou repreender demais ou de menos pode ser perigoso para a relação chefe-subordinado. Cabe ao líder a sensibilidade dessa dosagem. “Ele não pode ser paternalista e dizer que tudo o que o funcionário faz é ótimo, mas também não deve ser crítico demais”, diz Guilherme Miziara. Vera Martins, da Assertiva, alerta que alguns chefes ainda creem que os elogios podem levar o outro a se aproveitar do que seria um momento de fraqueza e, por isso, partem da premissa que sempre há o que melhorar. “Eles ignoram que algumas pessoas já podem ter chegado ao máximo em certas competências”, diz a consultora, destacando um princípio básico: elogios servem para reforçar e manter um comportamento. “A motivação da pessoa aumenta se ela se sente recompensada. Mas, se ela está em estado de defesa, ela rejeita o feedback e tenta justificar sua atitude, em vez de assumir um compromisso de melhoria”, afirma a especialista. Críticas, dependendo de como são feitas, despertam a vontade de fugir.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

DIREÇÃO, VOCAÇÃO E MINISTÉRIO

Se Deus tem um propósito para a vida de seu povo, e se é possível descobrir esse propósito, então nada mais importante para nós do que discerní-lo e realizá-lo. Com efeito, o apóstolo Paulo indicou ser esta a expec­tativa divina. “Somos feitura dele [de Deus]”, afirmou ele, “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” Por­tanto, se existem boas obras que Deus planejou e designou para nós — provavelmente antes de termos nascido — então nós precisamos descobrir quais são elas. Não é de admirar que Paulo tenha escrito mais adiante, na mesma carta: “Não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”.

Na carta de Paulo aos Colossenses, ele ora também para que Deus os faça “transbordar de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiri­tual”, e menciona como Epafras “se esforça sobremaneira, continuamente… nas orações” por eles, e que eles deveriam conservar-se “perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus”.

Sempre que falamos em descobrir a vontade de Deus para as nossas vidas, é quase certo que três palavras vão apa­recer durante a conversa: “direção”, “vocação” e “minis­tério”. Cada uma delas tem um significado especial. “Di­reção” pressupõe que Deus quer nos dirigir; “vocação”, que Deus nos chama; e “ministério”, que ele quer que coloque­mos nossas vidas a seu serviço. Mas, ao mesmo tempo, o que há de comum nos três conceitos é que em cada um deles a iniciativa é de Deus e que cada um tem tanto um aspecto geral (que se aplica igualmente a todos nós) como um aspecto específico (que é diferente para cada um de nós). Isto se tornará mais claro à medida que prosseguirmos.

DIREÇÃO

Às vezes nós dizemos, com um suspiro: “Ah, se eu tivesse dez vidas!” Existe um mito de que os gatos têm sete vidas; mas nós, humanos, só temos uma e não podemos duplicá-la nem fazer réplicas de nós mesmos. Daí a necessidade de descobrirmos a vontade de Deus para essa única vida que ele nos deu.

Mas antes de chegarmos ao ponto de descobrir a vontade de Deus é essencial que estabeleçamos uma distinção entre a sua vontade “universal” e a sua vontade “específica”. A vontade universal de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para todo o seu povo; ela é a mesma para todos nós, em todos os lugares e em todos os tempos. Mas a vontade específica de Deus é assim chamada porque é a sua vontade para pessoas específicas, em lugares especí­ficos e em tempos específicos. Sua vontade universal é que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”. A vontade de Deus para todos nós é que sejamos como Cristo; essa vontade não varia de discípulo para discípulo. Sua vontade específica, por sua vez, tem a ver com questões como a escolha de uma profissão ou de um companheiro para a nossa vida, ou como deveríamos gastar nossas energias, nosso tempo, dinheiro, feriados… Estas coisas diferem de uma pessoa para outra. Só depois de fazermos essa distin­ção essencial entre o “geral” e o “específico” é que esta­remos em condições de repetir a nossa primeira questão, que é como descobrir a vontade de Deus. Sua vontade “geral” ou “universal” está revelada na Escritura Sagrada. Não que esta contenha engenhosas soluções para os complexos problemas éticos do século XX; mas ela contém princípios que podem ser aplicados a eles. Via de regra está curto dizer que a vontade de Deus para o povo de Deus encontra-se na Palavra de Deus.

A vontade específica de Deus, porém, não se encontra na Bíblia. Não posso negar que uma vez ou outra Deus parece ter guiado certas pessoas por intermédio de um versículo específico extraído de seu contexto. Mas devo acrescentar que ele o faz em virtude de nossa fraqueza. Afinal, a Bíblia não é uma antologia de textos desvin­culados, mas, sim, uma revelação histórica, cumulativa. Nós não temos o direito de ignorar o seu sentido original a fim de obrigá-la a falar a nós. Mas o que a Bíblia contém mesmo são princípios que são relevantes a questões es­pecíficas. O casamento, por exemplo. A Escritura nos dá diretrizes gerais e preestabelece algumas questões. Ela nos diz que o matrimonio é o propósito desejável de Deus para os seres humanos e que o celibato é uma exceção, não a regra; que um dos seus propósitos primordiais ao instituir o casamento foi o companheirismo – portanto, esta é uma importante qualidade a ser buscada em um esposo ou esposa; que o cristão só é livre para casar-se com um cristão; e que o casamento (sendo um compro­misso de amor, monogâmico e heterossexual, para a vida toda) é o único contexto ordenado por Deus para as relações sexuais. Estas diretrizes gerais são claramente estabelecidas na Bíblia. Mas a Bíblia não diz a ninguém se Deus vai chamá-lo para casar-se ou para permanecer solteiro, nem com quem deverá casar-se (se for esta a sua opção).

Mas como vamos descobrir a vontade específica de Deus, se ele não a revelar através da Escritura? Já que Deus é soberano e livre, eu acho que não nos cabe estereotipar a nossa resposta. No entanto, eu descobri cinco palavras que são guias seguros.

Primeiro, ceder. Nós precisamos ceder, ou dar lugar ao propósito de Deus na nossa vida. Uma vontade que não se rende é o mais sério de todos os obstáculos para se descobrir a vontade de Deus. Se Deus não revela a sua verdade a quem não está disposto a acreditar nela, ele tampouco a revela a quem não está disposto a fazê-la. Pelo contrário, ele “guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o seu caminho”.

Segundo, orar. Simplesmente ceder, ou então entregar com desconfiança, não é suficiente. E preciso também esperar em oração e ser sustentado por ela. “Pedi, e dar-se-vos-á”, Jesus ensinou. “Nada tendes, porque não pedis”, acrescentou Tiago. Nosso Pai celeste não estraga os seus filhos. Ele não nos revela a sua vontade, a não ser que realmente queiramos conhecê-la e expressemos esse desejo em nossas orações.

Terceiro, falar. Embora um dos fortes do cristianismo protestante seja a insistência no nosso “direito ao juízo privado”, isto não significa que devamos tomar todas as nossas decisões sozinhos. Pelo contrário, Deus nos con­cedeu uns aos outros em sua família. Portanto, devemos ser humildes o suficiente para falar uns com os outros, inclusive os nossos pais, e buscar o seu conselho, pois “com os que se aconselham se acha a sabedoria”. Que as nossas decisões sejam tomadas em grupo, assumidas com respon­sabilidade na rica comunhão em que Deus nos colocou.

Quarto, pensar. Embora nós devamos ceder, orar e pedir conselho, nós sempre acabamos tendo de tomar decisões. Como vimos no capítulo anterior, Deus contrabalança as suas promessas de nos guiar com a sua proibição de que nos comportemos como cavalos e mulas, que não têm entendimento. Não vamos esperar que ele cumpra as suas promessas de nos guiar utilizando “freio e rédeas” (i.e. por meio da força) ou nos dando uma intuição irracional; ele nos guia por meio da mente que nos deu e que nos possibilita pesar cuidadosamente, em cada situação, os prós e os contras.

Quinto, esperar. É um erro apressar-se e ficar impaciente com Deus. Ele levou cerca de dois mil anos para cumprir sua promessa a Abraão no nascimento de Cristo. Levou oitenta anos preparando Moisés para o trabalho de sua vida. São necessários uns vinte e cinco anos para um ser humano chegar à maturidade. Portanto, se nós temos que tomar uma decisão dentro de um certo prazo, devemos fazê-lo. Mas, caso contrário, e se o caminho à nossa frente ainda é incerto, o mais sábio é esperar. Penso que o que Deus disse a José e Maria ao enviá-los ao Egito com o menino Jesus serve também para nós: “Permanece lá até que eu te avise.” Em minha experiência, cometem-se muito mais erros por causa de precipitação do que de protelação.

VOCAÇÃO

“Vocação” é uma das muitas palavras bíblicas cujo sentido tem mudado e se desvalorizado com o decorrer dos anos. No uso popular, ela tem a ver com nosso trabalho ou carreira. “Qual é a sua vocação?” é uma forma um tanto eloquente de perguntar a alguém qual é a sua profissão, e “treinamento vocacional” significa treinamento para um ramo específico. Na Bíblia, entretanto, “vocação” tem uma conotação muito mais ampla e mais nobre. Sua ênfase não é no aspecto humano (o que nós fazemos), mas sim no divino (o que Deus nos chamou a fazer). “Vocação” é uma palavra latina e significa “chamamento”.

No Novo Testamento o verbo grego equivalente a “cha­mar” ocorre cerca de 150 vezes, e na maioria dos casos refere-se a Deus chamando seres humanos. No Antigo Testamento, Deus chamou Moisés, Samuel e os profetas; no Novo Testamento, Jesus chamou os doze apóstolos e depois Saulo de Tarso. Hoje, embora nós não sejamos nem profetas nem apóstolos, ele ainda nos chama para o seu serviço. É maravilhoso o fato de que Deus se importa tanto conosco que nos chama pessoal e individualmente. Portan­to, Deus é “aquele que vos chama”; e nós somos “aqueles que são chamados segundo o seu propósito”.

A questão que se nos depara é esta: de acordo com as Escrituras, para que é que Deus nos chama? Qual é a nossa vocação divina? Para responder esta questão acerca da “vocação”, nós precisamos fazer uma distinção similar àquela que fizemos concernente à “direção”, ou seja, entre o nosso chamado global ou “universal” e os nossos cha­mados “específicos”. Nosso chamado global é o chamado de todo o povo de Deus e é, portanto, o mesmo. Nosso chamado específico é o de cada um de nós e é, portanto, diferente. Todos nós compartilhamos do mesmo chamado universal de Deus; cada um de nós recebeu de Deus um chamado específico diferente.

O chamado universal de Deus para nós não é tanto para fazer alguma coisa (um trabalho), mas para ser alguma coisa (uma pessoa). Embora ele nos chame para diferentes tarefas, como já veremos, primeiro ele nos chama para algo ainda mais significativo, isto é, para sermos discípulos de Jesus Cristo, para vivermos uma vida nova em sua nova sociedade e no mundo. Portanto, se alguém nos perguntar “Qual é a sua vocação?”, nossa primeira resposta — aliás, a resposta certa — deveria ser: “Eu sou chamado para pertencer a Jesus Cristo”. De fato, nós somos chamados a abraçar e desfrutar de todas as bênçãos que Deus nos reservou em Jesus Cristo: “… para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança”. E que herança é essa? Ela tem muitas facetas.

Primeiro, somos chamados para ter comunhão com Jesus Cristo. Isto é básico. Seu convite ainda é “vinde a mim” e “segue-me”. Afinal Deus nos chamou “à comu­nhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”. Assim como Cristo chamou os doze apóstolos para estarem “com ele”, assim também ele nos chamou para o conhecermos e gozarmos de comunhão com ele. A vida eterna é conhe­cer a Deus e o seu Cristo, e nada pode tomar o lugar desta relação fundamental com ele.

Segundo, somos chamados para a liberdade. “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade”, escreveu Paulo aos Gálatas. O tipo de liberdade a que o apóstolo alude aqui é a liberdade da condenação da lei através do perdão de Deus e do fato de termos sido aceitos através de Cristo. É a libertação da culpa e de uma consciência culpada, a libertação que nos dá acesso a Deus como filhos e filhas adotivos seus. No entanto, não é liberdade para pecar ou liberdade das responsabilidades sociais. Pelo contrário, Paulo continua: “Porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros (lite­ralmente, ‘sede escravos uns dos outros’), em amor.” E o paradoxo que já vimos, de que só servindo é que nos tor­namos livres.

Terceiro, somos chamados para a paz. “Seja a paz de Cristo o árbitro em vossos corações, à qual, também, fostes chamados em um só corpo.” A referência a “um só corpo” ajuda-nos a compreender o que Paulo queria dizer com isso. Aqui ele não está se referindo à paz de espírito, coração ou consciência, mas à paz {shalom) resultante da reconciliação uns com os outros na comunidade do reino de Cristo. Nós somos chamados não somente para perten­cer a Cristo, mas também para fazer parte do povo de Cristo.

Em quarto lugar, somos chamados para a santida­de, ou “chamados para ser santos”. Já que o próprio Deus é santo, ele nos chama para que também sejamos santos. Para muita gente, infelizmente, “santidade” dá a falsa ideia de gente piedosa com uma aparência anêmica e um olhar distante, que parece ter-se desligado da vida. Mas a verdadeira santidade é uma semelhança com Cristo que é vivenciada no mundo real.

Em quinto lugar, somos chamados a testemunhar. “Vós, porém, sois… povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” Pedro está con­trastando aquilo que nós éramos antes com o que somos agora. Nós vivíamos nas trevas, mas agora estamos na luz. Nós não éramos povo, mas agora somos povo de Deus. Não tínhamos alcançado misericórdia, mas agora, sim. A de­dução lógica é que nós não podemos de maneira alguma guardar estas bênçãos para nós mesmos. Tendo sido cha­mados para a luz de Deus, nós somos inevitavelmente chamados para fazer brilhar a nossa luz.

Em sexto lugar, somos chamados para o sofrimento. “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados.” Pedro escreveu essa carta quando a hostilidade de Nero para com os cristãos começou a crescer e agourentas nuvens de perseguição se acumulavam no horizonte. A qualquer momento poderia irromper a tempestade. E daí, como os cristãos deveriam reagir se sofressem injustamente? A resposta de Pedro é muito franca. Eles tinham sido cha­mados para seguir o exemplo de Cristo, da não-retaliação. Muita gente fica chocada ao saber que sofrimento injusto é uma parte inevitável do chamado cristão. Mas o próprio Jesus nos advertiu sobre isso. “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim… Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros.”

Sétimo, somos chamados para glória. O chamado cristão é uma “vocação celestial”. “O Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” Sofrimento e glória estão constantemente ligados um ao outro no Novo Testa­mento. Foi por intermédio do sofrimento que Jesus entrou em sua glória, e conosco não há de ser diferente. Se nós participamos do sofrimento de Cristo, também participare­mos da sua glória. Portanto, o chamado de Deus não é apenas para esta vida; é também para passarmos a eterni­dade com ele no novo universo.

Eis aqui, pois, o chamado global de Deus, desdobrado em sete aspectos. Deus chama a todos nós para Cristo, para a liberdade, a paz, a santidade, o testemunho, o sofrimento e a glória. Mais simplesmente, é um chamado para per­tencermos a Cristo no tempo e na eternidade, para amar­mos uns aos outros na paz de sua nova comunidade e para servirmos, testificarmos e sofrermos no mundo. E este o sentido fundamental da “vocação cristã”. E a mesma coisa para todos nós, e nós somos exortados a viver uma vida digna dessa vocação.

Se o nosso chamado universal (que é o mesmo para todos nós) é para sermos livres, santos e semelhantes a Cristo, nosso chamado específico (que é diferente para cada um de nós) tem a ver com os detalhes altamente individuais das nossas vidas. Vejamos o ensinamento de Paulo: “Cada um permaneça na vocação (literalmente, o ‘chamado’) em que foi chamado.” Percebe-se imediatamente que o após­tolo usa a ideia de “chamado” em dois sentidos distintos. As palavras “em que fostes chamados” referem-se à con­versão da pessoa quando ouviu e obedeceu ao chamado universal de Deus. “A vocação” (“chamado”) em que ele estava, por sua vez, é uma referência ao seu chamado es­pecífico quando da época da conversão. Essa situação, ou “vocação”, é vista como algo para o qual Deus nos “chamou”, algo que Deus “designou” para nós. E o princípio geral que o apóstolo estabelece, repetindo-o três vezes, é que nós devemos “permanecer” nele. Ele dá três exemplos: nossa situação doméstica (casados ou solteiros), a situação cul­tural (judeus ou gentios) e a situação social (escravos ou livres). Para compreendermos o ensinamento de Paulo, nós precisamos entender o pano de fundo e o contexto. Parece que para os convertidos coríntios a vida em Cristo era uma novidade tão grande (ser “nova criatura”) e emocionante, e tão radicalmente diferente do seu estado de não regene­rados, que eles pensaram que nada que fizesse parte da sua antiga vida poderia ser conservado; tudo tinha de ser re­pudiado.

O casamento, por exemplo. Agora, que eles pertenciam a Cristo (esta parece ser a sua dúvida), como poderia uma obrigação contratual que antecedeu a conversão continuar válida após a conversão? Não seria tal relação “impura”? Paulo responde que não. E por que não? Porque a provi­dência de Deus abrange tanto a sua vida anterior como a vida posterior à conversão. Seu matrimónio, embora con­traído antes de eles se tornarem cristãos, era parte do “chamado” em que se encontravam quando Deus os cha­mou. Portanto, eles não tinham nenhum direito de repudiá-lo. Transformá-lo pela graça de Deus, sim; rejeitá-lo, não.

Nós precisamos ter muito cuidado ao aplicarmos a nós mesmos este ensinamento. Paulo está formulando uma regra geral, não absoluta. Ele, por exemplo, tinha deixado de ser fariseu ao ser chamado para ser apóstolo de Cristo. Seme­lhantemente, os doze haviam desistido de pescar e recolher impostos quando foram chamados para ser apóstolos. E Paulo diz aqui que se um escravo tem alguma possibilidade de ganhar a sua liberdade, deveria fazê-lo. Nós também temos de estar abertos para a possibilidade de Deus nos estar chamando para fazer algo diferente. O que Paulo estava fazendo era reagindo a decisões impensadas e pre­cipitadas, a mudar só por mudar, e especialmente à ideia de que nada ocorrido antes da conversão e nada além da religião tem valor para Deus.

Agora vamos deixar a Escritura e voltar-nos para a história, ver o que ensinaram os reformadores e os puri­tanos. Os reformadores insistiram em que todo cristão, seja homem ou mulher, tem um “chamado” divino. Eles esta­vam reagindo ao ensino do catolicismo medieval, de que os bispos, padres, monges e freiras tinham um chamado superior, por ser “religioso”. Isso os reformadores rejei­taram, por considerá-lo “clericalismo” (separação entre clero e leigos) e “dualismo” (separar atividades “sagra­das”, como a oração, de atividades “seculares”, como governar uma casa ou trabalhar para viver). Eles afirma­vam que Deus se interessa pelo todo da nossa vida, e que ser fazendeiro, artesão, magistrado ou dona de casa era um chamado tão divino quanto ser “padre” ou “pastor”. Lutero insistiu muito nisso:

Aqueles que agora são chamados “espirituais”, isto é, padres, bispos ou papas, não são, nem diferentes dos outros cristãos, nem superiores a eles; só que eles estão encarregados da palavra de Deus e dos sacramentos, que é o seu trabalho e ofício.

Mas “as costureiras, os sapateiros, os pedreiros e car­pinteiros, os cozinheiros, hoteleiros, fazendeiros e todos os trabalhadores seculares” também foram “consagrados” como sacerdotes, cada um para “o trabalho e o ofício que lhe cabe”.

Além disso, todos devem se beneficiar e servir aos outros através do seu próprio trabalho ou profissão, de maneira que muitos tipos de trabalho possam ser feitos para o bem-estar corporal e espiritual da comunidade, assim como todos os membros do corpo servem uns aos outros (1 Coríntios 12.14-26).

E, mais adiante: “servir a Deus não se restringe a um ou dois trabalhos, nem se resume a um ou dois chamados, mas está presente em todos os trabalhos e todos os cha­mados”. “Mas o que eu quero fazer é estabelecer uma distinção entre os chamados e as profissões, a fim de que todo mundo possa ver para que Deus o chamou e cumprir com fidelidade e sinceridade os deveres de seu ofício no serviço de Deus.”

O que Calvino ensinou foi muito semelhante:

O Senhor ordena a cada um de nós, em todos os afazeres da vida, que zele pelo seu chamado… Portanto, para que a nossa estupidez e precipitação não acabe virando tudo de cabeça para baixo, ele designou deveres para todo homem, cada um em sua maneira particular de viver. E para que ninguém venha a transgredir impensadamen­te os seus limites, ele deu a esses vários tipos de vida o nome de “chamados”. Portanto, cada indivíduo tem sua própria forma de viver designada pelo Senhor, como uma espécie de posto de sentinela, a fim de que ele não fique vagando sem rumo pela vida… E vem daí também uma singular consolação: desde que, em nosso trabalho, estejamos obedecendo ao nosso chamado, nenhuma tarefa é vil ou desprezível, e não há trabalho que não vá brilhar e ser considerado deveras precioso aos olhos de Deus.

Os puritanos desenvolveram ainda mais este tema. Por exemplo, William Perkins, que exerceu um influente mi­nistério em Cambridge, escreveu o Tratado das Vocações ou Chamados dos Homens, publicado em 1603. Eis aqui uma amostra de sua tese:

O que um pastor de ovelhas faz ao cuidar de seu rebanho… é um trabalho tão bom diante de Deus quanto a ação de um juiz ao pronunciar uma sentença, ou de um magistrado ao fazer um decreto, ou de ministro ao pregar. Assim, pois, vemos que existe uma boa razão para procurarmos descobrir como todo homem pode desen­volver da maneira correta o seu chamado específico.

Um século mais tarde, e no outro lado do Atlântico, Cotton Mather, o puritano de Harvard, escreveu O Cristão e Seu Chamado (A Christian at his Calling, 1701). Segundo ele, todo cristão tem dois chamados — “um chamado universal” (“servir ao Senhor Jesus Cristo…”) e “um chamado pessoal”(“um trabalho específico mediante o qual se distingue a sua utilidade em comunidade”).

Além do mais, os dois chamados deveriam manter-se em equilíbrio, pois “um cristão em seus dois chamados é um homem em uma canoa remando para o céu… Se ele só se preocupar com um dos seus chamados, qualquer que seja ele, estará puxando o remo em um dos lados da canoa e acabará ficando à margem da bem-aventurança eterna.” É muito fácil criticar este tipo de ensinamento. Os reformadores e os puritanos eram pessoas do seu tempo e sua cultura, tanto quanto nós. Eles tinham uma visão estática e medieval da sociedade. Em sua reação contra as implicâncias revolucionárias de certos ensinos anabatistas, eles tendiam a resistir demais a mudanças. Às vezes a posição deles nos lembra a embaraçosa estrofe do conhecido hino:

O rico em seu castelo,

O pobre em seu portão, Deus fê-los nobre ou humilde,

Cada um em sua condição.

Nós certamente não deveríamos usar o que a Bíblia ensina acerca dos “chamados” para fazer resistência a mudanças sociais.

Paulo no primeiro século, os reformadores no século XVI c os puritanos no século XVII, todos parecem muito dis­tantes de nós. Mas, então, qual é o princípio em que devemos nos firmar hoje e que foi ensinado por Paulo e resgatado pelos reformadores e os puritanos? Acho que é o seguinte. Toda a nossa vida, tanto anterior à conversão como fora da religião, pertence a Deus e faz parte do seu chamado. Nós não devemos pensar que Deus só passou a se interessar por nós depois que nos convertemos, ou que agora ele só está interessado no cantinho religioso das nossas vidas.

Consideremos a nossa vida antes da conversão. Qual era o nosso chamado, a vida   que vivíamos quando Deus nos chamou? Se na ocasião da nossa conversão nós estávamos tomando conta de parentes idosos, não deveríamos abandoná-los agora. Se éramos estudantes, não temos o direito de abdicar de nossos estudos e abandonar o colégio ou a universidade. Se havíamos feito um acordo com al­guém, não temos o direito de rompê-lo. Se, quando Deus nos chamou, nós éramos músicos, artistas, atletas ou intelectuais, não devemos agora repudiar essas boas coisas que o bom Criador nos deu. Afinal, elas não eram aspectos acidentais da nossa vida. Elas eram parte integrante da providência de Deus, para a qual ele nos havia chamado e que ele havia designado para nós. A soberania de Deus abrange as duas partes da nossa vida. Ele não começou a agir em nós e através de nós a partir da nossa conversão, mas em nosso nascimento e mesmo antes de nascermos, em nossa herança genética, da mesma forma que mais tarde passaria a atuar em nosso temperamento, personalidade, educação e habilidades. E o que Deus fez de nós e nos deu antes de nos tornarmos cristãos, ele redime, santifica e transforma depois disso. Existe uma continuidade vital entre a nossa vida antes e depois de convertidos. Afinal de contas, embora sejamos hoje uma nova pessoa em Cristo, nós ainda somos a mesma pessoa que éramos por criação e que se fez nova em Cristo.

Agora vejamos a nossa vida fora da religião. O Deus que muitos de nós adoramos é religioso demais. Aparentemen­te, nós achamos que ele só se interessa por livros, edifícios e cerimônias religiosas. Mas não é bem assim. Ele se preocupa conosco, nosso lar, nossa família e amigos, nosso trabalho e lazer, nossa cidadania e comunidade. Assim a soberania de Deus estende-se a ambos os lados e a todas as áreas da nossa vida. Nós não devemos marginalizar Deus, ou tentar espremê-lo para fora da nossa vida não religiosa. Lembremos que a nossa vocação (i.e. o chamado de Deus) inclui todas estas coisas. É nelas que vamos servir e glorificar a Deus.

MINISTÉRIO

Se queremos saber para onde Deus vai nos levar (direção) e para que ele vai nos chamar (vocação), podemos ter certeza de que isto tem relação com a melhor maneira em que podemos servi-lo (ministério). Além do mais, tal como vimos com as palavras “direção” e “vocação”, também ao considerar a palavra “ministério” é preciso fazer uma distinção entre o seu significado mais amplo e o outro, mais limitado, entre a sua aplicação num sentido geral e o mais específico. Eis aqui três afirmações acerca do ministério.

Primeiro, todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrarou melhor, para gastar suas vidas em minis­tério. Ministério não é um privilégio de uma pequena elite, mas de todos os discípulos de Jesus. Você com certeza notou que eu não disse que todos os cristãos são chamados para o ministério, mas para ministrar — diakonia, serviço. Nós fazemos um grande desserviço à causa cristã sempre que nos referimos ao pastorado como “o ministério”. Ao usar­mos o artigo definido, damos a impressão de que o pastorado é o único ministério que existe, tal como os clérigos me­dievais, que consideravam o sacerdócio como a única (ou, pelo menos, o mais “espiritual”) vocação que existe. Eu abandonei esta visão e, portanto, esta linguagem, há cerca de vinte e cinco anos, e agora convido os meus leitores, caso necessário, a juntarem-se a mim nesta penitência. Hoje, sempre que alguém diz em minha presença que “Fulano de Tal vai seguir o ministério”, eu sempre pergunto com a maior inocência: “E mesmo? A qual ministério você está se referindo?” E quando meu interlocutor replica: “O mi­nistério pastoral”, eu reclamo gentilmente: “Então por que você não disse logo?!” O fato é que a palavra “ministério” é um termo genérico; enquanto não lhe acrescentarmos um adjetivo, ela não terá especificidade.

Voltemos à minha primeira proposição, de que todos os cristãos, sem exceção, são chamados a ministrar. Como é que eu posso fazer uma declaração tão dogmática? Por causa de Jesus Cristo. Seu senhorio sobre nós tem uma dimensão vocacional, como vimos no capítulo 5. Já que ele é “o servo” por excelência, aquele que se doou sem reservas para o serviço de Deus e dos seres humanos, seria impos­sível ser seu discípulo sem procurar seguir seu exemplo de serviço. Ele pregou o reino, curou os doentes, alimentou os famintos, foi amigo dos que não tinham amigos, defendeu os oprimidos, confortou os enlutados, procurou os perdidos e lavou os pés dos apóstolos. Nenhuma tarefa era pesada demais e nenhum ministério desprezível demais para ele. Ele viveu sua vida e morreu sua morte em serviço inten­samente abnegado. E nós, não vamos imitá-lo? O mundo mede a grandeza pelo sucesso; Jesus a mede pelo serviço.

Em segundo lugar, existe uma ampla variedade de mi­nistérios cristãos. É por isso que “ministério” significa “serviço”, e há muitas e diferentes maneiras pelas quais nós podemos servir a Deus e às pessoas. Atos 6.1-4 provê uma sólida base bíblica para esta convicção. Uma dissensão étnica e cultural estava dividindo a igreja de Jerusalém. Os “judeus gregos” reclamavam contra os “judeus hebreus”, dizendo que suas viúvas estavam sendo discriminadas na distribuição diária da comida. E aí os apóstolos acabaram se envolvendo nessa briga; ela estava ocupando uma grande parte do seu tempo e ameaçava desviá-los do seu papel de pregar e ensinar, o qual lhes havia sido designado por Jesus. Assim eles, sabiamente, convocaram uma reunião da igreja e disseram: “Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir [diakonein] às mesas.” Então eles pediram à igreja que escolhesse sete homens para essa responsabilidade, enquanto que, acrescentaram os apósto­los, “quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério [diakonia] da palavra”.

É essencial notar que, tanto para distribuir a comida como para ensinar a palavra, o termo usado aqui é “mi­nistério” (diakonia). Na verdade, ambos eram ministérios cristãos, podendo ser ministério cristão de tempo integral, e ambos requeriam, para desempenhá-los, pessoas cheias do Espírito Santo. A única diferença é que uma atividade era ministério pastoral, e a outra, social. Não ocorre que uma fosse ministério e a outra, não; nem que uma fosse espiritual e a outra, secular; nem que uma fosse superior e a outra, inferior. Ocorria simplesmente que Cristo havia chamado os doze para o ministério da palavra e os sete pura o ministério das mesas.

Eu mesmo, na qualidade de jovem cristão, cresci pensando nas diferentes vocações ou ministérios como se constituíssem uma hierarquia ou pirâmide. Lá em cima, empoleirado no topo da pirâmide, estava o missionário transcultural. Ele era o nosso herói, e ela, a nossa heroína. Ensinaram-me que se eu amasse a Cristo de verdade eu acabaria juntando-me às suas fileiras além-mar. Caso eu não fosse tão apaixonado assim, ficaria em casa e viraria pastor. E se a minha aspiração nem chegasse a tanto, eu provavelmente seria um doutor ou professor, enquanto que, se decidisse entrar no mundo dos negócios, política ou comunicações, eu não estaria muito longe de me perder! Por favor, ninguém me leve a mal. Ser pastor ou missio­nário é um privilégio maravilhoso, se Deus nos chama para isso. Mas é igualmente maravilhoso ser um advogado, industrial, político, gerente ou assistente social, ser um filmador, um jornalista ou uma dona de casa cristã, se Deus nos chama para isso. Conforme Romanos 13.4, um oficial de estado (seja ele um legislador, magistrado ou policial) é tão “ministro de Deus” (diakonos theou) quanto um pastor. O que precisamos rejeitar é a hierarquia; é a pirâmide que temos de demolir.

Obviamente, ainda existe uma premente necessidade de missionários autênticos, homens e mulheres que se carac­terizem sobretudo pela humildade — por exemplo, a humil­dade de abdicar do imperialismo cultural e identificar-se com outra cultura, a humildade de trabalhar sob a lide­rança de uma igreja nacional, a humildade de servir às necessidades que o próprio povo sente (sejam elas sociais ou evangelísticas) e a humildade de confiar no Espírito Santo como o seu principal comunicador. A evangelização continua no topo da agenda da igreja; aliás, a quinta seção deste livro é dedicada a isso. Há também uma grande necessidade de pastores para ensinar a Palavra de Deus. Os capítulos 13 e 17 tratarão deste ministério.

Ao mesmo tempo, é gritante a necessidade de cristãos, tanto homens como mulheres, que vejam o seu trabalho diário como seu ministério cristão prioritário e que estejam decididos a impregnar o seu contexto secular a fim de ganhá-lo para Cristo.

Precisamos de cristãos envolvidos em negócios e na indústria, que priorizem o “serviço ao público” como o alvo principal de sua declaração “missionária”, que sejam ousados em fazer experiências nas áreas de relações de trabalho, participação dos trabalhadores e divisão de lucros, e que admitam a sua responsabilidade de, juntamente com a auditoria fiscal, realizar também uma “auditoria social” na sua empresa.

Precisamos de políticos cristãos que identifiquem as grandes injustiças de sua sociedade, recusando-se a ser coniventes com elas, e que tenham como objetivo assegurar mudanças legislativas seguras, por mais tempo que isso lhes custe.

Precisamos de economistas cristãos que encontrem uma maneira de controlar a inflação e ao mesmo tempo reduzir o desemprego.

Precisam-se cineastas cristãos que produzam, não ape­nas filmes explicitamente cristãos ou evangelísticos, mas também filmes saudáveis que, indiretamente, transmitam valores cristãos individuais e familiares, honrando e glo­rificando, assim, o nome de Cristo.

Precisamos de mais médicos cristãos que, em cooperação com teólogos da moralidade, encarem os desafios da ética médica e desenvolvam formas de conservar a visão da pessoa humana e da família humana que é característica única do cristianismo.

Precisam-se professores cristãos dedicados que, tanto nas escolas cristãs como nas seculares, considerem como privilégio servir aos seus alunos, ajudando-os a desenvol­verem plenamente o potencial que Deus lhes deu.

E precisamos de mais assistentes sociais cristãos que, em sua preocupação com os deficientes da mente e do corpo, crianças vítimas de abuso, drogados, vítimas da AIDS e outros, combinem os mais recentes tratamentos médicos e o cuidado social com o amor cristão, a oração de fé e o apoio da igreja.

Em terceiro lugar, o ministério específico para o qual (Cristo nos chama é provavelmente determinado pelos nossos dons. Ou seja, o principal fator na decisão quanto ao trabalho da nossa vida é, provavelmente, que tipo de pessoa somos nós, a partir da criação e redenção de Deus. Deus não cria ao acaso; ele não nos deu dons naturais para serem desperdiçados. Deus não é, tampouco, um redentor aciden­tal, para nos conceder dons que vão ser desperdiçados. Pelo contrário, ele quer que os dons que nos deu sejam discernidos, cultivados e exercitados. Ele certamente não nos quer frustrados (pelo fato de os nossos dons ficarem ociosos), mas sim realizados (porque estamos usando os nossos dons).

Eu acho perfeitamente compatível com as nossas dou­trinas cristãs da criação e da redenção nós dizermos a nós mesmos: “Eu sou uma pessoa única. (Isto não é con­vencimento. É um fato. Se cada floco de neve e cada folhinha de grama não tem paralelo, quanto mais cada ser humano!) Minha unicidade deve-se à minha herança genética, minha personalidade e ao temperamento que herdei, minha ascendência (meus pais), minha formação e educação, meus talentos, inclinações e interesses, meu novo nascimento e meus dons espirituais. Pela graça de Deus eu sou quem sou. Portanto, como é que eu, sendo essa pessoa única como Deus me criou, posso me gastar no serviço de Cristo e do seu povo, de forma tal que nada que ele me deu seja des­perdiçado e tudo que ele me deu seja aproveitado?”

Pode ser que haja exceções a este princípio, mas esta me parece ser a pergunta certa que cada um de nós deve fazer a si mesmo. E assim, ao tentarmos avaliar-nos com ho­nestidade, não com orgulho nem com falsa modéstia, nossos pais e os amigos que mais nos conhecem são os que mais chance têm de nos ajudar.

Todas as três palavras que acabamos de considerar (direção, vocação e ministério) têm a ver com a vontade de Deus para as nossas vidas e como descobri-la. Concluindo, deixe-me antecipar dois temores que meus leitores podem estar sentindo, e tentar tranquilizá-los.

Primeiro, não há necessidade alguma de se temer a vontade de Deus, por medo de que ela seja difícil. Certos cristãos parece que imaginam que quanto maior a chance de alguma coisa ser desagradável, mais provável é que ela seja a vontade de Deus! Mas Deus não é um bicho-papão, sempre pronto para estragar as nossas vidas; ele é o nosso Pai, comprometido com o nosso bem-estar e decidido a nos dar apenas o que é para o nosso bem. “Se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos”, disse Jesus, “quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?”. Nós podemos ter certeza de que a vontade de Deus é “boa, perfeita e agradável”.

Segundo, ninguém precisa temer que nunca descobrirá a vontade de Deus. Não temos razão alguma para preocupar-nos ou ficar nos queixando, ou para cairmos num estado de tensão nervosa ou passarmos noites em claro devido à ansiedade. Parece muito estranho, mas uma das lembranças mais antigas da minha infância, quando eu não devia ter mais que seis ou sete anos, é a de minha mãe entrando no meu quarto para dizer boa-noite. Eu sempre a incomodava com a mesma pergunta angustiada: “Mamãe, o que eu vou ser quando eu crescer?” Ela sempre me respondia que eu não precisava me preocupar, pois quando chegasse a hora eu iria saber. E agora, mais de sessenta anos depois, com a sabedoria adquirida pelo tempo, eu sei que ela estava certa e que todas aquelas apreensões infantis eram desnecessárias. Nós temos toda razão para confiar que a vontade do nosso Pai é boa e que se pode descobri-la. Ele tem meios e maneiras de nos mostrar o que ele quer que façamos. A principal condição é que nós mesmos quei­ramos, cora sinceridade, discernir a sua vontade, a fim de realizá-la.

 

GESTÃO E CARREIRA

Administração de conflitos

ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS

 PARA HAVER CONFLITO, BASTAM DUAS PESSOAS.

Os casais que o digam. Se duas pessoas podem eventualmente ter dificuldades de relacionamento, imagine então sendo cinco, vinte ou cem pessoas. As probabilidades de atrito aumentam na proporção direta da quantidade de pessoas envolvidas. Choques de interesses individuais, grupais e organizacionais, extravasamentos de medo, ansiedades e frustrações, luta pelo poder e pelo status quo, hábitos prejudiciais, neuroses e mudanças estruturais, essas são as principais causas de conflito entre funcionários. Certamente um bom programa de benefícios e incentivos, promoções e salários, assim como uma política em que sejam valorizadas as pessoas, a participação e o trabalho em equipe, em que haja desafios que motivem os colaboradores, diminuem consideravelmente a possibilidade de conflito. Diminuem, mas não eliminam, visto que o ser humano é caracteristicamente dinâmico e inquieto em relação a interesses e emoções.

Então, já que os conflitos, cedo ou tarde, em pequenas ou grandes proporções, acabarão fatalmente surgindo, não se trata de perguntar o que fazer para abafá-lo, mas o que fazer para administrá-lo. Abafar o conflito equivale a varrer a sujeira para debaixo do tapete, acreditando que a limpeza foi feita. Mas, ela continua lá embora oculta, e com o tempo não haverá mais como esconder o excesso de sujeira acumulada. Portanto, administrar o conflito é uma atitude positiva e madura que deve ser adotada por todas as chefias de uma organização, pela alta direção e pelos demais colaboradores da empresa.

E, embora possa parecer paradoxal, nem todos os conflitos são necessariamente ruins. Muitos deles funcionam como agentes catalisadores de esforços e ideias.

Outros propiciam até melhoria de relacionamento entre as partes, depois de resolvido o confronto. Por que se administram conflitos? Administram-se conflitos por vários motivos: para manter as pessoas motivadas, para manter ou melhorar a produção ou serviço, para facilitar o trabalho em equipe e para poder gerenciar mudanças.

ONZE SUGESTÕES PARA UMA BOA ADMINISTRAÇÃO DE CONFLITOS

1 – Procure soluções, não culpados.

É evidente que todo problema ou conflito têm uma causa, e, se você procurar vai encontrar o culpado também. Mas, ao fazer isso, estará também desviando preciosa energia e tempo na caça às bruxas, em vez de se concentrar na solução que, a rigor, é a única saída para o desentendimento. Focalize sua atenção nos ganhos da solução e esqueça a sessão de acusações mútuas. Olhe um nível acima, concentre as pessoas nas metas (é o que elas mais deveriam ter em comum), enfoque as convergências (não as divergências), comprometa as pessoas na busca da melhor solução, encare isso de forma objetiva e também positiva. Só depois fale a sós com o causador do incidente (se houver um e puder identificá-lo), mostrando-lhe a inadequação da atitude e os resultados disso.

Grande parte das vezes uma conversa sincera, respeitosa e objetiva evitará a repetição do ocorrido, desde que as causas sejam i:ratadas.

  • Analise a situação.

A – Faça as seguintes perguntas: QUAL é realmente o problema? QUEM está envolvido? O QUE aconteceu? desde QUANDO vem ocorrendo? ONDE aconteceu o desentendimento (em que departamento, setor, área geográfica etc.)? , PORQUE ocorreu o conflito? Poderia ter sido evitado?

B –  Busque alternativas de solução. Aponte as opções que você julgar mais plausíveis para resolver o conflito.

C –  Escolha a melhor alternativa com base nas informações à sua disposição.

D – Implante e avalie. Ao implantar a solução, faça acompanhamentos periódicos para detectar eventuais desvios de rotas, promovendo reuniões com os envolvidos. Os passos b, c e d poderão também ser realizados com os envolvidos, desde que haja abertura e clima propício para isso.

  • Mantenha um clima de respeito.

Ao dialogar com a(s) parte(s) envolvida (s), mantenha sempre um clima de respeito e consideração, pois essa será a plataforma que sustentará o entendimento. Evite todo o tipo de sarcasmo, ironia ou agressidade, pois funcionarão como combustível para aumentar a fogueira.

4 –  Aperfeiçoe a habilidade de ouvir e falar.

Não interrompa quando a outra pessoa estiver se explicando saiba ouvir e ouça também as entrelinhas, isto é, o que ela não está dizendo, mas insinuando por gestos, tom de voz e postura. Assim descobrirá muito além das aparências. Faça perguntas que levem ao esclarecimento do problema. Mesmo que em circunstâncias normais não se deva interromper quem fala, se a outra pessoa não consegue desenvolver seu pensamento, ou estiver se desviando do assunto ou ainda se expressando com dificuldade, interrompa fazendo perguntas objetivas que recoloquem o diálogo nos trilhos. Pergunte qual é a sugestão da outra pessoa para sanar o conflito.

5 – Seja construtivo ao fazer uma crítica.

Evite a armadilha da personalidade, usando frases diretas e acusativas do tipo: “Você só sabe trabalhar para si e não ajuda ninguém” ou “Você me prejudicou de propósito”. As pessoas sentem-se acusadas e colocam-se na defensiva quando ouvem frases como “Você fez isso” ou “Você errou aquilo”. Concentre-se no problema ou comportamento e não na personalidade das pessoas. No primeiro exemplo anteriormente dado, uma outra forma de abordagem poderia ser: “Seu comportamento de afastar-se do grupo tem trazido problemas quanto ao cumprimento de prazos do setor”· No segundo exemplo, a frase poderia ser: “Sua atitude acabou me prejudicando”. Evite também críticas vagas ou malfeitas do tipo: “Seu trabalho tem deixado muito a desejar”. É algo muito impreciso: por isso fale de modo específico: “A pontualidade é algo muito importante pra mim, e o seu relatório foi concluído com dois dias de atraso. Além disso, o item 5 não faz menção às novas datas estipulados pelo cliente, corniforme os dados que lhe repassei anteriormente”. Da mesma forma, quando alguém lhe dirigir críticas vagas, solicite esclarecimentos “Você é muito negativo” ou “Seu trabalho está abaixo da média” não dizem muito. Pergunte então: “Onde o meu comportamento é negativo?” ou “Onde o meu trabalho está abaixo da média? “Eu gostaria de saber para melhorar”.

6 – Procure a solução Ganha-Ganha.

O ganha-perde ou perde-perde são as piores formas de solucionar conflitos.

Sempre restarão alguns estilhaços doloridos, aguardando a melhor hora para o contra-ataque. Procure a relação ganha- ganha em que ambos os lados saiam ganhando, sem impor ou humilhar a outra parte. Os conflitos não são casuais. Eles ocorrem quando as pessoas sentem-se frustradas ou intimidadas, ignoradas, não reconhecidas, injustiçadas, inseguras, traídas ou algo assim. Por outro lado – felizmente – as pessoas todas evitam conflitos e tornam-se cooperativas sempre que percebem algo de vantajoso para elas ou para o grupo.

As pessoas cooperativas são aquelas que têm algo a ganhar com isso, e grande parte das vezes não se trata de dinheiro. Elas podem querer, por exemplo, segurança, estabilidade, reconhecimento, promoção, crescimento pessoal, harmonia em equipe, desafios profissionais, elogio etc. Mostre, portanto à outra

parte o que ela tem a ganhar com a solução do conflito (ou o que ela tem a perder se perdurar) e terá dado um grande passo para a solução do desentendimento.

7- Aja sempre no sentido de eliminar conflitos.

Existem muitos métodos parra eliminar comportamentos de resistência. Você poderá utilizar um ou vários desses métodos para resolver impasses com colegas ou subordinados:

A – Mostre um Exemplo de Sucesso. Exemplifique como o mesmo problema foi enfrentado pela pessoa X ou pelo Departamento A e que a solução foi encontrada utilizando o mesmo processo a ser agora adotado, provando, assim, sua eficiência.

B – Dê uma Garantia. Garanta que, se o novo layout, a nova tecnologia, ou seja, lá o que for, não der certo dentro de um determinado prazo (quinze dias, um mês, etc.), então será adotado o sistema antigo ou algum outro.

C – Faça uma Demonstração. Há resistências quanto a um novo equipamento ou um novo sistema? Use-o, ou faça você mesmo funcionar (ou alguma outra pessoa que entenda disso) e mostre os resultados positivos.

D – Tente simplesmente ouvir. Ouça os argumentos da outra parte atenciosamente. Ao terminar o que ela tem a dizer, experimente persuadi-la por meio de uma argumentação sequenciada e lógica.

8 – Evite preconceitos.

Preconceitos são, talvez, os piores bloqueadores na administração de conflitos. Estão relacionados com valores e crenças profundamente arraigados no íntimo das pessoas. A própria palavra preconceito explica o seu significado: pré-conceito, isto é, conceito prévio. O conceito já está previamente embutido e cristalizado na mente da pessoa, atuando como um clichê ou rótulo, sempre que determinado assunto é abordado. Suspende-se o julgamento (um dos dons mais preciosos do ser humano) e aciona-se o piloto automático, que passará então a comandar os pensamentos a respeito do tema ou da situação enfrentada. Os preconceitos mais comuns estão relacionados à cor, religião, sexo, nacionalidade, idade, ideologia política, deficiência física e mental. É difícil libertar-se desses estereótipos, mas uma das melhores armas contra eles é imbuir-se e conscientizar-se de cada caso é um caso e cada pessoa é uma pessoa, e que o problema deve ser administrado dentro de sua realidade única e específica, por mais parecido que possa ser com casos semelhantes do passado.

Toda pessoa é única (não existem duas iguais, por mais semelhanças que possam ter) e todo conflito é singular, pois os fatores que o originaram nunca são totalmente idênticos e, se o são, os desdobramentos poderão tomar rumos inusitados. Pense nisso da próxima vez em que tiver de “solucionar” um conflito sobre o qual você ache que já sabe tudo a respeito por já ter enfrentado situações iguais e pessoas parecidas.

9 – Mantenha a calma.

Mantenha a calma, não reaja mal às más-notícias e, sobretudo, não se irrite se alguém discordar de seu ponto de vista. Administrar conflitos significa também administrar a si mesmo e ao seu humor – ambiguidades, incertezas e atitudes passionais fazem parte do processo conflitual, principalmente nos estágios mais agudos. Mantenha a cabeça fria e segure a mão firme no leme, sem perder o controle da situação, e tenha uma atitude de tranquilidade e confiança. Devido a essa postura, os outros aceitarão sua liderança e passarão a confiar em você.

Escolha sempre o momento mais adequado para tratar do assunto conflitante. Conserve o objeto da discórdia exclusivamente entre os envolvidos e abstenha-se de fazer propaganda, fofoca ou lançar boatos a respeito. Se a situação estiver muito confusa e os ânimos exaltados, às vezes é bom dar um tempo, para que as cabeças esfriem. Convoque uma reunião para mais tarde ou para o dia seguinte e, enquanto isso, faça o seu dever de casa e analise bem a situação para estabelecer sua estratégia de abordagem.

1 O – Quando estiver errado, reconheça o erro.

isso não vai diminuí-lo ou torná-lo vulnerável, como muitos supõem. Pelo contrário, você provocará o respeito dos outros por demonstrar que o seu interesse não é provar que você é perfeito ou infalível, mas sim buscar a melhor solução para o conflito, mesmo que, para isso, você tenha que admitir que cometeu um erro.

11 – Não varra os problemas para debaixo do tapete.

Se houver um conflito enfrente-o, usando para isso a abordagem que melhor se coadune com o momento. Não ignore a situação, nem contemporize achando que o tempo sanará o desentendimento. O tempo quase sempre só agravará a discórdia. Pode, no entanto, haver situações especiais em que é mais vantajoso não encarar o conflito do que enfrentá-lo, pois a relação custo-benefício seria desfavorável. Neste caso use o seu bom senso para discernir quando fazê-lo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

De bem com seu cérebro

DE BEM COM SEU CÉREBRO

Neurociência oferece informações preciosas sobre nove atitudes fundamentais para melhorar – e, sobretudo, manter o raciocínio e a memória ágeis por mais tempo.

Até recentemente, os estudos neuro científicos se concentraram principalmente em doenças e causas variadas de infelicidade e mal­ estar. Nos últimos anos, no entanto, uma bem-vinda extensão do enfoque levou pesquisadores a se interessar também pelo que é saudável: as maneiras de manter o cérebro funcionando com saúde, da melhor forma possível; a satisfação e as formas de alcançá-la; os mecanismos do prazer, da felicidade e seus efeitos benéficos sobre o sistema nervoso. Mais do que a ausência de mal-estar, o bem­ estar envolve um conjunto de sensações de satisfação, prazer, motivação, auto­estima, força física, relacionamento sociais benéficos, alguma independência e autonomia sobre a própria vida.

Ao começar a compreender esses processos, a neurociência hoje oferece informações preciosas sobre fatores mais importantes para encontrarmos paz e felicidade com o cérebro que temos – e, sobretudo, para mantê-las. O desafio mental constante, por exemplo, ajuda a desenvolver novas conexões neuronais e a reforçar as que estão fracas, diminuindo o risco de surgirem doenças neurológicas degenerativas ou, pelo menos, aumentar nossas chances de amenizá-las ou retardar seu aparecimento. Se por um lado é verdade que o bem-estar depende do cérebro, por outro só nos sentimos bem quando esse órgão recebe informações do corpo de que também este está em boas condições. O sistema interoceptivo – que leva informações à ínsula, região do córtex que monitora o estado fisiológico do corpo e suas expressões emocionais de prazer, surpresa, medo, alegria – dedica­ se exatamente a essa tarefa. Embora o cérebro represente apenas 2% da massa corporal, ele consome 20% da energia necessária ao longo do dia, trazida pelo sangue. O fluxo sanguíneo intenso e constante é crítico: uma redução de apenas l % é suficiente para provocar mal-estar e até desmaio. Alguns dos principais fatores de risco de acidentes vasculares são evitáveis, como o fumo, a hipertensão, o sedentarismo e o consumo excessivo de álcool. Nunca a frase “corpo são, mente sã” pareceu tão embasada cientificamente: cuidar da saúde física, de fato, faz bem à cabeça – e em médio e longo prazo significa investir na futura saúde mental. A seguir, oito atitudes que, comprovadamente, fazem bem à saúde mental e neurológica. Seu cérebro agradece a leitura.

OUVINDO EMOÇÕES

O que sentimos é resultado da capacidade do cérebro de alterar a si mesmo e ao corpo em resposta às mais variadas situações ou, às vezes, à simples visão ou memória de uma pessoa, animal ou objeto. A primeira consequência dessa transformação (de expressão, comportamento, temperatura, funcionamento de órgãos etc.) é que ficamos mais aptos a lidar com as variadas situações. Outra consequência é que as mudanças corporais nos permitem reconhecer emoções, como se fossem assinaturas.

Uma das descobertas surpreendentes da neurociência é que as emoções são fundamentais para tornarmos boas decisões. Ao contrário do que diz o senso comum, emoções não são ilógicas, o oposto da racionalidade, e sim a demonstração mais rápida da lógica fundamental do cérebro de cada um, provocadas no corpo com base nas experiências anteriores daquela pessoa. Como as estruturas cerebrais envolvidas, no sistema límbico, têm acesso privilegiado à memória de situações anteriores similares, uma resposta emocional pode ser oferecida em cada caso bem antes que elaborações racionais tenham tempo de acontecer.

Rápidas e personalizadas, as emoções representam a primeira “opinião” do cérebro sobre qualquer assunto e, desde o começo, direcionam comportamentos, fazendo-nos preferir um ou outro curso de ação, mesmo que ainda não saibamos explicar por quê. Essa rapidez, sempre baseada no “banco de dados” disponível na memória, torna possível resolver em tempo hábil questões simples que seriam proibitivamente demoradas caso todas as variáveis envolvidas fossem processadas pela razão.

PRAZER FAZ BEM

Temos no cérebro uma estrutura de cerca de 1 centímetro de diâmetro, chamada núcleo accumbens, com poderes particularmente interessantes: ela nos permite sentir prazer. Quanto mais intensa for sua ativação, maior é a sensação alcançada, que vai da leve satisfação à franca euforia. Ativar esse processo é algo simples e ao nosso alcance, que podemos fazer várias vezes por dia. Basta fazer algo que o cérebro considere que deu certo: resolver mentalmente um problema, concluir um trabalho, passar de fase no videogame, beijar pessoas amadas, comer algo de que gostamos ou ouvir uma boa música. Ao reconhecer que fomos bem-sucedidos em algo, que atendemos às expectativas ou admitirmos que somos interessantes por alguma razão, o córtex cerebral providencia uma dose de dopamina para o núcleo accumbens. Quanto mais o núcleo recebe esse neuro­transmissor, mais ativo ele fica e mais prazer nos proporciona. Os mecanismos que promovem essa sensação, porém, ainda são um mistério para a ciência. Esse prazer com o que fazemos cor retamente – proporcionado pelo accumbens e estruturas associadas a ele que formam o sistema de recompensa do cérebro – é a base neurológica da satisfação e da autoestima.

É a motivação que nos impulsiona às mais diversas realizações, quando o sistema de recompensa é precocemente ativado – e antevemos um resultado positivo. O otimismo funciona de maneira semelhante: ter atitude e expectativas positivas em relação à vida favorece a ativação antecipada do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com os feitos alcançados, suas chances de faze r algo realmente dar certo, faz você lidar melhor com situações negativas e até melhora a resistência a doenças.

HORA DE RIR, HORA DE CHORAR

Em linhas gerais, podemos dizer que felicidade é o estado do cérebro que vê tudo dando certo: emoções positivas inibem o córtex cingulado anterior (uma espécie de centro de alarme cerebral), e provoca maior atividade elétrica no lado esquerdo do córtex frontal. sorriso, expressão mais evidente do bem-estar, aparece quando as regiões do córtex que cuida de programas motores fazem músculo zigomático e levar cantos da boca, e o orbicular dos olhos apertar levemente pálpebras; o músculo corrugado da testa (que eleva as sobrancelhas em situações de medo o espanto), relaxa. Além disso, acionado o córtex órbita-frontal que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo a causa do sorriso. O gesto genuíno de sorrir coincide com aumento da atividade da região frontal esquerda, associada a felicidade.

O sorriso ainda tem a vantagem de ser contagioso. Ver alguém sorrir ativa as mesmas áreas do cérebro acionadas quando nós mesmos sorrimos, incluindo as regiões corticais motoras e córtex da ínsula anterior, responsáveis pelas sensações subjetiva do corpo, como o bem-estar associado ao sorriso.

Apesar dos benefícios cerebrais da alegria, ela deve ter hora – da mesma forma que a triste uma emoção também importante e útil. Em algumas situações e tremas, como a perda de pessoas queridas, a tristeza profunda é única resposta razoável de um cérebro saudável. A depressão, ao contrário, é um estado tristeza não justificada. Com ela, também existe o estado felicidade e motivação desmedidas, exageradas, que não reflete a realidade da vida: é a euforia (mania), condição que à primeira vista parece bênção, mas rapidamente se torna maldição – e que a neurociência começa a entender como um estado de ativação exagerada do sistema de recompensa típico de transtorno bipolar.

O DESAFIO DE LIDAR COM O STRESS

Muitos dos transtornos que afligem o cérebro, como depressão e a mania, podem ser disparados em períodos de stress intenso. Isso não significa, no entanto, que o stress, por si só seja sempre um vilão. É fundamental que possamos identificar situações ameaçadoras e reagir elas de forma condizente. O stress agudo tem efeitos benéficos sobre a memória e a resposta imunológica. A resposta imediata a ele é altamente desejável, pois nos permite resolver as mais diferentes situações. O cérebro, porém, não apenas responde, mas também antecipa possíveis situações estressantes. Algumas preocupações são saudáveis, embora deflagrem uma espécie de stress antecipado, chamada de ansiedade, que pode ser percebido como indesejável. Em doses saudáveis, no entanto, essa habilidade de “preocupar-se “evita que nos coloquemos em situações problemáticas, o que é favorável – desde que nas horas certas.

A ansiedade crônica, porém, diminui a qualidade de vida ao fazer com que o cérebro “crie” seu próprio stress crônico, apontado pela neurociência hoje como o vilão da história. Por meio da produção sustentada de doses maciças de hormônios glicocorticoides no sangue, que agem diretamente sobre neurônios do cérebro, levan­do-os à morte, a resposta de stress prolongada e exagerada acaba por tomar ruim para corpo e cérebro tudo o que inicialmente era bom.

A FORÇA DOS EXERCÍCIOS

Boa a parte dos problemas de saúde mental dos idosos é causada ou agravada pela má saúde física. A troca de massa muscular por gordura, a tendência ao sedentarismo e à hipertensão comprometem o desempenho cardiovascular, o que aumenta a possibilidades de ocorrência de micro derrames e acidentes vasculares – sobretudo por causa do acúmulo de placas ateroscleróticas nas artérias, com o passar do tempo.

O exercício físico intenso também é um dos melhores estabilizadores de humor que a neurociência moderna conhece.

No final dos anos 90, a neurociência descobriu que a ação antidepressiva e estabilizadora do humor do exercício físico está relacionada a uma ação surpreendente do corpo sobre o cérebro: a capacidade de fazer com que aumente a produção de neurônios novos no hipocampo e no sistema de recompensa.

Hoje se sabe que o hipocampo, conhecido por seu papel na formação de novas memórias, também atua como a origem de um sistema de alarme que nos lembra de tarefas a cumprir e gera a ansiedade que nos chama a atenção para os deveres. Como os neurônios novos no hipocampo têm ação inibitória, funcionam como um freio que mantém sob controle a percepção do stress e a resposta a ele. Disfunções nesse sistema, como a perda do controle inibitório interno do hipocampo, causam ansiedade e aumentam a resposta ao stress.

Aqui está a importância dos ansiolíticos, substâncias capazes de aumentar diretamente a inibição dentro do hipocampo e, portanto, conter a resposta ao stress. E aqui está, também, o local de ação de todos os tratamentos com efeitos antidepressivos – incluindo o exercício físico. Os efeitos se dão através da produção de um fator de crescimento, chamado BDN F, em resposta a antidepressivos, lítio, eletrochoque – e exercício físico.

Contar com maior quantidade de neurônios no hipocampo antes de ocorrerem situações estressantes também confere uma grande vantagem ao cérebro: ele responderá de forma mais adequada (e saudável) em situações de stress crônico. O aumento de células neurais a cada dia pode até dobrar se acrescentamos o exercício físico à rotina.

DORMIR BEM E BASTANTE

O sono é fundamental para o bem-estar: é nesse momento em parar de funcionar, o cérebro descansa, reorganiza as memórias do dia – e se prepara para lidar de maneira saudável com o stress do dia seguinte. Durante a fase sem sonhos de cada noite ocorre o único período do dia em que o sistema nervoso simpático, responsável pela resposta ao stress de disponibilização de energia para a ação, é totalmente desligado. Em seu lugar, o sistema parassimpático reina sozinho sobre o corpo, permitindo que ele reduza o metabolismo e reponha suas reservas energéticas.

Já falta de sono é por si só um stress: a insônia leva à liberação de altos níveis de cortisol no sangue, o que desencadeia alterações no comportamento. Pesquisas realizadas com ratos impossibilitados de dormir mostram, por exemplo, que os animais se tornam mais agressivos. Longos períodos de vigília prejudicam a memória e a cognição.

Além disso, a relação entre o sono e a regulação da resposta ao stress faz com que a falta de sono leve a problemas de saúde associados ao stress crônico. Um estudo recente mostrou que, entre pessoas que dormem seis horas e meia por noite, aquelas com o sono fragmentado, que acordam várias vezes durante a noite, têm níveis mais altos de gordura e cortisol no sangue, e pressão arterial elevada. O problema se agrava porque a ansiedade associada ao próprio stress crônico pode levara insônia e fragmentação do sono – o que agrava a resposta crônica de stress, e toma o adormecimento ainda mais difícil. Outro estudo mostrou que a falta de sono é duplamente maléfica à capacidade do cérebro de regular a resposta ao stress, pois não só reduz a produção de neurônios novos no hipocampo como ainda aumenta a morte dos neurônios que já estão lá.

ALIMENTO PARA PENSAR MELHOR

O que comemos pode influir na maneira como raciocinamos? Pesquisas mostram que sim, já que o cérebro é o órgão mais exigente do corpo – e tem algumas necessidades dietéticas específicas. Não é de estranhar, por tanto, que mantê-lo adequadamente alimentado favoreça mecanismos cognitivos e mnemônicos. Uma providência que pode contribuir, logo cedo, para a acuidade das funções cognitivas é tomar café da manhã. Estudos revelam que deixar de lado a primeira refeição do dia reduz o desempenho intelectual.

Pesquisa desenvolvida pela nutricionista Barbara Stewart ­ Knox, professora da Universidade de Ulster, Reino Unido, e publicada em 2003, mostrou que crianças que tomam o café da manhã com bebidas gasosas e petiscos açucarados tiveram desempenho similar 20 de pessoas com 70 anos em estes de memória e atenção.

Segundo a pesquisadora, a ingestão de torradas aumentou a pontuação das crianças numa variedade de testes cognitivas, mas quando os exercícios ficaram mais complexos, os voluntários que tornaram, no café matinal, cereais com alto teor de proteínas obtiveram melhores resultados.

A despeito da polêmica que o consumo de ovos tem despertado, estudos recentes indicam que a omelete é uma escolha inteligente para o almoço se feito praticamente sem gordura, acompanhado de salada. O ovo é rico em colina, substância usada pelo organismo para produzir o neurotransmissor acetilcolina. Pesquisadores da Universidade de Boston, Estados Unidos, constataram que, quando ad­ ministrado em adultos jovens, o fármaco escopolamina, que bloqueia os receptores de acetilcolina no cérebro, reduz significativamente a capacidade de memorização de pares de palavras. Baixos níveis do neurotransmissor também estão associados à doença de Alzheimer; alguns estudos sugerem que o aumento dessa substância na dieta pode diminuir o ritmo da perda de memória relacionada à idade.

Para manter os níveis de glicose em alta, convém fazer um lanche no meio da tarde. Só tenha o cuidado de evitar asco­ midas calóricas com baixo valor nutritivo e, particularmente, guloseimas altamente processadas, como bolos, massas doces e salgadas e biscoito, que contêm ácidos graxos trans. Elas não provocam apenas acúmulo de quilos. Há três anos, durante o congresso anual da Sociedade de Neurociência em San Diego, Califórnia, foi relatado que ratos e camundongos criados com junk food para roedores tiveram dificuldade de encontrar saída em labirintos e levaram mais tempo para lembrar soluções de problemas que já tinham resolvido. Quando esses animais receberam uma droga para reduzir os níveis de triglicerídeos, seu desempenho nas tarefas de memorização melhorou.

 RECEBER E OFERECER CARINHO

O carinho tem um enorme impacto sobre o cérebro. Esse tipo particular de toque, compressão moderada e movimento lento sobre a pele, é detectado por fibras nervosas especiais, que levam a informação à ínsula. A partir daí os efeitos são distribuídos pelo cérebro: o hipotálamo diminui os níveis corporais de hormônios do stress, o lorns coeruleus reduz sua atividade e a quantidade de noradrenalina – neurotransmissor que ativa os sistemas de alerta e vigília – que ele libera sobre o cérebro. Os músculos relaxam e, ao sentir o corpo menos tenso, o cérebro também “relaxa”. Com menos stress para corpo e cérebro, aumenta a sensação de bem-estar. Com o tempo, os neurônios do hipocampo são mantidos mais saudáveis, já que sua atrofia ao longo dos anos adultos é diretamente relacionada ao stress –  incluindo a solidão.

Do ponto de vista evolutivo, a expressão física do afeto aproxima as pessoas e leva à formação de vínculos sociais e afetivos. Um simples abraço pode ser suficiente, por exemplo, para fazer o cérebro aumentar a liberação de ocitocina, hormônio que facilita a aproximação entre pessoas. Além de ter efeito tranquilizante sobre o cérebro, reduzindo o nível de alerta e ansiedade, a ocitocina reduz medos e fobias, nos torna mais confiantes, e ainda oferece uma sensação de bem-estar ao estimular o sistema de recompensa.

Ao ser acariciado o bebê reconhece a presença de um outro que o aquece, protege e alimenta. Nessa fase, o afeto “ensina” o cérebro a formar uma resposta saudável a stress. Também na vida adulta, o toque delicado é uma maneira poderosa de regular ansiedade respostas exageradas ao stress de maneira geral. Mais curioso, contudo, é que o carinho se “propaga” de uma geração para a outra. Se a criança é tratada com carinho desde o nascimento, seu cérebro alcançará uma melhor “regulagem” do sistema de resposta ao stress, o que lhe dará mais chances de se tomar mais resistente a situações que causam medo e ansiedade. E também mais possibilidades de desenvolver relacionamentos amorosos no futuro.

SOLIDÃO QUE FAZ ADOECER

Para seres sociais, como nós, ter companhia é mais do que um desejo: é uma necessidade, fundamental para o bem-estar. Curiosamente, essa necessidade não se dá tanto pela possibilidade de recebermos afeto efetivamente, e sim por sabermos que os outros estão lá, disponíveis e ao nosso alcance, mesmo que seja apenas para nos ouvir e oferecer um ombro amigo em tempos difíceis. Por isso, o isolamento prolongado costuma provocar sofrimento psíquico – e faz o corpo adoecer.

Estudos revelam que pessoas que cultivam relacionamentos conjugais harmoniosos e/ou têm amigo s íntimos adoecem menos e vivem mais do que as que têm poucos relacionamentos afetivos. O impacto positivo direto dos relacionamentos sobre o bem-estar pode estar na regulação da resposta ao stress crônico. Se considerarmos que o próprio isolamento é para o cérebro uma fonte de stress, fica fácil entender por que as pessoas socialmente isoladas têm o sistema nervoso simpático – aquele que dispara a resposta ao stress – cronicamente hiperativo. Como a resposta crônica e intensa a vivências estressantes provoca hipertensão e leva à formação de placas nas artérias, essas pessoas têm de duas a cinco vezes mais riscos de sofrer de doenças cardíacas. No que talvez seja a descoberta da neurociência de maior impacto social da década, hoje sabemos como o contato social, na forma de abraços, beijos e carinhos, garante ao cérebro que você não está sozinho no mundo.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

MENTE E EMOÇÕES

O discipulado cristão abrange toda a nossa persona­lidade humana. Devemos amar o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, alma, entendimento e for­ça. Nossa mente deve ser renovada e nossas emoções purificadas, nossa consciência deve estar sempre limpa e nossa vontade submissa à vontade de Deus. Uma das exigências do discipulado é que tudo o que conhecemos sobre nós mesmos esteja comprometido com tudo aquilo que nós conhecemos acerca de Deus. Mas, dentre os vários elementos de que se constitui o nosso ser humano, o que mais ocupa os autores bíblicos é a nossa mente e as nossas emoções. Por isso vamos considerar cada um separadamen­te, e depois os dois em relação um com o outro.

A MENTE

Conta-se que duas mulheres estavam conversando no su­permercado do bairro e uma disse à outra: “O que é que há com você? Parece tão preocupada!”

“E estou mesmo”, respondeu sua amiga; “não paro de pensar na situação do mundo.”

“Bem”, disse a primeira senhora, “é melhor você levar as coisas mais filosoficamente… e pare de pensar!”

É realmente engraçada essa ideia de que a maneira de se tornar “mais filosófico” é pensar menos. Mas estas duas senhoras estavam refletindo o espírito anti-intelectual mo­derno, que produz pessoas que desistiram de pensar.

Essa tendência deve ser confrontada com a advertência do apóstolo Paulo: “Irmãos, não pensem como crianças.

Quanto ao mal sejam crianças, mas no modo de pensar sejam adultos”. Note-se que ele começa exatamente com as palavras usadas por uma das mulheres do supermercado: “Pare de pensar”. Só que ele continua: “…como crianças”. É verdade que Jesus nos disse para nos tornarmos como crianças; mas com isso ele não estava dizendo que preci­samos imitar as crianças em tudo. Da mesma forma, Paulo nos exorta a sermos crianças — de fato, “infantes” ou “bebês” — no mal (quanto menos sofisticados formos em relação ao mal, melhor); mas em nossa maneira de pensar, acrescenta ele, temos de crescer, tornar-nos maduros. Toda a revelação bíblica está por detrás do apelo de Paulo.

Primeiro, o uso responsável da nossa mente glorifica o nosso Criador. Afinal, ele é (entre outras coisas) um Deus racional, que nos criou, à sua própria imagem, seres racionais e nos deu, por nossa natureza e nas Escrituras, uma revelação dupla e racional, e espera que usemos nossas mentes para explorar o que ele revelou. Toda pesquisa científica é baseada nas seguintes convicções: o universo é um sistema inteligível e até significativo; existe uma correspondência fundamental entre a mente do pesquisa­dor e os dados a serem investigados; essa correspondência é a racionalidade. Por isso “um cientista que se defronta com uma aparente irracionalidade não a aceita como definitiva… Ele continua tentando encontrar alguma for­ma racional pela qual os fatos possam ser relacionados uns com os outros… Sem essa ardente confiança na suprema racionalidade do mundo, a ciência iria estagnar e mor­rer…”. Portanto, não é por acaso que os pioneiros da revolução científica eram cristãos. Eles acreditavam que o Deus racional havia gravado sobre o mundo e sobre eles o selo da sua racionalidade. Desta forma os cientistas, quer saibam, quer não, estão “pensando pensamentos de Deus, assim como ele”, como expressou no século XVII o astrônomo alemão Johannes Kepler.

Quem estuda a Bíblia de forma consciente também está “pensando pensamentos de Deus, assim como ele”, pois, na Escritura, Deus nos deu uma revelação ainda mais clara e completa de si mesmo. Ele “falou” conosco, comunicando através de palavras os seus pensamentos. Em particular, ele nos revelou seu amor por pecadores como nós e o plano que tinha de salvar-nos através de Jesus Cristo.

Portanto, se Deus fez de nós pessoas racionais, porventura iremos negar este aspecto essencial da nossa criação? Se ele se deu ao trabalho de revelar-se a nós, será que vamos negar sua revelação? De maneira nenhuma. Usar apropria­damente a nossa mente não é nem abdicar da nossa res­ponsabilidade e ir para a cama, nem proclamar a autonomia do raciocínio humano (como fizeram os líderes do Ilu­minismo), colocando sob julgamento os dados da revelação divina, mas, sim, assentar-nos humildemente em submis­são a eles, estudando-os, interpretando-os, sintetizando-os e aplicando-os. Somente assim poderemos glorificar o nosso Criador.

Em segundo lugar, o uso responsável da nossa mente enriquece a nossa vida cristã. Não estou pensando agora em educação, cultura ou arte, que enriquecem e dão qua­lidade à vida humana, mas sim em nosso discipulado, do qual nenhuma parte é possível se sufocarmos a nossa mente. “Rememorando a minha experiência como pastor durante uns trinta e quatro anos”, escreveu Martyn Lloyd-Jones, “posso testemunhar sem a menor hesitação que as pessoas que eu mais encontrei com problemas na sua experiência espiritual foram aquelas que não tinham entendimento. Estas coisas não podem ser divorciadas uma da outra. Quando não se tem um verdadeiro enten­dimento, tudo dá errado, tanto na vida prática como na experiência.”

Deixem-me ilustrar isto em relação à fé. É impressio­nante como muitas pessoas pensam que fé e razão são incompatíveis. Mas estas nunca se contradizem na Escritura. Fé e vista são contrastadas, mas não fé e razão. Fé, conforme as Escrituras, não é nem credulidade, nem superstição, nem “uma crença ilógica na ocorrência do improvável”, mas uma tranquila e atenta confiança no Deus que se sabe ser digno de confiança. Consideremos Isaías 26.3-4:

Tu, Senhor,

conservarás em perfeita paz

aquele cujo propósito é firme;

porque ele confia em ti. Confiai no Senhor perpetuamente,

porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.

Nestes versículos, confiar no Senhor e deixar que a mente descanse firmemente nele são sinónimos; a razão de se con­fiar nele é que ele é uma rocha firme; e o galardão da fé é a paz. Somente refletindo na imutabilidade de Deus é que a nossa fé cresce. E quanto mais nos damos conta de que ele é imutável, tanto mais firme se torna a nossa fé.

Ou então consideremos a nossa necessidade de receber orientação divina. Muita gente pensa que a orientação divina é uma alternativa para o pensamento humano, ou mesmo um artifício muito conveniente, pois lhes poupa o incómodo de pensar. Elas esperam que Deus vá refletir na tela do seu interior respostas para suas perguntas e so­luções para os seus problemas, sem levar em conta o raciocínio delas. E Deus, é claro, tem toda liberdade para fazer isso; e talvez ele até o faça uma vez ou outra. Mas a Escritura nos dá o respaldo para insistirmos que a maneira normal de Deus nos guiar é racional e não irra­cional, ou seja, exatamente através dos processos de pen­samento que ele criou em nós.

O Salmo 32 deixa isso muito claro. O versículo 8 contém uma maravilhosa promessa de orientação divina, que se poderia desdobrar em três aspectos:  “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho.” Mas como Deus irá cumprir sua promessa? O versículo 9 continua: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obede­cem.” Se colocarmos lado a lado a promessa e a proibição, o que Deus está nos dizendo é: “Eu prometo que irei guiá-lo, mostrando-lhe o caminho a seguir. Mas não espere que eu o guie como se faz com os cavalos e as mulas (isto é, pela força e não pela inteligência), pelo simples fato de que você não é um cavalo e nem uma mula. Eles não têm ‘entendimento’; mas você tem. Na verdade, eu mesmo lhe dei o precioso dom do entendimento. Use-o! Então eu o guiarei por intermédio de   seu entendimento.”

Em terceiro lugar, o uso responsável da nossa mente fortalece o nosso testemunho evangelístico. Quanto do evangelismo moderno é uma violação às emoções e à vontade, sem a mínima consideração pela mente! Mas o nosso apelo evangelístico nunca deveria pressupor que as pessoas vão interromper, e muito menos anular, o seu raciocínio. É verdade que o evangelho espera de nós uma mente humilde, mas ele também requer que tenhamos uma mente aberta à verdade de Deus.

É assim que Deus age, e a prática dos apóstolos deixa isso muito claro. Vimos, no capítulo 3, que em Corinto Paulo renunciou à sabedoria do mundo e à retórica dos gregos; mas do conteúdo doutrinário da sua pregação e da apresentação de argumentos ele não abriu mão. Ali mesmo em Corinto, Lucas o retrata “arrazoando” com as pessoas e tentando “persuadi-las”, enquanto que em Éfeso ele “discorria” e debatia diariamente em uma escola se­cular durante dois anos. É verdade que a sua confiança estava no Espírito Santo. Mas, sendo o Espírito de ver­dade, o Espírito Santo conduz as pessoas à fé em Cristo por meio das evidências e não a despeito destas. Em nossos dias, é urgentemente necessário que se inclua a apologética em nossa evangelização; ou seja, tanto quanto proclamar o evangelho, nós temos que defendê-lo. Em toda a nossa evangelização nós precisamos ser capazes de declarar, como Paulo fez para Festo: “Digo palavras de verdade e de bom senso”. Além disso, Deus com certeza está cha­mando alguns homens e mulheres em nossa geração, tal como o fez no passado, a fim de dedicarem seu intelecto dado por Deus para a tarefa de “defender e confirmar o evangelho”.

Precisamos, portanto, arrepender-nos desse culto à es­tupidez, bem como de qualquer resquício de anti-intelectualismo ou de preguiça intelectual que porventura tenhamos alimentado. Estas coisas são negativas, limi­tadoras e destrutivas. Elas insultam a Deus, nos empobre­cem e enfraquecem nosso testemunho. O uso responsável de nossas mentes, por outro lado, glorifica a Deus, nos enriquece e fortalece nosso testemunho no mundo.

Necessitamos, no entanto, duas qualificações, pois há dois “ismos” que, se não permanecermos alertas, poderão resultar dessa ênfase na mente.

São eles o elitismo e o intelectualismo. O elitismo, neste contexto, limitaria o pensamento cristão a uma pequena minoria de pessoas educadas na universidade. Daria a impressão de que apenas um grupo seleto e mesmo exclu­sivo de cabeças pensantes seria capaz de usar a mente. Mas esta é uma idéia bizarra, que devemos combater com toda veemência. É verdade que os cristãos foram os pioneiros da educação, e seu desejo é que todo mundo tenha a melhor educação possível, a fim de desenvolver ao máximo o seu potencial. Entretanto, a educação formal não é fator in­dispensável para o desenvolvimento do pensamento cris­tão. Todos os seres humanos foram criados seres racionais à imagem de Deus e têm a capacidade de aprender a pensar. Há alguns anos, eu estava falando a um grupo de clérigos em Liverpool e disse alguma coisa quanto a usar a nossa mente dada por Deus. Assim que acabei de falar, alguém se levantou e reagiu, dizendo que eu estava limitando o cristianismo aos intelectuais e excluindo as classes ope­rárias, entre as quais ele trabalhava. Eu nem precisei replicar, pois na mesma hora vários obreiros que traba­lhavam em bairros pobres se ergueram, furiosos. “Você está insultando as classes trabalhadoras”, disseram ao homem que havia falado. “Os operários podem não ter tido tanta educação formal quanto você, mas eles são tão inteligentes e tão capazes de pensar quanto você!” Nossa tarefa, portanto, é incentivar todo o povo de Deus a pensar, e não desenvolver uma elite intelectual.

O segundo perigo é o intelectualismo, ou o encorajamento de um cristianismo que seja por demais “cerebral” e muito pouco “visceral”. Isto é: um cristianismo que fique só no cérebro, mas que não chegue às entranhas, um cristianismo sem sentimentos. Contudo, para incentivar uma pessoa a usar o seu raciocínio não é necessário exortá-la a suprimir os seus sentimentos. Eu sempre digo aos nossos alunos do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, em Londres, que a nossa função ali não é “criar girinos”. O girino é uma criatura pequenina com uma cabeça enorme — e nada mais além disso. Certamente existe por aí um bom número de “cristãos-girinos”. Suas cabeças estão explodindo de pura teologia, mas isso é tudo que eles têm. Nada disso. Nós queremos ajudar as pessoas a desenvolverem não apenas uma mente cristã, mas também um coração cristão, um espírito cristão, uma consciência cristã e uma vontade cristã — ou seja, a tornarem-se cristãos integrais, pessoas totalmente integradas, sob o senhorio de Cristo. E isto inclui suas emoções.

O livro O Escolhido, de Chaim Potok, e o filme nele baseado ilustram muito bem isso. E a história de dois jovens judeus que se criaram no Brooklin, Nova York, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. O pai de Danny Saunders era um rígido rabi hasídico, enquanto que o pai de Malter era um escritor, pertencente à tradição liberal judaica. Na amizade dos dois meninos estas duas tradições entraram em conflito. A pessoa do Rabi Saunders nos impressiona durante quase todo o livro, porque, embora seja uma pessoa muito humana, ele nunca fala com Danny, a não ser quando está lhe ensinando coisas do Talmude. Pelo contrário, ele mantém entre’ eles um “estranho silên­cio”. Só quase no final é que se explica o mistério. O Rabi Saunders diz que Deus o abençoou com um filho brilhante, “um menino com uma mente que é uma jóia”. Quando Danny tinha apenas quatro anos, seu pai viu-o lendo um livro; e ficou assustado, pois ele o “devorava”. O livro descrevia os sofrimentos de um pobre judeu, mas mesmo assim Danny se deliciava com a leitura! “Não havia alma alguma em meu Danielzinho de quatro anos, mas apenas a sua mente. Ele era uma mente num corpo sem alma!” Então o rabi clamou a Deus: “O que fizeste comigo? Será que eu preciso de uma mente dessas para ser meu filho? Eu preciso de um coração como filho, uma alma como filho, compaixão…, justiça, misericórdia, força para sofrer e su­portar a dor. É isso que eu quero do meu filho, e não uma mente sem alma!” E então o Rabi Saunders seguiu uma antiga tradição hasídica e criou o seu filho em silêncio. Assim, “no silêncio entre nós dois, ele começou a ouvir o clamor do mundo.” Na cena final de reconciliação entre pai e filho, o rabi diz que Danny havia aprendido “através da sabedoria e da dor do silêncio, que uma mente sem coração não vale nada”.

AS EMOÇÕES

Meus leitores provavelmente nem suspeitam que eu seja uma pessoa emotiva. Pois é. Eu sou um daqueles cavalhei­ros ingleses frios e distantes, descendente de nórdicos durões e de rudes anglo-saxões, sem nenhum traço de calor celta ou latino em meu sangue. Com tal ascendência, já era de se esperar que eu fosse um sujeito tímido, reservado e de nariz empinado. Além disso, fui educado em uma escola inglesa muito elitizada cuja filosofia era “aguenta firme”. Isto é, já que uma tremidinha no lábio superior é o primeiro sinal visível de emoção, a tradição era endurecê-lo. Ensi­naram-me as virtudes dignas de um homem — coragem, força e autodisciplina — e me advertiram que, sempre que por algum acaso eu sentisse alguma emoção, nunca deveria deixar transparecer. Chorar era estritamente para mulhe­res e apenas para crianças, nunca para homens.

Mas aí eu fui apresentado a Jesus Cristo. Para minha surpresa, descobri que Deus, cuja “impassibilidade”, se­gundo eu pensava, significava que ele era incapaz de qualquer emoção, fala (se bem que em termos humanos) de sua ira ardente e do seu amor vulnerável. Descobri também que Jesus de Nazaré, o perfeito ser humano, não era um “machão durão”, um asceta sem emoções. Pelo contrário, li que ele expulsou os hipócritas com raiva, que ele olhou para um jovem líder rico e o amou, que tanto podia regozijar-se em espírito como suar gotas de sangue em agonia espiritual, vivia se compadecendo das pessoas e até rompeu em lágri­mas duas vezes em público.

Com todas estas evidências, é óbvio que nossas emoções não são para serem reprimidas, já que elas têm um lugar essencial em nossa natureza humana e, portanto, em nosso discipulado cristão.

Primeiro, há lugar para a emoção na experiência espi­ritual. Como já vimos, o Espírito Santo é o Espírito da verdade. Mas seu ministério não se restringe a iluminar nossas mentes e ensinar-nos acerca de Cristo. Ele também derrama o amor de Deus em nossos corações. De igual forma, ele testifica com o nosso espírito que nós somos filhos de Deus, levando-nos a dizer “Aba, Pai” e a excla­mar com gratidão: “Vede que grande amor nos tem con­cedido o Pai a ponto de sermos chamados filhos de Deus”.  Além disso, embora ainda não tenhamos visto a Cristo, apesar disso nós o amamos e confiamos nele, e assim “exultamos com alegria indizível e cheia de glória”.

Naturalmente, existem experiências espirituais de muitos tipos e nós não devemos tentar estereotipá-las, insistindo para que todo mundo vivencie exatamente a mesma expe­riência. Apesar disso, todos os cristãos, pelo menos de vez em quando, têm sentimentos, tanto de profunda tristeza como de profundo gozo. Por um lado, nós “gememos em nosso íntimo” em solidariedade com a criação caída, sen­tindo o peso da nossa própria queda e ansiando por nossa redenção final. Por outro lado, exultando no Senhor, transbordamos de gratidão pelo grande amor com que ele nos amou.

Segundo, existe lugar para a emoção na adoração pú­blica. Hebreus 12.22-24 diz que quando nos reunimos para adorar não estamos apenas “indo à igreja”, ou seja, a um edifício. Nós já temos, diz o autor, “chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial”. Chegamos “a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus”. Chegamos “a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aper­feiçoados, e a Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” O reconhecimento desta dimensão cósmi­ca dá nova forma ao nosso culto. Pode ser que em certos domingos só tenham vindo à igreja umas poucas pessoas, e isso um grupinho bastante heterogéneo. Mas então nos lembramos de que estamos “na presença do Deus Todo-poderoso e de todo o exército dos céus”. E ao participar­mos da ceia nós declaramos que nos reunimos aos “anjos e arcanjos, com todo o exército dos céus” para adorar o glorioso nome de Deus. Isto quer dizer que somos trans­portados para além de nós mesmos, passando a uma rea­lidade eterna e invisível. Ficamos profundamente emo­cionados com as glórias de que falamos e cantamos, e nos prostramos diante de Deus em humilde e jubilosa adoração.

Terceiro, a emoção tem seu lugar na pregação do evan­gelho. O apóstolo Paulo usava seu raciocício, como já vimos. Ele acreditava na verdade de sua mensagem. De­dicava tempo e trabalho para defender, expor, argumentar e proclamar a mensagem em sua plenitude. Mas sua ex­planação de todo o plano de Deus nunca foi fria ou árida. Pelo contrário, ele escreveu que Deus “nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso inter­médio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis corri Deus.” Paulo não se contentava em simplesmente apresentar o evangelho: ele ia mais adiante, implorando às pessoas que o aceitassem. A essa exposição sistemática ele acrescentava um veemente apelo pessoal. E muitas vezes, acrescenta ele, sua proclamação foi acompanhada de lágrimas.

Certos pregadores são impecáveis, tanto em sua doutrina como na eloquência. Mas nunca aprenderam a se debruçar sobre o púlpito com lágrimas nos olhos, rogando às pessoas que se reconciliem com Deus. Outros se deixam entusias­mar em delírio arrebatador, implorando por uma decisão, mas nunca fazem uma exposição detalhada e convincente do evangelho. Por que polarizar? É a combinação entre verdade e lágrimas, entre mente e emoção, razão e paixão, exposição e apelo, que faz o pregador de verdade. Afinal, “O que é pregar?” pergunta Lloyd-Jones, e passa a respon­der a sua própria pergunta. “Lógica em chamas! Razão eloquente! Serão as duas contraditórias? E claro que não. A razão concernente a esta Verdade deveria ser podero­samente eloquente… Pregação é teologia transmitida por um homem que está em chamas.”

Quarto, há lugar para emoção no ministério pastoral e social. Aqui, como em todas as coisas, o próprio Jesus é o nosso modelo perfeito. Vamos visualizá-lo no túmulo de Lázaro, face a face com a realidade da morte. Conforme as Escrituras, a morte é uma intromissão estranha no bom mundo de Deus e não faz parte, nem do seu propósito original, nem do seu propósito final. A Bíblia chama a morte de “inimigo” — na verdade, ele é “o último inimigo a ser destruído”. E então, como é que Jesus reage ao ser confrontado com esse arqui-inimigo de Deus e de toda a raça humana? Surpreendentemente, ele reagiu com duas vio­lentas emoções.

Primeiro, ele ficou indignado e com raiva. Em João 11.33 e 38 lemos que ele “ficou muito perturbado” (NTV), “ficou muito triste e comovido” (BLH), “agitou-se no espírito e comoveu-se” (ERAB). O verbo grego enebrimesato (v. 33) significa “resfolegar, bufar”; literalmente, a palavra é usada com referência a cavalos e metaforicamente para indignação. C. K. Barrett, em seu comentário sobre João 11, escreve: “Não se discute que embrimasthai implica raiva.” B. B. Warfield vai ainda mais longe: “O que João nos diz… é que, ao aproximar-se da sepultura de Lázaro, o estado de Jesus não era o de tristeza incontrolável, mas de fúria irreprimível.” Por quê? Porque ele viu “a maldade da morte, sua anormalidade, sua ‘violenta tirania’, como diz Calvino.” “Ele consume-se de cólera contra o opressor dos homens… Fica tomado de fúria; todo o seu ser é trans­tornado e perturbado… É a morte que é o objeto de sua ira e, por detrás da morte, aquele que tem o poder da morte e aquele que veio ao mundo para destruir.”

Depois lemos sobre uma segunda reação emocional de Jesus, a saber, tristeza e compaixão. Em sete diferentes ocasiões nos Evangelhos Jesus “moveu-se de compaixão” — por exemplo, com relação às multidões famintas e sem lideranças, a viúva de Naim, os sofredores de lepra e um mendigo cego. E em João 11 nós lemos que “Jesus chorou” (versículo 35) — agora, não mais lágrimas de ódio diante da morte, mas lágrimas de simpatia pelas irmãs enlutadas. Não é bonito ver Jesus, ao ser confrontado com a morte e o luto, comover-se tão profundamente? Ele sentiu indig­nação diante da morte e compaixão pelas vítimas desta. Primeiro, ele “bufou de raiva” (versículo 33) e depois ele “chorou” (versículo 35).

Eu, pessoalmente, gostaria de ver mais indignação cristã para com o mal no mundo e mais compaixão cristã pelas vítimas do mal. Pense na injustiça social e na tirania política, no impiedoso assassinato de fetos humanos dentro do ventre, como se eles não passassem de meros pedaços de carne, ou na maldade e cinismo dos vendedores de droga e dos produtores de pornografia, que fazem fortuna explo­rando a fraqueza das pessoas e à custa da ruína delas. Se estes e muitos outros males são odiosos para Deus, por que o seu povo não se revolta contra eles? E as vítimas do mal — os pobres, os famintos e os desabrigados, os meninos de rua abandonados pelos pais, as crianças que não nasceram ainda, mas cujas vidas já são ameaçadas por causa de uma sociedade egoísta, os prisioneiros torturados pela consciência, bem como os alienados e perdidos que nunca ouviram falar do evangelho? Onde está a compaixão de Jesus, que se expressa em ação prática em favor daqueles que sofrem?

Eu não sei até onde vai a confissão cristã de Bob Geldof; mas sua consciência e preocupação social são de causar vergonha a muitos de nós, cristãos. O que terá acontecido para transformar o “miserável cantor popular irlandês” em “Santo Bob”, o herói cult que alertou o mundo para o holocausto de fome na África? Assistindo às notícias da televisão sobre a fome na Etiópia, no final de 1984, ele passou pelo que se poderia chamar de “uma conversão secular”. As pessoas que ele via na tela da sua televisão estavam “tão murchas e encolhidas de fome que pareciam seres de outro planeta”. “Eu fiquei enojado, enfurecido e injuriado”, disse ele; “mais do que tudo isso, porém, senti uma profunda vergonha.” Foi desta experiência que surgiram o Band Aid, o Live Aid e outras iniciativas que levantaram milhões e milhões de dólares. O que o levou a fazer isso? Foi uma combinação de “compaixão com repugnância”.

MENTE E EMOÇÕES

Até aqui nós consideramos nosso intelecto e nossas emo­ções, separadamente, e vimos que ambos desempenham um papel indispensável em nosso discipulado cristão. Como cristãos, nós não devemos ser, nem tão emocionais que nunca cheguemos a pensar, nem tão intelectuais que nunca consigamos sentir. Deus nos fez seres humanos, e um ser humano é, por criação, tanto racional como emocional.

Mas, como é que se estabelece a relação entre a nossa mente e as nossas emoções? Existem duas relações espe­cíficas que são enfatizadas pelas Escrituras, e nas quais é a mente que exerce o papel principal. Mas elas são também complementares, no sentido de que a primeira é negativa, e a segunda, positiva.

Primeiro, e no sentido negativo, a mente controla as emo­ções, ou pelo menos deveria fazê-lo. Sempre houve quem defendesse a expressão livre e irrestrita das emoções hu­manas. Baco, por exemplo, que os gregos chamavam de Dionísio, era cultuado em orgias de vinho, dança e sexo. Em nossos dias, o freudianismo popular, que ainda não captou inteiramente o que Freud queria dizer com “repres­são”, tem ensinado o perigo de reprimir as nossas emoções. E certas formas de existencialismo reforçam essas ideias dizendo que a nossa verdadeira autenticidade reside em sermos nós mesmos e em nos expressarmos como tal.

Mas os cristãos não podem deixar-se guiar por tais ensi­namentos, dando livre curso a suas emoções, pois todo o nosso ser humano foi corrompido e deturpado pelo pecado original — inclusive as nossas emoções. Elas são ambíguas porque nós somos ambíguos. Algumas são boas, mas outras são más, e precisamos aprender a distinguir umas das outras.

A ira, por exemplo. A advertência “Irai-vos, e não pequeis” admite que há dois tipos diferentes de ira. Existe a ira justa, como a que Deus mesmo sente em relação ao mal, e existe a ira injusta, pecaminosa (contaminada pelo orgulho, a inveja, a malícia, o despeito e a vingança), que é uma das “obras da carne”. Assim, quando surgem dentro de nós sentimentos de ira, seria uma grande insensatez dar vazão a eles sem nenhuma crítica. Ao invés disso, deve­ríamos dizer a nós mesmos: “Espere aí! Que raiva é essa que está começando a arder dentro de mim? E uma ira santa ou é pecaminosa? É ira contra o mal ou não passa de vaidade ferida?”

Ou então o amor. O que deveríamos dizer a um homem casado que confessa ter-se apaixonado por outra mulher, que ele não conseguiu evitar, que este, sim, é “amor de verdade” e que ele precisa divorciar-se da esposa? Acho que teríamos de dizer: “Espere aí! Você não é uma vítima indefesa de suas emoções. O compromisso que você fez com sua esposa foi para a vida toda. Você deve (e pode) tirar essa outra mulher da sua cabeça!”

Nestes dois exemplos, um relacionado à ira e outro ao amor, há um reconhecimento de que ambas as emoções podem ser deturpadas pelo egoísmo e que nunca devería­mos ceder a nenhuma delas sem primeiro examinarmos a nós mesmos. Em ambos os casos, a mente tem de ser crítica em relação às emoções.

Em segundo lugar, e agora em sentido positivo, a mente estimula as emoções. Só quando nós refletimos na verdade é que o nosso coração “arde”, como aconteceu com os discípulos de Emaús na tarde do Domingo de Páscoa. Durante a sua caminhada, o Senhor ressuscitado juntou-se a eles e explicou-lhes, a partir das Escrituras, como o Messias tinha de sofrer antes de entrar em sua glória. Mais tarde, depois que ele os havia deixado, eles disseram uns aos outros: “Não nos   ardia   o coração, quando ele pelo caminho nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” Este “arder íntimo” do coração é uma profunda experiên­cia emocional; a primeira chama, porém, foi o ensina­mento bíblico de Jesus que acendeu. Não existe “fogo” que “acenda” tanto o nosso coração como enxergar a verdade. Como diz F. W. Faber, “o melhor combustível para a devoção é uma teologia profunda; ele pega fogo na hora e, uma vez acesa a chama, continua queimando durante muito tempo.”

Outro exemplo é a conhecida declaração de Paulo, de que “Cristo nos constrange”. Literalmente, ele nos “encantoa” ou “não nos deixa escolha”, de forma que a nossa vida tem quer ser vivida para ele. Mas como é que o amor de Cristo nos constrange ou nos impulsiona? Será que ele nos deixa transbordando de emoção aos pés da cruz? Sim e não! Sim, no sentido de que não podemos contemplar a cruz sem nos emocionarmos com ela. Mas, não, se pensamos que a nossa mente não desempenha papel algum nesse processo. O que Paulo escreve é que “o amor de Cristo nos constrange” a partir do nosso julgamento (“julgando nós isto”). É através de certas convicções que o amor de Cristo aperta o cerco em volta de nós. Em suma, é porque recebemos a nossa vida do Cristo crucificado e ressurreto, que nos apercebe­mos de que devemos viver para ele. É quando refletimos sobre esta lógica que as brasas do amor dentro de nós se transformam em chamas.

Só mais um exemplo. Na área da responsabilidade social, é essencial que nós não somente pensemos com clareza, mas também que sintamos com profundidade. E preciso haver frieza na análise da injustiça, contanto que isso leve a uma ardente ira e à ação.

Assim, é importante que a nossa mente e as nossas emoções permaneçam juntas, permitindo à mente controlar e esti­mular as nossas emoções. Penso que foi Handley Moule que, no final do século passado, deu este excelente conselho: “Acautelem-se, de igual maneira, de uma teologia sem devoção (i.e., mente sem coração) e de uma devoção sem teologia (i.e., coração sem mente).”

PSICOLOGIA ANALÍTICA

suicídio simulação

SUICÍDIO: A SOLIDÃO DA PASSAGEM

Apesar de a morte ser um dos principais medos do ser humano, morrem hoje mais pessoas por suicídio do que nas guerras e as tentativas chegam a 10 milhões.

Tabu profundo, aquilo que ninguém quer lembrar. Desejo de não mais desejar, dilema de toda a vida. Algumas pessoas não pensam nisso e outras evitam pensar. Quantas pensam todo dia? Por tristeza, vergonha, dor, ódio, culpa ou ansiedade, a cada ano 1 milhão de pessoas em todo o planeta tiram voluntariamente a própria vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número anual de tentativas fracassadas de suicídio chegue a 10 milhões. Eis aí, a final, um comportamento tipicamente humano?

Talvez. Muitos animais são capazes de expressar tristeza, mas em geral lutam arduamente para permanecerem vivos. Dessa regra não escapa nem mesmo o lemingue, roedor do Ártico que ficou famoso em filmes de Walt Disney – como o documentário de 1958, ‘White Wildmess, sem título em português, mas que poderia ser imensidão branca – pela suposta propensão ao suicídio em massa. Na verdade, o comportamento de lançar-se coletivamente de altas falésias é um desafortunado acidente migratório na história natural da espécie, fruto de superpopulação e desconhecimento da rota. Com seres humanos não é tão simples. Morre mais gente por suicídio do que nas guerras. Uns porque almejam o paraíso pós-morte e outros porque não suportam o inferno da vida. Na maior parte dos casos, por uma angústia insuportável de existir. O que há de errado conosco?

Se nascemos e morremos sós, nada lembramos do parto, pois nessa hora a consciência está em fase de formação. Entretanto, na porta de saída, temos encontro marcado com a suprema solidão. Quando partimos rumo ao desconhecido, esperar uma vida nova causa menos ansiedade do que encarar o vazio de frente. Com ou sem expectativa de continuação, o temor da morte é o maior de todos os medos. Por isso, mesmo no sofrimento mais atroz, grande parte das pessoas se agarra à vida com unhas e dentes. O que faz o suicida é o sofrimento psíquico. No momento derradeiro, prestes a cometer o ato, pior do que estar sozinho é não ter nem a si mesmo por perto. O suicídio é uma opção, e o tratamento também. Há 100 anos, usava-se ó pio para amortecer o desespero. Atualmente, os antidepressivos se baseiam no aumento direto ou indireto dos níveis de neurotransmissores como a serotonina. Eficaz no início, a terapia farmacológica frequentemente esbarra no problema da tolerância. Doses cada vez maiores podem ser necessárias para manter um estado que não chega a ser de felicidade, mas de conformação. Nos quadros de extrema depressão, por vezes apenas a eletroconvulsoterapia consegue retirar o paciente do mundo em que tudo é triste, doloroso e frustrante.

Mas existe outro caminho, difícil e precioso, que precisa ser trilhado bem antes do precipício. Com disciplina e coragem, voltar-se para dentro. Nutrir a mente integrada ao corpo, enraizar-se no real, mergulhar no infinito íntimo e celebrar o mistério último. Cantar, dançar, meditar e criar. Sem pressa de chegar, sorver a emoção de viajar. Acompanhar-se integralmente na passagem, na presença completa de si. Deve ser melhor assim.

GESTÃO E CARREIRA

Porta a porta 2.0

PORTA A PORTA 2.0

Quem entra em um dos perfis nas redes sociais do administrador de empresas Luca Battistoni, 29 anos, pode perfeitamente confundi-lo com um palestrante. Com o sobrenome de ” Imperial Diamante”, um dos últimos níveis dentro da hierarquia da empresa de cosméticos de venda direta Hinode, ele compartilha em suas páginas o dia a dia de eventos pelo Brasil. Lucas, que largou a carreira em uma multinacional para se aventurar no mercado de marketing multinivel em 2012, é um dos consultores com um a das maiores redes da empresa, aproximadamente 80 000 pessoas, e afirma faturar entre 300 000 a 400 000 reais por mês com as vendas de cosméticos da Hinode. ” No começo, tive um certo preconceito, achei que ia me tornar a ‘tia da Avon’, mas acabei decidindo apostar na venda direta”, afirma. Atualmente, Lucas possui uma franquia da rede em São Paulo e se dedica a treinar equipes de vendas. Não é difícil encontrar na internet relatos de pessoas que afirmam que transformaram suas vidas através do mercado de marketing de rede. Mas as histórias de enriquecimento rápido também levantam a desconfiança sobre modelo de negócios, que está atrelado à venda direta. “Muita gente se cadastra na empresa achando que é um bilhete de loteria, mas é preciso que você se dedique, aceite alguns nãos e saiba que demora até o lucro acontecer”, afirma Lucas.

Efeito cascata

O marketing multinível é um modelo de venda direta baseado no recrutamento de vendedores e na participação nos resultados das vendas feitas por eles e pelas pessoas que eles também recrutarem. “Imagine que sua carteira de clientes começou a crescer bastante e você não está mais dando conta de atender toda a demanda, então você começa a dividir essa clientela com outro vendedor e ganha uma porcentagem em cima dessas venda. O seu revendedor também faz isso e cria-se um efeito cascata”, afirma Sílvio Laban, professor de marketing e coordenador dos cursos de MBA do Insper de São Paulo.

No Brasil, o mercado de venda direta movimenta 30,3 bilhões de reais e reúne 4,5 milhões de revendedores, segundo a World Federation of Direct Selling Associations(WFDSA). “As empresas aprimoraram a estratégia e aumentaram os incentivos para atrair as pessoas”, diz Roberta Kuruzu, diretora da Associação Brasileira das Empresas de Vendas Diretas(ABEVD). Esses incentivos incluem premiações como joias, viagens e até carros para quem atinge determinadas metas de vendas. Além disso, esse negócio tem sido visto como uma alternativa ao emprego formal, diante do aumento das demissões no país. A Hinode, por exemplo, que está no mercado há 28 anos e adotou o modelo de marketing multinível e franquias em 2012, registrou um aumento de 143% no faturamento só em agosto de 2016. “A crise foi benéfica para nós, sobre tudo porque nossos produtos são mais baratos que os das concorrentes. Somos um plano B às marcas mais conhecidas do mercado”, afirma Eduardo Frahya, vice-presidente de Vendas e Marketing da Hinode.

A veterana Herbalife, que vende shakes e produtos para emagrecer, teve um crescimento de 34% no número de consultores independemes desde 2013. “Temos notado um aumento na quantidade de pessoas que entram em busca de uma nova fonte de renda”, diz Jordan Rizetto, diretor de vendas da empresa.

Investimento baixo

Alguns dos atrativos para quem ingressa na venda direta são a possibilidade de ter horários flexíveis, ganhos proporcionais ao tempo dedicado ao trabalho e, sobretudo, a chance de empreender sem um investimento inicial muito grande. “Você pode começar nas horas vagas e, em muito casos, não precisa nem ter estoque”, afirma Sílvio Laban. A possibilidade de ampliar os ganhos sem muito esforço, através das comissões sobre as vendas dos revendedores recrutados pela sua rede também é uma vantagem. Após algum tempo, isso permitiria aos criadores de equipes grandes deixar de vender para se dedicar apenas ao treinamento desses times. “Quanto mais você capacita essas pessoas e elas aumentam o faturamento, mais você ganha”, diz Roberta Kuruzu, da ABEVD. E se engana quem associa a venda direta com aquele vendedor que batia à porta dos clientes para demonstrar produtos. A americana Jeunesse, empresa de produtos de beleza, oferece uma plataforma de e-commerce um aplicativo para seus consultores. “A pessoa paga uma taxa de 90 reais tem direito a um escritório virtual e a um site personalizado, onde pode vender para pessoas até de fora do Brasil”, afirma Marcel Szajubok, diretor-geral da empresa.

As redes sociais também ajudam os consultores, como o paulista Alexandre Martins, de 34 anos, que desde 2015 revende os produtos de limpeza doméstica da americana Amway em Guarulhos (SP). Formado em marketing, Alexandre não considerava o multinivel uma opção até se surpreender com o sucesso de sua irmã, também revendedora da marca. “Eu achava o formato de abordar as pessoas um pouco agressivo e não me identificava. Mas percebi que a internet poderia ser uma aliada”. Depois de três meses estudando a empresa e criando uma lista de clientes em potencial, decidiu arriscar. “Comecei abordando amigos e ex-colegas de faculdade e trabalho, nas redes sociais, após o expediente”, diz. Em um mês, Alexandre faturou 2000 reais. Ao perceber que poderia aumentar os ganhos se dedicasse em tempo integral, largou o emprego de executivo de contas em uma editora e, agora, com uma rede de 60 pessoas, lucre entre 6000 a 7000 reais mensais.

Queixas

Se bastam alguns cliques para achar gente satisfeita com esse mercado, também há relatos de pessoas que tiveram más experiências. É o caso da maquiladora paulista Alice Guien, de 19 anos, que em 2015 ficou com quase 2000 reais em produtos encalhados da americana Mary Kay, que, embora funcione de forma semelhante a outras empresas do ramo, oficialmente não se posiciona como marketing de rede. Segundo Aline, apesar de o kit para ingressar no negócio custar, à época 90 reais, as novas consultoras eram estimuladas a fazer compras maiores. “A partir de 1000 reais, o lucro sobre a venda dos produtos era de 40%, então, as consultoras mais experientes incentivavam a montar um estoque para pronta-entrega”, diz. Sem atrair mais gente para sua rede nem vender os produtos, Aline teve o cadastro cancelado na empresa após três meses sem fazer novos pedidos. A Mary Kay responde que garante a recompra, com reembolso de 90% do valor da nota fiscal, dos produtos adquiridos por suas consultoras nos 12 meses anteriores à sua desistência.

Outro ponto polêmico sobre o marketing multinível é a semelhança de seu modelo de negócio com o das chamadas pirâmides, ilegais. A principal diferença é que os ganhos do primeiro se baseiam na venda de um produto ou serviço que representa a fonte de renda da empresa. Na pirâmide, os ganhos estão atrelados apenas à quantidade de novas pessoas recrutadas, geralmente após o desembolso de grandes quantias. “Os novatos vão remunerando os mais antigos mediante taxas de adesão. Em um dado momento, os últimos não conseguem atrair mais pessoas, e os pagamentos beneficiam apenas quem está no topo da estrutura”, diz André Luiz Lopes dos Santos, diretor do Depatamento de Proteção e Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça e Cidadania. A prática, emquadrada no art. 2º, IX, da Lei 1.521/51, que trata dos crimes contra a economia popular, é sujeita a detenção de até dois anos.

Por causa das semelhanças, volta e meia surgem esquema de pirâmides disfarçados de marketing multinível. Um dos casos mais famosos foi o da TelexFree, que vendia pacotes de telefonia via internet (VoIP) e foi condenada pelo Tribunal de Justiça do Acre a pagar 3 milhões de reais por danos coletivos. Mas não é tão simples diferenciar os dois formatos. Recentemente, a Herbalife foi alvo de uma investigação sobre o assunto nos Estados Unidos. O inquérito chegou ao fim após a empresa pagar uma multa de 200 milhões de dólares e se comprometer a ser mais transparente sobre seu modelo de negócios. “Esse caso ajudou a gente a revisar a nossa estrutura e deixa-la mais clara. Uma das novas medidas é que, agora, se não conseguir vender os produtos, você pode revendê-los para a Herbalife”, diz Jordan Rizetto.

No Brasil, o marketing multinível segue as regras da ABEVD, que adota o Código de conduta da WFDSA. “No Código hà uma cláusula que obriga as afiliadas a recomprar os produtos de quem não conseguiu vender”, afirma Roberta Curuzu. “Temos um canal de denúncias e, em casos mais graves, Podemos desfiliar as empresas”, afirma. Com regras claras, o marketing multinível pode, sim, ser uma opção válida para aumentar a renda. Mas, assim como em outros negócios, é bom desconfiar de promessas de lucro fácil e pouco trabalho.

ESCOLHA CERTO

Veja quais cuidados tomar para evitar entrar em uma pirâmide disfarçada de empresa de marketing multinível:

PARA COMEÇAR, verifique se a empresa é associada da Associação Brasileira de Vendas Diretas(ABEVD).

ANALISE se a fonte de receita da empresa se baseia na venda de produtos e ou na adesão de novos membros.

INFORME-SE sobre o tempo que a empresa atua no mercado e confira a reputação dela em sites como reclama aqui.

DESCONFIE de empresas com poucos produtos no portfólio e que não apresentem possibilidade de recompra dos produtos adquiridos.

PROCURE saber se a empresa investe em capacitar seus vendedores por meio de treinamentos de vendas.

OBSERVE se a companhia estimula mais a entrada de novos membros do que a venda dos produtos.

SUSPEITE caso a adesão na empresa esteja atrelada a investimentos muito altos.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O OUVIDO ATENTO

Um dos ingredientes mais importantes — e mais negligenciados — do discipulado cristão é o cultivo de um ouvido atento. Quem ouve mal não é um bom discípulo. O apóstolo Tiago deixou isso muito claro. Nós conhecemos muito bem o texto que ele escreveu a respeito da língua, “mal incontido, carregado de veneno mortífe­ro”. Quanto ao ouvido, porém, ele não tem nenhuma crítica parecida. Ele nos exorta a não falarmos demais, mas parece insinuar que ouvir nunca é demais. Eis aqui sua exortação:

Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus.

Que órgão impressionante Deus criou ao fazer o ouvido humano! Em comparação com ele, disse alguém, o mais sofisticado dos computadores é “tão primitivo quanto um misturador de concreto”. Naturalmente, o que nós geral­mente chamamos de ouvido é apenas o ouvido externo, aquela saliência de carne que temos no lado da cabeça e que vem em uma variedade de formas e tamanhos. A partir dela sai um canal de três centímetros que vai dar no tímpano, atrás do qual se encontra o ouvido médio, onde os três ossinhos mais miúdos do corpo (popularmente conhecidos como bigorna, martelo e estribo) amplificam o som vinte e duas vezes, passando-o então para o ouvido interno, onde então ocorre o verdadeiro ouvir. Seu principal componente é um tubo em forma de caracol, chamado cóclea. Ele contém milhares de células microscópicas, semelhantes a um fio de cabelo, sendo que cada uma delas é sintonizada com uma vibração específica. Então as vi­brações são convertidas em impulsos elétricos, que trans­mitem o som até o cérebro para serem decodificados ao longo de 30.000 circuitos do nervo auditivo, o suficiente para alimentar o serviço telefônico de uma cidade de tamanho considerável. O ouvido humano já foi festejado, e com razão, como “o triunfo da miniaturização”.

Quando se pensa em quão versátil e sensível é esse órgão que Deus fez, é mil vezes lamentável que não o utilizemos de maneira mais adequada, desenvolvendo melhor a nossa capacidade de ouvir. Não estou pensando apenas em música, no canto dos pássaros ou nas vozes dos animais, mas também no valor que tem a conversação para os nossos relaciona­mentos. Surdez involuntária é uma deficiência lamentável; surdez deliberada é ao mesmo tempo um pecado e uma insensatez.

Este é um dos principais temas do filme Birdy, de Alan Parker, baseado na novela de William Wharton. Sua de­claração-chave parece ser o fato quase definitivo de que “ninguém mais ouve a mais ninguém”. O filme descreve a amizade de Al e Birdy, dois adolescentes da Filadélfia, a qual desabrocha a despeito da estranha obsessão de Birdy pelo vôo dos passarinhos. Arrastados para o Vietnã, ambos são atingidos. Al tem de submeter-se a uma cirurgia na face desfigurada, enquanto que Birdy, afetado psicologica­mente, recolhe-se a um silêncio impenetrável e é enviado para um hospital de doentes mentais. Em sua cela, ele se encolhe como um pássaro engaiolado e vive olhando para cima, fitando a janela cheia de grades, sonhando com a possibilidade de fugir. Sofrendo as cruéis consequências da guerra, os dois homens necessitam urgentemente do apoio um do outro; no entanto, não podem se comunicar.

Finalmente, porém, ocorre a cura e sua amizade é restau­rada. Porém o pano de fundo é um mundo hostil, em que as pessoas perderam o contato umas com as outras — uma mãe desnaturada, uma namorada incompreensível, uma guerra sangrenta e insensível e um psicoterapeuta que não tem a mínima sensibilidade nem compaixão. Agora Al e Birdy conseguem ouvir um ao outro, mas eles parecem ser as exceções em um mundo onde “ninguém mais ouve mais ninguém”.

O apelo que Tiago nos faz, para que sejamos “rápidos para ouvir”, não é um apelo fácil de atender. Muitos de nós somos faladores compulsivos, especialmente os prega­dores! Nós preferimos falar a ouvir, dar informações voluntárias ao invés de confessar nossa ignorância, cri­ticar em vez de receber críticas. Mas, quem sou eu para ficar dizendo tais coisas? Eu mesmo tenho sido, nesta área, um ofensor tão grande quanto qualquer outra pessoa. Vou compartilhar aqui uma experiência de cerca de vinte e cinco anos atrás, que acabou sendo uma lição para mim. Era segunda-feira de manhã em Londres; a equipe de trabalho de Ali Souls, minha igreja, se havia reunido para a reunião semanal, e eu era o responsável. Os outros estavam falando sobre alguma coisa que particularmente não me interes­sava (nem me lembro mais do que se tratava), e eu lamento dizer que simplesmente “desliguei”. De repente, Ted Schroder, que naquela época bem poderia ser descrito, sem nenhuma injustiça, como “um jovem e impetuoso colono da Nova Zelândia”, e que hoje é um amigo íntimo e muito querido, explodiu, sem rodeios: “John, você não está ou­vindo!” Eu enrubesci. Ele tinha toda razão; e é insupor­tavelmente mal educado não escutar quando alguém está falando. Além disso, as tensões que vinham aflorando nos relacionamentos da nossa equipe de trabalho naquela ocasião eram devidas, em grande parte, ao fato de eu não escutar. Assim, eu me arrependi, e desde então tenho orado muitas vezes por graça para ser melhor ouvinte.

A quem, pois, eu devo escutar? Primeiramente e acima de tudo, devo dar ouvidos a Deus.

Ouvindo a Deus

Uma das verdades que mais distinguem o Deus da revelação bíblica é que ele é um Deus que fala. Ao contrário dos ídolos pagãos – que, sendo mortos, são mudos – o Deus vivo falou e continua falando. Eles têm boca, mas não falam; ele não tem boca (porque é espírito) mas, mesmo assim, fala. E, já que Deus fala, nós devemos ouvir. Este é um tema constante no Antigo Testamento, em todas as três das suas divisões principais. Na Lei, por exemplo: “…aman­do ao Senhor teu Deus, dando ouvidos à sua voz”. E nos escritos da Sabedoria: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” Existem também muitos exemplos nos Profetas. Em que residia a “dureza de coração” da qual Deus vivia reclaman­do para Jeremias? Era porque o povo “se recusa a ouvir as minhas palavras”.” O trágico nesta situação é que o que fazia de Israel um povo especial, diferente, era precisa­mente o fato de Deus tê-lo chamado e falado com ele. Mesmo assim, ele não ouvia nem respondia. O resultado foi juízo: “Visto que eu clamei e eles não me ouviram, eles também clamaram e eu não os ouvi”. Quase se poderia dizer que a epígrafe gravada na lápide da nação seria: “O Senhor Deus falou ao seu povo, mas ele recusou-se a ouvir”. Por isso Deus enviou seu Filho, dizendo: “Eles ouvirão ao meu Filho”. Mas, ao invés disso, eles o mataram.

Ainda hoje Deus fala, se bem que há certas discordâncias na igreja quanto à forma como ele o faz. Eu mesmo não creio que ele fale conosco hoje em dia de maneira direta e audível, como fez, por exemplo, com Abraão, com o menino Samuel ou com Saulo de Tarso no caminho de Damasco. Nem poderíamos garantir que ele se dirige a nós “face a face, como um homem fala com seu amigo”, já que esta relação íntima que Deus manteve com Moisés é especificamente relatada como tendo sido única.   Para falar a verdade, as ovelhas de Cristo conhecem a voz do Bom Pastor e o seguem, pois isto é essencial para o nosso discipulado; mas em nenhum lugar nos é prometido que essa voz será audível.

Mas, então, como é que Deus falou diretamente através dos profetas? Nós certamente deveríamos rejeitar qualquer afirmação de que existam hoje profetas comparáveis aos profetas bíblicos. Pois eles eram a “boca” de Deus, instru­mentos especiais de revelação, e seu ensinamento faz parte do alicerce sobre o qual está construída a igreja. Pode até ser, no entanto, que haja algum tipo secundário de dom profético, como quando Deus dá a certas pessoas uma percepção especial quanto à sua Palavra e seu querer. Mas não deveríamos atribuir infalibilidade a tais comunica­ções. Pelo contrário, deveríamos avaliar tanto o caráter como a mensagem daqueles que dizem falar da parte de Deus.

A principal maneira pela qual Deus nos fala hoje é através da Escritura, como o tem reconhecido a Igreja geração após geração. As palavras que Deus falou através dos autores bíblicos e que ele providenciou para que fossem escritas e preservadas não são uma letra morta. Um dos principais ministérios do Espírito Santo é tornar a Palavra escrita de Deus “viva e eficaz” e “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”. Portanto, nunca deve­mos separar a Palavra do Espírito ou o Espírito da Palavra, pela simples razão de ser a Palavra de Deus “a espada do Espírito”, a principal arma usada por ele para realizar seu propósito na vida de seu povo. E essa confiança que nos capacita a pensar nas Escrituras tanto como texto escrito quanto como mensagem viva. Por isso é que Jesus podia perguntar: “O que está escrito?”ou “Vocês nunca leram?”, enquanto que Paulo indagava: “O que dizem as Escrituras?”, quase que personificando-as. Em outras palavras, a Escritura (que significa a Palavra escrita) tanto pode ser lida como ouvida, e o que ela diz é aquilo que Deus diz através dela. Através da sua antiga Palavra Deus se dirige ao mundo moderno. Ele fala através do que já falou uma vez.

E Deus nos convida a darmos ouvidos àquilo que, através da Escritura, “o Espírito diz às igrejas”. O problema é que ainda hoje, tal como nos dias do Antigo Testamento, as pessoas geralmente não ouvem, não podem ou não querem ouvir a Deus. A falta de comunicação entre Deus e nós ocorre, não porque Deus esteja morto ou calado, mas porque nós não estamos ouvindo. Se, durante um telefo­nema, o telefone fica mudo, nossa conclusão imediata não é que a pessoa do outro lado morreu. Pelo contrário: a ligação é que foi cortada.

O mesmo estado de “ser desligado de Deus” geralmente acontece conosco, como cristãos. Não é esta a principal causa da estagnação espiritual que às vezes experimenta­mos? Nós paramos, deixamos de ouvir a Deus. Talvez tenhamos deixado de ter um período diário de oração e leitura da Bíblia. Ou então, se continuamos a fazê-lo, talvez seja mais uma rotina do que uma realidade, pois já não temos aquela expectativa de que Deus nos fale. Neste caso, precisamos adotar a atitude de Samuel e dizer: “Fala, Senhor, pois o teu servo ouve”. Assim como o servo de Deus, deveríamos estar aptos para dizer: “Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que eu ouça como os eruditos”. Deveríamos imitar Maria de Betânía, que “quedava-se assentada aos pés do senhor a ouvir-lhe os ensinamentos”. Naturalmente, precisamos não apenas ser contemplativos, mas também ativos, trabalhar mas também orar, ser tão “martas” quanto “marias”. Mas não seria o caso de não permitirmos que a Marta que há em nós ceda lugar a Maria? Porventura não temos negligen­ciado aquilo que Jesus chama de “a melhor parte”?

Ouvindo uns aos outros

Nesta segunda esfera do ouvir, o princípio é claro: comunhão depende de comunicação. Somente quando falamos e ouvimos uns aos outros é que os nossos relacionamentos progridem e amadurecem, ao passo que quando paramos de ouvir um ao outro, eles desmoronam. Existe no livro de Provérbios uma forte ênfase na necessidade e valor de ouvirmos uns aos outros. Vejamos alguns exemplos: “O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvido aos conselhos”; “Os ouvidos que atendem à repreensão salutar, no meio dos sábios têm a sua morada”; “O coração do entendido adquire o conhe­cimento, e o ouvido dos sábios procura o saber”. Eis aqui, pois, exortações a ouvir o conselho, a repreensão e a instrução, juntamente com a declaração de que aqueles que fazem isso são sábios. Além disso, essa necessidade de ouvir aplica-se a cada esfera da vida, desde o lar e o trabalho até o estado e a igreja.

Primeiro, ela se aplica ao lar. Embora eu me sinta quase tentado a desculpar-me por dizer algo tão tradicional, a verdade é que as crianças e os jovens precisam dar ouvidos aos seus pais. “Filho meu, ouve o ensino de teu pai, e não deixes a instrução de tua mãe.” Pois o fato é que os pais têm mais experiência — e, portanto, geralmente mais sa­bedoria — do que os seus filhos tendem a acreditar. Mark Twain teve a candura de admitir isso. “Quando eu era um menino de catorze anos”, disse ele, “meu pai era tão ig­norante que eu mal conseguia aguentar o velho por perto. Mas, quando cheguei aos vinte e um, fiquei impressionado com o tanto que ele havia aprendido em sete anos!”

Mas, se os filhos precisam ouvir os seus pais, os pais também precisam ser humildes o suficiente para ouvir os seus filhos — caso contrário, nunca irão compreender os problemas deles. Afinal de contas, o mundo em que os filhos estão crescendo é imensamente diferente do mundo da juventude dos seus pais. Somente com paciência e ouvir mútuo é que se pode construir a ponte entre as duas gerações.

E, depois, marido e esposa precisam ouvir um ao outro. Quase todo rompimento matrimonial é precedido de quebra de comunicação. Qualquer que seja a razão (negligência, fadiga, egocentrismo ou pressão dos negócios), marido e mulher já não tiram mais tempo para ouvir um ao outro. Assim, acabam se afastando e as incompreensões, suspei­tas, lamentações e ressentimentos vão aumentando, até que se torna tarde demais — se bem que, na verdade, nunca é tarde demais para se começar a ouvir novamente.

Em segundo lugar, ouvir é essencial no local de trabalho. Isto parece ser amplamente reconhecido, já que hoje a arte de ouvir é incluída nos livros e seminários sobre gerenciamento de negócios. Por exemplo, o americano Arthur Robertson, em seu livro A Linguagem do Ouvido Eficaz {The Language of Effective Listening), expressa a convicção de que “o pré-requisito número um para se ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional é ouvir com eficácia”.

Ouvir é importante especialmente em situações de con­flito. Sempre que há uma questão trabalhística, é quase certo que ambos os lados têm um pouco de razão. Nenhum dos lados é totalmente egoísta ou totalmente louco. A essência da conciliação, portanto, está em persuadir cada um dos lados a ouvir o outro lado. Às vezes criam-se situações de surdez quase total e falta de compreensão de ambos os lados. Em vez de ouvir, as pessoas preferem gritar umas com as outras. Mas a reconciliação só é possível quando ambos os lados se dispõem a sentar juntos, deixar de lado os preconceitos e ouvir um ao outro.

Em terceiro lugar, o mesmo princípio aplica-se ao estado. Se democracia é governar com o consentimento do gover­nado, então este precisa ser ouvido. Caso contrário, não se pode dizer que deu o seu consentimento. Em 1864, um pouco antes do fim da Guerra Civil Americana e antes de o Congresso adotar a lei que aboliu a escravatura, Harriet Beecher Stowe entrevistou Abraham Lincoln e escreveu: “Cercado por toda sorte de reivindicações conflitivas, por traidores, por tímidos homens de corações divididos, por homens dos Estados das Fronteiras e homens dos Estados Livres, por abolicionistas e por conservadores radicais, Lincoln tem ouvido a todos eles, pesando as palavras de todos…”. Eu acho que a disposição para ouvir a todos os matizes de opinião é uma sine qua non para ser um es­tadista.

Em quarto lugar, aplica-se à igreja. A história da igreja tem se constituído num registro de controvérsias longo e deveras desanimador. Trata-se, na maioria das vezes, de questões teológicas importantes. Mas, com a mesma fre­quência, elas têm sido exacerbadas pela falta de capacidade ou disposição para ouvir. Eu mesmo tenho como princípio nunca meter-me em um debate teológico sem primeiro ouvir a outra pessoa ou ler o que ela escreveu — ou, de preferência, ambas as coisas. Alguns amigos evangelicais juntaram-se a mim para um encontro com John Robinson, após a publicação de Honesto com Deus (Honest to God), depois com cinco colaboradores de O Mito do Deus Encar­nado (The Myth of God Incarnate) após a publicação deste, e com David Jenkins, após as suas provocadoras declara­ções acerca da ressurreição. Naturalmente, não posso dizer que o desacordo foi superado por esse diálogo, mas pelo menos as divergências diminuíram e a nossa integridade foi preservada.

Isto acontece ainda mais no caso de debates evangélicos internos. Quando nos isolamos e o nosso único contato consiste em atirar granadas uns contra os outros através de uma zona neutra, cria-se em nossa mente uma imagem completinha do nosso “inimigo”, com patas, chifres e tudo! Mas quando nos encontramos, sentamos juntos e começa­mos a ouvir, não apenas se torna evidente que nossos opositores não são nenhum demónio, como também descobrimos que eles são seres humanos normais, e até mesmo nossos irmãos e irmãs em Cristo, e daí aumenta a possi­bilidade de compreensão e respeito mútuos. E ainda tem mais: quando, além do que os outros estão dizendo, nós ouvimos também aquilo que está por detrás do que eles dizem, e especialmente quando ouvimos o que é que eles tanto tentam salvaguardar, geralmente descobrimos que nós mesmos queremos defender a mesma coisa.

Eu não estou dizendo que essa disciplina é fácil. Longe disso. Ouvir com paciência e integridade ambos os lados de um argumento pode causar uma profunda dor mental, pois implica em interiorizar o debate até que se consiga, não só captar, mas também sentir a força de ambas as posições. Mas este é um outro aspecto do “ouvir duas vezes” para o qual estou apelando neste livro.

Quem sabe, Deus tenha confiado principalmente aos pastores esse ministério do ouvir. Bonhoeffer, perspicaz como sempre, escreveu a este respeito:

O primeiro serviço que se deve aos outros na comu­nhão consiste em ouvi-los. Assim como o amor a Deus começa com ouvir a sua Palavra, assim também o prin­cípio do amor aos irmãos é aprender a ouvi-los. É amor de Deus por nós que ele, além de dar-nos a sua Palavra, empresta-nos também o seu ouvido. Assim, quando apren­demos a ouvir o nosso irmão, é a obra de Deus que estamos fazendo. Com muita frequência os cristãos, especialmente os ministros, pensam que sempre têm que dizer alguma coisa quando estão em companhia dos outros, que este é o único serviço que podem prestar. Eles se esquecem de que ouvir pode ser um serviço bem maior do que falar…

O cuidado pastoral fraternal distingue-se essencial­mente do pregar pelo fato de que, acrescida à tarefa de falar a Palavra, existe a obrigação de ouvir. Existe um tipo de ouvir que só ouve pela metade, pois já pressupõe saber o que o outro tem a dizer. É um ouvir desatento, impaciente, que despreza o irmão e só está esperando uma chance para falar e assim livrar-se da outra pessoa. Isto não é cumprir a nossa obrigação…

Os cristãos se esqueceram de que o ministério do ouvir lhes foi confiado por aquele que é, ele mesmo, o grande ouvinte e de cuja obra eles deveriam participar. Nós deveríamos ouvir com os ouvidos de Deus e falar a Palavra de Deus.

Ouvindo o mundo

O mundo de hoje está repleto de clamores que refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de surdos diante dessas vozes de angústia.

Primeiro, temos o sofrimento daqueles que nunca ou­viram o nome de Jesus, ou que, embora tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua alienação e perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que costumamos fazer é sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso poleiro e vomitar a nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a situação cultural ou as verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é que, com muito mais frequência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as pessoas e até mesmo aumenta­mos sua alienação, pois a forma como apresentamos a Cristo é insensível, desajeitada e até irrelevante. De fato, “responder antes de ouvir é estultícia e vergonha”.

A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus Cristo de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta ativi­dade desafiadora, humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de “contextualização”. Mas é essencial acrescentar que contextualizar o evangelho não é de maneira alguma manipulá-lo. A verdadeira evangelização precisa “ouvir duas vezes”, ouvir com sensibilidade, pois a testemunha cristã fica entre a Palavra e o mundo e está, consequentemente, na obrigação de ouvir a ambos. Nós ouvimos a Palavra a fim de descobrir mais e mais das riquezas de Cristo. E ouvimos o mundo a fim de discernir, dentre as riquezas de Cristo, quais são as mais necessitadas e como apresentá-las a ele da melhor maneira.

Isto mostra a natureza e o propósito do diálogo interconfessional. Diálogo não é nem um sinônimo nem um subs­tituto de evangelização. Diálogo é uma conversação séria na qual nós estamos dispostos a ouvir e aprender, assim como a falar e ensinar. É, pois, um exercício de integridade. “E uma atividade inata”, escreveu Max Warren. “É, na sua própria essência, uma tentativa de ‘ouvir’ mútuo, ouvir a fim de compreender. O seu galardão é a compreensão.” Além disso, Max Warren sabia de que ele estava falando, como nos diz em sua autobiografia:

A primeira lembrança que eu tenho é de uma luz treme­luzente e de minha mãe lendo para mim. Estou olhando para as chamas e ouvindo. Eu devia ter uns três ou quatro anos… Muito antes de saber ler, eu já estava aprendendo a ouvir, talvez a mais preciosa lição que já aprendi… E, além do mais, ler sempre foi para mim uma maneira de ouvir. Para mim, os livros sempre foram “pessoas”, nem tanto a pessoa do autor como o próprio livro falando, enquanto eu escuto.

Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de pre­ocupar-se com a justiça social. Nós deveríamos ouvir com mais atenção os clamores e os suspiros daqueles que estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um versículo bíblico que nós temos negligenciado e que, em se tratando deste assunto, quem sabe deveríamos destacar. Ele contém uma solene palavra de Deus para aqueles que, dentre o seu povo, carecem de consciência social. Encontra-se em Provérbios 21.13: “O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.”

Fechar os ouvidos aos outros é um sinal evidente de desrespeito. Quando nos recusamos a ouvir alguém, estamos dizendo que não consideramos essa pessoa digna de ser ouvida. Mas só existe um que nós deveríamos recusar-nos a ouvir, pelo simples fato de que não vale a pena ouvi-lo — e este é o diabo, junto com seus emissários. A essência da sabedoria é ser um ouvinte que sabe discernir, distinguir e escolher cuidadosamente a quem ouvir. Deixar de fazer isso foi o erro dos nossos primeiros pais no Jardim do Éden. Ao invés de darem ouvidos à verdade de Deus, eles deram crédito às mentiras de Satanás. E quantas vezes nós somos loucos o suficiente para imitá-los!

Mas nós não deveríamos dar ouvidos à conversa do diabo, seja através de mentiras ou propaganda, calúnias ou fofocas, obcenidades ou insultos. “O prudente oculta a afronta.” O mesmo se aplica a cartas anônimas. Pode-se até ficar muito perturbado com elas, pois geralmente são grosseiras. Mas, por que levar a sério as críticas de um correspondente que não tem coragem de revelar sua identidade? Uma his­tória que bem ilustra isso é contada por Joseph Parker, que foi ministro em Londres no final do século passado. Ao subir ao alto púlpito numa manhã de domingo, uma senhora que estava na galeria atirou nele um pedaço de papel. Apanhan­do-o, ele viu que continha apenas uma palavra: “Imbecil!”. Dr. Parker comentou: “Já recebi muitas cartas anónimas em minha vida. Até aqui, elas sempre foram um texto sem assinatura. Hoje, pela primeira vez, eu recebi uma assina­tura sem texto!”

Se nos recusamos terminantemente a dar ouvidos a qual­quer coisa que seja falsa, injusta, descortês ou impura, de­veríamos ao mesmo tempo ouvir cuidadosamente instruções que contenham pontos de vista, interesses, problemas e preo­cupações de outras pessoas. Pois, como bem se diz: “Deus nos deu dois ouvidos, mas somente uma boca; portanto, é evidente que ele esperava que ouvíssemos o dobro do que falamos.”

Tirar tempo para ouvir a Deus e aos nossos semelhantes começa como um sinal de cortesia e respeito, continua como o caminho para a compreensão mútua e para o aprofunda­mento dos relacionamentos e, acima de tudo, é um autên­tico sinal de humildade e amor cristão. Portanto, queridas irmãs e irmãos, todo mundo deveria ser “pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”. Tiago 1.19

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O cerbro do psicopata

O LOCAL DO CRIME – O CÉREBRO DO PSICOPATA

Lesões cerebrais graves ocorridas na infância podem provocar comportamento agressivo; mas é a combinação de fatores neurológicos e psicossociais que costuma ser perigosa.

Por que uma pessoa mata outra por algumas centenas de reais? O que leva pais a maltratar o próprio filho? Por que um adolescente estraga seu futuro ao agredir outro mais fraco até a invalidez, numa briga entre torcidas rivais? Noticias sobre assassinatos, maus-tratos e abuso sexual veiculadas diariamente pela mídia provocam horror e despertam questionamentos.

Quando crimes são cometidos por criminosos recorrentes que já passaram anos na prisão por delito semelhante, a opinião pública costuma reagir com mais perplexidade ainda. Será que os infratores não conseguiriam se comportar de outra maneira, mesmo que quisessem? E o que os transformou em violentos crônicos? É possível que,

Quando crianças, em vez de acolhimento e compreensão só tenham experimentado crueldade? Ou a agressividade está “em seu cérebro”?

No intuito de responder a essas e outras questões, nos últimos anos pesquisadores realizaram vários estudos longitudinais – nos quais psicólogos, psiquiatras e neurologistas acompanharam voluntários durante um longo período, desde a infância ou início da adolescência até a idade adulta. Em um trabalho, publicado por nosso grupo, apresentamos mais detalhadamente as raízes psicológicas da violência física e avaliamos resultados colhidos em vários países. Foram analisados desde brigas com socos ou pontapés, mas sem maiores consequências, até embates que provocaram lesões corporais graves e homicídios.

Concluímos que o comportamento violento nunca pode ser atribuído a uma única causa – tendência inata, patologia, ambiente desfavorável ou, experiências dolorosas. É preciso considerar a combinação de fatores de risco que se reforçam e se influenciam mutuamente. Essa descoberta traz também uma boa notícia: aparentemente, uma única variável que reforce a tendência à violência ode ser compensada por outros mecanismos positivos. Um dos maiores estudos longitudinais teve início em 1972, na Nova Zelândia. Uma equipe de psicólogos de vários países acompanha, há 34 anos, o destino de aproximadamente mil pessoas nascidas no mesmo ano na cidade de Dunedin. Os pesquisadores Terrie Moffitt e Avshalom Caspi, do inglês College de Londres, concentraram seus estudos principalmente em formas de comportamento, anti-social acompanhadas de violência física. O pequeno grupo de violentos crônicos do sexo · masculino que se revelam logo cedo apresenta características como baixa tolerância à frustração, dificuldade de em aprender regras sociais, problemas de concentração, capacidade reduzida de compreensão dos sentimentos das outras pessoas e inteligência defasada.

Entretanto, o que mais se destaca é a falta de contenção psíquica, que os faz passar do sentimento ao ato quase imediatamente. Os impulsos agressivos são deflagrados pelas emoções; ao menor sinal de provocação ficam furiosos e não conseguem medir as consequências de seus atos. Alguns relatam, por exemplo, que se sentiram ameaçados ao serem encarados por alguém –  e por isso, tiveram, de se defender. Posteriormente, muitas vezes se arrependem. Esses delinquentes crônicos costumam assumir posição de liderança em seu grupo – e sentem-se valorizados com isso, o que alimenta um círculo vicioso.

Segundo as observações, dois grupos podem ser diferenciados no maior deles, a incidência de atitudes agressivas aumenta em ritmo acelerado quando os jovens têm entre 13 e 15 anos. Nos adolescentes em geral essas tendências regridem. Uma pequena parte dos voluntários, porém, logo na infância – às vezes já por volta dos 5 anos – apresenta comportamento anti-social, que permanecem até a idade adulta. Esse grupo formado quase exclusivamente por meninos.

De fato, as pesquisas revelam que o sexo masculino é o mais importante “fator de risco” para a violência. Como comprovam estatísticas criminais no mundo inteiro, adolescentes e adultos jovens do sexo masculino são responsáveis pela maioria dos assassinatos, lesões corporais graves ou casos de violência sexual.

Esse dado, entretanto, não significa que as mulheres sejam menos agressivas. Homens tendem à violência física direta, enquanto elas recorrem à agressão dissimulada, superando de longe os garotos ao engendrar intrigas e realizar pressões psicológicas. No caso das meninas, os distúrbios de comportamento social surgem principalmente na puberdade. Aos 17 ou 18 anos, em geral eles desaparecem, provavelmente em razão das alterações hormonais típicas dessa fase.

As causas das diferenças entre homens e mulheres são variadas. Papéis sociais aprendidos por cada sexo têm sua importância. Ainda é comum ouvir, por exemplo: “Meninas não batem!”, mas: “Meninos têm de saber se defender!”. Além disso, estratégias de agressão indireta exigem “inteligência social” relativamente alta, que se desenvolve antes e mais rapidamente nas meninas. Diferenças neuropsicológicas também exercem influência nas manifestações de agressividade de ambos os sexos.

Criminosos com diversas passagens pela polícia, em geral, são pessoas com dificuldades para controlar impulsos agressivos. A análise de questionários preparados por uma equipe coordenada pelo psicólogo e neurologista Ernest S. Barrat, respondidos em 1999 por presidiários no estado americano do Texas, mostrou que os detentos frequentemente, provocavam briga com outros presos – apesar de terem de pagar por isso com condições de prisão muito mais severas. Quando os pesquisadores lhes perguntavam por que mantinham comportamentos que os prejudicavam, eles não encontravam explicação. Muitos reconheciam as desvantagens e já tinham tomado a decisão de agir com maior controle em situações semelhantes, mas nem eles mesmos acreditavam que conseguiriam se controlar.

COMO UM DEFEITO

A impulsividade de criminosos violentos crônicos parece ter como base uma predisposição cerebral. Neurologistas compararam a anatomia do cérebro desses homens à de cidadãos comuns e descobriram nas primeiras alterações fisiológicas na região frontal, mais exatamente no córtex pré-frontal e no sistema límbico.

Essas áreas estão ligadas ao surgimento, decodificação e controle das emoções. Efeitos inibidores sobre partes do sistema límbico, principalmente o hipotálamo e a amígdala, de onde vêm os impulsos agressivos são atribuídos a áreas do córtex pré-frontal. Esse pressuposto é base da ”hipótese do cérebro frontal”, segundo a qual as raízes psicobiológicas do comportamento anti-social podem ser compreendidas como um “defeito” na regulação do córtex e do sistema límbico.

Vários estudos apoiam essa interpretação. O pesquisador Jordan Grafman e seus colegas do Instituto Nacional de Saúde em Bethesda, Estados Unidos, examinaram veteranos da guerra do Vietnã que sofreram ferimentos na região do córtex pré-frontal: os ex-soldados tinham clara tendência à agressividade. É preciso considerar, porém, que esses ex combatentes viveram situações traumáticas durante o conflito, o que provavelmente também influi no funcionamento psíquico. No entanto, pacientes adultos com lesões frontais que não viveram experiências especialmente perturbadoras também costumam se comportar de forma inadequada e impulsiva, apresentando sintomas de distúrbio de personalidade anti-social. Em ambos os casos, porém, não houve nenhum indício direto de violência física fora do comum.

A situação é diferente quando o cérebro frontal já é afetado na infância. Pesquisadores coordenados pelo neurologista António Damásio, do Centro Médico da Universidade de Iowa, observaram consequências dramáticas nesse tipo de caso. Num deles, cirurgiões retiraram um tumor do cérebro frontal direito de um bebê de aproximadamente 3 meses. Quando o menino tinha 9 anos começaram a surgir problemas: era muito difícil motivá-lo na escola; ele permanecia isolado e passava o seu tempo livre exclusivamente diante da televisão ou ouvindo música. Em algumas ocasiões, ficava inexplicavelmente furioso, ameaçava e chegava a agredir fisicamente as pessoas. Interessante notar que ele cresceu em ambiente acolhedor, com pais amorosos e irmãos cujo desenvolvimento foi considerado normal.

Não se sabe se a hipótese sobre a anatomia cerebral também vale para o sexo feminino. Mulheres violentas são mais raras e, portanto, menos estudadas. De maneira geral, entre elas parece não haver conexão entre um volume reduzido da área pré-frontal e tendências patológicas, como comprovadamente existe na população masculina. Ao que tudo indica, as mulheres possuem, por natureza, controle mais efetivo dos impulsos, que falha apenas quando a função cortical é lesionada de forma prematura e maciça. Damásio descreve o caso de uma menina atropelada aos 15 meses que sofreu grave traumatismo neurológico. Até os 3 anos ela se desenvolveu normalmente. Nessa fase surgiram as primeiras demonstrações de comportamento anômalo. Os pais perceberam que a filha não tinha reação alguma a eventuais repreensões e até a punições. Mais tarde, ela passou a não respeitar nenhuma regra, na escola brigava frequentemente com professores e colegas, mentia e cometia delitos como roubo. A jovem chamava a atenção principalmente por atacar os outros. Nenhum de seus irmãos apresentava problemas de comportamento.

Outras observações que corroboram a hipótese do cérebro frontal foram feitas pelo neurologista Adrian Rainer, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles. Ele coordenou um estudo com assassinos condenados.

Recorrendo a procedimentos de imageamento como a tomografia por emissão de pósitrons (PET), os pesquisadores constataram em muitos voluntários uma atividade metabólica nas regiões frontais do cérebro mais baixa do que a encontrada na população em geral. A segunda etapa da análise, porém, demonstrou que isso só era válido para criminosos que haviam matado por afeto, ou seja, por impulso e com forte motivação emocional. Em detentos que haviam planejado o assassinato longamente, a sangue frio, o cérebro frontal parecia funcionar normalmente.

Esse resultado é plausível: por consequência de déficits no controle das emoções, criminosos impulsivos agem sem premeditação, ignorando até mesmo os riscos de serem descobertos. Já o homicida detalhista e frio precisa de um cérebro frontal intacto, pois arquitetar o crime a longo prazo demanda complexos processos de decisão. Criminosos que agem sem piedade raramente demonstram arrependimento. Para o criminoso que planeja o ato, a prioridade é não ser apanhado – o sujeito impulsivo nem pensa nisso. O estudo neurológico de criminosos violentos não descobertos é uma nova e polêmica área de pesquisa – e não apenas pela dificuldade metodológica de encontrar psicopatas em liberdade. Para obter informações confiáveis sobre seus delitos, os pesquisadores tiveram de lhes assegurar sigilo absoluto. Sendo assim, depois de passarem pelos exames tomo gráficos, os homicidas voltaram para casa, em liberdade.

PSICOPATAS MAL SUCEDIDOS

Há pouco tempo, Adrian Rainer comparou dois grupos de pessoas com distúrbio de personalidade anti-social que haviam cometido crimes graves. Integrantes de apenas um dos grupos tinham sido condenados. O pesquisador denominou os que não haviam sido descobertos como “psicopatas bem-sucedidos “, os condenados, “psicopatas malsucedidos”.

Os estudos de Rainer levaram a resultados interessantes: ao comparar a anatomia cerebral de ambos os grupos, apenas nos “malsucedidos” foi encontrada, de fato, redução significativa do volume da substância cinzenta no córtex pré-frontal. Entre os criminosos em liberdade, ela estava dentro dos padrões de normalidade.

A agressividade crônica grave, portanto, não está automaticamente relacionada a defeito no córtex pré-frontal. Parece haver pessoas que cometem atos de grande violência regularmente, apesar de seu cérebro frontal estar completamente intacto. Sendo assim, distúrbios no córtex pré-frontal estão mais relacionados ao risco de o indivíduo ser preso do que propriamente à violência potencial.

O córtex pré-frontal é apenas um dos vários centros neurológicos que compõem uma complexa rede de regulação do equilíbrio das emoções, incluindo os impulsos agressivos. Outros estudos feitos por Rainer com o mesmo grupo de criminosos indicam a participação de estruturas límbicas, como o hipocampo, na conduta psicótica: nos “criminosos malsucedidos”, o hipocampo de ambos os hemisférios cerebrais tinha tamanho diferente – assimetria que os pesquisadores associam a distúrbios surgidos no estágio inicial do desenvolvimento.

Possivelmente, essas alterações enfraqueceram a interação entre o hipocampo e a amígdala, de forma que informações relativas à emoção são processadas de maneira irregular. Se o córtex pré-frontal também falha como instância controladora, parece compreensível que surjam comportamentos verbais e físicos inadequados.

No caso dos “psicopatas bem-sucedidos” há fundamentos completamente diferentes envolvidos nas ações violentas, pois as pessoas que têm o controle de impulsos intacto cometem delitos conscientemente, de maneira calculada. Isso não comprova que esses criminosos não sofram de outras alterações cerebrais. Para tanto seria necessário examinar, por exemplo, o papel da amígdala, assim como da parte do sistema límbico que funciona como “sistema de recompensa”. As falhas no funcionamento dessas estruturas podem ser responsáveis pelo comportamento psicopata (isento de culpa e compaixão pelo sofrimento alheio), segundo outros pesquisadores, como Richard Blair, do Instituto Nacional de Saúde Mental em Bethesda.

As alterações no cérebro de criminosos podem ocorrer em nível neuroquímico. Atualmente, diversos estudos comprovam que um baixo nível de serotonina, que funciona como calmante e redutor do medo, está vinculado a comportamentos anti sociais e impulsivos. Tal associação não ocorre apenas em criminosos, mas na população de maneira geral. Porém, mais uma vez, apenas nos homens.

O hormônio sexual masculino também tem sua importância: diversos estudos do psicólogo James Dabbs, da Universidade do Estado da Geórgia, indicam a presença de níveis bastante altos de testosterona em criminosos impulsivos. Tais desvios do nível de hormônios ou das substâncias transmissoras podem ser hereditários ou surgir por influência do ambiente. Há, por exemplo, indícios de que experiências de negligência e maus-tratos na infância reduzem permanentemente os níveis de serotonina. Pesquisadores que estudam a plasticidade do cérebro, entretanto, cogitam a possibilidade de reparações, ainda que parciais, desse comprometimento.

Pelo menos entre os homens, fatores biológicos, como disposição genética e déficits orgânicos e neuroquímicos, aumentam comprovadamente o risco de comportamento violento. No entanto – com exceção de lesões graves ocorridas na infância, –  eles não levam obrigatoriamente a tal atitude. A combinação entre fatores de risco psicossociais de gravidade semelhante é que costuma ser perigosa. Isso pôde ser percebido por pesquisadores em diversos estudos. Entre esses fatores incluem-se a qualidade do relacionamento inicial entre mãe e bebê, eventuais maus-tratos e abusos sofridos na infância, negligência dos pais, rupturas e conflitos constantes na família, criminalidade de adultos próximos e pobreza extrema. O estudo de todos esses fatores é complexo, pois a maioria deles não pode ser considerada independentemente das alterações anátomo-fisiológicas.

Logo após o nascimento, já ocorre comunicação emocional íntima entre o bebê e a pessoa que desempenha a função materna (não necessariamente a mãe), conforme demonstraram vários especialistas, como o psicanalista inglês Donald Winnicott. Dificuldades no processo de interação, principalmente nos dois primeiros anos de vida, podem contribuir para a configuração de distúrbios de desenvolvimento – incluindo dificuldade de controlar os próprios impulsos, falta de empatia e capacidade reduzida de solução de conflitos.

Além disso, experiências vividas pelos pais em sua infância exercem influência sobre sua competência educativa. Enquanto alguns se apegam às próprias dores e reproduzem os modelos de abandono e agressividade que viveram quando crianças, outros se permitem reelaborar as próprias carências com generosidade, oferecendo aos filhos acolhimento amoroso e continente – assim, interrompem o ciclo vicioso de violência física e psicológica. Por outro lado, parece que, se a criança tem uma constituição cognitiva e emocional sólida, as influências negativas do ambiente em que ela vive podem ser parcialmente compensadas.

Atualmente, não se sabe por que muitos conseguem compensar até mesmo as piores experiências da infância ou lesões cerebrais, como se “consertassem” a si mesmos, enquanto tantos outros simplesmente não conseguem fazê-lo.

Essa situação leva a reflexões, pois até que ponto se pode responsabilizar um ser humano por sua constituição genética, seu desenvolvimento cerebral, sua infância traumática ou seu ambiente social com poucas oportunidades? Não teríamos de pensar assim também em relação à tendência à violência resultante de tais fatores?

Com isso, surge a pergunta: a responsabilidade sobre os próprios atos pode ser totalmente imputada a uma pessoa? Faz sentido conjecturar que um criminoso poderia ter optado contra a violência se de fato quisesse ou se tivesse tido oportunidades diferentes? A suposição de que ele seria capaz de tal escolha, apesar de todo s os condicionamentos psicobiológicos e sociais, causa grande polêmica entre psicanalistas, psicólogos, médicos, criminalistas e filósofos.

Ao mesmo tempo, não é tolerável assistir a atos criminosos impassivelmente. Afinal, se tomarmos o homem como refém de sua própria história, de sua anatomia e de seu funcionamento cerebral, correremos o risco de adotar uma postura permissiva diante da violência. Talvez, para protegermos o coletivo, seja necessário perseverarmos na prevenção – que consiste em dissuasão, acompanhamento psicoterapêutico e, em muitos casos, em reclusão.

Eticamente não se pode apoiar a ideia de simplesmente afastar do convívio social as pessoas com comportamento anormal – pois, estatisticamente, a maioria delas não se torna delinquente. Adotando essa postura, corre-se ainda o risco de disseminar a intolerância diante da diversidade. Há, porém, a possibilidade de investigação precoce dos fatores de risco – psí­quicos, físicos e sociais. Nesse terreno ainda há muito a fazer nos próximos anos, pois hoje, com todo o conhecimento e tecnologia disponíveis, nem sempre é possível diferenciar com precisão as brigas comuns de crianças pequenas de comportamentos que prenunciam tendência à violência.

IMPULSO ASSASSINO                           

O Brasil ocupa lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo, considerando também àqueles com histórico recente de guerras (como Eslovênia, Croácia, Irlanda do Norte e Israel). As estatísticas confirmam que, em cada 100 assassinatos cometidos em território brasileiro, somente duas pessoas são presas. Nos Estados Unidos a média chega a 90%. Grande parte dos assassinos age por impulso. A maioria dessas pessoas é considerada “normal” até que cometem algum crime, num ato impulsivo. “A pessoa tem razões subjetivas que, num dado momento, lhe parecem justificadas. Muitos toma consciência da gravidade e da irreversibilidade do ato só depois d cometê-lo”, observa o psiquiatra Elias Abdalla Filho, membro da diretoria do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileiro de Psiquiatria.

TESTOSTERONA ACUMULADA

O hormônio sexual ultrapassa a barreira hematoencefálica, se conecta a receptores no hipotálamo e na amígdala. Nos homens, a testosterona aumenta no início de competições esportivas. No vencedor, ela continua a alta por algum tempo após o final; já no perdedor, sua concentração cai rapidamente. Assim, é possível considerar que a concorrência e conflitos constantes podem alterar o nível de testosterona permanentemente.

NO BANCO DOS RÉUS

A tendência à violência impulsiva, aparentemente, se deve muitas vezes, pelo menos nos homens, a alterações no córtex pré-frontal. Este, normalmente inibe os impulsos agressivos que surgem nos centros das emoções do sistema límbico (seta azul). Por isso, segundo a “hipótese do cérebro frontal”, na região orbitofrontal do córtex está uma das principais causas da predisposição à violência. Lesões no hipocampo também podem afetar o processamento e o julgamento de informações emocionais. Alguns pesquisadores; por sua vez, supõem que as causas da violência estão relaciona das a um mau funcionamento da amígdala. Isso explicaria o destemor, a falta de empatia e a ausência de sentimento de culpa característicos de criminosos violentos. Alterações na quantidade de neurotransmissores já bastam para tirar dos eixos o controle dos impulsos e das emoções. Um papel importante é exercido, por exemplo, pela serotonina: ela é sintetizada nos núcleos dorsais da rafe. Partindo de lá, ela chega a inúmeras estruturas cerebrais (setas vermelhas), onde participa da transmissão de estímulos às sinapses.

A quantidade de serotonina no cérebro pode ser medida, por exemplo, pela concentração de um dos produtos de sua composição, o ácido hidroxiindoleacético(5-HIAA), no líquido cefalorraquidiano. Baixo nível da substância está relacionado a comportamentos anti sociais. No entanto, ainda não está claro se o efeito não é apenas indireto: uma pessoa que, devido à falta do neurotransmissor, sofre de ansiedade e se sente ameaçada, provavelmente tende à “agressão reativa”. Como se sente atacada, agride para se defender. Uma variante do gene triptofano hidroxilase, necessário para a síntese de serotonina, também pode estar ligada agressividade exagerada.

  PREVENÇÃO POSSÍVEL                        

Poucos podem afirmar, com sinceridade, que jamais tiveram impulso de matar outra pessoa. Felizmente, a maioria não passa ao ato. A prevenção pode ter início na infância, com precauções c;1parentemente simples: cuidado, atenção e ajuda profissional. Esses são os ingredientes usados para acalmar crianças entre 9 e 11 anos com características violentas, segundo a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Maria Abigail de Souza, coordenadora da pesquisa ” Intervenção psicoterapêutica em crianças agressivas no ambiente escolar”. O estudo, iniciado em 1998 e publicado no ano seguinte, mostra que, uma vez recebida a atenção desejada, os meninos tendem a se acalmar, deixando de oferecer perigo.

Ela entrevistou dezenas de dependentes químicos de 18 a 30 anos e constatou que, quando eram crianças, sofreram abusos verbais e físicos até dos próprios pais. “A criminalidade está intimamente ligada ao ambiente social, não é apenas resultado de possível carga genética”, acredita a psicóloga. Desde 1991, a pesquisadora utiliza técnicas de psicodiagnóstico – teste de Rorschach e entrevistas – no acompanhamento de crianças de comunidades carentes de São Paulo, com o objetivo de identificar os riscos aos quais estão submetidas e contorná-los por meio de atendimento psicológico.

“O trabalho é de prevenção e assistência a crianças agressivas de 8 a 12 anos, com boa capacidade intelectual e cognitiva, matriculadas em escolas públicas.” A escolha desse perfil é resultado de conclusões do estudo com dependentes químicos. Muitos deles apresentavam, na infância, as características das crianças atendidas atualmente. Pobreza, entretanto, não é fator determinante para deflagrar a violência. Segundo estimativa de pedagogos e professores, 5% dos alunos de escolas particulares do Rio de Janeiro e São Paulo têm comportamento agressivo com colegas e funcionários.

” Classe social e ambiente não são fatores determinantes para o crime. Rica ou pobre, a criança que não sente o afeto dos pais, em geral tem mais propensão à agressividade “, diz Maria Abigail. Dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram ser pequena a participação de menores de 18 anos em crimes graves em São Paulo. Esses jovens respondem por apenas 1% dos homicídios dolosos (com intenção).

GESTÃO E CARREIRA

As cobranças sobre o lider

AS COBRANÇAS SOBRE O LÍDER

 Diretor global da consultoria de transição profissional Lee Hecht Harrison e com 25 anos de experiência aconselhando comitês de diretoria e executivos seniores, o escritor americano Vince Molinara costuma comparar a forma como muitos profissionais aceitam um posto de liderança com o jeito como fazem download de um programa na internet. “Você sabe que está concordando com páginas e mais páginas de um texto minúsculo estabelecendo uma série de termos e condições complicados, mas vai em frente e clica no botão sem pensar duas vezes”, diz ele. Estudos demonstram que apenas 7% das pessoas leem esses termos e condições. Para Vince, ao encarar uma posição de liderança, muitos profissionais lidam da mesma forma. “Você pode ter clicado no botão ‘Concordo’ por uma boa razão – conseguir a promoção, o aumento de salário, as mordomias, o poder ou a chance de causar impacto na sua organização”, diz ele. “Mas se não souber exatamente no que se meteu, não conseguirá suportar as pressões do ambiente de negócios”, afirma.  ‘o recém-lançado Liderança é um Contrato (Primavera Editorial), ele discute os principais desafios e expectativas ao redor do líder moderno e o peso de sua postura no sucesso de uma companhia.

Se você for como os lideres com quem trabalho todos os dias, então sente na pele o impacto de todas essas pressões. Você sofre com a incerteza cada vez maior que permeia o seu ambiente de negócios. Sente-se posto á prova o tempo todo. Sabe que é responsável pelo sucesso da sua organização e está totalmente ciente do impacto que tem sobre os clientes, os funcionários e os stakeholders. Pare um momento e reflita sobre essas cinco pressões. Como elas afetam o seu papel de liderança?

O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Pare por um momento para pensar sobre essa série de eventos: um vídeo de um CEO falando aos seus funcionários é disponibilizado ao público e considerado extremamente decepcionante, em consequência, o preço das ações da empresa caem imediatamente. É um bom exemplo do tipo de escrutínio que os líderes enfrentam hoje em dia. Ser um líder não é tarefa fácil, e a pressão pode ser intensa. Vamos dar uma olhada nos principais pontos de pressão nos dias de hoje:

  1. A pressão de se diferenciar.

Quer se trate de uma empresa privada, quer seja uma instituição pública, todos os empreendimentos estão tentando se diferenciar. Todas as organizações têm concorrentes, competindo por participação de mercado ou por financiamento do governo, e hoje em dia a competição é feroz. Seja qual for a vantagem competitiva que você achava que tinha, ela parece ter uma vida útil cada vez mais curta à medida que os rivais a copiam praticamente da noite para o dia. Você se vê diante de uma pressão implacável por inovar e vive em busca de maneiras de se destacar na multidão.

  1. A pressão de executar a estratégia

Você enfrenta uma enorme pressão para executar a estratégia. Se já faz um tempo que você é um líder, sabe como isso pode ser difícil. O sucesso é fugaz para muitas organizações. Pesquisas demonstram repetidamente que apenas 10% a 30% das organizações conseguem executar sua estratégia. Os nossos conselhos de administração e as equipes executivas passam mais tempo elaborando a estratégia do que a colocando em prática. Muitos clientes também têm trabalhado com grandes consultorias nessa área, afim de que elas ajudem a elaborar uma boa estratégia – o problema é que não ensinam a executar essa estratégia. No entanto, para mim fica claro que estratégia e liderança são profundamente interligadas: os líderes elaboram a estratégia e precisam trabalhar em conjunto para alinhar a organização. Cabe a eles garantir que todos, desde o pessoal de linha de frente até a equipe sênior, conheçam o plano. Lacunas na liderança levam a lacunas na execução.

  1. A pressão de administrar a complexidade

Um levantamento global realizado pela IBM com 1.500 CEOs revelou que a complexidade representa um grande desafio para os líderes de hoje. Oitenta por cento dos líderes que participaram do levantamento acreditavam que o ambiente de negócios no futuro será ainda mais complexo do que hoje. Menos de 50% confiavam que teriam a capacidade de lidar com tamanha complexidade. A complexidade está não só aumentando como também acelerando. Os líderes vão precisar ajudar seus funcionários e sua organização a administrar esse alto nível de complexidade no ambiente de negócios. Eles também vão precisar fazer isso apesar de sentirem que têm menos poder. Os dias do comando e controle chegaram ao fim e você, o líder, agora precisa influenciar e recrutar os stakeholders enquanto eles administram a complexidade na própria vida.

  1. A pressão de criar um valor duradouro

Você também se vê sob uma constante pressão de satisfazer as expectativas cada vez mais elevadas de clientes, conselhos de administração e acionistas. Você se vê sob um intenso escrutínio. Os clientes querem valor e irão para onde puderem encontrar esse valor. Hoje em dia, a lealdade dos clientes é efêmera. Conselhos de administração e acionistas querem um aumento imediato do valor das ações e ao mesmo tempo a criação de um valor duradouro para o empreendimento, e cabe aos líderes seniores administrar essa difícil tensão.

  1. A pressão de desenvolver futuros talentos.

Você também não pode se focar apenas no presente e deve desenvolver a próxima geração de líderes. Depois de anos cortando custos e pessoal, as organizações estão notando grandes lacunas em suas bases de liderança e planos de sucessão. Parece que todo mundo finalmente se deu conta de que a liderança de fato tem uma enorme importância. O problema é que temos uma nova geração de funcionários que não estão muito interessados em assumir papéis de liderança. As tendências demográficas não estão agindo em nosso favor.

REDEFININDO O SEU ESTILO DE LIDERANÇA

Quando se pensa em todas essas pressões juntas, fica claro para você que os antigos modelos de liderança já não se aplicam mais. É hora de redefinir a liderança para o novo mundo em que vivemos.

O que funcionou no passado não vai funcionar no futuro. As expectativas em relação aos líderes estão cada vez mais altas. Todos os líderes precisam começar a se exigir mais. Acredito que novas expectativas em relação à liderança estão redefinindo o modo como cada um de nós terá de liderar no futuro. Como um líder, você precisará:

Alinhar e engajar.

Você precisa conhecer a estratégia da sua empresa e o seu papel na execução dessa estratégia. Você deve alinhar e engajar os funcionários para que eles possam executar a estratégia com eficácia, de maneira a efetivamente entregar valor aos clientes, aos acionistas e à sociedade.

Ver a empresa como um todo.

Você deve definir o sucesso tendo em vista a empresa. Isso significa que você terá de colaborar derrubando barreiras e fazendo o melhor para os clientes e para a organização como um todo. Todos os líderes de sua organização devem ter em comum essa mentalidade de “uma única empresa”.

Construir relacionamentos.

No nosso mundo interconectado e interdependente, os relacionamentos são mais importantes do que nunca. Você precisa dedicar um tempo para conhecer os seus stakeholders internos e externos. Também deve construir relacionamentos fundamentados em confiança e transparência.

Dominar a incerteza.

O ambiente de negócios cada vez mais complexo dos dias de hoje cria uma série de situações difíceis e arriscadas. O seu papel na liderança é focar a organização e ajudar os funcionários a lidar com a incerteza e o estresse inerentes a um ambiente como esse.

Desenvolver outros líderes.

Você deve deixar, como um legado, uma sólida base de liderança na sua organização, um legado que transcende o seu papel individual. Você precisa fortalecer os seus líderes para que eles possam fortalecer a organização.

Servir como um exemplo dos valores.

Você não pode se concentrar apenas nos seus próprios interesses pessoais ou nas metas da sua equipe. A visão, os valores e as metas da organização são mais importantes do que o ego e o interesse pessoal. Isso implica equilibrar a autoconfiança com a humildade. Você também precisa elevar os padrões para si mesmo, porque a mediocridade na liderança não é mais aceitável. Nunca foi. Hoje em dia todos os líderes devem redefinir o modo como lideram. Esse processo começa com você. E começa agora. Você está pronto?

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

JESUS CRISTO É SENHOR

O evangelho dos apóstolos não se ateve ao fato e ao significado da cruz e da ressurreição, mas foi mais além, concentrando-se no seu propósito: “Foi pre­cisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos”.

E fato conhecido que o mais primitivo, mais curto e mais simples de todos os credos cristãos era a afirmação “Jesus é Senhor”. Aqueles que reconheciam este senhorio eram batizados e recebidos na comunidade cristã. Afinal, como escreveu Paulo, sabia-se muito bem, por um lado, que: “Se com tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”; e, por outro lado, que “ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito de Deus”.

A primeira vista, pode parecer muito estranho que duas palavras gregas – Kyrios lesous “Senhor Jesus” (pois não existe nenhum verbo conectivo em nenhum dos versículos citados no parágrafo anterior) – pudessem servir como base satisfatória para se identificar e acolher alguém como cristão genuíno. Não seriam estas palavras terrivelmente inadequa­das? Ou, pior ainda, não seria isto um reducionismo teo­lógico?

A resposta a estas perguntas é “não”. Afinal de contas, as duas palavras em questão, que soam como uma confissão cristã mínima, são impregnadas de significado. Elas têm enormes implicações, tanto para a fé cristã como para a vida cristã. Elas expressam, primeiro, uma profunda con­vicção teológica acerca do Jesus histórico, e, segundo, um radical comprometimento pessoal com ele, como conse­quência disso. É esta convicção e este compromisso que eu proponho explorarmos neste capítulo.

Convicção teológica

Talvez a melhor forma de analisar as implicações doutri­nárias de se chamar Jesus de “Senhor” seja olhar nova­mente para Filipenses 2.9-11. Estes versículos constituem o clímax do que às vezes é chamado de carmen Christi,“o cântico de Cristo”. O que Paulo está citando é provavel­mente um hino cristão primitivo acerca de Cristo. E, ao fazê-lo, ele dá a esse cântico o seu imprimátur apostólico. Ele afirma que Cristo, embora compartilhasse da natureza de Deus e gozasse de igualdade com ele, mesmo assim esvaziou-se de sua glória e se humilhou para servir, tor­nando-se obediente a ponto de morrer numa cruz (versículos (5 a 8). E continua (versículos 9 a 11):

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Como um hino cristão, usado pela igreja e endossado pelo apóstolo, ele indica o que os cristãos primitivos pensavam de Jesus. Há aqui três pontos a destacar.

Primeiro, Paulo deu a Jesus um título divino. Isto é, referiu-se a ele como “Senhor”. É bem verdade que o termo kyrios era usado com diferentes significados, dependendo do contexto. Às vezes significava simplesmente “senhor”, como quando Maria Madalena pensou que o Jesus ressus­citado fosse o jardineiro e quando os sacerdotes pediram a Pilatos que o sepulcro fosse guardado com segurança.

Mas quando usado pelos discípulos em relação a Jesus, kyrios era mais do que uma forma educada de tratamento; era um título, como quando eles o chamavam de “o Senhor Jesus” ou “o Senhor Jesus Cristo”. Isto fica bem claro no contexto do Antigo Testamento.

Quando o Antigo Testamento veio a ser traduzido para o grego em Alexandria, cerca de 200 a.C, os devotos es­tudiosos judeus não sabiam como lidar com o nome sagrado Javé ou Jeová. Eles eram reticentes demais em pronunciá-lo; não sentiam liberdade para traduzi-lo ou mesmo para transliterá-lo. Portanto, eles colocavam em seu lugar a paráfrase ho kyrios (“o Senhor”), razão pela qual “Javé” ainda aparece, na maioria das versões, como “o Senhor”. (Aos amantes da numerologia bíblica talvez interesse saber que isto ocorre 6.156 vezes na Septuaginta. Pelo menos é o que já li em algum lugar; eu nunca tive vontade nem paciência para conferir…)

O que é realmente impressionante é que os seguidores de Jesus, sabendo que, pelo menos em círculos judaicos, ho kyrios era o título tradicionalmente dado a Javé, Criador do universo e o Deus da aliança de Israel, não tinham escrúpulos de aplicar o mesmo nome a Jesus, nem viam nenhum mal em fazê-lo. Era a mesma coisa que dizer que “Jesus é Deus”.

Segundo, Paulo transferiu para Jesus um texto divino. Em Isaías 45.23 Javé fizera um solilóquio:

Por mim mesmo tenho jurado;

da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás.

Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua.

Agora Paulo (ou o autor do hino que ele está citando) tem a audácia de extrair este texto de Isaías e reaplicá-lo a Jesus. A implicação é inevitável. A honra que o profeta disse ser devida a Javé, o apóstolo diz ser devida a Cristo; além disso, era para ser universal, envolvendo “todo joelho” e “toda língua”.

Um exemplo similar é o uso que o Novo Testamento faz de Joel 2.32. O profeta havia escrito que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. No Dia de Pente­costes, porém, Pedro reaplicou esta promessa a Jesus, exortando seus ouvintes a crerem em Jesus e a serem balizados em seu nome. Da mesma forma, mais tarde, Paulo escreveu que o Senhor Jesus “é o Senhor de todos, rico para com todos que o invocam”, pois “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Assim, o poder salvador de Javé para com Israel tornou-se o poder salvador do Jesus, tanto para os crentes judeus como para os gentios.

Em terceiro lugar, Paulo reivindicou para Jesus uma adoração divina. Qualquer que seja a nossa interpretação sobre a confissão da língua de que ele é Senhor, o dobrar os joelhos é certamente um culto. Na verdade, no Novo Testamento a oração é, com frequência, dirigida a Jesus, especialmente quando Paulo relaciona “Deus, nosso Pai” com “nosso Senhor Jesus Cristo” como sendo, ao mesmo tempo, a fonte de graça e o objeto da petição. Convém lembrarmos também Hebreus 1.6: “E todos os anjos de Deus o adorem.” Nos documentos do Novo Testamento assume-se que graça brota de Cristo e que a ele são devidas a oração e a adoração. De fato, a cristolatria (adoração a Cristo) precedeu a cristologia (a doutrina desenvolvida de Cristo). Mas, se Cristo não é Deus, então cristolatria é idolatria, como Atanásio percebeu claramente no século IV ao ar­gumentar contra a heresia ariana que dizia ser Cristo um ser criado.

Eis aqui, portanto, três importantes dados contidos no hino cristão que Paulo estava citando: os cristãos primi­tivos deram a Jesus um título divino (“Senhor”), trans­feriram para ele textos divinos (concernentes à salvação que ele confere e à honra que ele merece) e lhe renderam culto divino (o dobrar dos joelhos). Estes fatos são indis­cutíveis e são ainda mais impressionantes por serem naturais e quase casuais.

Além disso, convém notar que os autores do Novo Tes­tamento nem argumentaram se era certo ou não identificar tão ousadamente Jesus como Deus, pois não havia neces­sidade alguma de o fazerem. Paulo defendeu, e com toda ousadia, o evangelho da justificação pela graça por meio da fé, porque ele estava sendo desafiado. Mas o senhorio divino de Jesus (a verdade de que “há um só Senhor, Jesus Cristo”), isso ele não debateu, o que deve significar que o assunto não estava em discussão. Assim, poucos anos depois da morte e ressurreição de Jesus, sua divindade já fazia parte da fé universal da igreja.

A confissão de que “Jesus é Senhor” tem uma segunda inferência teológica, a saber, que ele tanto é Salvador como é Deus. A tradição em alguns círculos evangélicos é distinguir claramente entre Jesus como Salvador e Jesus como Senhor, e até sugerir que a conversão implica em crer nele como Salvador, sem necessariamente submeter-se a ele como Senhor. A motivação para este ensinamento até que é boa, pois visa salvaguardar a verdade da justi­ficação somente pela fé, sem introduzir pela porta dos fundos a justiça pelas obras (obedecer a Cristo como Senhor). No entanto, esta posição é biblicamente indefensável. Jesus não só é “nosso Salvador e Senhor”, único e indivisível, como também seu senhorio implica sua salvação e, na verdade, a proclama. Ou seja, seu título de “Senhor” é um símbolo de sua vitória sobre todas as forças do mal, que foram postas debaixo de seus pés. O próprio fato de podermos ser salvos deve-se a esta vitória. E precisamente por ser Senhor que ele é capaz de ser Salvador. Não pode haver salvação sem senhorio. As duas afirmações, “Jesus é Senhor” e “Jesus salva”, são virtualmente sinônimos.

Compromisso radical

Conforme já vimos, a palavra kyrios podia ser usada sim­plesmente como uma designação respeitosa. Mas era mais comum empregá-la referindo-se a proprietários de terras ou de escravos. A posse trazia consigo o pleno controle e direito de disponibilidade. É com essa compreensão que Paulo, Pedro e Tiago começam suas cartas, designando-se a si mesmos “servo de Jesus Cristo”. Eles sabiam que ele os havia comprado à custa de seu próprio sangue, e que, por isso mesmo, pertenciam a ele e estavam inteiramente a seu serviço.

Este ser possuído pessoalmente por Cristo e estar pes­soalmente comprometido com ele vai impregnar cada parte da vida de seus discípulos. E tem pelo menos seis dimensões.

A primeira é a dimensão intelectual. Eu começo com a mente porque ela é a cidadela central da nossa persona­lidade e efetivamente governa nossas vidas. Apesar disso, ela é muitas vezes a última fortaleza a render-se ao senho­rio de Jesus. A verdade é que nós preferimos pensar nossos próprios pensamentos e ponderar nossas próprias opiniões; e se os dois entrarem em conflito com o ensino de Jesus, pior para ele!

Mas Jesus Cristo reivindica autoridade sobre nossas mentes. “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim”, disse ele. Seus ouvintes judeus o teriam compreendido imediatamente. Afinal, eles estavam acostumados a falar sobre o “jugo da Tora” (a lei), a cuja autoridade se sub­metiam. Agora Jesus falava de seu ensino como sendo um jugo. Seus seguidores tinham que tornar-se seus pupilos, seus discípulos, sujeitar-se a suas instruções, aprender com ele. Não precisavam ter medo disso, pois, por um lado, ele mesmo era “manso e humilde de coração”; e, por outro lado, o jugo era “suave” e sob sua leve disciplina eles encontrariam “descanso” para suas almas. Em outras palavras, o verdadeiro “descanso” reside em submeter-se ao jugo de Cristo (e não em resistir a ele). O apóstolo Paulo, posteriormente, iria escrever algo similar, ao ex­pressar sua decisão de “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”.

Mas o cristão contemporâneo, na sua ânsia por reagir com sensibilidade aos desafios do mundo moderno, não pode, para tanto, tentar livrar-se da autoridade de Jesus Cristo a fim de fazê-lo. Um discípulo não tem a liberdade de discordar de seu divino mestre. O que nós cremos acerca de Deus e do ser humano, seja homem ou mulher, criado à sua imagem, ou sobre a vida e a morte, os deveres e o destino, a Escritura e a tradição, a salvação e o juízo, e muito mais ainda, tudo isso nós aprendemos com ele. Existe em nossos dias, tão cheios de especulações estranhas e loucas, uma urgente necessidade de retomarmos nossa posição correta aos pés de Cristo. “Só quem obedece sem reservas à ordem de Jesus”, escreveu Dietrich Bonhoeffer, “e submete-se sem resistências ao seu jugo, acha leve o seu fardo e sob sua doce pressão recebe o poder de perseverar no caminho certo. A ordem de Jesus é difícil, insuporta­velmente difícil, para quem tenta resistir a ela. Mas para quem se submete voluntariamente, o jugo é suave e o fardo é leve.”

Segundo, o compromisso radical com Jesus Cristo tem uma dimensão moral. Por todo lugar ao nosso redor os padrões morais estão desabando. As pessoas estão confu­sas, sem saber se ainda resta algum absoluto moral. O relativismo permeou o mundo e tem se infiltrado na igreja.

Até certos crentes evangélicos deturpam a Escritura no que se refere à lei. Eles citam as conhecidas declarações do apóstolo Paulo, de que “o fim da lei é Cristo” e “não estais debaixo da lei” e, fazendo vista grossa ao contexto, distorcem o seu sentido, dizendo que a lei já foi abolida, que nós já não temos mais a obrigação de obedecer a ela, mas somos livres para desobedecer-lhe. Mas o que Paulo quis dizer foi algo completamente diferente. Ele estava se referindo ao caminho da salvação, não ao caminho da santidade. Ele estava insistindo em que, para sermos aceitos por Deus, nós “não estamos sob a lei, mas debaixo da graça”, já que somos justificados somente pela fé e não por obras da lei. Mas nós ainda estamos sujeitos à lei moral no que tange à nossa santificação. Como Lutero sempre dizia, a lei nos conduz a Cristo para sermos justificados, mas Cristo nos manda de volta para a lei a fim de sermos santificados.

O apóstolo é bem específico quanto ao lugar da lei na vida cristã. Ele insiste em dizer que tanto a obra expiatória de Cristo como o fato de o Espírito habitar em nós têm em vista a nossa obediência à lei. Por que foi que Deus enviou seu Filho para morrer por nossos pecados? Respos­ta: “A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que… andamos… segundo o Espírito”. E por que Deus colocou o seu Espírito em nossos corações? Resposta: a fim de escrever ali a sua lei. Portanto, a promessa de Deus encontrada no Antigo Testamento quanto à nova aliança poderia se expressar igualmente como: “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas ins­creverei” e “Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei… que guardeis os meus juízos e os observeis”.

Portanto, Jesus nos conclama à obediência. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” A maneira de provarmos nosso amor por Cristo não é, nem fazendo altos protestos de lealdade, como Pedro, nem entoando cantilenas sentimentais na igreja, mas, sim, obedecendo aos seus mandamentos. A prova do amor é a obediência, disse ele, e o galardão do amor é o fato de Cristo revelar-se a nós.

Em terceiro lugar, o compromisso cristão tem uma dimensão vocacional. Isto significa que ele inclui nossa vida de trabalho. Dizer “Jesus é Senhor” nos compromete a servir a vida inteira. Nós não deveríamos hesitar em dizer que cada cristão é chamado a ministrar, ou melhor, dar a sua vida em ministério. Se para você isto parece uma declaração chocante demais, provavelmente é porque está pensando em “ministério” como sinônimo de ministério pastoral ordenado. Mas o que eu estou dizendo é que nós somos chamados a ministrar ou servir (diakonia) de al­guma forma. A razão por que se pode dizer isso é que nós somos seguidores de alguém que assumiu “a própria na­tureza de um servo”, que declarou que não tinha vindo “para ser servido, mas para servir” e acrescentou: “no meio de vós, eu sou como quem serve”. Portanto, se nós nos dizemos seguidores de Jesus, é inconcebível que gas­temos nossa vida de outra forma que não seja servindo. E isto significa que devemos ser capazes de ver nosso emprego ou profissão em termos de serviço. Nosso trabalho diário tem de ser uma esfera mais ampla em que Jesus exerça o seu senhorio sobre nós. Além do nosso empregador terreno, e por detrás deste, temos que ser capazes de en­xergar o nosso Senhor celestial. Então poderemos estar “trabalhando para o Senhor, e não para homens”, já que “a Cristo, o Senhor, é que estamos servindo”.

Em novembro de 1940 a cidade de Coventry foi devastada por um bombardeio aéreo, que destruiu inclusive sua ca­tedral do século XIV. Depois da guerra, as ruínas da velha catedral foram preservadas, construindo-se uma nova ao lado dela. Desde os tempos medievais havia, dispostas em volta das paredes da velha catedral, uma série de capelas corporativas (por exemplo, para os ferreiros, para os ven­dedores de tecidos, os cortineiros e os tintureiros) simbo­lizando a íntima ligação entre a igreja e o trabalho. Estas capelas foram destruídas, mas em seu lugar foram dispos­tos “santuários” ao redor das paredes em ruínas, expres­sando as implicações da oração “Santificado seja o teu nome”:

Na indústria, ó Deus, que estejas tu em minhas mãos e em meu fazer. Nas artes, Deus, que estejas tu em meus sentidos e em meu criar. No lar, ó Deus, que estejas tu em meu coração e em meu amar. No comércio, que estejas, Deus, no meu balcão e em meu vender. Na cura, ó Deus, que estejas tu em minha habilidade e em meu tocar. No governar, que estejas, Deus, nos planos e em meu decidir. Na educação, que estejas, Deus, em minha mente e em meu crescer. Na recreação, que estejas, Deus, em meus membros e em meu lazer.

Em quarto lugar, o senhorio de Cristo tem uma dimen­são social. Isto significa, em parte, que os seguidores de Jesus têm responsabilidades, tanto individuais como so­ciais — por exemplo, para com a família, a firma, a vizi­nhança, o país e o mundo. Porém significa muito mais que isso.

Em certo sentido, confessar “Jesus como Senhor” é reconhecê-lo como Senhor da sociedade, mesmo daquelas sociedades ou segmentos da sociedade que não reconhecem explicitamente o seu senhorio. Consideremos este dilema que o Novo Testamento coloca diante de nós. Por um lado, diz-nos que Jesus é Senhor. Ele destronou e desarmou os principados e potestades, triunfando sobre eles na cruz. Deus o exaltou à sua mão direita e colocou tudo debaixo de seus pés. Consequentemente, ele pode reivindicar para si toda autoridade. Por outro lado, nós continuamos lutando contra os principados e potestades das trevas. Eles podem ter sido derrotados e até privados de poder; mas continuam ativos, influentes e sem escrúpulos. O após­tolo João vai ainda mais longe ao declarar que “o mundo inteiro jaz no maligno”. De fato, este dilema está bem resumido no Salmo 110.1, que foi citado por Jesus e por vários autores do Novo Testamento: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés.” Dentro do compasso deste único versículo, o Messias é descrito como alguém que reina à mão direita de Deus e também como quem aguarda    a derrota de seus inimigos.

Como é que podemos conciliar estas duas perspectivas? Quem é Senhor: Jesus ou Satanás? Está Cristo reinando sobre seus inimigos, ou ele está esperando que se rendam? A única resposta possível para estas questões é “as duas coisas”. Temos que distinguir entre o que é de jure (por direito) e o que é de facto (de fato ou na realidade). De jure Jesus é Senhor, pois Deus o elevou ao lugar mais sublime. De facto, porém, é Satanás que reina, pois ainda não foi declarado derrotado nem foi destruído.

Como é que esta tensão afeta o nosso discipulado? Já que Jesus é Senhor por direito, isto é, por determinação divina, nós não podemos ser condescendentes em nenhuma situação que negue isso. Nós bem que gostaríamos que aquele que é Senhor fosse reconhecido como tal; esta é a nossa tarefa evangelística. Entretanto, mesmo em uma sociedade que não reconhece especificamente o seu senho­rio, ainda nos preocupa que os seus valores prevaleçam, que os povos de todas as raças e religiões tenham respei­tados os direitos e a dignidade humana, que mulheres e crianças sejam tratados com honra, que se garanta justiça para os oprimidos, que a sociedade se torne mais justa, compassiva, livre e serena. Por quê? Por que nos preocu­pamos com estas coisas? Porque Jesus é, por direito, o Senhor da sociedade, e porque ele se preocupa com elas. Isto não seria ressuscitar o velho “evangelho social” do liberalismo teológico, que cometeu o equívoco de confundir uma sociedade compassiva com o reino de Deus? Pelo contrário, é levar a sério a verdade de que Jesus é Senhor da sociedade e, portanto, tentar torná-la mais ao gosto dele.

Foi durante sua palestra inaugural na abertura da Uni­versidade Livre de Amsterdã, em 1880, que Abraham Kuyper, que mais tarde viria a tornar-se Primeiro Ministro da Holanda, disse: “Não existe uma única polegada de toda a área da vida humana sobre a qual Cristo, que é Soberano de tudo, não declare ‘É minha!'” De igual maneira, o Dr. David Gill, do New College, Berkeley, escreveu: “Jesus é Senhor, não só da vida íntima, da vida futura, da vida familiar e da vida da igreja, mas também da vida intelectual e política  —   tudo é seu domínio.”

Em quinto lugar, um compromisso radical com Cristo tem uma dimensão política. Não podemos esquecer que Jesus foi condenado tanto por uma ofensa política quanto por uma ofensa religiosa. Na corte judaica ele foi consi­derado culpado de blasfêmia, por ter chamado a si mesmo Filho de Deus, enquanto que na corte romana ele foi con­denado por sedição, por se haver declarado rei, e Roma não reconhecia outro rei além de César. Portanto, as reivin­dicações de Jesus tinham implicações políticas inevitáveis. Sua declaração de que nós temos que dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” pode ter sido deliberadamente enigmática. Mas ela certamente implica­va que existem áreas sobre as quais Deus é Senhor e nas quais César não deve se intrometer.

Os cristãos primitivos enfrentavam um constante con­flito entre Cristo e César. Durante o primeiro século, a megalomania dos imperadores era cada vez maior. Eles mandavam construir templos em sua própria honra e exigiam que seus súditos os reverenciassem como deuses. Estas exigências acabaram entrando em choque direto com o senhorio de Cristo, a quem os cristãos honravam como rei, ou melhor, como “o soberano dos reis da terra”. Plínio, que foi governador da Bitínia no século II, descreveu em uma carta para o Imperador Trajano como ele fazia trazer à sua presença na corte os cristãos que suspeitava serem desleais, e como libertava somente aqueles que “ofe­reciam invocação com vinho e incenso a vossa [sc. o Imperador] imagem”. Mas como é que os crentes podiam dizer “César é Senhor” se eles haviam confessado que “Jesus é Senhor”? Antes ir para a prisão e a morte do que negar o senhorio de Cristo!

A divinização do estado não acabou com o fim do Império Romano. Ainda hoje existem regimes totalitários que exi­gem de seus cidadãos uma lealdade incondicional, que os cristãos simplesmente não podem prestar. Os discípulos de Jesus devem respeitar o estado e, dentro dos limites, submeter-se a ele; nunca, porém, irão adorá-lo nem dar-lhe o apoio acrítico que ele exige. Por isso é que às vezes o discipulado implica em desobediência. Aliás, a desobe­diência civil é uma doutrina bíblica, e existem na Escritura uns quatro ou cinco exemplos notáveis disso. Ela nasce naturalmente da afirmação de que Jesus é Senhor. O princípio é claro, mesmo que sua aplicação possa envolver os crentes em agonias de consciência. É isso aí. Nós temos que nos submeter ao estado, pois sua autoridade provém de Deus e seus oficiais são ministros de Deus. Mas há um limite: quando a obediência ao estado implica em de­sobediência a Deus. Neste ponto nosso dever, como cris­tãos, é desobedecer ao estado a fim de obedecer a Deus. Pois, afinal de contas, se o estado abusa de sua autoridade dada por Deus e tem a presunção, seja de ordenar aquilo que Deus proíbe, seja de proibir aquilo que Deus ordena, nós precisamos dizer “não” ao estado a fim de dizer “sim” a Cristo. Como diz Pedro, “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. Ou, em palavras de Calvino, “obe­diência aos homens não deve transformar-se em desobe­diência a Deus”.

Vejamos um exemplo bem recente, da África do Sul. Em 1957, Hendrik Verwoerd, então Ministro dos Negócios Nacionais, anunciou um projeto de lei cuja “cláusula re­ferente à igreja” impediria qualquer associação racial em “igreja, escola, hospital, clube ou qualquer outra institui­ção ou lugar de lazer”. O arcebispo anglicano da Cidade do Cabo na época era um gentil académico chamado Geoffrey Clayton. Ele e seus companheiros de clero, embora com relutância e apreensão, resolveram desobedecer. Então ele escreveu ao Primeiro Ministro, dizendo que, se o projeto se transformasse em lei, ele seria “incapaz de obedecer-lhe ou de aconselhar nosso clero e pessoal a fazê-lo”. Na manhã seguinte ele morreu, talvez sob a dor e o sofrimento do desafio da desobediência civil. O projeto foi aprovado, de uma forma que não chegaria a prejudicar os líderes da igreja mas que iria penalizar os adoradores negros. Depois que se transformou em lei, foi lida em todas as igrejas anglicanas uma carta convocando tanto o povo como o clero a desobedecerem a ela.

Em sexto lugar, o compromisso com Cristo tem uma di­mensão global. Afirmar que “Jesus é Senhor” é reconhecer seu senhorio universal. Afinal, Deus o “exaltou sobrema­neira”, assim como nós deveríamos prestar-lhe hyperypso – uma palavra que não ocorre em nenhum outro lugar no Novo Testamento e que pode até ter sido cunhada por Paulo. Ela significa que Deus o elevou “à mais elevada das altu­ras”. E o propósito de Deus ao fazer isto foi que todo joelho se dobrasse e toda língua o confessasse como Senhor. Nós não temos liberdade alguma de impor qualquer limite à repetição da palavra “todo”. Portanto, se Deus deseja que todo o mundo reconheça a Jesus, este deve ser também o nosso desejo. Os hindus falam sobre “o Senhor Krishna” e os budistas do “Senhor Buda”, mas nós não podemos aceitar essas reivindicações. Só Jesus é Senhor. Ele não tem rivais.

Não existe incentivo maior para a missão mundial do que o senhorio de Jesus Cristo. Missão não é, nem uma inter­ferência impertinente na vida privada de outras pessoas, nem uma opção dispensável que pode ser rejeitada. Pelo contrário, missão é uma dedução inevitável do senhorio universal de Jesus Cristo.

A princípio a afirmação dessas duas palavras – Kyrios Iesous – parecia completamente inofensiva. Mas nós vimos que ela tem ramificações que vão muito longe. Além de expressar nossa convicção de que ele é Deus e Salvador, ela também indica nosso radical comprometimento com ele. Esse compromisso tem dimensões intelectuais (sub­meter nossas mentes ao jugo de Cristo), morais (aceitar seus padrões e obedecer às suas ordens), vocacionais (gas­tar nossas vidas em seu serviço libertador), sociais (pro­curar impregnar a sociedade com os seus valores) e globais (zelar pela honra e glória de seu nome).

GESTÃO E CARREIRA

Ajustando a rota

AJUSTANDO A ROTA

O que fazer para corrigir uma decisão equivocada de carreira e evitar que ela atrapalhe sua trajetória profissional.

Na manhã do dia 29 de agosto de 2016, o país ficou em choque com a história do executivo de telecomunicações Nabor Coutinho de Oliveira Júnior, de 43 anos. Ele é suspeito de matar a mulher e jogar os dois filhos pela janela do prédio em que moravam na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, e ter se atirado pela sacada. No apartamento, a polícia encontrou um a carta com indícios de que o motivo do crime seria o arrependimento dele em relação a uma recente mudança de emprego. Nabor estaria preocupado com uma possível demissão e perda da renda. Uma crise profissional como motivação para um a tragédia dessas proporções, segundo o delegado responsável, surpreendeu até os policiais.

Embora a maioria das pessoas não aja de maneira tão drástica diante de um erro em seu planejamento de carreira, a história de Nabor serve de alerta de que estar mal resolvido no trabalho pode ser altamente nocivo. “O ser humano, em sua essência, vive em busca da felicidade. A empresa faz parte dessa busca na medida em que o trabalho traz realização e reconhecimento”, afirma José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching, de São Paulo. “O indivíduo que deixa um emprego no qual é muito engajado pode sentir que está perdendo a própria a vida. Fica sem chão.”

SINAIS

A troca de companhia não é o único movimento de carreira que pode gerar arrependimentos. Aceitar uma promoção e perceber que não estava preparado ou desistir de um desafio fora do país também são exemplos dessas situações no dia a dia das organizações. Os primeiros sinais de que se deu um passo profissional errado vêm da própria sensação de infelicidade com a mudança, que contraria o tradicional período inicial de encantamento com o novo emprego. Para descobrir a razão da insatisfação e avaliar se a decisão foi realmente equivocada, é preciso fazer uma série de questionamentos. “Falta alguma competência técnica para ocupar essa posição? Não me identifico com a cultura da empresa? O problema é o segmento de atuação? Ou a equipe não é bacana?”, diz Adriano Araújo, sócio da consultoria BR Talent e professor de liderança da FGV, em São Paulo. “Descobrir o que não vai bem é importante para aceitar que cometeu um erro e ter humildade para pedir socorro.”Mas não é preciso se desesperar. Segundo os especialistas, após reconhecer que errou e está encrencado, é hora de arregaçar as mangas para buscar uma saída. Afinal, apesar das consequências, um erro não é necessariamente irreversível.

O advogado Alexandre Dalmasso, de 50 anos, aprendeu essa lição. Dois anos atrás, ele deixou a Astellas, empresa japonesa de medicamentos onde ocupava o cargo de diretor jurídico e de compliance, para ocupar um posto equivalente, com responsabilidade sobre a América Latina, numa farmacêutica norte-americana. “Naquele momento, avaliei que seria interessante para a minha carreira ser diretor regional”, diz. Mesmo vivendo uma experiência rica – com dezenas de viagens para Argentina, Chile e Uruguai -, e, cerca de cinco meses, Alexandre começou a se sentir incomodado. Os processos internos eram muito diferentes daqueles com que estava habituado, havia menos estrutura e um orçamento mais limitado, o que prejudicava o alcance das metas. “Nesse meio tempo, encontrei o presidente da Astellas num restaurante e ele sinalizou que gostaria que eu voltasse. Então, a pergunta que me fiz foi: o que vai me deixar mais feliz? Foi assim que tomei a decisão”, diz o advogado.  “Não levei em conta a questão financeira. Perdi cerca de 250 000 reais de bonificações na transição”, afirma.

Para não manchar a carreira que levou duas décadas para construir, asim que tomou a decisão, AIexandre comunicou a chefia da empresa norte-americana e expôs seus motivos abertamente. EIe ainda permaneceu por três meses na empresa para concluir as entregas com que havia se comprometido. “O ambiente era ótimo e a equipe, excelente. Jamais poderia deixá-los na mão.”

REVERSÃO DE DANOS

Para a coach Fabiana Monteiro, que acaba de lançar o primeiro volume do livro Histórias de Sucesso (editora Global Partners), o “erro é parente próximo do sucesso”. Após conversar com mais 30 executivos de empresas como BMW, Walmart e FOX, ela detectou que todos derraparam em algum momento da trajetória profissional. “Errar faz parte do aprendizado. O importante é ter consciência do que o fez tomar o caminho errado e não se fazer de vítima, culpando o mercado, a empresa, o líder”, afirma. A orientação, após os deslizes, é tomar decisões rápidas para reverter a falha. Segundo Fabiana, o tempo com que o profissional tenta resolver o problema faz toda difrença.

O auditor Eduardo Takashi, de 32 anos, de São Paulo, é prova disso. Em 2105, ele deixou um cargo de supervisor na PwC, onde estava havia cinco anos, para assumir outra função na gigante automobilística General Motors. Naquele momento, embora adorasse o trabalho e tivesse recebido cinco promoções consecutivas, ele se encantou pela possibilidade de fazer algo diferente, com salário maior trabalhando próximo à sua casa. “Sou de São Caetano do Sul. O sonho de todo mundo que mora na cidade é trabalhar na GM.” O problema é que, ao entrar na empresa, Eduardo percebeu que a nova função era extremamente técnica e bastante diferente do que ele esperava.

Com pouco mais de 15 dias no novo trabalho, Eduardo sinalizou à sua gestora o que estava acontecendo. “Disse que não iria atender às expectativas daquela vaga”, diz. A gestora agradeceu a sinceridade, mas considerou a decisão precipitada e pediu que ele esperasse mais alguns dias. Eduardo aguardou, mas estava decidido e resolveu agir. “Entrei em contato meu antigo líder na PwC e fui direto. Disse que estava arrependido e queria voltar. Em alguns dias, eu já estava trabalhando lá novamente”, diz. A proatividade na correção do erro foi recompensada. “Em julho deste ano, inclusive, recebi outra promoção e me tornei gerente”, afirma.

Para quem não tem a possibilidade de simplesmente voltar para o posto ou empresa anterior, a dica é pesquisar com cuidado vagas internas ou externas que realmente tenham a ver com seu perfil, para não aceitar qualquer nova posição apenas por ansiedade. “e ficar desesperado, corre-se o risco de fazer uma terceira transição equivocada”, diz Maria Sartori, gerente de divisão da consultoria Robert Half, em São Paulo. Ter uma solução para a cadeira que vai abandonar, indicando alguém para o cargo, ou se comprometendo a concluir as entregas antes da transição são cuidados que evitam que você feche portas nesse processo.

PROPÓSITO DEFINIDO

Conhecer bem a si mesmo é o melhor caminho para evitar passos errados no planejamento de carreira. Se você percebe que não lida bem com pressão e detesta dar ordens, não deveria aceitar um cargo de liderança, mesmo que a direção queira promovê-lo. No caso ele uma expatriação, é preciso incluir na equação como o parceiro e os filhos encararia m a mudança ele país. “Em mais da metade das expatriações que não dão certo, há problemas familiares envolvidos. Uma posição internacional pode parecer o máximo no início, mas, se não for bem acertada em casa, vai causar inúmeros transtornos ao funcionário”, diz Adriano Araújo, da BR Talent.

Margareth Columa, diretora da consultoria Lee Hecht Harrison no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, orienta seus clientes a analisar se sua motivação para aceitar uma posição é interna (valores pessoais, sonhos, desafios, vocação) ou externa (prestígio da empresa, valor do salário, projeção do cargo, competência da equipe). “Quando o profissional se conecta apenas com o que está do lado de fora, é difícil colocar toda a sua energia naquela atividade. E, com o tempo, as chances ele ter um desempenho ruim são grandes.”

A ambição exagerada também pode conduzir a erros profissionais. “Conheço muitos gerentes que querem virar diretores antes dos 40 anos. Não pensam muito nos motivos, apenas no status”, diz Magui Castro, sócia da consultoria de recrutamento executivo Caldwell Partners. “Olhar para a próxima cadeira sem pensar em se desenvolver na que está ocupando no momento gera muitos erros profissionais.”

Ela recomenda também ter um a postura ativa nas entrevistas de emprego. Entrevistar o recrutador durante o processo seletivo – sem soberba e com interesse genuíno – é uma jogada esperta. E isso não pega mal. Pelo contrário. Demonstra que você tem maturidade e segurança no seu taco. “Quando a pessoa quer muito a vaga, ela não faz perguntas. Diz apenas ‘aceito’, quando, na verdade, deveria fazer questionamentos do tipo: ‘O que vocês esperam de mim em 30 dias, em seis meses e em um ano?’. É obrigatório saber o que a empresa espera de você”, diz ela. Quem dedica tempo a pesquisar o novo cargo e empresa reduz drasticamente a chance de erros. Afinal, é sempre melhor prevenir do que remediar.

TRÍPLICE ESTRATÉGIA

Confira os três passos fundamentais para solucionar um erro em seu planejamento profissional.

1- QUESTIONAR

A Primeira e mais importante medida é entender o que exatamente deu errado. Coloque no papel os prós e contras da mudança – seja de cargo, emprego ou país – e analise se os contras têm relação com as competências técnicas exigidas pela posição, com os valores da empresa ou com a dinâmica do trabalho, por exemplo. A busca por respostas fará com que você entenda o motivo do seu desconforto e o ajudará a pensar em soluções.

2 – MAPEAR POSSIBILIDADES

Após identificar o problema que o fez se arrepender, faça um planejamento de transição com previsão de datas. Registre para onde deseja ir (ex: voltar para a empresa anterior, migrar de uma área para outra), com quem irá fazer contato e que argumento usará. Se o problema for de competência técnica, é mais fácil solucionar. Basta pesquisar curso ou treinamento na área, por exemplo, e solicitar ao gestor o suporte da empresa para realiza-lo.

3 – ENTRAR EM AÇÃO

Com o planejamento em mãos, procure quem pode ajudá-lo. Tenha seus argumentos em mente e seja o mais sincero possível. Se o desejo for retornar à antiga empresa, apure se ainda há espaço para você, admita o equívoco e diga que quer voltar por se identificar com o projeto. Se houve uma promoção indevida, abra o jogo com o chefe e com a área de RH para debaterem juntos o que fazer – capacitações ou até uma transferência de setor.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Psicologia da arquitetura

PSICOLOGIA DA ARQUITETURA

 Estruturas, cores, variações de luminosidade e peças de decoração influenciam estados de humor; especialistas tentam desvendar a maneira como o cérebro processa estímulos ambientais para criar espaços mais confortáveis.

Durante muitos anos, prevaleceu a ideia de que arquitetos, em geral, não planejam casas para que as pessoas se sintam bem dentro delas. Realmente, vários designers nos anos 70 viam seus projetos mais como uma obra de arte, guiando-se por prioridades estéticas. Não era esperado que os futuros moradores interferissem no processo de criação. Essa visão, entretanto, tem se modificado. A pergunta sobre o que torna um espaço realmente aconchegante, porém, ainda não foi totalmente respondida. No início dos anos 80, a psicologia da arquitetura dava seus primeiros passos, mas sabia-se muito pouco sobre como os ambientes influenciavam as pessoas. Nos anos 90, resultado da doutrina chinesa do feng shui, misturada às ideias new-age chamaram a atenção de muita gente: mesas de jantar quadradas foram substituídas por redondas, plantas com folhas pontiagudas foram banidas dos corredores, e irregularidades na planta das casas terminaram resolvidas com espelhos. Foi nessa época, também que as paredes ganharam cores.

No Brasil, embora os conhecimentos de psicologia ainda sejam pouco aplicados à arquitetura e apareçam de forma fragmentada, os olhares se tornaram mais apurados para identificar como prédios e ambientes podem ser mais adequados às necessidades humanas. Segundo o psicólogo Cary W. Evans, da Universidade de Cornell, em Ithaca, Estados Unidos, o homem moderno, habitante das grandes cidades, passa mais de 90% da vida em prédios. Com base nos conhecimentos da psicologia ambiental, Evans e sua colega, Janetta Mitchel McCoy, definiram cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar de uma pessoa: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso. As denominações parecem abstratas, mas por trás delas há conceitos bastante compreensíveis.

A estimulação refere-se ao quão enfadonho ou instigante um ambiente pode parecer, considerando que a maioria funciona melhor em locais sem grandes excessos. Parece óbvio que uma arquitetura carregada de elementos, como cores gritantes e estampas chamativas causem desconforto; mas há outros fatores a ser considerados, como a proteção contra ruídos externos e a existência de espaço livre suficiente para cada morador, já que o grande número de interações sociais também provoca estimulação em excesso – e desconforto.

A socióloga Wendy C. Regoeczi, da Universidade Estadual de Cleveland, em Ohio, observou, em 2003, que a proximidade espacial não leva as pessoas a um convívio mais íntimo, mas sim à retração ou a comportamentos agressivos, e esse efeito pode ser mais pronunciado quando há alta concentração habitacional por metro quadrado.

A segunda dimensão, a coerência, reflete-se principalmente na divisão de uma construção e determina o quão facilmente nos orientamos nela. Grandes prédios onde as pessoas se perdem nos corredores são exemplos de uma arquitetura incoerente; nesse caso a solução é simples: basta adotar sistemas indicadores de caminhos. Já a luminosidade de um prédio, garantida pelas janelas que possibilitem a visão de pontos de referência externos é vantajosa. A affordance é a qualidade de um ambiente que permite aos frequentadores realizar ações com mais ou menos facilidade. Naturalmente, seu grau depende do estilo de vida dos interessados. Por exemplo, desníveis e escadas podem ser um problema para famílias com crianças pequenas, pessoas com dificuldade de locomoção ou idosos.

SEM PROTEÇÃO

O controle trata da possibilidade de modificar o espaço de forma flexível. A impossibilidade de os funcionários de uma empresa determinarem a temperatura ou a iluminação em seu local de trabalho, eleva o nível de stress. O mesmo ocorre quando não há possibilidade de isolamento (ou ao contrário, a rotina é excessivamente solitária) seja no escritório ou na própria casa, pois privacidade e interação social bem dosadas contribuem para sensação de controle sobre o meio. Um dos elementos de design mais importantes nas casas é a hierarquia espacial de intimidade; idealmente, deve haver ambientes nos quais as pessoas possam ficar sozinhas, sem serem perturbadas. Móveis que podem ser rearranjados também favorecem a sensação de controle.

“A arquitetura atual raramente satis­ faz a necessidade humana de proteção”, critica o pesquisador Riklef Rambow, do Instituto de Arquitetura e Psicologia Ambiental, em Berlim. “Hoje em dia, a proximidade dos prédios, grandes janelas frontais e cômodos de vidro estão na moda. Muitos arquitetos parecem não considerar o fato de ser desagradável quando o vizinho nos observa enquanto comemos, e ainda examina se estamos usando meias iguais”. Mesas de trabalho costumam ser posicionadas para fornecer boa visão do local e das pessoas que entram no espaço – cumprindo assim uma típica regra do feng shui. Em geral, o que nos parece espacialmente agradável satisfaz instintos humanos básicos. ”É o caso da preferência da maioria das pessoas por se sentar com as costas para a parede, que corresponde à necessidade de controle territorial”, comenta a psicóloga habitacional, Antje Flade.

Segundo Evans e McCoy, acrescentar ao ambiente objetos que remetam a elementos da natureza – como lareira, fonte de água, aquário, flores ou janela com vista para um jardim – serve ao repouso. O efeito tranquilizante desse tipo de elemento já foi comprovado. Em 1984, o diretor da Universidade de Delawar, Newark, Estados Unidos, Roger S. Ulrich, comprovou em um estudo que pacientes hospitalizados que podiam ver um parque de suas camas se recuperavam mais rapidamente e precisavam de menos analgésicos. Já os que olhavam para fachadas de casas se mostravam mais agitados e desestimulados.

Mas o que fazer se a vista da janela só dá para ruas e paredes? O pesquisador Yannick Joye, da Universidade Livre de Bruxelas, afirma que plantas, fotos de paisagens e até protetores de tela com motivos da Natureza favorecem o bem-estar. Essa influência sobre o desempenho intelectual foi mensurada. Em 2003, pesquisadoras japonesas da Universidade Doshisha, em Kyoto, submeteram 140 voluntários a um teste de criatividade e notaram que os que obtinham melhor desempenho intelectual eram os que podiam ver plantas ou tinham um vaso de plantas diante da mesa de trabalho.

Nos manuais de decoração é comum ler que “vermelho estimula o apetite”, laranja tem efeito energizante”, “verde acalma”, “amarelo provoca alegria”. É consenso que reagimos intuitivamente às cores e não é à toa que, na arquitetura, o jogo de tons e luzes é tão importante. Fazer afirmações sobre o efeito psicológico que exercem sobre as pessoas, porém, é um pouco mais complexo.

Por um lado, existem preferências relacionadas às culturas, pois as cores têm conteúdos simbólicos diferentes em cada cultura. Enquanto nos países ocidentais o preto é a cor do luto, na China, por exemplo, é o branco que simboliza a morte. Nesse país, o amarelo é a cor da realeza e da divindade, enquanto na Alemanha os marginalizados muitas vezes eram obrigados a usar amarelo (essa era a cor dos lenços de cabeça de prostitutas na Hamburgo medieval, e da estrela de Davi pregada à roupa dos judeus durante o regime nazista).

Nos anos 80, a psicóloga e socióloga Eva Heller realizou, na Alemanha, uma pesquisa com mais de 1.800 pessoas de diferentes faixas etárias, criando uma espécie de “instantâneo de ideias” associadas a determinadas cores. Aproximadamente 44% dos entrevistados vinculavam conforto à cor marrom; o mesmo porcentual classificou a cor como “fora de moda”. Independente das preferências culturais ou modismos, experiências pessoais também influenciam a forma como cada um percebe a cor: É comum as pessoas notarem, por exemplo, que o laranja parece “alegre”, pois os ônibus escolares da sua infância eram exatamente do mesmo tom, ou “odeiam o verde oliva” porque lembra um período de ditadura militar e repressão.

Assim, não surpreende que estudos sobre a influência das cores cheguem a resultados conflitantes. Várias pesquisas têm falhas metodológicas – por exemplo, quando tons de brilho e saturação claramente diferentes eram comparados entre si. Os pesquisadores Patrícia Valdez e Albert Mehrabian, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, realizaram em 1994 um experimento convincente sobre as emoções despertadas pelas cores. Eles testaram dez comprimentos de ondas, variando o brilho e o grau de saturação. Em uma ampla área percebeu-se que quanto mais clara uma cor, mais impressões positivas ela despertava. Quanto mais intensa e escura, mais crescia a tensão.

E, surpreendentemente, não foram as ondas vermelhas, mas sim as verdes amareladas que provocaram maior agitação nos observadores.

Resultados obtidos em um estudo sobreo efeito das cores sobre o espaço, feito por Heiko Hecht e Susanne Marschall, da Universidade de Mainz, corroboram as conclusões da pesquisa americana. O ponto de partida foi uma cena do filme de Ingmar Bergman, Gritos e sussurros, de 1972, que ocorre em grande parte em uma sala decorada de vermelho-sangue. Mas será que é realmente essa cor que causa no espectador sensações desconfortáveis de estreitamento espacial?

Os pesquisadores trocaram o vermelho por um amarelo com o mesmo grau de brilho e saturação. Os sujeitos que observaram a imagem tingida com a nova coloração perceberam as distâncias entre as pessoas, exatamente da mesma forma que os participantes aos quais foi apresentada a cena original. Numa comparação direta, eles também utilizaram mais frequentem ente os predicados “quente”, “agradável” e “calmante” para o quarto vermelho; já o amarelo foi classificado como “frio”, “desagradável” e “negativo”.

Em seus últimos experimentos, Hecht testou a percepção espacial associada à claridade dos tons de cor de paredes e tetos. Os voluntários olhavam para um ambiente simulado, no qual a altura e a largura, assim com a cor de paredes, teto e chão variava. Resultado surpreendente: o contraste entre o teto e a parede não teve nenhum efeito direto sobre a avaliação da altura do ambiente. Somente a clareza foi decisiva: quanto mais claro o teto, mais alto ele parecia; quanto mais suave o tom das paredes, maior a sala “ficava”.

Um dado curioso: tetos altos facilitam voos intelectuais e sob eles as pessoas têm mais ideias “livres “. Isso foi comprovado em 2007 por Joan Meyers-Levy e Rui Zhu, da Universidade de Minnesota, em Minneapolis. Os participantes da pesquisa deviam criar novas palavras por meio do rearranjo das letras. Um grupo ficava em uma sala com três metros de altura, e o outro, em um ambiente com dois metros. Os voluntários das salas mais altas montaram as palavras mais rapidamente. Além disso, comparados aos da outra equipe, eles assinalaram com maior frequência, em um questionário, os itens em que se referiam às sensações de liberdade.

MAIS LUZ, MAIS PRAZER

Assim como a cor, as condições de iluminação também exercem influência mensurável sobre as pessoas. Vários estudos comprovam que ambientes claros com muita luz natural têm efeitos positivos. Os resultados foram fornecidos por pesquisas nas quais foram comparadas intensidade de luz natural em escritórios panorâmicos, onde normalmente, apenas uma parte dos lugares está perto das janelas. Em 2007, por exemplo, os pesquisadores da Universidade Gazi, em Ankara, entrevistaram aproximadamente 100 profissionais que trabalhavam em escritórios panorâmicos: quem ficava sentado mais distante das janelas mostrou-se bem menos satisfeito e fez pior avaliação das condições de trabalho de maneira geral.

Se é possível que as lâmpadas compensem a falta de luz natural, é questionável: as características da luz artificial ainda estão muito distantes das da luz solar e, acima de tudo, elas não alcançam o grau de luminosidade adequado. Sob o ponto de vista das psicólogas Shelley McColl e Jennifer Veitch, da Universidade McGill em Montreal, essas lâmpadas não são superiores a outras fontes de luz artificial no que diz respeito aos efeitos sobre o desempenho intelectual ou a saúde.

O pesquisador lgor Knez, do Instituto Real de Tecnologia da Suécia, trabalhou nos últimos anos em vários estudos, com os efeitos da luz artificial. Ele de parou com um quadro diferenciado: a preferência individual por uma luz mais quente (avermelhada) ou uma mais fria (azulada) parece estar relacionada à idade e, talvez, ao sexo. Pessoas mais idosas sentiam-se melhor com uma iluminação mais fria, ao contrário dos jovens, e em especial as mulheres. Sob condições que as pessoas consideravam mais confortáveis, o humor e o desempenho intelectual melhoravam significativamente. Ou seja: para ter melhores condições de trabalho e produzir mais, sem tanto desgaste, cada pessoa deveria ter a possibilidade de escolher a fonte de luz, natural ou artificial, que mais o agrade e determinar o grau de luminosidade que prefere.

Apesar desses estudos isolados, o que se vê é que a maioria dos locais de trabalho ainda não é organizada com o objetivo de proporcionar bem-estar a seus ocupantes. Cabe a cada um, portanto, observar a si mesmo e usar criatividade para personalizar os espaços onde passa tantas horas de seu dia. Talvez um conselho do arquiteto alemão Günter Behnisch, nesse caso, seja bem-vindo: “Se quer conforto, arrume um gato, ou melhor, dois de uma vez!”. Por quê? Ainda não há comprovação científica, mas qualquer um que os observe é obrigado a reconhecer: em qualquer residência, esses bichinhos sempre encontram um lugar agradável e adequado para uma soneca restauradora.

O BENEFÍCIO DAS PAREDES ALTAS

Nos últimos anos, escritórios panorâmicos e lofts tornaram­ se cada vez mais frequentes. Eles deviam tornar os espaços multifuncionais, mais amplos e flexíveis. Além disso, nos ambientes de trabalho, a ausência de paredes deveria facilitar a comunicação entre os funcionários. O que os estudos mostram, porém, é que nesses ambientes as pessoas se distraem com mais frequência e sofrem mais com interrupções e ruídos das conversas de outras pessoas, toque de telefones e pelo ir e vir geral. Em 2002, pesquisadores da Universidade Calgary, no Canadá, detectaram altas taxas de stress entre empregados que haviam sido transferidos de um escritório convencional para um ambiente sem divisórias. Segundo um estudo australiano, a satisfação e o desempenho diminuem principalmente entre as pessoas que precisam realizar tarefas complexas, que exigem concentração. Já as meias-paredes ajudam a reduzir as interrupções, mas não as eliminam. De qualquer forma, quanto mais altas as paredes, mas satisfeitos se mostram os funcionários.

 CONCEITOS-CHAVE

A psicologia ambiental lida com a interação entre o homem e seu ambiente natural e com comportamentos sustentáveis. Como um ramo dessa área surgiu, na década de 60, a psicologia da arquitetura, que estuda a vivência em ambientes construídos (salas, prédios e cidades).

O psicólogo americano, Gary W. Evans, afirma que moradores das grandes cidades passam, em geral, mais de 90% da vida dentro de casas e prédios. Usando elementos da psicologia ambiental, ele definiu cinco dimensões arquitetônicas que podem influenciar o bem-estar: estimulação, coerência, affordance, controle e repouso.

Pesquisas indicam que profissionais produzem mais e melhor quando podem escolher a fonte de luz que mais as agrada (natural ou artificial) e determinar o grau de luminosidade que preferem.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A RELEVÂNCIA DA RESSURREIÇÃO

A mais fantástica de todas as afirmações cristãs é que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Ela desafia o limite de nossa credulidade. Os seres humanos têm tentado, com a maior criatividade, desafiar como também negar a morte. Mas só Cristo declarou tê-la dominado: ele a derrotou ao vivê-la ele mesmo, destituindo-a do seu poder sobre outros. “Eu sou a ressurreição e a vida”, declarou Jesus. “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente.” E mais adiante: “Eu sou… aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves (isto é, tenho autoridade sobre) da morte e do inferno.”

Além do mais, os primeiros cristãos já gozavam dessa confiança. Prova disso foi a coragem e disposição – e com júbilo, até – para morrer por Cristo, como também a pregação dos apóstolos nos tempos da igreja primitiva. Logo depois do Pentecoste, conta-nos Lucas, as autorida­des judaicas em Jerusalém estavam “ressentidas por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressur­reição dentre os mortos”. A essência dos seus sermões segue o mesmo padrão: “…vós o matastes… Deus o ressus­citou… nós somos testemunhas”. E Paulo não se desviou disto, de forma que os filósofos de Atenas, ao ouvi-lo em praça pública, concluíram que ele estaria defendendo duas divindades estrangeiras, pois o ouviam referir-se repetidas vezes a Iesous e a Anastasis (ressurreição). E, posterior­mente, ao transmitir aos coríntios um esboço do evangelho original que ele mesmo havia recebido, ele se concentrou “antes de tudo” na morte, sepultamento, ressurreição e aparições de Jesus. Estes primeiros seguidores de Jesus pareciam ter, ao mesmo tempo, clareza e confiança quanto à sua ressurreição.

A declaração de que Jesus ressuscitou (ou foi ressus­citado) dos mortos gera três grandes questionamentos. Primeiro, o que significa a ressurreição (uma questão de semântica)? Segundo, ela aconteceu de fato (uma questão de história)? Terceiro, ela tem importância (uma questão de relevância)?

O que significa a ressurreição?

A questão semântica foi imposta ao raciocínio público na Inglaterra na década de 80, através de certas provocações feitas por David Jenkins, da Igreja Anglicana. Suas decla­rações foram interpretadas, pelo menos na imprensa popular, como uma negação deveras chocante da ressur­reição de Jesus Cristo.

Mas precisamos ser justos com o Dr. Jenkins. Ele mesmo se descreve como um bispo “crente” e não um bispo “du­vidoso”. Insiste em dizer que respondeu “sem hesitação”, “afirmativamente” e “em plena boa fé” às questões que lhe foram impostas ao ser consagrado. É verdade que, em seu livro anterior, ele afirmou claramente as doutrinas da pessoa divina-humana de Jesus e da Trindade. Assim, em suas conferências intituladas A Glória do Homem, pro­feridas em Bampton, em 1966, ele escreveu: “Deus e o homem são realidades distintas, as quais, em e como Jesus Cristo, estão em perfeita união”. E na Universidade de Birmingham, em suas “Conferências Edward Cadbury”, que ele intitulou A Contradição do Cristianismo e nas quais explorou o que significa ser humano, ele se referiu à Trin­dade como sendo “a interpretação legítima e necessária da história experimentada e percebida de Deus, Jesus e o Espírito”.

Dr. Jenkins declara também que crê na ressurreição de Jesus Cristo. No início de novembro de 1984, ele declarou o seguinte: “Eu creio na ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos… Qualquer um que diga que eu não creio na ressurreição… é um mentiroso. Isto eu posso afirmar ardente e categoricamente.” Contudo, não é pelo simples uso de uma linguagem vigorosa e mesmo exagerada que ele vai con­seguir convencer as pessoas. Pois ainda nos resta a questão semântica: o que significa a ressurreição? Em que sentido ele acredita na ressurreição?

Durante a cerimônia religiosa em que foi consagrado bispo, na catedral de York, perguntaram-lhe: “Você aceita a doutrina da fé trinitária tal como a recebeu a Igreja da Inglaterra? Estas últimas oito palavras representam um importante pré-requisito. Elas implicam uma distinção entre duas maneiras possíveis de se “aceitar” a doutrina cristã. Uma delas poderia ser chamada de “tradicional”, isto é, a aceitação da doutrina da mesma maneira como a própria Igreja Anglicana a tem recebido e entendido a partir das Escrituras e dos Credos. A outra poderia ser chamada de “idiossincrática”, ou seja, a aceitação da doutrina na forma como a pessoa que está sendo indivi­dualmente questionada sente-se capaz de recebê-la, o que pode estar muito longe do ensinamento bíblico e da com­preensão tradicional. O “sim” do Dr. Jenkins deve ter sido neste último sentido, já que ele não acredita que a ressur­reição envolveu a transformação do corpo de Cristo, que é o que a Igreja da Inglaterra sempre acreditou e ensinou. De fato, em 1989, ele zombou dessa visão ao descrevê-la como “um passe de mágica feito com ossos”; e na Páscoa de 1989 ele declarou que o Senhor ressurreto não era “nem um cadáver, nem um fantasma”, como se nós estivéssemos confinados a esta alternativa.

Como é que se pode esclarecer a questão semântica? O que quer dizer o Credo com a ressurreição de Jesus Cristo? Como deveríamos imaginar o Senhor ressurreto? Talvez, se nós esclarecermos em que não cremos, antes de afir­mamos em que cremos, isso nos ajude um pouco.

Primeiro, o Senhor ressurreto não é apenas uma influên­cia que sobreviveu. Por um lado, ‘hão podemos pensar nele simplesmente como alguém que sobreviveu à morte, como se fosse um fantasma. “Vede as minhas mãos e os meus pés”, disse ele, “que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” Por outro lado, “ressurreição” não sig­nifica a mera sobrevivência de uma influência. Muitos líderes que durante a vida inteira exerceram influência sobre a mente e o coração dos seus contemporâneos con­tinuam vivendo após a morte, no sentido de que a memória do seu exemplo continua sendo uma inspiração.

E este certamente o caso de Che Guevara. Ele teve um número extraordinário de seguidores. Sartre descreveu-o, certa vez, como “o homem mais completo do seu tempo”. Em seus trinta e nove anos (antes de ser morto na floresta) ele foi médico, escritor, economista, banqueiro, teórico político e guerrilheiro. Durante a sua vida, transformou-se numa lenda, um herói popular. Em toda sala de aula cubana as crianças cantarolavam: “Nós seremos como Che”. E, após a morte, sua influência tornou-se ainda maior. Ele proporcionou aos marxistas a imagem de um santo e mártir popular. Durante anos os muros dos prédios estudantis da América Latina permaneceram pichados com as palavras “Che está vivo!”

O mesmo se passou com Macário de Chipre, quando ele morreu, em 1977. Seus seguidores picharam prédios públicos com as palavras “Macário está vivo!”

Será somente isso o que os cristãos querem dizer ao declararem que “Jesus vive”? Alguns parecem não estar dizendo muito mais do que isso, ou seja, que ele exerce seu poder e espalha seu amor pelo mundo. Outros reivindicam para Jesus uma espécie de existência pessoal e constante, de forma que “ele anda comigo e fala comigo pelas sendas estreitas da vida”. Mas a grande declaração do Novo Tes­tamento não é que “ele vive”, mas que “ele ressuscitou”. A ressurreição só passou a ser uma experiência para nós porque ela foi, acima de tudo, um evento que realmente inaugurou uma nova ordem de realidade.

Em segundo lugar, o Senhor ressurreto não é um cadáver ressuscitado. Ressurreição significa muito mais do que fazer alguém voltar à vida. “Ressuscitar” tanto pode sig­nificar fazer reviver um paciente que entrou em coma, como trazer novamente à vida alguém que havia sido declarado clinicamente morto. Neste segundo sentido, temos o re­gistro de três ressuscitações feitas por Jesus durante o seu ministério público. Ele “ressuscitou dos mortos” (i.e., restaurou a vida) a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro. Cada um deles estava morto e foi trazido de volta à vida por Jesus. Dá para entender a simpatia que C. S. Lewis expressou por Lázaro: “Ser trazido de volta à vida e ter que passar pela morte de novo foi um bocado duro.”

Mas a ressurreição do próprio Jesus não foi uma res­suscitação, em nenhum dos dois sentidos. Por um lado, ele não foi acordado de um desmaio ou de um coma, pois já estava morto havia umas trinta e seis horas. Por outro lado, ele não foi trazido de volta a esta vida, sendo-lhe necessário morrer novamente. Mas o que geralmente se pensa é que é assim que os cristãos imaginam a “ressur­reição”: que o corpo é miraculosamente reconstituído a partir das mesmas partículas das quais se compõe atual­mente e que depois ele volta a esta vida mortal e vulnerável. Mas Jesus, pelo contrário, foi elevado a um novo nível de existência, em que ele já não era mais mortal, mas estava “vivo pelos séculos dos séculos”.

Nestas duas primeiras negativas nós concordamos com o Dr. Jenkins. A ressurreição não foi “um passe de mágica feito com ossos” e o Senhor ressurreto não é “nem um cadáver, nem um fantasma”. O trágico é que, ao utilizar esta linguagem um tanto sensacional, o bispo deu a im­pressão de que os cristãos tradicionais estão comprome­tidos com uma destas duas alternativas. Mas, independen­temente do que pensem os outros, a fé da igreja nunca se resumiu em considerar o Senhor ressurreto, nem uma mera influência etérea e fantasmagórica, nem um cadáver ressuscitado.

Em terceiro lugar, o Senhor ressurreto não é uma religião resgatada na experiência dos discípulos. Foi esta a inter­pretação “desmitologizada” de Rudolf Bultmann. Ele começou declarando que “é óbvio” que a ressurreição de Jesus não foi “um evento da história passada”. Por que isto era tão óbvio para ele? Porque “um fato histórico que envolve uma ressurreição dos mortos é absolutamente inconcebível”. Mas, se a igreja, esse tempo todo, parece ter tido muito pouca dificuldade em conceber aquilo que Bultmann declarou inconcebível, qual era o seu problema? O problema reside na “incredibilidade de um evento mítico como a ressuscitação de um cadáver — pois é isto que significa ressurreição”. O que é verdadeiramente inacreditável, no entanto, não é a ressurreição de Jesus, mas, sim, o equívoco de Bultmann, ao confundi-la com uma ressuscitação. E então, como é que ele interpretou o “mito” da ressurreição de Jesus? Da seguinte forma: “Se o evento do Dia da Páscoa é, de alguma forma, um evento histórico acrescentado ao evento da cruz, ele não passa do crescimento da fé no Senhor ressuscitado… Tudo que a crítica histórica pode estabelecer é o fato de que os pri­meiros discípulos vieram a crer na ressurreição.” Em outras palavras, a Páscoa não foi um evento, mas uma experiência; não foi a ressurreição histórica e objetiva de Jesus dentre os mortos, mas sim um resgate pessoal e subjetivo da fé nos corações e mentes dos seus seguido­res.”

Em quarto lugar, o Senhor ressurreto não é apenas uma personalidade desenvolvida. Mas parece que é isso que David Jenkins acredita. Em 1969 ele escreveu: “A ressur­reição significa que Deus agiu de forma a estabelecer Jesus em sua pessoa, em seus feitos e em sua constante reper­cussão.” Em uma declaração posterior, ele afirma sua convicção de que Jesus “ressuscitou dentre os mortos”, e passa a explicar isto afirmando que “a própria vida, poder, propósito e personalidade que havia nele foram, na verdade, contínuos… na esfera da história, de tal maneira a fazer dele uma presença e uma possibilidade viva e ressurreta”. Em algum outro lugar, ele alude à ressur­reição como uma “explosão” da personalidade de Jesus. De fato, ele se refere constantemente à “personalidade” de Jesus e considera a ressurreição como o “estabelecimen­to”, “liberação” ou “explosão” dessa sua personalidade. Nesse caso, a ressurreição seria uma espécie de evento, mesmo não tendo envolvido o seu corpo. Jenkins acredita no fato de Jesus “ter ressuscitado” e “estar vivo”, só que no presente a sua personalidade não está encarnada (a não ser na igreja).

Em quinto lugar, o Senhor ressurreto não é meramente uma experiência ativa do Espírito. Quem sabe, a análise mais abrangente sobre o tema da ressurreição nos últimos anos seja A Estrutura da Crença na Ressurreição {The Structure of Resurrection Belief), de Peter Carnley. Assim como Jenkins, ele salienta que nós deveríamos ver a res­surreição como uma experiência presente e não um evento passado, e especialmente como uma experiência do Espí­rito. Em seu capítulo de abertura ele deixa clara sua postura de descrédito. Ele diz que em lugar nenhum Paulo faz alusão ao túmulo vazio, nem mesmo em 1 Coríntios 15:3-8, e que as assim chamadas “aparições” não foram objetivas. Ele argumenta que ophthe (“ele apareceu”), mais que uma percepção através da visão (uma aparição visível), significa a recepção de uma nova revelação (uma apreensão intelectual), ou no máximo uma mistura das duas coisas, com ênfase na segunda.

Seguem-se três longos capítulos nos quais Carnley ar­gumenta que na verdade não existiu nenhum evento pós-morte; o verdadeiro acontecimento da Páscoa foi o fato de os discípulos terem chegado à fé. Por isso mesmo, nos capítulos 5 em diante ele já não se refere à “ressurreição” (um evento), mas, sim, ao “Cristo ressurreto” (uma expe­riência). Afinal, a fé pascal “implica uma experiência pós-morte de encontro com o Cristo ressurreto”, que é conhe­cido como o Espírito. E nós chegamos a reconhecer o verdadeiro Espírito de Jesus pelo fato de que ele continua a manifestar hoje na comunhão cristã o mesmo amor autodoador que expressou na cruz. Entretanto, por mais engenhosa que seja essa tentativa de reconstituição, ela não parece conferir com os dados do Novo Testamento, como pretendo demonstrar mais adiante.

Em sexto lugar, e em contraste com as cinco propostas anteriores, o Senhor ressurreto é uma pessoa transforma­da. A prova apresentada nos Evangelhos é que, tanto antes como depois da ressurreição, Jesus é a mesma pessoa, com a mesma identidade (“Sou eu mesmo”), só que a ressur­reição lhe deu um corpo glorificado, transfigurado e trans­formado. A ressurreição foi um ato dramático de Deus, através do qual ele interferiu no processo natural de corrupção e decomposição (“não permitirás que o teu Santo veja corrupção”), resgatou Jesus do reino da morte e transformou seu corpo em um novo veículo para sua per­sonalidade, dotando-o de novos poderes e conferindo-lhe imortalidade.

“Eu creio na ressurreição”, disse Jenkins, “exatamente no mesmo sentido em que São Paulo cria na ressurrei­ção.” Mas como ele pode dizer isto, se não acredita em uma ressurreição corporal? É por causa de 1 Coríntios 15. Este importante capítulo divide-se em duas partes, uma relativa ao fato (versículos 1 a 34) e a outra à natureza (versículos 35 a 38) da ressurreição. Na primeira parte as aparições de Jesus ressurreto parecem ser físicas; mas a segunda parte diz que “semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (versículo 44). Portanto, como é que podemos conciliar as duas metades de 1 Coríntios 15? Alguns estudiosos valem-se da expressão “corpo espiri­tual” para insistir que as aparições de Jesus ressurreto citadas nos versículos 5 a 8 devem ser entendidas à luz disso.

De acordo com o Novo Testamento como um todo, porém, o processo de assimilação deveria ser exatamente o oposto, ou seja, a natureza do “corpo espiritual” deveria ser in­terpretada de tal forma a não contradizer os indícios de que o Jesus ressuscitado teve um corpo físico. Tais evi­dências podem ser encontradas não apenas nas narrativas evangélicas do túmulo vazio (que os estudiosos liberais tendem a descartar, por serem, segundo eles, demasiado recentes para serem confiáveis), mas também nos primei­ros sermões de Pedro e nos versículos iniciais de 1 Coríntios 15. Eu vou me concentrar neste último. Na declaração de Paulo acerca do evangelho, que ele tanto diz ser o evangelho original, que ele mesmo “recebeu” (versículo 3), como o evangelho universal, no qual ele e todos os outros criam (versículo 11), ele faz quatro afirmações, a saber, que “Cristo morreu…, que ele foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia, e que ele apareceu…”. Dois aspectos da ressurreição tornam-se muito claros a partir disso.

Primeiro, foi um evento histórico e objetivo. Na verdade, foi até um evento “datável”: aconteceu “no terceiro dia”.

Para David Jenkins, trata-se, “não de um evento, mas de uma série de experiências”. Mas ela só se tornou uma série de experiências porque antes foi um evento. E, na provi­dência de Deus, as palavras “no terceiro dia” dão teste­munho da historicidade da ressurreição de Jesus, assim como as palavras “sob o poder de Pôncio Pilatos” no Credo dos Apóstolos atestam a historicidade do seu sofrimento e morte.

Segundo, a ressurreição foi um evento físico: ela envol­veu o corpo de Jesus. Agora o argumento é que os quatro verbos (morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu) têm, todos eles, o mesmo sujeito: “Cristo”, uma pessoa física, histórica. No caso dos dois primeiros verbos, isto não deixa dúvida alguma. Foi o seu corpo que morreu e seu corpo é que foi sepultado. A pressuposição natural, portanto, é que o mesmo Cristo físico e histórico é o sujeito do terceiro e do quarto verbos, ou seja, ele ressuscitou e depois apa­receu. Seria necessário um alto nível de ginástica mental para se afirmar que o sujeito muda, sem mais nem menos, no meio da sentença, e que, embora o seu corpo tenha morrido e sido sepultado, só a sua personalidade tenha ressuscitado e sido vista, e que de fato ele ressuscitou, mas continuou enterrado. De jeito nenhum. Se o seu corpo é que foi sepultado, deve ter sido seu corpo que ressuscitou. Isto provavelmente explica a menção de seu sepultamento em alguns dos primeiros sermões apostólicos. É intei­ramente gratuito, à luz disso tudo, sustentar que o apóstolo Paulo ignorou o túmulo vazio.

E verdade que o corpo morto e sepultado de Jesus, ao “ressuscitar”, modificou-se neste processo. O que estamos vendo não é uma ressuscitação (em que ele foi ressuscitado em corpo, mas não transformado), nem uma vida além-túmulo (em que ele se transformou em espírito, mas de maneira alguma ressuscitou em corpo), mas, sim, uma ressurreição (em que ele ressuscitou e se transformou, simultaneamente).

A ressurreição aconteceu mesmo?

Digamos que os apóstolos, inclusive Paulo, acreditavam mesmo em uma ressurreição e transformação física, datável e literal de Jesus. Será que eles estavam certos? Será que nós, que vivemos no mundo moderno e sofisticado da astrofísica, da microbiologia e da ciência da computação, também podemos acreditar na ressurreição? E claro que podemos. E devemos. Milhões de pessoas o fazem.

Muitos livros já foram escritos na tentativa de dar provas da ressurreição. Esta é uma parte importante da apologética cristã. Tudo que eu posso fazer aqui é tentar resumir com franqueza as principais provas.

Primeiro, temos o desaparecimento do corpo. Todo mundo concorda que o túmulo de José estava vazio, até mesmo aqueles que refutam as histórias dos autores do Evangelho; os rumores da ressurreição nunca poderiam ter ganho credibilidade se as pessoas, ao visitarem o túmulo, tives­sem encontrado ali o corpo imóvel. Mas o corpo sumiu. A questão sempre foi: “O que foi feito dele?” Nunca houve uma explicação satisfatória para o seu desaparecimento, a não ser a ressurreição.

Nós não podemos admitir que Jesus só desmaiou na cruz, e depois reviveu no túmulo e saiu de lá sozinho. Primeiro, porque, tanto o centurião como Pilatos tomaram o cuidado de se certificar de que Jesus estava de fato morto. E depois porque, quando ele reapareceu, a impressão que as pessoas tiveram ao vê-lo foi a de que ele havia vencido a morte, e não que quase fora derrotado por ela e que era agora um homem seriamente doente, precisando de tratamento hospitalar.

Portanto, será que as autoridades (fossem elas romanas ou judaicas) removeram deliberadamente o corpo, a fim de evitar que os discípulos espalhassem a notícia de que ele havia ressuscitado? Isto é difícil de acreditar, uma vez que, quando os apóstolos começaram a anunciar “Jesus e a ressurreição”, as autoridades poderiam ter abafado ime­diatamente o novo movimento apresentando o corpo; mas, ao invés disso, elas apelaram para a violência.

Neste caso, teriam os discípulos furtado o corpo como parte de um embuste, a fim de enganar o povo, fazendo-o pensar que ele havia ressuscitado? Esta teoria é impos­sível, pois eles estavam preparados para sofrer e morrer pelo evangelho, e ninguém se dispõe a virar mártir por uma mentira inventada por si mesmo.

Nenhuma explicação para o túmulo vazio subsiste, a não ser a que diz que Deus o ressuscitou dentre os mortos.

Em segundo lugar, temos o reaparecimento do Senhor. O corpo de Jesus desapareceu do túmulo onde tinha sido deixado, e o próprio Jesus continuou reaparecendo durante um período de quase seis semanas. Dizem que ele apareceu para certas pessoas sozinhas (por exemplo, Maria Madalena, Pedro e Tiago), para os Doze, tanto com Tomé como sem ele, e em certa ocasião “foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez”, muitos dos quais ainda eram vivos quando Paulo escreveu isto, mais ou menos no ano 54 d.C., e bem poderiam ter sido sondados a este respeito.

Essas aparições de Jesus ressurreto não podem ser descartadas como mera invenção, já que não resta dúvida alguma de que os apóstolos realmente acreditaram que Jesus havia ressuscitado. As histórias não haviam sido inventadas. Mas também não eram alucinações. Pesca­dores durões como Pedro, Tiago e João não fazem bem o tipo de personalidade suscetível a tais sintomas de desordem mental. Além do mais, a grande variedade de tempo, lugares e pessoas relacionadas com as aparições, juntamente com a reação inicial de descrença do povo, tornam insustentável a teoria da exploração da ingenui­dade popular. A única alternativa para invenções e alu­cinações é   a existência de aparições válidas e objetivas.

Em terceiro lugar, vem o surgimento da igreja. Alguma coisa deve ter acontecido para transformar os apóstolos e enviá-los em sua missão pelo mundo afora. Quando Jesus morreu, eles ficaram abatidos, confusos e amedrontados. Mas em menos de dois meses saíram do esconderijo, cheios de gozo, confiança e coragem. O que produziu essa trans­formação tão dramática? Só pode ter sido a ressurreição, juntamente com o Pentecoste, que se seguiu logo depois. Daquele bando de joões-ninguém desiludidos nasceu uma comunidade universal que soma hoje um terço da população do mundo. Seria preciso muita credulidade e muito cinismo até para acreditar que todo o edifício cristão tenha sido construído sobre uma mentira, uma vez que Jesus Cristo nunca ressuscitou dos mortos.

O desaparecimento do corpo, o reaparecimento do Se­nhor e o surgimento da igreja constituem, juntos, um sólido fundamento para se acreditar na ressurreição.

Qual a importância da ressurreição?

O que nós precisamos indagar sobre a ressurreição não é apenas se ela aconteceu, mas se realmente importa se ela aconteceu ou não. Afinal de contas, se ela aconteceu, foi há cerca de 2000 anos! Como é que um evento tão antigo pode ter tanta importância para nós hoje? Por que cargas d’água os cristãos fazem tanto barulho a seu respeito? Ela não seria irrelevante? Não, não é. Meu argumento agora é que a ressurreição é uma resposta à nossa condição humana. Ela fala às nossas necessidades, como nenhum outro evento distante jamais o fez ou poderia. Ela é o mastro principal da nossa segurança cristã.

Primeiro, a ressurreição de Jesus nos garante o perdão de Deus. Já vimos que o perdão é uma das nossas necessidades mais básicas e uma das melhores dádivas de Deus. Conta-se que o chefe de um grande hospital psiquiátrico da Inglaterra disse: “Eu poderia dispensar metade dos meus pacientes amanhã mesmo, caso eles pudessem ter certeza do perdão.” Afinal, todos nós temos um ou dois esqueletos escondidos em algum armário escuro, memórias de coisas que temos pensado, dito ou feito e das quais, nos nossos melhores momentos, nos sentimos profundamente enver­gonhados. Nossa consciência nos incomoda, condena, ator­menta.

Diversas vezes durante o seu ministério público Jesus pronunciou palavras de perdão e de paz e, no cenáculo, ele se referiu ao cálice da comunhão como sendo “o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados”. Dessa maneira ele estabeleceu uma relação entre o nosso perdão e a sua morte. E como, através das Escrituras, a morte sempre está ligada ao pecado, como a sua merecida recompensa (“o salário do pecado é a morte”), ele só poderia estar dizendo que iria morrer em nosso lugar a morte que nós merecíamos morrer, a fim de que nós fôssemos poupados e perdoados.

Isso é o que ele disse. Mas como podemos saber se ele estava certo, se com sua morte ele conquistou o que disse que iria conquistar e se Deus aceitou sua morte em nosso lugar como “um pleno, perfeito e suficiente sacrifício, oblação e satis­fação para os pecados do mundo inteiro”? A resposta é que, se ele tivesse permanecido morto, se não tivesse ressusci­tado de entre os mortos, pública e visivelmente, nós nunca ficaríamos sabendo. Pelo contrário: sem a ressurreição, teríamos que concluir que sua morte foi um fracasso. O apóstolo Paulo viu claramente esta lógica: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé.” E, novamente, “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo, pereceram.” As consequências terríveis da não-ressurreição seriam que os apóstolos são falsas testemunhas, os crentes não estão perdoados e os cristãos mortos pereceram. Mas de fato, continua Paulo, Cristo ressuscitou dos mortos; e, ao ressuscitá-lo, Deus nos garantiu que aprova sua morte expiatória, que ele não morreu em vão e que aqueles que confiam nele recebem perdão livre e pleno. A ressurreição dá validade à cruz.

Segundo, a ressurreição de Jesus nos garante o poder de Deus. Nós tanto necessitamos do poder de Deus no presente quanto do seu perdão do passado. Será que Deus pode realmente mudar a natureza humana, que parece tão intratável, transformando pessoas cruéis em pessoas bon­dosas, egoístas em altruístas, dando domínio próprio a pessoas imorais e tornando doces pessoas amargas? Será que ele pode pegar pessoas que são cegas para a realidade espiritual e torná-las vivas em Cristo? Sim, ele realmente pode! Ele é capaz de dar vida a quem está espiritualmente morto. Ele pode transformar-nos, tornando-nos semelhan­tes a Cristo.

Mas estas afirmações são muito sérias. Será que elas podem ser comprovadas? Podem, sim, mas só em virtude da ressurreição. Paulo ora para que os olhos do nosso coração sejam iluminados, para que possamos saber “qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos”. E, para que compreendamos a medida do seu poder, Deus nos dá não apenas uma iluminação interior pelo seu Espírito, mas também uma demonstração exterior, pública e objetiva desse poder através da ressurreição. Afinal de contas, o poder que hoje está à nossa disposição é o próprio poder que “exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos…”. Assim, a ressurreição é retratada como a prova suprema na história do poder criativo de Deus.

Nós estamos sempre correndo o risco de baratear o evan­gelho, de minimizar o que Deus é capaz de fazer por nós e em nós. Nós falamos em tornar-se um cristão como se isto não passasse de virar uma folha na vida, fazendo alguns ajustes superficiais em nossos padrões de comportamento comuns e tornando-nos um pouquinho mais religiosos. Mas é só arranhar o verniz, quebrar a superfície, e pronto! Por baixo nós continuamos a ser o mesmíssimo pagão de sempre, sem nada de redenção nem mudança. Nada disso! Tornar-se um cristão e ser um cristão, de acordo com o Novo Testamento, é algo muito mais radical do que isso. E um ato decisivo de Deus. É nada menos do que uma ressurreição da morte da alienação e do egocentrismo e o começo de uma vida nova e deliberada. Em outros termos: o mesmo Deus do poder sobrenatural que ressuscitou a Jesus da morte física pode ressuscitar-nos da morte espiritual. E nós sa­bemos que ele pode nos ressuscitar porque sabemos que ele o ressuscitou.

Em terceiro lugar, a ressurreição de Jesus nos garante a vitória definitiva de Deus. Uma das maiores diferenças entre as religiões e as ideologias do mundo é quanto a sua visão do futuro. Algumas delas não oferecem esperança alguma; pelo contrário, sucumbem em desespero existen­cial. Bertrand Russell, quando ainda nos seus trinta anos, expressou sua convicção de que nenhum fogo, nenhum heroísmo, nenhuma intensidade de pensamento e sentimento pode preservar uma vida depois da sepultura; pois todos os lidares dos tempos, toda devoção, todo o brilho ofuscante do gênio humano, são destinados à extinção na vasta morte do sistema solar, e o templo inteiro dos feitos do homem há de ser inevitavelmente sepultado sob os escombros de um universo em ruínas.

Outros veem a história mais em termos circulares do que lineares, como um ciclo interminável de reencarnações, para o qual não há libertação a não ser a não-existência do nirvana. Os marxistas continuam prometendo uma Utopia na terra, mas essa visão perdeu a credibilidade. Os humanistas seculares sonham assumir o controle de sua própria evolução, mas, pelo menos no que depende da manipulação genética, este sonho acaba virando um pesa­delo.

Os cristãos, por sua vez, são confiantes no futuro, e nossa “esperança” cristã (que é uma expectativa segura) tanto e individual como cósmica. Individualmente, a não ser através de Cristo, o medo da morte e da desintegração pessoal é quase universal. Para nós do Ocidente, Woody Allen tipifica este terror, que para ele acabou virando uma obsessão. É verdade que ele ainda consegue fazer pouco caso disso. “Não é que eu tenha medo de morrer”, satiriza ele; “eu só não quero estar por perto quando isso acontecer.” Mas em geral ele vive apavorado. Num artigo publicado em Esquire, em 1977, ele disse: “A coisa fundamental que se esconde por detrás de toda motivação e de toda atividade é a constante luta contra a aniquilação e a morte. Ela é absolutamente assustadora em seu terror e deixa sem sentido as realizações de qualquer um.”

Jesus Cristo, porém, liberta os seus discípulos desse horror. Ele não só há de sobreviver à morte, mas também ressuscitou dela. Nós haveremos de receber nossos corpos novos, tal como o seu corpo ressuscitado, com poderes novos e inimaginados. Afinal, ele é chamado “as primícias” da colheita e também “o primogénito de entre os mor­tos”.  Ambas as metáforas dão a mesma garantia. Ele foi o primeiro a ressuscitar, e depois virá todo o seu povo. Nós teremos um corpo como o seu. “Assim como somos seme­lhantes ao homem feito da terra (Adão), assim também seremos semelhantes ao Homem do céu (Cristo).”

Mas a nossa esperança para o futuro também é cósmica. Nós cremos que Jesus Cristo irá voltar em espetacular magnificência, a fim de conduzir a história à sua plenitude na eternidade. Além de ressuscitar os mortos, ele irá regenerar o universo; e fará novas todas as coisas. Nós temos convicção de que toda a criação será libertada dessa presente sujeição à corrupção e à morte; que os gemidos da natureza são as dores de parto que prometem o nas­cimento de um mundo novo; e que haverá um novo céu e uma nova terra, onde habita justiça.

Portanto, a esperança viva do Novo Testamento é uma expectativa visivelmente “material”, tanto para o indi­víduo como para o cosmos. Individualmente, o crente tem a promessa, não de uma mera sobrevivência ou mesmo imortalidade, mas de um corpo ressuscitado e transforma­do. E o destino do cosmos não é um “céu” etéreo, mas um universo recriado.

Mas será que existe alguma prova dessa maravilhosa declaração, de que tanto nós quanto nosso mundo seremos totalmente transformados? Sim, a ressurreição de Cristo é o fundamento de todas as nossas esperanças. Ela é a prova pública, sólida, visível e tangível do propósito de Deus de completar aquilo que começou, de redimir a natureza, de dar-nos novos corpos em um mundo novo. Como disse Pedro, Deus “nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mor­tos”. A ressurreição de Cristo foi o começo da nova criação de Deus. Não basta acreditar que a personalidade, a pre­sença e o poder de Jesus persistem. Precisamos saber que seu corpo ressuscitou, pois o corpo ressurreto de Jesus foi a primeira partícula da ordem material a ser redimida e transfigurada. Ela é o penhor divino de que um dia o resto há de ser redimido e transfigurado.

A ressurreição de Jesus nos dá, pois, a garantia do perdão, do poder e do triunfo definitivo de Deus. Ela nos possibilita encarar o nosso passado (por mais motivos que tenhamos para nos envergonhar dele), confiantes do perdão de Deus através daquele que morreu por nossos pecados e foi res­suscitado; encarar o nosso presente (por mais fortes que sejam as nossas tentações, e mais pesadas as nossas res­ponsabilidades), confiantes na suficiência do poder de Deus; e encarar o nosso futuro (por mais incerto que seja) con­fiantes na vitória definitiva de Deus, cuja garantia é a ressurreição. A ressurreição, justamente por ter sido um ato decisivo, público e visível de Deus, dentro da ordem material, dá-nos a absoluta garantia de um mundo que, de outra forma, seria completamente inseguro.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A agitação dos sentimentos

A AGITAÇÃO DOS SENTIMENTOS

 É comum que, em suas obras, autores apresentem personagens e até mesmo sociedades fictícias em que as emoções foram banidas em nome dos benefícios   da racionalização e da ordem. No cinema, por exemplo, o garotinho-androide David, interpretado por Haley Joel Osment, de A.I. – Inteligência Artificial, o robô­ mordomo Andrew, vivido por Robin Williams em O homem Bicentenário, e os replicantes de Blade Runner têm na “humanização” seu trunfo e perdição os sentimentos representam uma espécie de infração que os Jaz cultivar desejos e enfrentar a dor do sentir. Já Dr. Spock, do clássico seriado Jornada nas estrelas, parece conviver bem com o excesso de lógica, muito raramente contaminado por uma nesga de afetividade. Talvez, no caso do tripulante da Enterprise, a maior rebeldia não seja exatamente dele, mas esteja na história do encontro de seus pais, um vulcano e uma terráquea que, a despeito do abismo entre ambos, os dois têm um filho juntos. Nos episódios, com frequência ele se espanta com as reações emocionais humanas e se pergunta o que de fato significam.

E certamente ele não é o único. Definida pelo Dicionário Houaiss da língua portuguesa como “agitação de sentimentos”, na vida real a emoção tem sido estudada por filósofos, psicólogos e neurocientistas. Falar delas, entretanto, não é fácil. Como escreveu Fernando Pessoa, em Caracterização individual dos heterônimos, “toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois não se dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente”. Mas é esse desafio que tomam para si os autores dos artigos sobre o tema no especial deste mês.

Vale ressaltar que não há emoções “boas” ou “más” em essência, embora seja comum o uso do termo “positivo” para designar sentimentos prazerosos como alegria e bom humor e “negativo” para raiva, tristeza ou nojo. O certo é que o efeito que causam em nós depende fundamentalmente da forma como lidamos com o que sentimos. E, quaisquer que sejam as formas como as denominamos, o que seria de nós, humanos, sem as emoções? Não falo nem de sua importância para a sobrevivência da espécie. Mas de algo até bem mais superficial. A final, que graça teria a vida sem o frio na barriga do susto, sem a explosão de alegria que sentimos ao receber aquele tão almejado “sim”, sem a possibilidade de nos comovermos com a dor de quem amamos ou de nos emocionarmos com as desventuras da protagonista no escuro do cinema? Por vetes, podemos até considerar que, talvez, não nos emocionarmos nos pouparia de muitos contratempos. Mas certamente a vida seria bem menos interessante…

GESTÃO E CARREIRA

homem-de-negocios

NEGÓCIO FECHADO

Aprenda a aperfeiçoar sua habilidade de negociação e consiga melhores resultados mesmo durante a crise econômica.

No ano passado, empregados e empreendedores tiveram de se virar para fazer boas entregas. Com a crise e menos recursos disponíveis, essa tarefa não foi fácil. Foi preciso desenvolver, na prática, a habilidade de negociação – para definir prioridades com a chefia, convencer a equipe a trabalhar com prazos menores e persuadir parceiros da necessidade de reduzir preços.

Melhorar essa habilidade é possível.

Mas, antes de tudo, é preciso entender que uma boa negociação não se limita a ganhar ou perder. Negociar bem consiste, na verdade, em chegar a um acordo que seja interessante para as duas partes – o famoso ganha-ganha, uma teoria defendida por um dos nomes mais representativos das táticas de negociação nas empresas, o antropólogo americano William Ury. Autor de Como chegar mais com você mesmo, fundador do programa de negociação da Escola de Direito de Harvard e responsável por intermediaçôes difíceis- como a saída de Abílio Diniz da presidência do Grupo Pão de Açúcar -, ele defende que negociar é desenvolver qualquer comunicação Interpessoal de mão dupla, na tentativa de chegar a um acordo”. Isso é importante não por bondade, mas porque um pacto que não satisfaça às duas partes não se sustenta.

“Atender aos dois lados não significa que devo ter a mesma coisa que você, e sim que teremos nossos interesses atendidos”, diz Simone Simon, autora do livro Faça Ser Fácil, e professora na Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Limites e necessidades

Claro que há negociações e negociações. Uma pechincha com o feirante é um acordo pontual em que um dos lados vai ganhar. Mas, no mundo corporativo, é importante buscar uma relação que beneficie a todos, em maior ou menor grau. “Em uma crise, as pessoas tendem a defender apenas sua parte, mas temos de sair do paradigma de querer ganhar a qualquer custo, diz Eliana Outra, master coach do International Coach Federation, do Rio de Janeiro.

Antes de iniciar a negociação, estabeleça quais são seus limites para ver até onde é possível fazer concessões e ter a noção exata sobre sua margem de manobra, o que ajuda a criar uma argumentação mais convincente. Além disso, fique atento aos limites do parceiro para notar até onde dá para pressionar. “Negociadores amadores começam pelo objeto da negociação; negociadores profissionais começam pelo relacionamento”, diz Simone.

E lembre-se de que uma proposta recusada não significa, necessariamente, o término da negociação. A questão não é que o outro lado não queira fazer negócio, mas sim, que aquela pessoa tem outras necessidades. Para entender as prioridades de seu interlocutor, procure desenvolver laços de credibilidade. Segundo uma pesquisa feita por Simone com 664 alunos do curso de MBA da FGV (com cargos que vão de coordenação a presidência), 67% dos entrevistados acreditam que os acordos foram melhores quando feitos com pessoas em quem confiavam. “Com uma confiança desenvolvida, você consegue encarar a negativa de maneira racional e tenta construir uma resposta positiva” diz Simone.

Foi por entender as necessidades do outro lado que Rogério Oliveira, de 41anos, diretor comercial da Frooty, fabricante de produtos à base de açaí, de São Paulo, conseguiu pensar em boas soluções para melhorar a visibilidadedos produtos nos principais pontos de venda. “A rentabilidade é o mais importante para os varejistas, então notei que tinha de criar um plano para mostrar a eles os ganhos que teriam se abrissem mais fileiras para nossa marca”, diz Rogério. Seguindo essa lógica, ele ainda conseguiu convencer os clientes da necessidade de reajustar o preço dos produtos por causa da diminuição da produção de açaí no país. “Por mais que o mercado mostre que a inflação existe e que

ninguém está subindo o preço para ter lucro, mas para não sofrer prejuízo, o comprador poderia não aceitar o reajuste “, afirma Rogério. Com essas estratégias, a empresa conseguiu crescer 32% no ultimo ano.

Atenção aos sinais

O que o executivo fez foi uma boa leitura do ambiente em que estava inserido. Essa habilidade é mais um pilar para negociações bem sucedidas. “Se você apresenta a ideia e o outro tem uma expressão facial diferente, já dá para perceber se poderá continuar naquela linha ou não “, diz Tatiane Nascimento, especialista em desenvolvimento, de São Paulo. Para isso, vale ser curioso, fazer perguntas específicas e ouvir as necessidades alheias – desde que essa escuta seja atenta. “Ouça mais do que fale”, diz Gabriel Almeida, gerente da Talentos, consultoria de recrutamento, de São Paulo. Essa estratégia aumenta o grau de empatia porque ajuda a encontrar os pontos que você e seu interlocutor teem em comum. Ter essa postura em momentos de crise, quando todos estamos pressionados e receosos em perder, é essencial. Caso contrário, a negociação pode travar porque você enxerga o outro como oponente, e não como parceiro.

É preciso, ainda, ter controle emocional. Não vale entrar em uma negociação acreditando totalmente que o resultado será positivo ou negativo, o que pode embaçar seu raciocínio. E, se acontecer algum descontrole, pense sobre o que o levou a perder as estribeiras. “Anote como se sentiu para entender o porquê e, assim, impeder que aquilo ocorra de novo”, diz Gabriel. Outro erro a ser evitado é levar o resultado de um acordo para o lado pessoal. “Não há o que negociar se não há um impasse, por isso é preciso saber separar as pessoas do problema”, diz Simone.

Uma situação em que é importante unir empatia e inteligência emocional é durante uma demissão – principalmente quando você é o mensageiro da má notícia. Ricardo Blandy, de 34 anos, vice-presidente da Nexsteppe, empresa que comercializa sementes de sorgo, de Campinas, passou por isso ao ter de cortar 35% da equipe no ano passado. “Eu me coloquei no lugar dos funcionários, porque foi muito difícil demitir por causa da crise”, diz. “Traçamos uma estratégia para não deixar as pessoas na mão, com auxílio para recolocação e manutenção de beneficios, como plano de saude.” Assim, embora a situação tenha sido difícil, o executivo conseguiu manter o controle e a serenidade. “Esses profissionais fizeram muito pela empresa”, afirma. Ricardo ainda teve de negociar o valor do aluguel do escritório da companhia. “Expliquei a situação e passamos para um contrato mais barato, diz. Com esses acordos, a companhia prevê um aumento de 20% a 50%nas vendas em 2017, e novas contratações. Uma prova de que, negociando, é Possível passar bem pela crise.

 

AS VANTAGENS DE NEGOCIAR

Mais espaços: os profissionais que negociam são bem vistos pelos empregadores como capazes de solucionar situaçõesdifíceis e ganham mais atenção do mercado.

Todos saem ganhando: Quando você escuta o outro lado e promove um crescimento colaborativo, tem a chance de conseguir resultados superiors ao esperado.

Parcerias de longo prazo: Estar aberto a ouvir e interpretar os sinais alheios aumenta a simpatia dos outros em relação a você e cria parcerias duradouras.

Diminui as despesas:  Ao renegociar o aluguel e os custos com fornecedores, os gastos da empresa podem diminuir consideravelmente – algo essencial na crise.

Raciocínio mais rápido: Pensar em soluções para transformer o não” em “sim” amplia sua capacidade de raciocínio e sua flexibilidade.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

CRISTO E SUA CRUZ

O evangelho é boa nova de libertação. Foi este o tema do último capítulo. Mas isto, por si mesmo, é uma ênfase unilateral, pois o que o evangelho anuncia, de acordo com o Novo Testamento, não é só o que Cristo oferece às pessoas hoje, mas o que ele fez um dia para possibilitar essa oferta. O evangelho dos apóstolos con­cilia o passado com o presente, o “outrora” com o agora, o evento histórico com a experiência contemporânea. Ele declara não somente que Jesus salva, mas também que, para fazê-lo, ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou da morte. Se se proclamar o poder salvador, omitindo os eventos salvíficos, especialmente a cruz, então o que se pregou não foi o evangelho.

Neste capítulo iremos refletir sobre uma das maiores declarações de Paulo acerca da origem, conteúdo e poder do evangelho, e particularmente acerca da centralidade da cruz de Cristo.

Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de lin­guagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demons­tração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus.

Neste texto, essencialmente trinitário, destacam-se três grandes lições acerca da evangelização. Elas têm a ver com a Palavra de Deus, a cruz de Cristo e o poder do Espírito.

A Palavra de Deus

O evangelho é a verdade proveniente de Deus. Segundo Paulo, o que ele proclamou aos coríntios não foi “osten­tação de linguagem”, ou seja, sabedoria humana ou a sabedoria do mundo, mas a palavra de Deus ou a sabedoria de Deus, que aqui ele chama de “testemunho” (martyrion) ou “mistério” (mysterion). As palavras gregas são simi­lares e a evidência do manuscrito entre elas é perfeitamente equilibrada. Além do mais, ambas ocorrem dentro dos dois primeiros capítulos desta carta: martyrion pode ter relação com 1.6, enquanto que mysterion pode estar relacionada com 2.7. Qualquer que seja a leitura correta, o sentido é o mesmo, isto é, que a mensagem de Paulo veio de Deus. Se a palavra correta é “testemunho”, então significa “a verdade confirmada de Deus”; se o certo é “mistério”, então é “a verdade secreta de Deus” (BLH). Em todo caso, o evangelho do apóstolo é a verdade de Deus.

É aqui que deve começar toda evangelização de verdade. Nós não inventamos nossa mensagem. Não abordamos as pessoas com nossas próprias especulações humanas. Somos, isto sim, portadores da Palavra de Deus, encarregados do evangelho de Deus, mordomos dos segredos revelados de Deus.

Além disso, o que Paulo transmitia era compatível com sua mensagem. Ele não foi até os coríntios com “ostentação de linguagem” nem com “sabedoria” (versículo 1). Quanto ao conteúdo, ele abriu mão da orgulhosa sabedoria huma­na, submetendo-se humildemente, ao invés disso, à palavra de Deus acerca de Cristo (versículo 2). Quanto à mensagem, ele abriu mão da orgulhosa retórica humana para basear-se humildemente no poder do Espírito Santo (versículos 3 a 5). Como diz C. H. Hodge em seu comentário, ele não veio “nem como retórico nem como filósofo”.

Por favor, não me interpretem mal. Não existe aqui nenhuma tentativa de justificar um evangelho sem con­teúdo, nem tampouco um estilo sem forma. O que Paulo está abdicando aqui não é uma substância doutrinária, nem um argumento racional, mas somente a sabedoria e a retórica do mundo. Nós sabemos disso porque Lucas nos conta em Atos 18, como foi o ministério evangelístico do apóstolo em Corinto. Primeiro ele “discorria na sinagoga” todo sábado, “persuadindo tanto judeus como gregos” (versículo 4). Daí ele passou dezoito meses “ensinando entre eles a palavra de Deus” (versículo 11). Por isso ele pôde levar adiante o seu ministério de ensino em Corinto tentando “persuadir” as pessoas. Ele não somente ensi­nava a verdade às pessoas, mas também convencia-as da verdade.

Portanto, quando convidamos as pessoas a aceitarem a Cristo, não temos nenhum direito de fechar, endurecer ou anular a mente delas. De maneira nenhuma. Deus as criou como seres racionais e espera que usem o seu raciocínio. Para dizer a verdade, elas nunca haverão de crer, a não ser que o Espírito as ilumine. Sem isso, todo argumento será infrutífero. “Mas”, escreve Gresham Machen, “só porque o argumento é insuficiente, isto não significa que ele seja desnecessário. O que o Espírito Santo faz no novo nascimento não é tornar cristã uma pessoa, independente das evidências, mas, sim, dissipar a neblina dos seus olhos e capacitá-la a atentar para essas evidências.”

Assim, o evangelho é a verdade que vem de Deus e foi confiada a nós. Nossa responsabilidade é apresentá-la da forma mais clara, coerente e convincente possível e, assim como os apóstolos, argumentá-la com a maior persuasão possível. E em todo o tempo, ao fazê-lo, estaremos con­fiando que o Santo Espírito da verdade haverá de dissipar a  ignorância das pessoas,  superar seus preconceitos  e convencê-las acerca de Cristo.

A cruz de Cristo

Chegamos agora ao versículo 2: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” Tem gente que lê isto de forma errada, como se Paulo tivesse escrito “senão Jesus Cristo crucificado”; a conclusão é, então, que o seu único tema era a cruz. Mas o que Paulo escreveu mesmo (e que é coerente com a descrição de Lucas em Atos acerca de sua obra evangelística) foi que ele decidiu nada saber “senão Jesus Cristo” (sua mensagem centra­lizava-se neste) “e (especialmente, embora não exclusiva­mente) este crucificado”. E o que dizer, então, sobre a ressurreição de Cristo? Esta com certeza tinha um lugar de grande importância na pregação dos apóstolos. Mas eles a entendiam e proclamavam, não como um evento isolado e independente, mas em relação com a cruz. Afinal de contas, a ressurreição não foi apenas uma sequela da morte de Jesus; ela foi a reversão da opinião humana a respeito dele e a vindicação pública do propósito divino na sua morte.

Agora dá para ver que Paulo, antes de chegar a Corinto, tomou a decisão de concentrar sua pregação em Cristo, e especialmente na cruz. Eu “decidi” (ERAB), escreveu ele, “me propus” (ERC), “resolvi” (BLH) fazê-lo. É esta decisão que precisamos analisar: por que ele precisou tomá-la?

A interpretação popular da situação é bem conhecida. Paulo chegou a Corinto vindo de Atenas. Seu sermão para os filósofos atenienses (diz a teoria) tinha sido um fiasco. Além de ter sido muito intelectual, Paulo não havia pregado o evangelho. Em vez de concentrar-se na cruz, tinha enfocado a criação. O resultado é que não houve nenhuma conversão. Assim, em seu caminho para Corinto, Paulo arrependeu-se do evangelho distorcido que havia pregado em Atenas e resolveu que, em Corinto, limitaria sua mensagem à cruz.

Eu confesso que a primeira vez que ouvi essa teoria, há muitos anos, ela me desceu goela abaixo com isca, anzol e tudo. Mas depois eu tive que rejeitá-la, pois vi que ela não resiste a uma análise mais profunda. Primeiro, porque a missão de Paulo em Atenas não foi um fracasso. Pelo contrário, “houve alguns homens que se agregaram a ele, e creram; entre eles estavam Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dámaris e com eles outros mais”. Segundo, Lucas, em sua narrativa de Atos, não dá qualquer indício de que ele acha que o sermão de Paulo foi um equívoco; pelo contrário, ele o registra como um modelo da pregação dos apóstolos para os intelectuais gentios. Terceiro, é quase certo que Paulo pregou, sim, a cruz em Atenas, já que ele proclamou “Jesus e a ressurreição”, e não se pode pregar a ressurreição sem a morte que a precedeu. A verdade é que, por causa do seu público, composto de gentios, Paulo aproveitou a situação e começou com a idolatria e a criação, ao invés da Escritura veterotesta­mentária. Mas ele não parou ali. O sermão que Lucas registra deve ter durado apenas uns dois minutos; portan­to, Paulo deve ter elaborado consideravelmente esse esbo­ço. Quarto, Paulo não mudou realmente sua tática em Corinto. Assim como em Atenas, também em Corinto Lucas o descreve ainda argumentando, ensinando e persuadindo. Mas, então, qual foi a decisão de Paulo? Por trás de toda resolução existe alguma indecisão anterior, uma situação em que varias opiniões se apresentam e nós somos obri­gados a escolher, optar por uma delas em detrimento das outras. É evidente, pois, que por detrás da decisão de Paulo de pregar somente a Cristo, e especialmente a cruz, jazia uma alternativa, ou mesmo uma tentação, ou de pregar a Cristo sem a cruz, ou de deixar definitivamente de anunciar a Cristo, pregando, ao invés disso, a sabedoria do mundo. Mas, então, por que isto teria sido uma tentação para Paulo enquanto ele viajava de Atenas para Corinto? Com toda certeza não foi por causa do seu suposto fracasso em Atenas, mas, sim, pelo temor da recepção que o aguardava em Corinto. Mas quem eram esses coríntios, para que Paulo estivesse tão intimidado e tão apreensivo ao abordá-los (“em fraqueza, temor e grande tremor”, v. 3), e em relação aos quais ele deve ter achado necessário tomar uma firme resolução?

Ao indagarmos e respondermos estas questões, iremos desvendar também as principais objeções que se fazem hoje à mensagem de Cristo e sua cruz. Ou melhor, veremos por que nós mesmos precisamos tomar essa decisão hoje.

(a) A objeção intelectual, ou a loucura da cruz. Paulo já havia se deparado com desprezo intelectual em Atenas. Os filósofos o haviam insultado, chamando-o de spermologos, ou “apanhador de grãos”. Esta palavra era aplicada literalmente a aves de rapina, e, por extensão, aos vagabundos que se alimentavam de restos de comida encontrados nas sarjetas. Metaforicamente, referia-se a mestres que se alimentavam apenas de ideias copiadas dos outros. Os atenienses veneravam a originalidade e des­prezavam tudo que fosse retrógrado e obsoleto.

Os filósofos escarneceram quando foi mencionada a res­surreição. Eles “zombaram dele” (BLH). Eu acho que isto significa que eles caíram na gargalhada. Como é que eles reagiram quando Paulo pregou sobre a cruz, isso Lucas não diz. Mas Paulo viu que ela era “escândalo para os judeus, loucura para os gentios”. Para o judeu incrédulo era inconcebível que o Messias devesse morrer “em ma­deiro”, ou seja, sob a maldição de Deus. Para o gentio incrédulo era ridículo imaginar que um deus, um dos imortais, morresse. Celso, o cínico do século II d.C, criticou os cristãos com o maior sarcasmo por causa disso. Con­forme Orígenes, ele achava que “ao adorarmos aquele que [como ele diz] foi feito prisioneiro e levado à morte, nós estamos agindo como” os outros, que na verdade adoravam os mortos.

Corinto não havia escapado à arrogância intelectual de Atenas. Estas cidades distavam apenas cinquenta milhas uma da outra. A primeira Epístola de Paulo aos Coríntios evidencia muito claramente que o orgulho intelectual era um dos principais pecados da igreja em Corinto. Foi este o contexto em que Paulo tomou sua decisão de abrir mão da sabedoria do mundo em favor da “loucura da cruz”. O que o aguardava era zombaria e escárnio. Mas ele sabia que “a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria dos homens”. Ainda hoje a mensagem da cruz é profun­damente desprezada. A doutrina bíblica evangélica da ex­piação de Jesus (que diz ter Cristo padecido em nosso lugar, como nosso substituto, a morte que merecíamos morrer) é rejeitada e até ridicularizada. É considerada “primitiva”, “retórica”, “injusta”, “imoral” e “bárbara”. A. J. Ayer chamou as doutrinas relacionadas ao pecado e à expiação de “intelectualmente desprezíveis e moralmente ultrajan­tes”. E um teólogo liberal contemporâneo descreveu aspectos da minha própria apresentação em A Cruz de Cristo como sendo “indefensáveis”, “ininteligíveis”, “não só inexplicáveis mas também incompreensíveis” e, portan­to, “incomunicáveis”. Como é que devemos responder a essa bateria de epítetos negativos? Não negamos que certas formulações evangélicas têm sido desequilibradas e não-bíblicas. Sempre que relegamos Jesus Cristo ao papel de uma terceira pessoa, que interveio para nos resgatar de um Deus irado, fazemos dele uma caricatura ridícula e sujeita a condenação, já que Deus é quem amou o mundo e foi Deus quem tomou a iniciativa de enviar seu Filho para morrer por nós. Só que a iniciativa que ele tomou levou Cristo a ser “feito pecado” e “feito maldição” por nós, e tal linguagem geralmente produz uma hostilidade extre­mamente emocional. Daí a tentação de retocar o evangelho do Cristo crucificado, de eliminar seus aspectos que causam mais objeções e de tentar adaptá-lo ao gosto dos sensíveis paladares modernos. Não é de admirar que o apóstolo pareça quase violento ao expressar sua decisão de “saber somente a Jesus Cristo”, e especialmente a sua cruz. Ele teve de optar entre fidelidade e popularidade.

(b) A objeção religiosa, ou a exclusividade do evangelho.

Se Paulo achou Atenas “cheia de ídolos” é pouco provável que ele tenha achado os coríntios menos idólatras. Sabe-se que a cidade de Corinto tinha pelo menos duas dúzias de templos, cada um dedicado a uma divindade diferente. Ainda hoje existem remanescentes do antigo templo de Apolo, sete pilares maciços erguidos entre as ruínas de Corinto. E, por detrás da cidade, uns 2000 pés acima, ergue-se a rochosa Acrocorinto, onde existiu um dia o templo de Afrodite. Portanto, os coríntios, tal como os atenienses, eram “acentuadamente religiosos”. Eles adoravam muitos deuses, que toleravam uns aos outros em amigável co­existência.

Os coríntios não teriam criado tanta objeção caso os evangelistas cristãos se tivessem contentado em acrescen­tar Jesus ao seu já tão rico panteão. Só que o apóstolo Paulo, ao visitar a cidade, tinha em vista um objetivo muito diferente. Ele queria que Corinto, com todos os seus ha­bitantes e todos os seus deuses, se curvasse e adorasse Jesus. Ele chegou ali com a firme intenção de nada saber “senão Jesus Cristo, e este crucificado”. Ele sabia muito bem, como lhes escreveu mais tarde, que havia “muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores'” que disputavam a lealdade dos coríntios. Mas, para ele, havia “um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também por ele”; portanto, não estava disposto a se comprometer. Na opinião dele, a sua visita teria estabe­lecido um compromisso de casamento entre eles e Cristo; portanto, sentia por eles um zelo santo. “Eu vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo”, escreveu ele. “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também sejam corrompidas as vossas mentes, e se apartem da simplicidade e pureza devidas a Cristo.” Afinal de contas, Jesus Cristo não iria dividir sua glória com Apolo ou Afrodite, ou qualquer outro que fosse.

A situação religiosa do mundo não mudou muito desde aqueles dias. E verdade que os velhos deuses da Grécia e de Roma já foram desacreditados e descartados há muito tempo. Mas em lugar deles surgiram novos deuses, assim como ressurgiram outras crenças antigas. Um dos resul­tados dos meios modernos de comunicação e da facilidade de viajar é que muitos países vêm se tornando cada vez mais pluralistas. O que as pessoas querem é um sincretismo fácil, uma trégua para a competição interreligiosa, uma mistura do que há de melhor em todas as religiões. Mas nós, cristãos, não podemos abrir mão, nem da supremacia, nem da unicidade de Jesus Cristo. Simplesmente não existe ninguém que seja igual a ele; sua encarnação, sua redenção e ressurreição não têm paralelos. Portanto, ele é o Media­dor — aliás, o único — entre Deus e a raça humana. Esta afirmação da exclusividade de Jesus tem produzido ressen­timentos amargos e profundos. Muitos a consideram “in­toleravelmente intolerante”. Mas, por amor à verdade, nós temos que mantê-la, por mais ofensa que possa causar. Este tópico eu volto a considerar no capítulo 18.

(c) A objeção pessoal, ou a humilhação do orgulho hu­mano. Todas as religiões, com exceção do cristianismo, têm em comum a arrogante idéia (expressa de diferentes ma­neiras) de que nós somos capazes, se não de conquistar a nossa salvação, pelo menos de contribuir substancialmente para ela. Essa doutrina da salvação própria engorda mui­tíssimo a nossa auto-estima. Ela agrada ao nosso orgu­lhoso ego e salva-nos do supremo embaraço de sermos humilhados diante da cruz.

Os coríntios não eram uma exceção; eles eram um povo orgulhoso. Tinham orgulho de sua cidade, a qual, após ter sido destruída um século antes em uma rebelião, fora caprichosamente reconstruída por Júlio César em 46 a.C. Orgulhavam-se do fato de que Augusto havia elevado Co­rinto acima de Atenas, tornando-a a capital da nova província da Acaia. Tinham orgulho do seu comércio, da sua afluência, da sua cultura, dos seus, jogos típicos e do seu zelo religioso.

Aí apareceu aquele missionário cristão afobado, um joão-ninguém metido a importante, um camaradinha feio e careca, de pernas tortas e sobrancelhas cerradas, que parecia não ter o mínimo respeito pela distinta cidade deles. E tinha a petulância de dizer a eles que nem sua sabedoria, nem sua opulência, nem sua religião poderiam salvá-los; que na verdade eles nem podiam fazer coisa alguma para salvar -se do juízo de Deus, e nem sequer ajudar a conquistar a sua própria salvação; que por isso é que Jesus Cristo havia morrido por eles; e que, sem ele, todos eles iriam perecer. Quem ele achava que era para insultá-los desse jeito?! Era humilhação demais para um povo tão orgulhoso! A men­sagem da cruz era uma pedra de tropeço, tanto para or­gulhosos judeus quanto para gentios orgulhosos. Não é de admirar que a principal resposta ao evangelho em Corinto tenha vindo dos mais baixos escalões da sociedade: “Ir­mãos, reparai na vossa vocação… não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento.” Pelo contrário, foram os loucos, os fracos, os humildes e os desprezados, que sabiam que nada tinham a oferecer, que Deus escolheu e chamou.

Ainda hoje não existe uma coisa que leve tanta gente a abdicar do reino de Deus quanto o orgulho. Como disse Emil Brunner, em todas as outras religiões “o homem é poupado da suprema humilhação de saber que o Mediador (no caso, Jesus Cristo) deve sofrer a punição em seu lugar… Elas não o deixam absolutamente despido.” O evangelho, porém, nos desnuda (não temos nenhuma roupa com que nos apresentar diante de Deus) e nos declara falidos (não temos dinheiro algum com o qual comprar o favor dos céus).

(d) A objeção moral, ou o chamado ao arrependimento e à santidade. Corinto era um próspero centro comercial, que comandava as rotas de negócios, tanto no sentido norte-sul por via terrestre como leste-oeste através do mar.

A cidade, portanto, vivia cheia de mercadores, viajantes e navegadores. Já que eram estrangeiros numa cidade estranha, eles pouco se preocupavam com restrições morais. Alem disso, Afrodite, conhecida pelos romanos como Vênus, a deusa do amor, reinava em seu templo acima da cidade, encorajava a promiscuidade sexual entre os seus devotos e proporcionava milhares de prostitutas que vagavam à noite pelas ruas da cidade. Era uma verdadeira “feira da vaidade” do mundo antigo. O verbo grego korinthiazomai significava “praticar a imoralidade”.

De uma cidade descaradamente imoral como Corinto não era mesmo de se esperar que acolhesse o evangelho, com seus apelos ao arrependimento, suas advertências de que os sexualmente corruptos não herdarão o reino de Deus e com sua insistência no fato de que após a justificação vem a santificação (crescer em santidade) e depois da santificação vem a glorificação (quando o mal será abolido).

O mundo moderno não é em nada mais receptivo do que o mundo antigo no que concerne ao chamado do evangelho para o domínio próprio. Ele gosta de dizer que esse negócio de absolutos morais já não existe mais, que moralidade sexual é apenas uma questão de costumes sexuais, que a abstinência é uma coisa ruim e a permissividade uma coisa boa, e que o cristianismo, com suas proibições, é inimigo da liberdade.

(e) A objeção política, ou o senhorio de Jesus Cristo. Havia no Império Romano uma boa dose de fervor político (para não dizer fanatismo). Leais procuradores romanos tendiam a incentivá-lo e agiam com toda crueldade para acalmar qualquer tentativa de rebelião. Convém lembrar­mos que o próprio Jesus foi condenado numa corte romana pela ofensa política da sedição, por declarar ser um rei, em rivalidade a César. Paulo e Silas, de igual forma, foram acusados em Filipos de estarem “propagando costumes que não podemos receber nem praticar porque somos roma­nos”, enquanto que em Tessalônica disseram que eles estavam “procedendo contra os decretos de César, afirmando ser Jesus outro rei”.

Eram falsas ou verdadeiras essas acusações? Eram falsas e eram verdadeiras. Naturalmente, nem Jesus nem os apóstolos jamais instigaram rebelião armada contra Roma. Eles não eram zelotas. Mas eles proclamaram, sim, que Jesus havia anunciado ter chegado o reino de Deus, que seu reino tinha prioridade sobre todas as outras lealdades, menos importantes, que esse reino se espalharia pelo mundo todo e que o rei iria voltar para assumir o poder e o reino. Tinha todo o jeito de sedição. Na verdade, era sedição, se é que sedição significa negar ao estado autoridade incon­testável, dando-a ao Cristo de Deus.

Ainda hoje, se há uma coisa que um regime totalitário não consegue suportar é que lhe neguem a lealdade absoluta que ele exige. Os cristãos submetem-se conscientemente ao estado, desde que a autoridade que lhe é dada por Deus seja usada para promover o bem e punir o mal; nunca, porém, iremos adorar o estado. E a Cristo que nós adoramos, a Cristo, a quem foi dada toda a autoridade no céu e na terra, pois ele morreu e ressuscitou a fim de ser o Senhor de tudo.

Eis aqui, pois, cinco objeções que se costumam fazer ao evangelho de Cristo e sua cruz, e que Paulo esperava encontrar em Corinto. Ele sabia que sua mensagem do Cristo crucificado seria considerada intelectualmente loucura (incompatível com a sabedoria), religiosamente exclusiva (incompatível com a tolerância), pessoalmente humilhante (incompatível com a auto-estima), moralmen­te exigente (incompatível com a liberdade) e politicamente subversiva (incompatível com o patriotismo).

Não é de admirar que Paulo se sentisse “fraco e tremendo de medo” e admitisse que precisava tomar uma decisão. Foi, por um lado, uma decisão negativa, de abrir mão da sabedoria do mundo, ou seja, de todo sistema que se oferece como uma alternativa para o evangelho; e, por outro lado, foi uma decisão positiva, de só proclamar Jesus Cristo e especialmente sua cruz. Hoje nós nos deparamos com a mesma alternativa. Temos que escolher entre a sabedoria do inundo, que é loucura para Deus, e a loucura da cruz, que é a sabedoria de Deus.

O poder do Espírito

Certos cristãos contemporâneos, se ouvissem Paulo con­fessar que sentia fraqueza, temor e tremor, com certeza iriam repreendê-lo. “Paulo”, diriam eles, “você não tem nada que ficar nervoso ou com medo. Anime-se! Você não sabe o que é ser cheio do Espírito Santo? Você tem que ser forte, ousado e corajoso!”

Mas Paulo não temia admitir que estava com medo. Para dizer a verdade, ele tinha um poderoso intelecto e uma forte personalidade, e esses poderes ele havia dedicado a Cristo. Mas ele era também fisicamente fraco e emocionalmente vulnerável. Segundo a tradição, sua aparência não era nada atraente. Conforme os seus críticos, suas cartas eram “graves e fortes; mas a presença pessoal dele era fraca, e a palavra desprezível”. Portanto, ele nada tinha que chamasse aten­ção, fosse para vê-lo, fosse para escutá-lo. Além disso, algum tipo de enfermidade (o seu chamado “espinho na carne”) parece ter afetado sua visão, ou mesmo desfigurado-o. E ele sabia da impopularidade do seu evangelho, da oposição que se levantaria em Corinto e, portanto, do custo de ser fiel a ele.

Mas, então, em que ele depositou a sua confiança? Ele nos dá a resposta em 1 Coríntios 2.4-5. Sua confiança não estava em “linguagem persuasiva de sabedoria” (ERAB) ou em “linguagem de sabedoria humana” (BLH). Isto é, ele não se baseava, nem na sabedoria nem na eloquência do mundo. Ao invés da sabedoria do mundo ele pregava a Cristo e sua cruz (v. 1-2), e em vez da retórica do mundo ele confiava na poderosa demonstração que o Espírito Santo dá à palavra. Afinal, somente o Espírito Santo pode convencer as pessoas dos seus pecados e necessidades, abrir-lhes os olhos para enxergarem a verdade do Cristo crucificado, dobrar sua orgulhosa vontade e submetê-las a ele, libertá-las a fim de crerem nele, e dar-lhes um novo nascimento. Esta é a poderosa “demonstração” que o Espírito Santo dá a palavras ditas em fraqueza humana.

Esta questão do “poder através da fraqueza” é um ele­mento vital na correspondência corintiana de Paulo. Em ambas as cartas existentes o apóstolo enfatiza que é através da fraqueza humana que melhor opera o poder divino. Ele insinua que Deus, deliberadamente, torna fraco o seu povo e o mantém assim, a fim de mostrar que o poder é dele. Paulo chega até a dizer que este princípio se aplica tanto a Deus quanto a nós, pois é através da sua própria fraqueza na cruz que ele manifesta o seu poder de salvar.

Em 1 Coríntios 1 e 2 o mesmo tema do poder através da fraqueza se repete em três variações. Primeiro, nossa mensagem é fraca e louca (Cristo e a cruz). Segundo, ela é proclamada por pregadores fracos e loucos. Terceiro, ela é acolhida por pessoas fracas e loucas. Assim, Deus esco­lheu um instrumento fraco (Paulo) para levar uma men­sagem fraca (a cruz) a pessoas fracas (os operários de Corinto). Por quê? “A fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” e para que “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Os cinco primeiros versículos de 1 Coríntios 2 são talvez a mais nobre e mais preciosa declaração feita no Novo Testamento sobre a evangelização. Eles nos dizem que o evangelho é a verdade proveniente de Deus acerca de Cristo e sua cruz no poder do Espírito. Assim, o evangelho não é especulação humana, mas, sim, revelação divina; não é sabedoria popular, mas Cristo e sua desprezada cruz; não é imposto através de propagandas ou personalidades, mas é transmitido pelo Espírito Santo. O evangelho vem de Deus, concentra-se em Cristo, e este crucificado, e é au­tenticado pelo Espírito Santo. É este é o evangelho trinitário do Novo Testamento.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Mimica Faciial

MÍMICA FACIAL – INTERPRETANDO AS EXPRESSÕES

Prestar atenção na alteração de expressões e nas variações de voz daqueles com quem convivemos é fundamental; quem interpreta corretamente os sinais emitidos pelos outros tem mais chances de antecipar intenções alheias e agir de forma adequada.

Quando quero descobrir se uma pessoa é inteligente ou tola, boa ou má, ou o que está pensando naquele momento, procuro imitar sua expressão facial com exatidão e aguardo os pensamentos ou sentimentos que combinam e, inevitavelmente, surgem quando imito sua fisionomia”, escreveu Edgar Allan Poe (1809- 1849). Para o escritor de histórias de suspense e mistério, essa postura parecia muito simples: seu herói Auguste Dupin, de A carta roubada, por exemplo, precisava apenas estudar a face de alguém para desvendar o que lhe passava pela cabeça. De fato, frequentemente os traços faciais de alguém podem oferecer inúmeras pistas sobre estados de humor – e até a respeito de características de personalidade. Na maioria das vezes, emoções fundamentais como alegria, medo ou raiva podem ser interpretadas sem grande dificuldade.

Charles Darwin (1809 -1882) tinha grande conhecimento sobre o significado da mímica como forma de comunicação. Em livro publicado em 1872, A expressão das emoções no homem e nos animais, recém-lançado no Brasil pela Cia. Das Letras, o criador da teoria da evolução interpretou as mensagens emocionais emitidas por seres humanos e animais como um comportamento que auxiliava a sobrevivência. Segundo Darwin, quem interpreta corretamente os sentimentos de seus pares consegue antecipar as intenções alheias e, assim, reagir de forma adequada em cada situação. O indivíduo percebe, o momento mais adequado para se afastar ou se aproximar. A visão de um rosto distorcido pelo ódio, por exemplo, sugere uma retirada discreta; o nariz torcido e uma expressão de nojo diante de um alimento sugerem que insistir em consumi-lo pode não ser uma boa ideia.

Nem todos, porém, têm habilidade em identificar com facilidade os variados sinais emocionais enviados pelo rosto de outras pessoas. Em situações extremas essa incapacidade pode ser caracterizada como um distúrbio raro denominado prosopagnosia, uma espécie de “cegueira para feições”, causada geneticamente ou por lesões neurológicas. O termo resulta de uma junção da palavra grega prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Pessoas com esse problema em geral enxergam bem, mas não conseguem reter detalhes das feições na memória ou identificar peculiaridades das variações de expressão.

MAIS FÁCEIS DE ENTENDER

Para descobrirmos quão bem – ou mal – as pessoas podem ler os sentimentos de outras em seus traços faciais, utilizamos há dez anos no Laboratório de Emoções da Universidade de Ulm o teste FEEL (Facially Expressed Emotion Labeling). Inicialmente, os participantes vêm a imagem de uma pessoa com expressão neutra em uma tela de computador durante um segundo e meio. Após pausa de um segundo, aparece o mesmo rosto durante 300 milissegundos, mostrando uma das seis emoções que elegemos como básicas do ponto de vista evolutivo: alegria, tristeza, raiva, nojo medo ou surpresa. Os sujeitos da pesquisa devem dizer o que o modelo aparenta sentir.

O teste revelou que a maioria das pessoas identifica sentimentos de seus semelhantes de forma praticamente imediata. No entanto, nem todas as emoções são percebidas com a mesma destreza: enquanto alegria, raiva e surpresa são quase sempre corretamente interpretadas, o reconhecimento de medo nojo e tristeza causa alguma confusão.

Além disso as pessoas diferenciam-se consideravelmente em sua capacidade de decifrar esses sinais. Como demonstramos em um estudo realizado em 2007, os participantes que sofriam de pânico tinham, claramente, maior dificuldade em detectar a tristeza e o ódio do que os integrantes do grupo de controle que não apresentavam o problema. Os pacientes com a síndrome tendiam principalmente a interpretar de forma equivocada algumas expressões faciais vendo-as como irritadas, ainda que não se apresentassem assim.

Em geral, porém, não é tão simples atribuir as divergências individuais a respeito da percepção dos sentimentos a eventuais distúrbios neurológicos ou psiquiátricos. Se a capacidade de empatia dos sujeitos, assim como suas habilidades em demonstrar resentimentos, são testadas por meio de um questionário, surgem apenas fracas coincidências com o FEEL. Outros pesquisadores também não conseguiram comprovar nenhuma conexão entre os sentimentos de uma pessoa e sua capacidade de reconhecê­ los nas demais. Será que essa correlação realmente não existe ou o método de medição é inexato?

Realmente, as condições do teste são simples: afinal, uma foto frontal sem sofisticação não corresponde a uma situação concreta. Na vida real, a mímica emocional modifica-se constantemente e, muitas vezes, surge apenas subliminarmente – inserida em um acontecimento social complexo. Sendo assim, não surpreende quando métodos de reconhecimento da emoção que trabalham apenas com estímulos mímicos levam a resultados que têm pouca relação com autodescrições subjetivas feitas em testes psicológicos.

Considerando essa questão, aperfeiçoamos nosso sistema de testes e passamos a mostrar aos sujeitos de nossas pesquisas vídeos nos quais feições neutras se transformavam, mais uma vez expressando raiva, medo, alegria, surpresa, tristeza ou nojo, só que agora de forma mais dinâmica. Nos filmes, as faces podiam ser vistas durante período semelhante ao do teste estático FEEL: o rosto neutro que surgia por mil a 1.800 milissegundos se metamorfoseava em um intervalo de 400 a 1.200 milissegundos, revelando alguma expressão emocional que, por sua vez, desaparecia após 300 milissegundos.

IMAGENS EM MOVIMENTO

No teste por vídeo, porém, os participantes tiveram resultados quase iguais aos obtidos na versão por foto: 102 voluntários aos quais mostramos 36 fotos e 36 vídeos identificaram em ambas as séries de teste – apesar das diferenças consideráveis – as variadas emoções de forma quase idêntica. As imagens em movimento apenas levavam ao reconhecimento um pouco mais rápido da surpresa e do medo; as fotos, por sua vez, ofereciam leve vantagem na detecção de traços de alegria.

Ao que tudo indica, as pessoas conseguem processar rapidamente a expressão mímica – pelo menos de forma mais rápida que nosso olhar lê o rosto completo do outro. Quem tem um pouco mais de tempo acompanha o movimento facial e consegue, assim, absorver mais informações. Dessa forma, no entanto, a melhora do resultado do reconhecimento da expressão dos sentimentos é irrelevante. Isso nos leva a concluir que, provavelmente, possuímos dois sistemas de decodificação da mímica humana, um rápido e outro lento.

O que se passa então em nossa cabeça quando analisamos expressões emocionais? Estudiosos do cérebro já indicaram há bastante tempo uma região do sistema límbico em formato de amêndoa como importante centro emocional: a amígdala. Essa área se excita durante a observação, assim como ocorre quando a pessoa experimenta emoções, principalmente o medo. O caso de pessoas com a amígdala lesionada mostrou-se especialmente ilustrativo para as pesquisas – como a paciente P., que Adam Anderson e Elizabeth Phelps acompanharam. Em 2000, os dois cientistas, à época na Universidade Yale, em New Haven, relataram que a mulher de 54 anos conseguia reconhecer rostos sem dificuldade e também lhes atribuir expressões de surpresa e raiva. Com outros sentimentos, como medo, nojo e tristeza, no entanto, ela falhava completamente. A própria S. P. conseguia, porém, expressar facialmente esses três últimos sem problemas. Assim, sua comunicação social mostrou-se prejudicada apenas em uma direção. Foi constatado, portanto, que a amígdala é indispensável para a recepção de mensagens emocionais corno o temor, mas a emissão de sinais por meio do próprio rosto seria possível também sem a participação dessa área cerebral.

Durante muito tempo, pesquisadores acreditaram que a amígdala funcionasse exclusivamente como centro do medo. Diversos novos estudos, entretanto, nos levam a questionar tal suposição. O grupo de pesquisadores dirigido por Christian Keysers, da Universidade Groningen, na Holanda, conseguiu provar em 2007 que essa região se excitava assim que os voluntários da pesquisa assistiam a vídeos de pessoas emocionadas. No entanto, não constatamos nenhuma diferença entre a apresentação de rostos neutros, alegres, enojados ou amedrontados.

Por outro lado, a amígdala reagia também quando as pessoas simplesmente estufavam as bochechas no filme, o que nos leva a considerar que essa área cerebral responde a movimentos do rosto de maneira geral e pode estar envolvida apenas indiretamente no processo de detecção de expressões emocionais.

O grupo de trabalho de Ralph Adolphs, do Instituto Califórnia de Tecnologia, em Pasadena obteve resultados semelhantes em 2005. A amígdala de sua paciente S. M. estava afetada de ambos os lados. A mulher, na época com 38 anos, tinha, assim como S. P., grande dificuldade em reconhecer o medo em seus semelhantes. Mas, afinal, o que nos leva a concluir que a pessoa à nossa frente está assustada? Análises dos movimentos oculares revelaram que homens e mulheres saudáveis se orientam principalmente pelos olhos arregalados, que atraem a atenção do observador de forma intensa. Isso, porém, não acontecia com S. M. Ela parecia evitar os olhos estatelados de medo de uma pessoa assustada: seu olhar parecia dançar vago e incerto na região central do rosto a ser avaliado.

VISÃO ASSUSTADORA

Em uma segunda série de experimentos, Adolphs e seus colegas treinaram a participante para que observasse especialmente os olhos dos retratos apresentados. Graças ao exercício, S. M. passou então a reconhecer rostos amedrontados. Os pesquisadores perceberam então que, em vez de servir simplesmente como um filtro passivo, a amígdala funcional ofereceomandos que “avisam” aos olhos que devem atentar para certas características.

Será que podemos concluir que apenas a visão nos revela sentimentos de nossos semelhanets? Para responder a essa questão, os pesquisadores Holger Hoffmann e Henrik Kessler dividiram graficamente as imagens dos rostos de nossos testes em uma região superior (com olhos e nariz) e outra inferior (que incluía a boca e laterais da face). Assim, poderíamos apresentar as expressões emocionais apenas parcialmente, enquanto a outra metade do rosto permanecia inalterada.

Essa divisão das faces teve efeito dramático sobre o reconhecimento de estímulos emocionais. De maneira geral, os 57sujeitos de nossa pesquisa puderam detectar melhor os sentimentos na parte inferior dos rostos. Nesse caso, o índice de acerto foi de 63%, mas caiu para 49% quando, em vez de boca e bochechas, os voluntários viam apenas olhos e nariz. E subiu para 83% quando o rosto completo era apresentado.

A interpretação de cada uma das emoções apresentou diferenças substanciais: o temor foi, conforme esperado, detectado quase que exclusivamente na parte superior do rosto. Em manifestações de surpresa, os olhos também desempenham papel de destaque. Mas no caso da alegria ocorre exatamente o oposto: sem a boca, ela praticamente não pode ser percebida. Já uma expressão triste ou enojada também se revela, principalmente, por meio da parte inferior do rosto.

CÉREBRO CONFUSO

Os movimentos do olhar dos voluntários, que acompanhamos com um sistema de rastreamento, comprovaram os diferentes pesos durante o reconhecimento de emoções: em uma fisionomia amedrontada, as pessoas atentavam mais nos olhos; em um rosto alegre, sua atenção voltava-se para a boca; em uma face triste, todos os elementos adquiriam grande importância. Os relativamente curtos períodos de exposição de nossos estudos comprovaram a rápida percepção das emoções. Mas, aparentemente, seres humanos precisam mesmo de informações de todo o rosto para uma correta análise dos sentimentos demonstrados por um semelhante. Caso contrário, o sistema de reconhecimento de emoções pode se confundir.

Não se pode negar que, de fato, algumas pessoas parecem ter um senso extraordinário para compreender o pensamento e sentimentos alheios. Outras se mostram menos talentosas. Acreditamos, porém, que essa habilidade exista independentemente da capacidade objetiva de detectar emoções em rostos. De maneira geral, fica demonstrado que o processo de apreensão de expressões faciais depende muito do tempo de visualização. Uma apresentação próxima da realidade, como no filme, possibilita que o cérebro analise os traços emotivos da expressão como um todo. Ao que tudo indica, nosso sistema perceptivo precisa acompanhar a dinâmica do rosto do outro para direcionar a atenção para aquelas partes que nos ajudarão a ler as emoções. E, assim, talvez possamos nos relacionar melhor.

NARIZ DE PINÓQUIO

É possível aprender a mentir convincentemente? “Com certeza. Basta pensar como um jogador de xadrez, controlar os sentimentos e sintonizar a mímica com a atenção do interlocutor, para que ela seja bem interpretada “, garante o psicólogo americano Paul Ekman, da Universidade da Califórnia, São Francisco, que há mais de 40 anos se dedica a estudar a mímica facial humana. Além disso, quanto mais o mentiroso acredita em sua própria história e se sai bem, mais difícil será perceber o embuste. Ekman aconselha que, durante um interrogatório, os investigadores de polícia façam perguntas inesperadas. Em vez de “Você esteve ontem à noite no supermercado X?”, é melhor “Onde costuma fazer compras?”

Embora seja possível treinar o reconhecimento das micro-expressões, nem sempre se consegue considerá-las indícios de mentira. Quando treina profissionais de segurança, Ekman recomenda que sempre se pergunte o que o interrogado está sentindo. Isso diminui o risco de cometer o “equívoco de Otelo”: no drama de William Shakespeare, o protagonista interpreta o medo no semblante de Desdêmona como sinal de traição, e a mata com base em uma percepção equivocada. Não só mudanças na mímica facial, mas também detalhes da atitude corporal, e variações na entonação da voz, podem apontar deslizes. A prova de que alguém está dizendo a verdade só seria possível mesmo se nosso nariz fosse como o de Pinóquio. Por que é tão difícil reconhecer a mentira? Segundo Ekman, gostamos de acreditar no que nos é contado. “Quem quer ouvir que está sendo traído no casamento? Para aceitar é preciso enfrentar o problema, e isso a maioria quer evitar”, diz. Devido a mecanismos de defesa, as evidências tendem a passar despercebidas. Do ponto de vista evolutivo, não é vantajoso ser um detector de mentiras. Em grupos pequenos, um dos envolvidos geralmente é expulso da comunidade ou se afasta dela.

Ekman vê paralelos entre seu trabalho e o do Dalai Lama, com quem se encontrou algumas vezes. Na busca pela verdade, ele quer ajudar as pessoas a entender melhor seus sentimentos e dominar seus impulsos. Assim, espera colaborar para conscientizá-las das próprias emoções antes que estas sejam expressadas de forma inadequada. “Para decidir quando uma mentira é permitida, pergunto-me como meu interlocutor se sentiria se descobrisse que menti”, explica. Se ele interpretar como quebra de confiança ou tentativa de tirar vantagem, pode ser prejudicial. Isso não vale, porém, para convenções sociais e gentilezas. “Afinal, depois de um jantar, você diria abertamente a seu anfitrião que a comida estava horrível?”.

CONCEITOS-CHAVE

  • Ao longo dos séculos, a habilidade humana de perceber o que os outros estão sentindo por meio de suas expressões faciais foi fundamental para o desenvolvimento de nossa espécie. Embora nem todos tenham acuidade para captar com a mesma facilidade o que seus pares transmitem, pelo menos seis sentimentos costumam ser identificados pela maioria das pessoas: alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa.
  • Um distúrbio raro chamado prosopagnosia, uma espécie de ‘cegueira para feições”, causado por falha genética ou lesão neurológica. Pacientes com esse problema, em geral, não conseguem captar alterações nem reter detalhes de rostos na memória.
  • A aplicação do teste FEEL (Facially Expressed Emotion Labeling), por pesquisadores do Laboratório de Emoções da Universidade de Ulm, Alemanha, mostrou que a percepção das expressões faciais alheia s está vinculada ao tempo em que nos detemos na face da pessoa observada. No experimento, a apresentação próxima da realidade, em um filme, permitiu que o cérebro dos voluntários analisasse os traços emotivos como um todo.

 

HARALD C. TRAUE é psicólogo e doutor em biologia humana; atualmente dirige a Seção de Psicologia Médica do Hospital Universitário de Ulm.

GESTÃO E CARREIRA

Jovens no Board

TEM VAGAS PARA JOVENS NO BOARD

 Buscando mais diversidade e proximidade no negócio, as empresas estão mudando o perfil dos executivos que compõem seu conselho. Com isso, tem surgido espaço para profissionais mais jovens nessas cadeiras. 

Quando recebeu o primeiro convite para sentar em uma cadeira de conselheiro na empresa de autopeças Plascar S/A, o advogado paulistano Mauro César Leschziner tinha 34 anos. Até então a possibilidade de ser cotado para ocupar esse tipo de posição nunca havia lhe ocorrido. “Eu era muito jovem, estava focado em outras coisas e nem considerava participar de conselhos”, afirma. Hoje, aos 44 anos, além da Plascar, Mauro também compõe o board da empresa de educação executiva Affero Lab e concilia as duas funções com o cargo de advogado no escritório Machado Meyer. “No começo, você sente um pouco o peso da idade, mas depois se acostuma e começa a entender como as empresas e as concorrentes operam. Por não estar inserido no mundo corporativo, tive de estudar mais e dedicar mais tempo aos números. É um aprendizado que eu nunca teria advogando”, diz.

Tradicionalmente, quando se pensa no conselho de administração, a primeira imagem que vem à cabeça é de um grupo de executivos grisalhos com muitos anos de experiência no mundo corporativo. Embora essa imagem corresponda em grande parte à realidade, casos como o de Mauro estão se tornando cada vez mais frequentes e mudando a composição desses espaços. A necessidade de as empresas se tornarem mais competitivas – algo que foi intensificado pela crise econômica – tem feito com que elas busquem conselheiros com perfil mais próximo do negócio ou do consumidor de seus produtos e serviços. “Os conselheiros deixaram de ser executivos generalistas, muitas vezes figurões do mundo corporativo ou amigos dos CEOs, e passaram a ser definidos por funções específicas, de acordo com a necessidade do momento da empresa, por exemplo, um novo negócio, diz Arthur Vasconcellos, sócio da empresa de recrutamento e seleção Caldwell Partners Brasil, em São Paulo. Esse cenário, aliado a negócios cada vez mais tecnológicos, abriu espaço para profissionais mais jovens no board. “Muitos setores têm demandado novos temas, como compartilhamento de serviços, processos automatizados ou riscos cibernéticos. Em geral, quem entende desses assuntos são os mais jovens”, afirma Anna Maria Guimarães, coordenadora acadêmica do curso Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W) na escola de negócios Saint Paul, de São Paulo.

 JUVENTUDE E EXPERIÊNCIA

Companhias de capital aberto, sociedades anônimas, instituições financeiras ou seguradores são obrigadas por lei a ter conselhos de administração. Mas a preocupação com as boas práticas de governança tem feito com que até mesmo as empresas fechadas (as chamadas limitadas) se preocupem em formar um time de conselheiros. “Muitas empresas familiares que estão querendo se profissionalizarem buscam criar um grupo de profissionais capacitados para ajudar nesse processo”, afirma André Freire, sócio da consultoria de recrutamento Exec. de São Paulo.

Se em organizações tradicionais ter funcionários conectados é importante, nas empresas recém-abertas isso se torna ainda mais crucial. Esse é o caso da Hotmart, startup de tecnologia que, por fazer parte de um fundo de private equity e receber aporte de investidores precisou montar um conselho de administração. Na empresa, a idade dos membros varia de 27 a 38 anos. “O time é composto de investidores e convidados e a maioria é de tecnologia. Os mais jovens, mesmo que não tenham tanta experiência, contribuem na hora de projetarmos cenário, porque olham mais para o futuro, diz João Pedro Resende, fundador da Hotmart. Mas pouca idade nem sempre é sinônimo de pouca experiência. Alguns executivos na faixa dos 40 e poucos anos – considerados novos para o antigo perfil de conselheiros – já passaram por diversas experiências profissionais e conseguem o carimbo que antes poderia faltar. “Cada vez mais jovens tem ascendido a posições de liderança. Essas pessoas se educaram melhor, muitas têm experiência internacional e fizeram carreiras mais aceleradas. Isso referenda a participação delas no conselho”, afirma André Freire, da Exec.

Para Anna Maria Guimarães, da Saint Paul, fatos recentes, como a Operação Lava-Jato, demonstraram a necessidade de se repensar os conselhos. “Esses acontecimentos mostraram que muitos deles eram ineficazes. Num cenário onde o compliance ganhou destaque, o conselho não pode mais ser decorativo, para inglês ver, precisa se envolver e contribuir para as questões éticas e negócios das companhias”, afirma.

Por último, outro fator que tem contribuído para renovar a composição dos boards é a discursão acerca da promoção de igualdade de gênero nessa instância das organizações. “Diversas pesquisas apontam que companhias que possuem mulheres na liderança melhoram sua performance. Empresas, por exemplo que tem público consumidor feminino, precisam de alguém, na hora da tomada de decisão, que entenda esse mundo, diz Marienne Coutinho da consultoria KMPG. No congresso, já tramita projeto de lei PLS 112 de 2010, que estabelece que pelo menos 40% das cadeiras dos conselhos de administração sejam ocupados por mulheres. Enquanto isso não vira realidade, algumas empresas têm se antecipado. É o caso da Duratex, que tinha uma suplente e, recentemente, convidou a executiva Juliana Rozenbaum para compor o board. “Desejávamos alguém que viesse do varejo e, embora não fosse um pré-requisito, ficamos felizes de ser uma mulher. Um conselho somente masculino perde a riqueza e pluralidade de ideias”, afirma Salo Davi Seibel, presidente do conselho da empresa.

O CAMINHO DAS PEDRAS

Embora o convite para ocupar uma posição de conselheiro aconteça majoritariamente por indicação, manter uma boa rede de contatos e fazer alguns cursos pode ajudar quem deseja conquistar uma cadeira. “Mapeie em que tipo de companhia você pode se encaixar de acordo com sua experiência. Busque pessoas que trabalham nessas empresas ou conselheiros mais experientes que o ajudem a chegar lá, mas que também o oriente depois”, diz Adriane Rickli, gerente do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros da Fundação Dom Cabral.

Um curso de educação corporativa, além de aumentar seus conhecimentos sobre temas importantes que serão discutidos, também pode servir de vitrine e ampliar seu contato com esse universo. “Outra opção é começar em conselhos de ONGs ou comitês não remunerados para adquirir experiência e criar uma trilha de carreira até boards de grandes empresas”, afirma Marienne.

Mas como nem tudo são flores, é preciso ficar atento a algumas questões. Um dos ônus de ser membro de um conselho de administração é ser responsabilizado judicialmente em caso de condenação da empresa. “Se a organização falir, por exemplo, os bens desse conselheiro pode servir para liquidar dívidas. Ele tem a mesma responsabilidade de um diretor estatutário”, diz Arthur Vasconcellos, sócio da Caldwell Partners. Outra questão é o tempo a ser dedicado a essa função. “É preciso que o profissional negocie com a companhia onde ele é executivo. Algumas empresas acreditam que esse é um aprendizado enriquecedor, outras proíbem a atuação em outra companhia”, afirma Adriane. Por isso, antes de se sentar confortavelmente numa dessas cadeiras, analise se conseguirá lidar com os espinhos que ela pode esconder.

 QUEM É QUEM

Confira os tipos de conselheiro que podem integrar o board de uma empresa:

Internos: São empregados da organização.

Externos: Ex-funcionários da empresa, consultores, investidores ou controladores de outra empresa do mesmo grupo.

Independentes: Conselheiros externos que não têm relações familiares ou de negócios com a empresa.

 

 

DE ONDE ELES VÊM  
FORMAÇÃO %
ENGENHEIROS 27,6
OUTROS 22,1
ADMINISTRADORES 21,4
ECONOMISTAS 15,6
ADVOGADOS 13,3

 O TAMANHO DE CADA CADEIRA

Entenda os diferentes conselhos presentes nas organizações e a função de cada um deles:

 De Administração:

Além de decidir os rumos estratégicos do negócio, compete a esse tipo de conselho monitorar a diretoria, atuando como elo entre ele e os sócios. Nele, os conselheiros são os responsáveis legais pela empresa. 

Consultivo:

Tem todas as atribuições de um conselho de administração, mas seus conselheiros não respondem judicialmente pela empresa e suas indicações não precisam necessariamente ser seguidas pela empresa.

 Fiscal:

Sua missão é fiscalizar as ações praticadas pelos administradores e opinar sobre as contas. Ele é independente do conselho de administração, mas seus participantes respondem judicialmente pela empresa.

 Comitês:

São órgãos compostos de membros internos ou externos que assessoram o conselho de administração. Eles são criados para discutir assuntos específicos, como diversidade e sustentabilidade.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

A VERDADEIRA LIBERDADE

Uma das melhores maneiras de compartilhar o evangelho com os homens e as mulheres de hoje é apresentá-lo em termos de liberdade. Existem pelo menos três argumentos que podem ser usados nessa abordagem.
Primeiro, a liberdade é um assunto extremamente atraente. A revolta mundial contra a autoridade, iniciada na década de sessenta, é vista como sinônimo de uma busca mundial por liberdade. Muita gente é obcecada com a liberdade e passa a vida inteira a persegui-la. Para alguns, é uma questão de libertação nacional, emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, trata-se de direitos civis, e assim protestam contra discriminação racial, religiosa ou étnica e exigem a proteção de opiniões das minorias. E ainda há outros cuja preocupação é a busca por liberdade económica, libertação da fome, da pobreza e do desemprego. Ao mesmo tempo, todos nós nos preocupamos com a nossa liberdade pessoal. Até aqueles que lutam mais ardentemente pelos outros tipos de liberdade aqui mencionadas (nacional, civil e económica) geralmente sabem que eles mesmos não são livres. Eles nem sempre conseguem dar um nome às tiranias que os oprimem. Todavia, sentem-se frustrados, não-realizados e sem liberdade.
Numa entrevista com o consagradíssimo novelista John Fowles, publicada sob o título “Uma Espécie de Exílio em Lyme Regis”, Daniel Halpern perguntou-lhe: “Existe algum retrato específico do mundo que você gostaria de desenvolver em sua obra? Alguma coisa que continua sendo importante para você?” “Sim”, respondeu John Fowles. “Liberdade. Como alcançar a liberdade. Isto me obceca.
Todos os meus livros falam sobre isso.”
Segundo, liberdade é uma tremenda palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, declarou ele, aplicando a si mesmo uma profecia do Antigo Testamento, “pelo que me ungiu para evangelizar nos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” Quer Jesus estivesse se referindo aos pobres, cativos, cegos e oprimidos no sentido material ou espiritual, quer nos dois sentidos (esta questão continua se constituindo em veemente debate), as boas novas por ele proclamadas foram certamente de “liberdade” ou “libertação”. Mais tarde, em seu ministério público, ele acrescentou a promessa: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E daí o apóstolo Paulo tornou-se o defensor da liberdade cristã e escreveu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão”. Para aqueles que consideram “salvação” um jargão religioso e desprovido de sentido, ou mesmo algo embaraçoso, “liberdade” é um excelente substituto. Ser salvo por Jesus Cristo é ser libertado.
Terceiro, liberdade é uma palavra muito mal interpretada. Mesmo aqueles que falam mais alto e há mais tempo acerca da liberdade nem sempre param antes para definir de que é que estão falando. Um bom exemplo é o do orador marxista que, plantado numa esquina, discursava com eloquência sobre a liberdade que todos haveríamos de desfrutar depois da revolução. “Quando nós conseguirmos a liberdade”, exclamava ele, “todos vocês poderão fumar cigarros como aquele ali”, disse, apontando para um opulento cidadão que ia passando.
“Eu prefiro meu cigarro de palha”, gritou um gozador.
“Quando formos libertados”, continuou o marxista, ignorando a interrupção e esquentando mais o assunto, “todos vocês poderão andar num carro daqueles”, e apontou para um suntuoso Mercedes que ia passando.
“Eu prefiro minha bicicleta”, gritou o perturbador. E assim o diálogo continuou, até que o marxista, não suportando mais as gozações, voltou-se para o homem e disse: “Quando formos livres, você só fará aquilo que lhe mandarem!”
O aspecto negativo: libertação de
Mas, então, o que é liberdade? Uma verdadeira definição tem que começar com o lado negativo. Temos que identificar as forças que nos tiranizam e que, portanto, inibem a nossa liberdade. Somente então conseguiremos compreender como é que Cristo pode nos libertar.
Primeiro, Jesus Cristo nos oferece libertação da culpa. Nós deveríamos ser gratos pela reação generalizada contra a insistência de Freud de que os sentimentos de culpa são sintomas patológicos de doença mental. Alguns deles com certeza o são, especialmente em certos tipos de enfermidade depressiva; mas nem toda culpa é falsa. Pelo contrário, cresce cada vez mais o número de psicólogos e psicoterapeutas contemporâneos que, mesmo não professando a fé cristã, nos dizem que precisamos levar a sério as nossas responsabilidades. O falecido Dr. Hobart Mowrer, da Universidade de Illinois, por exemplo, entendia a vida humana em termos contratuais e via o “pecado” como uma quebra de contrato que deve receber uma reparação. A Bíblia certamente sempre enfatizou, tanto as nossas obrigações como seres humanos, como a nossa falha ao deixarmos de cumpri-las. Nós, em particular, temos buscado afirmação colocando-nos contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do nosso próximo. Usando uma linguagem cristã bem direta, nós, além de pecadores, somos também pecadores culpados, e a nossa consciência nos diz isso. Conforme uma das piadas de Mark Twain, “o homem é o único animal que fica envergonhado – ou que precisa fazê-lo”.
Agora, ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se cu não tivesse certeza da misericórdia e do perdão de Deus, não conseguiria olhar ninguém nos olhos, e muito menos a Deus (o que é mais importante). Eu iria querer fugir e esconder-me, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden. Afinal, foi no Éden, e não em Watergate, que inventaram pela primeira vez o estratagema chamado “esconder”. Eu com certeza não seria livre. Um pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente sinceridade na televisão, Marghanita Laski, uma das mais conhecidas humanistas e novelistas seculares, declarou: “O que eu mais invejo em vocês, cristãos, é o perdão que vocês têm. Mu não tenho ninguém para me perdoar.”
“Mas”, como os cristãos bem que gostariam de gritar de cima dos telhados, fazendo eco ao salmista penitente, “em Deus está o perdão”, pois ele, em seu amor por pecadores como nós, veio participar do nosso mundo na pessoa de seu Filho. Tendo vivido uma vida de perfeita retidão, ele, na sua morte, identificou-se com os injustos. Levou o nosso pecado, a nossa culpa, a nossa morte em nosso lugar, a fim de que fôssemos perdoados.
A liberdade, portanto, começa com o perdão. Lembro-me de um estudante de uma universidade no norte da Inglaterra, que havia sido criado no espiritismo, mas fora levado por um colega a uma reunião cristã, onde ouviu o evangelho. No fim-de-semana seguinte começou uma intensa batalha pela sua alma, até que (como ele escreveria mais tarde) ele gritou em desespero para que Jesus Cristo o salvasse. Então, continuou ele, “Jesus realmente veio a mim. Eu senti um amor verdadeiro, real – nem dá para descrever. Era pura beleza e serenidade. E apesar do fato de que eu nada sabia acerca de salvação e pecado, e nem mesmo sabia o que significava isso, eu simplesmente soube que estava perdoado… Eu estava incrivelmente feliz!”
Segundo, Jesus Cristo nos oferece libertação do nosso ego. Certa vez, conversando com uns crentes judeus, Jesus lhes disse: “Se vós permanecerdes nas minhas palavras, sois verdadeiramente meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Na mesma hora eles ficaram indignados. Como é que ele ousava dizer que eles precisavam de algum tipo de libertação? “Somos descendência de Abraão”, eles retrucaram, “e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?”
Jesus replicou: “Em verdade, em verdade vos digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado.”
Portanto, se a culpa é o primeiro tipo de escravidão do qual precisamos ser libertados, o segundo é o pecado. E o que significa isto? Assim como “salvação”, “pecado” é uma palavra que pertence ao vocabulário tradicional cristão. “Eu não sou pecador”, diz a maioria das pessoas, pois elas parecem associar pecado com crimes específicos e sensacionais, como matar, adulterar ou roubar. Mas “pecado” tem uma conotação muito mais ampla do que isso. Eu mesmo me recordo de quão revelador foi para mim descobrir, especialmente através dos ensinamentos de William Temple, que o que a Bíblia quer dizer com “pecado” é, antes de tudo, egocentrismo. Afinal, os dois grandes mandamentos de Deus são, primeiro, que o amemos com todo o nosso ser; e, segundo, que amemos o nosso próximo como a nós mesmos. Pecado é, portanto, inverter essa ordem. É colocar a nós mesmos em primeiro lugar, virtualmente proclamando nossa própria autonomia, depois o nosso próximo, segundo a nossa conveniência, e depois, então, Deus, em algum lugarzinho lá nos bastidores.
O egocentrismo é um fenômeno presente em toda a experiência humana. Isto se evidencia na rica variedade de palavras da nossa língua que incluem o componente “ego” ou “auto”. Quantas delas carregam em si um sentido pejorativo ou negativo? Egoísmo, egolatria, autoafirmação, autoacusação, autoagressão, auto piedade, autocomiseração, autodestruição, autoindulgência, auto¬promoção, autopunição, autossuficiência…
Além do mais, nosso egocentrismo é de uma tirania terrível. Malcolm Muggeridge costumava falar e escrever a respeito do “calabouçozinho escuro que é o meu próprio eu”. E que escuridão tem esse calabouço! Deixar-se absorver nos próprios interesses e ambições egoístas, sem qualquer consideração pela glória de Deus ou pelo bem-estar dos outros, é estar confinado na mais intrincada e insalubre das prisões.
Mas Jesus Cristo, que ressurgiu dentre os mortos e está vivo, pode nos libertar. Nós podemos conhecer “o poder da sua ressurreição”. Ou, colocando a mesma verdade em outras palavras, o Jesus que vive pode, através do seu Espírito, impregnar a nossa personalidade e virar-nos do avesso. Não que nós sejamos perfeitos, é claro; só que, pelo poder do seu Espírito que habita em nós, pelo menos já começamos a experimentar uma transformação do eu para o não-eu. Nossa personalidade, antes fechada em si mesma, começa a abrir-se para Cristo, assim como uma flor se abre para o sol nascente.
Em terceiro lugar, Jesus Cristo nos oferece libertação do medo. O velho mundo para o qual ele veio vivia atemorizado pelos poderes que, conforme se acreditava, habitavam as estrelas. Ainda hoje a religião tradicional de povos tribais primitivos é assombrada por espíritos malignos que precisam ser aplacados. A vida de homens e mulheres de hoje é igualmente atormentada pelo medo, desde os medos comuns que sempre afligiram os seres humanos — medo da doença, do luto, da velhice e da morte — até o medo do desconhecido, do oculto e da extinção nuclear. A maioria de nós também já sofreu algumas vezes de medos irracionais, e é impressionante ver quanta gente educada alimenta medos supersticiosos. Batem três vezes na madeira, cruzam os dedos, carregam amuletos e recusam-se a sentar na poltrona de número 13 porque dá azar… É por isso que em muitos hotéis nos Estados Unidos não existe o décimo-terceiro andar. Ao subir no elevador, se você observar o painel iluminado, verá que os números pulam de 10, 11, 12 para 14. As pessoas são tão supersticiosas para dormir no andar número 13 que não se dão conta de que aquele continua sendo o décimo-terceiro andar, mesmo que o tenham denominado de décimo-quarto! Já na Inglaterra, de acordo com uma recente pesquisa de opiniões, embora nove décimos da população ainda acredite em algum tipo de Deus, o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia.
Todo medo traz consigo uma dose de paralisia. Ninguém que tenha medo é livre. Além do mais, o medo é como o fungo: cresce mais rapidamente no escuro. É essencial, portanto, trazer à luz os nossos medos e olhar para eles, especialmente à luz da vitória e supremacia de Jesus Cristo. Afinal de contas, aquele que morreu e ressuscitou foi também exaltado à mão direita de Deus Pai, e tudo foi posto “debaixo de seus pés”. Portanto, onde estão as coisas que antes temíamos? Elas estão debaixo dos pés de Cristo, o Cristo triunfante! Quando nós as enxergamos ali, então o poder que elas tinham de nos aterrorizar é destruído.
Medo e liberdade são mutuamente incompatíveis. Para mim, isso foi bem ilustrado certa vez por um jovem palestrante africano. Tínhamos andado discutindo sobre a necessidade de os cristãos se interessarem mais pela História Natural como sendo criação de Deus. “Antes de me tornar um cristão”, disse ele, “eu tinha medo de muitas coisas — principalmente de cobra. Mas agora acho difícil matar uma cobra, pois gosto de ficar olhando para elas. Graças a Deus, agora sou livre de verdade.”

O aspecto positivo: liberdade para
Até aqui nós estabelecemos uma relação entre as tiranias que impedem a nossa libertação e os três principais eventos da experiência de Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e exaltação. Há libertação da culpa porque ele morreu por nós; libertação do ego porque podemos viver na força da sua ressurreição; e libertação do medo porque ele reina, com todas as coisas debaixo de seus pés.
É, no entanto, um equívoco muito sério definir liberdade em termos inteiramente negativos, embora o dicionário cometa este engano. Segundo o dicionário, liberdade é “supressão ou ausência de toda a opressão considerada anormal, ilegítima, amoral”, enquanto que livre é aquele “que pode dispor de sua pessoa; que não está sujeito a algum senhor (por oposição a servil, escravo). Que não está privado de sua liberdade física; que não está prisioneiro; solto”. Mas tudo que é negativo tem o seu lado positivo. O verdadeiro grito de liberdade clama não somente por resgate de alguma tirania, mas também por liberdade para viver uma vida plena e significativa. Quando um país é libertado de um regime colonialista, torna-se livre para descobrir e desenvolver sua própria identidade nacional. Quando a imprensa é libertada do controle e da censura do governo, torna-se livre para publicar a verdade. E uma minoria racial, quando é libertada da discriminação, fica livre para desfrutar de respeito e dignidade própria. Afinal de contas, quando um país não é livre, o que lhe é negado é o direito de ser nação; quando não há liberdade de imprensa, o que se lhe nega é a verdade; e quando uma minoria não é livre, o que lhe é negado é o respeito próprio.
Qual é, então, a liberdade positiva dos seres humanos? Em 1970 Michael Ramsey pregou na Universidade de Cambridge uma série de quatro sermões, que foram posteriormente publicados sob o título A Liberdade, a Fé e o Futuro. No primeiro ele apresentou a questão: “Nós sabemos de que queremos libertar os homens. Será que sabemos para que queremos libertá-los?” E passou a responder a sua própria pergunta. Nossa luta por aquelas liberdades “que mais sensivelmente agitam nossos senti¬mentos” (por exemplo, ser libertos da perseguição, da prisão arbitrária, da fome e da pobreza destruidoras) deveria sempre se situar “no contexto da questão mais radical e revolucionária, isto é, que o homem seja liberto do seu ego e para a glória de Deus.”
A questão que precisamos perseguir é esta: para que é que Cristo nos liberta? Eis aqui o princípio: a verdadeira liberdade é a liberdade para sermos nós mesmos, tal como Deus nos criou e como ele tencionava que nós fôssemos. E como se pode aplicar este princípio?
Vamos começar com o próprio Deus. Você já pensou no fato de que Deus é o único ser que goza de perfeita liberdade? Até se poderia argumentar que Deus não é livre. Afinal, o certo é que a liberdade dele não é absoluta, no sentido de poder fazer absolutamente qualquer coisa. A Escritura nos diz que ele não pode mentir, tentar ou ser tentado, nem pode tolerar o mal. Não obstante, a liberdade de Deus é perfeita, no sentido de que ele é livre para fazer absolutamente qualquer coisa que ele queira. A liberdade de Deus é liberdade para ser sempre inteiramente ele mesmo. Deus nada tem de arbitrário, taciturno, inconstante ou imprevisível. Ele é constante, estável, imutável. De fato, a coisa principal que a Escritura nos diz que ele “não pode” fazer (não pode porque nunca o fará) é contradizer-se. “Ele não pode negar-se a si mesmo.” Fazê-lo seria, não liberdade, mas autodestruição. A liberdade de Deus reside no fato de ser ele mesmo, assim como ele é.
E o que acontece com Deus, o Criador, também acontece com todas as coisas e seres criados. Liberdade absoluta, liberdade ilimitada, é pura ilusão. Se isso é impossível para Deus (como de fato o é), mais impossível ainda é para a criação de Deus. A liberdade de Deus é liberdade para ser ele mesmo; nossa liberdade é liberdade para sermos nós mesmos. A liberdade de toda criatura é limitada pela natureza que Deus lhe deu.
O peixe, por exemplo. Deus criou os peixes para viverem o se desenvolverem na água. Suas guelras são adaptadas para absorver o oxigênio da água. A água é o único elemento em que o peixe pode ser peixe, encontrar sua identidade de peixe, sua realização, sua liberdade. Uma liberdade que se limita à água, é verdade; dentro dessa limitação, porém, ela é liberdade. Suponhamos que você tenha em casa um peixe tropical. Ele vive, não num desses tanques retangulares arejados e modernos, mas num daqueles velhos aquários redondos e antiquados. E lá está o seu peixinho, nadando de um lado para outro no seu bendito aquário, até que, quando a sua frustração se torna insuportável, ele decide apostar na liberdade e salta para fora do seu confinamento. Se por acaso ele conseguir pular dentro de uma poça no seu jardim, aumentará sua liberdade. Continua sendo água, só que ali tem ainda mais água para ele nadar. Agora, se ele aterrissar no carpete ou no cimento, aí a sua tentativa de escapar acabará dando, não em liberdade, mas em morte.
E os seres humanos? Se os peixes foram feitos para a água, os seres humanos foram feitos para quê? Eu acho que a nossa resposta é a seguinte: se a água é o elemento em que os peixes se encontram como peixes, então o elemento em que os humanos se encontram como humanos é o amor, as relações de amor. Morris West dá-nos um exemplo impressionante disto em seu livro Filhos do Sol, que conta a história dos scugnizzi, os meninos de rua abandonados de Nápoles, e do amor de Frei Mário Borelli por eles. “Existe em nós (os napolitanos) uma coisa que nunca muda”, disse Mário para Morris. “Nós necessitamos tanto de amor quanto um peixe necessita de água, ou uma ave de ar.” E então explicou que cada um dos scugnizzi que ele conhecia “tinha saído de casa porque não havia mais amor para ele”.
Mas não são apenas as crianças de rua do mundo que necessitam amar e ser amadas, e que descobrem que vida significa amor. Todos nós somos assim. É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é preciso ir muito longe para buscar a razão para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando ele nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aos outros, pois é esse o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwell, poeta católico romano do século XVI: “Não quando eu respiro, mas sim quando eu amo, aí é que eu vivo.” Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
O verdadeiro amor, no entanto, impõe restrições ao amante, pois o amor é essencialmente auto doador. E isto nos leva a um surpreendente paradoxo cristão. A verdadeira liberdade é a liberdade para ser eu mesmo, assim como Deus me fez e como ele pretendia que eu fosse. E Deus me fez para amar. Mas amar é dar, é autodoação. Portanto, para ser eu mesmo, eu tenho que negar-me a mim mesmo e doar-me. Para ser livre eu tenho que servir. Para viver, eu tenho que morrer para o meu próprio egocentrismo. E, para encontrar-me, tenho que esbanjar-me em dar amor.
A verdadeira liberdade é, pois, exatamente o oposto do que muita gente pensa. Não é ser livre de toda a responsabilidade que tenho para com Deus e os outros, a fim de viver para mim mesmo. Isto é ser escravo do meu próprio egocentrismo. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a libertação do meu tolo e diminuto ego, a fim de viver responsavelmente em amor a Deus e aos outros.
Mas a mente secular não consegue captar este paradoxo cristão da liberdade através do amor. Por exemplo, a novelista francesa Françoise Sagan deu uma entrevista pouco antes de completar cinquenta anos, em 1985. Ela disse que estava perfeitamente satisfeita com sua vida e que nada tinha a lamentar.
“Você teve a liberdade que queria?”
“Sim”, disse ela, esclarecendo sua declaração: “Naturalmente, eu sempre era menos livre quando estava apaixonada por alguém…, Mas não se vive apaixonada o tempo todo. A não ser por esse tempo… Sou livre, sim.”
A implicação é clara: o amor inibe a liberdade. Quanto mais se ama, menos livre se é, e vice-versa. Presume-se, portanto, que para ser completamente livre é preciso evitar as complicações do amor, ou seja, o jeito é desistir completamente de amar.
Mas Jesus ensinou exatamente o contrário em um de seus epigramas favoritos, que ele parece ter citado em diferentes formas e contextos. “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á”, disse ele; “e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á.” Eu achava que Jesus estivesse se referindo a mártires que dão a vida por ele. E o princípio que ele estava enunciando certamente inclui a estes. Mas a “vida” de que ele está falando, que tanto pode ser salva como perdida, não é a nossa existência física (zoe), mas a nossa alma ou ego (psyche) usada não poucas vezes em lugar do reflexivo referente à primeira pessoa (“me/mim”). Poderíamos então parafrasear o epigrama de Jesus nos seguintes termos: “Se você insiste em apegar-se a si mesmo e em viver para si mesmo, recusando-se a desligar-se do seu eu, você está perdido. Mas se estiver disposto a doar-se em amor, então, no momento do completo abandono, quando você pensar que tudo está perdido, acontecerá o milagre e você encontrará a si e à sua liberdade.” Só o serviço sacrificial, o dar-se a si mesmo em amor a Deus e aos outros, é que é a perfeita liberdade.
A verdadeira liberdade, portanto, combina o negativo (libertação de) com o positivo (liberdade para). Ou, dito de uma outra forma, ela concilia a libertação da tirania com a liberdade submetida à autoridade. Jesus ilustra isto num dos seus mais conhecidos convites:
Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
Existem aqui, na verdade, dois convites, ligados a uma única promessa. A promessa é “descanso”, que parece abranger a ideia de libertação. “Eu vos aliviarei”, diz Jesus (versículo 28). E acrescenta: “Achareis descanso para as vossas almas” (versículo 29). Mas a quem ele promete descanso? Primeiro, àqueles que vêm a ele “cansados e sobrecarregados”, pois ele tira os seus fardos e os liberta. Depois, ele dá descanso àqueles que tomam sobre si o seu jugo e aprendem dele. Assim, o verdadeiro descanso se encontra em Jesus Cristo, nosso Salvador, que nos liberta da tirania da culpa, do ego e do medo, e em Jesus Cristo, nosso Senhor, quando nos submetemos a sua autoridade e ensino. Afinal, o seu jugo é suave, o seu fardo é leve e ele mesmo é “manso e humilde de coração”.

 

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Déjá-vu.2

DÈJÁ-VU: MOMENTOS REVISITADOS

De repente temos a impressão de já termos vivido algo – e a sensação é, quase sempre, de estranhamento; neurologistas e psicólogos tentam compreender esse misterioso fenômeno de percepção temporal.

Você se recosta confortavelmente na cadeira, sobre a mesa {a sua frente há uma xícara de café fumegante. Uma mosca aproxima-se da colher na qual estão grudados alguns cristais de açúcar. Você folheia uma revista e para em um artigo sobre déjá-vu. E de repente, tem a impressão de que já esteve sentado nesse lugar, exatamente nessa cadeira, com esse gosto doce-amargo de bebida na boca; “lembra-se” até da mosca. Você sabe que já leu antes, com um leve desconcerto, essas mesmas linhas impressas. Mas quando foi isso? Será possível? Esse tipo de experiência de déjá-vu, a sensação difusa de já ter vivido uma situação exatamente da mesma forma é comum. A maioria das pessoas pode relatar pelo menos uma experiência desse tipo. Apesar de, durante um déjá-vu, o acontecimento nos parecer extremamente conhecido, falta-nos a lembrança concreta de quando a vivenciamos.
Alguns, nesse momento, sentem o próprio corpo e o ambiente ao redor como irreais, uma espécie de sonho. Há os que relatam ter visto tudo como se fosse através de um véu ou que olham a si mesmos pela perspectiva de um observador externo. O sentimento de poder prever com exatidão o que vai acontecer no momento seguinte também não costuma ser raro. E, vez por outra, um lugar é estranhamente reconhecido por uma pessoa, apesar de ela ter certeza de nunca ter estado lá.
Por isso, em diferentes culturas, desde tempos imemoriais os déjà-vu são considerados indícios da existência de vidas passadas e “provas” de reencarnação ou para normalidade.

NÃO É ALUCINAÇÃO
“O estudo metodológico do fenômeno é difícil de ser estruturado, uma vez que ocorre repentinamente e de forma rara. Assim, os pesquisadores quase sempre têm de confiar na memória dos voluntários que participam de seus experimentos quando eles relatam o fenômeno”, diz o professor Uwe Wolfradt, do Instituto de Psicologia da Universidade Martin, em Halle-Wittemberg, e pesquisador do tema. Segundo ele, é importante diferenciar essa experiência de distúrbios com os quais possa ser confundida. Enquanto as alucinações, por exemplo, são percepções não associadas a estímulos externos, as imagens no déjà-vu são sempre reais. A ilusão consiste no fato de que, por um curto instante, algo desconhecido desencadeia uma sensação de familiaridade. Já o fausse reconnaissance (o falso reconhecimento) – antigamente considerado um sintoma do fenômeno – também não pode ser confundido com ele, mas surge frequentemente durante uma fase esquizofrênica e pode durar horas, enquanto déjà-vus, em geral, duram alguns segundos.
Um caso muito interessante relatado em 2003 por cientistas japoneses apresenta forte semelhança com o déjà-vu: um rapaz com epilepsia do lobo temporal tinha certeza de sempre reviver vários anos de sua vida, até mesmo seu casamento. Angustiado, ele tentou suicídio várias vezes para escapar das repetições infinitas. Segundo os estudiosos, a situação diferencia-se de experiências de déjà-vu em um ponto fundamental: enquanto naquele caso o jovem insistia já ter vivido experiências exatamente iguais, em um déjà-vu a pessoa logo considera a sensação de reconhecimento como ilusória e insensata.
Uwe Wolfradt coordenou uma pesquisa na qual foram entrevistados 220 estudantes da Universidade de
Halle-Wittenberg e constatou que aproximadamente 80% disseram acreditar que, durante um déjà-vu, provavelmente estavam lembrando inconscientemente de um aconteci­ mento do qual se haviam esquecido. Essa noção lembra a ideia de Sigmund Freud (1856-1939) de que déjà-vus resultam do desejo de recapitular eventos reprimidos e elaborá-los, ou seja, aparecem como um mecanismo de defesa contra experiências traumáticas. A psicologia cognitiva também traz à tona processos inconscientes, os processos da memória implícita (ou não declarativa), para explicar o déjà-vu. Essa teoria ressalta que podemos ter a sensação de que uma pessoa, um local, um objeto ou um acontecimento nos são familiares mesmo quando já experimentamos apenas um aspecto determinado deles – como um odor característico – em outro contexto.
“Suponhamos que você veja um velho armário em uma feira de usados e, de repente, toda a situação lhe pareça conhecida, mas você já não se lembre de uma coisa: quando ainda era criança, havia um armário muito parecido “Na casa dos seus avós”, exemplifica Wolfradt. Esse elemento unitário esquecido – no caso do exemplo o armário – desencadeia uma sensação mais ampla de familiaridade, que é transferida para toda a “composição”.

VARIAÇÕES DE HUMOR
Por fim, algumas suposições também se baseiam no processamento inconsciente de informações, afirmando que falhas de atenção seriam as responsáveis pelo déjà-vu: ao dirigir um carro, por exemplo, você se concentra no transito. Vê uma senhora idosa que está na calçada, mas não a registra conscientemente. Um instante depois tem de parar no semáforo e há tempo para olhar em volta com calma. Nesse momento, a senhora que caminha com dificuldade apoiada em sua bengala lhe parece estranhamente familiar, apesar de você achar que jamais a viu antes. Expresso de forma generalizada, nessa situação, a primeira percepção sob distração é imediatamente seguida de uma segunda com atenção total. A informação pouco antes interiorizada inconscientemente é erroneamente interpretada como lembrança.
Estudos sobre percepção subliminar fornecem suporte empírico para essa hipótese. Em 1989, o psicólogo Lany L. Jacoby, da Universidade de Washington, em St. Louis, mostrou aos participantes da pesquisa que conduzia uma palavra em um monitor durante tempo tão curto que eles mal puderam percebe-la. Mais tarde, porém, declararam com mais frequência, durante uma nova apresentação da mesma palavra, que já a haviam visto antes. O processamento inconsciente de estímulos subliminares faz com que informações posteriores semelhantes sejam processadas mais rapidamente – um procedimento nominado priming (preparação).
Essa e outras hipóteses sobre a atenção impressionam principalmente porque são bastante adequadas às circunstâncias que acompanham o déjà-vu. Já no início do século passado, o holandês Gerhar Heymans, pioneiro da psicologia em seu país, realizou um estudo com 42 estudantes. Ele lhes pediu que, durante seis meses, preenchessem um questionário curto imediatamente após uma experiência de déjà-vu. Assim, descobriu que pessoas que sofrem de variações de humor, enfrentam fases de apatia ou têm um ritmo de trabalho irregular são as mais afetadas por essas ilusões da memória.
Vários autores associam os déjà­vus a um grande volume de viagens, variações de fuso horário, intenso cansaço e stress. Num estudo desenvolvido por Wolfradt, da Universidade de Halle-Wittenberg, no entanto, aproximadamente 46% dos estudantes se lembravam de estar mais tranquilos na ocasião do fenômeno; cerca de um terço chegou mesmo a descrever seu estado de espírito como alegre. Provavelmente, o déjà-vu não é desencadeado imediatamente no momento da tensão, quando permanecemos extremamente atentos, mas depois, quando estamos cansados – e relaxamos. Porém, também são plausíveis outras circunstâncias nas quais nós, por um curto período, não percebemos mais nosso entorno conscientemente. “Um de nossos estudos com mais de 300 universitários mostrou, por exemplo, que déjà-vus estão fortemente relacionados à capacidade de mergulhar em fantasias e na imaginação. Hoje os déjà-vus estão incluídos entre os distúrbios da memória, mas nada indica que pessoas que os experimentam com frequência sofram de algum distúrbio”, afirma Wolfradt.
O pesquisador salienta que os fundamentos neuronais do fenômeno ainda são conhecidos apenas de forma fragmentada. Durante muito tempo, foi bastante popular a ideia de que sua causa era a transmissão neural atrasada. Naturalmente, nos mais altos centros de processamento do cérebro, as informações ambientais vindas de diferentes regiões precisam ser fundidas a qualquer momento em uma impressão coerente. Seria, portanto, muito possível que atrasos em um dos caminhos de transmissão provocassem grande confusão – e talvez um déjà-vu.
Em 196 3, o pesquisador Robert Efron, à época no Hospital Administrativo dos Veteranos em Boston, Massachusetts, levantou polêmica com a hipótese de que o hemisfério cerebral esquerdo, mais especificamente o lobo temporal, seria responsável pela organização das percepções temporais. Ali, todas as imagens que o cérebro recebe por meio da visão chegariam duas vezes, consecutivamente, com um intervalo de poucos milissegundos – uma vez diretamente, e outra com um desvio pelo hemisfério direito. Se a transmissão indireta se atrasasse por algum motivo, então o lobo temporal esquerdo perceberia a diferença interpretando a cena, na segunda vez, com o algo que já teria ocorrido.

CONEXÃO COM EPILEPSIA
A ideia básica de Efron da dupla percepção até hoje não foi refutada – nem comprovada. O que se sabe é que os lobos temporais têm um papel importante nesse processo. Pacientes com algum dano nessa região relataram frequentes experiências de déjà -vu. O mesmo ocorreu com pessoas que sofriam de epilepsia, e o foco epiléptico encontrava-se no lobo temporal. Desde então, alguns estudiosos supuseram que os déjà-vus fossem nada menos que mini acessos para o cérebro. Quando um grupo de pesquisado res, coordenado pelo neurocirurgião Wilder Penfield (1891-1976), em Montreal, estimulou eletricamente o cérebro aberto de seus pacientes epilépticos durante uma operação, em 1959, alguns deles relataram experiências de déjà-vu. O neurofisiologista Jean Bancaud (1921-1993) e seus colegas do Centro Paul Broca, em Paris, fizeram um relato semelhante em 1994: a estimulação do lobo temporal lateral ou medial desencadeou, ocasionalmente, “estados oníricos”, entre os quais o déjà-vu está incluído.
Apesar de ser questionável o quanto a experiência induzida artificialmente se assemelha às naturais, as descobertas são plausíveis: afinal, o lobo temporal medial participa comprovadamente da memória declarativa e consciente. Fazem parte dele não apenas o hipocampo, que nos ajuda a memorizar eventos episódicos, fazendo com que possamos revivê-los mentalmente mais tarde, como se fosse um filme, mas também o córtex para-hipocampal e o rinal, assim como as amígdalas e o lobo temporal médio.
Há cerca de uma década o pesquisador John D. E. Gabrieli, da Universidade Stanford, apresentou na Science resultados que sugerem que o córtex para-hipocampal e o hipocampo cumprem diferentes funções no processo da memória: enquanto o último permite a lembrança consciente de vivências, o outro poderia distinguir entre estímulos conhecidos e não conhecidos, sem obrigatoriamente recorrer a uma lembrança concreta. Com base nessa tese, Josef Spatt, do Instituto Ludwig Boltzmann, em Viena, formulou em 2002 a hipótese de que um déjà-vu surge quando o para-hipocampo desencadeia uma sensação de familiaridade sem que haja participação do hipocampo. Justamente nesse instante, uma cena momentaneamente percebida poderia ser entendida como conhecida, mesmo que não houvesse uma clara referência temporal.
Wolfradt observa que, provavelmente, diversas regiões cerebrais participam do déjà-vu: a intensiva sensação de estranhamento de si mesmo e da realidade, por exemplo, assim como a noção de tempo, às vezes alterada, indicam complexos processos conscientes. “Durante essa experiência, duvidamos da realidade por uma fração de segundo. Por outro lado, essa pequena falha possibilita aos neurocientistas uma olhada nos processos do consciente”, diz o pesquisador. Ele acredita que o aprofundamento das pesquisas sobre o tema ajudem não apenas a explicar como surgem distúrbios de memória, mas também como o cérebro consegue produzir uma imagem contínua da realidade.

MEMÓRIAS FABRICADAS
Ao longo dos séculos, filósofos, psicólogos e até especialistas em para normalidade formularam teorias para explicar o déjà-vu. A mais recente descoberta científica sobre o fenômeno foi publicada na revista New Scientist, em 2006. A pesquisa realizada por uma equipe de cientistas da Universidade de Leeds, na Inglaterra, tentou provocar, de modo artificial, a sensação de já ter vivido determinada experiência em voluntários. Os cientistas mostraram a eles 24 palavras associadas à cor vermelha, em seguida os induziram a um estado alterado de consciência, semelhante à hipnose, e disseram aos participantes que, quando estivessem diante de uma palavra em uma moldura vermelha, “a sentiriam como sendo familiar, embora não soubessem quando foi a última vez que a viram”. Mas se vissem uma palavra em uma moldura verde, eles pensariam que ela pertencia à lista original de 24 palavras. Em seguida, os voluntários foram tirados do estado de hipnose e expostos a uma série de palavras em molduras de cores variadas. Algumas não pertenciam à lista original de 24 palavras, outras estavam em molduras verdes ou vermelhas. Dez voluntários disseram ter experimentado uma “estranha sensação” quando viram novas palavras em vermelho, e outros cinco afirmaram que a impressão definitivamente se parecia com um déjà-vu. Os resultados sugerem que o fenômeno pode ser provocado de forma independente, sem que haja memória real para acioná-lo. Essa é uma novidade, já que outros estudos enfatizavam a necessidade da existência de lembranças anteriores que pudessem ser “revividas”.

DÉJÁ-VU

CONCEITOS-CHAVE
A expressão déjà-vu, em francês, “já visto antes”, foi utilizada pela primeira vez em 1876, por Emile Boirac (1851-1917). Provavelmente, foi inspirada no poema “Kaléidoscope”, do francês Paul Verlaine (1844-1896); o autor, no entanto, utilizou a expressão déjà vecu, já vivido antes.
Em 1896, o médico F. L. Arnaud adotou a expressão e passou a usá-la no campo científico. Dados sobre quantas pessoas têm déjà-vus variam de estudo a estudo. A maioria costuma se lembrar de pelo menos um episódio em sua vida. O fenômeno está entre as mais frequentes formas de paramnésia, dentre as quais se incluem distúrbios de memória como lembranças adulteradas, ilusões e alucinações.
Com o aumento da idade, os déjà-vus costumam ser cada vez menos relatados. Talvez o fenômeno realmente não ocorra mais com tanta frequência nas fases mais tardias da vida. Mas, provavelmente pessoas mais velhas prestem menos atenção neles ou os esqueçam mais facilmente.

GESTÃO E CARREIRA

robos

SEU COLEGA É UM ROBO

Pesquisas mostram que quase 50% dos empregos existentes hoje devem ser ocupados por inteligências artificiais nos próximos 20 anos. Conheça as profissões em que isso já é realidade

A inteligência das máquinas estará em pé de igualdade com a dos humanos até 2050.Essa previsão perturbadora foi feita por especialistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, com base em pesquisas recentes sobre o futuro do trabalho realizadas pelos professores Fei-Fei Li e Vivek Vadhwa. Embora ainda exista um longo caminho pela frente – atualmente, só 5% das atividades podem ser inteiramente substituídas por tecnologia -, a Quarta Revolução Industrial, como os economistas denominam essa fase de convergência do mundo real com o virtual, está em andamento e tende a ser rápida: a consultoria americana McKinsey calcula que 60% das funções já poderiam ter pelo menos um terço de suas atividades automatizadas. E um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que examinou 700 profissões, concluiu que quase metade dos empregos nos Estados Unidos (47%) deve ser informatizada nos próximos 20 anos. Postos nas áreas de transporte, logística e apoio administrativo, por exemplo, correm alto risco de automação. Ocupações mais operacionais dentro da indústria também são altamente suscetíveis.A tendência é que os trabalhadores menos qualificados se movam para tarefas resistentes à informatização, ou seja, trabalhos que exijam inteligência criativa e social. Para isso, haverá a necessidade de uma mudança na educação e de aumento da capacitação”, diz Carl Benedikt Frey, um dos responsáveis pela pesquisa. Grande parte dessa transformação já começou a acontecer. Prova disso é que, enquanto a produção industrial americana está em seu ponto mais alto, o volume de empregos no setor é menor do que na década de 40 e os salários para os funcionários de chão de fábrica estão praticamente estagnados desde 1970. Segundo análises do Fundo Monetário Internacional, o progresso tecnológico tem contribuído para o aumento da desigualdade nas últimas décadas.

Mas não são só as profissões braçais ou manuais que estão ameaçadas. Processos inteligentes também serão assumidos por robôs. ” Estamos evoluindo para uma computação cognitiva, menos programática, na qual o sistema pode aprender por si mesmo e abocanhar novas áreas”, diz Cezar Taurion, especialista em TI e CEO da Litteris Consulting, do Rio de Janeiro. Nas instituições bancárias, a inteligência artificial auxilia na extração e no estudo de imagens em caixas eletrônicos, detectando atitudes suspeitas; no setor de seguros, analisa fotos de veículos acidentados, identificando as partes afetadas e o grau de dano; na área militar, está presente em drones armados que tomam decisões sobre efetuar ataques. “Essa evolução vai continuar a substituir diversas funçôes exercidas por pessoas. Tudo o que puder ser automatizado será”, afirma Cezar. Segundo a consultoria PwC, que analisou 150 inovaçôes na pesquisa As Tendências dos Avanços da Tecnologia, inteligência artificial, realidade aumentada, drones, internet das coisas, robôs, realidade virtual e impressão 3D são aquelas que mais vão afetar os negócios até 2020.

Essas notícias, no entanto, não são necessariamente ruins. O desafio será reformular o papel do trabalhador e das carreiras e preparar os profissionais humanos para atuar ao lado das inteligências artificiais, numa relação de complementaridade. Conheça a seguir as profissões de nível superior em que já é possível ter robôs como colegas na cadeira ao lado.

RECURSOS HUMANOS

Bots, sistemas robóticos que percorrem a internet em busca de informação, já estão na área de RH, na qual têm se destacado no recrutamento. No Brasil, o site Vagas Online colocou a serviço dos usuários um robô que inscreve o candidato toda vez que aparece uma oportunidade com seu perfil. O sistema avalia as competências dele, principais conhecimentos e habilidades e, com base nisso, passa a inscrevê-lo nos anúncios compatíveis com suas competências.

FINANÇAS

Clientes das corretoras brasileiras Magnetis Investimentos e Rico já contam com a tecnologia do robô advisor, que atua como consultor de investimentos. Com intervenção humana mínima, a carteira recomendada pelos robôs é resultado de uma série incontável de combinações de dados sobre o desempenho dos ativos com o perfil do investidor, o risco e o tempo que ele está disposto a esperar até realizer sua meta financeira. Experts em matemática e finanças de algumas das maiores universidades do mundo, como MIT e Stanford, programaram o robô, capaz de gerar opçôes personalizadas, com base nas informaçôes preenchidas pelo próprio usuário. Além de realizar um trabalho eficaz e sem conflito de interesses, o robô consegue substituir um grande número de consultores humanos.

 ARQUITETURA

O emprego de alguns arquitetos pode estar em risco com a evolução dos robôs e de softwares como Designed Exterior Studio, Chief Architect, Floorplanner.com, Trimble SketchUp e Sweet Home 30, que ajudam leigos a projetar suas casas. A ferramenta Ply Gern, por exemplo, permite aos interessados escolher um modelo de imóvel virtual e customizer o projeto, fazendo até mudanças estruturais.

Os sistemas possibilitam ao usuário calcular o material necessário para a construção de cada ambiente, além de mapear em detalhes os processos de execução, de forma que os pedreiros consigam compreender o passo a passo, sem a necessidade de um arquiteto.

 ENFERMAGEM

Na área de saude, os enfermeiros já contam com a concorrência dos robôs Hospi-Rimo. Em hospitais de países como Japão e Estados Unidos, esses equipamentos memorizam o mapa dos corredores e quartos e conseguem se deslocar usando um Sistema de rodas: eles buscam remédios e levam aos pacientes na hora exata em que devem ser medicados.

 DIREITO

A fase de pesquisa e coleta de documentos é uma das mais demoradas de uma ação judicial. Mas esse trabalho começa a ser realizado por inteligências artificiais. A Totvs, empresa de software de gestão, fornece um robô jurídico que faz pesquisa de antecedentes, checagem de prazos e contato com as partes envolvidas. A tecnologia também afeta advogados experientes, especializados em fazer a previsão do resultado de processos. Um modelo estatístico com base em algoritmos, criado pela Michigan State University e SouthTexas Collegeof Law, mostrou-se capaz de acertar as decisões de 70%dos casos da Suprema Corte dos Estados Unidos.

 JORNALISMO E PUBLICIDADE

A área de comunicação é uma das mais afetadas pela invasão dos robôs. Milhares de empresas já adotam a compra automatizada de anúncios: em vez de publicitários escolherem os veículos de comunicação mais adequados a uma peça publicitária, os robôs de marketing realizam o trabalho usando um banco de dados que cruza informações sobre o perfil da audiência dos veículos. No jornalismo, há robôs que buscam informações na rede e estruturam textos simplescom base em algoritmos. O canal Ten Big, da emissora americana de televisão Fox, utiliza um software da Universidade de Northwestern para realizar coberturas esportivas pela internet e produzir textos curtos com os resultados das partidas e as principais jogadas. Com isso, os jornalistas são direcionados para coberturas mais complexas.

 MEDICINA

Na área de saude já há robôs que fazem diagnósticos mais velozes e precisos. Um deles é o Watson, da IBM. Ele analisa exames de ressonância magnética e elabora tratamentos personalizados para combater o câncer, por exemplo. No mundo, 20 instituições o utilizam. Na América Latina, o laboratório Fleury Medicina e Saúde conta com o Watson for Genomics, que decifra códigos do genoma humano e ajuda na tomada de decisão médica em casos de doenças crônicas, por exemplo. No Brasil, a robô Laura detecta precocemente casos de sepse, infecção generalizada que mata cerca de 250000 pessoas por ano no país. “O diagnóstico precoce é essencial nesses casos e Laura identifica um paciente em risco em menos de 4 segundos”, diz Jacson Fressatto, especialista em TI que criou a tecnologia após perder a filha, Laura, por sepse. A robô Laura já é utilizada no Hospital Nossa Senhora das Graças, de Curitiba, e o criador pretende instalar a tecnologia em 2600 hospitais filantrópicos do Brasil nos próximos anos.

EDUCAÇÃO

Nas últimas décadas, o trabalho dos professores vem passando por mudanças drásticas, como a digitalização de ferramentas pedagógicas. E há estudos de universidades americanas sugerindo que os algoritmos que personalizam a aprendizagem podem ser mais eficazes do que um professor humano. No Brasil, há algumas iniciativas em andamento, como o robô NAO, que ensina geometria em escolas públicas e particulares de São Carlos (SP). O equipamento foi desenvolvido pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (lCMC), da USP. Apesar de não visar à substituição dos professores, o projeto reforça o potencial do ingresso dos robôs na educação.

 SEGURANÇA E RESGATE

As cenas de filmes como Robocop, em que humanoides ficam responsáveis pela segurança, não estão

tão distantes da realidade. O Exército dos Estados Unidos, por exemplo, já recorre aos robôs Maars (Modular Advanced Armed Robotic System), desenvolvidos pela empresa americana Foster Miller, em zonas de conflito, como o Iraque. Equipados com GPS, eles têm capacidade para abrir fogo e para arrastar corpos feridos. Já o robô Saffir atua como bombeiro nos navios da Marinha americana e é responsável por apagar qualquer sinal de incêndio.

FARMÁCIA

A tecnologia intitulada Robotic Pharmacy Dispensing começou a substituir a presença de farmacéuticos no UCSF Medical Center, nos Estados Unidos, que conta com farmácias robotizadas em dois de seus hospitais. Os computadores recebem os pedidos médicos e os robôs preparam, empacotam e distribuem as doses de medicamentos de cada paciente –          e, assim, eliminam a chance de erro humano. Enquanto isso, no Brasil, hospitais como Sírio-Libanês e Albert Einstein, ambos em São Paulo, adotaram tecnologia similar à dos Estados Unidos e já contam com farmácias com processos robotizados que reduzem a necessidade de farmacêuticos e funcionários. A ideia é agilizar processos, aumentar a segurança dos pacientes e também diminuir o desperdício.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

O que a Bíblia me ensinou

O PARADOXO HUMANO

Duas vezes no Antigo Testamento levanta-se a ques­tão “O que é o homem?” (isto é, “O que significa ser humano?”), e duas vezes ela é respondida. E em ambas as ocasiões a indagação expressa surpresa, c até incredulidade, pelo fato de Deus prestar tanta atenção a sua criatura humana. Afinal de contas, nós somos insignificantes em comparação com a vastidão do universo, como também impuros em contraste com o brilho das estrelas — não passamos de “insetos” e “vermes”.

Há pelo menos três razões principais para a importância desta questão.

Pessoalmente falando, perguntar “O que é o homem?” é uma outra forma de indagar “Quem sou eu?”. Só assim nós podemos dar uma resposta ao antigo adágio grego gnothi seauton, “conhece-te a ti mesmo”, e à preocupação moderna ocidental com a descoberta de nosso próprio eu. Não existe área mais importante a ser buscada ou pesquisada do que a nossa identidade pessoal. Afinal, enquanto não nos encontrarmos a nós mesmos, nós nem podemos des­cobrir plenamente qualquer outra coisa, nem podemos crescer em maturidade pessoal. O clamor universal é “Quem sou eu?” e “Será que eu valho alguma coisa?”

Conta-se que certo dia Arthur Schopenhauer, o filósofo do pessimismo, estava sentado no Tiergarten, em Frank­furt, meio desgrenhado e maltrapilho, quando o guarda do parque, confundindo-o com um vagabundo, perguntou-lhe rudemente: “Quem é você?” A esta indagação, o filósofo replicou amargamente: “Por Deus, como eu gostaria de saber!”

Profissionalmente, qualquer que seja o nosso trabalho, nós sempre estamos de alguma forma servindo às pessoas. Os médicos e enfermeiras têm seus pacientes, os profes­sores têm alunos, os advogados e assistentes sociais têm clientes, os parlamentares têm seus constituintes e os negociantes, os seus fregueses. A maneira como tratamos as pessoas em nosso trabalho depende quase inteiramente de como nós as vemos.

Politicamente, pode-se argumentar que a natureza dos seres humanos tem sido um dos principais pontos de dis­cussão entre as visões rivais de Jesus e Marx. Será que os seres humanos têm um valor absoluto, em virtude do qual devem ser respeitados, ou seu valor só tem relação com o Estado, por cuja causa eles devem ser explorados? Ou, mais simplesmente: as pessoas são servas da institui­ção, ou é a instituição que é serva das pessoas? Como escreveu John S. Whale, “as ideologias … são na verdade antropologias”; elas são diferentes doutrinas acerca do homem.

A crítica cristã às respostas contemporâneas para a questão “O que é o homem?” é que elas tendem a ser, ou ingênuas demais em seu otimismo, ou negativas demais em seu pessimismo acerca da condição humana. Os humanistas seculares são geralmente otimistas. Embora creiam que o homo sapiens nada mais é que o produto de um processo de evolução ocorrido ao acaso, eles no entanto acreditam que os seres humanos continuam a evoluir, têm potencial ilimitado e algum dia assumirão o controle total de seu próprio desenvolvimento. Mas esses otimistas não levam suficientemente a sério a queda do ser humano para a perversidade moral e o egocentrismo, o que constante­mente tem retardado o progresso, levando à desilusão os reformadores sociais.

Os existencialistas, por outro lado, tendem a ser extremamente pessimistas. Já que não há Deus, dizem eles, tam­bém não há mais valores, ideais ou padrões — o que, no mínimo, tem sua lógica. E embora nós precisemos encon­trar de alguma forma a coragem para ser, nossa existência não tem nem significado nem propósito. No final das contas, tudo é um absurdo. Mas tais pessimistas não

levam em consideração o amor, a alegria, a beleza, a verdade, a esperança, o heroísmo e o sacrifício próprio que têm en­riquecido a história humana.

O que necessitamos, pois, (citando novamente J. S. Whale), não é “nem o otimismo fácil dos humanistas, nem o obscuro pessimismo dos cínicos, mas o realismo radical da Bíblia”.

Nossa dignidade humana

O valor intrínseco dos seres humanos é afirmado desde o primeiro capítulo da Bíblia.

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que rasteja pela terra.

Há muito tempo persiste o debate acerca do que sig­nifica a “imagem” ou “semelhança” divina nos seres humanos, e onde jaz sua superioridade. Keith Thomas juntou uma porção de ideias exóticas em seu livro Man and the Natural World (O Homem e o Mundo Natural). Ele destaca, por exemplo, que o ser humano foi descrito por Aristóteles como um animal político, por Thomas Willis como um animal que ri, por Benjamin Franklin como um animal que faz ferramentas, por Edmund Burke como um animal religioso e pelo gourmet James Boswell como um animal que cozinha. Outros autores têm se concen­trado em alguma característica física do ser humano. Platão explorou muito a nossa postura ereta, concluindo que os animais olham para baixo, mas só os seres humanos olham para o céu, enquanto Aristóteles acrescentou a peculiari­dade de que só os seres humanos não conseguem agitar as orelhas. Um médico escocês mostrou-se profundamente impressionado com os nossos intestinos, ou seja, com suas “sinuosas circunvoluções, curvas e reviravoltas”, ao passo que em fins do século XVIII Uvedale Price chamou atenção para o nosso nariz: “Creio que o homem é o único animal que tem uma acentuada protuberância bem no meio da face.”

Os estudiosos que conhecem bem o antigo Egito e a Assíria antiga, no entanto, salientam que nessas culturas o rei ou imperador era tido como a “imagem” de Deus, a quem representava aqui na terra, e que os reis mandavam erigir imagens suas em suas províncias para simbolizar a extensão de sua autoridade. Foi dentro desse contexto que Deus, o Criador, confiou uma espécie de responsabi­lidade real (ou pelo menos vice-real) a todos os seres humanos, designando-os para “dominarem” sobre a terra e suas criaturas e “coroando-os”, para isso, de “glória e honra”.

No decorrer da narrativa de Gênesis 1 fica claro que é a imagem ou semelhança divina que distingue os humanos (o clímax da criação) dos animais (cuja criação é registrada antes). Implica-se uma continuidade entre humanos e ani­mais. Eles compartilham, por exemplo, “o fôlego da vida” e a responsabilidade de reproduzir-se. Mas havia também entre eles uma radical descontinuidade, ao se dizer que os seres humanos são “como Deus”. Essa ênfase na distinção singular entre humanos e animais repete-se constantemen­te por toda a Escritura, sob dois diferentes tipos de argu­mento. Deveríamos nos envergonhar, tanto quando os seres humanos comportam-se como animais, baixando ao nível destes, como quando os animais se comportam como seres humanos, agindo muito melhor pelo instinto do que nós pela capacidade de escolher. Um exemplo do primeiro caso é que homens e mulheres não devem ser “embrutecidos e ignorantes”, comportando-se “como um irracional”, ou então “como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos

são dominados”. Como exem­plo do segundo caso, nós somos repreendidos pelo fato de bois e jumentos reconhecerem os seus donos muito melhor do que nós, e porque as aves de migração, ao deixarem suas casas, retornam muito mais facilmente do que nós, e as formigas são muito mais trabalhadoras e previdentes do que nós.

Voltando aos primeiros capítulos de Génesis, todas as maneiras de Deus lidar com Adão e Eva pressupõem a unicidade destes entre as criaturas de Deus. A forma como Deus se dirige a eles pressupõe que eles o compreendem. Ele lhes diz que frutos podem comer e quais não podem comer, certo de que eles são capazes de discernir entre uma permissão e uma proibição e escolher entre as duas. Ele plantou o jardim e depois colocou Adão ali “para o cultivar e guardar”, iniciando assim entre eles uma parceria cons­ciente e responsável no cultivo do solo. Criou-os macho e fêmea, declarou que a solidão não era uma coisa boa, instituiu o matrimônio para a realização do amor dos dois e abençoou sua união. Além disso, ele “passeava no jardim pela viração do dia”, deliciando-se com a sua companhia, e sentiu falta dos dois quando se esconderam dele. Portanto, não é de admirar que estes cinco privilégios (compreensão, escolha moral, criatividade, amor e comunhão com Deus) sejam todos regularmente mencionados nas Escrituras e continuem a ser reconhecidos no mundo contemporâneo como constitutivos da distinção singular da nossa “huma­nidade”.

Para começar, existe a nossa racionalidade autoconsciente. Não se trata apenas de sermos capazes de pensar e raciocinar — afinal de contas, poderíamos dizer, os computadores também fazem isso. Eles são capazes de realizar os cálculos mais fantásticos, e muito mais rápido do que nós. Além disso, têm um tipo de memória (podem arquivar informações) e um tipo de linguagem (podem comunicar seus achados). Mas ainda existe (graças a Deus!) uma coisa que eles não podem fazer: eles não podem gerar pensamentos novos; só podem “pensar” aquilo para o qual foram programados. Os seres humanos, contudo, são pensadores originais. E mais do que isso. Nós podemos fazer aquilo que nós (autor e leitor) estamos fazendo neste exato momento: podemos nos colocar fora de nós mesmos e olhar para o nosso interior, avaliar-nos, indagar-nos quem e o que somos. Somos autoconscientes e temos autocrítica. Além disso, vivemos inquirindo, incansavel­mente, acerca do universo. Está certo que, como disse a outro um certo cientista, “astronomicamente falando, o homem é infinitamente pequeno”. “É verdade”, respondeu seu colega; “só que, astronomicamente falando, o homem é que é o astrônomo.”

A seguir vem a nossa capacidade de fazer opções morais. O ser humano é um ser moral. Embora nossa consciência reflita nossa formação e cultura (sendo, portanto, falível), ela no entanto permanece alerta dentro de nós, como uma sentinela, advertindo-nos de que há uma diferença entre o certo e o errado. Ela é mais do que uma voz interior. Representa uma ordem moral fora e acima de nós, diante da qual nós sentimos uma obrigação, de tal forma que temos um estranho impulso para fazer o que percebemos ser direito, bem como sentimentos de culpa quando fazemos o que é errado. Todo o nosso vocabulário moral (ordens e proibições, valores e opções, obrigação, consciência, li­berdade e vontade, certo e errado, culpa e vergonha) não tem o menor sentido para os animais. É verdade que podemos treinar um cachorro para que ele saiba o que pode fazer e o que é proibido. E aí, quando ele desobedece e, instin­tivamente, se afasta de nós, todo encolhidinho, pode-se até dizer que ele parece “sentir-se culpado”. Mas ele não tem a mínima noção de culpa — a única coisa que sabe é que vai apanhar.

Em terceiro lugar, vem o nosso poder de criatividade artística. Deus não só nos chama para uma mordomia res­ponsável em relação ao meio ambiente, e a uma parceria com ele mesmo no que tange ao domínio e exploração da natureza para o bem comum; ele nos deu também, através da ciência e da arte, habilidades inovadoras para fazê-lo. Somos “criaturas criativas”. Isto é, como criaturas, nós dependemos do nosso Criador. Porém, tendo sido criados à semelhança do nosso Criador, ele nos deu o desejo e a capacidade de sermos também criadores. Portanto, nós dançamos, escrevemos poemas e fazemos música. Podemos apreciar o que agrada aos olhos, ao ouvido e ao nosso toque.

Depois vem a nossa capacidade para relacionamentos de amor. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem … Criou Deus, pois, o homem à sua imagem … macho e fêmea os criou.”

Embora devamos cuidar para não deduzir deste texto mais do que realmente ele diz, certamente é legítimo dizer que a pluralidade intrínseca do Criador (“Façamos o ho­mem”) foi expressa na pluralidade das suas criaturas (“ma­cho e fêmea os criou”). Ela tornou-se ainda mais clara quando Jesus orou por seu próprio povo, “a fim de que todos sejam um, como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti”. E esta unidade de amor é uma peculiaridade do ser humano. E claro que todos os animais se acasalam, muitos deles estabelecem fortes laços entre o casal, a maioria cuida dos seus filhotes e alguns deles são gregários. Mas o amor que une entre si os seres humanos é mais do que um instinto, mais do que um distúrbio das glândulas endócrinas. Ele tem inspirado a maior das artes, o maior dos heroísmos, a mais profunda das devoções. O próprio Deus é amor, e nossas experiências de amor são um reflexo essencial da nossa semelhança com ele.

Em quinto lugar, temos a nossa insaciável sede de Deus. Todo ser humano tem consciência de uma realidade pessoal suprema, a quem nós procuramos, e que sabemos que somente na relação com ele é que podemos nos realizar como seres humanos. Mesmo quando estamos fugindo de Deus, sabemos instintivamente que não existe para nós outro lugar de repouso, nem outro lar. Sem ele nós estamos perdidos, a vida não passa de refugo. Nossa maior nobreza reside na nossa capacidade criada de conhecer a Deus, de nos relacionarmos pessoalmente com ele, amá-lo e adorá-lo. Na verdade, nós só somos plena e verdadeiramente humanos quando dobramos os nossos joelhos diante do nosso Criador.

E nestas coisas, pois, que jaz a nossa humanidade distintiva: em nossas capacidades dadas por Deus para pensar, escolher, criar, amar e adorar. “No animal”, pelo contrário, escreveu Emil Brunner, “não vemos o menor indício de tendência de buscar a verdade por amor à verdade, de moldar a beleza por amor à beleza, de pro­mover a justiça por amor à justiça, de reverenciar o Santo por amor da sua santidade… O animal nada co­nhece ‘acima’ de sua esfera imediata de existência, nada pelo qual medir ou testar sua existência… A diferença entre animais e seres humanos abrange toda uma di­mensão de existência.”

Não é de admirar que Shakespeare tenha feito Hamlet irromper em seu elogio: “Que obra de arte é o homem! Quão nobre em raciocínio! Quão infinito em suas faculdades! Quão semelhante aos anjos na ação! No entendimento, quão semelhante a Deus! Oh, a beleza do mundo! O protótipo dos animais!”

Como eu gostaria de poder parar aqui e que pudéssemos passar o resto de nossas vidas resplandescendo na mais pura auto-estima! Mas eis que existe um outro lado, mais escuro, do nosso ser, do qual mal temos consciência e para o qual o próprio Jesus chamou atenção.

Nossa depravação humana

Eis aqui algumas palavras de Jesus:

Convocando ele de novo a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina… Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostitui­ção, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem. Jesus não pregou a bondade fundamental da natureza humana. Ele certamente acreditava na verdade veterotes­tamentária,  de que o ser humano,  tanto homem como mulher, foi criado à imagem de Deus; mas também acre­ditava que essa imagem havia sido maculada. Ele pregou o valor dos seres humanos, inclusive dedicando-se a servir a eles. Mas também ensinou que não valemos nada. Ele não negou que somos capazes de dar “coisas boas” aos outros, mas também acrescentou que, mesmo que façamos o bem, nem por isso deixamos de ser “maus”. E nos versículos citados acima ele fez importantes declarações sobre a extensão, a natureza, a origem e o efeito do mal nos seres humanos.

Primeiro, ele ensinou sobre o alcance universal da maldade humana. Ele não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, nem algum indivíduo ou grupo particularmente corrupto. Pelo contrário, ele estava con­versando com refinados, “justos” e religiosos fariseus, e então generalizou, falando sobre “um homem” e “homens”. De fato, geralmente são as pessoas mais honestas que têm a mais profunda consciência de sua própria degradação. Tomemos como exemplo Dag Hammarskjöld, Secretário Geral das Nações Unidas de 1953 a 1961. Ele foi um servidor público profundamente comprometido, a quem W. H. Auden descreveu como sendo “um homem bom, grande e louvá­vel”. Mesmo assim, a visão que ele tinha quanto a si mesmo era muito diferente. Em sua coleção de obras autobiográ­ficas, intitulada Markings, ele escreveu sobre “essa per­versa contraposição do mal em nossa natureza”, que nos leva a fazer até do nosso serviço aos outros “o fundamento para a nossa própria auto-estima e preservação da nossa vida”,

Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre a natureza ego­cêntrica da maldade humana. Em Marcos 7 ele enumerou treze exemplos. O que há de comum entre todos eles é que cada um é uma afirmação do ego, seja contra o nosso próximo (inclusive homicídio, adultério, furto, falso tes­temunho e cobiça – violações da segunda metade dos Dez Mandamentos), seja contra Deus (sendo que “orgulho e insensatez” são claramente definidos no Antigo Testamen­to como negação da soberania de Deus e até da sua própria existência). Jesus resumiu os Dez Mandamentos em termos de amor a Deus e amor ao próximo, e todo pecado é uma forma de revolta egoísta contra a autoridade de Deus ou contra o bem-estar do nosso próximo.

Terceiro, Jesus ensinou que a maldade do homem é de origem interna. Sua fonte se encontra, não em um ambiente ruim, nem em uma educação falha (se bem que ambos possam exercer uma forte influência sobre jovens impres­sionáveis), mas, sim, em nosso “coração”, nossa natureza herdada e pervertida. Quase se poderia dizer que Jesus nos introduziu ao freudianismo antes mesmo de Freud. Pelo menos aquilo que ele chama de “coração” é, em termos aproximados, equivalente ao que Freud chama de “incons­ciente”. Isso nos faz lembrar um poço bem profundo. A espessa camada de lama que jaz no fundo geralmente não se vê, e muito menos se suspeita. Mas quando as águas do poço são agitadas pelos ventos da emoção violenta, a imundície mais fétida e nojenta sai borbulhando das pro­fundezas e irrompe na superfície: ódio, raiva, lascívia, crueldade, ciúmes e revolta. Em nossos momentos mais sensíveis nós somos atormentados pela nossa potencialidade para o mal. E de nada adiantam tratamentos superficiais.

Em quarto lugar, Jesus falou do efeito contaminador da maldade humana. “Todos estes males vêm de dentro”, disse ele, “e contaminam o homem”. Para os fariseus, a con­taminação era algo muito mais exterior e cerimonial; eles se preocupavam com alimentos limpos, mãos limpas e vasilhas limpas. Mas Jesus insistiu em dizer que a con­taminação é algo moral, que vem de dentro. O que nos torna impuros aos olhos de Deus não é o alimento que entra em nós (que vai para o nosso estômago), mas o mal que sai de nós (que sai do nosso coração).

Todas as pessoas que já conseguiram ver, ao menos de relance, a santidade de Deus, foram incapazes de suportar essa visão, de tão chocadas que ficaram diante da sua própria e contrastante impureza. Moisés escondeu o rosto, com medo de olhar para Deus. Isaías gritou, horrorizado, chorando sua própria impureza e perdição.

Ezequiel ficou ofuscado, quase cego, ao ver a glória de Deus, e caiu de rosto em terra. Quanto a nós, mesmo que nunca tenhamos tido, como esses homens, sequer uma visão momentânea do esplendor do Deus Todo-poderoso, sabemos muito bem que não temos condições de entrar em sua presença, seja agora ou na eternidade.

Ao dizermos isso, nós não estamos esquecendo a nossa dignidade humana, com a qual se começou este capítulo. Devemos, no entanto, fazer jus à avaliação do próprio Jesus sobre a maldade da nossa condição como seres humanos. Ela é universal (em todo ser humano, sem exceção), egocêntrica (uma revolta contra Deus e contra o próximo), íntima (brota do nosso coração, de nossa natureza caída) e aviltante (torna-nos impuros e, portanto, indignos diante de Deus). Nós, que fomos criados por Deus e como Deus, somos desqualificados a viver com Deus.

O paradoxo da condição humana

Eis aqui, pois, o paradoxo da nossa condição humana: nossa dignidade e nossa depravação. Nós somos igualmente ca­pazes do mais sublime gesto de nobreza e da mais vil cruel­dade. Num momento podemos comportar-nos como Deus, a cuja imagem fomos criados, para logo depois agirmos como animais, dos quais deveríamos diferir completamen­te. Foram os seres humanos que inventaram os hospitais para cuidar dos doentes, universidades onde se cultiva a sabedoria, assembleias e congressos para o governo justo dos povos, e igrejas onde adorar a Deus. Mas foram eles também que inventaram as câmaras de tortura, os campos de concentração e os arsenais nucleares. Estranho e in­crível paradoxo! Nobre e ignóbil, racional e irracional, moral e imoral, divino e animal! Como diz C. S. Lewis através de Aslam, o homem “descende de Adão e Eva. É honra suficientemente grande para que o mendigo mais miserável possa andar de cabeça erguida, e também ver­gonha suficientemente grande para fazer vergar os ombros do maior imperador da Terra”. No que se refere ao paradoxo humano, não conheço descrição mais eloquente do que a feita por Richard Holloway na Conferência de Re­novação Católica em Loughborough, em abril de 1978:

Este é o meu conflito… Sou cinza e pó, frágil e incons­tante, um conjunto de reações comportamentais prede­terminadas… crivado de temores, acossado de necessi­dades… o requinte do pó e ao pó retornarei… Todavia, existe em mim algo mais… Posso ser pó, mas sou pó que se inquieta, pó que sonha, pó que tem estranhas premonições de transfiguração, de uma glória por vir, de um destino preparado, de uma herança que um dia há de ser minha… Assim, minha vida se estende numa penosa dialética entre cinzas e glória, entre fraqueza e transfiguração. Eu sou um mistério para mim mesmo, um incômodo enigma… Sou essa estranha dualidade de pó e glória.

Diante do horror de sua própria dicotomia, certas pes­soas são suficientemente tolas para imaginar que são capazes de depurar a si mesmas, banindo o mal e liberando o bem que há nelas. A clássica expressão, tanto da nossa ambivalência humana como das nossas esperanças de salvar a nós mesmos, foi expressa por Robert Louis Stevenson em seu famoso conto O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde (1886). Henry Jekyll era um rico e respeitável médico, dado à religião e à filantropia. Mas ele tinha consciência de que sua personalidade tinha um outro lado, mais obscuro, de forma que ele estava “comprometido com uma profunda duplicidade de vida”. Ele descobriu que “o homem não é verdadeiramente um, mas verdadeiramente dois”. Então começou a sonhar que poderia resolver o problema da sua dualidade se conseguisse “isolar em iden­tidades diferentes” cada um de seus “lados”, de maneira que o justo fosse para um lado e o injusto para o outro. Assim, ele inventou uma droga que lhe possibilitava as­sumir o corpo deformado e a personalidade malvada de Mr. Hyde, seu alter ego, através do qual ele dava vasão a suas paixões — ódio, violência, blasfêmia e até homicídio.

No começo Jekyll tinha pleno controle de suas trans­formações, e se vangloriava de que poderia livrar-se de­finitivamente de Hyde quando bem entendesse. Pouco a pouco, porém, Hyde foi superando Jekyll, até que este começou a transformar-se involuntariamente em Hyde, e só com muito esforço conseguia voltar a viver como Jekyll. “Aos poucos fui perdendo o controle do meu ego original e melhor, e lentamente fui me incorporando ao meu segun­do e pior.” Finalmente, um pouco antes de sua revelação e prisão, ele se suicidou.

A verdade é que todo Jekyll tem um Hyde, que ele é incapaz de controlar e que ameaça subjugá-lo. De fato, o constante paradoxo da nossa condição humana derrama muita luz sobre a nossa vida privada, como também sobre a nossa vida pública. Vejamos um exemplo de cada um dos casos.

Comecemos com redenção pessoal. Já que o mal está tão profundamente enraizado dentro de nós, é impossível salvar-nos a nós mesmos. Assim, nossa necessidade mais urgente é a redenção, ou, digamos assim, um novo começo na vida que nos ofereça uma purificação da poluição do pecado e também um novo coração, e mesmo uma nova criatura, com novas perspectivas, novas ambições e novas forças. E, já que fomos criados à imagem de Deus, tal redenção é possível. Nenhum ser humano é írredimível. Afinal de contas, Deus, através de Jesus Cristo, veio em busca de nós, e nos procurou diligentemente a ponto de sofrer a agonia da cruz, onde tomou o nosso lugar, carregou o nosso pecado e morreu a nossa morte, a fim de que fôssemos perdoados. Depois ele ressuscitou, subiu aos céus e enviou o Espírito Santo, que é capaz de penetrar em nossa per­sonalidade e transformar-nos a partir do nosso interior. Se existe para a raça humana notícia melhor do que esta, eu pelo menos nunca ouvi.

O segundo exemplo que eu quero dar quanto ao paradoxo da nossa situação humana tem a ver com o progresso social.

O fato de homens e mulheres (até mesmo as pessoas mais corruptas) conservarem vestígios da imagem divina em que foram criados é evidente. Por isso é que, de uma maneira geral, todos os seres humanos preferem a justiça à injus­tiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio e a paz à violência. Este fato de observação cotidiana gera em nós esperanças de mudança social. A maioria das pessoas alimenta visões de um mundo melhor. O fato complemen­tar, no entanto, é que os seres humanos são “retorcidos de egocentrismo” (como Michael Ramsey costumava de­finir o pecado original), e isto impõe limites às nossas expectativas. Os seguidores de Jesus são realistas, não utópicos. É possível melhorar a sociedade — e o registro histórico da influência do cristianismo na sociedade tem sido impressionante. Mas a sociedade perfeita, na qual só “habitará a justiça”, ainda aguarda a volta de Jesus Cristo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

Somos o que pensamos

SOMOS O QUE SENTIMOS OU SENTIMOS O QUE SOMOS?

 Talvez um pouco dos dois… Podemos pensar em emoções como “estados internos” que resultam da maneira como percebemos nós mesmos e o mundo -, mas nem sempre é possível observá-los e medi-los. O curioso é que emergem o tempo todo, desde a mais tenra idade, de forma mais ou menos intensa.  Às vezes nos invadem como uma torrente; em outras ocasiões se instalam de forma lenta, quase sub-reptícia, tomando conta de nossos gestos, expressões, palavras e pensamentos, desencadeando círculos viciosos que costumam trazer problemas quando não são interrompidos. Deflagrada a primeira emoção, em algumas situações é preciso certa dose de empenho para não deixarmos que se alastre de maneira desmedida como se peças enfileiradas de um jogo de dominó empurrassem umas às outras, até que todas estivessem caídas…

E se, por um lado, a ausência de sentimentos remete à ideia de transtornos mentais graves – como a esquizofrenia ou a alexitimia, caracterizadas, cada uma a seu modo, pela impossibilidade de o paciente expressar afeto, pelo menos convencionalmente -, por outro, o turbilhão emotivo provoca intenso desconforto psíquico e, não raro, problemas práticos. Não por acaso, com frequência as pessoas que procuram ajuda de analistas ou psicoterapeutas se queixam da dificuldade de equilibrar emoções e buscam maneiras mais saudáveis de lidar com o que sentem.

Alguns pesquisadores faze m distinção entre as palavras sentimentos e emoções, mas nos textos do especial, nas páginas a seguir, os autores optam por recorrer aos termos como sinônimos e, em respeito a eles, mantemos a terminologia.

 O JOGO DAS EMOÇÕES

Alegria, tristeza, indignação, raiva, medo… O que sentimos influi em nossos pensamentos e ações. Ou seriam resultado do que vivemos e pensamos? A forma como os afetos surgem, suas funções e influências sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores.

Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois, irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu lado ou sente medo do pitbull que um homem leva preso à coleira. No momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional para ajudá-lo; ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem esqueceu o aniversário de um grande amigo.

Algumas emoções nos absorvem completamente, outras ressoam discretamente; algumas são terríveis, outras muito boas – mas todas vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo me­ os é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem em mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, uns têm dificuldade em perceber que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos, quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?

As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, “animalescos ” e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do século XIX – com o surgimento da primeira teoria das emoções, desenvolvida pelo psicólogo americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange (1834-1900). Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos.

Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que experimentamos quando esse estado se altera de vido a acontecimentos do meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que não choramos porque estamos tristes, mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações físicas, como a dilatação dos vasos sanguíneos, fossem emoções. No entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações corporais permaneciam frias e insípidas.

SENTIR PARA PENSAR

A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso estado físico não se altera, mas experimentamos, mesmo assim, diversos sentimentos – e isso frequentemente depende apenas do que pensamos, seja na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.

Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher lança lhe um olhar indignado – o que inevitavelmente lhe desperta sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia ter evitado a situação s tivesse prestado mais atenção, então provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.

ESPIÃO E ADRENALINA

Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer compro­ varam por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem – os voluntários foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados, um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um “cúmplice” dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação – sempre de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.

Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções representadas pelo “espião”. Ao que tudo indica, portanto, estímulos internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos experiências emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.

As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho cerebral percorrido pelo sinal que passa ao largo do córtex cerebral – a sede da consciência. Esse atalho possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de queimado ou visão de algo perigoso.

As duas clássicas teorias das emoções – a “centrada no físico”, de James e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer – são parciais e não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes características:

  1. típicas alterações fisiológicas, como coração acelerado, suor ou inquietação motora;
  2. comportamentos específicos, como a mímica corporal;
  3. a vivência subjetiva de perceber como é estar em um determinado estado emocional;
  4. pensa­ mentos associados a essa experiência;
  5. existência de “objeto intencional”, ao qual se refere a emoção. É comum que se recorra também a “checagens avaliadoras”: entre outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento, pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente perigos o. Em seguida, coloca -se a questão: se esse acontecimento deve ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo (temerário, doloroso, desagradável). A isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e se ela “se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.

Inúmeras combinações dessas características determinam a enorme extensão de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer, que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o que ele chama de “um complexo modelo processual das emoções ” que, resumido em linha s gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento –  digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida –  inicialmente apenas a sua excitação interna cresce.  Se o julgamento a seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente surpreso; se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus objetivos e contribui para melhorar sua autoimagem, esse sentimento acaba se transformando em orgulho.

Do ponto de vista da psicologia evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis: pré-emoções, emoções básicas, emoções cognitivas primárias e secundárias. As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas.

ORGULHO OU VERGONHA?

Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, auto eficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral – e sentimos medo. Ao lado desse processamento rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma representação mais exata do objeto – o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim com o reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maior ia de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.

Nos níveis seguintes, os pensamentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação – como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua­ se uma “mini teoria” sobre expectativas e normas sociais – por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso de pende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.

Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal; já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas qualidades nobres.

Imagine que um menino de 1O anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogia-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente -e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amae dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.

 MARCADORES SOMÁTICOS

O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas:

  1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida;
  2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir);
  3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias intenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável);
  4. ajuda no controle das relações sociais. O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de “filtro” para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto externos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos – e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros – mais fácil fica manter o equilíbrio e nos cuidar.

Os neurobiólogos Hanna e Antônio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos da Universidade de Iowa, demonstraram na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo e a consequente concretização de planos estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível de inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas e não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais. Nesse caso fica claro que a avaliação emocional no córtex pré-frontal do lobo frontal é crucial: se ela falha devido a algum distúrbio, as pessoas afetadas tomam decisões insensatas. Falta-lhes a memória emocional necessária de situações anteriores semelhantes, o que constitui nosso patrimônio emocional.

Damásio havia tornado esse conceito popular há alguns anos como “teoria dos marcadores somáticos”, segundo a qual todas as experiências de um indivíduo são assinaladas afetivamente. Assim, quando uma pessoa precisa decidir, faz uma rápida avaliação inconsciente da situação. Pessoas com um córtex pré-frontal lesionado, no entanto, não conseguem resgatar as marcas anteriores, sendo consequentemente obrigadas a reavaliar toda situação desde o início. É como se nunca aprendessem com suas escolhas, como se cada vez fosse a primeira.

Outros processos cognitivos são também fortemente dependentes de processos emocionais. Podemos, por exemplo, lembrar melhor de eventos associados a alguma emoção que de conteúdos matemáticos abstratos (a não ser que eles nos provoquem grande alegria ou irritação). O aprendizado é quase sempre mais fácil quando nos encontramos bem emocionalmente ou estamos afetivamente ligados àquele que nos ensina. Por outro lado, sentimentos negativos duradouros decorrentes de distúrbios afetivos como a depressão ou o estado de excitação exagerada (mania), assim como suas fases intermediárias alternantes, afetam a sensibilidade geral – e a capacidade cognitiva, que também se apresenta de maneira deprimida ou excitada.

O fato é que as emoções são indispensáveis para a interação e ação interpessoal: sem elas, os fundamentos para uma rotina bem-sucedida deixariam de existir. Além disso, as emoções estão intimamente ligadas aos processos cognitivos – elas são essenciais para a capacidade de aprendizagem implícita e inconsciente, assim como para as decisões sensatas. Em outras palavras: nossos sentimentos definem essencialmente quem somos e o que fazemos.

INFLUÊNCIAS SOBRE O CORPO

Emoções e sistema imunológico são bastante ligados. Quando se puxa um dos fios, todo conjunto se movimenta. Todavia, nem sempre está claro o que é causa e o que é efeito. Sabe-se que infecções causadas por vírus e bactérias influenciam a atividade cerebral, de maneira direta ou por meio de resposta imunológica, e podem desencadear distúrbios psíquicos. Isso ocorre porque o sistema imunológico opera como uma rede descentralizada, respondendo automaticamente a qualquer agente que invada ou perturbe o funcionamento do organismo. As células imunológicas reproduzidas na medula óssea, linfonodos, baço e timo se comunicam entre si por meio de pequenas proteínas chamadas citocinas.

Esses mensageiros químicos também podem mandar sinais ao cérebro, pela corrente sanguínea ou por via nervosa, como nervo vago, que os envia ao núcleo solitário.

e possível ignorar

É POSSÍVEL IGNORAR

Os sentimentos podem ser inconscientes? Certamente! O fenômeno das emoções latentes foi descrito pela primeira vez por Sigmund Freud (1856-1939). Em estudos dos anos 90, o psiquiatra Daniel Weinberger, na época na Universidade Stanford, observou que certas pessoas, que ele designou como repressers (repressoras), apesar de apresentarem todos os sinais físicos do medo, diziam, no mesmo instante em que se encontravam nesse estado, estar completamente calmas. Aparentemente, reconhecer e experienciar o sentimento não “combinava” com a imagem que tinham de si. Se a repressão é suficientemente forte, as pessoas não desenvolvem a consciência de determinada emoção, a ponto de desconhecerem, por exemplo, que estão com medo, mesmo estando trêmulas e suando frio.

FUNCIONAMENTO DOS CIRCUÍTOS AFETIVOS

O sistema nervoso central desperta, regula e integra respostas emocionais. O córtex cerebral está envolvido na identificação, avaliação e tomada de decisões com base em dados sensoriais. Os pensamentos, expectativas e percepções desempenham papéis importantes para manter e dissolver afetos. A formação reticular, uma rede de células neurais alerta o córtex para informações sensoriais. Os dados a respeito de eventos despertadores de emoção são filtrados por esse sistema. A formação reticular desperta a tenção do córtex.

O sistema límbico, um grupo de circuitos inter-relacionados desempenha papel regulatório nas emoções e motivações. Embora as funções precisas de cada estrutura ainda não sejam claras, é certo que a informação sensorial passa pelo sistema límbico em sua trajetória para o córtex. Esse emite mensagens para outras áreas cerebrais. O hipotálamo, uma estrutura límbica responsável pela ativação do sistema nervoso simpático durante emergências está envolvido em situações de medo, raiva, fome, sede e atração sexual.

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CONCEITOS-CHAVE

  • O que sentimos combina vários aspectos: excitação física, avaliação mental, expressão e vivência subjetiva. As emoções não se contrapõem ao processamento mental de estímulos do ambiente, mas o complementam no dia-a-dia.
  • A primeira teoria das emoções, desenvolvida independentemente, pelos psicólogos William James (1842- 1910), nos Estados Unidos, e Carl Lange (1834-1900), na Dinamarca, sustenta que a característica central da experiência subjetiva particular é ligada aos processos fisiológicos.
  • Pesquisas realizadas há mais de 40 anos mostraram, porém, que os

pensamentos também desempenham um importante papel no surgimento de emoções. As pré-emoções e emoções básicas, assim como as cognitivas primárias e secundárias podem ser diferenciadas de acordo com o seu grau de complexidade.

FONTE: Albert Newen & Alexandra Zinck – Revista Mente e Cérebro

GESTÃO E CARREIRA

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PROFISSAO: CAÇA-TALENTOS

Não, não se trata de Headhunters, mas de uma nova função que vem surgindo dentro da área de Recursos Humanos – a Gerência de Captação ou Aquisição de Talentos.

Em uma época de disputa acirrada por gente, as empresas estão cada vez mais preocupadas em estabelecer processos eficientes de identificação de profissionais com perfis adequados aos seus negócios. Algumas já criaram um cargo ou até uma área específica para cuidar do assunto, o chamado setor de talent acquisition – de nominação que no Brasil vem sendo traduzida como “aquisição de talentos” ou “captação de talentos”. “Parte do antigo RH está ganhando vida própria como uma espécie de consultoria interna que cuida das contratações”, explica Juliana Nunes, diretora da consultoria Asap. A gerente de captação de talentos da Monsanto, Patrícia Prieto, que ocupou o mesmo cargo no Google, considera que o grande atrativo da função é a possibilidade de estar focada na missão de trazer profissionais diferenciados. Psicóloga com carreira desenvolvida sempre em R H, ela diz que a mais relevante das diversas estratégias que utiliza no cotidiano é sua rede de contatos. “Conhecer pessoas bem situadas em diferentes setores facilita muito o trânsito quando se está. à procura de perfis profissionais interessantes”, diz. A função de gerente de captação de talentos é nova na Monsanto e nasceu por necessidades diversas. Numa empresa de biotecnologia, o número de cargos técnicos que exigem conhecimentos específicos é grande, o que obriga uma seleção cheia de critérios objetivos. Os cargos gerenciais, por sua vez, podem ser ocupados por profissionais de diferentes áreas e formações, o que dificulta o encontro da pessoa certa. A nova função também precisa buscar perfis que contribuam para promover a diversidade de formações e experiências. “Queremos pessoas capazes de trazer diferentes visões para o negócio. Temos muitas possibilidades de carreira aqui entro também para quem vem de outra indústria”, afirma Patrícia, há quase um ano no cargo. Com essa missão, ela liderou um projeto voltado a alunos do Instituto Tecnológico de Aero­ náutica (ITA) – público que, a princípio, parece não ter muitas afinidades com as áreas de atuação da Monsanto. Dos alunos que participaram do programa, quatro foram selecionados e permaneceram na empresa por dois meses. “Eram jovens curiosos e capaz es de fazer perguntas que nunca haviam nos ocorrido. A experiência foi rica para ambas as partes e acredito que trará bons frutos no futuro”, diz Patrícia, que faz frequentes visitas e mantém contato com universidades de ponta – aqui e lá fora – para se aproximar de novas fontes de informação.

No organograma da Monsanto, a gerência de captação de talentos e a gerência de desenvolvimento organizacional são dois cargos abaixo da diretoria de RH. Embora haja uma troca constante de informações entre as duas gerências, a primeira tem a atribuição de identificar e trazer profissionais e a segunda de cuidar deles a partir daí. Com essa divisão de tarefas, o trabalho de Patrícia tem como principal objetivo o preenchimento imediato e qualificado de cargos que se tornam vagos pelos mais diversos motivos, como a promoção de um executivo ou a perda de uma peça-chave da companhia para um concorrente.

O PERFIL DO CAÇADOR

Encontrados com mais frequência em multinacionais, a headhunter Laís Passarelli, diretora da Passarelli Consultores, conta que aumentou no último ano a demanda por profissionais para ocupar cargos de talent acquisition no Brasil. “Estamos em meio a dois processos do gênero”, afirma Laís. A ideia é que a estrutura funcione como um serviço compartilhado pelos diversos setores da empresa, para ser acionado sempre que surgir a necessidade de contratação. “Essa centralização faz a interface com o mercado e ocorre de forma mais padronizada e organizada”, acrescenta. Para isso, o perfil desse profissional exige uma boa mobilidade entre os colaboradores, trânsito livre entre os gestores e acesso às informações, como as avaliações de desempenho, além de saber antecipar movimentos. “Quem trabalha em captação de talentos tem que ser como um bom enxadrista, capaz de prever o que vai acontecer e de antecipar­ se aos lances dos adversários”, diz Juliana Nunes, da Asap. Dependendo do nível do cargo em aberto e da capacidade da estrutura, o processo de contratação pode ser integralmente conduzido na própria empresa ou repassado a uma consultoria. No momento em que uma posição se torna disponível, cabe ao profissional de aquisição de talentos apresentar o mais rápido possível opções externa s. Em decorrência disso, um dos procedimentos sistemáticos do profissional é estabelecer contato e acompanhar a trajetória dos funcionários que merecem permanecer ” no radar”, mesmo que não haja uma oportunidade imediata na empresa. O trabalho de aquisição de talentos tem também a função de demonstrar agilidade na reposição de cargos estratégicos, com impacto na reputação corporativa e no clima organizacional. “Como o mercado é muito dinâmico, estamos o tempo todo preocupados em identificar onde estão as lacunas de sucessão que podem surgir em decorrência das constantes movimentações. Esses pontos críticos se tornam a prioridade da estratégia de captação de talentos”, diz Elisa Furusho, diretora de RH da Microsoft do Brasil. Uma lacuna pode se referir, por exemplo, ao cargo ocupado hoje por um executivo cujo desenvolvimento da carreira indica uma promoção dentro de um ou dois anos. “Se não houver ninguém pronto para substituí-lo nesse momento, é preciso mapear alternativas internas e externas e acompanhá-las daí em diante”, afirma Elisa.

QUASE UM HEADHUNTER

Para ocupar o cargo de gerente de aquisição e desenvolvimento de talentos, a Microsoft contratou recentemente o executivo Alcino Therezo Jr., psicólogo com MBA em RH, área em que atua desde o início da carreira. “Meu trabalho tem muitas semelhanças com o de um headhunter, com a diferença essencial de que minhas prospecções são mais de longo prazo”, diz. Enquanto um headhunter só costuma entrar em contato com um profissional quando o está considerando para um cargo em aberto, o profissional de captação de talentos pode se aproximar apenas para mapear uma possibilidade para o futuro.

“O trabalho de captação de talentos precisa ser mais prospectivo e menos reativo”, diz Therezo Jr. O perfil da Microsoft no Brasil contribui para criar o ambiente perfeito para um trabalho mais personalizado de captação de talentos. Uma vez que a empresa atua no país apenas nas áreas de vendas e marketing, o volume de contratações é relativamente baixo –  no ano passado foram aproximadamente 60, incluindo reposições e novas vagas. Cada contratação tem grande importância estratégica e envolve profissionais em estágios avançados na carreira. “A seleção na Microsoft é muito rígida e inclui pelo menos cinco entrevistas com os principais executivos da empresa. Quanto mais alternativas próximas do ideal tivermos ao iniciar o processo, maior a possibilidade de encontrar a pessoa certa”, diz Therezo Jr.

Isso não acontece, por exemplo, no Santander.  Com cerca de 50.000 funcionários no país e um grande volume de contratações, o trabalho interno de captação de talentos tem a função de estabelecer os critérios que deverão ser seguidos pelas consultorias parceiras. “Houve um período em que o banco tentou internalizar o procedimento de contratação, mas isso causou um grande inchaço na estrutura”, descreve a gestora de RH, Paula Giannetti. “Hoje, contratamos os serviços de diversas consultorias que, ao receberem o perfil, apresentam os candidatos.” A área de recrutamento do banco soma 17 funcionários, ante 36 do período em que conduzia integralmente os processos.

A estrutura interna do departamento de RH do Santander reflete essa segmentação, com a divisão em três núcleos – o de cargos de entrada, o de cargos padrões e o de cargos específicos. Neste último, se concentram as contratações com maior valor estratégico, por envolver atividades com poucos profissionais disponíveis, como trader de mesa proprietária. O núcleo de cargos específicos lida com aproximadamente 300 contratações por ano, entre as cerca de 5.000 realizadas pelo banco como um todo.

GESTÃO E CARREIRA

Estress no trabalho 1

STRESS: GUERRA DE NERVOS NO TRABALHO

Frustração, irritação, uso de drogas e passividade durante o tempo livre podem ser sinal de stress ocupacional; as consequências para a saúde se tornam mais dramáticas com o envelhecimento

O stress no trabalho é uma das principais causas de absenteísmo e acidentes. Estudo feito pelo governo britânico em 2000 estimou em cerca de 40 milhões as faltas ao trabalho, em apenas um ano, devido a distúrbios relacionados ao stress. Nos Estados Unidos, esse número chega a 550 milhões de faltas por ano. O médico americano Martin Moore-Ede, um dos maiores especialistas do mundo em fadiga laboral, calculou, em 1993, o custo mundial dos acidentes − na indústria, no trânsito e no campo − em cerca de 60 milhões de dólares por ano. Mais do que um tema de segurança ocupacional, o stress é, portanto, uma fonte importante de prejuízos econômicos. A situação tem se agravado nas últimas décadas devido à crescente precarização das relações de trabalho, ao ritmo acelerado das grandes cidades, à pressão por eficiência, ao ambiente cada vez mais competitivo e ao medo do desemprego.
No entanto, alguns dados enganam. Embora diversos indicadores sugiram que a prevalência de doenças ocupacionais venha caindo nos últimos anos, isso não deve ser tomado como sinal de melhora da saúde da população economicamente ativa. O que as estatísticas não mostram é que o número de doenças crônicas e degenerativas nos idosos aumenta dramaticamente, até por causa do envelhecimento populacional. Ao que tudo indica, os jovens conseguem lidar razoavelmente bem com os fatores estressores no ambiente de trabalho. É mais tarde, porém, quando o indivíduo já está aposentado, que os prejuízos para a saúde se tornam perceptíveis.

LUGAR-COMUM
A frase “Estou estressado” já virou lugar-comum. Entretanto, não há consenso sobre a definição de stress ocupacional. Segundo o Instituto de Saúde e Segurança Ocupacional dos Estados Unidos, “o stress ocupacional é uma resposta física e emocional nociva que ocorre quando as exigências do trabalho superam as habilidades, os recursos e as necessidades do trabalhador”. Para o departamento de emprego e assistência social da União Européia trata-se “de uma reação cognitiva, comportamental e fisiológica a aspectos aversivos e perniciosos do ambiente e da organização do trabalho. É um estado caracterizado por altos níveis de alerta, angústia e frustração por não se conseguir lidar com o problema”.
De certa forma, todas as definições contemplam a variedade de aspectos dessa complexa questão. Para simplificar, porém, podemos entender o stress como um desgaste físico e principalmente psíquico. A pessoa estressada sente que algo de si está sendo consumido. As fontes desse desgaste, que alguns chamam de fatores estressores, são variadas e podem ser divididas em três domínios: o do conteúdo do trabalho, o da função que o indivíduo ocupa e o das condições ambientais e organizacionais do trabalho.

Assim como as fontes do stress no trabalho podem ser muitas, as respostas dos indivíduos também não são poucas e podem ser observadas em três níveis: fisiológico/somático, emocional e comportamental (ver tabela 2). No primeiro nível destacam-se as alterações mais óbvias, como problemas cardíacos, distúrbios do sono e facilidade de contrair infecções. No nível emocional são marcantes os sentimentos de decepção e frustração, que geralmente evoluem para uma condição de monotonia e saturação que pode se tornar intolerável. Do ponto de vista comportamental, o aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas, lícitas e ilícitas, pode ocorrer com certa frequência. Outro traço comum da pessoa estressada é o comportamento passivo durante o tempo livre.
Os primeiros estudos sobre stress no trabalho, realizados na década de 50, viam o indivíduo passivamente exposto aos desgastes. Novos modelos propostos na década de 80, no entanto, mudaram esse conceito, entendendo que o ser humano lida ativamente com as situações estressantes, o que implica uma avaliação do próprio indivíduo, que pode ser dividida em primária e secundária.

CHANCES DE SUPERAÇÃO
A avaliação primária tem como referência a percepção da situação como ameaçadora e prejudicial. Quando a realidade representa uma ameaça para alcançar objetivos pessoais (ter de abrir mão de um curso, por exemplo) ou uma perda (como a redução do tempo livre), a reação de stress é evocada sempre que as possibilidades de superação da situação forem críticas ou improváveis. Isso só é possível com base numa avaliação secundária, que leva em conta a experiência individual, o conhecimento e a capacidade disponíveis, assim como no apoio externo − e tem referência, portanto, nas chances percebidas pela própria pessoa de conseguir superar os desgastes em curto, médio ou longo prazo.

A forma como situações estressantes são superadas não depende apenas das possibilidades objetivas de ação, mas é influenciada também pelo estilo pessoal de reação ao stress e pelas experiências vividas por cada pessoa. A ação pode visar a modificação da situação desencadeadora (por exemplo, reduzir a pressão de prazos por meio de um planejamento realista do tempo), o aumento do próprio esforço, da intensidade ou da duração do trabalho (reduzir as pausas, fazer horas extras), repensar o fluxo de trabalho e organizá-lo de forma mais eficiente (manter todas as informações necessárias disponíveis e fáceis de encontrar) e corrigir metas e objetivos (fazer o melhor possível, sem ser perfeccionista). Além disso, a experiência do stress também pode ser amenizada por meio de uma reavaliação da situação desgastante que relativiza os parâmetros em questão (“Os outros também cometem erros”). Dentre todas essas possibilidades, sabemos que os indivíduos sob maior risco de viver experiências altamente estressantes são aqueles com ambição e engajamento excessivos, prontidão exagerada para trabalhar até o esgotamento, grande busca por perfeição, baixa capacidade de distanciamento dos problemas do trabalho, tendência marcante à resignação em caso