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Arquétipos Jungianos - A Sombra

SOMBRA: O INÍCIO DA TRANSFORMAÇÃO

Entre os arquétipos estudados pela psicologia, a “Sombra” se destaca como o que mais frequentemente influencia ou perturba o “eu”, porque aparece com o conteúdo de toda a parte inconsciente da história do indivíduo, constituindo, em si, um problema de ordem moral a desafiar a personalidade do “eu” como um todo.

Como seu conteúdo é constituído de traços obscuros do caráter, que são de natureza emocional, e das nossas próprias inferioridades, há uma grande resistência por aceita-la. Ela pode ser entendida como uma subpersonalidade, que quer fazer aquilo que a Persona não permite.

Tudo o que foi rejeitado, negado, reprimido constitui a “Sombra”. Ela forma, pois, o centro do inconsciente pessoal, incluindo aqueles desejos, tendências, memórias e experiências que são rejeitados pelo indivíduo como incompatíveis com a “Persona” e contrários aos padrões e ideais sociais. Seja um aspecto positivo ou negativo, se de algum modo deixou de ser vivido, passará a compor a “Sombra” e lá permanecerá como aquilo que não se gosta em si mesmo, que é feio, desagradável e que se procura esconder dos outros, porque é rejeitado pessoalmente. Ou seja, tanto o que foi censurado pela sociedade por ser imoral quanto quaisquer comportamentos e tendências que, em nossa história pessoal, não foram aprovados se refugiam na “Sombra”.

Desse modo, o inconsciente pessoal registra todos os fatos, emoções reprimidas e as percepções que não chegaram à consciência. Embora haja em seu conteúdo uma grande energia do inconsciente pessoal, a “Sombra” também se caracteriza como um arquétipo, pois sua essência é universal. Ninguém consegue ser totalmente consciente de todas as percepções, emoções e acontecimentos da própria história. A psique, de algum modo, nos alivia, selecionando entre os inúmeros acontecimentos e emoções de nossa vida o que pode se tornar consciente e o que ficará no inconsciente. Do contrário, provavelmente o ser humano não suportaria toda essa carga.

Assim, entende-se também que a “Sombra” não é algo que se pode escolher, dispensar, evitar ou ignorar. Ela simplesmente faz parte da vida, como faz parte do corpo cada um dos membros. Só que ela não pode ser amputada, porque não se pode amputar os sentimentos, os desejos, qualidades e comportamentos que não nos foram permitidos viver, pelo simples fato de serem inaceitáveis pelas pessoas importantes de nossa vida ou pela sociedade a que pertencemos. Entretanto, como tudo o que está no inconsciente se manifesta de algum modo, a “Sombra” costuma se expressar na projeção que fazemos sobre uma outra pessoa.

Assim, aquilo que irresistivelmente nos atrai no outro certamente é uma projeção de todo o nosso potencial positivo e, da mesma maneira, o que nos provoca repugnância no outro é a projeção daquilo que está em nosso inconsciente como conteúdo negativo. Como se pode concluir, trata-se de uma transferência inconsciente, imperceptível e involuntária de um conteúdo que é subjetivo para um objeto ou pessoa, no exterior.

Em geral, todas as vezes que reagimos emocional e exageradamente em relação a algum acontecimento ou pessoa, é sinal de que o inconsciente foi tocado, provocando uma manifestação da “Sombra”. Igualmente, quando acentuadamente desprezamos alguém e nos revoltamos acidamente em relação a algum comportamento, decerto é a expressão inconsciente do nosso próprio desprezo e revolta com aquilo que está reprimido dentro de nós. Vemos no outro tudo o que desprezamos em nós mesmos, e isso impede que nos aproximemos desse outro, impede que estabeleçamos um relacionamento amigável e justo com ele. Em geral a “Sombra” pode se projetar de duas maneiras: uma, quando direcionamos para alguém o que inconscientemente não admitimos estar em nós; e outra, quando projetamos o mal coletivo em uma personificação, como em um “bode expiatório”.

Vivendo de maneira inconsciente, não percebemos que aquilo que não conhecemos a nosso respeito acaba por nos dominar e definir nossas atitudes. Nessa situação, acabamos por julgar ser o destino que nos causa tais acontecimentos, quando, na verdade, foram as nossas escolhas inconscientes. E, quanto menos consciente for a “Sombra”, mais ela dominará; do mesmo modo, quanto mais o indivíduo dela tomar consciência, maior será a possibilidade de corrigi-la.

É essa a razão pela qual o confronto com a “Sombra” é crucial quando se pretende, conscientemente, ingressar num caminho de auto realização. Para tomar consciência de si mesmo é preciso penetrar na própria escuridão e identificar os conteúdos que lá ficaram, e que atuam sobre o nosso destino, sem que deles tenhamos consciência. Ela é o portal pelo qual todos que quiserem trilhar o caminho da individuação devem passar. Porque, nesse caminhar, todos nós precisamos nos ver como realmente somos e não como pretendemos ou presumimos ser, o que implica reconhecer aquela parte que nos recusamos a enxergar em nós mesmos.

Então, não há outro caminho senão enfrentar e aceitar a própria “Sombra”. Torná-la consciente significa libertar-se do seu domínio e assumi-la como parte da nossa natureza, não somente como uma força negativa da psique, mas também como força criativa, energia instintiva e vital.

A “Sombra” é o portal estreito pelo qual temos que passar se quisermos encontrar-nos com nós mesmos, ou seja, alcançar a auto realização.  Trata-se, no entanto, de um caminho doloroso, porque significa visitar aquelas experiências que um dia nos machucaram e que, por isso, foram lançadas no inconsciente. E isso gera resistências. Mas, se quisermos saber quem somos, temos que enveredar por esse caminho.

A experiência mostra que é muito difícil reconhecer nossa hostilidade, nosso desprezo e outros sentimentos destrutivos em relação aos outros. Mas esse deve ser o primeiro grande passo a ser dado por cada um de nós, se quisermos cooperar com o processo de individuação. Todos nós carregamos internamente nosso passado mais primitivo, do qual só é possível nos libertar com um imenso esforço, pelo qual a personalidade consciente e a “Sombra” encontrem um espaço de convivência.

 

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